Leituras na escola: um olhar a respeito das leituras das crianças no início do processo de escolarizaçÃO



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LEITURAS NA ESCOLA: UM OLHAR A RESPEITO DAS LEITURAS DAS CRIANÇAS NO INÍCIO DO PROCESSO DE ESCOLARIZAÇÃO
Rafaela Balbino de Oliveira

UNEMAT/Sinop-MT

faelinha_balbino @hotmail.com
RESUMO: Por meio da elaboração do trabalho monográfico procuramos refletir sobre a questão de como as leituras são trabalhadas com as crianças, no primeiro ano do Ensino Fundamental. Ou seja, acompanhamos uma turma de crianças na descoberta do mundo das leituras no espaço escolar. A pesquisa foi realizada na Escola Municipal de Educação Básica “Maria Aparecida Amaro de Sousa”, com crianças de 06 a 07 anos de idade, a professora da turma do primeiro ano do Ensino Fundamental e demais professores da escola. Os dados foram construídos a partir de observações das atividades desenvolvidas pela turma, de entrevistas com as crianças e de questionário com os professores, através dos preceitos da metodologia de pesquisa “estudo de caso”. O desenvolvimento das ações da pesquisa teve início durante as atividades da disciplina “Estágio Supervisionado de Ensino Fundamental II”, no mês de maio de 2009. O interesse em realizar esta pesquisa deve-se ao desejo de conhecer o ambiente escolar no qual a criança vivencia suas experiências de aprendizagens, além de observar a importância dada pelos professores em oportunizar as crianças momentos de leituras, assim como verificar como são oferecidas às leituras para as crianças, quais os textos, em que momentos da rotina da turma as leituras são desenvolvidas.

Palavras-Chaves: Leitura, Crianças, escola.
Fala-se, constantemente, sobre a importância da leitura na nossa vida, sobre a necessidade de cultivarmos o hábito de leitura entre crianças e jovens, sobre o papel da escola na formação de leitores competentes. De fato, a leitura é uma atividade na qual se leva em conta as experiências e os conhecimentos do leitor, pois ela exige bem mais do que o conhecimento do código lingüístico, uma vez que o texto não é apenas o produto da codificação de um emissor a ser decodificado por um receptor passivo (Soares, 1989).

Quando estudamos as leituras das crianças, especificamente no início do processo de escolarização, por volta de seis anos de idade, acreditamos, como o imemorável educador Paulo Freire, que o mundo das primeiras leituras é construído desde a mais tenra idade. Pois, a criança contemporânea, desde bem pequenina, tem contato com materiais portadores de leituras no seu dia-a-dia, tais como: livros, revistas, placas, rótulos, bulas de remédios, marcas de produtos em diferentes embalagens e demais escritos.

Percebemos que os primeiros contatos com o universo escrito, simbólico, estão entrelaçados no cotidiano e são as primeiras “leituras” que as crianças fazem. Entretanto, as “leituras de mundo” da criança precisam ser desenvolvidas, e cabe a escola e aos educadores mediar este processo.

“A leitura do mundo precede a leitura da palavra, daí que a posterior leitura desta não possa prescindir da continuidade da leitura daquela. Linguagem e realidade se prendem dinamicamente. A compreensão do texto a ser alcançado por sua leitura crítica implica a percepção das relações entre o texto e o contexto.” (Paulo Freire, 1990, p.12)


O presente texto apresenta algumas das reflexões realizadas na execução da pesquisa de graduação em Pedagogia, na Universidade do Estado de Mato Grosso – Campus de Sinop, sob a orientação da Profa. Dra. Jaqueline Pasuch, durante os anos 2008 a 2010. Inicialmente, o motivo que sensibilizou o estudo da temática “leituras com as crianças” foi devido ao desejo de conhecer o ambiente escolar no qual a criança vivencia suas experiências de aprendizagens, observar a importância dada pelos professores em oportunizar as crianças momentos de leituras, assim como verificar como são oferecidas às leituras para as crianças, quais os textos, em que momentos da rotina da turma as leituras são desenvolvidas.

Relembramos a infância vivida na região do nordeste brasileiro, no Estado de Alagoas, numa pequena cidade, de poucos escritos, chamada Viçosa. Naquele tempo, a leitura foi pouco presente, o contato com a leitura foi mínimo, pois não havia livros em casa e na escola também eram poucos e disputados os exemplares. Consideramos que a falta de leitura durante a infância é um fator fundamental para a formação de hábitos de leituras e de lembranças das boas experiências que as histórias nos trazem.

Assim, para que as análises desta pesquisa, que aborda a questão das leituras das crianças na escola, possam contribuir com a formação de sujeitos leitores, acreditamos que todos nós devemos auxiliar as crianças para desenvolver o gosto pela leitura. Trazemos à memória a importante ação de uma querida tia professora que, ao perceber as condições e as dificuldades para ler minha e de minha família, passou a nos presentear com livros. Desde então, passávamos horas contando as mesmas historinhas para as bonecas e ursos de pelúcia. Eram momentos de grande magia e encanto com os desenhos e as fantasias que as leituras proporcionavam!

