Leão, Sol e Símbolos da Individuação



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Leão, Sol e Símbolos da Individuação



O significado do Sol e do signo do Leão no zodíaco

A Astrologia é uma linguagem baseada em princípios universais que são estruturadores da vida psíquica, tanto individual quanto coletiva. O zodíaco, considerado pelos antigos filósofos, como a “alma da natureza” contém doze signos e cada um deles expressa um estágio ou fase evolutiva do ser humano.

Assim, na jornada zodiacal temos doze grandes tarefas arquetípicas a serem integradas pela consciência do homem e o mapa natal com suas doze casas, representa um modelo de totalidade da psique humana.
O signo de Leão, que é regido pelo Sol, representa uma importante etapa do desenvolvimento, é a quinta casa zodiacal, onde há o nascimento da consciência e da noção de “indivíduo”.

No hemisfério Norte, o signo de Leão corresponde ao auge do calor do verão, é o segundo estágio do elemento fogo, que se iniciou no signo de Áries, que representa a primavera e o desabrochar da natureza.

Nesse momento ela se mostra em sua plenitude, na exuberância das flores, dos frutos e das colheitas. Leão representa, sob a regência do Sol, a paixão, a alegria de viver, a criatividade, a força de vontade, e da conservação da vida.

A passagem diária do sol no céu é um tema mítico em muitas civilizações antigas, pois os chamados deuses solares como Hélio na Grécia, Horus no Egito e Mitra para os persas, eram cultuados como heróis solares, a representação da força criadora do sol.

Nessa jornada, o signo anterior que é Câncer, regido pela Lua, está relacionado ao mundo familiar e às nossas matrizes psíquicas, o mundo da mãe, que é instintivo, inconsciente e, portanto, indiferenciado. Na fase lunar, o “eu” está submerso em fatores mais emocionais e subjetivos, e matizado pelas influências familiares.

É importante dizer que tanto o Sol quanto a Lua, o masculino e o feminino, são os princípios formadores da nossa psique e a polaridade por eles representada é símbolo da nossa totalidade. O Sol, como fonte de luz e vida, é o princípio masculino da natureza representa a autonomia, a vontade, a consciência, o espírito, o pai, o Logos, a força vital, a auto-expressão. A Lua, o princípio feminino, representa a segurança emocional, a mãe, o passado, o inconsciente, a subjetividade, a alma. Como pares de opostos abrangem a vida e a morte, o dia e a noite, tudo o que é a própria essência do princípio da dualidade, a unidade dos contrários.


No entanto, para a Astrologia, o Sol se apresenta como o princípio da consciência, o centro doador de luz, vida e calor e manifesta o poder de atração. Representa a “chamada para a aventura” do herói, a eterna busca por conhecer a si mesmo, a luta pelo desenvolvimento dos talentos e potencialidades a serem vividas.

O Sol é também o símbolo maior da identidade pessoal, da essência criativa que se manifesta na vontade humana, o esforço do homem em tornar-se o que é, e encontrar um propósito para a vida. Através do princípio das correspondências, o sol que está no céu é o mesmo que está no centro de nosso corpo sob a forma de coração, pulsando e irradiando vida.


Podemos dizer que, em termos arquetípicos, o signo de Leão e o Sol são os princípios potencialmente ativos e disponíveis para o desenvolvimento da personalidade, e essa é a missão mítica de cada um de nós. O mapa astrológico é um modelo da nossa psique e na estrutura zodiacal o processo de individuação tem início no signo de Leão.

Leão, o fogo da paixão e da criatividade

Como não poderia deixar de ser, para o leonino o impulso para a afirmação ou para a realização pessoal é o tema central em sua vida. Embora essa seja uma questão para os demais signos, o leonino deseja ser reconhecido com um ser criativo e especial, e ele sempre lutará para não ter um destino comum. Esse pressuposto do signo de Leão está relacionado ao Sol que, em termos astrológicos, é a “divindade” que o preside. Todos os símbolos do Sol traduzem idéias ou imagens de grandeza, nobreza, paixão e vitalidade.


