Leituras da Pedra do Reino: representações da ditadura militar na obra de Ariano Suassuna. Christiane Marques Szesz Universidade Estadual de Ponta Grossa



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Leituras da Pedra do Reino: representações da ditadura militar na obra de Ariano Suassuna.

Christiane Marques Szesz

Universidade Estadual de Ponta Grossa
A Pedra do Reino é formada por cinco livros compostos por folhetos. Escrito entre 1958-1968, e publicado em 1971 o livro narra a sina histórica de Quaderna, o personagem de maior complexidade de Ariano Suassuna. Sua história sintetiza todas as tragédias e esperanças do Brasil.

No início do livro o leitor é informado que Quaderna está preso, no ano de 1938. Sob essas condições adversas, o herói-intelectual resolve escrever a obra que o imortalizará como gênio da raça. Na cadeia, pois, Quaderna inicia a narrativa da história de sua vida.

O imaginário taperuense de Quaderna assemelha-se à vida de Suassuna. Ao ambientar a narrativa d’A Pedra do Reino na década de 1930, Ariano Suassuna procurou fazer um acerto de contas com seu passado. Nos primeiros anos de sua vida, Ariano viu seu pai ser assassinado, o mundo de sua infância ser destruído, e posteriormente reconstruído em torno de sua mãe, no sertão. A família Suassuna sofreu conflitos diversos na Paraíba quando seu pai, governador da Paraíba, foi assassinado por motivações políticas, gerando grandes conflitos que levariam a Guerra da Princesa, ao assassinato de João Pessoa e às especificidades da Revolução de Trinta no "norte". Porém, a história vivida pelo personagem Quaderna em Taperoá1, o interrogatório, as atitudes do juiz corregedor que o interrroga, as denúncias sobre as perseguições aos comunistas, às 2discussões sobre o poder, críticas à política e à igreja são uma referência ao contexto do autor e de seu texto (1958-1968): ou seja, A Pedra do Reino é, principalmente, uma denúncia das arbitrariedades, violências, torturas e mortes perpetradas pelos militares no pós-1968. Enfim, 1938 refere-se, na verdade, a 1968.
O ESTADO AUTORITÁRIO SEGUNDO QUADERNA
O período pós-1964 apareceu na história do Brasil marcado por um novo discurso. Entre os elementos desse discurso encontramos a afirmação de um projeto político de um Estado que se auto-impunha a tarefa de promover a inovação moral e política de toda a sociedade através de novas estratégias de dominação que passaram a empregar novas formas de controle social, dirigidas agora de maneira cada vez mais centralizadora à sociedade como um todo.

Com golpe de 1964 os militares vislumbravam o poder, mas tinham como projeto um centro de poder que passou, através de sua ideologia, a ser exclusiva na mobilização da população e cuja integração de indivíduos e grupos sociais levaria a construção de um novo Estado.

Baseado num ideal já desenvolvido por vários regimes autoritários a nova proposta política foi disseminada no Brasil por alguns segmentos da sociedade. Impulsionados pela imagem da desordem no Brasil no governo de João Goulart, os militares acabaram com a existência dos partidos políticos com o apoio das classes médias conservadoras.

O regime iniciou a sua tarefa de construir um novo homem e uma nova nação. O golpe de 1964 representava a confirmação daquilo que se instalara em Taperoá: ditadura, repressão e violência.

Segundo Quaderna houve muitas perseguições políticas em Taperoá durante o ano de 1930 e 1935. Por exemplo, o desaparecimento de Sinésio (quando Taperoá foi tomado por uma caravana de miseráveis), filho de seu padrinho assassinado, que desaparecera misteriosamente, era sempre relacionado às revoluções ou tentativas de insurreições do Brasil do período. Relacionava-se o sumiço de Sinésio às rebeliões sertanejas, ou aos tiroteios e greves comunistas que tiveram o Recife como centro, ou ainda a Guerra do verde e vermelho. Veja-se essa descrição:
Do ponto de vista geral do Brasil, com o tenso e carregado ambiente político que estávamos vivendo desde a revolução comunista de 1935 e o golpe de estado de 10 de novembro do ano passado, 1937, a nossa vila estava subvertida por muitos ódios, ressentimentos, ambições e invejas, meio endoidecida por um ambiente inquisitorial de denúncias, suspeitas, cartas anônimas e traições, as vezes as mais inesperadas.