Sabemos que para a criança o processo de aprendizagem da leitura, assim como o da escrita, precisa ter significado para que ela possa se interessar pelo que está aprendendo. As crianças passam a prestar atenção à leitura e à escrita das palavras quando estas começam a fazer sentido para elas. Recordamos que em nossa experiência escolar, raramente ouvíamos histórias, mas sentíamos muita falta daquele universo. Hoje, sabemos como é importante que isto aconteça desde os primeiros anos de vida das crianças.

Por meio da elaboração do trabalho monográfico procuramos refletir sobre a questão de como as leituras são trabalhadas com as crianças, no primeiro ano do Ensino Fundamental. Ou seja, acompanhamos uma turma de crianças na descoberta do mundo das leituras no espaço escolar. A pesquisa foi realizada na Escola Municipal de Educação Básica “Maria Aparecida Amaro de Souza”, com crianças de 06 a 07 anos de idade, a professora da turma do primeiro ano do Ensino Fundamental e demais professores da escola. Os dados foram construídos a partir de observações das atividades desenvolvidas pela turma, de entrevistas com as crianças e de questionário com os professores, através dos preceitos da metodologia de pesquisa “Estudo de caso” (Sarmento, 2003).

Durante o período da pesquisa procuramos observar as atividades desenvolvidas pela professora da turma do primeiro ano do ensino fundamental, desde o planejamento pedagógico, as atividades desenvolvidas em sala de aula e no espaço externo da escola, até os momentos específicos de realização de leituras e contação de histórias. No acompanhamento das ações pedagógicas da professora da turma, foi possível perceber que, diariamente, a mesma planejava e realizava leituras com as crianças. Conseqüentemente, incentivava as crianças para ler, demonstrando ser uma professora que a todo o momento enfatizava a importância do hábito de ler para as crianças.

Durante as observações do dia-a-dia da turma do primeiro ano, percebemos que o professor planejava atividades que envolviam leituras diferenciadas, momentos de contação de história, de interação das crianças com a biblioteca ou espaço de leitura com um acervo amplo e diversificado, a meu ver apropriados para cada idade, proporcionando às crianças momentos significativos de leitura, onde elas aprendem a ler lendo e, principalmente, desenvolvendo o gosto pelas leituras.

A ação do professor que trabalha com crianças pequenas é de mediador das relações entre as mesmas e os diversos universos sociais nos quais elas interagem, possibilitando a criação de condições para que elas possam, gradativamente, desenvolver capacidades ligadas à tomada de decisões, à construção de regras, à cooperação, à solidariedade, ao diálogo, ao respeito a si mesmas e ao outro, assim como desenvolver sentimentos de justiça e ações de cuidado para consigo e para com os outros.

A criança lê do seu jeito muito antes da sistematização da alfabetização na escola. Ela aprende observando o gesto de leitura dos outros – professores, pais ou outras crianças. O processo de aprendizado começa com a percepção da existência de coisas que servem para ser lidas e de sinais gráficos. Para Soares (2005), esse aprendizado chama-se letramento: “É o convívio da criança desde muito pequena com a literatura, o livro, a revista, com as práticas de leitura e de escrita”. Magda Soares ressalta que não basta à criança ter acesso aos materiais, mas sim estar envolvida em práticas para que aprenda a usá-los, tais como: roda de leitura, contação de histórias, leitura de livros e brincadeiras com livros.

Além da importância da leitura, queremos destacar também o valor inquestionável do espaço organizado para a realização das leituras. Podemos construir uma “biblioteca” com as crianças na sala de aula e desenvolver inúmeras atividades para o incentivo da leitura. Presenciamos vários momentos durante a realização da pesquisa em que as crianças chegaram com livros literários e pediam para a professora fazer a leitura. A mesma era feita com muito entusiasmo pela professora que sempre explicava: “Agora nós iremos fazer a leitura do livro que o nosso coleguinha de classe trouxe!” Após ler a história, mostrava as ilustrações para as crianças, momento no qual se percebia que as crianças entravam na história e no mundo imaginário proposto pela narrativa.

Ao indagar a professora Rosa, do primeiro ano, se ela acredita que trabalhar a leitura desde a infância auxilia no desenvolvimento da criança, ela responde:

Com certeza, quanto mais cedo à criança for inserida no mundo das letras, mais cedo ela se desenvolverá. À medida que a criança vai adquirindo conhecimentos (senso comum), vai também proporcionando um melhor desenvolvimento no momento da leitura, uma vez que essa criança já tenha uma determinada bagagem de conhecimento, o que proporciona uma compreensão e possivelmente até o senso crítico da criança conforme a leitura.

