Lenin e as heranças do populismo



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Reis Filho, Daniel Aarão – UFF

Lenin e as heranças do populismo

Neste trabalho, depois de propor breves referências a respeito do conceito e da história do populismo, tento apresentar as heranças - assumidas e recusadas - das teorias e práticas populistas pelo pensamento de V. I. Lenin. O artigo encerra-se com algumas reflexões sobre a impregnação das tradições populistas nos processos das revoluções russas e do socialismo soviético.


1. O populismo russo. História e conceito1.
O movimento populista na Rússia desdobrou-se ao longo do século XIX (inícios do XX?) e se apresentou, conforme as diferentes conjunturas, com feições bastante diversificadas. Apesar disto, há um certo consenso a respeito de algumas temáticas básicas que lhe conferiram unidade e que têm justificado atribuir o nome de populista a diversas práticas e pensamentos presentes na Rússia tsarista do novecentos.

Os populistas, todos os populistas, abominavam o Estado tsarista, queriam destruí-lo, removê-lo da História, juntamente com a servidão, abolida formalmente em 1861, mas que, segundo a maioria deles, persistia, através de formas disfarçadas e não menos opressivas. Substituir a autocracia tsarista pelo reino da liberdade, emancipar de fato os camponeses e os oprimidos do campo e da cidade, superar as desigualdades gritantes que caracterizavam a sociedade russa, tais eram questões consideradas de princípio, sempre o foram, e o seriam, até as revoluções de 1917 que, enterrando definitivamente o poder tsarista, pareceram abrir horizontes para a realização das demais demandas.

Mas os populistas não cultivavam a menor simpatia ou apreço pelo modelo de sociedade que se desenvolvia em algumas nações ocidentais, baseado na industrialização e na urbanização, na celebração dos avanços tecnológicos, na transformação de todos os bens em mercadorias, que podiam ser compradas e vendidas com dinheiro, e nos valores que colocavam o indivíduo no centro das preocupações. O capitalismo ocidental era concebido como uma civilização destrutiva, decadente, monstruosa, era preciso envidar todos os esforços para evitar que tal sistema pudesse dominar a Rússia.

Propunham instaurar uma sociedade alternativa com base numa organização social tradicional dos camponeses russos, a comuna rural, unidade coletiva de raízes antigas, que sobrevivera à emancipação dos servos, tornando até parcialmente fortalecida. Além de assumir toda uma série de responsabilidades e funções sociais (recolhimento de impostos, conscrição, etc.), pelas quais respondiam solidariamente, as obchinas (assembléia de camponeses) distribuíam periodicamente as terras comunitárias, segundo as necessidades e as possibilidades dos que nelas trabalhavam. Os populistas as imaginavam como bases possíveis de uma nova sociedade, socialista. Devidamente autogeridas, e federadas, poderiam constituir um padrão de organização social e de poder político radicalmente distintos de tudo o que estava sendo construído na parte ocidental da Europa. Um padrão igualitário, comunitário, solidário, centrado na justiça social, em contraste com as desigualdades, o individualismo e a injustiça prevalecentes nas sociedades regidas pelo capitalismo industrial.

Em conseqüência, e como premissa, o populismo tinha os camponeses como classe social fundamental na luta e no processo de instauração do socialismo na Rússia. Encarnações de virtudes simples, ainda não corrompidas pelas cidades industriais, as comunidades agrárias, ajudadas pela intelectualidade revolucionária, poderiam desenvolver um outro tipo de modernidade.

O humorista russo Saltikov, citado por I. Berlin2, figurando um diálogo entre um menino russo e um alemão, reconhecia que a Rússia estava nas trevas, agrilhoada, mas seu pensamento era livre, e não prisioneiro, como o das classes médias opulentas da Europa Ocidental que haviam vendido a própria alma e já nem sabiam mais desejar a liberdade. A idéia de uma Rússia nova, jovem, aberta a novos horizontes, ainda não fatigada pelo fardo de instituições e tradições capitalistas, era compartilhada pela maioria dos populistas.

Para realizar estas propostas seria necessário o enfrentamento violento, dado que eram inviáveis outras opções no quadro do regime tsarista.

A insurreição das massas conduzindo à distribuição da terra pela força e a ação violenta de pequenas e decididas organizações, desestabilizando o regime pela eliminação de seus principais representantes e potentados, eram dois métodos básicos, eventualmente complementares, a que pretendiam recorrer as diferentes tendências e organizações populistas.