No nativo de Leão, a energia vital do fogo flui espontaneamente, dando a ele uma natureza ardente, expressiva e voluntariosa. Na anatomia zodiacal o órgão a ele correspondente é o coração, e isso já diz da importância das emoções e do amor em sua vida. Sua natureza é quente, erótica e sedutora, o que faz dele um ser facilmente fisgado pelas flechas de Eros. É leal, generoso, bastante dramático e infantil na manifestação dos seus sentimentos.
Como um bom ator no palco, precisa constantemente de reconhecimento e aplausos pelo que faz, sente e pensa. A ambição e a generosidade, às vezes bastante duvidosas, fazem parte de um estilo de vida bastante solar; individualista e orgulhoso. O leonino só não faz concessões quando essa atitude possa denegrir sua imagem. Como o próprio sol, considera-se um ser especial, a vida para ele é bela e grandiosa, e por essa razão, não suporta a mediocridade.

É o mais magnânimo de todos os signos e revela um estilo de vida que exclui a modéstia e a reserva; seu grande desejo é conquistar e fazer-se amado por todos, criando assim um mito de si próprio.

Mas como tudo tem o seu oposto, as bravatas heróicas do leonino e seu inequívoco exagero e dramaticidade escondem, freqüentemente, uma insegurança ou medo de não ser aceito. Na sua concepção de ser e sentir, a vida deve ser explorada em todo o seu potencial. E sem perder a classe, jamais.
Pelas imagens contidas no simbolismo do Sol e do Leão, tanto no Tarot quanto nos mitos, observamos que há dois tipos de leoninos. Um o tipo hercúleo, tem uma natureza dominadora, voluntariosa, e instintiva. Sua moral é a da força e do combate, pois personifica o “eu heróico” que precisa vencer as batalhas da vida e para isso usa a sua agressividade e poder. Precisa se assegurar de sua vitória e de seu lugar no mundo a qualquer preço. Geralmente extrovertido, sua emotividade é pouco controlada; é auto-centrado, e prefere dominar e impor a sua vontade. Esse tipo personifica, sobretudo, a exuberância, o celebrar da vida, a alegria e o entusiasmo.
O outro tipo é o apolíneo, cuja energia solar é mais interiorizada, sua ação é mais racional e disciplinada. Idealista e magnânimo, suas metas estão voltadas para a conquista da consciência ética, da honra e da nobreza. É movido pelo desejo de criar a si mesmo, rompendo as amarras da ignorância e da falta de visão que causam o sofrimento e a dúvida. Sua energia psíquica está aliada a uma visão de futuro, e seus propósitos estão voltados para a conquista do “eu espiritual”.
Astrologia e Mitologia

Os mitos surgem, espontaneamente, como representações coletivas de diferentes épocas e culturas, e são como um auto retrato criativo da psique humana descrevendo sua natureza, mistérios e evolução.

Eles narram as vivências comuns a toda humanidade, traduzindo o que chamamos de experiências arquetípicas. Os arquétipos são princípios universais, idéias estruturantes que estão na base e motivação de toda a vida psicológica, tanto individual quanto coletiva. Eles são o substrato daquilo que Jung chamou de Inconsciente Coletivo, um depositário de experiências e imagens ancestrais, a soma das potencialidades latentes da psique universal. Ele é um todo orgânico e criativo, um grande sistema onde todos vivemos, por assim dizer, o fundamento da existência.
É importante lembrar que os mitos têm um conteúdo teleológico, ou seja, seus padrões narrativos dão um significado à existência. Em sua cosmologia está sempre presente a necessidade que o homem tem de relacionar-se com uma realidade ou com a força divina. Por isso eles estão sempre vivos no imaginário coletivo, pulsando na consciência humana, e têm uma extraordinária ressonância em nossa mente analítica e racionalista, típica da modernidade. Em sua estrutura há um passado que é sempre presente, vale dizer, o mito é sempre distante e atual.
Assim, os mitos são um retrato vivo e dinâmico da psique humana em todas as suas manifestações culturais, sejam elas a filosofia, as religiões, as artes, as guerras, etc. As imagens neles contidas têm enorme poder e a eternidade dos seus símbolos expressa um padrão de desenvolvimento psicológico inerente à condição humana.
A Astrologia contém uma estrutura mitológica e arquetípica quando compreendemos que a essência desses padrões pré-ordenados e dessas imagens estão na base de toda a criação humana. Cada signo pressupõe uma jornada mítica com todas as imagens simbólicas que lhe são inerentes. Um signo não descreve só um tipo de comportamento ou personalidade; ele contém um padrão de desenvolvimento, uma história dinâmica a ser vivida.

