LÓgicas socioculturais e estratégias produtivas no assentamento menina dos olhos dos sem-terra marcos Botton Piccin



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UFRRJ
INSTITUTO DE CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS

CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO DE CIÊNCIAS SOCIAIS EM DESENVOLVIMENTO, AGRICULTURA E

SOCIEDADE
DISSERTAÇÃO


LÓGICAS SOCIOCULTURAIS E ESTRATÉGIAS PRODUTIVAS NO ASSENTAMENTO MENINA DOS OLHOS DOS SEM-TERRA

Marcos Botton Piccin


2007



UNIVERSIDADE FEDERAL RURAL DO RIO DE JANEIRO

INSTITUTO DE CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS

CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO DE CIÊNCIAS SOCIAIS EM DESENVOLVIMENTO, AGRICULTURA E SOCIEDADE


LÓGICAS SOCIOCULTURAIS E ESTRATÉGIAS PRODUTIVAS NO ASSENTAMENTO MENINA DOS OLHOS DOS SEM-TERRA


MARCOS BOTTON PICCIN

Sob a orientação do professor

Roberto José Moreira

Dissertação submetida como Requisito parcial para a obtenção do grau de Mestre em Ciências Sociais, no Curso de Pós-Graduação de Ciências Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade

Rio de Janeiro, RJ

Julho de 2007.











333.318165

P588l

T



Piccin, Marcos Botton

Lógicas socioculturais e estratégias produtivas no assentamento menina dos olhos dos sem-terra / Marcos Botton Piccin – 2007.

199f.
Orientador: Roberto José Moreira.

Dissertação (mestrado) – Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Instituto de Ciências Humanas e Sociais.

Bibliografia: f. 249-254.
1. Assentamentos rurais – Rio Grande do Sul - Teses. 2. Assentamentos rurais – Sistemas produtivos – Teses. 3. Assentados rurais – Trajetórias sociais - Teses. I. Moreira, Roberto José. II. Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Instituto de Ciências Humanas e Sociais. III. Título.









UNIVERSIDADE FEDERAL RURAL DO RIO DE JANEIRO

INSTITUTO DE CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS

CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO DE CIÊNCIAS SOCIAIS EM DESENVOLVIMENTO, AGRICULTURA E SOCIEDADE


MARCOS BOTTON PICCIN

Dissertação submetida ao Curso de Pós-Graduação de Ciências Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade, área de concentração em Sociedade e Agricultura, como requisito parcial para a obtenção do grau de Mestre em Ciências Sociais, Desenvolvimento Agricultura e Sociedade.


DISSERTAÇÃO APROVADA EM 23/08/2007.


Membros da Banca Examinadora:

______________________________________________________________________

Professor Roberto José Moreira, Doutor em Economia pela Cornell University, Ithaca, NY, USA

______________________________________________________________________

Professora Leonilde Servolo de Medeiros, Doutora em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas UNICAMP/SP

______________________________________________________________________

Professora Sonia Maria Pereira Bergamasco, Doutora em Sociologia Rural pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, UNESP/Botucatu/SP





Para Maurício, meu irmão.




AGRADECIMENTOS

Esta dissertação de mestrado é o produto final de uma caminhada realizada no decorrer de mais de dois anos, que não aconteceu individualmente. Contei com a ajuda, auxílio, conselho, companheirismo e amizade de várias pessoas, que foram indispensáveis à realização deste trabalho. Com certeza, no entanto, não me lembrarei de todas que colaboraram, listo abaixo apenas aquelas que de alguma forma representam um marco nesta jornada.

Em primeiro lugar gostaria de agradecer ao professor Roberto Moreira, que me orientou a partir do segundo ano do Curso de Pós-Gradução. Ao Roberto devo grande parte da “conversão do olhar” sobre o objeto de pesquisa e, talvez, os maiores tensionamentos vividos durante o Curso, indispensáveis às definições que se procederam para este estudo. A participação na disciplina Natureza e Sociedade por ele ministrada no segundo semestre de 2005 pode ser considerada fundamental às escolhas teóricas e metodológicas realizadas, sendo o motivo central do pedido de orientação que realizei. De pronto o professor Roberto aceitou, mesmo estando como coordenador do CPDA e com inúmeras tarefas a desenvolver. Sempre foi muito atencioso e disponível em me orientar, ao mesmo tempo, sempre transmitiu confiança e liberdade para desenvolver as temáticas que me preocupavam, o que foi fundamental para que desenvolvêssemos uma relação de amizade.

