Lembranças sobre o Caboclo Eduardo em Itaparica



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Lembranças sobre o Caboclo Eduardo em Itaparica
Milton Moura

Universidade Federal da Bahia

mmmmoura@terra.com.br
1 Introdução
No 7 de janeiro, em Itaparica, Bahia, comemora-se a independência. Foi neste dia que, em 1823, o pequeno exército concentrado na então vila de Itaparica, formado majoritariamente de populares – o que também significa caboclos, negros e mestiços –deteve o desembarque de parte da tropa, dificultando assim a manutenção da hegemonia portuguesa na Província. A cada ano, promove-se então uma série de manifestações cívicas e religiosas, destacando-se a apresentação dos caboclos no Centro Histórico.

Observam-se festejos semelhantes em pelo menos outras dez localidades, compreendendo a capital, o Recôncavo e o Baixo Sul: Bom Jesus dos Passos, Cachoeira, Itacaré, Jaguaripe, Salinas da Margarida, Salvador, Santo Amaro da Purificação, São Félix, Saubara e Valença. Os festejos acontecem na data localmente emblematizada como dia da independência. Isto corresponde ao 7 de janeiro em Itaparica, ao 25 de junho em Cachoeira e ao 2 de julho nas outras cidades. Esta última é a data oficial da independência da Bahia, rememorando o de 1823, quando os soldados baianos e os mercenários comandados por Lord Cochrane puderam entrar livremente em Salvador, tendo os portugueses batido retirada desde a madrugada, consumando o resultado de negociações que até hoje parecem não ter sido completamente elucidadas.

O elemento comum a esses festejos é o cortejo com a imagem do caboclo ou da cabocla, ou ainda de ambos, como é o caso de Salvador e Itacaré. Entretanto, percebe-se a diversidade entre as comemorações de um lugar para o outro, justamente no que diz respeito a este item que ocupa o centro do nosso objeto de pesquisa, qual seja, a figura do caboclo.

Em Itaparica, o cortejo do caboclo não parece apresentar ligação direta com o candomblé se consideramos a dimensão institucional desta tradição. Entre os membros do grupo que historicamente se colocou no centro dos festejos – Os Guaranis –, poucos têm participação em casa de santo. Isto não deixa de intrigar o pesquisador, porquanto o município de Itaparica reúne dezenas de casas de candomblé, algumas delas dedicadas ao culto de eguns, o que distingue a ilha no universo da tradição dos orixás na Bahia. Por outro lado, o estabelecido por parte da população com o caboclo Tupinambá guarda homologias e analogias com relação àquele experimentado entre o praticante do candomblé e sua casa de santo, bem como entre o devoto e o santo na vertente de catolicismo mais freqüente no meio popular. “Esse caboclo é minha vida, eu não sei o que seria de mim sem ele. Todo 7 de janeiro eu venho ver ele. Tudo que eu peço ele me dá” (A.S.G., 69 anos, 20.12.2006).

Ainda que não seja regra entre os Guaranis integrar uma casa de candomblé, não se pode elidir que o caboclo é a divindade mestiça em torno da qual se organiza todo culto afro-brasileiro que não guarda fidelidade institucional às casas detentoras do cânon oficial do saber religioso correspondente às divindades de origem africana. Neste sentido, o caboclo como entidade mística está sempre presente na cena das comemorações. Isto transparece na unção, no entusiasmo e na reverência não somente dos figurantes como de boa parte dos circunstantes quando da passagem da imagem do caboclo em cortejo. Cenas como estas dificilmente poderiam ser capturadas em linguagem ensaística convencional, sendo necessário, para tanto, o recurso a meios audiovisuais.

No caso de Itaparica, tratar-se-ia de um culto ao índio? Não parecem concordar com isto os Guaranis, que se dizem caboclos. “Caboclo é quem está no meio, quem é um pouco de branco, de índio e de preto. É o brasileiro mesmo” (L.G.S., 37 anos, em 29.01.2007). Parece não problemático, para os membros dos Guaranis entrevistados aos efeitos de compor este Projeto, que não há mais índios na ilha e no Recôncavo, na acepção de comunidades indígenas aldeadas ou que reivindiquem o reconhecimento deste traço identitário. Vejamos um fragmento de depoimento:

Os índios acabaram na ilha, não tem mais. Faz muito tempo, todos já morreram. Os que viveram se juntaram aos brancos ou foram para outros lugares. Isso já passou na televisão várias vezes. Em Porto Seguro ainda tem índios, no Amazonas também (J.J.V., 57 anos, em 24.11.2007).