Um tema mitológico é também astrológico, uma vez que seus símbolos estão intimamente entrelaçados, e dizem respeito a estruturas psíquicas que são semelhantes a todos os seres humanos.


O que diferencia a mitologia do simbolismo astrológico é a sua estrutura individual e coletiva. O mito é atemporal e não localizado, e sua ênfase está em manifestações culturais, pois sua dinâmica é mais universal. Como vimos, a estrutura zodiacal é também universal, mas a qualidade de experiência é individual. A posição dos planetas e suas variáveis particulariza a experiência que no plano maior é arquetípica. O mapa natal é como uma semente que já contém em si um plano de desenvolvimento potencial e que será revelado em diferentes períodos através dos trânsitos e progressões durante a vida de um indivíduo. Na Astrologia entendemos que a matéria primada da qual somos constituídos é a mesma: impulsos, desejos, motivações e necessidades; mas a combinação destes elementos é única em cada um de nós.

O tema subjacente da carta natal “Quem sou eu?”, é o mesmo tema da identidade do herói ou a conquista do “eu” solar do estágio do signo de Leão.



A Jornada do herói
Ao analisarmos os temas da jornada mítica constatamos que o herói tem várias tarefas a serem cumpridas. Ele vai separar-se do seu lugar de origem, passar por lugares distantes, vencer uma série de batalhas e obstáculos. Ao final, com a tarefa cumprida, o herói, transformado por suas experiências, deverá voltar ao lugar de onde partiu para compartilhar com o seu meio os benefícios da sua conquista.
O herói geralmente é filho de um deus com uma mortal, o que confere a ele uma característica especial, pois o seu destino não é comum. Seu nascimento é difícil ou estranho, e nem sempre conhece os seus pais verdadeiros; muitas vezes, descobrir a sua origem será o grande desafio de sua vida.

Os caminhos tortuosos que vai percorrer estão representados por imagens que simbolizam uma travessia ao inconsciente: florestas escuras, rios que conduzem aos infernos, mares revoltos e mesmo passar dias na barriga de uma baleia. As chamadas imagens arquetípicas lá estarão em forma de rainhas, bruxas, reis enfraquecidos, aguardando pelo herói. O encontro com monstros terrestres ou marinhos, bestas e gigantes idiotas, aparentemente invencíveis, vão indicar partes imperfeitas de sua personalidade, seus complexos e instintos que precisam se desenvolver.


Aparentemente jogado à sua própria sorte e desamparado, o herói que aceitou o chamado terá a ajuda de seres bondosos, como animais mágicos ou pastores que darão a ele um amuleto de sorte ou mostrarão o caminho certo. As provações e o seu sofrimento têm como meta a superação de seus conflitos e incertezas, a batalha a ser travada é com ele mesmo. Vencer e compreender a complexidade da psique é o destino do herói, que luta para sair do mundo lunar e chegar ao mundo solar. Para tanto deverá matar, dentro de si, as serpentes e dragões que vivem nas cavernas de sua alma, vale dizer, livrar-se da dependência materna e familiar que impedem o seu desenvolvimento no mundo. Sua meta e recompensa, seja a princesa, o tesouro ou a imortalidade são chegar à consciência de si mesmo.
Como diz Joseph L. Henderson :

“Esse conflito se expressa através da luta entre o herói arquetípico e as potências cósmicas do mal, personificadas em dragões e outros monstros. No desenvolvimento da consciência individual, a figura do herói representa os meios simbólicos com os quais o ego emergente ultrapassa a inércia da mente inconsciente, e libera o homem maduro do desejo regressivo de voltar ao estado bem-aventurado da infância, a um mundo dominado pela figura materna”. (O Homem e seus símbolos)



Mito de Apolo

Apolo era filho de Zeus e Leto, e irmão gêmeo de Ártemis. Conta o mito que Hera, a ciumenta e vingativa esposa de Zeus, ao saber de mais uma traição de seu marido, perseguiu Leto até os confins do mundo, não permitindo que ela parisse em lugar algum. Ortígea, uma ilha árida e distante acabou por receber a pobre mulher. Depois de longa espera e sofrimento, nasceram finalmente, as duas crianças.