Sou grato ao professor Renato Maluf, por ter me orientado durante o primeiro ano do Curso. Sua paciência em ouvir minhas dúvidas, as preocupações em momentos de aflição e o diálogo realizado foram fundamentais para as opções realizadas.

Sou grato à professora Maria José Carneiro, pelas orientações e diálogos realizados no decorrer do primeiro ano de Curso, bem como pelas sugestões em minha defesa de projeto de pesquisa. A “Zezé” sempre teve muita dedicação em acompanhar o andamento da elaboração dos projetos, assim como paciência em entender “os tempos” em que cada estudante se encontrava.

De forma geral todos os professores do CPDA sempre foram companheiros, criando um ambiente que proporciona a reflexão e a discussão conjunta. Agradeço imensamente a todos com quem tive e mantive diálogos.

Sou grato à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) por ter me concedido a bolsa de estudos, sem a qual teria sido impossível realizar o mestrado.

Agradeço a ActionAid-Brasil por recursos monetários concedidos para a realização do trabalho de pesquisa a campo.

Sou grato à Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ) que concedeu recursos monetários para a preparação de trabalhos científicos dessa pesquisa de mestrado, através do projeto “Ruralidades: assimetria de poder e identidades sociais no campo” coordenado pelo professor Roberto Moreira.

Sou grato às professoras Leonilde Servolo de Medeiros e Sonia Maria Pereira Bergamasco por terem aceitado o convite para compor a banca avaliadora dessa dissertação, assim como pelas críticas e sugestões realizadas.

Sou grato aos vários amigos e amigas estudantes de mestrado ou doutorado, pelas contribuições teóricas e metodológicas e, também, às festas e à cervejinha nos bares da Lapa quando o estresse superava a dedicação ao estudo.

Sou grato aos camaradas com os quais dividi apartamento: César, Marcos J., Tiago, Cleyton, Valter e Everton. A “República Socialista do Pampa Gaúcho” proporcionou a convivência e muitas horas de discussão teórica sobre os temas de nossas pesquisas, além dos debates políticos acalorados. Agradeço especialmente ao César, pois durante os dois anos de mestrado sempre se dispôs a conversar e sugerir caminhos nos momentos de maior indefinição teórica e metodológica de minha pesquisa, assim como às leituras sugeridas e aos livros emprestados, fundamentais para esse trabalho que agora apresento.

Sou grato aos companheiros e companheiras da equipe técnica que prestam ou prestaram assessoria ao Assentamento Ceres: Marcelo, Priscila, Ricardo, Edivaldo, Jones, Carine, Juliana e Erton. Sempre estiveram dispostos a ajudar e “abrir portas”. Sem a recepção e confiança que me foi proporcionada não teria tido acesso a todo material de pesquisa disponibilizado no Assentamento.

Sou grato às famílias assentadas que me receberam em suas casas, que convivi durante alguns dias e todo o aprendizado que tive.

Sou grato à direção do MST e do Assentamento Ceres, que me proporcionaram todas as condições e pela confiança depositada para que a pesquisa fosse realizada.

Sou grato a minha família, especialmente ao Seu Miguelzinho e Dona Nelci, meus pais, que sempre expressaram confiança e apoio durante toda a jornada de minha vida. Foram imprescindíveis para as escolhas realizadas.

Sou grato à Desirée, minha namorada, pelas longas horas de conversa sobre temas relacionados à Psicologia e política, assim como por sempre ter apoiado minhas decisões, da mesma forma pelo carinhoso ombro amigo.