De fato desde novembro de 1935, depois da frustada insurreição comandada por Luís Carlos Prestes, chefe dos comunistas brasileiros, a repressão vinha sendo violenta. Estavam presos ou exilados inúmeros comunistas e liberais de esquerda da Aliança Nacional Libertadora, partido que desencadeara a revolução e fora colocado fora da lei. Durante certo tempo, o presidente Getúlio Vargas parecera se aliar ao partido de extrema direita, a ação integralista brasileira, chefiada por Plínio Salgado (aquele mesmo que o nosso Samuel tanto admirava, colocando-o ao lado do general Francisco Franco e o Doutor Antônio de Oliveira Salazar, os três formando a grande esperança de restauração do grande império da Nova Ibéria. Mas, de repente, sem que ninguém esperasse por aquilo, o Presidente Vargas deu um golpe no dia 10 de novembro de 1937, suspendendo as eleições, as garantias constitucionais, estabelecendo uma rigorosa censura, instituindo o famosos Tribunal de Segurança Nacional e colocando os integralistas fora da lei como fizera já, dois anos antes, com os comunistasEsperava-se para qualquer momento, um revide dos integralistas. Acabou a ano de 1937 e entramos por este de 1938. Passou janeiro, passou fevereiro, e entramos pelo mês de março. Aí, de repente, começaram a correr boatos aterrorizantes . Diziam que no dia 10 de março, tinha havido uma primeira tentativa de insurreição integralista, no Rio, tentativa que não chegara propriamente a falhar nem triunfar porque fora suspensa na última hora, tendo chegado os chefes integralistas à conclusão de que não havia, ainda, condições para o golpe de mão. Diziam, porém, que este viria agora, a qualquer momento, mais forte do que nunca.

Do nosso ponto de vista, porém, o grave é que o chefe mais importante daquela tentativa fora, ninguém mais ninguém menos do que o Contra-Almirante Frederico Villar. Quando eu soube disso, estremeci, vendo o alcance do fato para o Brasil em geral e para a Paraíba e o Cariri em particular. O Contra Almirante Frederico Villar pertencia a uma família estabelecida desde o século XVIII em Taperoá, onde era proprietária de terras.

Estava-se nesse ambiente , quando chegou a villa de Taperoá um certo corregedor, homem poderoso e perigoso, aumentando os boatos que já corriam sobre a situação política. Por falta de sorte minha, fora então nesse ambiente carregado de ameaças que achara de suceder o desenlace de toda aquela terrível desventura, na qual eu me metera em 1912, e que assumira aspectos graves em 1930, culminando com os acontecimentos desencadeados de 1935-1938 com a chegada do rapaz do cavalo branco 3.


Muito embora Quaderna situe os acontecimentos em 1935 e posteriormente em 1937, transparece o contexto do autor: 1968

Nesse ambiente, a ditadura buscou legitimar-se por meio da criação de um inimigo comum: o comunismo. Nos discursos, o comunismo era o inimigo mais perigoso da civilização.

Os comunistas representavam uma ideologia de esquerda que questionava as premissas do capitalismo e das lideranças que se diziam representantes da burguesia. Os comunistas tentaram se organizar internacionalmente para transformar o mundo de acordo com suas concepções políticas. Desse modo, foram os que mais impulsionaram a ação da polícia e da repressão. E se tornaram o alvo mais comum das denúncias e repressões.

A ditadura construiu um forte discurso anticomunista fazendo com que grande parte da população se tornasse favorável e receptiva a qualquer manifestação que os apresentasse como inimigos que impediam o Brasil de progredir economica e socialmente.

