Leitura e interpretação do texto bíblico



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Leitura e interpretação do texto bíblico


Os três pilares da doutrina protestante são: “Sola fide, sola gratia et sola scriptura”, que traduzidos significam: “Somente a fé, somente a graça e somente as escrituras”. Somente pela fé podemos ter comunhão com Deus e recebermos a salvação, que é dada a nós unicamente pela graça divina, e somente pelo exame e leitura das escrituras é que podemos ter acesso às verdades divinas reveladas por Deus Pai, e por meio delas é que podemos elaborar nosso sistema de doutrinas e direcionar nossas regras de conduta.

Durante este curso, estamos assumindo, de uma vez por todas, que o texto bíblico foi escrito sob inspiração do Espírito Santo. Não vamos entrar em discussões sobre o que isto significa, apenas aceitaremos que o texto deve ser acatado sem restrições em nosso processo de elaboração de um sistema de crenças e de conduta.

Existem três elementos presentes em toda esta discussão:

1) O texto.

2) A leitura.

3) A teologia.

Falaremos um pouco de cada uma delas, mas ao longo do curso daremos ênfase clara ao segundo item, que será nosso objeto de trabalho.

O Texto

O processo de produção do texto bíblico é um processo historicamente complexo, que envolveu diversas pessoas em diversas épocas. Podemos dizer que toda a elaboração do texto bíblico, incluindo o velho e o novo testamento, abrange um período de 700 a 1000 anos. Devemos ter em mente que o universo cultural ao qual os autores bíblicos pertenciam é radicalmente diferente de nosso contexto atual. Por exemplo, as línguas originais nas quais os textos foram escritos são hebraico, aramaico e grego, assim muitas construções lingüísticas daqueles homens são estranhas para nós (vamos abordar um pouco mais este aspecto no problema da tradução). Como não temos conhecimento profundo destas línguas originais, temos que nos deparar com o primeiro obstáculo: a tradução. Também a visão de mundo, visão de história, valores sociais eram diferentes, não podemos julgá-los a partir de parâmetros culturais modernos, da civilização ocidental. Devemos também ter em mente que os textos autográficos, isto é, os que foram escritos pelos autores bíblicos, não são os textos que temos em mãos, temos cópias de cópias de cópias. Isto nos deve levar a um sentimento de humildade para assumirmos que, mesmo após terminarmos o processo de interpretação, por mais cuidadoso que venhamos a fazê-lo, não podemos dizer que chegamos à verdade absoluta. A fé continua sendo o único canal pelo qual podemos acessar a comunhão com Deus e com a verdade: Somos justificados pela fé, não por nossas exegeses e doutrinas bem elaboradas.

Existem diversas traduções do texto bíblico em língua portuguesa, se você quiser conhecer as diferenças entre alguns, pode consultar o site:

http://www.bibliaonline.com.br/

As versões mais tradicionais do lado protestante são: Almeida Revista e Corrigida (ARC), Almeida Revista e Atualizada (ARA) e Almeida Corrigida e Revisada Fiel (AF), estas traduções são baseadas na primeira tradução do texto bíblico para o português feito por João Ferreira de Almeida por volta de 1654. A tradução ARA é a mais utilizada em bíblias de estudo, como a bíblia Thompson, bíblia Vida Nova, bíblia Russell Shedd, etc. A Bíblia distribuída pelos Gideões internacionais é a versão (ARC). O texto mais moderno e bem elaborado segundo teorias modernas de tradução é a nova versão internacional (NVI), que é a que utilizaremos em aula ao longo do curso. Existem traduções modernas que também podem ser consideradas, como a Tradução na Linguagem de Hoje (TLH), que busca um texto mais coloquial, mais parecido com a língua falada do dia-a-dia e a Bíblia Viva (BV), que busca um texto mais prosaico, uma narrativa mais fluida e contextualizada. Também há versões católicas importantes, como a versão de Mattos Soares (MS), que é fortemente baseada na vulgata latina, e versões mais modernas, como a Bíblia de Jerusalém (BJ), cujo texto procura traduzir com exatidão nomes próprios e expressões idiomáticas. temos também a Tradução Ecumênica Brasileira (TEB) que é a bíblia mais moderna usada pela igreja católica, ao lado da (TLH). Digna de nota, mas para ser usada com muito cuidado, é a tradução feita pela Sociedade Torre de Vigia (testemunhas de Jeová), a Tradução do Novo Mundo (TNM). Digo para usar com restrição pois o texto foi traduzido de forma peculiar, de forma a dar embasamento textual para algumas doutrinas daquela seita.

Há um jogo de força entre dois princípios norteadores em qualquer processo de tradução: A equivalência formal e a equivalência funcional, ou de significado. De um lado, a equivalência formal tende a preservar o máximo possível, as construções de frases e as escolhas de vocabulário da língua original. Por outro lado, a equivalência funcional tenta reconstruir os significados originais que eram a intenção do autor do texto na língua original, reproduzindo nos leitores da língua para a qual o texto está sendo traduzido, o mesmo efeito que o texto teria para os leitores na língua original. O ponto de equilíbrio nem sempre é bem nítido, principalmente quando a tarefa é traduzir um texto considerado sagrado para um determinado grupo. Se o texto é considerado sagrado, tem-se por premissa que as palavras no texto original foram escolhidas de forma cuidadosa, então é preciso muita reflexão e trabalho duro para levar adiante uma boa tradução. Existem grupos radicais dentro da igreja cristã, irmãos nossos, que não aceitam qualquer outra tradução da bíblia para o Português que não seja ARC ou AF!