Com este objetivo em mente, sempre perseguidos pela polícia política, estruturaram-se na clandestinidade, apurando técnicas organizativas, conspirativas, despistando, infiltrados, infiltrando-se, uma guerra permanente, uma caça, como gato-e-rato, acuados e aterrorizados, aterrorizando, torturados e eliminados, banidos, exilados, assassinados, mas, sempre que lhes era dada oportunidade, na ofensiva, eliminando, abatendo, matando, inclusive o próprio Tsar.

Nesta atmosfera de luta renhida, construiu-se um modelo de militante revolucionário: dedicado, abnegado, pronto a todos os sacrifícios, persistente, meticuloso, atento, tenso, ascético, heróico. Anjos severos, ou vingadores3. O arquétipo: Nicolau Gavrilovitch Tchernychevski.

Na base de tudo, ou por sobre todas as idéias, uma filosofia que celebrava a vontade livre, ou a liberdade da vontade contra todos os determinismos. A língua russa talvez os ajudasse neste particular, a palavra volia querendo dizer simultaneamente vontade e liberdade.

Uma tradição, um legado.

Não se imagine, porém, que os populistas, marcados por estes traços fortes, comuns, não cultivassem diferenças. Polemizavam nas brechas concedidas pelos períodos de crise, nos círculos informais ou clandestinos, nas cadeias e nos exílios sem fim, na Sibéria ou no estrangeiro, sobre questões candentes: o papel dos intelectuais revolucionários, o grau de sua autonomia em relação à sociedade, de que forma o Estado poderia ser empregado pelos revolucionários, a velha e sempre atual querela sobre as formas de luta, a combinação apropriada de meios e fins, as trocas e intercâmbios com as sociedades ocidentais, as possibilidades e hipóteses de articulação de sínteses criativas entre as propostas ocidentais e as tradições russas.

Entretanto, tais diferenças e nuanças, sempre com decisivas implicações práticas, não obscurecem a vinculação de todas elas a um continuum único, singular: o movimento populista russo4.

Desde quando se pode dizer que o populismo passou a existir? Até quando perdurou?

Há consenso quanto ao período de maior impacto histórico, de apogeu, entre os anos 30/40, com a formação dos primeiros círculos, até os anos 60 e 70, quando se formaram as primeiras organizações e se desenvolveram as principais iniciativas e ações, culminando em 1881, com a eliminação do Tsar. No entanto, antes dos anos 30, até quando recuam os que podem ser considerados precursores do movimento? Depois de 1881, até que ponto podem se reclamar do movimento os socialistas-revolucionários que teriam participação importante nas revoluções russas do século XX? E o que dizer da marca, da impregnação das tradições populistas no processo das revoluções russas e da construção do socialismo na União Soviética? Indagações que têm merecido, e merecem ainda, pesquisa e reflexão5.

Vladimir Ilitch Lenin, dirigente máximo da ala bolchevique do Partido Operário Social-Democrata da Rússia (POSDR), líder da revolução russa de outubro de 1917, teve seu irmão mais velho envolvido numa das organizações populistas, condenado e executado em 1886 por conspiração contra a vida do Tsar. Em suas obras, tratou extensivamente das tradições populistas, de suas formulações gerais, propostas práticas e lideranças. A seguir, uma tentativa de síntese da análise que propôs a respeito, do que recusava, e do que resgatava, destas heranças fundamentais na conformação das tradições revolucionárias russas.
2. Lenin e as heranças da tradição populista6.
As reflexões de Lenin a respeito da tradição populista são vastas e diferenciadas através das sucessivas conjunturas cobertas por suas Obras Completas7, que se estendem por trinta anos, de 1893 a 1923, quando, definitivamente, a partir de março deste último ano, deixou de escrever o líder da revolução russa8.

Entretanto, pode-se dizer que as heranças populistas lhe interessam mais na última década do século XIX (debates diretos com certos partidários declarados destas heranças, os populistas legais9 e os socialistas revolucionários, polêmicas com os economistas10 e revisionistas11, etc.), declinando a partir daí as referências, sobretudo desde a revolução de 1905, embora, pela sua importância histórica e política, reflexões e considerações sobre o populismo e sobre os populistas continuassem a frequentar os textos de Lenin até praticamente o fim da vida.

Assim, o volume 1 das OC, com textos escritos em 1893-1894, além de outros artigos, econômicos e teóricos, traz a obra polêmica clássica de V. Lenin sobre o populismo: Quem são os amigos do povo e como eles lutam contra os social-democratas12.