Outro elemento abundantemente verificado na sondagem inicial para a construção deste Projeto reside em que isto não é motivo de lamento ou protesto.

Agora, depois do índio mesmo, ficou o caboclo. Ele não é índio nem é branco, também não é preto assim do tipo preto africano; é caboclo. Tupinambá é o caboclo de Itaparica. Em outros lugares, tem outros caboclos. Tem lugares que tem esse mesmo caboclo de Itaparica, pois cada caboclo não tem que ser de um lugar só. São vários caboclos, cada um tem um jeito um pouco diferente. Mas tudo é caboclo (J.C.J., 28 anos, em 13.01.2007).

A festa da independência em Itaparica é singular no universo das comemorações verificadas nas 9 localidades acima referidas. No dia 6 de janeiro, dá-se a puxada do carro, ainda sem a imagem do caboclo, com os fachos acesos, no início da noite. Ainda se vêem algumas mulheres que levam penas presas aos cabelos, nos dias que precedem a data da independência. No final da tarde do dia 7, temos a levada do carro já com o caboclo, que esteve por um ano abrigado no prédio da Prefeitura. No dia 9, por fim, acontece a guardada da imagem do caboclo, restando o carro na quitanda (abrigo) no centro da praça do Campo Formoso, até o ano seguinte.

A partir de 1939, o grupo Os Guaranis passou a encenar publicamente a “roubada da rainha”. Intensificaram-se então as transformações do festejo da independência, com modulações em torno da figura do caboclo. Vejamos rapidamente como se desenrola.

Antes do cortejo, acontece nos três dias a encenação em praça, constando de um roteiro consideravelmente complexo, com a duração de cerca de uma hora e meia. A rainha da aldeia, resistindo inicialmente aos galanteios de um capitão-do-mato, termina por ele seduzida e abandona os caboclos, seus súditos. Estes, sob o efeito da jurema, não dão pela fuga. Quem percebe a ausência da rainha é o Caboclo Mestre, que convoca os caboclos e chama o Caboclo Velho para se aconselhar. Este, por sua vez, chama o Caboclo Adivinhão para proceder ao oráculo de búzios.

Descobre-se onde estão a rainha e seu raptor. Uma brigada parte ao seu encalço, traz de volta a rainha e mata o intruso. Na aldeia, o clima é de constrangimento geral. Os caboclos falharam na guarda de sua soberana, devido à embriaguez; a rainha, por haver deixado sua aldeia. O Caboclo Mestre repreende a rainha, mas os caboclos clamam em sua defesa, posto que sua fuga se deu em virtude de não terem sido eles bons guardiões. Ela, então, responde colocando as mãos nas têmporas de cada caboclo, erguendo-os. Restaura-se, assim, a normalidade rompida da aldeia e todos voltam a ser felizes. No final, os caboclos saem para caçar, cantando e dançando.

Enfim, trata-se de um continuum entre encenação em praça pública e cortejo, realizado pelo grupo Os Guaranis, em torno da figura do caboclo Tupinambá, nos dias 6, 7 e 9 de janeiro, contando também com a participação da Prefeitura no que diz respeito à preparação do lugar da encenação, organização do cortejo e publicidade, além da própria presença do Prefeito e de alguns de seus auxiliares, que confere à ocasião um estatuto de oficialidade.

Uma trajetória de negociações é sugerida pela observação do hibridismo na encenação da aldeia dos caboclos de Itaparica. Combinados com a indumentária indígena cuidadosamente recriada e com a presença plástica e musical dos tamborins, arcos e flechas, alguns elementos lembram nitidamente o reisado, como a presença da rainha, da forma como se veste e leva adereços, precedida de um estandarte. Outro elemento de origem católica são os hinos, referindo-se várias vezes a Nossa Senhora e Senhor do Bonfim. Algumas cantigas parecem benditos; outras assemelham-se a pontos de candomblé de caboclo.