Vou tentar colocar em uma linha as várias traduções para você ter uma idéia de quais são as ênfases de tradução de cada uma (não é uma classificação precisa, mas é só para ter uma idéia):

BJ AF ARC ARA NVI TEB TLH BV

Equivalência Formal Equivalência Funcional



Existe ainda outro critério na escolha da tradução: A análise das fontes na língua original. A tradução de João Ferreira de Almeida foi elaborada com base em algumas traduções para outras línguas, como o espanhol e o francês, feitas na mesma época. Em última análise, a única fonte do texto original grego do novo testamento sobre a qual todas estas traduções do século XVII foram feitas era a edição do novo testamento grego feita por Erasmo de Rotterdan, conhecida como “Textus Receptus”. As versões ARC e AF são as versões que mais se mantiveram fiéis ao “Textus Receptus”. Com o avanço da crítica histórico-literária no final do século XVIII e com a descoberta de manuscritos mais antigos uma nova versão do Novo testamento grego foi feita, contendo as diversas variações encontradas nos manuscritos e utilizando técnicas da crítica histórica, esta é a edição crítica, que textos mais recentes, como a ARA, TLH, NVI, BJ assimilaram e incorporaram no processo de tradução. O exemplo mais marcante desta diferença pode ser visto no texto de I João 5:7-8. Veja o texto na AF

7

Porque três são os que testificam no céu: o Pai, a Palavra, e o Espírito Santo; e estes três são um.

8

E três são os que testificam na terra: o Espírito, e a água e o sangue; e estes três concordam num.







Note que este texto seria definitivo em qualquer discussão sobre a doutrina da santíssima trindade. Muito bom, só que este texto não faz parte dos originais. Veja como ele é apresentado na ARA:

7

Pois há três que dão testemunho {no céu: o Pai, a Palavra e o Espírito Santo; e estes três são um.}

8

{E três são os que testificam na terra:} o Espírito, a água e o sangue, e os três são unânimes num só propósito.

Veja que existe palavras que estão entre chaves { }. Estas palavras indicam um texto que não faz parte dos manuscritos mais antigos e mais confiáveis. Agora veja na NVI

7

Há três que dão testemunho:





8

o Espírito, [t] a água e o sangue; e os três são unânimes.







Este é um exemplo de variação textual que faz toda a diferença: a diferença entre basear ou não uma doutrina em cima deste texto. Como esta, existem inúmeras outras passagens com variações, algumas que não alteram o sentido do texto, mas outras que alteram drasticamente o sentido do texto. Tudo isto tem que ser levado em conta na hora da tradução. Com o Antigo testamento também existem estas variações, mas a quantidade de fontes é mais rica e a confiabilidade dos textos pode ser melhor averiguada devido à tradição massorética, isto é, uma linhagem de copistas das escrituras hebraicas que eram oriundos das comunidades judaicas espalhadas pela Ásia e Europa que ao longo de toda idade média manteve ativa a compilação e distribuição do texto bíblico. Aqui fazemos uma escala para você perceber quais são as melhores traduções no sentido de utilizar textos críticos.

AF ARC ARA NVI TLH TEB BJ

Textus Receptus Edições Críticas



A Teologia

Este é o final do processo, após a leitura, mas como nosso curso vai deter-se apenas na leitura, então vamos tratar um pouco deste ponto antes de iniciarmos nosso curso. Teologia é uma palavra de origem grega que significa “palavra sobre Deus”, ou “Fala sobre Deus”, e é o fruto da reflexão humana, da experiência da comunidade de fé e da leitura e releitura dos textos sagrados. É uma construção histórica e é fortemente influenciada pelas preocupações e ênfases de cada época e de cada comunidade. Devemos ter em mente que como “fala humana sobre Deus” a teologia já nasce falha, com as lacunas originadas da própria limitação humana em compreender o mistério divino em toda a sua plenitude. Por outro lado, ela deve ser ouvida, pois é a soma das pequenas percepções de muitos irmãos de fé, que ao longo das épocas se aventuraram por este terreno cheio de perigos e surpresas. O teólogo Santo Anselmo escreveu “Credo, ut intelligam”, “creio para poder compreender”. A fé deve ser o guia de nosso intelecto nesta incrível aventura de conhecermos a Deus, e não o contrário. Devemos ter a humildade de sabermos que nossa teologia não é a verdadeira, que nossa igreja não é a mais correta nem a mais santa, que nossos irmãos que pensam diferente de nós em vários pontos doutrinários foram também alcançados por esta mesma graça que nos alcançou e também dela se fazem devedores, como nós. É importante lermos o que outros já disseram por duas razões: (1) É bem provável que a maioria das conclusões que venhamos a obter de nossas leituras bíblicas já foram obtidas, há muito tempo atrás, por outros de nossos irmãos de fé. (2) Podemos balizar as nossas opiniões com respeito às opiniões majoritárias ao longo da história da igreja, assim teremos um corpo comum de doutrinas em que todos concordam. Por outro lado, podemos aprender com os erros do passado e ficarmos mais atentos a heresias que nós mesmos podemos elaborar.

Esta é a realidade: muito embora todos tenham o mesmo texto como base, as conclusões são as mais variadas. Não estou falando nem das heresias, estou falando de cristãos sérios, comprometidos com a palavra de Deus, que fazem uma leitura responsável da palavra e que chegam a conclusões às vezes totalmente opostas! Quem está com a verdade? Todo mundo...e ninguém!

A Leitura

Este é o tema de nosso curso. Antes um esclarecimento a respeito de duas palavras: Hermenêutica e exegese.

A Hermenêutica é a ciência da interpretação textual (não somente bíblica). Ela fornece regras, princípios gerais, de como proceder para uma correta interpretação do texto escrito (seja este texto, a Bíblia, um poema de Camões ou um artigo da revista Veja). Esta ciência trabalha em conjunto com uma série de outros ramos de conhecimento: a lingüística, a semiótica, a crítica literária, a história, a arqueologia, a sociologia e a filosofia. Para entendermos corretamente a profundidade e a extensão desta disciplina, ser-nos-iam necessários vários anos de estudos acadêmicos profundos. Não é este o objetivo de nosso curso.

A exegese é a prática da interpretação do texto escrito, é a aplicação dos princípios norteadores dados pela Hermenêutica para buscar a melhor compreensão do conteúdo e significado de um texto dado. É disto que vamos tratar ao longo deste trimestre.