Na escola pesquisada pude acompanhar o desenvolvimento de um projeto de leitura chamado de “sacola do tesouro”. O mesmo propõe a participação familiar no processo de ensino e aprendizagem, com ênfase na leitura auditiva, visual e reprodução de histórias. Procura desenvolver a seqüência lógica na recontação das histórias feitas pelas crianças, o que necessita da colaboração dos pais e responsáveis para o desenvolvimento das atividades. Geralmente, duas vezes por semana, são oferecidas as “sacolas de livros” para duas crianças levarem para casa e fazerem a leitura dos livros com os pais. No dia seguinte, elas contam a história lida em família, na sala de aula, para seus colegas de classe. No período das observações as crianças do primeiro ano, ainda não dominavam a leitura de todas as palavras, mas reproduziam os acontecimentos da história, pois em casa os pais ou responsável já haviam feito a leitura para elas, ou muitas vezes seguiam as pistas dos desenhos do livro. Após o momento da criança contar a história, discorrer o que entendeu ou o que mais gostou no livro de história, a professora fazia a leitura da história, com entonação especial, para que todas as crianças ouvissem. Eram momentos de muito encanto, onde as crianças ouviam atentas e depois debatiam a história com a professora e os colegas.

No decorrer da pesquisa tivemos a oportunidade de participar e de nos encantar com os momentos em que as crianças estavam descobrindo o universo mágico das leituras. Seja no desenvolvimento das atividades do projeto “sacola do tesouro”, seja na descoberta dos significados das letras de seu entorno cultural, como também nas leituras de sala de aula, as leituras de escritas do quadro, onde a professora realizava as leituras de todas as atividades propostas à turma e solicitava a participação de todas as crianças. Percebemos que nas leituras coletivas, em voz alta, crianças e professora criavam uma ambiência lúdica, de prazeres, afetos e muitos sorrisos.

Conversei com as crianças a respeito da leitura, em três momentos diferentes: primeiro com “Branca de Neve” (seis anos); “Cinderela” (sete anos) “Chapeuzinho Vermelho” (sete anos). Num segundo momento com “Pequeno Polegar” (sete anos) e “Peter Pan” (seis anos); e, posteriormente, conversei com “Alice” (sete anos) e “Cachinhos Dourados” (seis anos). Iniciamos a conversa com as crianças, perguntado se gostavam de histórias. “Chapeuzinho Vermelho” respondeu: “- Eu gosto, faz a gente aprender a ler e também ficar mais esperto”. “Branca de Neve” complementa: “- Também a gente aprende a fazer o ba, be, bi, bo, bu, por causa que tem os bo os ba”. E “Chapeuzinho Vermelho” ressaltou: “E também a gente pode escrever e daí fazer nossa tarefa sozinha por isso tem que ler historinhas". Já na conversa com “Peter Pan” e “Pequeno Polegar”, os mesmos responderam que gostam de ouvir e ler histórias. A fala de “Peter Pan” é bem ilustrativa do momento e do empenho que está fazendo para aprender a ler: “- Eu sei ler algumas palavras, mas outras não”. Contou que quem lhe ensinou a ler foi sua avó e relatou como tudo começou: “- Meu pai tinha um caderno do Joaninha, aí eu falei com ele se eu posso pegar para mim o caderno do Joaninha. Aí, aí ... ele deu para mim o caderno do Joaninha, aí minha avó ta passando um monte de tarefa para mim” (“Peter Pan”).

Constatamos em nossas conversas com as crianças que todas as crianças gostam muito de ouvir histórias, seja qual for a sua idade, conseqüentemente este hábito deve ser desenvolvido desde muito cedo, iniciando pela educação infantil, mesmo quando já é feito pelos pais em casa. Quando a criança ouve uma história, recebe uma herança cultural da família muito grande, além de amor e carinho. É um modo de educar de maneira completa, que transmite a própria mensagem que o conto e outras narrativas pode oferecer. É nesse sentido, que os mesmos devem ser trabalhados, num aspecto dinâmico e criativo, de maneira que faça com que o leitor consiga interpretá-los, desenvolvendo a capacidade imaginária e o senso crítico.

Foi uma experiência bastante importante em minha vida. A trajetória de formação de uma Pedagoga que se lança no mundo da infância e descobre os encantos de ser professor!


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EFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler: em três artigos que se complementam. 23º ed. São Paulo: Cortez,1989.

Sarmento, Jacinto Manuel. O estudo de caso etnográfico em educação IN: ZAGO, Nadir; CARVALHO, Marília P.; VILELA, Rita A. (Orgs). Itinerários de pesquisa: perspectivas qualitativas em sociologia da educação. Rio de Janeiro: DP&A, 2003.



SOARES, Magda. Linguagem e escola – uma perspectiva social. 7ª ed. São Paulo: Ática, 1989.


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