LIÇÕes de minas: as primeiras letras entre cartilhas e arquivos



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LIÇÕES DE MINAS: AS PRIMEIRAS LETRAS ENTRE CARTILHAS E ARQUIVOS

Isabel Cristina Alves da Silva Frade (FaE/CEALE/UFMG)

Francisca Izabel Pereira Maciel (FaE/CEALE/UFMG)
1. Introdução
O trabalho que vamos apresentar faz parte da pesquisa interinstitucional "Cartilhas escolares: ideários, práticas pedagógicas e editoriais construção de repertórios analíticos e de conhecimento sobre a história da alfabetização e das cartilhas (MG/RS/MT, 1834-1997)1" que desenvolvemos em parceria com professores de Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Mato Grosso, cujo objetivo é compreender a história da alfabetização nos referidos estados, particularmente a produção voltada para o ensino inicial da leitura e da escrita, no período situado entre 1834 e 1997.

A coordenação geral da pesquisa, assim como a coordenação da equipe mineira são compostas por membros do CEALE (Centro de Alfabetização, Leitura e Escrita), que foi criado pela Faculdade de Educação da UFMG, em 1990, com o objetivo de integrar suas atividades de pesquisa, documentação e ação educativa voltadas para alfabetização, leitura e escrita. Integrado à Biblioteca da FaE/UFMG, o Centro criou seu Setor de Documentação, que desenvolve não só projetos dirigidos para o monitoramento, aquisição e tratamento da produção científica nacional e internacional, sobre as temáticas Alfabetização, Leitura e Escrita, assim como projetos voltados para o levantamento, aquisição e tratamento de fontes para o estudo histórico das práticas escolares de ensino da leitura e da escrita, particularmente da produção editorial brasileira (cartilhas, livros didáticos, gramáticas e antologias), do século XIX até a atualidade.

A articulação de estudiosos dos três estados (MG, RS e MT) em torno de um projeto geral de pesquisa tem como intenção contribuir para que tenhamos um “estado do conhecimento” sobre a produção de cartilhas nos estados pesquisados. Essas parcerias enriquecem a pesquisa em vários sentidos, entre eles destacamos o mapeamento e a constituição de acervos, a evidência de contrastes e semelhanças, assim como a circulação de práticas entre as regiões. Buscando também evidenciar a relação entre aspectos nacionais e regionais, pretendemos focalizar as diferenciações ou redes de influências de determinada Província/Estado para compreender aspectos da alfabetização no Brasil. Isso porque não há como discutir aspectos gerais que caracterizam a educação primária no Brasil, sem considerar que cada região pode ter construído políticas e práticas específicas. (Vidal e Gvirtz, 1998) Assim, objetivamos desvendar a história da alfabetização, inicialmente, nos três estados brasileiros, através das cartilhas que mais se destacaram, esboçando um estudo sobre as metodologias utilizadas, a autoria e a divulgação dessas cartilhas no processo de escolarização e instrução do Brasil.

A escolha pelo recorte temporal justifica-se por alguns motivos, entre os quais, a vinculação de nosso interesse à compreensão do papel dos Estados na condução das políticas públicas dos livros didáticos e de alfabetização. A partir de 1834, ocorre uma descentralização administrativa na condução das políticas de educação, com a delegação de poderes da esfera do Império para as Províncias. Assim, as políticas do período podem estar materializadas no controle curricular, na compra, indicação e distribuição das cartilhas em cada região do País. Por outro lado, o recorte em 1997 justifica-se por haver um corpus organizado no acervo do CEALE que, mediante a política do PNLD de 1998, passou a ter catalogadas e arquivadas as cartilhas, que foram apresentadas para apreciação e pareceres, a partir desse período. Além disso, em torno desse acervo PNLD\98, já foram realizadas algumas pesquisas.2 Podemos afirmar que as cartilhas materializam e dão visibilidade a propostas metodológicas bem definidas, contrapondo-se ao que ocorreu em meados da década de 90, época em que, com o advento da alfabetização construtivista, viveu-se o fenômeno da “não-cartilha” ou de uma certa “desmetodização” – referida a uma idéia de método antes existente nas cartilhas -que gerou uma invisibilidade metodológica, tanto nas tematizações sobre inovações na área, quanto na própria organização das cartilhas (Frade, 2003).