Uma vez explicados estes dois conceitos, vamos expor nosso cenário de trabalho: O material básico que temos é o texto bíblico (é bom ter mais de uma tradução para comparar, veja também o site da biblia on line já indicado no começo deste texto). O texto bíblico possui certas peculiaridades: certos nomes de pessoas ou lugares relativos às narrativas do texto. Também existem certos termos relativos a objetos rituais, festas ou cerimônias, pessoas em cargos específicos, termos teológicos, etc. Todos estes termos são pertinentes ao texto bíblico, por isto é bom ter em mãos um dicionário ou enciclopédia bíblica, de preferência com mapas (nas últimas páginas de sua bíblia existem alguns mapas que podem ajudar). Você pode consultar os seguintes sites para a questão de dicionário e referências bíblicas:

http://www.bibliaworldnet-util.locaweb.com.br/biblia/

http://oqueabibliadiz.wordpress.com/2009/05/09/dicionario-e-enciclopedia-biblica-eletronico/ (Cuidado, este site parece que é de uma igreja neopentecostal)

http://www.jesusvoltara.com.br/dicionariobiblico/index.htm (Cuidado, este site é adventista)

Também é bom, mas não obrigatório, ter bíblias de estudo, ou bíblias com comentários. As melhores bíblias de estudo disponíveis no mercado editorial brasileiro atualmente são:

1) Bíblia de Estudos NVI

2) Bíblia Thompson (texto ARA)

3) Bíblia de Jerusalém (Esta incorpora nos comentários as mais importantes descobertas científicas relativas ao método histórico crítico).

Evitem, na medida do possível, algumas bíblias de comentários que existem por ai:

1) Bíblia Scoffield (Os comentários são fortemente enviesados pelo esquema dispensacionalista).

2) Bíblia de Estudos Pentecostal (O próprio nome sugere em que tipo de doutrina estão baseados os comentários).

3) Bíblia de Genebra (Fortemente influenciada pela teologia Calvinista).

4) Bíblia Apologética (Esta edição trás comentários que visam comparar doutrinas de diversas seitas e religiões e tentar combater heresias, não é basicamente uma bíblia de estudos)

5) Bíblia de Aplicação Pessoal (O próprio nome diz, os comentários são direcionados para edificação pessoal, não para um estudo aprofundado do texto bíblico)

6) Bíblia Jovem, Bíblia Teen, Bíblia da Mulher, etc (Estas bíblias trazem comentários que são concernentes ao público específico para o qual foram feitas).



O processo de leitura e interpretação.

Aqui, basicamente começa o nosso curso. Não temos a pretensão de sermos completos, exaurindo todos os detalhes. Basicamente nossa ferramenta de trabalho será o texto bíblico puro e simples. Na medida do possível, as fontes adicionais que vamos lançar mão são outros textos bíblicos para comparação. Este é o princípio “Scriptura scripturae interpres”, isto é, as escrituras são o intérprete das escrituras, em outras palavras, vamos nos restringir a uma análise de consistência interna. Isto é empobrecedor? Sim e não. A primeira vista perde-se um pouco, na medida que muitos detalhes históricos, culturais, sociológicos, políticos ficariam ocultos à técnica de interpretação, pois estes dependem de outros documentos paralelos e de descobertas arqueológicas. Mas esperar que uma interpretação bíblica seja considerada boa somente quando todos os fatores externos ao texto forem analisados é dizer que o crente comum, que não tem formação acadêmica, que nunca leu textos técnicos de história, sociologia, etc, não possa ter um proveito significativo da leitura do texto pura e simples. O poder da palavra de Deus estaria restrito aos círculos universitários (e parece que, exatamente nestes ambientes acadêmicos, que o respeito e o comprometimento com a palavra de Deus é mais inexistente). Por outro lado, restringirmos a leitura a uma análise de consistência interna não é empobrecedor, pois o texto bíblico, como um texto literário, ganha vida própria e é regido por leis e mecanismos intrínsecos. Não quer dizer que você não deva, no decorrer do processo de leitura e interpretação, comparar suas conclusões com outros comentários sobre o mesmo texto, feitos por outras pessoas, isto serve para acertar alguns parâmetros e critérios sobre os ensinamentos e doutrinas veiculados pelo texto.

Vamos estabelecer uma metodologia geral para a análise de qualquer texto bíblico, pois esperamos que, além da mera interpretação de significado dôo texto escrito, devemos esperar que este mesmo texto nos leve a tomarmos certas medidas no sentido de implementar estes ensinamentos em nosso viver diário. Vamos trabalhar com a premissa que todo o texto bíblico, não importa se de caráter narrativo, poético, epistolar, discursivo, etc, tem por objetivo veicular ensinamentos que nos auxiliem a desenvolver nosso relacionamento pessoal com Deus e aprimorar nossa conduta moral:

Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a instrução na justiça, para que o homem de Deus seja apto e plenamente preparado para toda boa obra. IITim 3:16-17 (NVI)

Existem, basicamente, quatro passos para se trabalhar com qualquer texto: A Observação, a interpretação, a correlação e a aplicação.

1) Observação: Este primeiro passo diz respeito à estrutura do texto em si. Em primeiro lugar, devemos identificar o contexto, isto é, uma unidade de significado que possua começo meio e fim. Isto implica em olhar para antes e depois do texto que estamos estudando. Você poderia perguntar: E a divisão em versículos e capítulos, já não é uma divisão de conteúdos? A resposta é um sonoro NÃO. Esta divisão é artificial e foi feita muito tempo depois por copistas e editores. Em geral esta divisão não corresponde às divisões de temas entre os textos. Você deve atentar para este fator principalmente no estudo de versículos individuais.