No segundo volume, reunindo a produção de Lenin entre 1895-1897, parte importante dos textos (319, num total de 551 páginas) refere-se ao populismo, entre os quais o artigo também clássico: A que herança renunciamos13.

O terceiro volume, referente a 1899, é quase todo ele constituído pela obra teórica maior de V. Lenin: O desenvolvimento do capitalismo na Rússia, íntima e obviamente relacionado com a polêmica travada com os populistas14.

Já no quarto volume, congregando artigos publicados entre 1898 e 1901, o foco das polêmicas desloca-se para as controvérsias com os economistas, aparecendo as referências ao populismo como ponto de apoio secundário, mas importante, nos argumentos esgrimidos contra os primeiros.

A partir daí, e até a revolução de 1905, nas lutas – contínuas – contra as tendências e propostas liberais, e pela refundação e organização de um partido operário social-democrata russo, inspirado pelo marxismo, embora já não com tanta ênfase, V. Lenin frequentemente recorreria a referências populistas para evidenciar pontos de vista, esclarecer questões e fustigar adversários, explicitando fronteiras.

Depois da revolução de 1905, demarcadas as heranças que deveriam ser assimiladas ou recusadas, com um corpo de doutrina relativamente consolidado, pelo menos no que diz respeito ao campo não-marxista, as referências ao populismo tendem a rarear, mas nunca desaparecerão de todo, aparecendo sempre, nas polêmicas e debates, para ilustrar argumentos e fundamentar formulações, o que diz bem da importância política e do significado histórico que o populismo e os populistas assumiram na tradição revolucionária russa.

Na análise das heranças populistas, V. Lenin propôs recusas e incorporações. Tentemos analisar estes dois movimentos complementares.
3. V. Lenin e a herança a que deveríamos renunciar15 .
Lenin recusa, em primeiro e principal lugar, o que chama de utopia socialista populista. Para os marxistas, sabe-se bem, utopia é um termo essencialmente desqualificador, remete a concepções invertebradas, irrealizáveis, pueris. No caso do populismo russo, que propunha a comuna rural e o campesinato, como instituição e classe social alternativas ao capitalismo, o equívoco não tinha cabimento porque, na visão de Lenin, o capitalismo já triunfara na Rússia nos anos 90 do novecentos.

Em O desenvolvimento do capitalismo na Rússia16, Lenin esforçar-se-ia por fazer uma demonstração cabal deste ponto de vista. Mesmo antes disso, e depois, sempre, e a despeito de aspectos positivos, ou heranças a serem incorporadas, Lenin nunca se furtaria a se referir às concepções teóricas gerais dos populistas como inconsequentes, destituídas de fundamento, ou, de forma mais contundente, típica de nosso Autor, nulamente revolucionárias17.

Para os marxistas russos, argumentava Lenin, já vitorioso o capitalismo na Rússia18, a classe fundamental alternativa era, evidentemente, a classe operária. O socialismo agrário ou camponês, na melhor das hipóteses, poderia ser considerado um socialismo pequeno-burguês, capaz de assumir um papel histórico nas lutas democráticas, mas impotente para disputar ao proletariado (urbano e rural) a liderança de uma revolução socialista19.

A Comuna Rural poderia desempenhar, no processo revolucionário russo, e depurados seus traços e dispositivos autoritários, um papel na elaboração da democracia, exercitando dimensões ligadas à sua dinâmica cooperativa, solidária.

...nós defenderemos seguramente a comunidade enquanto organização democrática de administração local, enquanto agrupamento de interesses ou de vizinhança, contra todos os atentados dos burocratas...nós não ajudaremos jamais ninguém a “destruir a comunidade”, mas nós nos esforçaremos certamente para obter a supressão de todas as instituições contrárias à democracia, seja qual for a influência desta supressão sobre as distribuições principais e secundárias da terra, etc. (sublinhado pelo Autor).

...assim, defenderemos a liberdade completa de se deslocar, a supressão completa das distinções de casta nas comunidades camponesas e, em consequência, a supressão completa da caução solidária20, a revogação de todas as leis impedindo o camponês de dispor de sua terra.”21

Quanto à tradição e à proposta dos populistas de promover a distribuição igualitarista e violenta da terra (o reparto negro), Lenin demonstraria certas flutuações, e uma visão mais nuançada.

