Leonardo Mello e Silva



Baixar 59.48 Kb.
Encontro02.08.2016
Tamanho59.48 Kb.
ONTEM E HOJE: CAPÍTULOS DE HISTÓRIA E DE SOCIOLOGIA DO TRABALHO1

Leonardo Mello e Silva


(Departamento de Sociologia FFLCH-USP leomello@usp.br)
O objetivo dessa pequena comunicação tem o propósito de, a partir de alguns relatos recentes de historiadores do trabalho no Brasil, demonstrar a pertinência (ainda) de um enfoque da realidade fabril baseado no processo de trabalho. Os exemplos encontrados, aqui e ali, confirmam essa percepção. Cabe agora desenvolver as interseções possíveis entre esses relatos e o patrimônio heurístico oriundo daquela tradição de análise.

Taylorismo e Fordismo no Brasil


Em trabalho pioneiro da primeira metade dos anos oitenta, Nilton Vargas procurou estabelecer uma periodização da introdução do taylorismo e do fordismo no Brasil2. Qual é a importância dessa tentativa? Em primeiro lugar, a sistematização de um tema por si só relevante para a história do trabalho industrial no Brasil. Em segundo lugar, a possibilidade de um desdobramento do tratamento do tema do taylorismo e do fordismo que não se esgotasse nas várias facetas do fenômeno histórico em si, mas apontasse para uma articulação com outros aspectos da modernização capitalista do país: o padrão de industrialização, a formação de uma força de trabalho nacional e a constituição d e um mercado de trabalho assalariado, o papel da tecnologia e do conhecimento técnico e operário para “tocar” os processos produtivos, os sindicatos e a contratação coletiva - ou ausência dela - bem como as suas formas de manifestação concreta: tudo isso eram tópicos que gravitavam em torno daquele núcleo. É tentador retomar o caminho aberto por aquele texto seminal como um desafio para tentar responder a algumas perguntas que ficaram pendentes. No artigo, era levantada a hipótese geral de que um dos entraves para a implantação do taylorismo em terras brasileiras seria a ausência de uma efetiva socialização da força de trabalho nas normas do trabalho assalariado industrial, como nos países do Centro que experimentaram efetivamente aquele modo de organização do trabalho. Também ficamos sabendo que a implantação do taylorismo no Brasil nada ficou a dever, em termos de contemporaneidade, aos demais países capitalistas que se preocupavam com a disseminação do “método científico” de como obter maior produtividade das fábricas. Luminares do mundo empresarial paulista participavam de reuniões da Taylor Society no Primeiro Mundo; eram mesmo seus membros efetivos e, cheios de idéias novas, não viam a hora de aplicar aqueles métodos em empresas por essas bandas. Textos apologéticos antes da criação do IDORT, bem pinçados pelo autor, dão bem o tom da coisa. Mas, se as idéias eram boas, a prática se mostrou mais reticente: mais do que mão de obra barata, faltavam as condições para estabilizar uma força de trabalho nos moldes de uma disciplina fabril adequada à incorporação do tipo de processo de trabalho que alavancaria o modo de desenvolvimento intensivo, típico dos fordismos centrais (americano primeiramente, mas também europeu em certa medida). Não é, por exemplo, o uso predatório da força de trabalho o que define o taylorismo. Nem apenas o estilo de divisão do trabalho, a especialização, e tudo aquilo que está associado aos aspectos autoritários e quase caricatos do sistema. Há mais, e entre os elementos determinantes encontra-se justamente a capacidade simultânea de extrair maior produtividade dos processos industriais, perceber salários que estimulem o consumo de mercadorias e, por fim, assumir uma visão de mundo que deixe para trás, tanto quanto possível, a “velha ordem” de solidariedades e assistecialismo3 piegas. O taylorismo, embora aplicado a um tipo de trabalho tornado mais e mais coletivo, corresponde a uma ideologia daquele que “se faz por si mesmo”. O assunto é complexo e, como se vê, não será “resolvido” nesta breve introdução. Vamos em frente, pois.