Sou grato à Luciane, pelas discussões sobre o Sistema de Saúde e Educacional, assim como pelas angústias compartilhas.





RESUMO

PICCIN, Marcos Botton. Lógicas socioculturais e estratégias produtivas no assentamento menina dos olhos dos sem-terra. 2007. 199p. Dissertação (Mestrado de Ciências Sociais em Desenvolvimento Agricultura e Sociedade). Instituto de Ciências Sociais e Humanas, Curso de Pós-Graduação em Desenvolvimento Agricultura e Sociedade, Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Seropédica, RJ, 2007.


Este trabalho consiste em uma pesquisa que analisa as lógicas socioculturais subjacentes às estratégias produtivas desenvolvidas pelos agricultores-assentados no Assentamento rural Ceres, RS. Esse Assentamento foi formado no final de 1996 e recebeu agricultores sem-terra de várias regiões e municípios do Rio Grande do Sul, com diferentes trajetórias e experiências sociais adquiridas nas diferentes posições sociais ocupadas na estrutura de relações da sociedade. A ocupação do território e o desenvolvimento sócio-histórico desse estado conformaram determinadas posições sociais aos trabalhadores rurais pobres como pequenos agricultores, trabalhadores temporários e permanentes, meeiros, rendeiros, entre outras, gerando, potencialmente, distintos princípios de ação, comportamentos, códigos e modalidades operacionais que conferem um conjunto de saberes, crenças e um senso prático determinado, funcionando como habitus sociais. Esta heterogeneidade sociocultural tende a compor os processos sociais tanto dos acampamentos quanto dos assentamentos rurais e pode ser expressada pelas diferentes situações que levaram os trabalhadores rurais à luta pela terra, pelos diferentes objetivos para com a posse de um lote, assim como pelos diferenciados projetos e sonhos de futuro elaborados entre esses indivíduos. Quando em assentamento os saberes, conhecimentos, projetos e sonhos de futuro construídos ao longo das trajetórias sociais tendem a ser presentificados e atualizados frente às circunstâncias encontradas dos diferenciais de poderes entre os distintos agentes sociais que figuram a ambiência local e regional. Assim, os cultivos, manejos e formas diversas de ocupação produtiva dos lotes de terra pelos agricultores-assentados também podem representar aquela heterogeneidade sociocultural forjada pelo processo sócio-histórico. Nesse sentido, a pesquisa classificou os agricultores-assentados em três sistemas produtivos considerados como diversificado, soja-leite e soja através de um questionário tipo survey e optou-se pela vivência do cotidiano dos mesmos a partir do qual se procedeu a entrevista de uma amostra pré-selecionada de famílias assentadas. A análise dos dados e informações permite considerar que as interações e reações a essas ambiências não se dão da mesma forma pelo conjunto dos agricultores-assentados no estabelecimento das estratégias de reprodução social. A existência de três sistemas produtivos no Assentamento tende a corresponder aos fatores socioculturais internalizados ao longo das trajetórias sociais. As significações atribuídas às formas diferenciadas de ocupação produtiva dos lotes de terra revelam desejos e projetos de vida almejados também diferenciados e que se julga possível alcançar no Assentamento.

Palavras chaves: assentamentos rurais, Assentamento Ceres, sistemas produtivos, trajetórias sociais, habitus.




ABSTRACT

PICCIN, Marcos Botton. Sociocultural logics and productive strategies in the menina dos olhos dos sem-terra (landless) settlement. 2007. 199p. Dissertation (Master's degree in Social sciences on Development, Agriculture and Society). Institute of Social and Human sciences, Course of Masters Degree in Development, Agriculture and Society, Federal Rural University of Rio de Janeiro, Seropédica, RJ, 2007.