Em segundo lugar, devemos atentar para algumas perguntas essenciais: O quê? Quem? Quando? Onde? Como? Por quê?



a) O quê? Tem a ver com os conteúdos e temas que o texto em si trata. Temos que procurar quais são as palavras chave, isto é, quais são as palavras que se destacam no texto, as quais você deve prestar mais atenção. Devemos também destacar os verbos do texto e os sujeitos das ações. Devemos verificar como as idéias se concatenam no texto e quantas são as idéias veiculadas através do texto. Esta fase da leitura passa quase por uma análise sintática, é claro, não vamos fazer isto, afinal, nem todos estão acostumados com orações subordinadas substantivas e outros bichos ferozes da análise.

b) Quem? Esta é uma questão mais complicada e técnica. As questões de autoria e data de composição de textos bíblicos é um tema de pesquisa ainda muito controverso. Portanto devemos evitar um terreno tão pegajoso que pertence aos círculos acadêmicos. Mas o texto é um ser vivo e o próprio texto possui mecanismos internos que nos auxiliam na sua compreensão: Existem várias formas literárias na bíblia (isto vamos discutir logo a seguir), mas basicamente podemos destacar três tipos de construção de texto, a narrativa, a poesia e o discurso. Na narrativa, existem os personagens do texto, que podem ter suas falas, então podemos identificar se é o personagem A ou B que está falando (note que, neste tipo de análise, Deus é um personagem também). Também na narrativa existe o narrador, que pode ser de dois tipos, ou narrador onisciente, que sempre fala em terceira pessoa e que está presente em todas as situações de todos os personagens sem no entanto fazer parte da história (este é o tipo mais comum de narração no texto bíblico) e existe o narrador personagem, que fala em primeira pessoa, ao mesmo tempo que ele narra ele faz parte da história e portanto só narra fatos nos quais ele mesmo participa (veja, por exemplo os últimos capítulos do livro de Daniel, os primeiros capítulos do livro de Ezequiel, e o livro de Apocalipse). Existem situações onde um personagem se torna narrador, como nas parábolas de Jesus, que é uma espécie de texto dentro do texto, o personagem Jesus se transforma em narrador onisciente da parábola. Na poesia, existe o “eu lírico”, que fala em primeira pessoa sobre seus sentimentos, ou sobre Deus, ou qualquer coisa, mas ele mesmo não se denomina, quando declamamos uma poesia ou cantamos uma música, nós incorporamos o “eu lírico”. O “eu lírico” pode ter gênero e número. Há textos, porém que são códigos de doutrina ou de conduta (nas cartas de Paulo, por exemplo), o texto sugere que quem está falando é o autor. Mas, como na maioria dos casos, não temos acesso ao autor histórico, então temos que entender o interlocutor do texto como um “eu literário”. O “eu literário” é o que ficou do autor humano no texto, e ele ganha vida própria no texto independente do autor real. Sempre vamos nos referir ao “eu literário” e não ao autor, para não corrermos o risco de fazermos premissas falsas sobre a opinião emitida no texto com base no conhecimento que temos do provável autor por intermédio de outros textos.

c) Quando? Outra pergunta que devemos ter cuidado. Não devemos pressupor datas de composição do texto para utilizarmos na interpretação. O tempo deve ser inferido apenas pelo texto. Para isto, é necessária a análise do contexto, ver as marcações de tempo antes e depois, referências a fatos ou acontecimentos simultâneos, etc. Palavras como “depois disto”, “naqueles dias”, nomes de reis e governantes que exerciam o poder na época ajudam também a situar o texto e os eventos descritos no texto dentro do tempo, mesmo que o texto propriamente dito possa ter sido escrito séculos depois dos eventos nele descritos.

d) Onde? Como você já deve suspeitar, as informações de localização geográfica do evento têm que ser dadas pelo texto. Nomes de cidades, de rios, de povoados, de regiões, etc. Neste ponto é apropriado consultar um mapa, fazer diagramas, entender o que está acontecendo. Um bom exercício é acompanhar as viagens missionárias de Paulo no livro de Atos, preste atenção aos locais por onde o apóstolo passou, qual a seqüência de cidades visitadas, o tempo de percurso de um lugar para outro, o tempo de permanência em cada localidade, etc. Este é um exercício muito útil, inclusive para tentar localizar no espaço e no tempo as prováveis épocas e localidades onde o apóstolo Paulo escreveu suas epístolas.

e) Como? Esta pergunta se refere ao aspecto estilístico da produção textual. A bíblia como literatura é muito rica, contendo em si mesma uma variedade muito ampla de estilos e formas literárias. Mesmo os textos com narrativas históricas possuem diferentes características. Compare, por exemplo, o evangelho de Lucas com o evangelho de João, ou as narrativas nos primeiros capítulos de Gênesis com as narrativas dos livros de Reis. Também temos textos poéticos (salmos, lamentações), ficção (livro de Jó, cântico dos cânticos, alguns trechos nos profetas do AT, parábolas de Jesus), discurso direto (alguns livros proféticos, cartas apostólicas), literatura sapiencial (provérbios, eclesiastes), literatura apocalíptica (Ezequiel, Zacarias, últimos capítulos do livro de Daniel, Apocalipse). Cada estilo literário possui seus códigos próprios, sua simbologia própria, seria errôneo tentar ler o livro de apocalipse como se fosse uma narrativa histórica, por exemplo. Um olho mais treinado também consegue perceber que mesmo dentro do mesmo livro existem variações estilísticas tão significativas que nos levam à conclusão que o texto que temos em mãos é uma composição múltipla do texto, com vários escritores de diferentes épocas (o Pentateuco, o livro de Isaías). Este é um assunto bem mais técnico, e que teremos pouco tempo para realmente abordarmos no curso.

f) Por quê? Aqui estamos chegando quase na segunda fase da análise do texto, a interpretação. Esta pergunta nos leva a rastrearmos as intenções que levaram à elaboração do texto. Nenhum texto é escrito sem intenções, principalmente um texto que temos como regra máxima de fé e prática, não pode ser um texto leviano, despropositado. Precisamos a cada passo entender as intenções originais do texto escrito para que possamos fazer a transposição para nossa época e nossa realidade. Assim surgem perguntas naturais, como: Qual era o público alvo original, historicamente falando (esta pergunta é mais difícil, quase tão difícil quanto questões de autoria e data de composição). Qual é o impacto que se pretendia obter com a leitura deste texto pelas pessoas ou pelas comunidades de fé? Que tipo de ideologia estava presente no texto? Que ordem social estabelecida estava pressuposta no texto? (Este tipo de pergunta é muito explosiva, abala nossas estruturas, realmente temos que estar bem firmes em nossa fé para podermos ouvir algumas respostas a estas perguntas. Não vamos mexer neste vespeiro!) Quem, ou o que o texto procurava defender, ou atacar? O texto procurava corrigir alguma prática errônea dentro da comunidade de Fé? O texto pretendia estimular alguma prática dentro da comunidade de Fé? O texto visava ensinar alguma doutrina sobre a pessoa e natureza de Deus? Todas estas perguntas são muito pertinentes quando nossa proposta é analisarmos um texto bíblico, que pretendemos entender melhor para obedecê-lo com mais clareza e precisão.