De um lado, distinguiria na proposta uma utopia reacionária, que

...tende a generalizar e a eternizar a pequena produção camponesa...

No entanto,

...há também (na proposta) – descontando-se a utopia segundo a qual o campesinato pode ser o portador da revolução socialista – um aspecto revolucionário, a saber, a vontade de varrer pela insurreição camponesa todos os vestígios do regime feudal22
Neste sentido, os revolucionários marxistas, a vanguarda da revolução, deveriam formular uma revisão democrática em profundidade da grande reforma de 1861, e o critério fundamental nesta política era o do desenvolvimento da luta de classe no campo. Suprimir os entraves para que a luta de classes pudesse florescer, explicitando os interesses, decompondo unidades fictícias e anacrônicas23.

Outro aspecto central na recusa da herança populista refere-se à adoção do terrorismo como forma de luta, particularmente os assassinatos seletivos realizados por grupos e organizações populistas desde os anos 60 do século XIX.

Lenin sempre fustigará com veemência esta forma de luta”

“...sem o povo operário, todas as bombas são impotentes, notoriamente impotentes”24.

O terrorismo invocaria em vão o nome das massas, e estaria profundamente equivocado ao imaginar que conseguiria desestabilizar o poder, eliminando agentes ou quadros do regime, mesmo o principal deles, o Tsar.
Entretanto, em muitos momentos, Lenin mostrou-se sensível à tradição populista, propondo muitas vezes o resgate de propostas e características do movimento.
4. Lenin e a herança que deveríamos incorporar
Em suas permanentes lutas contra as tendências liberais, que pretendiam conciliar com a autocracia, em nome de concessões que não poderiam ser colocadas em risco, ou de eventuais conquistas já implementadas, ou contra os que, no seio do movimento revolucionário russo (no interior ou fora da social-democracia), subestimavam a luta política, atribuindo, por cálculo tático ou estratégico, este tipo de luta aos liberais, contra todas estas tendências25, Lenin sempre se situou como defensor resoluto da luta política, das denúncias políticas (propaganda) e, sempre que fosse o caso, ou possível, da politização das lutas sociais (agitação) contra a Autocracia.

Considerava este aspecto como fundamental, tanto para a consolidação de um movimento social operário autônomo, como para a vertebração de uma vanguarda operária revolucionária independente do ponto de vista político.

Aqui a tradição narodnik, sobretudo encarnada pela Narodnaya Volia26, seria uma arma empregada frequentemente contra os economistas e outros revisionistas, assim como contra os populistas legais e, mais tarde, contra os socialistas-revolucionários, que pretendiam ser os intérpretes e continuadores do movimento populista no início do século XX27.

No resgate do legado da Narodnaya Volia, Lenin haveria, no entanto, de travar um combate em duas frentes: de um lado, assumindo este legado, na denúncia de todos os que, por diferentes motivos, negavam ou subestimavam a luta política contra a autocracia. De outro lado, não deixando de criticar no legado que reivindicava a dificuldade que os populistas sempre tiveram de assumir, no contexto da luta política, a questão essencial das liberdades.

Com efeito, entre muitos, seja nas fileiras da social-democracia, seja no movimento populista, havia a idéia de que os revolucionários, na luta pelas liberdades, poderiam ser “assimilados” pela democracia burguesa. Entre os populistas, sobretudo, defendia-se a idéia de que falar em liberdades num mundo desigual era um verdadeiro escárnio. As liberdades, efetivas, seriam asseguradas pela revolução vitoriosa. De que adiantaria migalhas delas numa sociedade dominada pela injustiça social? 28 Não recusando os riscos inerentes às lutas pelas liberdades, nem por isso perdia Lenin a perspectiva de sua importância e defesa:

“Os social-democratas sabem que a luta contra o tsarismo aproveita antes de tudo (sublinhado por Lenin) à burguesia, mas nem por isto deixam de travá-la, e só permanecem cegos (quanto a isto)...um socialista dominado pelos piores preconceitos do utopismo ou o populismo reacionário”29.


Com outros ângulos, tais questões voltariam a ser tratadas no exame do democratismo revolucionário, reiteradas vezes analisado por Lenin, principalmente desde os sucessos da revolução de 1905.

Aos liberais, acusados de tímidos, imaturos, inconsequentes e conciliadores, Lenin contraporia, e valorizaria, a democracia revolucionária encarnada na Rússia pelos movimentos sociais camponeses e suas lideranças políticas.