2. As cartilhas e a história da alfabetização
A história da alfabetização no Brasil pode ser construída através de diversas fontes; uma delas é o livro didático. Os livros de alfabetização, sobretudo as cartilhas, são representativos de práticas e ideários pedagógicos, assim como de práticas editoriais e, historicamente, vêm se constituindo como primeira via de acesso à cultura do impresso, uma vez que, em nossa sociedade, grande parcela da população aprende a ler dentro do espaço escolar, e a cartilha é o primeiro livro a que os alunos têm acesso.

Desse modo, uma abordagem histórica das cartilhas é necessária devido à carência de pesquisas sobre ideários e práticas no campo da alfabetização, numa perspectiva histórica. Além disso, há também a necessidade de se construir mais organicamente uma história do livro, da leitura e das práticas editoriais no Brasil, uma vez que se trata de impressos que passam por um ciclo de produção, circulação e divulgação, dependentes de necessidades pedagógicas e comerciais, e sofrem interferências dos contextos sócio-culturais.

Tendo em vista esse contexto, podemos investigar as seguintes questões: quais seriam as explicações sobre o uso e a permanência de determinado livro de alfabetização em cada região? Dependeriam de uma política de divulgação e distribuição das editoras? Ou de necessidades pedagógicas? A circulação e o uso desse livro estariam dependentes de outros livros, no mesmo período? Teriam as cartilhas existência isolada?

Como já foi bem colocado por Pfromm Neto et al (1974), Bittencourt (1993) e Magnani (1997), não é tarefa fácil a do pesquisador que se propõe a conhecer e a analisar a evolução do livro didático no Brasil; mais difícil ainda se torna essa tarefa, quando se trata de “colocar as mãos” sobre as cartilhas utilizadas na instrução brasileira. Nessa perspectiva de pesquisa, a construção de acervos regionais e nacionais constitui-se num primeiro passo para mapear a existência das cartilhas em determinada época. Os livros indicam dados sobre o conteúdo, a forma do impresso, seus autores, seus recursos expressivos, sua proposta didática; apontam indícios de condições de produção, circulação, divulgação. Entretanto, não basta que se construam acervos, que sejam descritos analiticamente, se os dados sobre os livros não são cruzados entre si e com outras fontes.

A seguir, abordaremos dados da pesquisa, já sistematizados, que permitem levantar algumas hipóteses sobre aspectos da produção, da circulação e da apropriação de modelos e materiais pedagógicos em Minas Gerais. Além disso, buscaremos problematizar os limites e as possibilidades de nossas fontes históricas, em especial. a documentação do Arquivo Público Mineiro.
3. Aspectos relativos à História da Alfabetização em Minas Gerais

Na busca por localizar os exemplares das cartilhas, realizamos um inventário nos acervos localizados na cidade de Belo Horizonte.


Exemplares repertoriados por acervo3

Acervo

Cartilhas e pré-livros

Manuais

Total

CEALE

99

44

143

CRP/SEE/MG4

87

38

125

Total

186

82

268

A pesquisa em diferentes acervos permitiu-nos construir uma série de dados e cruzamentos entre os aspectos regionais e nacionais. O repertório de mais de 268 exemplares nacionais de que dispomos deixou-nos verificar a posição de Minas Gerais em relação a um discurso e a uma prática de alfabetização nacionais, uma vez que os índices onomásticos, por editoras, por títulos e por metodologia, produzidos mediante fichas analíticas, evidenciaram os seguintes aspectos: as décadas em que houve maior intensidade de produção mineira de cartilhas; a produção das editoras mineiras em relação à das editoras nacionais; os indícios de uma rede de intelectuais mineiros que se agruparam em torno da adesão aos métodos analíticos; e as edições conjuntas com outros estados, entre outras relações.

A seguir, apresentamos uma tabela com exemplares repertoriados por década:


Exemplares/Década

Número de Exemplares

1870

1

1880

1

1890

2

1900

1

1910

2

1920

3

1930

0

1940

5

1950

23

1960

69

1970

45

1980

47

1990

18

Total

217

Exemplares S/D

51

Total Geral

268

Essa tabela permite-nos refletir sobre um conjunto de questões envolvendo aspectos teórico-metodológicos da pesquisa histórica sobre cartilhas. O primeiro conjunto de perguntas refere-se ao universo material dos exemplares repertoriados que, inicialmente, nos faz relativizar a interpretação dos dados. Apesar de recortarmos o período de 1834, para a iniciação da coleta de dados, a tabela acima evidencia um limite temporal iniciado em 1870. Cabe indagar a seguinte questão: isso se deve à natureza e à singularidade da constituição do acervo do CEALE, uma vez que ele é formado de exemplares comprados em sebos e doados, sobretudo da biblioteca pessoal da professora Lúcia Casasanta? Em relação aos outros acervos por nós consultados e à sua forma de constituição, também é necessário fazer novas indagações.