No romance este discurso se expressa na voz das autoridades de Taperoá. Logo depois que Taperoá é tomada pela caravana daqueles que acompanhavam Sinésio, houve uma emboscada, e as autoridades foram chamadas às pressas para controlar a situação. O Comendador Basílio Monteiro, presidente da Irmandade das Almas, fez então um longo discurso contra o comunisno e, neste discurso, afirmou ser este um grande inimigo do progresso:
(...) O Comunismo, lobo disfarçado de ovelha, prepara seu assalto às instituições, e somente os cegos é que não viram, ainda o perigo que nos cerca por todods os lados, ameaçando retirar Deus dos altares, a Pátria do convívio das nações e a Família de sua posição inabalável de centro da sociedade. (...) O fantasma vermelho do Comunismo ameaça-nos por todos os lados. Os cidadãos pacatos não podem mais trabalhar, porque os comunistas e revoltados de toda natureza inventam, a toda hora, greves, picuibhas e agressões e atentados de todo o tipo, para perturbar o progresso e o trabalho produtivo e ordeiro 4 .
Os comunistas representavam um inimigo a combater. Na medida em que negavam a cooperação com o Estado e com a sociedade, apregoada pelo regime autoritário, os comunistas atrapalhavam a formação de uma sociedade harmoniosa.

Desse modo além de criar o inimigo o regime militar passou a perseguir os manifestantes de esquerda. Perseguições, torturas e mortes ocorreram principalmente após 1968. E o comunismo tornou-se o inimigo da nação. No romance há uma representação das torturas e desaparecimentos de pessoas inocentes. Isto é perceptível quando Quaderna descreve alguns crimes que aconteceram em Taperoá:


(...) Entre o ano de 1935 e este de 1938, tinham começado a aparecer uns crimes estranhos, entre nós. Três, sobretudo tinham impressionado mais do que os outros porque segundo o falatório da rua, vigiava, oculto dentro deles e entre outras implicações, o terrível problema político.

O primeiro fora, a princípio, encarado sob outro ângulo. O Sacristão de nossa paróquia lá um dia amanhecera morto a tiros , na porta de sua casa. Todas as manhãs, ele saía para bater o sino das seis horas, e naquele dia fora morto por um desconhecido que fugira . Primeiro atribuiu-se o crime a problemas pessoais : diziam que a mulher o enganava, motivo pelo qual ela e o amante eram os mandantes. Mas depois, por maledicência, quiseram envolver o nome do Padre Renato na história. Ora, o Padre Renato era inatacável, do ponto de vista da castidade sacerdotal. No trato com as mulheres não se conhecia um deslize seu – ao contrário da maioria de seus antecessores. Mas era odiado pelas pessoas que na rua tinham idéias parecidas com as de Clemente. Isto porque era intransigentemente “conservador e obscurantista”. Sua honradez pessoal, no caso, até aumentava o rancor das pessoas que o hostilizavam: gostariam de ter motivos para falar mal dele e não encontrando facilmente transformavam em ódio a aversão inicial. Por outro lado bastaria essa hostilidade do pessoal de Clemente contra ele para tornar o Padre Renato simpático à outra ala, a de Samuel: entre estes, o Padre Renato era considerado, não digo um santo, mas uma espécie de forte, um bastião e fortaleza da Igreja em nossas paragens sertanejas.

Talvez tenha sido, portanto, o pessoal de Clemente que desejou envolver o nome do Padre Renato no crime. Já o pessoal de Samuel começou a espalhar a versão de que a morte do sacristão tinha sido realizada pelos comunistas, dispostos a atingir o Padre Renato através de seu auxiliar de confiança.

O ambiente tornava-se, aliás, cada vez mais propício a esse tipo de acontecimentos e de histórias. A morte de Elza Fernandes que fora condenada e executada, ao que se dizia por ordem pessoal e especial de Luís Carlos Prestes, chefe dos comunistas brasileiros, tornava tudo crível e tudo possível, no ambiente nacional. Mas logo esse ambiente estranho contagiaria até nossa pacata Vila.