Ontem e Hoje: Regime de Remuneração e Mercado Interno de Trabalho


É bastante interessante observar que um regime de remuneração de “duas velocidades” pode alimentar uma dualidade no mercado de trabalho interno à firma (ou unidade de produção), levando à diferenciação da categoria. Essas diferenciações podem aparecer como diferenciações profissionais, desafiando a unidade da classe. No entanto, uma hipótese a ser considerada é que tal diferenciação pode se apresentar imediatamente como uma estratégia patronal para dividir os trabalhadores, impedindo a ação coletiva.

Um regime de remuneração a duas velocidades é aquele descrito por Fernando Teixeira da Silva4 para os portuários de Santos, entre os que ganham por hora e os que ganham por produção (por tarefa): os segundos instilando os primeiros a acelerar o trabalho (p.147). Uma relação salarial mais estável tem a função exatamente de regular essas oscilações de produtividade, o que fica difícil de manter em uma situação típica de trabalho caracterizada como de emprego casual (casual labor), com permanência às vezes de menos de 1 dia. É o regime de remuneração que está na origem, entre outros fatores, da indisposição das operárias de confecção de hoje com a aplicaçã o da gestão da produção em estilo de “células” (pesquisa de campo, 20045): quando a contabilidade era individual, cada uma sabia quanto iria ganhar de prêmio; quando a contabilidade se torna uma atribuição do “coletivo”, o padrão do grupo é extraído do membro com produtividade menor, o que leva de imediato a uma pressão dos participantes contra a operária menos performante.

Quando F.W. Taylor pensou o seu sistema de controle do trabalho operário definindo “cientificamente” a tarefa, ele o fez incidir sobre o “marca-passo”, isto é, o “fazer cera” (soldiering). No entanto, tanto a forma como o controle se exercia (a própria execução da tarefa), quanto a percepção dos resultados - pelo supervisor/controlador e o próprio operário - eram individuais. Ao contrário, no sistema organizado na forma de manufatura celular (pesquisa em andamento, cit), ele é coletivo, isto é, é o grupo que efetua o controle e o supervisor sai de cena - ao menos para essa função diligente da comparação da norma com a produção real: quem faz agora essa comparação é o próprio grupo (célula).

O trabalho de Fernando T. da Silva mostra também que a posição de monopólio dos empregadores dificulta a ação do sindicato de trabalhadores. É o caso da Companhia Construtora de Santos (p.77-8). Enquanto a “construção para o mercado”, a cargo de grandes empresas, cancelava a pulverização de pequenos empreiteiros que faziam acordos diferenciados com o sindicato de trabalhadores, “os contratos por encomenda” permitiam uma margem de manobra por conta do controle da atividade pelos próprios mestres de obras. Não à toa, é na Companhia Construtora de Santos (CCS) que os métodos tayloristas serão alardeados desde os meados dos anos 1910 pelo seu diretor, Roberto Simonsen. A correlação entre expansão dos métodos tayloristas e capital monopolista, sistematizada desde Braverman, é aqui confirmada. Ora, a chave para o sucesso do taylorismo está em relação diretamente proporcional à expropriação do saber operário, ou do controle exercido pelo trabalhador sobre o seu próprio trabalho, ou ainda: da diluição do “ofício” em um conjunto de tarefas divididas segundo o estudo “científico” levado a cabo pelo departamento de métodos de uma empresa. Os “artistas” e os mestres de obras detinham, com o controle de sua própria atividade, também um controle sobre o mercado de trabalho - e esse é um aspecto muito importante. O ataque ao “saber de ofício” é simultaneamente um ataque ao poder de contratação desses operários qualificados. Portanto, o deslocamento das pequenas e médias empresas para a grande empresa tende a minar o poder da organização de defesa dos trabalhadores, em uma frente. Em outra frente, a grande empresa contribui também para diluir o papel do sindicato, na medida em que disputa com esse a responsabilidade pela proteção ao trabalho, tal como ocorre nas políticas de welfare privacy (p. 275): afinal, as pequenas e médias empresas não podiam bancar essa disputa, apenas as grandes. Nessas duas frentes, fecha-se o círculo às expensas da influência sindical. É importante ter em conta que o critério para aquilatar a possibilidade de homogenização - e a conseqüente solidariedade operária que pode advir daí - não é um critério numérico (quantitativo) do tipo grande versus média e pequena empresas, mas sim orientado para a resposta à questão: em que base está organizado o processo de trabalho? Sobre o saber de ofício, artesanal, ou sobre uma força de trabalho indiferenciada quanto ao poder sobre o próprio trabalho, e por isso mesmo solidária por subtração?