Circunscritos a essa materialidade, que outras relações e perguntas podem ser feitas em torno do que caracteriza o conjunto de dados levantados? Em uma breve comparação com o acervo trabalhado por Antonio Augusto Batista et al (2002), relacionado a livros nacionais destinados ao desenvolvimento da leitura, percebe-se uma semelhança: é também no último quartel do século XIX, exatamente no ano de 1870, que aparecem repertoriados livros de leitura. O mesmo ocorre para as cartilhas que mapeamos. Isso indicia a investigação de futuras pesquisas quanto à própria produção nacional de livros, uma vez que é muito presente em vários discursos - Mortatti (1997), Pfromm Neto (1974) - a incipiência de uma produção brasileira, o que provocou a utilização de vários materiais portugueses e mesmo aqueles de uso social diversificado, tais como processos, catecismos, entre outros, adaptados às necessidades de uma leitura escolar.

Também não poderíamos deixar de observar que o baixo número de títulos levantados na década de 90 não significa uma queda na produção específica do período, já que nos falta repertoriar livros inscritos no PNLD/1996, o que totalizará mais de 50 títulos. Esse possível cruzamento com um corpus mais atual permitirá verificar a longevidade de livros que já circulavam em décadas anteriores, ou os novos títulos desse corpus, em relação ao que já temos repertoriado.

Por outro lado, uma questão pode ser levantada, baseada nos dados apresentados: o que pode representar o aumento de exemplares, a partir das décadas de 50 até 90, do século XX? Esse fenômeno pode estar ligado a diferentes fatos: ao desenvolvimento da própria indústria editorial brasileira, especialmente aquela ligada à produção de livros didáticos; à expansão da escola pública; e à intensificação de uma produção pedagógica de autores brasileiros. No entanto, caberia a nós perguntar: se fôssemos comparar a produção por Estado, haveria um processo de regionalização em todos os estados? Esse desdobramento regional estaria atrelado à capacidade da indústria editorial de cada região? Há hegemonia de um pensamento, de um grupo ou de instituições formadoras?

Títulos repertoriados por editoras e sua localidade


Estados e ou Cidades
Títulos Repertoriados

São Paulo

56

Belo Horizonte

20

Rio de Janeiro

13

Porto Alegre

04

Localização em mais de um Estado

33

Localidade não citada

34

Outras localidades

09

Total

169

A tabela acima permite-nos inferir o poder de cada Estado no conjunto da produção nacional. Constata-se uma hegemonia do estado de São Paulo, presente na indústria editorial, até o momento atual. Seria a produção pedagógica do estado mais significativa, per si, ou haveria naquele estado um campo fértil para os negócios do livro, inclusive para captar autores oriundos de outros estados? Minas Gerais aparece em 2o lugar. Caberia perguntar também: haveria predominância da produção, em determinada época, de autores ou ainda de determinados métodos? Em que situação de circulação de ideário pedagógico essa produção ocorre? Assim, outros fenômenos internos ao campo pedagógico precisam ser buscados para explicar a supremacia ou a subordinação de alguns estados.

Consultando os dados bibliográficos de editoras, poderíamos problematizar em torno da parceria em diferentes estados, uma vez que temos sucursais de editoras nacionais em Minas Gerais e mesmo a junção de editoras na publicação de determinados livros.

Uma produção editorial especificamente mineira pode ser inferida pela presença, em nossos índices, de 10 editoras mineiras e de dois livros publicados pela Imprensa Oficial: um de Arthur Joviano, em 1907, e outro de Anna Cintra, no início da década de 20.