Um dia, pouco tempo depois da morte do sacristão, um rapaz da Burguesia urbana de Taperoá, apesar de Samuel Coura ser aparentado com um dos chefes políticos mais prestigiosos do Cariri, o Coronel Joaquim Coura era irmão de um rapaz misterioso Adalberto Coura( ...). Diziam que Adalberto Coura “voltara comunista”; que tivera, no Rio, uma entrevista secreta com Luís Carlos Prestes; e que no Recife entrara em contato com Silo Meireles e outros chefes revolucionários, de modo que seu reaparecimento inesperado entre nós seria ligado a uma missão secreta de que fora encarregado para o sertão.

Aí foi a vez do pessoal de Clemente: começaram a aparecer boatos de que, de fato, a emboscada na qual morrera Samuel Coura tinha sido preparada para matar seu irmão Adalberto, que deveria ter sido assassinado, a mando dos proprietários e integralistas, como represália pela morte do sacristão.

O pai de Adalberto Coura já andava apavorado com as idéias novas do filho. Tivera inúmeras discussões com o rapaz, de modo que o ambiente da casa já estava ficando insustentável para Adalberto. Com a morte de Samuel, a tempestade chegou ao auge, e o velho Feliciano Coura, chamado o filho estranho de Caim, expulsou-o de casa.

Foi aí que apareceu o terceiro crime: um padre moço, recentemente ordenado, e que fora enviado pelo bispo para ajudar o Padre Renato, apareceu morto, enforcado, todo mutilado e com os olhos vazados a ponta da faca 5.


As mortes de padres a que se refere Quaderna trata das perseguições da ditadura aos religiosos em Recife. Ariano afirma que tais alusões se referiam a morte do padre Henrique em 1969, assassinado pelos torturadores. Diz Ariano: “se você prestar atenção tem o assassinato de um jovem padre auxiliar do bispo, que aparece morto com os olhos vazados a faca. Isso é uma alusão à morte do padre Henrique, ocorrido em 1968, e eu fiz passar em 1938 6 .

Em 11 de abril de 1964, D. Helder Camâra chegou a Pernambuco para assumir a arqudiocese de Olinda. Dois dias após assumir a arqudiocese lançou, junto com outros dezessete bispos, um manifesto à nação através do qual religiosos afirmavam que a Igreja, no exercício de sua missão, não estava vinculada a regimes ou a governos. Defendiam também modificações na economia e a liberdade de inocentes detidos em manifestações sociais. A partir de 1966, D. Helder foi acusado de demagogia pelos militares, pois questionara a situação de miséria dos agricultores do Nordeste. Em represália, D. Helder sofreu violências e perseguições. Junto com D. Helder estavam vários padres, dentre eles o padre Antonio Henrique Pereira da Silva Neto 7 .

O padre Antonio Henrique, como auxiliar do arcebispo de Olinda, era responsável pelo setor da arquidiocese que dava assistência a juventude. Tinha posição clara e firme contra a repressão e o militarismo. Por celebrar uma missa em memória de um estudante morto, Edson Luiz da Lima Souto, passou a ser ameaçado de morte pelo Comando de Caça aos Comunistas. Preso, não resistiu as torturas e faleceu no Recife, em 26 de maio de 1969. O enterro do Padre Henrique transformou-se numa grande passeata pela cidade de Recife.

A polícia teve uma atuação importante no regime. Quaderna destaca a atuação da polícia no romance. A fala do juiz corregedoré a fórmula encontrada por Suassuna para explorar esta faceta da ditadura. No período militar o interrogatório era feito de forma a incriminar o suspeito. Entre um dos trechos do romance é possível perceber como o crime e o criminoso são construídos no discurso do corregedor: "Anote aí dona Margarida, que o depoente confessa ser comunista, se bem que um tipo especial, porque é também monarquista”. “Mais ou menos excelência”, responde Quaderna ao corregedor “eu preferia que o senhor anotasse exatamente como eu disse, Monarquista de esquerda”. “Está ouvindo, Dona Margarida ?” - disse o corregedor, escandalizado- “Está vendo como esse pessoal é perigoso e sem escrúpulos? Anote, tudo isso é muito importante ”8.

