Lendo a mídia que lê a alteridade



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LENDO A MÍDIA QUE LÊ A ALTERIDADE

WIACEK, Juslaine de Fatima Nogueira (Universidade Estadual de Maringá/Faculdade Assis Gurgacz)


Hoy em dia nuestros lemas se construyen com palabras como convivência, diálogo o pluralismo y, sin duda, hemos ganado com el cambio. Pero debemos continuar sospechando que quizá esas palabras estén siendo utilizadas de forma tan acrítica como la antiqua misión civilizadora y que acaso estén alimentando también nuestra buena conciencia, la íntima certidumbre de nuestra superioridad moral, y uma imagen confortable y satisfecha de nosotros mismos.

Jorge Larrosa


Pluralidade, respeito às diferenças, igualdade de oportunidades, inclusão parecem ser alguns dos lances enunciativos reiterantes que caracterizam a nossa contemporaneidade e que analisaremos pelos olhares da pós-modernidade1. Emerge, neste tempo, o olhar sobre as múltiplas filiações que selam o indivíduo. Não mais estável, consciente, soberana e unificada, a identidade que sustentou o sujeito do Iluminismo2 se dispersa em subjetividade híbrida e movente conforme nos interpelam os sistemas de significação e representação sócio-culturais. Em outras palavras, o sujeito pós-moderno equilibra-se num jogo de identidades distintas assumidas em diferentes momentos e conduzidas pelos imperativos históricos, o que o faz fragmentado, descentrado, variável, contraditório, heterogêneo, enfim.

Como não dá pra deixar de situar, deslocamentos estruturais na sociedade contemporânea ocidental, localizados fundamentalmente no processo de globalização, têm provocado a diluição das verdades de racionalidade, sexualidade e nacionalidade que fixaram e localizaram com certa solidez o sujeito moderno. Isto porque o solo que demarcava as configurações integradas e coesas de cultura foi esfacelado por uma espécie de entretecimento das fronteiras nacionais que imprimiu uma outra ordem nos conceitos de espaço-tempo, comprimindo e interconectando as referências temporais e as distâncias. É importante crivar que este fenômeno da globalização é inerente ao sistema capitalista, uma vez que o capital precisa respirar para além dos mercados nacionais, determinante esta crucial de sua própria sobrevivência. E que fôlego, reconheça-se, possibilitou este sistema revigorar-se: o processo global nada mais é do que a colheita do capitalismo avançado. Partindo do pressuposto de que as identidades dos sujeitos são construções culturais, impulsionadas pelos sistemas de representações sociais transbordados de historicidade – sistemas simbólicos, portanto; ditames discursivos por fim – a escalada global produziu, é claro, novas e plurais aspirações identitárias na ordem local.

É, pois, deste fio que pretendemos começar a tecer esta análise. Seria um tanto ingênuo aqui restringir este conflito entre global e local no recorte discursivo da dominação e do imperialismo das potências capitalistas. Parece-nos mais consistente entender que, no jogo das identidades, a estratégia do sistema foi mais perspicaz e promoveu uma nova engrenagem entre estes dois pólos. Há, decerto, um caminho de homogeneização das identidades do sujeito. Só que não via solapamento e imposição explícita de uma identidade única, mas, dicotomicamente, pelo incentivo das diferenças locais. No movimento discursivo da flexibilização, da promoção de “nichos de mercado” e do “acesso para todos”, o sistema capitalista faz as especificidades, as marcas locais e as diferenças atuarem na lógica da globalização, tornando lucrativa a alteridade, quer porque insere as identidades, tradicionalmente excluídas, no processo produtivo, reduzindo os custos assistenciais a estes segmentos, quer porque os potencializa como consumidores. Se no turbilhão pós-moderno, com a desreferencialização das macro-organizações idealistas partidárias e de classe, o sujeito vê decomposta a noção de representatividade e de coletividade e passa “ao estado de uma massa composta de átomos individuais lançados num absurdo movimento browniano”3, sua subjetividade vai ser resgatada onde possa encontrar similaridades que se encaixem em um dos papéis sociais nos quais identificou-se/foi levado a identificar-se.