O trabalho de observação é um trabalho de detetive, basicamente o que temos é um texto escrito, e desta única fonte devemos montar todo um contexto. Muitas vezes, este trabalho pode nos levar e pensarmos que somos melhores que os próprios autores bíblicos, ao olharmos para eles com as lentes culturais de nossa época. Mas devemos ter a humildade de reconhecer que eles sim são as testemunhas de primeira ordem, são aqueles que primeiro receberam o impacto da revelação divina no mais profundo de suas existências. Este impacto foi de tal magnitude, que os autores bíblicos se viram compelidos a escreverem o que escreveram, sem quaisquer reservas, sem quaisquer retoques, simples e direto assim. Não podemos olhar para eles como um professor primário olha para o caderno de caligrafia de seus alunos, tentando corrigir seus erros, pegando em suas mãos para que eles escrevam corretamente. Simplesmente devemos aceitar o texto como uma dádiva, do Deus perfeito que falou de formas diversas a homens tão falhos e imperfeitos como nós. O que há de falho e impreciso no texto, é por causa do homem, o que há de nobre, perfeito e maravilhoso, é devido a Deus. A Ele toda a glória.

Cenas dos próximos capítulos:

2) Interpretação:

Nós todos vemos a realidade através de lentes coloridas, as cores destas lentes são determinadas pelas nossas experiências anteriores, pela nossa visão de mundo, pelos conceitos que aprendemos desde crianças, pela nossa educação familiar, pela nossa condição cultural, sócio-econômica, enfim, por uma série de fatores. Cada vez que lemos um texto, seja da Bíblia ou da revista Veja, nós exercemos este filtro e atribuímos um significado. Não existe uma opinião ou interpretação, seja lá do que for, que seja totalmente neutra, livre de preconceitos, sem pressuposições e que não seja inserida dentro de um contexto social. O importante é que saibamos reconhecer estes elementos que determinam nosso processo de interpretação. A má notícia em tudo isto é que nunca encontraremos plenamente a verdade contida em qualquer texto. Em se tratando de leitura bíblica, isto poderia causar uma ansiedade, pois cremos ser ela a palavra de Deus, portanto, a verdade. Mas isto não deveria nos abalar, pois afinal somos justificados pela fé, que implica entre outras coisas em uma total dependência, mesmo que não tenhamos acesso cognitivo a todos os detalhes envolvidos. A boa notícia é que isto proporciona uma liberdade quase que infinita para explorarmos os significados de quaisquer textos, tornando a leitura um processo rico e surpreendente. Também nos dá a liberdade de sabermos que, assim como nós, ninguém tem o domínio da verdade absoluta, sejam igrejas, sejam pastores ou líderes, sejam compêndios doutrinários de qualquer tendência. Também nos direciona a uma forte autocrítica de sabermos que nós também não podemos nos sentir donos da verdade. No fim, o que sobra é a famosa admoestação bíblica: “Examinai todas as coisas, retende o que é bom”.

Indo adiante, o processo de interpretação é onde realmente o texto, e agora vamos nos ater mais diretamente ao texto bíblico, passa a ter significado, pelo menos para você que realiza a leitura. Primeiramente, é necessário que se diga que, para fazermos uma análise honesta, não podemos estabelecer regras diferenciadas de interpretação só por que estamos lidando com o texto bíblico. O texto bíblico deve ser tratado da mesma maneira, com os mesmos critérios que qualquer outro texto. É claro que, com isto, não estamos querendo dizer que não se deve levar em conta as peculiaridades do texto bíblico, suas particularidades estilísticas, os usos de vocabulário comum com re-significação pertinente somente ao discurso religioso, etc. Mas fora estas características, que obviamente precisam ser olhadas com detalhe, não há razão para termos um tratamento diferenciado na hora da interpretação só porque cremos que a Bíblia é a palavra de Deus. Ela tem que passar pelo escrutínio comum das ciências, como qualquer outro texto literário. O fato de percebermos algo divino neste texto tem que advir de nossa atitude de fé e compromisso com esta palavra, não por qualquer recurso hermenêutico.

Um texto pode ser pensado como um Ice-Berg (aquelas imensas montanhas de gelo flutuantes em alto mar), a parte que fica acima da superfície da água é apenas uma parte pequena, a maior parte permanece submersa. Em relação à nomenclatura técnica do texto, a parte visível do Ice-Berg é denominada sentido narrativo, enquanto a parte submersa é denominada de sentido discursivo. O sentido narrativo está relacionado com o aspecto formal do texto escrito, os personagens, os lugares, as situações, enfim, tudo aquilo que aparece nas linhas do texto. O sentido discursivo é muito mais sutil, envolve as idéias veiculadas pelo texto, as pressuposições que muitas vezes não estão escritas mas que são assumidas pelo escritor e que seriam entendidas pelos leitores primordiais (aqueles contemporâneos do autor do texto, para quem foi escrito o texto). O conhecimento deste sentido discursivo será aprimorado a medida que aumentarmos nosso conhecimento sobre detalhes do contexto em que foi produzido o texto. Quanto a isto, tenho a indicar dois excelentes livros que podem dar um conhecimento inicial sobre o contexto bíblico:

J.I. Packer, M.C. Tenney, W. White Jr: “O Mundo do Antigo Testamento”, Editora Vida (1988).