This work consists of a research that analyzes the underlying sociocultural logics to the productive strategies developed by the landless farmers settled in the rural Settlement called Ceres, RS. That Settlement was formed in the end of 1996 and it received landless farm workers of several areas and municipal districts of Rio Grande do Sul, having different paths and acquired social experiences in the different busy social positions in the structure of relationships of the society. Hence the occupation of the territory and the social-historical development of that state have conformed certain social positions to the poor rural workers as small farmers, temporary and permanent workers, millers, lacemakers, among other generating potentially different principles of action, behaviors, codes and operational modalities that provide a group of knowledge, creeds and a certain practical sense, working as social habitus. In this sense, this sociocultural heterogeneity tends to compose the social processes as much of the camps as of the rural settlements and it can be expressed by the different situations that took the rural workers to the fight for the land, for the different objectives related to the ownership of a lot, as well as for the differentiated projects and future dreams elaborated among those individuals. Then, when in the establishment of awareness, knowledge, projects and future dreams which have been built along the social paths tend to make present and updated face of the found circumstances regarding the differential of powers among the different social agents of the local and regional environment. Like this, the cultivations, handlings and several forms of productive occupation of the land lots for the farmer-seated can also represent that social-cultural heterogeneity forged by the social-historical process. In that sense, the research classified the farmer-seated in three productive systems considered as diversified, soy-milk, and soy farmers through a survey questionnaire and it was opted for living the daily of them starting from an interview of a pre-selected sample of seated families. The analysis of the data and information allow considering that the interactions and reactions from those environments do not occur in the same way by the group of the farmer-seated in the establishment of the strategies of social reproduction. The existence of three productive systems in the Settlement tends to correspond to the socio-cultural internal factors along the social paths. As a result, the significances attributed to the differentiated forms of productive occupation of the land lots reveal desires and life projects longed for and also differentiated and such objectives are believed to be possible to achieve in the Settlement.

Key Words: rural settlements, Ceres Settlement, productive systems, social paths, habitus.






LISTA DE TABELAS



Tabela 1:

Utilização da área dos lotes a partir dos sistemas produtivos – ano agrícola 2005/2006.................................................................

p. 107

Tabela 2

Agricultores-assentados por associação de pastejos nos sistemas produtivos e número de animais leiteiros.....................................

p. 109

Tabela 3

Agricultores-assentados e as principais atividades destinadas prioritariamente ao autoconsumo.................................................

p.113

Tabela 4

Agricultores-assentados e estrutura dos grupos domésticos por sistema produtivo..........................................................................

p.117

Tabela 5

Origem e composição dos rendimentos totais brutos dos grupos domésticos por amostra em cada sistema produtivo.....................

p.132

Tabela 6

Renda monetária e renda indireta do autoconsumo (não-monetária) da amostra de grupos domésticos em cada sistema produtivo. Ano agrícola 2005/2006..............................................

p.134





LISTA DE FIGURAS



Figura 1:

Regiões dos sistemas agrários do Rio Grande do Sul, os municípios de origem e onde se realizou as principais mobilizações dos agricultores sem-terra que foram beneficiados no Assentamento Ceres.................................................................


p. 72






LISTA DE GRÁFICOS



Gráfico 1:

Evolução da produção leiteira no município de Jóia entre os nos de 1983 a 2005..............................................................................

p. 60

Gráfico 2:

Distribuição porcentual dos membros dos grupos domésticos por sistema produtivo e faixa etária..............................................

p.120

Gráfico 3:

Composição da Renda Total Líquida/ano (RTL/ano - em %)......

p.135


SUMÁRIO



INTRODUÇÃO

Esta dissertação aborda as diferenças socioculturais que influenciam no estabelecimento de estratégias produtivas entre os agricultores-assentados do Assentamento rural Ceres, localizado no estado do Rio Grande do Sul. O processo de mobilização de agricultores sem-terra neste estado tende a reunir nos acampamentos de luta pela terra indivíduos de distintas regiões e municípios, com diferentes itinerários e trajetórias de vida, experiências, assim como saberes e conhecimentos e que passam a conviver em uma mesma terra conquistada quando ocorre à aquisição de determinada área de terra pelo INCRA, recebendo o nome de assentamento rural. Assim, uma espécie de heterogeneidade sociocultural permeia esse processo social desde o acampamento ao assentamento, onde tendem a se expressar objetivos e significações diferenciadas para com a posse de um lote de terra e mesmo com os cultivos e produções desenvolvidas sobre a terra. Dessa forma, na montagem das estratégias produtivas sobre os lotes e, de forma geral, nas estratégias de reprodução social dos grupos domésticos essas diferenças socialmente construídas se manifestam, compondo um dos fatores que determinam as diferenciações socioeconômicas entre os agricultores-assentados.