A reforma de 1861, seus antecedentes e desdobramentos imediatos, constituiria momento chave para a apreciação destas tendências.

Desde então, os liberais tenderiam a se agarrar às concessões do poder, assumindo a democracia revolucionária a defesa intransigente dos interesses das massas camponesas.

Ao considerar o papel destes últimos, diria Lenin:

“Embora orientando-se sob o emblema de uma doutrina que na sua essência não era revolucionária, não despertavam menos, por sua propaganda, um sentimento de descontentamento e de protesto em amplas camadas da juventude cultivada. Apesar de uma teoria utópica... o movimento desembocou num corpo a corpo desesperado entre um punhado de heróis e o governo...graças a esta luta, e apenas graças a ela, a situação mudou uma vez mais, o governo foi uma vez mais obrigado a fazer concessões, e a sociedade liberal provou uma vez mais sua imaturidade política, sua incapacidade de ...exercer uma pressão verdadeira sobre o governo”30.

Ressalvadas as inconsistências doutrinárias, a valorização da ousadia da tradição populista contraposta à covardia liberal. As virtudes do combate aberto, da intratabilidade diante da autocracia insensível, da denúncia das concessões insuficientes, das meias-reformas31.

Em muitas outras ocasiões, como, por exemplo, quando do Jubileu da reforma de 1861, ocorrida em 1911, Lenin voltaria ao tema, evidenciando o contraste entre as atitudes assumidas pelos liberais (Kavelin) e as dos populistas históricos (Tchernychevski)32, e tomando partido claro pelos últimos.

Embora reconhecendo a eficácia da reforma, no sentido da abertura de horizontes para o desenvolvimento do capitalismo na Rússia33, Lenin, incorporando a crítica de Tchernychevski, não pouparia as críticas mais contudentes:

...a famosa emancipação foi um pilhagem vergonhosa dos camponeses, uma sequência de violências e de ultrages incessantes exercidos contra eles...Tchernychevski nunca aceitou a reforma...para ele a reforma foi uma infâmia (grifo de Lenin)34


A partir de então, segundo Lenin, o populismo pode ser caracterizado como a ideologia da democracia camponesa na Rússia, consagrando-se, desde 1905, como a proposta da democracia camponesa.

“O democratismo populista, falso num sentido econômico formal, é uma verdade no sentido histórico; falso como utopia socialista, este democratismo é uma verdade desta luta democrática original historicamente determinada das massas camponesas, que constitui um elemento inseperável da transformação burguesa e a condição de sua vitória completa.35

Enquanto a burguesia liberal vergava-se perante a Autocracia, inteiramente incapaz de fazer valer seus interesses históricos, o programa da democracia burguesa acabaria sendo assumido pela democracia camponesa36.

Por isto mesmo, os social-democratas deveriam ser capazes de perceber o potencial revolucionário da tradição populista:

É claro que os marxistas devem extrair da concha das utopias populistas, com cuidado, o núcleo são e precioso do democratismo ativo, sincero e resoluto, das massas camponesas...37.
Depois da tomada do poder, e ao longo do ano vermelho de 1917, nas polêmicas contra as tendências moderadas e conciliadoras, na defesa do regime soviético e da ditadura do partido, Lenin não deixaria de chamar em seu apoio o legado das lideranças populistas dos anos 60 do novecentos, legitimando historicamente sua proposta de aliança com o democratismo mujik de Dobroliubov e Tchernychevski38.

Numa outra dimensão, na luta pela constituição de um partido de vanguarda, formado por profissionais, uma outra luta política capital, Lenin resgataria aspectos da tradição populista: as lideranças históricas mais prestigiadas dos anos 40 do novecentos (Herzen, Tchernychevski, Belinsky), o heroísmo das organizações revolucionárias, da Zemlya i Volia à Narodnaya Volia, a capacidade de luta, as técnicas de organização clandestina do trabalho político, impostas pelos rigores da polícia política tsarista. Depurados de seu utopismo nulamente revolucionário, constituíam referências a serem consideradas39.

Os populistas apareceriam como predecessores40. Militantes dedicados, abnegados. Mesmo polemizando com os socialistas-revolucionários, que reivindicavam o legado populista, estabelecendo duramente os contrastes entre os narodniks históricos (de velhas crenças) e seus herdeiros (sem crença alguma41), Lenin não pouparia elogios aos militantes s-rs, portadores das características do populismo histórico:

...pessoas de espírito incontestavelmente revolucionário, plenos mesmo de uma abnegação heróica, ...que desejam o mais sinceramente do mundo se entregar de todo o coração ao serviço da liberdade e do povo42.