Através do corregedor e da escrivã, Dona Margarida, Suassuna recontitui o ambiente autoritário da época da ditadura.

Durante os anos autoritários, o governo conseguiu que grande parte da população se sentisse engajada na campanha cívica para a construção de um novo Brasil. Uma das campanhas mais eficazes foi a de caça aos comunistas. Através de delações, muitas vezes feitas por meio de cartas anônimas, que eram enviadas diretamente ao presidente e que seguiam um percurso até chegar ao chefe de polícia local, a população se engajava no processo de construção desse novo Brasil. Entregar um comunista à polícia tinha um significado de bravura. Este tipo de prática se tornou tão comum que muitas vezes era motivada por vingança pessoal. É o que sucede a Quaderna. Depois de um embate físico ocasional com seu rival literário, o escriturário, Quaderna foi denunciado como principal suspeito no assassinato de seu padrinho e no desaparecimento de Sinésio 9.


Naquele dia 13 de abril, Quarta feira de trevas deste nosso ano de 1938, tudo era nefasto, aziado e desfavorável, por qualquer angulo que o encarássemos. Do ponto de vista filosófico religioso, por exemplo, era o tempo da Quaresma, isto é, era o tempo daqueles terríveis quarenta dias.

Tudo isso (aliado ao ambiente político de suspeitas e delações, assim como `a terrível e sangrenta história do rapaz do cavalo branco), pesava no meu sangue e na minha cabeça, enquanto eu caminhava, com um ar envergonhado de suspeito, sob os olhos enviesados de todos os moradores da Vila. Gente que até a véspera me tratava com alguma cordialidade, agora que minha intimação se tornara rapidamente desconhecida, torcia a cara e cortava caminho para não falar comigo. Como era de esperar, a má vontade maior vinha das mulheres, principalmente as da aristocracia rural sertaneja, damas pertencentes a um círculo do qual, bastante tempo antes, eu fora “expulso como infame”, e que agora exultavam com minha perdição definitiva, espreitando-me por trás de todas as rótulas e persianas da rua10(...)

(...)Chefiados pelo escrevente, todos aqueles lacraus e piolhos de cobra que me detestavam viram que o momento era azarado para me liquidar: mandaram carta anônima que, pela terceira vez, me transformava em suspeito, enredando-me nas teias de um processo fatal, como perigoso agente político e acusado de crime 11.
Quaderna foi responsabilizado pela morte do padrinho por vários motivos, como: por descender dos execráveis reis do sertão, por se vestir de rei nas festas populares e andar com uns e outros valdevinos, e também por ter agredido involuntariamente seu rival literário, o escrevente do Cartório de seu Belarmino Gusmão.

A exemplo deste extrato do romance, muitas delações traziam a tona o grau de vigilância e de controle a que estava submetida a sociedade no contexto da ditadura. Fatos que numa época de democracia eram tidos como corriqueiros, nesse contexto tomavam proporções desmesuradas.

Ao lançar mão do romance picaresco, Suassuna apropria-se da linguagem do riso, da sátira, e cria uma forma desoprimida de narrar a repressão e a perseguição que se instala no Brasil no ano de 1968, e também as ideías totalitárias da esquerda. Arésio, por exemplo, descreve o riso de Quaderna da seguinte forma:
O homem tem duas fontes de defesa – o choro e o riso. Mas o choro e o riso verdadeiros, aqueles fincados profundamente e cujo ritmo se alimenta de sangue e de subterrâneo. Dinis Quaderna não é alegre, Adalberto. Quem passou o que ele passou e viu o que ele viu, não pode ser alegre. O subterrâneos do sangue dele são como os meus, povoados de mortos sangrentos que flutuam no rio da desordem. Apenas enquanto eu resolvo meu conflito pelo choro e pelo suor do sangue e da violência, ele resolve o seu pelo riso: mas eu não sei qual mais despedaçado, se o meu sangue ou se o riso dele!12
Através do riso de Quaderna, o autor ironiza como o perigo do comunismo ameaçava a vida das pessoas de bem:
Logo depois da chegada desse impostor, apareceu na rua, puxado em cima de um carrinho, o tal Nazário Moura um velho doido que o pessoal ignorante daqui tem como profeta e que começou, logo, a gritar disparates, aumentando a agitação! mal ele acabou de gritar suas sandices ... Aí um bando de desocupados, assanhados pela chegada desse perigoso rapaz e chefiados por Piolho se agitou.(...)