Embora não seja objeto focalizado neste texto, não podemos deixar de mencionar que há uma série de relações entre algumas editoras, o que nos remete a perguntas relacionadas aos vínculos entre títulos e suas histórias de edição. Sabemos, por exemplo, que A Grafiquinha Ltda transformou-se em Editora Vega e que havia, em seu corpo editorial, professores do Instituto de Educação e de membros ligados ao Programa PABAEE (Programa de Assistência Brasileiro/Americana ao Ensino Elementar), que possibilitaram uma série de circunstâncias propícias à publicação do livro "O Circo do Carequinha", de Maria Serafina de Freitas. As circunstâncias dessa produção fazem supor que houve, na época, possibilidades de relação entre pesquisas desenvolvidas no PABAEE e produção de livro didático, assim como melhores condições de divulgação e uso. (Rodrigues e Vaz, 1980).

Os dados sobre autoria e adesão a determinada metodologia vão trazer outras evidências que demonstram haver uma rede de influências e pertencimentos institucionais que podem explicar a produção de cartilhas em MG. A tabela a seguir comprova uma relativa supremacia de uma produção mineira de pré-livros, decorrente de uma abordagem analítica para o ensino da leitura e da escrita, que se faz presente como tendência em livros mineiros, editados por editoras nacionais, a partir da década de 30 do século XX. Essa supremacia vai aparecer na produção de casas editoras mineiras, da década de 50 até 90. Entretanto, percebe-se uma predominância desse ideário até a década de 70, época em que começam a ser editados livros que se baseiam em outras metodologias sintéticas ou ecléticas. É preciso esclarecer, aqui, que os manuais que seguem a marcha sintética e eclética, em geral, não trazem no título da obra a expressão “pré-livro”.



Produção editorial mineira de cartilhas5


Título

Autor

Metodologia

Editora

Década


Primeira leitura - methodo para ensinar a ler

Arthur Joviano**

Método Global (Sentenciação)

Imprensa Oficial

10

Lições para o ensino completo de leitura

Anna Cintra**

Eclético

Imprensa Oficial

20

Joãozinho e Maria – pré-livro

Helena Jorge

Método Global

Estabelecimento Gráfico Santa Maria

50

As mais belas histórias - pré-livro

Lúcia Casasanta

Método Global

Editora do Brasil em Minas Gerais

60

Meninos travessos - pré-livro

Maria Yvone de Araújo

Método Global

Editora Vigília

60

O circo do Carequinha - pré-livro

Maria Serafina de Freitas

Método Global

A Grafiquinha Editora Ltda

60

Era uma vez um cachorrinho fujão - pré-livro

Elisa Barbosa

Método Global

Editora Lemi

70

Brincadeiras do Jujuba pré-livro

Elisa Barbosa

Método Global

Editora Lemi

70

Brincadeiras do Jujuba - pré-livro

Elisa Barbosa

Método Global

Editora Vigília

90

Método fônico gestual - o Pica Pau

Maria Magdalena Lana Gastelois

Fônico/Sintético

Editora Lemi S/A

70

Acorda Dorminhoca

Teresinha Mendes, Stael Carvalho e Maria A. Siqueira

Método Sintético

Editora Mãos Unidas

80

Pa- ta- ti, pa ta ta

Maria S. C. Ribeiro, Zélia de O. N. Lessa, Elza R. de Sousa

Método Silábico

Editora Lê

80

Vivina e Fafau

Avani Avelar Lanza e Maria M. Garcia

Método Sintético Silabação

Editora O Lutador Ltda

80

O barquinho amarelo - pré-livro

Iêda Dias da Silva

Método Global

Editora Vigília

70

No mundo das letras

Maria Helena de Souza Vidigal

Método Sintético

Editora Dimensão

90

O jogo das palavras

Zélia Almeida Siqueira

Ludo- Genético Palavração

Editora Dimensão

90

** Livros publicados posteriormente pela Livraria Francisco Alves. A edição pela Imprensa Oficial foi verificada em exemplares da 1a ed. de Arthur Joviano e 3a Ed. de Anna Cintra.
O crescimento da produção editorial de manuais didáticos, de autoria de mineiros, extrapola as montanhas de Minas e esses são utilizados em vários estados brasileiros. Na tentativa de explicar esse crescimento, chamamos a atenção para o sucesso editorial e metodológico de O Livro de Lili, de autoria de Anita Fonseca. Esse livro inaugura uma rede de relações e a atuação da professora Lúcia Casasanta como principal divulgadora do método global para as alunas da Escola de Aperfeiçoamento, nos anos 30 até os anos 70, no Curso de Pedagogia, do Instituto de Educação de Minas Gerais.