Através da análise deste fenômeno, reflete-se sobre a importância da mestiçagem na formação de identidades em Salvador e no Recôncavo, bem como de aspectos unificadores de uma identidade brasileira e de sua própria compreensibilidade. O caso local é visto também como oportunidade de desenvolver estudos interdisciplinares sobre o hibridismo cultural brasileiro e as questões a ele associadas.

O recorte espacial da pesquisa é o município de Itaparica, que por sua vez se estende por 32 km2 apenas, no norte da ilha do mesmo nome. Esta reúne 246 km2, abrigando também o município de Vera Cruz. Situa-se na porção sudoeste da Baía de Todos os Santos. Hoje, o município de Itaparica conta cerca de 22 mil habitantes. Sua elevada média etária decorre não somente da migração de boa parte dos jovens para Salvador e para centros mais dinâmicos do Recôncavo, como da presença de um número considerável de veranistas acima dos 50 anos, assim como aposentados que retornam à terra natal. A cidade tenta se reerguer do marasmo econômico com um certo reforço à indústria do turismo. Isto permite afirmar que a própria história de Itaparica tem sido visto pelos governantes locais como um insumo para o seu desenvolvimento.

O período compreendido pela pesquisa vem dos anos 30 do século XX até os nossos dias. Naquela década, provavelmente, intensificaram-se as transformações do festejo da independência, com diversas modulações em torno da figura do caboclo Tupinambá. A partir de então, o culto ao caboclo, combinando diversas tradições cívicas, lúdicas, religiosas e artísticas, tem estado no centro da configuração de um complexo singular de referências identitárias em Itaparica.


2 A pesquisa
Tomando como base o conteúdo dos parágrafos acima, a pesquisa A Exaltação Festiva da Mestiçagem – o Caboclo de Itaparica1 se delineia a partir dos seguintes itens:

O objeto é: a construção histórica dos festejos da festa da independência de Itaparica, em que se homenageia o caboclo em ícone maior da identidade do seu povo. Trata-se, assim, de um estudo de história local que, pela abrangência das questões aí delineadas, tem seu objeto redimensionado, alcançando dimensões regionais e nacionais.

O problema é: que relações podem ser identificadas e compreendidas entre estes festejos e as representações sobre a mestiçagem que se vêm criando ao longo deste período?

A problemática é: de que forma e em que sentido podemos afirmar que os festejos do Caboclo Tupinambá em Itaparica são uma elaboração da mestiçagem?

A hipótese é: o culto ao caboclo vem se constituindo historicamente como uma estratégia central de composição do corpus de referências de identidade mestiça cultivado em Itaparica, em virtude da dinâmica de negociações nos âmbitos étnico e político, visibilizados nos planos cívico, religioso e artístico. Como desdobramento desta hipótese, pode-se pleitear que o grupo Os Guaranis têm um papel fundamental e central neste processo histórico, porquanto, assumindo a centralidade dos festejos do Caboclo.

O objetivo geral é: analisar o processo sócio-histórico de construção de uma identidade mestiça em torno do caboclo de Itaparica, como uma construção de brasilidade caracterizada pelo hibridismo e pelas negociações em diversos âmbitos de sociabilidade.



3 Metodologia
Uma tentativa preliminar de sistematização técnica nos leva à operacionalização deste Projeto com base em alguns procedimentos relacionados às fontes disponíveis. Ora, são escassas as fontes impressas em forma de livro, bem como quase inexistentes as fontes disponíveis em arquivos locais.