É comum, por exemplo, ouvir o discurso, difundido (hoje) no meio sindical, de que é mais fácil mobilizar os trabalhadores de grandes empresas do que, ao contrário, de pequenas e médias empresas. Depende. Muitos fatores podem estar intervindo (presença “pessoal” do proprietário junto aos operários, diluindo a formalidade própria do contrato, por ex.) mas certamente um pressuposto de base seria atentar para as características (não) profissionais da força-de-trabalho: esse pode ser um elemento de aproximação, baseado na “igualdade” de carência de qualificação.

Ainda no caso da CCS, e a respeito da “frente” da proteção social, vale a pena lembrar que, segundo David Montgomery6, a estratégia de “corporate welfare” apresentava-se como uma alternativa à gerência científica de Taylor. A outra alternativa ao taylorismo era o movimento de “personnel management”. Embora pudesse haver interseções entre as três (taylorismo, corporate welfare e personnel management), a idéia é que elas conformam três estratégias distintas do patronato norte-americano do começo do século XX de lidar com o “problema operário” (p. 32 -3). No Brasil da mesma época, e para o caso da CCS, ficamos sabendo que o welfare policy e o taylorismo não eram incompatíveis.

No trabalho de Paulo Fontes sobre a Nitroquímica7, um dos mais importantes grupos privados nacionais, os benefícios oriundos do “serviço social” da empresa são bastante amplos: maternidade, hospital, clube, distribuição de leite, parque infantil, farmácia, restaurante, armazém, cooperativa de abastecimento e escola do Senai. No entanto, o quesito habitação obedece a uma segmentação bem marcada: apenas a chefias, os encarregados, mestres, o pessoal técnico e qualificado, além dos vigias, têm direito às moradias perto da fábrica (p. 68-76). Os trabalhadores químicos formando o contingente dos operadores sem qualificação, com alta rota tividade e alijados de qualquer preocupação com treinamento - especialmente aqueles da seção de fiação do rayon - preenchem uma posição descartável, estando sujeitos à extração predatória de sua capacidade de trabalho, num formato típico de superexploração que, pelos relatos colhidos, encontram sua lógica na abundância de mão de obra barata. O regime salarial também sancionava aquela descartabilidade, mesmo para o contingente técnico e qualificado, pois os níveis salariais eram muito baixos para todos (p. 100-102). Assim, se alguma veleidade de organização racional ou científica do trabalho havia nessa importante empresa química, ela convivia com ausência de requisitos de qualificação para contratação de trabalhadores juntamente com treinamento “na prática”, além de condições de trabalho perigosas. No caso estudado por P.Fontes, temos traços de welfare policy sem qualquer vislumbre de taylorismo - até porque o processo de trabalho químic o, de característica contínua, não solicita operários “de ofício” mas, no máximo, ajudantes que realizam trabalhos de carga e descarga de materiais, acompanhamento de processos e misturas de produtos e matérias primas. Num patamar mais especializado, encontramos os técnicos químicos, que no entanto estão mais nos laboratórios do que propriamente no chão de fábrica. Essas condições mais gerais do uso do trabalho em uma empresa química parecem determinar o papel de uma instituição de treinamento profissional como o Senai, que existia dentro da Nitroquímica: longe se está do esforço racionalizante e cientificista que informava as técnicas de recrutamento e seleção dessa instituição, por volta dos anos de 1940, em que “...(Roberto) Mange fazia todo esforço para ignorar as relações sociais e políticas do candidato a um emprego e jogava as cartas de apresentação, um instrumento padrão para se conseguir emprego no Brasil, na lata do lixo” s168. Na Nitro, ao contrário, a contratação de parentes e de indicados pelos próprios empregados era uma forma explícita de reforçar os laços da “família nitrina”9.