Seu Siqueira, estava, naquela hora, tirando um retrato da velha viúva(...) Seu Siqueira é homem sério ponderado, e tem, como todos nós, horror a esse ambiente que está subvertendo até os costumes dos cachorros sertanejos! Seu Siqueira estava com a cabeça enfiada dentro da máquina de fole, equilibrada no tripé.... Foi exatamente nesse instante que o carro, impelido furiosamente de ladeira abaixo, ganhando velocidade e conduzindo o Profeta vinha aos gritos, pedindo socorro... projetou violentamente o tal Nazário para dentro da oficina de seu Siqueira... O profeta caiu com o corpo em cima da máquina (...)

Seu Siqueira, sufocado pela indignação e pelo pano preto gritou: Chuva de aleijado! É o comunismo! Até agora, Dona Francisquinha, ainda suportei essas campanhas do comunismo contra os cidadãos pacatos, mas chuva de aleijados é demais! Vou me mudar. E eu soube de fonte fidedigna, que a resolução dele é mesmo inabalável: vai se mudar para Patos onde o comunismo também está causando desordens, mas pelo menos não chegou a esse extremo de jogar chuva de aleijados na cabeça de cidadãos ordeiros e produtivos da sociedade 13.
Ariano ironiza o discurso da direita que atribuía qualquer fato as influências do comunismo. O humor satírico picaresco de Quaderna diferencia-se da comédia por ser mais intelectual que a última. Este humor surge como uma forma legítima de conhecimento e não diversão, pois, além do riso há uma sensação de aprendizado que articula elementos que aparecem fragmentados no mundo das idéias.

Outro tema presente no livro refere-se à revolução. Esse tema aparece no romance na voz de Adalberto Coura, Quaderna e Arésio.

Adalberto Coura era um rapaz magro, alvo, com os cabelos pretos, franzino, de olhos ardentes, “que luziam como olhos de febre”, e defendia idéias comunistas. Era moço e vivia escondido em uma “água furtada” que, na palavras de Quaderna e Samuel, eram “lugares altamente próprios para todos esses lacraus e piolhos de cobra sediciosos, inimigos do Gênero humano, esconderem seus pensamentos e projetos endemoniados” 14.

Adalberto Coura aplaudira o ato tresloucado de Arésio de agredir o bispo com uma bofetada. Muito embora Arésio afirmasse, por diversas vezes, que agredira o padre apenas motivado por um ódio pessoal, Adalberto Coura acredita que a crueldade de Arésio expressava o ato de um revolucionário: “O gesto que você praticou hoje contra o bispo teve um sentido, e para, foi a prova definitiva de que você tem todas as qualidades indispensáveis a um revolucionário!”15

O comunista Adalberto Coura disse que havia chegado a hora do rompimento pela violência. Considerava também que só depois que o Sul e Recife se levantassem é que a revolução poderia acontecer16. Se fosse necessário, iriam recorrer a assassinatos e terrorismo: “Na Rússia, não foi assim que tudo começou? Disse Adalberto. Uma certa tolerância, a paz dos charcos, é programa de todos os grupos que detém o poder. A Paz, em certos momentos, só serve para favorecer a ordem constituída, o que, em nosso caso significa a manutenção da injustiça e do mal. Por isso é que precisamos começar a matar”17. E Adalberto propõe a Arésio: “Vamos aproveitar a confusão da rua você indo comigo terei condições para matar o Juiz, o Prefeito, e o Padre” 18.