Dessa forma, então, queremos com este trabalho, através do dispositivo teórico da Análise do Discurso - fundamentalmente pinçando da linguagem as pistas da memória e filiações discursivas, bem como as imagens que se engendram no movimento da enunciação - investigar como a retórica de aceitação/enaltecimento da convivência com a pessoa portadora de deficiência funciona em função da lógica do corpo dócil e útil. Nesse fluxo, tomaremos um dos textos publicitários que compôs a Campanha Nacional de Inclusão das Pessoas com Deficiência, promovida pelo Ministério da Justiça no primeiro semestre de 2002 e amplamente veiculada pelos diversos canais abertos da mídia televisiva. Ao remetermos este texto como fato discursivo, isto é, ao pontuarmos os interdiscursos circulantes e determinantes da estruturação intradiscursiva da peça publicitária, queremos refleti-lo na sua relação com a ideologia capitalista, assim como levantar alguns possíveis efeitos de sentido à luz dos estudos foucaultianos sobre sujeito, loucura e prática disciplinar, prioritariamente.



O deficiente entrando em cena


A confluência das novas e múltiplas identidades traz, pelo menos para o Ocidente, um discurso das/sobre as “minorias”. O espaço está aberto e fértil, entretanto, para além das palavras de contestação. Vigorosamente, o reconhecimento destas identidades marginais vem sendo ecoado pelas vozes das diversas instituições contemporâneas – família, escola, igrejas, organizações não governamentais, mídia – e referendado pelo Estado. Apesar da diversidade dos locutores, a este discurso subjaz o tom consensual pela constituição destas identidades – que nas suas formas históricas foram marcadas pela exclusão social, econômica, escolar, cultural - em sujeitos-de-direito. Na rasteira da crítica teórica e do movimento social feministas4, temos visto eclodir outros movimentos voltados a reivindicações segmentais: dos gays e lésbicas, dos negros, dos pacifistas, dos ecologistas, dos deficientes. O debate sobre estes últimos tem ganhado evidência tanto em termos de legislação, como em termos de mobilização governamental e civil e, reforçamos, movimentações estas de pressão internacional a serem refletidas no local.

É pelo pacto estabelecido com o documento das Organizações das Nações Unidas denominado Normas Uniformes sobre a Igualdade de Oportunidades para as Pessoas Portadoras de Deficiência, assinado em 1993 e publicado em 1994, que o governo federal propôs uma campanha midiática que pretendia ser de combate ao preconceito e de orientações efetivas de convivência com limitações diversas. Foram gravados filmes que enfocavam pessoas com deficiência mental, visual, auditiva e física, todas desenvolvendo atividades profissionais, além de uma série de rápidos vídeos instrucionais sobre como conduzir uma pessoa cega, como auxiliar um cadeirante, como estabelecer um diálogo com o surdo, como tratar o excepcional.

Elegemos, desse conjunto, a peça em que um rapaz portador da síndrome de down é focalizado sentado em primeiro plano e, enquanto imagens do seu local de trabalho são dinamizadas no fundo, ele dirige o seguinte depoimento para o expectador: “Eu gosto muito desse restaurante. Não falto um dia! Já virei até vegetariano”. De repente, alguém que está em segunda perspectivação o chama: “Fábio, vamos lá!” E, levantando-se rapidamente, o rapaz deficiente justifica-se: “Ih! Está na minha hora”. A cena, então, é movida e acompanha flashes de Fábio colocando o uniforme, desenvolvendo atividades do seu trabalho e, no desfecho, ele é mostrado abraçado a outros colegas de trabalho, sorrindo e acenando para a câmara. Nessa seqüência, em off, é posta a locução que encerra todos os vídeos da campanha: “Pessoas com deficiência são capazes de fazer muitas coisas e outras não, como qualquer ser humano. O que faz a diferença é o preconceito. Igualdade de oportunidades é o lema deste milênio”.

Na descrição deste roteiro temos de mencionar, sobremaneira, que a materialidade desta produção publicitária traz a reprodução escrita de todos os textos orais enunciados, insere um registro informativo também escrito ressaltando o nome e a função do rapaz/protagonista (“Fábio de Carvalho – garçom”), além de manter, durante todo o tempo do vídeo, o recurso de picture in picture no quadrante direito inferior da tela em que uma pessoa traduz a linguagem verbal oralizada na linguagem de sinais. Por último, vemos a introdução das logomarcas oficiais responsáveis pela propaganda.