J.I. Packer, M.C. Tenney, W. White Jr: “O Mundo do Novo Testamento”, Editora Vida (1988).

A leitura de um texto, do texto bíblico em particular, possui dois momentos, é como uma respiração. O primeiro momento é quando se entra no texto, a chamada “eisegese”. Neste primeiro momento, o intérprete tem que procurar em sua bagagem tudo aquilo que possa servir de ferramenta, ou de obstáculo, para a análise do texto:

1) O conhecimento histórico, lingüístico, social e cultural relativo ao contexto e cosmo visão dos escritores do texto. Como os autores bíblicos utilizavam as palavras e o que era subentendido aos seus leitores primordiais.

Exemplos:

a) Existem muitas palavras na bíblia que têm significados específicos de uso particular no texto bíblico: “Mundo”, por exemplo, pode significar o universo criado por Deus, pode significar a totalidade dos seres humanos viventes, em todas as épocas e em todos os lugares, e pode significar também o sistema de valores e princípios que vai contra o reino de Deus e sua vontade. “Carne” é outro exemplo, pode significar tanto a parte material de nossa existência, relativo a corpo, como pode significar nossa tendência pecaminosa a usarmos nossos sentidos em busca da satisfação pessoal, ao invés de cumprir a vontade de Deus, uma confusão no uso específico destes termos pode levar à conclusão que nosso corpo é mau em si mesmo.

b) No evangelho de Mateus são feitas diversas referências a costumes e tradições judaicas que são comuns aos seus interlocutores. Os evangelhos de Marcos e Lucas, que tinham como alvo um público não judeu, explicam detalhes de lugares, pessoas, festas, etc, explicações que não seriam necessárias a um judeu.

c) No antigo testamento, fica implícita a concepção de mundo dos autores bíblicos: Uma terra plana, cercada de água por todos os lados, recheada de monstros marinhos, com fossas abissais onde também haveria água, e uma redoma no céu, acima da qual haveria água e ao redor da qual se situariam o Sol, a lua e as estrelas em seu movimento diário, e acima de tudo, a morada do Deus altíssimo (leia o livro de Jó, por exemplo, e os primeiros dois capítulos de Gênesis).



2) As outras leituras de textos correlatos (veja mais adiante sobre a correlação, que é um processo paralelo que nos auxilia na verificação e correção de nossas interpretações). a correlação serve tanto para corroborar como para contrastar nossas asserções sobre o texto:

Exemplos:

a) Ao lermos a carta de I Coríntios, temos a impressão que o apóstolo Paulo abominava qualquer tipo de liderança feminina na igreja. Mas ao lermos em Romanos “rogo a Evódia e a Síntique...”, que o texto dá a entender que tinham um papel importante dentro da comunidade de fé, vemos que as recomendações de Paulo sobre ser indecente a mulher falar na igreja tinham mais a ver com o contexto da cidade para onde Paulo estava escrevendo.

b) De novo o apóstolo Paulo, Alguns de seus textos em Efésios e Colossenses falam sobre os deveres dos servos (na verdade, escravos, pois as relações de trabalho no império romano eram fortemente baseadas no trabalho escravo), dá-nos a entender que o apóstolo acha totalmente normal esta situação. Mas ao lermos a epístola a Filemon, podemos ver mais claramente a opinião do apóstolo sobre a escravidão.

3) As interpretações oficiais que nossa igreja ou denominação já fez sobre este texto ou sobre o tema em particular (isto pode ser positivo ou não, dependendo da forma como utilizamos os dogmas de nossa denominação para esclarecer, ou para cercear as possibilidades do texto).

Exemplos:

a) As diferenças doutrinárias entre denominações pentecostais e não pentecostais podem levar a divergências no modo de interpretar textos sobre fenômenos relativos a experiências com dons espirituais no livro de atos e nas epístolas paulinas.

b) A interpretação “oficial” de Isaías 53 foi dada por Filipe ao conversar com o Eunuco. Com isto, podemos pensar como um judeu pode não crer no Senhor Jesus se o texto está tão óbvio. Mas é claro que o autor bíblico quando escreveu o texto não estava falando sobre o Senhor Jesus, mas sobre alguma situação pertinente à sua época. Cabe-nos investigar qual o sentido original que o autor bíblico quis dar ao seu texto (é bom ler alguns comentaristas judaicos para ver como eles lêem o texto).

4) Nossas opiniões pessoais e preconceitos, que já adquirimos ao longo de nossa caminhada (é importante sempre identificá-las, pois elas podem ser um tremendo obstáculo para compreendermos de forma adequada o texto).

Exemplos:

a) Em nossa cultura evangélica brasileira, é muito difundida a norma de uma total abstinência de bebidas alcoólicas por parte dos fiéis (talvez menos na região sul do Brasil devido à forte influência de imigração estrangeira). Neste contexto, fica difícil para o crente ler sem fazer distorções na tentativa de “santificar” o texto, passagens bíblicas como de Jesus transformando água em vinho, Jesus falando de si mesmo como um bebedor de vinho, Noé enchendo a cara (já ouvi até pregações dizendo que Noé não sabia que a uva fermentava, e que isto era um efeito pós-diluviano), da videira falando que seu fruto produzia o vinho “que agrada tanto a homens como a Deus”, etc.

b) Para nós, é praticamente impossível imaginar alguma situação onde implicitamente se admita que existam outros deuses. A formação da mentalidade monoteísta em Israel foi um processo longo e demorado, o Deus IHWH que é o Deus de Israel, por muito tempo (e em muitos textos do A.T.) é considerado como uma divindade coexistindo com outras de outros povos, claro, que era considerado o deus mais forte (leia, por exemplo, alguns trechos do Pentateuco e do livro de Josué, o livro de Juízes, I e II Samuel). Mas a noção de que só existe um Deus é uma noção tardia na religião judaica, podemos dizer que este conceito foi construído na época dos profetas (Isaías, Jeremias, etc) e certamente só foi admitida depois da reforma do rei Josias. então quando lemos textos do A.T. temos a tendência de fazermos uma leitura light para escondermos este elemento politeísta presente na mentalidade de alguns autores bíblicos.