Além de querer colocar a revolução em prática as teorias revolucionárias de Adalberto estavam embasadas em textos filosóficos. Ele era leitor de um livro intitulado “Pensamentos sobre o Estado. Na versão de Quaderna, o livro tinha características que fizeram Arésio rir. O anúncio na capa, de que aquela era a primeira edição, indicava que o autor esperava grande demanda de público, para logo imprimir-se outra edição. Na folha de rosto também via-se escrito:Coleção de livros eternos”, numa clara alusão à significação do livro para Adalberto. O livro tinha uma introdução minúscula e dizia textualmente: “Este livro está dividido em três partes sobre a Vida e a Verdade - decorre a última, a parte sobre o Estado, a mais importante de todas, principalmente por anunciar a realização, no mundo, do verdadeiro Estado num futuro de cuja chegada as atuais experiências e êxitos do socialismo são o primeiros arautos” 19.

Quaderna relembra que quando Adalberto Coura leu um trecho do livro, Arésio riu. O trecho dizia o seguinte: “E embora os pensamentos nele contidos não expressem com fidelidade o alto esforço mental que exigiam do autor, o leitor perceberá que eles encerram a mais elevada filosofia” 20.

Segundo Quaderna a conversa girou então em torno “dos setenta e dois aforismos que o livro” continha, e que, elaborados pelo “alto esforço mental do autor” revelavam, segundo sua própria opinião, “a mais elevada filosofia” 21.

Durante a conversa debateu-se as duas partes inicias do livro: a vida e a verdade. Arésio expressou sua opinião sobre as diferenças no mundo, e defendeu o direito à disputa e à violência: “o homem era, naturalmente, cruel e ávido e a vontade do poder era a verdadeira mola de todos os nossos atos maus”, dizia Arésio22. Adalberto, apesar de concordar com Arésio, dizia que “O estado deve existir, cada vez mais sólido e forte, exatamente para que todos os homens possam satisfazer, com perfeição e em segurança, suas necessidades e sua vontade de poder!”. E concluía: “o único remédio é a instauração do Estado, o Estado de futuro, onde o interesse de um será o interesse de todos 23.

Quaderna afirma que, além de falarem sobre a vida, também debateram sobre a verdade. “E a verdade”? disse Arésio. E Adalberto respondeu: “Chama-se verdade, Arésio, uma afirmação com a qual mais de um homem concorda. Quanto maior o número desses homens maior a importância dessa verdade. O resto é confusão. Daí eu dizer que em meu livrinho que quanto maios verdade sociais e menos verdades individuais existirem, mais progresso, compreensão e felicidade entre os homens” 24. Adalberto considerava também que as afirmações do livro eram incontestáveis, pois registrava o testemunho de todos:


o testemunho de todos os homens comprova que, no tempo da selvageria, havia um número de verdades infinitamente inferior ao de agora, com a civilização e o seu desenvolvimento. E isso era de se esperar: porque é a organização econômica total e absoluta que produz a organização das verdades parciais num todo indiscutível. Será da organização e da semelhança de todas as verdades num todo comum que decorrerá a paz de todosl. 25
Na concepção de Estado do comunista Adalberto Coura, não haveria nenhum enigma, nenhum mistério e todas as perguntas filosóficas teriam respostas absolutamente idênticas por parte de todos os indivíduos, um estado onde não existiria desordem, oposições e choques. Para Adalberto, a construção desse Estado deveria ser feita, inicialmente, pela revolução. Mas, através da educação total, seria formada uma sociedade tão perfeita que cada pessoa de uma determinada idade pensaria absolutamente do mesmo modo que outra de outra idade semelhante. Não haveria choque de gerações porque cada faixa etária seria aproveitada em setores independentes de trabalho: “E os sonhos e pensamentos extravagantes de cada indivíduo como ficariam?”, pergunta Arésio. “Também não haverá nada disso”, responde Adalberto. “Todos os pensamentos de todos os indivíduos girarão em torno das coisas e interesses do estado”. Pois, “chegará o dia em que a organização total do Estado triunfará. Haverá leis para o pensamento, para as ações, para os sentimentos, para alegrias, para os julgamentos, para as individualidades e até para as surpresas. Haverá uma conduta estabelecida e determinada para cada situação”. 26