Nesse sentido, a maior parte das famílias que hoje se encontram no Assentamento Ceres participou de acampamentos a partir do ano de 1994, sendo assentadas no final de 1996. Este Assentamento possui uma área total de 2.210,40 hectares (ha), com 106 famílias de agricultores-assentados e está localizado na região do Planalto riograndense, no município de Jóia. A referida região é caracterizada pelo cultivo hegemônico da sojicultura desde a década de 1970, devido aos processos da modernização da agricultura conformadores das cooperativas tritículas e dos granjeiros, produtores capitalistas da agricultura (Rückert, 2003). Antes de ser adquira pelo INCRA para fins de reforma agrária essa área era a chamada Granja Ceres, de propriedade da VARIG Agropecuária S.A. (VAGRO), uma das empresas controladas pela Fundação Ruben Berta. No contexto da chamada modernização da agricultura essa empresa desenvolveu uma Granja especializada na produção da bovinocultura leiteira, vendendo a área ao INCRA em 1996 por um total de R$ 5.181.150,70 (Incra, 1996).1 Devido às características específicas da referida Granja, associadas com a grande infra-estrutura e com a qualidade dos solos, ainda no acampamento as famílias viam essa área como a menina dos olhos do sem-terra do estado, em um sentido de expressão de desejo de ali serem assentadas. Além disso, as direções do MST e o INCRA também desenvolveram projetos produtivos para o futuro assentamento como a formação de uma Cooperativa e dos chamados grupos coletivos de produção, influenciando na seleção das famílias ainda na fase de acampamento e que, de forma geral, estão na base de tensionamentos que surgiram posteriormente entre os agentes deste espaço social.

Assim, os agricultores sem-terra de diferentes regiões do estado e com diferentes trajetórias sociais passam a viver em um Assentamento rural marcado pelos diferenciais de poderes relacionados aos granjeiros da soja, cooperativas, instituições governamentais e dos movimentos sociais organizados, também portadores de diferentes posições nas estruturas de poderes regionais. Estas circunstâncias definem um campo de reprodução e de poderes dos agricultores-assentados restrito e relativo, onde o manejo e organização dos fatores produtivos de seus lotes constituem uma dimensão de suas autonomias relativas. Esse é o contexto onde tende a ocorrer uma atualização de sonhos, projetos de futuro, saberes e conhecimentos adquiridos ao longo de suas trajetórias sociais. Haveria assim, uma exteriorização na forma de estratégias produtivas sobre os lotes de terra de recursos socioculturais com determinadas significações atribuídas às atividades agropecuárias realizadas para a obtenção das condições materiais e simbólicas desejadas de vida. Estaria subtendida, dessa forma, determinadas lógicas socioculturais às produções desenvolvidas nos lotes de terra pelos agricultores-assentados. Estas lógicas socioculturais que se procurará objetivar no decorrer dos capítulos da dissertação de acordo com o campo empírico considerado e os pressupostos teórico-metodológicos utilizados para a realização da pesquisa.

Neste sentido, a dissertação está dividida em cinco capítulos.

O Capítulo I apresenta o objeto de pesquisa e a circunscrição teórico-metodológica adotada que guiará o desenrolar das argumentações realizadas nos demais capítulos. A construção das questões, enunciados, problemas e perspectivas de análise são inseridos em uma discussão da gênese sócio-histórica dos processos sociais observados, onde já se evidencia as opções teóricas utilizadas para a análise das problemáticas formuladas, bem como a hipótese guia. Entre os principais conceitos teóricos utilizados e operacionalizados está o conceito de habitus social (Bourdieu, 1996; 2002). Segue-se com a construção dos objetivos do estudo e com uma discussão acerca da relação do pesquisador-observador e eventos sociais observados, ressaltando as questões do engajamento e do distanciamento metodológico no processo de construção do conhecimento. Ademais, são apresentados os pressupostos teórico-metodológicos, o recorte empírico, técnicas de coleta e análise dos dados.

