Lene Mayer-Skumanz (org.) Hoffentlich bald



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Lene Mayer-Skumanz (org.)

Hoffentlich bald

Wien, Herder Verlag, 1986



A marca de Caim

Eldad já não se importava que o homem da lousa viesse ouvi-lo quando ele contava histórias. Sabia agora que não era um espião do rei, mas sim o seu teólogo. Estava a escrever uma “História de Deus com os homens” e por isso andava a recolher histórias. Eldad sentia-se

orgulhoso que a sua história tivesse sido escolhida.

Ao aceitar a tarefa do rei, João tinha pensado que seria mais fácil. O trabalho estava a avançar devagar, mas, de qualquer forma, tinha ainda tempo.

Tinha, ainda dois dias antes, apresentado ao rei a primeira parte da sua história. Começava com o Jardim do Éden. Contava como os primeiros homens se haviam tornado desconfiados e pensado que Deus não devia estar com boas intenções em relação a eles. A narração da grande fuga estava já escrita e o capítulo sobre a grande torre também. Agora devia seguir-se a história de Abraão.

O rei mostrava-se contente, mas João não estava ainda totalmente satisfeito. Faltava qualquer coisa entre o Jardim do Éden e a grande fuga, mas João já tinha algumas ideias…

Precisava, portanto, de voltar a procurar, de ouvir o que as pessoas contavam, à porta da cidade, em frente das suas casa, à noite…

– Sabem também porque é que até hoje os Caimitas, o povo descendente de Caim, vagueiam pela orla do deserto em vez de terem uma profissão decente como

com os homens” e viu aquilo e, que se tornara a sua história, limitou-se a menear a cabeça e a dizer:

– Estes teólogos! Onde é que vamos parar, se Deus até os criminosos protege…

Gottfried Vanoni

Caim respondeu:

Não sei. Por acaso serei eu o guarda de meu irmão?



Disse Javé:

Porque fizeste isso? A voz do sangue do teu irmão chama por Mim da terra do teu campo. De hoje em diante serás amaldiçoado, expulso do campo, que se abriu para receber de tuas mãos o sangue do teu irmão. Quando quiseres lavrar a terra, ela negar-te-á os seus frutos. Andarás pela terra sem descanso e sem sossego.



Então Caim disse a Javé:

A minha culpa é demasiado pesada para ser suportada. Hoje expulsas-me do campo e terei de me esconder longe de Ti. Serei um fugitivo, sempre vagabundo pela terra. Quem quer que me encontre pode matar-me.



Disse Javé:

Não, porque eu determino: se alguém te matar será castigado sete vezes mais.



E Javé marcou-o com um sinal, para impedir que fosse morto por quem viesse a encontrá-lo.

Caim teve de retirar-se de junto de Javé e passou a viver na terra de Node, a Este do Éden.

Quando, mais tarde, Eldad leu a “História de Deus

todas as pessoas honradas? – perguntava Eldad no momento em que João, de lousa na mão, se juntava aos ouvintes.

Um abanar geral de cabeças incitou-o a contar a história:

– Foi assim: Caim, o antecessor dos Caimitas, apresentou a Javé a oferta dos frutos do seu campo. Abel também levou os melhores cordeiros acabados de nascer no seu rebanho. Javé olhou benignamente para Abel e para as suas oferendas, mas não olhou para Caim nem para as suas oferendas.

Então a cólera invadiu Caim e o seu olhar tornou-se severo.

Anda! Vem ver os meus campos! – disse ao irmão.



Assim que saíram, Caim lançou-se sobre Abel e matou-o.

Então Javé perguntou a Caim:

Onde está Abel, teu irmão?



Caim respondeu:

Não sei. Por acaso serei eu o guarda do meu irmão?



Disse Javé:

Porque é que fizeste isso? Ouço a voz do sangue do



teu irmão, na terra, a clamar vingança. Daqui por diante, quando quiseres cultivar a terra, ela negar-te-á os seus frutos. Serás sempre vagabundo e fugitivo sobre a terra.

Por isso, Caim retirou-se de junto de Javé e foi morar para a terra de Node.

Aos aplausos juntaram-se risos maliciosos pela má sorte da tribo vizinha, a dos Caimitas.

João não achou graça à história, mas sabia que com ela iria ser capaz de fazer o que lhe faltava.

“Só tenho de a modificar um pouco. Agora que as pessoas estão tão orgulhosas do seu povo, com um rei tão competente a governá-los, uma pequena alfinetada na xenofobia não fará mal algum. Aliás, se Caim e Abel são irmãos, então os Israelitas e os Caimitas também são povos irmãos!”

João nem reparara que Eldad tinha começado uma nova história: contava agora como Javé tentara persuadir o encolerizado Caim, e como também não desistira deste, que não se sentia incomodado pelo que fizera.

João acordou dos seus pensamentos quando os ouvintes agradeciam a história com um aplauso e pediam a próxima. Rabiscou rapidamente a palavra ‘sinal’ na sua

tabuinha de cera e correu para casa. A seguir à história do Jardim do Éden, João introduziu a sua nova história:

Eva deu dois filhos a seu marido: Caim e Abel. Abel tornou-se pastor de ovelhas, Caim, agricultor. Passado algum tempo, Caim apresentou a Javé uma oferta dos frutos da sua terra. Abel também levou os melhores cordeiros acabados de nascer no seu rebanho. Javé olhou com agrado para Abel e para as suas oferendas, mas não olhou para Caim e para as suas oferendas.

A cólera invadiu Caim e o seu olhar tornou-se severo.

Disse Javé a Caim:

Porque ficas encolerizado e porque se tornou severo o teu olhar? Quando tens algo de bom em mente mostras um olhar alegre, mas quando não tens nada de bom, o pecado fica à porta do teu coração e mete-se em ti. Tens de o dominar!



Entretanto Caim disse ao irmão:

Anda! Vem ver os meus campos! – Mas, mal lá chegaram, Caim lançou-se sobre Abel e matou-o.



Então, Javé perguntou a Caim:

Onde está o teu irmão Abel?


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