Alguns desdobramentos d’ O Livro de Lili podem ser destacados não só pelas influências que exerceu na produção mineira, em termos metodológicos e na configuração textual. Prova disso são as semelhanças de livros posteriores, constatadas em publicações de pré-livros, como, por exemplo, O circo do Carequinha, de Maria Serafina de Freitas. Em torno da temática do circo, a autora desenvolve onze historietas, tal como faz Anita Fonseca em O livro de Lili, e ainda utiliza-se de outra similitude, com relação à configuração textual de algumas lições. Outro exemplo é o pré-livro da coleção Meninos travessos, de Maria Yvonne Atalécio de Araújo. Em torno dos personagens Fernando, Benedito e Silvinha, a autora vai apresentando pequenas historietas, de acordo com os pressupostos e as etapas do método global de contos divulgados por Lúcia Casasanta

No ano de 1954, a própria Lúcia Casasanta lança o seu pré-livro, Os três porquinhos. O sucesso de Os três porquinhos e, portanto, da proposta metodológica de Casasanta pode ser verificado nos Relatórios emitidos pela FAE (Fundação de Assistência ao Educando)/MEC, na década de 80: entre as dez cartilhas mais distribuídas no Brasil pelo Programa Nacional do Livro Didático (PNLD), o pré-livro da Coleção As mais belas histórias era um dos mais requisitados pelas escolas brasileiras. Esse pré-livro foi editado, ininterruptamente, até o ano de 1994, data em que deixou de ser editado, como aconteceu também com várias outras cartilhas.

Esta análise da produção mineira nos aponta para uma certa hegemonia em Minas Gerais, em torno dos métodos analíticos, com ênfase no método global de contos. Houve uma construção social deste ideário, explicada pela existência de uma série de circunstâncias políticas, institucionais e pessoais. Sobre as circunstâncias políticas, convém ressaltar que, na esteira das reformas anteriores, a reforma de Francisco Campos, de 1927, defende claramente os pressupostos decrolyanos. Conforme Maciel (2002), o programa de ensino da época traz uma adaptação do método Decroly, a título de sugestões de atividades para os professores. A autora ainda acrescenta que Decroly é considerado o mentor intelectual do uso pedagógico do método global.

Sobre as circunstâncias institucionais, é clara a vinculação da formação de diversos autores ao Curso de Administração do Instituto da Educação. Em conseqüência, vislumbramos uma outra condição de manutenção do ideário de alfabetização, que se refere às influências exercidas pela professora Lúcia Casasanta, junto aos seus alunos, desde a década de 30 até a década de 70.
4. Em busca de novas fontes: o Arquivo Público Mineiro
Na tentativa de conhecer os processos de seleção, aquisição e distribuição das cartilhas nas escolas mineiras, buscou-se ampliar as fontes e cruzar os dados com os exemplares. Esse conjunto de fontes que pesquisamos encontra-se no Arquivo Público Mineiro e vem acrescentar outras contribuições para a construção de uma história da alfabetização em Minas Gerais.

Mourão (1962) afirma que, no tempo dos imperadores assim como no período anterior colonial, todos os documentos, ainda os mais insignificantes e de natureza burocrática, eram copiados e encadernados em livros que constituem os preciosos códices de que o Arquivo Público Mineiro tem uma preciosa coleção.” (p.6). Assim, esses códices são uma fonte imprescindível para historiadores da educação em Minas por conterem os documentos um rico manancial sobre vários aspectos de uma história regional. Os dados podem nos remeter a um conjunto de fatores relacionados à circulação e ao uso de livro em escolas públicas mineiras no final do século XIX e início do século XX.

Numa primeira seleção, localizamos um conjunto de documentos relacionados a pedidos, remessas e alguns relatórios de inspetores, desde 1890 até 1925. Nesses documentos, foi possível vislumbrar a coexistência de uma produção local com a circulação de manuais nacionais, constantes em outras pesquisas (Mortatti, op cit), tais como a Cartilha Analítica, de Arnaldo Barreto, e a Cartilha Nacional, de Hilário Ribeiro.