Nessa altura, seria preciso desenvolver algumas características doutrinárias do taylorismo que talvez pudessem explicar a sua “impureza” brasileira. Uma dessas características originárias é o seu viés marcadamente individualizante.



O Taylorismo e o Fordismo no Brasil: um debate por fazer

O relato da experiência de transporte de ferro gusa na Bethlehem Steel Company com o operário Schmidt10 pode ser esclarecedor do método taylorista em muitos aspectos (vem daqui a famosa expressão do “operário do tipo bovino”, assim como a cândida caracterização do trabalhador apto como sendo aquele de “mentalidade limitada” otnote Na tradução de Braverman está “homem mentalmente retardado”. ou “estúpido”) mas ele demonstra também um lado pouco evidente do método, tal como ele foi concebido: é que se ele tem muito a dizer sobre o controle de como fazer o trabalho dentro da fábrica, por outro lado ele não tem nada a acrescentar sobre como o trabalhador deve se comportar fora da fábrica - exceto que o ganho adicional ajudará o nosso Schmidt a completar a construção de sua casa própria. Quem era o operário Schmidt? Além de ser provavelmente forte e robusto (apenas 4 foram escolhidos dos 75 homens que trabalhavam na tarefa de carregar e descarregar o ferro nos carrinhos), “era um pequeno holandês da Pennsylvania que havia sido observado a voltar para casa por uma milha mais ou menos, depois de seu trabalho à tarde, e tão logo vo ltava de manhã para o trabalho. Descobrimos que ganhando salário de um dólar e quinze cents por dia ele conseguira comprar um pequeno terreno e que estava empenhado em elevar as paredes de uma casinha para ele, de manhã antes de ir para o trabalho, e à noite depois da saída.”11 Aumentar o ganho diário de 1,15 U$ para 1,85 U$ para carregar 47ton de ferro gusa por dia, além do efeito de estimular a produtividade do trabalho, permite que o operário se veja si mesmo como um ser aquisitivo que vai cuidar de sua própria vida privada no final da jornada, que é, no fim das contas, o que interessa. Longe se está do paternalismo tradicional ou do comunalismo de empresa postulando uma convergência de interesses entre patrão e empregado. Se tal convergência existe é apenas na medida em que cada um, a seu modo, luta pelo seu interesse próprio como indivíduo, ou - nas palavras do autor - busca atingir a “prosperidade”12. Esse é o reino da sociedade civil burguesa13.

Vejamos um outro ponto do sistema taylorista: o salário de incentivo.

O papel do salário deveria ser o de fazer o operário prescindir de quaisquer suportes sociais providos pelas empresas, a fim de assegurar a sua reprodução. O salário seria a forma de acesso ao mundo de compra e venda de mercadorias, sem necessidade de “salário indireto”, isto é, artifícios de benevolência e assistência patronal. Isso é coerente com a rejeição do “corporate welfare” ou do welfare policy. No entanto, a socialização da produção e o declínio concomitante das antigas qualificações profissionais estariam contribuindo para tornar mais ou menos equivalentes os trabalhos efetuados dentro das fábricas – ora, a conversão dos modos operatórios até então misturados ao controle operário em tarefas segundo a máxima do “the one best way” fez borrar exatamente as diferenças entre as maneiras de realizar uma mesma operação, tanto quanto as diferenças entre oper ações diferentes. Com isso, não haveria razão para esconder o salário percebido por cada trabalhador individualmente, uma vez que as margens de variação estariam mais e mais canceladas pela “forma única possível” de realizar cada atividade. Essa relativa indiferenciação do trabalho manufatureiro – que é típica da divisão do trabalho que o taylorismo só fez radicalizar – seria complementada pela diferenciação que cada trabalhador enquanto consumidor sancionaria no mercado, gastando da forma que melhor lhe aprouvesse a sua renda obtida do trabalho - de preferência reforçando as cercas de sua propriedade, como se viu acima. A mentalidade privatista que informa a visão de mundo que Taylor e seus próximos reservava ao salário e sua destinação mercantil contrasta, conforme já se aludiu anteriormente, com a coletivização dos meios de trabalho nos processos de produção que então partiam para escalas mais robustas e ganhos d e produtividade mais expressivos.