E as figuras das lideranças, oferecidas como exemplares, sobretudo Nicolau G. Tchernychevski, modelo de combatividade, de intransigência, de radicalismo revolucionário, embora com as limitações teóricas sobre as quais sempre insistiria Lenin43.

Na análise de uma tradição complexa, o trio do joio e do trigo. Renúncias e incorporações.


5. À guisa de pósfacio - as revoluções russas, o socialismo soviético e o populismo
No processo das revoluções de 1917 os herdeiros reconhecidos do populismo, agrupados no Partido Socialista-Revolucionário (SRs), cindiram-se, principalmente a partir do segundo semestre do ano. Os chamados SRs de esquerda acabariam dando apoio ao primeiro governo revolucionário, chefiado por Lenin, e esta aliança foi muito importante para que os bolcheviques conseguissem o apoio do Congresso pan-russo dos comitês agrários, reunido em dezembro, o que foi decisivo para a consolidação de seu poder naquele momento. Parecia estar se confirmando a previsão de Lenin a propósito da aliança entre operários e camponeses, entre a social-democracia marxista e a democracia revolucionária do mujik.

Um encontro histórico entra as duas tradições revolucionárias russas?

A aliança durou poucos meses. E acabou não resistindo à paz de Brest-Litowski e, sobretudo, à política de requisições decretada pelo governo revolucionário a partir de maio de 1918.

Veio a guerra civil, quando os SRs tentaram construir uma terceira via, entre vermelhos e brancos. Não conseguiram e foram definitivamente destruídos.

Enterradas com eles as tradições populistas?

A vitória da revolução agrária de 1917, consagrada juridicamente pelo governo bolchevique através do Decreto sobre a Terra, logo depois da insurreição de outubro, consumara uma longa luta, de décadas, ou de séculos. Pareceu, em certo momento, ao menos em parte, um triunfo histórico da tradição populista russa. Mas, depois dos zig-zags da guerra civil e da trégua, instaurada pela NEP, também não resistiu aos avatares da revolução.

Já em fins do anos 20, a revolução pelo alto comandada por J. Stalin, coletivizando de modo ditatorial e sangrento a terra e os camponeses, arquivou a aliança realizada em 1917, responsável pela vitória da revolução. Da auto-organização camponesa nada restou.

Da liberdade, anelo presente nos nomes e nas ambições futuras das organizações populistas, nada também restou sob a ditadura do partido único e do estado todo-poderoso, características marcantes do socialismo soviético.

É verdade, o socialismo soviético construiu uma outra modernidade, distinta da ocidental, mas sem conexões com a utopia populista, baseada na auto-organização de unidades federadas e no socialismo agrário.

Restaram os mártires da luta contra a autocracia, seus exemplos de abnegação, de dedicação, de intransigência. Seus nomes denominariam praças e ruas, inscrevendo-se em obeliscos e estátuas, inspirando, frequentemente, a luta... dos que se opunham ao regime soviético.

Uma tradição densa e de grande significado histórico, reprimida, ignorada, asfixiada. Não estaria aí uma das chaves para a compreensão da ditadura bolchevique e para a sociedade que se construiu na União Soviética?

Bibliografia

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Obras de V. Lenin


Oeuvres Complètes/OC. 1977-1984 (41 volumes). Paris/Editions Sociales, Moscou/Editions du Progrès

Textos consultados

Notas

. ordem cronológica



. quando houver indicação de duas datas, a primeira refere-se à data da formulação do texto, a segunda, à da publicação
Volume 1. 1893-1894

. Quem são os amigos do povo e como eles lutam contra os social-democratas. 1894. (pp. 143-360)

Volume 2. 1895-1897

. A que herança renunciamos? 1897-1898. ( pp. 505-551)

Volume 3. 1899

. O desenvolvimento do capitalismo na Rússia. 1899. (pp. 07-674)

Volume 4. 1898-1901

. Protesto dos social-democratas da Rússia. 1899. (pp. 170-186)

. Nossa tarefa imediata. 1899. (pp 221-226)

. Uma questão urgente. 1899. (pp. 227-232)

. Projeto de Programa para nosso Partido. 1899. (pp. 233-261)

. Um movimento retrógrado na Social-Democracia russa. 1899-1924. (pp. 262-293)