O Capítulo II realiza uma discussão sobre o processo de ocupação do território riograndense abordando o desenvolvimento histórico da região do Planalto e da área onde hoje é o Assentamento Ceres como processos de uma sócio-história conformadora de recursos socioculturais. Assim, aprofundam-se algumas questões apresentadas já no Capítulo I, como a formação cultural e o relacionamento entre os chamados caboclos e colonos no decorrer das seguidas migrações que essas populações realizaram ao longo do tempo em busca de terras no território meridional. Tal discussão dá-se a partir da região de transição entre matas e campos, de acordo com a vegetação original do território do Planalto que coincide com a localização atual do município de Jóia e, portanto, do Assentamento Ceres. Esta diferenciação entre matas e campos determinou processos de ocupação do território diferenciados havendo nas primeiras a implantação das colônias de imigrantes europeus não-ibéricos e nos segundos o desenvolvimento de estâncias pastoris, relacionadas com a criação extensiva de gado. Neste sentido, a localização geográfica do município de Jóia e do Assentamento Ceres permite realizar uma abordagem da relação mantida entre colonos, caboclos e estancieiros, até meados da década de 1950, quando ocorre a introdução do trigo nas terras das estâncias por meio do arrendamento capitalista. Esta conjuntura marca o surgimento dos chamados granjeiros e a redefinição das relações sociais entre “velhos” e “novos” agentes sociais nessa faixa de transição geográfica, assim como a criação das cooperativas tritículas e da implantação e cultivo da soja. De forma geral, esse processo de desenvolvimento sócio-histórico conformou diferentemente recursos socioculturais entre os agentes sociais, definindo posições na estrutura de relações sociais na sociedade e, portanto, conjuntos de experiências aos trabalhadores rurais, que tendem a estar na origem dos comportamentos e ações observadas internamente no Assentamento Ceres. Ademais, aborda-se a venda da Granja Ceres ao INCRA dentro da hipótese de inviabilidade econômica gerada pela conjuntura de reforma neoliberal do Estado a partir do início da década de 1990.

O Capítulo III discute o processo de formação propriamente dito do Assentamento. Nesse sentido, analisa os projetos elaborados pela direção do MST e pelo INCRA e as conseqüências daí decorrentes, tais como: os critérios para a seleção ainda no acampamento das famílias que seriam beneficiadas, formação de uma Cooperativa, os chamados grupos de produção coletiva, as tentativas de reacionamento da infra-estrutura da antiga Granja e as orientações para que as famílias produzissem prioritariamente a bovinocultura leiteira sobre os lotes de terra. O posterior desenrolar dessas questões tendeu a configurar situações de frustração dos agricultores-assentados devido às expectativas de futuro não concretizadas. Outra faceta abordada como componente da formação do Assentamento diz respeito à origem geográfica das famílias e do processo de mobilização anterior e durante a luta pela terra. A análise dessa fase anterior ao assentamento é importante porque localiza sócio-historicamente esses indivíduos nos processos de ocupação do território. Da mesma forma, porque tende a revelar-se como um período de vivência de novas experiências carregado de angústias, incertezas, ansiedades, redefinição de visão de mundo e de projetos de vida, assim como de oportunidades para quem dele participa. Questões que podem influenciar o desenvolvimento futuro de estratégias produtivas entre os agricultores-assentados devido às conversões político-ideológicas e a internalização de novos conhecimentos e saberes, por exemplo, quando da participação em cursos de formação política e de produção agropecuária. Por outro lado, pode representar aos agricultores sem-terra um período de reafirmação de projetos de futuro, de crenças e de conhecimentos e saberes adquiridos em socializações anteriores. Ainda, aborda-se nesse Capítulo os principais fatores que influenciam quanto à definição das estratégias produtivas dos agricultores-assentados como a presença dos agricultores granjeiros vizinhos, o desenvolvimento da Cooperativa do Assentamento, a presença da assessoria técnica, as conjunturas de ocorrência da Febre Aftosa2, de introdução de variedades de soja transgênica e do aumento do preço da saca da soja a partir do ano de 1999 até meados de 2004.