Assim, a discrição quanto ao ganho individual pode até estar relacionada com algum traço de “cultura nacional”, mas ela se explica principalmente pelas condições particulares e históricas do equilíbrio entre público e privado, em cada país. É o que nos lembra Michael Burawoy em uma nota de pé de página muito significativa, comentando as diferenças de produtividade entre os operários americanos e ingleses em um Relatório do Comissário do U.S. Bureau of Labor, em 1904:

“Information relative to the subject of output is perhaps more difficult to obtain in Great Britain than in any other country... It is virtually impossible among a people as individualistic and secretive as the British to arrive at any quantitative measure of the product turned out in a given time.”

Na interpretação daquele autor, como os níveis de rendimento (output) do trabalho são medidos no metro de regras transparentes e “públicas”, os trabalhadores americanos ficavam mais vulneráveis às investidas do taylorismo do que os ingleses, onde a consciência de classe expressava-se justamente na secrecy14. Na nossa interpretação, o comportamento individualista do exemplo é perfeitamente coerente com a identidade coletiva de classe (defesa das regras do trabalho), ao passo que o movimento taylorista almejava infundir o comportamento individualista-possessivo em uma base material já ela me sma mais homogênea, ou seja, quando os processos de trabalho estavam se tornando mais coletivos.

É curioso observar os argumentos dos gerentes investidos do movimento da “qualidade total” nos dias de hoje. Quando eles buscam justificar a aplicação dessas técnicas, eles se valem de razões que também manipulam, a seu jeito, as virtudes do público e do privado: assim, expor o nome ou a foto do operário menos produtivo num cartaz no meio da seção da fábrica, para que todos possam ver, seria uma maneira de ser mais “transparente” e atacar possíveis “favorecimentos” de chefias ou colegas. Uma fábrica onde... “não se esconde nada”15.

Um outro aspecto do taylorismo muito importante do ponto de vista histórico é seu viés tecnocrático e sua má vontade com respeito aos desenhos políticos de formação da vontade democráticos, como o parlamento e as instituições representativas em sentido largo. O apelo científico (nesse sentido quase uma “utopia”, acolhida tanto pela direita quanto pela esquerda16, no pós-1. Guerra Mundial) parecia ir “direto ao ponto” - isto é, aos níveis de produtividade e eficiência desejados pela indústria - sem a necessidade do conflito de classes, e muito menos da explicitação da opinião e do debate públi cos. Pura perda de tempo. Acontece que - como se viu rapidamente acima a propósito do salário - a ideologia adequada ao taylorismo é o liberalismo, o livre jogo de interesses no mercado, e não uma ordem “cooperativa e harmoniosa”a. Ora, em países como o Brasil, a correlação entre taylorismo e corporativismo, com o acento organicista desse último, parecia estar portanto bem de acordo com uma parte da ideologia taylorista, na medida em que um completava na esfera do processo de trabalho o que o outro disseminava na esfera das instituições políticas. Seria instrutivo tentar captar na “importação” do corporativismo mussoliniano para o Brasil, traços do ideário cientificista da organização do trabalho, para além de todo o corpus jurídico-normativ o tão enfatizado nas análises sobre nossa arquitetura sindical: cadê o quinhão taylorista do corporativismo?