5) Nosso contexto sócio cultural (este é o mais difícil de reconhecer, afinal, um peixe não se sente molhado por estar imerso na água).

Exemplos:

1) Existe uma classe de cristãos que se autodenominam criacionistas (são irmãos nossos) que fazem uma leitura simplista da bíblia, como se ela pressupusesse o mesmo contexto científico que temos hoje em dia. Eles querem ver em Gên. 1 e 2 um relato literal da criação do universo e tentam corroborar esta leitura com teorias “científicas”: uma péssima ciência a serviço de um péssima hermenêutica.

2) Muitos discursos sobre a submissão dos servos em relação aos seus senhores é simplesmente substituída por empregados em relação a patrões. Mas o texto bíblico, principalmente nas cartas de Paulo, estava em um contexto de uma sociedade escravocrata, portanto o discurso não pode ser simplesmente transposto, pois há diferenças substanciais nas relações de trabalho ali envolvidas.

Tendo dito isto, nossa próxima tarefa é coletar os elementos obtidos no passo de observação para então podermos fazer a processo de “exegese”, que significa sair do texto, emergir da leitura com alguma coisa nova, que não estava presente antes de iniciarmos a leitura, algo que só o texto poderia nos fornecer. É a exegese do texto que vai permitir a construção do significado, ou significados que o texto pode trazer (um texto pode ter vários níveis de sentido discursivo coexistindo, muitas vezes, estes sentidos podem ser conflitantes). Ao fazermos a exegese, praticamente vamos “recriar” o texto com nossas próprias palavras. Ao dizermos o que o texto diz, estamos fazendo interpretação. Esta será tão profunda quanto forem nossos elementos de investigação e nosso trabalho de decifrar todos os significados. Isto envolve tempo, trabalho e muito cuidado. A interpretação de textos é um processo de aprendizagem que leva a vida toda, e não pode ser aprendido em um curso de três meses. Aqui, apenas estamos dando alguns exemplos e modelos de como fazer, mas o fazer depende de cada um de nós.

E a iluminação do Espírito Santo? É claro que temos um elemento que nos auxilia em nossa caminhada, que é a orientação do Espírito santo de Deus, que nos guia pelo caminho que devemos andar. Mas esta iluminação, creio eu, não significa que temos uma infalibilidade epistemológica, ou seja, que tenhamos a garantia de que tudo que venhamos a ler e dizer a respeito do texto seja totalmente verdadeiro. O que podemos é suplicar a Deus que nos guie os pensamentos, para que tenhamos a humildade de reconhecer nossas limitações, tenhamos autocrítica com respeito as nossas conclusões e sabedoria para distinguirmos o que deve ou não ser levado em conta.

3) Correlação:

A correlação, como foi dita anteriormente, tem como objetivo expor nossa interpretação a um contexto maior, envolvendo outros textos e outras interpretações do mesmo texto. Ela pode servir para corroborar, isto é, para reafirmar aquilo que já chegamos à conclusão. Isto enriquece nossa interpretação, pois adiciona elementos novos que não havíamos levado em conta. Mas a correlação pode servir para confrontar nossa interpretação, nos mostrando que estamos indo por um caminho errado. A bíblia, por ser um livro muito grande e escrito por muitas pessoas em diferentes épocas, é um livro cheio de contrastes. Então qualquer tendência ao dogmatismo, ao absolutismo de idéias é rechaçado veementemente pelo próprio texto bíblico, que sempre oferece aqui ou acolá algum outro ponto que não encaixa 100% dentro de nosso esquema de interpretação.

Qualquer doutrina que venhamos a tentar formular com base na bíblia sempre vai ter um contraponto. Algumas “doutrinas” são facilmente rechaçadas pela própria bíblia: As religiões espíritas tentam ler nos textos bíblicos “evidências” de que a bíblia apóia a reencarnação. Mas ao lermos com cuidado as páginas da bíblia, vemos que qualquer tentativa de encontrar reencarnação na bíblia é uma tarefa infundada, pois esta idéia não se sustenta no contexto geral dos livros bíblicos. Também é fácil, mas gasta um pouquinho mais de tempo, rechaçar a doutrina ariana (disseminada pela seita Testemunhas de Jeová) que afirma que o Senhor Jesus não possui a mesma natureza que Deus Pai, sendo apenas uma de suas criaturas. Existem, no entanto, outras doutrinas que são expostas no texto bíblico e contrapostas em outros textos, sendo que algumas denominações abraçam estas doutrinas com maior ou menor intensidade. Por exemplo, a doutrina calvinista da predestinação: se lermos as epístolas de Romanos e Efésios, veremos uma enxurrada de textos apoiando esta doutrina, mas se lermos a bíblia como um todo, veremos um Deus que se importa com todos os seres humanos, que quer que todos sejam salvos, que muda de idéia, que se arrepende do mal, que respeita a vontade e o livre arbítrio do ser humano, que seria incompatível com a doutrina fria e calculista da predestinação. Onde está a verdade? Em alguma outra coisa que continua completamente oculta ao entendimento humano, que concilia os ensinamentos dos dois pontos de vista, algo que podemos somente vislumbrar através de metáforas. Outra doutrina que também é um longo ponto de discussão é a questão da perda da salvação: Por um lado, vários textos bíblicos indicam que a salvação, por se tratar de um ato feito pelo próprio Deus, que independe de qualquer mérito humano, é indelével. Por outro lado, alguns textos, como no livro de Hebreus, indicam que pode haver o caso de uma pessoa salva que perde o dom da salvação por rejeitar voluntariamente o Senhor Jesus e seu sacrifício. O que é a verdade? Mais uma vez, é algo que foge à nossa percepção, algo mais profundo, mais complexo e certamente mais rico e mais sábio do que tudo que venhamos a imaginar a respeito.

