Leitura, interdisciplinaridade e inserçÃo social: o ensino em ciências e saúde em foco



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LEITURA, INTERDISCIPLINARIDADE E INSERÇÃO SOCIAL: O ENSINO EM CIÊNCIAS E SAÚDE EM FOCO

Ingrid Zacarelli Brito

Eloi Norberto Venturini Jr.

Maria Rosa R. M. de Camargo

PEJA – PROEX - UNESP - Rio Claro

Em outubro de 2000, por iniciativa da Pró-Reitoria de Extensão Universitária -PROEX-, um grupo de docentes foi constituído com representantes dos campi de Araraquara, Assis, Bauru, Marília, Presidente Prudente, Rio Claro e São José do Rio Preto, com o propósito de elaborar o Projeto UNESP de Educação de Jovens e Adultos -PEJA.

O Projeto é destinado à comunidade interna da UNESP e externa a essa, e tem como objetivos: estabelecer uma política pública para a educação de jovens e adultos, dentro do compromisso social da universidade pública; garantir os direitos mínimos de democracia e cidadania àqueles que não tiveram a oportunidade de aprender a ler e escrever nos períodos regularmente determinados; e contribuir para a formação de educadores.

Em fevereiro de 2001 tiveram inicio as atividades.

No campus de Rio Claro o projeto é intitulado “Educação de Jovens e Adultos: Práticas e Desafios”, coordenado atualmente pela Profª Drª Maria Rosa Rodrigues Martins de Camargo e pelo Profº Drº Álvaro Tenca, e tem como principal objetivo resgatar e propor práticas educativas que venham a contribuir para uma participação social mais efetiva dos jovens e adultos.

Contemplando os processos e conteúdos da educação escolar, a proposta ancora-se na concepção que temos de sujeito, isto é, jovens e adultos plenos de história, auto-estima (quase sempre abalada), necessidades, interesses, expectativas, afetividades e lembranças. Constitui nosso desafio, contribuir para o repensar da identidade pessoal, social, profissional, política, desses jovens e adultos, direcionando nossos esforços rumo a uma melhor qualidade de vida e permanente humanização.

Cabe ressaltar o caráter interdisciplinar do Projeto que se consolida nos aportes teóricos das atitudes interdisciplinares (FAZENDA, 1994); na atuação prática que tem seus pontos de partida, para a seleção de temas a serem desenvolvidos e/ou aprofundados ao logo do ano, no diálogo (FREIRE, 1982), e na interlocução (BAKHTIN, 1986), entre os alunos /educadores/bolsistas e os alfabetizandos/educandos; e na constituição do próprio grupo de trabalho quando vem sendo privilegiada a escolha de bolsistas oriundos de diferentes cursos de graduação (Pedagogia, Biologia, Geografia), visando à contribuição que diferentes olhares podem trazer a um mesmo tema.

Assim, participam do Projeto 5 bolsistas selecionados entre os graduandos interessados , além da participação de alguns colaboradores. Cabe ressaltar, ainda, que a participação dos alunos-bolsistas no Projeto, visa à contribuição para sua formação como educadores.

O Projeto se desenvolve mediante encontros semanais entre coordenação, bolsistas e voluntários para estudo de textos sobre assuntos ligados às atividades de ensino e à iniciação investigativa, relatos dos trabalhos desenvolvidos nas turmas, entre outras coisas.

Atualmente, são beneficiários do Projeto educandos da comunidade interna e externa a UNESP, com níveis de escolarização desde a alfabetização até o Ensino Médio, compondo as seguintes turmas: Alfabetizando na Biblioteca, Funcionários na UNESP, Jardim Esmeralda, Consulado da Mulher e Comunidade na UNESP.

O presente trabalho foi desenvolvido junto à turma “Comunidade na UNESP”. Essa turma é constituída por oito educandos entre funcionários da UNESP e pessoas da comunidade, tendo como características principais os diferentes níveis de escolaridade – Ensino Fundamental e Ensino Médio – e também os diferentes interesses pelo estudo – certificação e a vontade de aprender.

Os encontros ocorrem diariamente num total de 10 horas semanais. As atividades desenvolvidas abrangem os conteúdos dos diferentes níveis de escolaridade organizados, coletivamente, a partir do interesse e curiosidade dos educandos.

Para a elaboração coletiva do Programa de Ciências, a ser desenvolvido durante o segundo semestre de 2002, foi realizada uma atividade com a leitura do texto “O Joãozinho da Maré” (CANIATO, 1987), objetivando tanto refletir sobre o processo de ensino aprendizagem, quanto selecionar conteúdos de interesse dos educandos.