Gestos de sentido e relações ideológicas


Resgatando as condições de produção desse dizer, fazemos a leitura de que precisamente nesta estratégia de explorar mecanismos que consigam abranger as particularidades comunicativas inerentes às diferentes deficiências, está a força do discurso “politicamente correto” que agremia a posição discursiva da qual não podia fugir o governo federal. Explica-se: ao aliar suas políticas públicas às determinações de organismos externos, o governo propaga os discursos da moral neoliberal que, ao apropriar e retextualizar os discursos humanistas, apresenta-se sob a forma pluralista, democrata e congregadora.

Da corporeidade lingüística descrita, interessa-nos buscar as marcas que nos remetam à densidade discursiva porque é aí – nas oscilações do discurso – que se inscrevem e são inscritos os sujeitos. Tarefa nada rasa pois, como assegura ORLANDI (1998, p.54), ”as marcas que atestam a relação entre o sujeito e a linguagem, no texto, não são detectáveis mecânica e empiricamente. Os mecanismos enunciativos não são unívocos, nem auto evidentes. São construções discursivas com seus efeitos de caráter ideológico”.

Se a voz oficial ressoa a memória discursiva que podemos chamar de um liberalismo humanista, sedimentação de um discurso global que tenta sublimar sua opacidade uma vez que trabalha com enunciados de grau de polissemia diminuído, temos na propaganda a focalização da voz do próprio deficiente que, por meio de enunciados de construção sintática direta e simples, parafraseia a memória discursiva do “operário padrão”: dedicado, responsável, amável e amado, pontual, disciplinado. Nessa aura de neutralidade e pacificação, advém o espinho interdiscursivo dos clamores da igualdade, pois ao requisitar a igualdade de oportunidades como lema do milênio, o contraponto deste dito, trazido como não-dito, mas significando também, é que há diferenças de acesso às oportunidades, que os deficientes, além de diferentes, são desiguais nas garantias sociais.

Parece óbvio que, se não se trouxer à tona a questão da diferença, não há como escancarar a desigualdade e discuti-la. Entretanto, ao tomar um jovem com síndrome de down para a representação das pessoas com deficiência cognitiva, reforça-se o estereótipo, anula-se a singularidade que marca inclusive os deficientes. Não é possível, na proposta de análise que estamos seguindo, não destacar que este texto publicitário utiliza-se de palavras, imagens e comportamentos estereotipados do deficiente e, ao dizer sobre as diferenças, padroniza todas as pessoas portadoras de deficiência neste padrão trespassado de ingenuidade, bondade e mansidão. Mergulha-as no imaginário do bem celestial, desprovidas das mazelas, dos desejos, dos impulsos, das pulsões mais noturnas dos seres humanos todos. Na denegação do discurso posto na propaganda, temos a polarização dos “normais” como os preconceituosos, carregadores dos instintos do mal mas, ao mesmo tempo, colocados como detentores individuais do poder de conceder a igualdade de oportunidades. Melhor seria se a estratégia retórica caminhasse no sentido oposto ao da exigência de permissões, do convencer sobre capacidades (Pessoas com deficiência são capazes de muitas coisas...) porque afirmações deste tipo arrastam o pressuposto de que existe a consideração de que “pessoas com deficiência não são capazes”. Ter de provar capacidade para ter garantido o que nos é de direito são coisas ilegais, mas legitimadas na ordem do discurso das sociedades capitalistas que jogam com o simulacro da soberania do indivíduo.

Lembremo-nos que os efeitos do discurso não são articulados pelos sujeitos físicos, mas pelos jogos de imagens que espraiam faces virtualizadas dos interlocutores e do objeto discursivo. Nesta vertente das formações imaginárias, por tudo que argumentamos neste encaminhamento analítico, parece-nos que a perspectiva conservadora do bom funcionário da ideologia burguesa assinala muito mais para um efeito discursivo de concessão, caridade e piedade que tem selado o imaginário sobre o deficiente em nossa época. Parece-nos que a propaganda, que se pretende apontar para a colocação da identidade das pessoas portadoras de deficiência (inclusive nessa eufemização da nomenclatura) para um discurso de vanguarda, insere-se muito mais - pelo levantamento de seus fatos discursivos - numa projeção do sujeito com deficiência como estranho espetacularizado.
Espetáculo para render tolerância