Tal demanda não é descabida, uma vez que uma interpretação possível do americanismo (ao qual podemos associar o taylorismo), embora mantendo todos os traços essenciais do ideário liberal (sua ética do trabalho que elimina o papel caritativo e de benevolência para com as classes trabalhadoras) é o de um liberalismo transformado - racionalizador na produção e planejador na política. Essa parece ser a interpretação de Luiz Werneck Vianna17. Ele propõe, seguindo os passos de Gramsci, uma espécie de dupla face do fordismo americanista: por um lado, os valores do individualismo possessivo tí picos do liberalismo manchesteriano são mantidos na forma de uma sociedade civil que prescinde da “superestrutura” (nesse sentido, a hegemonia vem da fábrica); por outro lado, elementos desorganizadores da regulação mercantil (e mesmo autoritários e intervencionistas), na forma de repressão ao sindicatos, imposição de um modo de vida puritano, sistema político bi-partidário, sustentação dos salários em contraposição ao “livre jogo” da oferta e da procura18. No entanto, como é bem lembrado pelo autor de “Americanismo e Fordismo” (apud Werneck Vianna), o corporativismo pode bem ser a porta de entrada dessa tendência em países de capitalismo ta rdio, como a Itália, embora em tal caso não de maneira “ideal”, qual seja, fazendo da mentalidade racionalizadora e interessada uma espécie de “segunda natureza” do indivíduo. No Brasil, ainda segundo Werneck Vianna, o imbróglio entre fordismo e corporativismo como que recupera a ambigüidade originária do conceito, porém agora em novas bases: enquanto o período da 1 República, com seu conflito típico interno ao contratualismo individualista das primícias do liberalismo, pode ser considerado doutrinariamente “fordista” (ou, segundo a caracterização encaminhada neste trabalho, “taylorista”, haja visto o embate empresarial contra as leis trabalhistas então em discussão), o pós-30, com o aggiornamento entre burguesia industrial paulista e nova elite estatista recém apeada ao poder, pode ser considerado a realização prática daquele projeto.

Essa parece ser também a opinião de Nilton Vargas, quando propõe uma periodização da introdução do taylorismo no Brasil. Ele salienta que o “princípios” encontrar-se-iam com as “técnicas”a apenas após a socialização do trabalho assalariado no país ter-se tornado endógena, ou seja, a reprodução da força de trabalho estar orientada, de maneira dominante, para o trabalho industrial. Antes disso, o taylorismo a rigor não estaria suficientemente maduro.

Em suma, existe como que uma ambigüidade nesses “dois lados” possíveis do taylorismo (ao menos no Brasil): um desembocando no “liberalismo manchesteriano”, e o outro no corporativismo.

É exatamente na tentativa de desatar esse nó que o trabalho dos historiadores pode ser muito útil e esclarecedor. Há muita discussão e acúmulo sobre o corporativismo. Mas há pouca atenção para o taylorismo tal como ele foi aplicado nas fábricas dos mais diferentes setores de atividade. Se a perspectiva de análise do taylorismo em termos de uma abordagem da disciplinarização e da conformação de corpos dóceis foi até aqui predominante19, é preciso ultrapassar o “princípio” e partir para as “técnicas” efetivas a que aquele princípio se prestou no Brasil.

O IDORT como discurso geral e as empresas que a ele se voltavam vistas enquanto práticas particulares daquele discurso geral - através, por exemplo, do SENAI e do SESI20 -, é de fato uma imagem tentadora para começar a empreitada. Mas aí é preciso ir de fato para as empresas. Os sociólogos do trabalho têm trilhado esse caminho com alguma freqüência ultimamente, limitados contudo por uma abordagem sincrônica. Ganhariam muito com a entrada em campo dos historiadores interessados na mesma problemática, pois nesse caso se poderia estabelecer, com alguma solidez, padrões de mais longo prazo para a organização do trabalho (e suas implicações sistêmicas), seja para uma empresa, para um ramo de ati vidade, ou mesmo para a indústria como um todo.



1 A confecção desta comunicação contou com a colaboração dos bolsistas William Vella Nozaki (Fapesp) e Vladimir Ferrari Puzzone (CNPq).

2 Nilton Vargas, “Gênese e difusão do taylorismo no Brasil”, Ciências Sociais Hoje 1985, São Paulo, Cortez/Anpocs, 1985, pp. 155-189.