O texto apresenta alguns episódios da vida escolar de Joãozinho, um garoto morador da Favela da Maré do Rio de Janeiro. A tônica destes episódios são as inquietações e curiosidades do menino, considerado pelo autor um sobrevivente de nosso sistema educacional. A figura de Joãozinho cativou os educandos, que destacaram em seus comentários a postura do menino. Durante a discussão, os educandos, demonstraram interesse em estudar o corpo humano.

Diante desse interesse, elegemos como temática o corpo humano, e para iniciar as atividades selecionamos a matéria “Como ter um coração saudável”, da revista Veja de 24 de Julho de 2002. Algumas idéias nortearam a escolha dessa reportagem: o assunto era atual e relevante (DI PIERRO, 2001, p.75); permitia uma abordagem do corpo humano a partir da discussão da concepção de vida saudável; e possibilitava um trabalho interdisciplinar na medida em que trazia um gráfico (para explorar em atividades de matemática), uma imagem (para trabalharmos em aulas de língua portuguesa), além da possibilidade de intervenção com outras disciplinas.

No dia 16 de Agosto (sexta-feira), demos inicio a esse trabalho com a leitura da introdução da matéria (BUCTHALLA, p.78-79). As primeiras discussões foram torneadas por várias dúvidas, curiosidades e comentários que não se limitaram apenas ao assunto abordado pela reportagem, mas que denotavam grande vínculo com o cotidiano do educando. Assim surgiram questões sobre o funcionamento dos órgãos dos sentidos humanos e a comparação destes com o de outros animais. Com relação à matéria os educandos fizeram alguns comentários relacionados a sua experiência de vida como:

- “Antigamente era natural... as frutas, as verduras não tinham produtos químicos”;

- “Estresse é de abandonar o sítio e vir para a cidade”;

- “O povo antigamente andava mais a pé e de bicicleta, e hoje não”;

- “Aonde vai o sangue? De onde vem?”

Ao final da aula ficamos em dúvida em como dar continuidade à atividade, visto que se discutiu muito mais sobre outras questões do corpo humano não relacionadas diretamente à reportagem. Tanto que em nossos registros tinha tal anotação: próxima aula, trazer receitas de óculos, trabalhar visão.

É importante ressaltar que o planejamento das atividades tem como suporte os registros feitos durante os encontros, sendo que esses registros são lidos e relidos cuidadosamente, de modo a resgatar trajetórias e estimular o exercício da memória, um dos fundamentos de uma prática docente interdisciplinar (FAZENDA, 1994).

Enquanto refletíamos sobre o andamento das aulas de ciência, demos continuidade no planejamento das demais disciplinas. Assim, no dia 20 de Agosto (terça-feira), trabalhamos na aula de matemática o gráfico (BUCTHALLA, p.82 ) da matéria utilizada na aula de ciências.

A leitura do gráfico teve como eixo central a discussão da importância de possuirmos os dados apresentados daquela maneira. Assim iniciamos a aula perguntando aos educandos: o que o gráfico nos diz?

Conforme a atividade foi se desenvolvendo, os educandos foram levantando alguns pontos: número de óbitos por doenças cardíacas é alarmante (300.000 por ano, no Brasil ); atualmente a maior parte das vítimas são jovens e mulheres.

Essas atividades, aliadas à história de vida dos educandos, expressa nas suas colocações e preocupações, possibilitaram o estabelecimento de um objetivo coletivo: a elaboração de uma campanha de prevenção de doenças cardiovasculares, destinada à comunidade universitária.

Para a efetivação da campanha foi proposta pelos educandos a produção de cartazes, o quais deveriam conter ilustrações e informações sobre as referidas doenças. Na discussão sobre a seleção das informações mais relevantes, definiu-se que os cartazes apresentariam a seguinte configuração: definição de infarto; principais causas e os meios de prevenção. O item “definição de infarto” gerou certa polêmica, pois os educandos apresentavam posicionamentos contrários acerca do conhecimento que os universitários teriam do conceito de infarto. Isso levou os educandos a realizarem uma pequena pesquisa (entrevista) com seu público-alvo, para verificar o conhecimento destes a respeito da definição de infarto. O resultado da pesquisa surpreendeu a todos, visto que, era mais provável o conhecimento do que o desconhecimento comprovado pelas entrevistas; isso encerrou a questão, a definição de infarto faria parte dos cartazes.

O processo de produção dos cartazes envolveu duas etapas principais. A primeira etapa foi marcada por buscas intensas, por parte dos educandos e educadores, sobre o tema em estudo. Essa busca, que passa pela necessidade de escrita dos textos pelos educandos, tem como destaque a construção coletiva dos mesmos, a qual assumiu a conformação de um intenso processo de formação de escritores.