Aliás, transformar em espetáculo tudo que no mundo possa ser percebido, é pratica necessária na organização capitalista, competentemente sustentada pela cultura da mídia. Desta maneira, o real é dado pelo espetáculo que se torna o real, isto é, os objetos e os sujeitos, adornados pela espetacularização, é que ditam as imagens postas na sociedade atual e são essas imagens que regulamentam nossas interações. Ou nas palavras de Guy DEBORD (1997, p.14):


O espetáculo apresenta-se ao mesmo tempo como a própria sociedade, como uma parte da sociedade e como instrumento de unificação. Como parte da sociedade, ele é expressamente o setor que concentra todo olhar e toda consciência (...) Ele é o lugar do olhar iludido e da falsa consciência. (...) O espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre as pessoas, mediada por imagens. (grifo nosso)
Assim, a imagem que temos da deficiência, do que consideramos anormalidade e como concebemos esse não-normal (o que foge aos padrões biológicos, estéticos, de desenvolvimento, de sexualidade, de racionalidade dos saberes de nossa época) são o vestígio de como as formações discursivas que nos constituem edificaram tais verdades. Só que este imaginário, arquitetado culturalmente e não a priori, é que funciona na linguagem, e na linguagem espetacularizada. Melhor dizendo, este imaginário “se constitui no confronto do simbólico com o político, em processos que ligam discursos e instituições. Assenta-se no modo como as relações sociais se inscrevem na história e são regidas por relações de poder” (ORLANDI, 2001, p.42). É desta maneira que percebemos a inteligibilidade deste texto publicitário e compreendemos a inter-relação discursiva entre o político (a inclusão como direito) e o lingüístico na constituição dos sujeitos/pessoas com necessidades especiais, ou seja, a discursividade remete às relações de poder capitalista que precisa enaltecer os dizeres da competência e da eficiência porque precisa de corpos produtivos disciplinados, indistintamente.

É que se tal discurso expressa uma gama de signos que na superfície irradia para a tolerância e a integração dos excluídos, sublinearmente não podemos ignorar que ele parte do centro do discurso do capital, que sobremaneira está colocado num contexto de globalização, e é para este centro que toda consideração de pluralidade tem de convergir, ou ainda, é para este centro – o do capital – que toda diferença tem de estar regulada. Assim, o sistema cria formas de encaixar a heterogeneidade neutralizando o que é de fato projeto hegemônico. Mesmo considerando a diferença, há apenas um modelo de existência para o sujeito, que é produzir na positividade que o capitalismo fixou, uma vez que o sujeito que bem produz é aquele que formata-se a certas normas de pontualidade, responsabilidade, aprendizagem, obediência. Ensinando a tolerar a diferença, “sob a diversão furta-cor do espetáculo” (DEBORD, 1997, p.39), o discurso da propaganda imparcializa um modelo de inclusão que sugere uma atitude enquadrada, ou seja, um modelo de inclusão que, na verdade, diz que pode ser diferente (pode ser deficiente), mas para ser valorizado/tolerado, o sujeito tem de manter a similitude do corpo utilizável e produtivo na ótica do sistema.


Sujeito-de-direito, sujeito pós-moderno, crítica foucaultiana de sujeito e a figuração do deficiente na mídia

Diferentes épocas representaram diferentemente o sujeito. Para a Análise do Discurso, à sociedade atual corresponde a forma histórica do sujeito-de-direito. Para a presente reflexão, temos um desafio: qual é a relação deste sujeito-de-direito com o qual trabalha a AD (francesa), o sujeito pós-moderno e a crítica foucaultiana de sujeito? Como toda essa teoria pode nos tornar compreensível a representação da pessoa com deficiência cognitiva na mídia de propaganda governamental? Primeiramente, é pertinente nestas considerações do sujeito a distinção entre este e indivíduo empírico. Depois, é tônica afinada a consideração do sujeito mergulhado na historicidade da sociedade capitalista e, sobretudo, estas designações rompem com o ideal de completude e autonomia do sujeito, vendo-o cravado pela ambigüidade. Bebendo, por isso, nestas vertentes de sujeito, vamos adentrar uma provocativa reflexão.