O Capítulo IV analisa as estratégias produtivas, as dinâmicas familiares e a composição das rendas monetárias e não-monetárias dos grupos domésticos no Assentamento. A abordagem estrutura-se a partir da classificação realizada dos sistemas produtivos desenvolvidos pelos agricultores-assentados, chamados de: diversificado; soja-leite e soja.3 De uma forma geral busca-se identificar particularidades que podem ser ao mesmo tempo elementos de identificação e diferenciação ‘intra’ e ‘entre os grupos. Essas particularidades podem representar a materialização de distinções sociais incorporadas ao longo das trajetórias individuais e coletivas. Por outro lado podem agir como dispositivos socioeconômicos que estruturam diferenciais de poderes entre os agricultores-assentados e influenciam a definição das estratégias produtivas. Neste sentido, é analisada a ocupação dada à área dos lotes pelos agricultores-assentados, as produções e manejos desenvolvidos neste âmbito. A investigação das dinâmicas de composição dos grupos familiares ocorre com vistas ao estabelecimento de possíveis relações com as estratégias e sistemas produtivos desenvolvidos. Contudo, a apresentação de grupos mais ou menos homogêneos quanto a esses fatores tende a indicar que as explicações quanto às diferentes estratégias produtivas desenvolvidas pelos agricultores-assentados podem residir em outros elementos, como na composição sociocultural dos mesmos. Ademais, analisa-se a composição das rendas monetárias e não-monetárias (do autoconsumo) em articulação com as estratégias produtivas considerando o conjunto de atividades que proporcionam os meios de sobrevivência aos grupos domésticos.

O Capítulo V analisa as trajetórias sociais de uma amostra de agricultores-assentados e as lógicas socioculturais subjacentes no estabelecimento das estratégias produtivas desenvolvidas sobre os lotes de terra. Em um primeiro momento procura identificar as condições de produção cultural relacionadas com as posições sociais que engendraram as principais referências culturais anteriormente à entrada na luta pela terra. Nesse contexto, aborda-se que a posição social ocupada pelo indivíduo no interior da sociedade, e experiências a ela relacionadas, tenderia a conformar realidades específicas e lógicas de ação que orientaria os comportamentos expressados frente a novas circunstâncias vividas, como as que são enfrentadas no período do acampamento e, posteriormente, no Assentamento. Em um segundo momento do Capítulo analisa-se como os agricultores-assentados, portadores de referências socioculturais específicas, interagem-reagem frente aos eventos inusitados da luta pela terra e sobre a terra, no estabelecimento das estratégias produtivas. Dessa forma, diferentes significações são elaboradas acerca das estratégias produtivas, que tendem a significar também diferenciados desejos e projetos de futuro, além de redes de relações e interações sociais com outros agentes sociais do local e da região, como nas relações comerciais, com as direções do MST e Cooperativa, entre outros.

Assim, nesse estudo, as análises centrar-se-ão nas ações e comportamentos dos agricultores-assentados para a construção dos meios necessários à reprodução social. Considerar essa fração de agricultores como uma categoria social não significa entendê-la como homogênea, senão carregada de diferenças e também dinâmica no que se refere aos diferentes interesses expressados internamente. Contudo, reconhece que o processo sócio-histórico se encarregou de estabelecer pontos de contato entre seus integrantes seja pelas precárias condições de vida, ou pela identificação e “confronto” com inimigos comuns quando decidem lutar coletivamente por um pedaço de terra, e/ou pelo tratamento dado pelas instâncias do Estado. Nesse sentido, a designação agricultor-assentado procura expressar a vivência de instabilidades quanto à reprodução social por essa fração de agricultores em que a luta pela terra coloca-se como hipótese possível para alcançar as condições socioeconômicas desejadas de vida. Destaca, portanto, a vivência de processos sociais específicos a essa categoria, não encontrados nas trajetórias sociais de outras frações de agricultores, como entre os demais pequenos agricultores parcelares que não experimentam as situações de acampamento.