3 Nesse último sentido, ele seria ao mesmo tempo contrário tanto à “incorporação pelo Estado”, quanto à “incorporação pela empresa”, para usar as duas expressões utilizadas por J.D.French para descrever os dilemas da burguesia industrial paulista nos anos 1920 e 1930. J.D.French, “O ABC dos operários. Conflitos e alianças de classe em São Paulo, 1900-1950, São P aulo/São Caetano, Hucitec/Prefeitura de S.Caetano do Sul, 1995, p. 69-76.

4 Fernando Teixeira da Silva, “Operários sem patrões. Os trabalhadores da cidade de Santos no entreguerras”, Campinas, Editora da Unicamp, 2003.

5 Pode-se ter uma idéia em Leonardo Mello e Silva, “Um estudo sobre células de produção no setor de confecções - Brasil. Controle e consentimento”, Havana, Comunicação ao IV Congresso da ALAST, setembro 2003.

6 David Montgomery, “Work’s control in America. Studies in the history of work, technology, and labor struggles”, Cambridge University Press, 1979.

7 Paulo Fontes, “Trabalhadores e cidadãos. Nitro Química: a fábrica e as lutas operárias nos anos 50”, São Paulo, Annablume/Sind. Químicos e Plásticos de SP, 1997.

8 Barbara Weinstein, “A (Re)formação da classe trabalhadora no Brasil”, São Paulo, Cortez Ed./Universidade S.Francisco, 1999, p.156.

9 Paulo Fontes, cit., p.81.

10 Veja-se em Frederick Winslow Taylor, “Princípios de Administração Científica”, São Paulo, Atlas, 1987 (7a ed.), pp. 54-59; 70-71. Essas passagens estão mencionadas também em Harry Braverman, “Trabalho e Capital Monopolista. A degradação do trabalho no Séc.XX”, Rio de Janeiro, Zahar, 1981 (3a edição), pp. 95-100.

11 Apud Braverman, cit., p.96.

12 Taylor, cit., p.32 (“Identidade de interesses entre empregadores e empregados”).

13 “A conformação do Estado liberal traduz clássica e rigorosamente a dominação burguesa em sua modalidade plenamente hegemônica. O isolamento da sociedade política da sociedade civil - em cumprimento do seu papel arbitral - cria significados específicos para o “privado” e o “público” (...) O Estado não se vê obrigado a recriar demiurgicamente o privado no público. O mundo do interesse “nu” pode se afirmar sem peias e legitimamente. A sociedade civil conhece apenas a legalidade por ela criada, que visa facultar satisfação para o indivíduo apetitivo.” (Luiz J. Werneck Vianna, “Liberalismo e Sindicato no Brasil”, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1978 (2a ed.), p. 72. O sub-capítulo em tela chama-se “O fordismo no Brasil”).

14 Michael Burawoy, “The Politics of Production”, Londres, Verso, 1985, p.79, nota 92.

15 Ora, deveríamos antes nos perguntar se uma organização desse tipo poderia alguma vez funcionar de fato...

16 Consultar Robert Linhart, “Lênin, os camponeses, Taylor”, Rio de Janeiro, Marco Zero, 1983.

a Luiz Werneck Vianna, cit., p.74.

17 Luiz Werneck Vianna, op. cit. Consulte-se o capítulo 2, “Leis do Trabalho e Burguesia Industrial: a tentativa do liberalismo fordista nos anos vinte”, em especial o sub-capítulo “O liberalismo fordista”.

18 O que o autor chama, nas pegadas de Gramsci, de uma “economia programática”. Op. cit., p.69.

a A disjuntiva entre taylorismo como “princípio” e como “técnica” é proposta por Nilton Vargas, op.cit.

19 Veja-se para uma crítica dessa abordagem Adalberto Marson, “O Taylorismo e seus artifícios” in Ângela M.C. Araújo (org.), “Trabalho, Cultura e Cidadania”, São Paulo, Scritta, 1997, pp. 153-175.

20 Essa lacuna é preenchida pelo trabalho de Weinstein, cit.






Compartilhe com seus amigos:


©principo.org 2019
enviar mensagem

    Página principal