1 A capital literária de Suassuna é Taperoá, uma pequena cidade dos Cariris Velhos, no sertão da Paraíba que ultrapassava apenas os 12 mil habitantes no censo de 1975. Taperoá foi o espaço da infância de Suassuna: ali viveu dos 6 aos 14 anos, ali estudou, descobriu a caça nas fazendas dos arredores, pertencentes a parentes ou a amigos, entre os quais a Fazenda Malhada da Onça que se torna no Romance d' Pedra do Reino a Onça Malhada da infancia de Quaderna. A relação de Ariano Suassuna com o sertão, com a terra, passa obrigatoriamente por Taperoá..



2


3 SUASSUNA, Ariano. O romance d’ a Pedra do Reino o príncipe do sangue do vai-e-volta. Op. Cit., p.187-188.

4 SUASSUNA, Ariano. O romance d’ a Pedra do Reino o príncipe do sangue do vai-e-volta. Op. Cit., 428-429.

5 SUASSUNA, Ariano. O romance d’ a Pedra do Reino o príncipe do sangue do vai-e-volta. Op. Cit, p. 259-260.

6


 Disponível em 08/10/2005 na www.nordesteweb.com.

7


 Disponível em 20/05/ 2007 na www.pe-az.com.br/domhelder/acusadores.htm.

8


 SUASSUNA, Ariano. O romance d’ a Pedra do Reino o príncipe do sangue do vai-e-volta. Op. Cit, p. 284-285.

9 Ver O romance d’ a Pedra do Reino o príncipe do sangue do vai-e-volta. Op. Cit., p. 400.



10 SUASSUNA, Ariano. O romance d’ a Pedra do Reino o príncipe do sangue do vai-e-volta. Op. Cit, p. 255.


11 SUASSUNA, Ariano. O romance d’ a Pedra do Reino o príncipe do sangue do vai-e-volta. Op. Cit, p.193.


12 SUASSUNA, Ariano. O romance d’ a Pedra do Reino o príncipe do sangue do vai-e-volta. Op. Cit.

13 Idem, p.424


14 SUASSUNA, Ariano. O romance d’ a Pedra do Reino o príncipe do sangue do vai-e-volta. Op. Cit, p. 516.


15 SUASSUNA, Ariano. O romance d’ a Pedra do Reino o príncipe do sangue do vai-e-volta. Op. Cit, p. 518.


16 SUASSUNA, Ariano. O romance d’a Pedra do Reino o príncipe do sangue do vai-e-volta. Op. Cit., p. 518.


17 SUASSUNA, Ariano. O romance d’a Pedra do Reino o príncipe do sangue do vai-e-volta. Op. Cit., p. 518-519.


18 SUASSUNA, Ariano. O romance d’a Pedra do Reino o príncipe do sangue do vai-e-volta. Op. Cit., p. 519.


19 SUASSUNA, Ariano. O romance d’ a Pedra do Reino o príncipe do sangue do vai-e-volta.. Op. Cit., p. 532.


20 SUASSUNA, Ariano. O romance d’a Pedra do Reino o príncipe do sangue do vai-e-volta. Op. Cit., p. 532.


21 SUASSUNA, Ariano. O romance d’a Pedra do Reino o príncipe do sangue do vai-e-volta. Op. Cit., p. 533.


22 SUASSUNA, Ariano. O romance d’a Pedra do Reino o príncipe do sangue do vai-e-volta. Op. Cit., p. 533.



23 SUASSUNA, Ariano. O romance d’a Pedra do Reino o príncipe do sangue do vai-e-volta. Op. Cit., p. 533.


24 SUASSUNA, Ariano. O romance d’a Pedra do Reino o príncipe do sangue do vai-e-volta. Op. Cit., p. 533- 534.


25 SUASSUNA, Ariano. O romance d’ a Pedra do Reino o príncipe do sangue do vai-e-volta. Op. Cit, p. 534.


26 SUASSUNA, Ariano. O romance d’ a Pedra do Reino o príncipe do sangue do vai-e-volta. Op.Cit. p. 535.





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