Um item que resta nebuloso na reconstituição das origens da encenação instaurada em Itaparica pelo grupo Os Guaranis é o perfil e a biografia de seu próprio fundador, Eduardo Caboclo (não há registro do sobrenome), falecido há cerca de 50 anos. Os caboclos e os moradores idosos de Itaparica que seguem o cortejo dizem que este primeiro mestre fundou Os Guaranis em 1935 (outros dizem 1939). Diversas entrevistas dão conta de que nasceu em Itaparica, provavelmente nos anos vinte, tendo mudado para Nazaré das Farinhas, onde veio a se casar, retornando então a Itaparica. Depois de muitos anos à frente dos caboclos, Eduardo retornou para Nazaré, não mais voltando. Não se guardou uma única fotografia sua nem se sabe ao certo se permaneceu em Nazaré até a morte. Os relatos referem-se a um homem “grande, moreno, bem cabo-verde mesmo [cabelo liso], parecendo um caboclo”. “É pena que o senhor não tenha conhecido ele. Olhando prá ele, o povo via o Caboclo mesmo, ele era o Caboclo de Itaparica, grande, bonito, cabo verde, aquele jeito de olhar que parecia o Caboclo” (M.V.S., 73 anos, em 27.outubro.2007). Os idosos são unânimes em dizer que Eduardo trabalhou em Mocambo, então um vilarejo a cerca de 3 km de Itaparica, cuidando de roças e animais.

Os últimos parentes e contra-parentes de Eduardo já faleceram. Resta o recurso de procurar, em Nazaré, vestígios de sua vida depois de haver deixado Itaparica. Em certo sentido, pode-se dizer que o perfil de Eduardo assemelha-se ao do índio Antônio, fundador da “heresia” estudada por Vainfas (1995, p. 112). Até agora, nossos esforços não têm sido recompensados neste sentido.

É provável que, nesta passagem, outros elementos interagiram com a tradição das comemorações da independência, amalgamando-se nos festejos do 7 de janeiro. O próprio sentimento de orgulho e distinção decorra do cultivo de algumas narrativas que enaltecem a participação de Itaparica na guerra, como é o caso, principalmente, do próprio Ubaldo Osório (1979). A rede escolar local, desde pelo menos os anos 30 do século XX, tem se esmerado em incutir nos adolescentes o sentimento cívico, destacando o heroísmo dos moradores de Itaparica no passado. É significativo que justamente o neto de Ubaldo Osório, o romancista João Ubaldo Ribeiro, tenha aportado a narrativa paradigmática desta singularidade do povo itaparicano, Viva o Povo Brasileiro. A elaboração que este romance oferece da figura do mestiço – e em diversos trechos do próprio caboclo – tem sido a principal fonte para uma série de atividades culturais desenvolvidas pela Prefeitura Municipal de Itaparica a cada verão.

Para os itaparicanos mais familiarizados com a leitura, a história da cidade costuma ser lida a partir desta narrativa fundadora. É significativo este depoimento de um adolescente que participou de um auto promovido pela Prefeitura em janeiro de 2006: “Ser itaparicano é ser cultural. A cultura de Itaparica é nossa riqueza. Se não fosse a luta do povo de Itaparica, a Bahia não tinha independência” (J.G.L.F., 17 anos, 27.10.2006). Isto não é uma particularidade dos adolescentes. Vejamos o depoimento do atual Presidente do grupo: “Quando eu me visto de caboclo, canto aquelas cantigas e dançando aquelas danças, eu me sinto o Caboclo Tupinambá, me sinto o Caboclo de Itaparica. Tenho muito orgulho disso e acho isso uma riqueza muito grande. As pessoas deviam reparar mais nisso” (E.B.P., 34 anos, 18.01.2007).

Na sondagem inicial realizada para a confecção deste Projeto, não foram encontrados registros escritos da história dos Guaranis. Os mais velhos colocam algumas poucas informações, como o nome do primeiro Presidente, Justino Martins Ferreira (também conhecido como Carrinho), sucedido por seu primo Eusébio Martins Ferreira. O neto deste último, Orlando Rosa, hoje enfermo, foi o líder do grupo por mais de 20 anos, tendo passado a direção para Hildo. O atual Presidente é Emanuel Brito Pita. Entretanto, as entrevistas tanto com os Guaranis aportam informações preciosas sobre as transformações que o festejo vem sofrendo ao longo das últimas décadas.

Não se poderia excluir a reflexão sobre as homologias e analogias entre a festa de Itaparica e as outras festas dos caboclos da independência que ocorrem em vários pontos das cidades do Recôncavo. É provável que o desenvolvimento desta pesquisa permita estabelecer conexões com outras experiências do gênero, de forma que algo mais unificado em termos de região possa ser experimentado num futuro próximo. Os caboclos de Itaparica já foram convidados diversas vezes a se apresentar em cidades próximas em que se festeja a independência, como Jaguaripe e Salinas.