Se esses dados permitem aceder a uma série de práticas em torno dos livros de alfabetização, é preciso ter cautela na análise das relações entre pedido, remessas e circulação. Isso porque não é possível verificar se os livros foram de fato enviados e se os enviados eram utilizados. Constata-se que nem sempre os que foram enviados foram aqueles demandados pelas escolas e pelos professores. É também difícil verificar a relação entre pedidos e número de alunos matriculados que estivessem em período de alfabetização inicial. Os números solicitados aparecem por localidade e, mesmo contando com dados estatísticos escolares, talvez não seja possível verificar a relevância dos números pedidos com relação ao número de livros necessários para cada escola do interior. No entanto, os dados revelam que, no final do século XIX, convivendo com os livros de autores reconhecidos nacionalmente, como Abílio César Borges, há menção a um autor e a duas cartilhas, desconhecidos de boa parte dos pesquisadores da área da alfabetização: trata-se de Agostinho Penido, códice datado por volta de 1880, possivelmente o autor do também citado Methodo Penido ou Livro do Penido; da Cartilha do Padre Pimentel (1870) e da Cartilha Mariana (citada por volta de 1880, sem menção ao autor), casos a serem explorados.

Em documentos sobre estoques existentes nos almoxarifados, constata-se o conflito entre os títulos adotados pelo governo e os exemplares disponíveis nos depósitos para enviar às escolas. Nas listas de pedidos, observa-se também uma série de outros materiais escolares que, na época, eram constitutivos ou específicos da cultura escrita escolar, tais como: tinteiros, cadernos, giz, lápis, canetas, cadernos de exercícios, livros de ponto, caixa de penas, entre outros. Têm sido localizados também alguns pareceres sobre a compra e a aquisição de cartilhas.

Finalmente, em alguns documentos, há, junto com os pedidos de livros, pistas para se pensar a autonomia/regulação do uso de métodos pelos professores, tanto no que diz respeito a métodos de alfabetização, quanto àqueles mais amplos, referidos a um ideário pedagógico mais geral para as escolas.


5. Algumas reflexões finais
Para finalizar, gostaríamos de ressaltar que os limites e as possibilidades de pesquisa em acervos só se tornam mais claros na medida em que vamos produzindo novos dados e reflexões, que nos levam a problematizar fontes. Daí a necessidade de construir um guia de fontes, tendo em vista a quase inexistência de informações na área.

Também são necessárias investigações integradas que possam se especializar e, ao mesmo tempo, cruzar dados estatísticos com dados sobre legislação, produção e uso de material didático em alfabetização.

As pesquisas comparadas entre estados ou países podem nos levar a interrogar sobre circulações de idéias e a vislumbrar especificidades que cada história local pode indiciar; esse estudo também nos ajuda na produção de novas perguntas, assim como nos dá uma visibilidade quanto às diferenças, semelhanças e apropriações de ideários, em diferentes espaços e tempos históricos.

Por outro lado, estamos apenas mapeando algumas possibilidades de pesquisa no campo. Entre outras facetas, pode-se aprofundar no estudo de materiais auxiliares utilizados para o ensino escolar da leitura e da escrita, para a alfabetização de jovens e adultos, e para a alfabetização doméstica ou religiosa.


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VIDIGAL, Maria Helena de Souza. No mundo das letras. Belo Horizonte: Editora Dimensão. 1993




1 Participam desta pesquisa, em Minas Gerais, os bolsistas Agnaldo Afonso de Sousa e Priscila Maria de Lana.

2 Pesquisa integrada CEALE, apresentada na 21ª Reunião da ANPED/1998, por Frade, Isabel & Silva, Ceres; Evangelista, Aracy & Rocha, Gladys; Gomes, Maria de Fátima & Macedo, Maria do Socorro.

3 Ainda estão sendo catalogados os exemplares da biblioteca do Instituto de Educação de Minas Gerais e o da Fundação Amae.

4 O Acervo do Centro de Referência do Professor/SEE/MG encontra-se na Biblioteca do Professor e no Museu da Escola no referido Centro.

5 Não foram incluídos livros de autoras mineiras, cujas obras foram editadas em outros estados: O Livro de Lili, de Anita Fonseca, editado pela Francisco Alves e, posteriormente, pela Editora do Brasil; Surpresas e mais surpresas: o presente, de Magdala Lisboa Bacha, editado pela Livraria Agir.


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