Enxerguemos assim o sujeito discursivo da propaganda (não o Fábio empírico, frisamos): é valorizado por incluir-se num modo de produção do capitalismo (portanto sujeito-jurídico) que o determina e, ao mesmo tempo, individualizado como deficiente e estereotipado/ homogeneizado na deficiência. Neste reconhecimento de identidade se opera o apagamento das diferenças e, via poder disciplinar imprimindo-se sobre o sujeito, incluí-lo é colocá-lo dentro de uma norma possível, já que da norma biológica ele é sujeito desviante (anormal).
Este processo é fundamental no capitalismo para que se possa governar. Submetendo o sujeito, ao mesmo tempo apresentando-o como livre e responsável, o assujeitamento se faz de modo a que o discurso apareça como instrumento (límpido) do pensamento e um reflexo (justo) da realidade. (Orlandi, 1999, p.51)
Podemos, assim, numa interpretação que pode até parecer perversa, ao menos questionar a ilusão de literaridade do discurso da “igualdade de oportunidades” que, simulando despragmaticidade, põe-se a defender direitos, colocando-os no universo do impulso da solidariedade. Da forma como se articulam os interdiscursos e os interlocutores vazam suas posições discursivas na construção do intradiscurso, pelo levantamento das formações imaginárias postas neste jogo e pela consideração das condições de produção (sua exterioridade), o texto/discurso corrobora com o projeto hegemônico do lucro, uma vez que todos os fios de memória discursiva que cortam o texto militam a ideologia capitalista e o sujeito-deficiente não passa, senão, de um elemento necessário para também referendar a lógica pacificadora e fraterna da norma/ ordem.
A anormalidade posta sob o olhar pós-moderno e o imperativo da disciplinarização do corpo

Baseando-nos em História da Loucura (2002), é possível perseguir o pensamento de Foucault e afirmar que, assim como aconteceu com os loucos a partir do momento em que sobre sua condição se desenvolveu um saber, tal qual o discurso da igualdade e da inclusão na contemporaneidade, porque reconhece as diferentes identidades, liberta os deficientes, sim, da condição de animalidade e os constitui em tipos sociais. Entretanto, nesse encaixe, faz-se necessário adaptá-lo à ordem burguesa da moralidade, obediência e hierarquia nas relações. É, pois sim, exatamente dessa posição discursiva que emerge a enunciação de Fábio.

Ainda baseando-nos nestes escritos de Foucault, temos que a experiência moderna da loucura (da não-razão, isto é, da anormalidade) curiosamente se ancora num movimento paradoxal de liberação e sujeição. Na nossa época, podemos dizer que o que se configurou numa “liberação” da loucura no projeto do internamento (dado por Tuke e Pinel) vem transmutado no discurso inclusivo. Ou melhor, tanto na lógica da reclusão humanizada como na inclusão contemporânea, o que temos é a “conquista” pela loucura, pelo “anormal” de exprimir-se e ser vista (o). Por outro lado, circunscrevendo a loucura, forma-se um “olhar” puro, espécie de sujeito absoluto que, se na modernidade possibilitou os saberes da psicologia e da psiquiatria, na nossa época legitima os dizeres da jurisdição e dos “esforços” multidisciplinares (fisioterapia, fonoaudiologia, psicopedagogia, neurologia...) que, por repousarem ainda na ótica positiva da razão, permanecem submetendo aqueles que entendem por anormal a uma forma de sujeição. Redizemos: como já havia constatado Foucault, ainda todo o empenho dos temas dessas ciências é possibilitar ao “louco” uma proximidade com a experiência racional (com a forma de trabalhar, de aprender, de relacionar-se próximas dos estabelecidos padrões racionais), só que desta vez incluídos. Então, quer num mundo à parte (internado, separado), quer inseridos no mundo, liberados, enfim, de uma forma ou de outra, os deficientes estarão assujeitados, porque o olhar sobre eles é o mesmo, é o da recuperação da razão e “enquanto essa possibilidade (da experiência positiva de doença mental) não tiver se tornado impossível, numa nova liberação do saber, a loucura permanecerá para nós aquilo que ela já se anunciava para Pinel e para Tuke; permanecerá prisioneira em sua era de positividade”. (FOUCAULT, 2002, p.456)