Nada revelou um levantamento nos arquivos dos jornais de Salvador a fim de sistematizar e compreender a forma como a imprensa escrita soteropolitana percebia e estabelecia relações com a cidade de Itaparica, em geral, e com os festejos, em particular.

Tampouco revelaram os acervos como os da Biblioteca Central do Estado da Bahia, que guarda o maior acervo de jornais da Bahia, e a Biblioteca do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, especialmente a coleção Revistas do IGHB, que contém artigos sobre costumes e práticas culturais baianas.

Resta sempre a esperança de encontrar imagens dos caboclos entre os registros fílmicos guardados nas estações de TV, a presença dos caboclos de Itaparica nos festejos do 2 de julho, à frente da imagem do caboclo. O arquivo mais bem conservado é o da TV Bahia, que guarda imagens dos anos 80 para cá. Como os caboclos de Itaparica participam do cortejo da imagem do caboclo e da cabocla nos festejos do 2 de Julho, em Salvador, serão buscadas imagens de sua presença nesta festa. Tecnicamente, tratar-se-ia de procurar, nos arquivos das emissoras de televisão, registros da festa do 2 de Julho a partir de 1960, quando foi inaugurada a primeira emissora, TV Itapuã. Até agora, nada diretamente ligado aos caboclos de Itaparica foi encontrado.

Um item importante na metodologia desta pesquisa é a captação do acento conferido por grupos e moradores locais às manifestações relacionadas ao caboclo. A tentativa de acessar o imaginário das pessoas tem o propósito de fazer valer a dinâmica da intertextualidade presente nas narrativas individuais, ao mesmo tempo em que se pode verificar o trabalho de construção de significados associadas às vicissitudes cotidianas experimentadas por tais grupos.

A dinâmica de aproximação é orientada com base em entrevistas abertas, combinadas com os registros fotográficos e/ou gravação em vídeo – quando possível e devidamente autorizado pelos sujeitos. Neste sentido, as narrativas são articuladas às sugestões produzidas pela imagem e pelos recortes sonoros. Espera-se, além de compreender o universo dos envolvidos, documentar ritmos, expressões, performances e pedagogias relacionadas ao contexto semântico do caboclo.

Para compreender o significado do caboclo entre a população mais jovem, temos o acesso garantido à rede escolar estadual e municipal. Começamos a entrevistar pequenos grupos, aproveitando horários vagos. Alguns estudantes se divertem intensamente com estórias relacionadas ao caboclo. Dizem coisas que temos tomado como matéria de reflexão, como: “O caboclo é ele aí, professor. É ele aí que sai no carro, no 7 de janeiro”. Ou seja, o colega diz que o outro igual a ele é o caboclo. Ele se representa como um caboclo, de forma lúdica, prazerosa, cômica.

É muito diversificado o grau de informação e aproximação que moradores do município de Itaparica mantêm com relação aos festejos do caboclo. Desde a simples ignorância ou indiferença ou a proximidade cheia de admiração e entusiasmo, há diversas formas de representar o caboclo. Somente um trabalho etnográfico generoso e exaustivo pode dar conta desta diversidade, que, por sua vez, poderia apontar cruzamentos e interseções entre a relação com o caboclo e outros aspectos da sociabilidade em Itaparica.

Costuma-se recorrer à oralidade quando há escassez de documentos escritos ou para preencher lacunas na documentação. No entanto, os relatos de memória não podem ser utilizadas apenas como substituição do escrito. Quando pesquisamos grupos marginalizados e das classes populares, os depoimentos são fontes de grande valor, pois, por meio dos registros orais, pode-se chegar o mais próximo possível dos valores, crenças e visões de mundo desses indivíduos.

Paul Thompson (1992), ao defender a oralidade como fonte histórica, afirma que quando os historiadores estudam os atores da História à distância correm o risco de realizar projeções e imaginações e, portanto, descrições defeituosas de suas vidas, opiniões e ações. O autor acredita que a evidência oral contribui para a construção de um relato histórico mais rico, vivo, comovente e verdadeiro.