Volume 5. 1901-1902

. Os perseguidores dos Zemstvos e os Aníbal do Liberalismo. 1901. (pp. 27-77)

. Que fazer? 1901-1902. (pp 354-544)

Volume 6. 1902-1903

. O programa agrário da Social-Democracia russa. 1902. (pp. 105-150)

. O aventureirismo revolucionário. 1902. (pp. 188-209)

. Tese fundamental contra os socialistas-revolucionários. 1902-1936. (pp. 276-280)

. O socialismo vulgar e o populismo ressuscitados pelos socialistas-revolucionários. 1902. (pp. 266-273)

. Resposta a uma crítica de nosso projeto de programa. 1903. (pp. 458-474)

Volume 9. 1905

. Duas táticas da social-democracia na revolução democrática. 1905. (pp. 09-139)

. Socialismo proletário e socialismo pequeno-burguês. 1905. (pp. 454-463)

Volume 17. 1910-1912

. A propósito do Jubileu (50 anos da reforma de 1861). 1911. (pp. 106-114)

. A “reforma camponesa” e a revolução proletária e camponesa. 1911. (pp. 115-124)

Volume 18. 1912-1913

. Duas utopias. 1912-1924. (pp. 362-366)

. O desenvolvimento das greves revolucionárias e das manifestações de rua. 1913. (pp. 488-495)

. Sobre o populismo. 1913. (pp. 545-549)

Volume 27. 1918.

. As tarefas imediatas do poder dos soviets. 1918. (pp. 243-287)

Volume 33. 1921-1923

. O alcance do materialismo militante. 1922. (pp. 230-240)

Volume 34. Cartas. 1895-1911

. Carta de V. Lenin a A.N. Potressov. 26-01-1899 (pp. 20-24)

. Carta de V. Lenin a A.N. Potressov. 27-04-1899 (pp. 25-30)

Volume 38. Cadernos Filosóficos

. Notas sobre a obra de Fuerbach: Lições sobre a essência da religião/1851 (pp. 59-82)



. Notas sobre a obra de G. Plekhanov: N.G. Tchernychevski/1910 (pp. 466-502)

1 Sobre o populismo, cf., entre muitos outros, I. Berlin, 1988; A. Herzen, 1974-1981; M. Malia, 1971; F. Venturi, 1972 e A. Walicki, 1979

2 Cf. I.Berlin, Op. cit., p 217

3 Cf. a análise de Che Guevara, este populista do século XX, feito por A. Guillermoprieto, 2002: Ernesto Che Guevara, the harsh angel.

4 Insistem nesta questão com particular ênfase F. Venturi, 1972 e A. Walicki, 1979

5 Cf. Daniel Aarão Reis Filho, 2000 e 2001.

6 Agradeço ao velho amigo Vladimir Palmeira, atualmente elaborando tese de doutorado no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal Fluminense sobre a trajetória e o pensamento de V. I. Lenin, por ter-me cedido suas notas a respeito das reflexões de Lenin sobre a tradição populista. É evidente que as opiniões emitidas neste artigo não comprometem V. Palmeira.

7 O trabalho foi elaborado com base nas Oeuvres Complètes de V.I. Lenin, Editions Sociales, Paris, Editions du Progrès, Moscou, 1977 e 1984 (volumes 1-41). Doravante, as referências indicarão esta obra como O.C. , acompanhadas pela indicação do número do volume, o título do artigo, as páginas referidas, e o ano da sua publicação . Na bibliografia serão relacionados todos os artigos, por ordem cronológica e indicação da inserção nos volumes. As traduções para a lingua portuguesa são de minha responsabilidade (DARF).

8 A morte de V. Lenin ocorreu em 21 de Janeiro de 1924, na cidade de Gorki, porém, seu ultimo artigo: “Mais vale menos, mas melhor”, foi ditado entre 2 e 9 de fevereiro de 1923. Cf. OC, volume 33, p. 569.

9 Intelectuais que, ao longo dos anos 90 do século XIX, reivindicavam a tradição e a identidade populistas. Por limitar seu campo de intervenção a periódicos legais, empregou-se a expressão populistas legais, por analogia com os marxistas legais, publicistas que, no mesmo período, reivindicavando o marxismo, limitavam-se também aos espaços permitidos pela legalidade vigente. Os populistas legais tinham como órgão de expressão a revista A Riqueza Russa (Russkoe Bogatstvo).