Nesse contexto, a categoria luta procura colocar em evidência as experiências do período do acampamento, das mobilizações e ocupações de terra que podem resultar em terra conquistada, quando ocorre a realização dos assentamentos rurais como ação do Estado, expressões frequentemente acionadas nas falas dos agricultores-assentados. Mas, também, pode ganhar outras interpretações. De acordo com Comerford (1999) luta tende a receber significações distintas para os trabalhadores rurais à medida que diferentes situações são vividas, interpretadas e diferentes práticas são postas em ação, constituindo variados conjuntos de relações. Dessa forma, essa categoria poderá ganhar outros dois sentidos durante a dissertação: a) luta sobre ou na terra referindo-se às dificuldades do trabalho cotidiano no Assentamento e o enfrentamento de diversas formas de privação; e, b) luta referindo-se à participação em estruturas de direção do acampamento, de partidos, do Assentamento, da Cooperativa e de outras organizações; vivida como luta política, designando o sentido da luta para além dos interesses imediatos de quem dela participa, relacionada com a categoria ou classe social.

De forma geral, o estudo contido nessa dissertação procura trazer elementos para compreensão das diferentes ações e comportamentos que os agricultores-assentados manifestam quanto às formas de organizar a produção agropecuária nos assentamentos rurais. Qualquer observador e conhecedor da realidade destes espaços sociais percebe as distintas maneiras com que esses indivíduos organizam os fatores produtivos presentes nos lotes, desenvolvem distintos sistemas produtivos, manejos, usos e ocupações de suas áreas de terra nos assentamentos. Por outro lado, mesmo a bibliografia que trata dos assentamentos rurais não tem abordado as significações atribuídas pelos agricultores-assentados aos sistemas produtivos por estes desenvolvidos e as lógicas socioculturais imanentes em cada caso. Na maior parte das vezes concentra-se em avaliações socioeconômicas a partir de indicadores estabelecidos previamente pelo pesquisador e tende a tratá-los mais como beneficiários de uma política de assentamentos, assim como das parcas políticas públicas associadas - como crédito e assessoria técnica - do que como um indivíduo com uma história e trajetória social precisa. Já, as pesquisas que têm se detido no estudo das diferenças socioculturais entre os trabalhadores sem-terra meridionais não abordam como esses trabalhadores as acionam na montagem das atividades produtivas sobre os lotes e as significações a elas atribuídas em seus projetos e desejos de futuro; quase sempre abordam como essas diferenças influenciam no desenvolvimento de distintas visões políticas entre indivíduos, focando a análise no período da luta pela terra como um momento de recomposição cultural, com destaque para os excelentes trabalhos de Gaiger (1994a; 1995; 1999). Assim, tendo em vista a revisão bibliográfica realizada no decorrer da argumentação desenvolvida em cada capítulo, é provável que as análises realizadas neste estudo inovem no sentido de observar como as diferentes formações socioculturais dos trabalhadores meridionais alçam distintas significações e representações acerca das estratégias produtivas desenvolvidas nos lotes, das estratégias de reprodução socioeconômica e dos distintos projetos de futuro idealizados durante as trajetórias sociais e atualizados sobre os lotes de terra.

Do ponto de vista daqueles que trabalham diretamente com esse público de agricultores em um sentido de promover a melhoria das condições socioeconômicas dos mesmos, as análises aqui realizadas podem contribuir com estas ações. Nessa direção, poder-se-ia considerar as distintas lógicas socioculturais existentes para a elaboração e planejamento de estratégias de promoção socioeconômicas e culturais junto aos agricultores-assentados. Apesar de não ser esse o objetivo imediato da dissertação, a pesquisa pode oferecer elementos de reflexão e análise para os profissionais que trabalham no campo.




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