Para estudar a festa do caboclo, é fundamental ouvir seus organizadores, participantes e mais pessoas da comunidade que assistem e acompanham o cortejo festivo. De acordo com Gwin Prins (1992), as desconfianças em relação à tradição oral acontecem em função de três características: imprecisão na forma, falta de rigor na cronologia e comprovação da comunicação; tais dificuldades podem ser vencidas com o uso de instrumentos eficazes. Marieta Ferreira (1994) sugere a elaboração de roteiros das entrevistas e a análise conjunta com outras fontes para permitir a contraprova e eliminar distorções. Neste Projeto, o trabalho com as entrevistas será acompanhado das fontes escritas, já citadas e comentadas acima, como contrapartida de busca de objetividade.

Nos meses que antecederam a preparação deste Projeto, alguns depoimentos de moradores, sobretudo daqueles diretamente envolvidos nos festejos, foram fundamentais para o desenho de alguns traços acerca da mestiçagem. Durante o festejo de 2007, um dos caboclos foi interpelado por uma visitante no sentido de se deixar fotografar. A fotógrafa solicitou que ele se virasse de lado, para que não fosse visto o short sob a saieta de penas. O rapaz sorriu e respondeu:

Não tem problema, eu não sou índio. Quem não usa short é o índio da floresta, que já foi exterminado por aqui. Isto já saiu na televisão várias vezes. Eu sou caboclo. Caboclo pode tudo, porque está no meio. O caboclo é o meio de tudo, está no meio de tudo. Pode usar short e saieta de pena que continua sendo caboclo (observação em 9.1.2007).

Outra discussão interessante é aquela que concerne à relação entre cultura popular tradicional e turistização. Alguns caboclos, sobretudo os mais velhos, detestam a expressão “atração turística” com relação aos festejos e, principalmente, à imagem do caboclo. “O caboclo já existia antes, o caboclo existe desde que o Brasil existe. O turismo veio depois”. Já a expressão “patrimônio histórico” ou “patrimônio cultural” lhes parece mais palatável.

Os moradores mais idosos referem-se a uma diversidade bem maior na composição dos festejos do 7 de janeiro, comparecendo em seus depoimentos a burrinha, o bumba-meu-boi e outros folguedos. Até o início dos anos 90, o afoxé do candomblé de egun de Roxinho enviava seu afoxé para abrilhantar a festa. Com a morte deste, o afoxé não mais compareceu. Para os mais jovens, entretanto, já uma aproximação mais simples entre os festejos do caboclo, o 7 de janeiro e as festas centradas na apresentação de bandas de axé music e outros ritmos de Salvador e do Recôncavo.

Durante os meses em que se amadureceu a idéia de elaborar este Projeto, foi possível filmar boa parte dos festejos de janeiro em Itaparica, com resultados de boa qualidade, tanto do cortejo do caboclo como da encenação da “roubada da rainha”. Enquanto estivemos conversando com moradores de Itaparica, de graus diferentes de aproximação com os componentes do grupo Os Guaranis, pudemos observar um desejo e uma disponibilidade evidentes no sentido de participar de filmagens. É nítida, nos depoimentos dos moradores em geral, a aproximação entre os festejos do caboclo Tupinambá e manifestações como o samba-de-roda e a capoeira. Este aspecto será levado em conta na preparação do material fílmico da pesquisa.

Considerando as semelhanças encontradas entre os festejos de Itaparica e diversas manifestações fotografadas e filmadas em Pernambuco, Paraíba e Belém, pretende-se contatar grupos e pesquisadores que, nestes centros, possam enriquecer a análise do nosso objeto. Em Pernambuco, os grupos de “cabocolinhos” estão fortemente integrados na dinâmica carnavalesca, sendo que os núcleos da Zona da Mata se apresentam no Recife Antigo durante o Carnaval.
4 As lembranças sobre o Caboclo Eduardo
A inexistência ou indisponibilidade de registros escritos ou fotográficos do Caboclo Eduardo torna as lembranças dos idosos uma fonte preciosa para o estudo desta manifestação. Tem sido intrigante a forma como os idosos se referem a Eduardo, observando-se aí uma unanimidade notável. Ter conhecido o fundador do grupo equivale, em diversos casos, a uma dignidade que de certo modo os distingue dos jovens. A mudança de Eduardo para Nazaré das Farinhas, seu retorno a Itaparica e seu retorno final a Nazaré das Farinhas confere ao nosso personagem uma certa aura de mistério que emoldura a sua atuação como fundador dos Guaranis e seu principal líder nos anos 40 e 50.