A menina Ártemis foi a primeira a nascer e imediatamente ajudou a sua mãe no parto de seu irmão. Tão logo Apolo chegou ao mundo, a ilha encheu-se de uma vegetação exuberante e sete cisnes brancos deram sete voltas em torno dela, que a partir daí recebeu o nome de Delos. Isso tudo aconteceu porque Apolo era o deus do Sol, que trazia a vida, a luz e a beleza para a terra. Apolo foi levado para o país dos Hiperbóreos, onde havia um céu sempre azul e brilhante, e lá ficou por um ano. Na chegada da primavera, Apolo retornou à Delfos, na Grécia, entre muitas festas e cantos de rouxinóis; tudo era alegria e calor na sua chegada. Antes de instalar-se nesse lugar Apolo teve uma importante missão a ser realizada: matar, com suas flechas, a enorme serpente Píton, que era a guardiã do oráculo de Géia, a terra primordial.
Após destruí-la, ele ergueu o seu próprio templo onde lá reinou por muitos séculos. Homenageou a serpente, dando o nome de Pitonisa à sua sacerdotisa. Num ritual sagrado, sentada numa trípode de bronze e coberta pela pele de Píton, ela respondia, em êxtase, às perguntas dos consulentes ao oráculo do deus Apolo. Eles vinham de vários lugares da Grécia, e as consultas eram sempre feitas no sétimo dia de cada mês. Em seu templo havia a famosa inscrição: “Homem, conhece-te a ti mesmo”.
Apolo era cultuado não só como o deus da profecia, mas também da agricultura, da navegação, da música e das artes em geral. Exercia também a função de deus da medicina e da cura. Ao lado de Zeus é a figura mais importante do Olimpo, caracterizando a cultura do ideal grego de perfeição e harmonia. Apolo acabou por fundir em seu mito funções bastante diversificadas, sintetizando assim uma divindade complexa, mas, sem dúvida, esteve sempre relacionado a um ideal de cultura e sabedoria.
Sabe-se que o oráculo de Apolo chegou ao seu apogeu entre os séculos VI e V AC da civilização grega. No seu templo consultavam-se chefes militares, soberanos e navegadores, todos a procura de desvendar seu futuro e destino. A influência político-social do templo de Delfos foi de grande importância na vida grega, não obstante as guerras e conflitos internos que nela houvessem. O famoso templo era, sobretudo, um centro de poder moral e sua influência religiosa predominou na cultura e na hegemonia do povo grego. Apolo como divindade representante da harmonia e da beleza lá estava para apaziguar as tensões e guiar o gênero humano a favor do desenvolvimento da sua consciência da barbárie humana.
Ao mesmo tempo em que Apolo é a luz da consciência, ele também promove um ideal da cultura e de soberania, característica da cultura grega. A espiritualidade por ele representada é a função superior da consciência.
Hércules e o Leão de Neméia
Destruir o Leão de Neméia foi o primeiro dos doze trabalhos que Hércules. Esse animal feroz causava horror à cidade de Neméia, pois devorava seus moradores e animais. Na primeira tentativa, Hércules tenta matá-lo com suas flechas em vão, pois era invulnerável a elas. Depois, numa luta tremenda, o herói consegue empurrá-lo para dentro de sua caverna que tinha duas entradas. Hércules bloqueou uma delas e em seguida enfrentou o animal na escuridão, e terminou por estrangulá-lo. Em seguida, arrancou a sua pele e com ela passou a vestir-se.
É interessante notar que Apolo matou a serpente Píton, mas usou a sua pele para fazer uma banqueta para a sua sacerdotisa; Hércules matou o leão e depois se cobriu com a sua pele, que o tornava invulnerável. Os temas dos heróis sempre relatam batalhas com bestas ou monstros, que precisam ser domesticados, o que em termos psicológicos representa o desenvolvimento do ego que precisa vencer o caos da instintividade. Dragões e monstros são a personificação de uma agressividade que precisa ser refreada, e das paixões e emoções que deverão ser contidas. Na Alquimia e no Tarot encontramos os mesmos motivos que indicam a necessidade do homem de domar suas paixões.
Na teoria junguiana não há como separar o instinto do arquétipo, que de forma bastante simplificada, é equivalente como os dois lados de uma moeda. O primeiro é determinante no comportamento físico ou natural e o segundo como a imagem ou percepção desta ação. Para Jung, a característica da espécie humana é justamente a capacidade de refletir, ao que ele chamou de “instinto de reflexão”, pois é através dele que o homem pode livrar-se das amarras da sua instintualidade mais bruta. O instinto modificado ou psiquizado perde a sua compulsividade, e dá ao homem ou ao herói mais autonomia para criar a sua realidade interna, libertando-se do condicionamento dos padrões parentais, valores coletivos das expectativas impostas da vida externa.
Para Jung a noção de psiquização é, portanto, fundamental para entendermos o chamado processo de individuação, a conquista desta autonomia, interna e externa. O homem é o único ser capaz de construir a vontade, assim é um animal psiquizado, pois possui essa capacidade de refletir.