Voltando à correlação, existem dois tipos de consistência a serem verificados: A consistência interna e a consistência externa.

1) A consistência interna tem a ver com o que o resto da bíblia diz a respeito daquele assunto, quais outros textos devem ser comparados com aquele no qual estamos trabalhando. É novamente o princípio “Scriptura Scripturae interpres”, ou seja, as escrituras interpretam as próprias escrituras. Para isto é bom termos uma boa bíblia com referências (aqueles numerozinhos que aparecem do lado ou no pé de página e que nos levam a outros textos) e uma concordância bíblica (um livrinho, que às vezes já faz parte de um apêndice da bíblia, que toma uma palavra e retorna todos os versículos com aquela palavra). Se estivermos tratando com um texto que tenha paralelos, como, por exemplo, nos livros de Reis e Crônicas ou nos evangelhos ou algumas cartas de Paulo, então devamos ler e comparar, as semelhanças e diferenças de todos os textos que dizem respeito ao mesmo tema.

2) A consistência externa tem a ver com outros textos de comentaristas bíblicos. O que outras pessoas que já estudaram o texto têm a dizer com respeito ao significado do texto. É aqui que entram as bíblias de comentários, algumas trazem explicações sobre algumas passagens específicas. Também entra a leitura de livros de autores, cristãos ou não, que oferecem alguma interpretação sobre o texto. Comprar livros é um hábito saudável, é claro que dentro das nossas possibilidades financeiras. Mas se não tivermos em nossa mente o desejo de comprarmos bons livros, nunca faremos um planejamento financeiro de modo que esse hábito caiba dentro de nosso orçamento. A internet também é um mundo de possibilidades, podemos utilizá-la desde que tenhamos sempre o cuidado de analisarmos a procedência do site (tem de tudo, coisas muito boas e muita picaretagem, cuidado, tem muitos sites de seitas disfarçados de sites cristãos).

A correlação também nos ajuda a mantermos uma devida perspectiva com relação às nossas opiniões, afinal, se existem outros irmãos nossos, que têm o mesmo Espírito Santo, que lêem a mesma bíblia e chegam a conclusões tão diferentes das minhas, então não posso dizer que a minha interpretação bíblica é a mais correta e sem erros. Este método de lidarmos com nossas interpretações bíblicas é o mais sensato para evitarmos contendas intermináveis com outros irmãos ou outras igrejas sobre este ou aquele assunto. Muito embora o que eu esteja colocando seja uma postura “agnóstica”, não significa que não possamos ter uma opinião a respeito deste ou daquele assunto baseados em nossas leituras da bíblia e que não possamos compartilhar e discutir nossas opiniões em fóruns coletivos. O que não podemos é confiar tanto em nossa leitura da bíblia e em nossa opinião a ponto de impormos nossos conceitos e nossos dogmas a outros irmãos nossos.

4) Aplicação:

Chegamos ao principal objetivo de todo este processo de leitura e interpretação do texto bíblico: que a palavra de Deus se transforme em vida em nossas vidas. Devemos sempre nos perguntar: Este texto, que tipo de aplicação ele demanda de mim?

a) Este texto contém algum mandamento que eu deva cumprir?

b) Este texto contém alguma promessa que eu deva acreditar?

c) Este texto mostra algum pecado que eu deva abandonar?

d) Este texto indica algum conselho prático que possa me ajudar nas minhas tomadas diárias de decisão?

e) Este texto mostra algum aspecto de deus que eu deva conhecer mais profundamente?

f) Este texto apresenta algum exemplo de alguma pessoa que eu deva seguir?

g) Este texto contém elementos de consolação para o meu problema pessoal?

h) Este texto está trazendo algum recado para a comunidade de fé como um todo e não somente para o contexto pessoal?

Existem diversas outras perguntas que devemos sempre fazer à medida que lemos o texto, isto inclusive nos ajudará a ficarmos mais atentos à real mensagem do texto em questão. A precisão de nossa leitura é um fator importantíssimo para que possamos reconhecer a verdadeira mensagem de Deus através de sua palavra.

Ouvir a voz de Deus é também uma via de mão dupla: Nossa atitude ao ler a bíblia deve ser a de uma “leitura orante”. De um lado, devemos ir ao texto, com nossas ansiedades, nossas dúvidas, nossos problemas, em busca de consolo, orientação, paz, sabedoria, oriundas da palavra de Deus. Por outro lado, ao atravessarmos as linhas do texto escrito, fazermos nosso trabalho de leitura, observação, interpretação e correlação, devemos reconhecer que por trás daquelas palavras está um Deus que intervém, que fala, que ensina e quer nos falar por meio daquela leitura, esta é a “lectio” divina, ou fala de Deus, ou ensino de Deus.



Certamente, a qualidade de nossa vida cristã estará diretamente relacionada com a prática da palavra em nosso proceder diário. Como diz Tiago em sua epístola: “Sede praticantes da palavra de Deus e não somente ouvintes, enganando-vos com falsos discursos”. E a qualidade desta prática está vinculada a um trabalho bem feito de interpretação do texto bíblico. Cuidado com estudos rasos, com aplicações superficiais da bíblia, com textos fora de contexto para justificar procedimentos ou afirmações que a própria bíblia não apóia. Nosso contexto evangélico brasileiro está recheado de exemplos de usos indevidos de textos da palavra de Deus para legitimar muitas formas de doutrina e prática que vão se distanciando cada vez mais do evangelho autêntico e puro, conforme entregue pelos apóstolos e registrado nas sagradas escrituras. Cabe a nós a tarefa de zelarmos pelo bom nome de Cristo através de nosso testemunho pessoal, de nosso discipulado, de nosso evangelismo e nossa ação social, sempre fundamentados no sólido alicerce, que não será derrubado mesmo em meio a tempestades mais intensas. Que Deus nos ajude a cumprirmos com zelo e amor a sua palavra. A ele toda a Glória. Amém.


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