Ter conhecido Eduardo é uma distinção. Causa estranheza, por vezes, a unanimidade acerca de sua figura. Isto nos faz colocar a interrogação: estas lembranças são mesmo lembranças? São mesmo apenas lembranças? Ou são uma forma de participar de uma narrativa já legitimada sobre a fundação do grupo? Os resultados de que dispomos até o momento nos levam a apostar em duas vertentes de resposta para esta interrogação: tanto a figura de Eduardo desfrutava, de fato, de uma estima e admiração de todos quanto a remissão a esta figura legitima o informante. É o que distingue a primeira e a segunda gerações dos Guranis das demais. “Eu era menino quando conheci ele. Quando eu entrei no cordão, ele já não estava mais, mas eu me lembro perfeitamente dele” (H.S.L., 67 anos, em 27.outubro.2007). É diferente de um depoimento como o seguinte: “Infelizmente não conheci. Quando eu entrei, ele já tinha alguns anos que ninguém via, mas sempre eu ouvia falar, era uma pessoa importante” (N.A.C., 52 anos, em 26.outubro. 2007).

Os jovens e adolescentes não têm Eduardo como herói ou referência. Não é um problema a sua existência, bem como tampouco o é seu misterioso desaparecimento. O grupo é percebido, pelos mais novos, como uma forma de afirmar a ascendência indígena, construir uma estratégia de auto-estima e cultivar relações de amizade e proximidade com os demais membros.

Permanece, entretanto, como elemento de intrigação, o único item acerca do qual não parece haver unanimidade quando os idosos se referem a Eduardo. Um morador octogenário afirma ter Eduardo morrido em Itaparica mesmo. “Morreu e se enterrou aqui, sim, senhor”. Outros o direcionam de volta a Nazaré. “Ele voltou prá lá e não veio mais aqui. Deve ter morrido por lá mesmo, pois a mulher dele era de lá”. Outros dizem que foi visto pela última vez em Salvador. “Estava lá, na Bahia. Deve ter morrido por lá, então”. O próprio Orlando Rosa, líder dos Guaranis por muitos anos, sustenta, sozinho, uma quarta versão: “Soube que morreu em Feira de Santana, depois de ter se convertido à religião protestante”. E acrescenta, sorridente: “Será que não foi?” (depoimento diversas vezes reiterado nos últimos anos).

Afinal, por que o herói da fundação de um grupo tão importante na construção da fantasia identitária de Itaparica haveria de ter morrido uma vez só e em um só lugar? A unanimidade sobre sua importância e seu carisma, inclusive sobre os contornos de sua figura física, não tem contrapartida no relato sobre seu desaparecimento... A figura misteriosa do Caboclo parece se realizar na multiplicidade de narrativas sobre sua morte.
5 Referências
FERREIRA, Marieta de Moraes (Coord.) Entre-vistas. Abordagens e usos da história oral. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1994.

OSÓRIO, Ubaldo. A Ilha de Itaparica: história e tradição. Salvador: Fundação Cultural do Estado da Bahia, 4ª ed, 1979.

PRINS, Gwin. História Oral. In: BURKE, Peter (Org.). A Escrita da História. Novas perspectivas. São Paulo: UNESP, 1992.

THOMPSON, Paul. A Voz do Passado. História Oral. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.



VAINFAS, Ronaldo. A Heresia dos Índios. Catolicismo e rebeldia no Brasil Colonial. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

1 Desenvolvida pelo Grupo de Pesquisa O Som do Lugar e o Mundo, associado ao Projeto Integrador Baía de Todos os Santos. Apoio Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia – FAPESB.

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