Da mesma forma que o século XVIII precisou trazer o louco às suas realidades de razão e verdade, fazendo-o sujeito responsável, o discurso da inclusão e da igualdade de oportunidades amarrados na estrutura capitalista pretende persuadir que é pela vigilância e ocupação deste sujeito-de-direito que se pode garantir-lhe a saudável integração ao mundo racional. O desejo platônico-aristotélico de definir os seres numa essência, ou mais a fundo ainda, numa essência comungada com o visor ocidental, branco, heterossexual, macho, racional, faz com que o sujeito disforme desse padrão cause uma certa indigestão por não se conseguir digeri-lo nas explicações unilaterais e totalizantes. Assim, este sujeito é enquadrado como anormal e, no caso que tomamos como análise, mesmo a tentativa de abrandamento que o classifica como pessoa portadora de deficiência, discursivamente vem rastejando o presunçoso e aliviado não-dito de que “somos pessoas portadoras de eficiência”. Como provoca LARROSA (2002), tal retórica da inclusão pode ser compreendida também no âmbito da imagem que os normais produzem de si mesmos, isto é, esse discurso também serve para fincar a segurança e a certeza da sua racionalidade e de que formam uma onipotente identidade democrática e acolhedora para com estes seres estranhos.



Incluídas, às pessoas portadoras de deficiência é assegurada a condição de “espécie social”, uma vez que seus “direitos” são restaurados nos valores sociais (de trabalho, de estudo), mas que estão sob o signo de uma colocada razão. Assim, entre a sociedade inclusiva e o deficiente, não se trata de duas razões que se reconhecem, mas da adequação do que é anormal a uma estrutura já dada de antemão por esta sociedade, adequação que pelo menos esteja dentro de um desvio-padrão aceitável. Por isso, o que constitui a inclusão do deficiente é o seu enquadramento a um tipo social que tenha assimilado a razão reconhecida e aprovada e, neste sentido, o processo de inclusão, como o que escapa no discurso da propaganda governamental,
não é o da aproximação, do diálogo, do conhecimento mútuo; é a organização ao redor do louco de um mundo em que tudo lhe seria semelhante e próximo, mas onde ele mesmo permaneceria como um Estranho por excelência(...), convocado incessantemente para esse papel do visitante desconhecido (...). Um personagem social cuja forma e máscara lhe são impostas, silenciosamente pelo olhar, o louco é convidado a objetivar-se nos olhos da razão razoável como o estranho perfeito, isto é, aquele cuja estranheza não se deixa perceber. (FOUCAULT, 2002, p.481, grifo nosso)
Aceita-se no modelo de sociedade atual a identidade dos deficientes, desde que possamos costurá-la na ideologia do corpo eficiente que possa ser útil para o sistema produtivo. É preciso, daí, torná-lo igual porque ele também pode ser mão de obra, em algumas atividades e em outras não, obviamente, “como qualquer pessoa”. Mesmo que suspirando nas imagens um certo discurso de caridade, Fábio é figurado no mercado de trabalho, numa atmosfera idealizada e feliz, e sabe qual papel social esperam dele. O lugar do qual fala (não o espaço empírico do restaurante, mas a posição discursiva de ser exemplo individualizado de alguém que, superando as limitações, está podendo ser útil e utilizável) é constitutivo de todo o seu dizer. Não gostar do local de trabalho e faltar ao trabalho é o que os saberes da nossa época classificam como irresponsabilidade, incompetência. O inverso, o discurso do funcionário desejado, salta no dizer de Fábio porque as relações de força de nossa sociedade, hierarquizadas, controla o discurso. A ideologia do mercado de trabalho – competitiva e centrada na ilusão do poder do indivíduo – controla o que se deve assumir como dizer, porque a linguagem não é neutra e marca uma ideologia. A ideologia do mercado de trabalho, legitimada também pelos saberes científicos colocados como verdade, codifica também o corpo para melhor produzir, para não onerar o sistema. Surge, para isso, as táticas disciplinares do corpo, ou como afirma Foucault em Vigiar e Punir (2001, p.119):
O momento histórico das disciplinas é o momento em que nasce uma arte do corpo humano, que visa não unicamente o aumento de suas habilidades, nem tampouco aprofundar sua sujeição, mas a formação de uma relação que no mesmo mecanismo o torna tanto mais obediente quanto é mais útil, e inversamente. Forma-se então uma política das coerções que são um trabalho sobre o corpo, uma manipulação calculada de seus elementos, de seus gestos, de seus comportamentos. O corpo humano entra numa maquinaria de poder que o esquadrinha, o desarticula e o recompõe. Uma “anatomia política”, que é também igualmente uma “mecânica do poder”, está (posta); ela define como se pode ter domínio sobre o corpo dos outros, não simplesmente para que façam o que se quer, mas para que operem como se quer, com as técnicas, segundo a rapidez e a eficácia que se determina. A disciplina fabrica assim corpos submissos e exercitados, corpos “dóceis”(grifo nosso). A disciplina aumenta as forças do corpo (em termos econômicos de utilidade) e diminui essas mesmas forças (em termos políticos de obediência).
Incluir no mercado de trabalho é inserir o indivíduo nas práticas disciplinadoras do corpo, tornado-o dócil (responsável, pontual, satisfeito, submisso) e útil (eficaz, competente, com habilidades). Produzir, consumir, estudar onde e como faz “todo mundo” faz a normalização do sujeito anormal. Normaliza-se porque se encaixota na norma, no poder da norma capitalista. Anormal, na nossa atualidade, passa a ser, então, aquele que não se formata ao poder disciplinar da norma. Desde muito, no circuito da ordem burguesa, se propaga a idéia de que o ócio é que predispõe o corpo aos vícios e às imoralidades. Daí porque os “loucos” e, dentre eles, os deficientes, por muito tempo excluídos da dinâmica capitalista, sem trabalho, portanto, são tidos como inúteis socialmente. Para incluí-los, foi necessário demonstrá-los como capazes de trabalhar, porque nos moldes do trabalho burguês, o deficiente é engajado numa engrenagem de responsabilidade que é, acima de tudo, uma inserção na razão e na utilidade.
Referências
ARAÚJO, Inês Lacerda. Foucault e a crítica do sujeito. Curitiba: Editora da UFPR, 2001.

DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.

FOUCAULT, Michel. História da loucura. 6 ed. São Paulo; Perspectiva, 2002.

_____.Vigiar e punir: nascimento da prisão. 24 ed. Petrópolis: Vozes, 2001.

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 6 ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2001.

LARROSA, Jorge. ¿Para qué nos sirven los extranjeros¿ In: Educação e Sociedade. Campinas: CEDES, 2002, no 79, p. 67-84.

LYOTARD, Jean-François. A condição pós-moderna. Rio de Janeiro: José Olympio, 2000.

ORLANDI, Eni P. Discurso e leitura. 5 ed. São Paulo: Cortez, 1998.



______. Análise de Discurso: princípios e procedimentos. Campinas: Pontes, 2001.


1O termo pós-modernidade, utilizado por muitos teóricos, designa muito mais uma perspectiva de compreensão das mudanças que vivenciamos em relação aos valores, práticas e saberes delineadores da modernidade. Embora outros estudiosos prefiram a expressão “modernidade tardia” (HALL, 2001) ou “continuação do modernismo por outros meios” (LYOTARD, 2000), há um consenso de que é um tempo marcado pela descontinuidade e pelo deslocamento das verdades, bem como pela fragmentação do sujeito, tudo isto compreendido na interface capitalista.


2O sujeito do Iluminismo é de concepção filosófica cartesiana, racional e entendido como essência autônoma, contínua e imutável. Conforme Stuart HALL, em A identidade cultural na pós-modernidade, esta noção de sujeito estava baseada num olhar sobre o indivíduo como “totalmente centrado, unificado, dotado de capacidades de razão, de consciência e de ação, cujo ‘centro’ consistia num núcleo interior, que emergia pela primeira vez quando o sujeito nascia e com ele se desenvolvia, ainda que permanecendo essencialmente o mesmo – contínuo ou ‘idêntico’ a ele – ao longo da existência do indivíduo” (2001, p.10).

3BOUDRILLARD, apud LYOTARD, 2000, p.28.

4Segundo HALL (2001), o Feminismo polemizou e politizou a categoria de gênero e patriarcado desconstruindo a naturalização do olhar sobre a mulher apenas como o “outro” do homem e colocando-se como precursor de uma política de identidade e diferença.


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