Dois acontecimentos são destacados: uma atividade de pesquisa diferenciada e a contribuição de um educando.

A atividade realizou-se na biblioteca da Universidade, na sala de pesquisa de bases de dados eletrônicos. Essa atividade possibilitou contato dos educandos com novas ferramentas de pesquisa, visto que a proposta era pesquisar, com o auxílio de buscadores disponíveis na rede mundial de computadores (Internet), informações sobre o tema doenças cardiovasculares – infarto. Ao final da atividade foi selecionado um dos textos consultados (CORONARIAS.COM...) para reprodução impressa, resultando em material de leitura.

Um dos educandos comentou sobre a notícia veiculada por uma emissora de rádio, de que o consumo de álcool diminui as probabilidades de infarto nos seres humanos. A declaração durante uma aula expositiva causou polêmica e, até mesmo, um certo descrédito. Contudo, a informação que foi registrada, foi confirmada posteriormente quando um dos educadores encontrou um artigo (PIVETTA, p. 40-43, set. 2002), na Revista Pesquisa FAPESP de setembro de 2002, sobre um trabalho científico que vinha sendo desenvolvido no Instituto Dante Pazzanese de São Paulo. O artigo também foi reproduzido, tansformando-se em material de leitura.

A segunda etapa envolveu a busca por materiais e modos de apresentação dos mesmos que fizessem com que a campanha fosse clara, compreensiva e alcançasse o objetivo de informar sobre a doença e modos de prevenção.

Tais buscas expressam a conjugação do trabalho em sala de aula com as observações intensas e constantes do cotidiano, resultando na coleta de diversos materiais/subsídios para a produção da campanha.

Faz-se necessário ressaltar que apesar de enunciar e descrevermos as etapas separadamente - por questões didáticas – verifica-se em vários momentos uma interface de ambas.

Entendemos como resultado, além da confecção de cartazes que foram afixados nos murais do campus, o contato efetivo dos educandos com parte do conhecimento sistematizado sobre o assunto, visto que não se estudou simplesmente para cumprir um programa, mas tendo em vista a transformação de uma realidade social – elevado índice de problemas cardiovasculares -; a oportunidade efetiva de inserção na comunidade; e a tentativa/perseguição de uma postura interdisciplinar, entendida segundo Ivani Fazenda (1994, p.82), por:

Uma atitude diante de alternativas para conhecer mais e melhor, atitude de espera ante os atos consumados, atitude de reciprocidade que impele à troca, que impele ao diálogo – ao diálogo com pares idênticos, com pares anônimos ou consigo mesmo – atitude de humildade diante da limitação do próprio saber, atitude de perplexidade ante a possibilidade de desvendar novos saberes, atitude de desafio – desafio perante o novo, desafio em redimensionar o velho – atitude de envolvimento e comprometimento com os projetos e com as pessoas neles envolvidas, atitude, pois, de compromisso em construir sempre da melhor forma possível, atitude de responsabilidade, mas, sobretudo, de alegria, de revelação de encontro, enfim, de vida.

Acreditamos assim, que a leitura, instrumento utilizado para implementação da proposta de construção coletiva de programa de ensino, apresentou ação potencializada por ocorrer em um ambiente interdisciplinar.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BAKHTIN, M. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Hucitec, 1986

BUCTHALLA, A. P.; NEIVA, P. B. ; PASTORE, K. Como Ter um coração saudável. Veja, São Paulo, ano 35, n. 29, p. 78-85, 24 jul. 2002.

CANIATO, R. O Joãozinho da Maré. Consciência /Com Ciência na Educação. Campinas: Papirus, 1987, p. 27-35

CORONARIAS.COM: site dedicado à informação sobre uma das mais terríveis e mortais doenças, acometendo milhões de adultos no Brasil e no mundo. Disponível em: < http: // oeboli.site.uol.com.br>. Acesso em 21 jul. 2003

DI PIERRO, M.C.; JOIA, O.; RIBEIRO, V.M. Visões da Educação de Jovens e Adultos no Brasil. Caderno CEDES / UNICAMP.



FAZENDA, I. A Construção de Fundamentos a partir de uma prática docente interdisciplinar. IN: Interdisciplinaridade: História, teoria e pesquisa. Campinas: Papirus, 1994. FAZENDA, I. A Construção de Fundamentos a partir de uma prática docente interdisciplinar. IN: Interdisciplinaridade: História, teoria e pesquisa. Campinas: Papirus, 1994.

PIVETTA, M.; Infarto o que causa ou evita. Pesquisa FAPESP, São Paulo, nº 79, p. 40-43, set. 2002
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