10 Tendência política surgida entre os social-democratas russos na década de 90 do século XIX, enfatizando o valor das chamadas lutas econômicas (salários, condições imediatas de trabalho, etc.) e subvalorizando a importância da luta política.

11 Tendência política surgida na social-democracia alemã, com conexões internacionais, que propunha rever conceitos e referências básicas do pensamento de Marx. Seriam acusados, com alta carga pejorativa, de revisionistas. Para os que acusavam, os revisionistas eram partidários do abandono das perspectivas revolucionárias.

12 Cf. OC, Volume 1, pp 143-360.

13 Cf. OC, Volume 2, pp 505-551

14 Cf. OC, Volume 3, pp 7-674

15 Referência ao texto já citado, cf. nota 12

16 Cf. OC, volume 3, 1899

17 Cf. OC, volume 4: Protesto dos social-democratas da Rússia, p. 186

18 “O capitalismo venceu, a época é da luta operária”, cf. OC, volume 1: Quem são os amigos do povo e como lutam contra os social-democratas, p. 310.

19 Cf. OC, volume 9, pp 454-463, especialmente pp 462-463.

20 Refere-se às responsabilidades coletivas em relação ao fisco e ao pagamento das anuidades fixadas em 1861 para a compra da terra pelos camponeses.

21 Cf. OC, volume 6: O programa agrário da social-democracia russa, p. 147

22 Cf. Op. cit., pp. 138-139.

23 Cf. idem, idem, p. 140

24 Cf. OC, volume 6: O aventureirismo revolucionário, p. 191-193.

25 Entre as quais, nos anos 90, os populistas legais e os economistas, cf. notas 8 e 9, supra

26 Narodnaya Volia: Vontade/Liberdade do Povo, organização política populista, dos anos 70, que promoveu uma série de atentados contra dirigentes do Estado, inclusive o próprio Tsar.

27 Cf. OC, volume 4: Protesto dos social-democratas da Rússia, Op. cit.

28 Estas questões seriam extensamente trabalhadas por Lenin em: Duas táticas da social-democracia na revolução democrática, OC, vol. 9, pp 9-139

29 Cf. OC, volume 5: Os perseguidores dos Zemstvos e os Anibal do Liberalismo, 1901, p 76

30 Cf. OC, volume 5: Os perseguidores dos Zemstvos e os Aníbal do Liberalismo, p. 45

31 Cf. idem, idem, a defesa de Alexandre Herzen e de Nicolau Tchernychevski, e de suas posições contrárias às reformas, consideradas insuficientes, p. 67

32 Cf. OC, volume 17: A propósito do Jubileu, 1911, pp 106-114

33 “Após 1861, o desenvolvimento do capitalismo na Rússia se fez a um ritmo tão rápido que, em algumas dezenas de anos, operaram-se transformações que, em certos países da Europa, tinham levado séculos inteiros”. Cf. OC, volume 17: A “reforma camponesa” e a revolução proletária e camponesa, 1911, p 118

34 Cf. idem, idem, p. 117

35 Cf. OC, volume 18: Duas utopias, 1912, p. 365

36 Cf. OC, volume 18: Sobre o populismo, 1913, pp 545-549

37 Cf. OC, volume 18: Duas utopias, 1912, p. 366

38 Cf. OC, volume 27: As tarefas imediatas do poder dos soviets, 1918, p. 285

39 Cf. OC, entre muitas outras, volume 4: Uma questão urgente, 1899, p. 228, e, o clássico Que Fazer?, 1902, volume 5, p 370-373.

40 O termo é de Lenin: OC, volume 5, p. 373

41 As expressões grifadas são de Lenin, cf. OC, volume 6: Resposta a uma crítica de nosso projeto de programa, 1903, p. 458

42 Cf. OC, volume 6: Tese fundamental contra os Socialistas-Revolucionários, 1902, p. 277

43 As obras completas de V. Lenin estão permeadas de referências positivas a N. Tchernyveski, sempre ressalvado seu utopismo nulamente revolucionário. Lenin o admirava profundamente e não gratuitamente intitulou uma de suas obras clássicas com o título da também clássica novela de Tchernychevski: Que Fazer? (Chto dielat?). Cf., entre muitas e muitas outras citações, a leitura atenta feita por Lenin da obra de G. Plekhanov sobre Tchernychevski: OC, volume 38 (Cadernos filosóficos), pp. 466-502.

X Encontro Regional de História – ANPUH-RJ



História e Biografias - Universidade do Estado do Rio de Janeiro - 2002



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