Em suas palavras: “Os instintos não são criativos... A reflexão é o instinto cultural par excellence, e sua força se revela na maneira como a cultura se afirma em face da natureza”. (CW VIII, pág.243)




O Sol e o Leão na Alquimia e Tarot

Na Alquimia encontramos um tema central, que é a transformação dos metais em ouro, outro importante símbolo do signo de Leão. Do ponto de vista dos alquimistas, o ouro físico e o ouro psíquico eram a mesma coisa, e eles não estavam interessados no “ouro vulgar” mas sim no “ouro filosófico”.


A “Grande Obra” ou a “Pedra Filosofal” era a descrição de um processo bastante complexo da transformação da natureza humana, a fim de que ela pudesse espelhar o seu aspecto divino. O objetivo da obra era achar Deus na matéria, e o metal ouro, cuja natureza nobre e brilhante era o símbolo do eu espiritual transformado. A “opus” estaria destinada a aperfeiçoar o homem, a obra inacabada de Deus.
As diferentes fases do processo alquímico tinham uma relação direta com a posição planetária, uma vez que as duas formas de conhecimento são baseadas no princípio das correspondências e do tempo qualitativo. Os metais transformados tinham a mesma substância ou o mesmo princípio dos planetas, e havia o tempo certo, ou Kairós, para as coisas acontecerem. O Sol alquímico é, sobretudo, o símbolo do renascimento das forças espirituais, a centelha do fogo divino no homem.
Em analogia, o pressuposto alquímico é que o sol é a própria imagem de Deus, assim como o coração é a imagem do sol no homem. O ouro é o símbolo solar por excelência, a revelação do plano divino na terra. Ao final do processo havia a imagem da coniunctio, uma conjunção do Sol e da Lua ou do casamento sagrado do rei e da rainha, que em síntese seria a integração dos opostos, da vida consciente e inconsciente. As imagens alquímicas, da mesma forma que os mitos ou contos de fada, representam diferentes etapas do desenvolvimento psicológico, da mesma maneira que um mapa astrológico descreve uma “opus” individual, o trabalho de uma vida.
No Tarot de Marselha encontramos dois arcanos maiores, “O Sol” e “A Força” que contém representações bastante análogas aos princípios astrológicos do Sol e do Leão. Passada a fase anterior representada pelo arcano maior “A Lua”, vemos na carta XIX a figura do sol brilhando e duas crianças. O Sol, em seu trajeto diário e anual, representa os ciclos naturais da vida e em sua potência criativa temos o princípio de organização e da continuidade. O Sol como símbolo da força vital psíquica, é a imagem que traduz o espírito masculino, a realização plena dos ideais, a claridade da consciência, a fertilidade e a renovação da vida. No plano divinatório, a carta do Sol indica um período de mais clareza e da confiança renovada na vida, pois o medo e a escuridão (da carta da Lua) já se foram.
Sobre a passagem da noite para o dia diz Goethe:
“Quem nunca passou horas de vigília

Chorando e esperando o amanhecer

Esse não conhece os poderes celestiais”.
Na carta “A Força” vemos um leão e uma donzela que está segurando a sua boca aberta. O leão é símbolo de uma força brutal e voraz, que na alquimia era visto como a “besta régia”, o sangue quente de um animal devorador, símbolo das paixões violentas. Esses instintos devem ser domados e canalizados e na imagem isso acontece pela ação da energia feminina. Essa carta traduz a necessidade da premeditação do uso da própria força, e a percepção dos limites. A figura feminina sugere a necessidade de domar ou integrar os afetos, educar as emoções desgovernadas. É o mesmo feito heróico, a coragem para enfrentar o inconsciente, representado na figura do leão, o poder dos instintos, o fogo da passionalidade.
Sobre a eclosão do conflito entre a vida consciente e inconsciente diz Jung:

“O conflito engendra fogo, o fogo dos afetos e emoções e, como qualquer outro fogo, ele tem dois aspectos, o da combustão e aquele que cria luz. Por um lado a emoção é o fogo alquímico, cujo calor traz todas as coisas para a existência e cujo ardor reduz todo o supérfluo e cinzas. Mas por outro lado, a emoção é o momento em que o aço encontra a pedra e uma faísca salta, porque a emoção é a principal fonte de consciência. Não existe mudança da escuridão para a luz ou da inércia para a o movimento sem emoção”.

(CW IX, pág. 105.)
Alcançar a consciência e a revelação do si mesmo é o que Jung chamou de “processo de individuação”, o cerne da sua teoria e o objetivo da sua prática psicoterapêutica. Nesse processo está implícito um trabalho de diferenciação dessas imagens internas, para que o homem possa tornar-se um indivíduo, uma entidade separada e liberada dos valores coletivos, seja da sociedade, seja do próprio inconsciente coletivo. O homem individuado em sua forma ideal é aquele que percorreu todas as etapas de um longo caminho, e que vivenciou a sua “impressão celestial” revelada pelo mapa natal de nascimento.
Como vimos, a individuação é o impulso natural de desenvolvimento do homem. Ela não é sinônimo de perfeição, mas representa a possibilidade de integração de forças opostas da natureza como sentimento e pensamento, corpo e espírito, instinto e reflexão. Nesse processo psicológico, tão bem representado nas complexas imagens da Alquimia ou Mitologia está implícita, como uma grande metáfora, a conscientização gradual do homem, a revelação do “si mesmo”, uma árdua tarefa que perdura até o final da vida.

Mapa Natal de Jung
Carl Gustav Jung nasceu em 26 de julho, às 19h e 32m, em Kessil, na Suíça. Já desde muito pequeno, Jung revela em sua autobiografia uma personalidade inquieta, com questionamentos profundos, uma enorme preocupação consigo mesmo. Certamente não foi o acaso que fez um leonino construir uma teoria da personalidade, cujo conceito central era o processo de individuação como o pressuposto de uma psique que integrasse, em si, a polaridade dos opostos e um indivíduo diferenciado da coletividade. Leão, o signo da expressão individual, faz oposição a Aquário o signo da coletividade.
Leonino, tem o Sol na sétima casa em conjunção a Urano, e em quadratura a Netuno. A Lua está no signo de Touro próxima a Netuno e Plutão. Os dois luminares estão em signos fixos e tem fortes contatos com os chamados planetas transpessoais, também ligados à vida inconsciente, e as manifestações da psique coletiva. Seu Ascendente é Aquário e Saturno ocupa a primeira casa.
No que diz respeito à relação com o pai, um pastor protestante, ele manifesta o seu inconformismo quando diz:

“... surgiram em mim profundas dúvidas em relação a tudo o que meu pai dizia... suas palavras eram insípidas e vazias, tal como as de uma história contada por alguém que a conhece só por ouvir dizer”. (SMR, pág. 50)


Há um visível sentimento de desilusão e incerteza na relação com o pai (Sol / Netuno) e que, por outro lado, o incitaram a buscar e entender vivências religiosas e sonhos que foram marcantes desde muito cedo, e continuaram ao longo da sua vida. Na entrada de sua casa, em Bollingen, havia a inscrição: “Evocado ou não evocado, Deus está sempre presente”.
Em outro trecho dá indícios de certeza a respeito de um destino maior que cedo o “escolheu” para algo grandioso: ( Sol/ Urano).

“Pressentira desde o início a singularidade do meu destino; o sentido de minha vida seria cumpri-lo. Isso me dava uma segurança interior que nunca pude provar a mim mesmo, mas que me era provada. Ninguém conseguiu demover-me da certeza de que estava no mundo para fazer o que Deus queria, e não o que eu queria. Em todas as circunstâncias decisivas isso sempre me deu a impressão de não estar entre os homens, mas de estar a sós com Deus”.


No início de sua carreira como médico e psiquiatra no hospital de Burgölzli, Jung dedicou anos de pesquisa ao conhecimento da psique humana. E de sua experiência com os psicóticos e esquizofrênicos, teceu os conceitos de arquétipos e inconsciente coletivo ( Sol/Netuno). Esses conceitos são, hoje, largamente usados por autores e artistas de várias áreas do conhecimento.
Da mesma maneira que recusou os dogmas religiosos ditados pelo pai, pois lhe pareciam pouco sólidos, mais tarde, já como discípulo preferido de Freud, não aceitou como absolutos os conceitos e o paradigma sobre a sexualidade humana, propostos por ele. Após anos de intenso processo psicológico e confronto com o seu inconsciente, criou seus conceitos sua própria psicologia, baseada em suas vivências pessoais.
Urano e Saturno são regentes de Aquário, seu signo Ascendente. Havia no médico suíço um espírito visionário e original que nunca se deixou levar pelo senso comum e pelas convenções sociais de seu tempo. Por outro lado, era também um homem conservador e disciplinado, e a seriedade de sua obra nos fala de sua incansável obstinação e dedicação ao estudo de conhecimentos arcaicos e primitivos. Conheceu, como muitos homens que estão à frente de seu tempo, o preço amargo da solidão e da incompreensão.
Jung viveu no coração da Europa, presenciou duas guerras mundiais e com elas a devastação moral e a miséria psíquica por elas produzidas. Homem de fortes convicções e fé, toda a sua obra é permeada pela questão da religiosidade humana, da ética e da busca do significado para a vida.

Jung se declarava cristão, mas do ponto de vista do cristianismo dogmático, foi sempre um outsider; suas idéias religiosas nem sempre foram bem compreendidas. Ás vezes resmungava: “Na Idade Média eu teria sido queimado”.


Escreveu a um jovem sacerdote em 1952 a respeito da própria fé:
“ Acho que todos os meus pensamentos giram em torno de Deus como os planetas em torno do Sol, e são da mesma maneira irresistivelmente atraídos por ele. Eu me sentiria como o maior pecador querer opor uma resistência a esta força” ( MSR, pág 15).
Saturno está no signo de Aquário na primeira casa em trígono com Júpiter em Libra na oitava casa. O legado da sua extensa obra e a originalidade de seu pensamento parece estar ainda muito longe de ser plenamente reconhecidos e aceitos no mundo acadêmico. No entanto, é inegável que seus variados campos de interesse, trouxeram preciosas contribuições para a Psiquiatria, a Psicologia profunda, repercutindo na Teologia, na Antropologia, na Física atômica, entre outras.
Ao estudar intensamente a religiosidade humana, a Alquimia, a Mitologia, o I Ching, a Astrologia e as chamadas ciências herméticas, Jung imprimiu mais humanidade à sua forma de fazer ciência. Jung fez severas críticas à sociedade contemporânea, à massificação e à uniformidade que produzem a mediocridade no homem. Na sua visão, o culto da “deusa Razão” causou a fragmentação do conhecimento em detrimento da alma e da subjetividade do homem, afastando-o de seu mundo mítico e divino.
Jung cumpriu, assim, o seu destino leonino e aquariano, na tentativa de alcançar o “si mesmo” em cada um de nós e, ao mesmo tempo, contribuindo com o seu enorme conhecimento, às gerações futuras que certamente ainda terão muito a desvendar sobre a genialidade de seu pensamento.

Bibliografia
JUNG, Carl Gustav. Memórias, Sonhos e reflexões. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1975.
--------------------- A Natureza da Psique. Rio de Janeiro: Vozes, 1998.
-------------------- O Homem e seus símbolos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1977.

--------------------Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo. Petrópolis: Vozes, 2000.


GREENE, Liz e HOWARD, Sasportas. A Dinâmica do Inconsciente. São Paulo: Pensamento, 1990.
---------------------------- Os Luminares – A psicologia do Sol e da Lua no horóscopo. São Paulo: Roca, 1994.
MARONI, Amnéris. Jung, Individuação e coletividade. São Paulo: Moderna,1999.
SICUTERI, Roberto. Astrologia e Mito. São Paulo: Pensamento, 1994.
BRANDÃO, Junito de Souza, Mitologia Grega, Volume II. São Paulo: Vozes, 1987.
GAD, Irene, Tarot e Individuação. São Paulo: Mandarim, 1996.

Tereza Kawall



Capítulo extraído do livro “ Astrologia e os doze portais mágicos”

Editora Talento, São Paulo, 2001.


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