Ligeiramente perverso



Baixar 1.36 Mb.
Página1/20
Encontro20.07.2016
Tamanho1.36 Mb.
  1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   20




LIGEIRAMENTE PERVERSO
MARY BALOGH
Título original: Slightly Wicked

Disponibilização: Carmem Sanchez

Tradução/Pesquisa: Yuna, Gisa, Mare e Rosie

Revisão: Adma

Revisão Final e Formatação: Danyela

PROJETO REVISORAS TRADUÇÕES


Quarto livro da saga dos Bedwyn. Uma história de amor e paixão com um indescritível segredo.

Algo nos olhos provocadores do cavaleiro, que se aproximou para ajudar

a carruagem de aluguel em um acidente desperta em Judith Law um anseio por aventura. Desde os primeiros momentos, Rannulf Bedwyn foi atraído por esta jovem que se apresentou como Claire Campbell, uma atriz de teatro. Ele também não revela seu verdadeiro nome e posição, que implicam apenas obrigações. Durante dois dias ambos ficam a enganar-se, e não acreditam que voltem a se encontrar. Mas quando o destino os une novamente, eles terão que ocultar perante o mundo o seu maior segredo.


CAPÍTULO 1

Momentos antes do acidente da diligência1, Judith Law estava imersa em uma fantasia que fez desaparecer de um modo muito eficaz a desagradável natureza da realidade que a rodeava.

Viajava em uma diligência pela primeira vez em seus vinte e dois anos de vida. Depois dos primeiros dois ou três quilômetros já se desvanecia qualquer ilusão que jamais tivesse albergado a respeito do romântico e aventureiro que podia chegar a ser esse meio de transporte. Estava apertada entre uma mulher tão volumosa que precisava ao menos um assento e meio a mais e um homem magro e inquieto, todo ossos e cotovelos, que não parava de remexer-se para encontrar uma postura mais cômoda nem de golpeá-la no processo, em ocasiões nos lugares mais embaraçosos. Em frente tinha um homem corpulento que roncava sem cessar, o que supunha um acréscimo considerável a já ruidosa viagem. A mulher que se sentava a seu lado não deixava de contar a triste história de sua vida com voz queixosa a qualquer um que fosse bastante estúpido ou tivesse a desgraça de cruzar o olhar com ela. Do silencioso homem que se sentava do outro lado da mulher chegavam o cheiro da falta de asseio mesclado com um cheiro estragado e cebola. A carruagem agitava, oscilava e se sacudia em cada pedra e cada buraco que encontrava no caminho, ou isso parecia a Judith.

Não obstante, apesar de todos os desconfortos da viagem, não estava impaciente por chegar a seu destino. Acabava de deixar para trás toda uma vida em Beaconsfield, para não mencionar sua família, e não esperava retornar em muito tempo... se é que retornaria. Dirigia-se a casa de sua tia Effingham. A vida que sempre havia conhecido chegou ao fim. Embora não ficasse explícito na carta que sua tia escreveu a seu pai, Judith era perfeitamente consciente de que não ia ser uma hóspede distinta e aprovada em Harewood Grange, e sim uma parenta pobre da qual se esperava que ganhasse sua manutenção da forma em que seus tios, seus primos e sua avó considerassem apropriada. Em poucas palavras: só a esperava monotonia e trabalho árduo... Nada de pretendente, matrimônio, casa ou família própria. Estava a ponto de transformar-se em uma dessas mulheres retraídas e abatidas tão abundantes na sociedade, que dependiam de seus parentes como criadas sem salário.

O convite de tia Effingham fora extraordinariamente amável, segundo palavras de seu pai... embora sua tia, irmã de seu pai, que fez um matrimônio extremamente vantajoso com o endinheirado e viúvo sir George Effingham quando já deixou bem longe a flor de sua juventude, nunca tinha se destacado por sua amabilidade.

E tudo por culpa de Branwell, esse esbanjador que merecia que o fuzilassem e depois o enforcassem, afogassem-no e lhe esquartejassem por suas desconsideradas extravagâncias. Judith não tinha acalentado um só pensamento amável ao seu irmão fazia semanas. Tudo aquilo tinha acontecido porque era a segunda filha, a que não tinha nenhum encargo que fizesse indispensável sua presença em casa. Não era a mais velha; Cassandra era um ano mais velha que ela. Nem muito menos era a beleza da família; sua irmã Pamela ocupava esse lugar. E não era a caçula; Hilary, de dezessete anos, tinha essa duvidosa honra. Judith era a que envergonhava a família por sua falta de delicadeza, a feia, a alegre e a sonhadora.

Foi Judith a quem todos tinham olhado depois que seu pai se sentou no salão e leu alto, a carta de tia Effingham. Seu pai passava por graves apertos econômicos, devia ter escrito a sua irmã para pedir o tipo de ajuda que ela acabava de lhe brindar. Todas sabiam o que isso significava para a escolhida que tivesse que ir a Harewood. Judith tinha se oferecido como voluntária. Todos tinham chorado ao escutá-la e suas irmãs também se ofereceram como voluntárias... mas ela fora a primeira a falar.

Judith tinha passado sua última noite na reitoria inventando deliciosos métodos de tortura para Branwell.

O ceu que se espiava pelas janelas da carruagem era de cor cinza e estava sulcado por umas nuvens baixas e carregadas de chuva; a paisagem tinha um aspecto lúgubre. O hospedeiro dono da pousada na qual pararam fazia uma hora para trocar os cavalos os tinha advertido que mais ao norte tinham caído chuvas torrenciais e que o mais provável era que topassem com elas, assim como com os caminhos cheios de barro; mas o cocheiro se pôs a rir diante da sugestão de permanecer na estalagem até que fosse seguro prosseguir viagem. Entretanto não havia dúvida de que o caminho estava mais lamacento a cada minuto que passava, mesmo que a chuva causadora do lodaçal tivesse cessado no momento.

Judith tinha conseguido afastar tudo de sua mente: o cansativo ressentimento que sentia, a terrível nostalgia de seu lar, o espantoso clima, as incômodas condições da viagem e a desagradável perspectiva que tinha por diante... Em troca sonhava

Acordada, inventando uma imaginária aventura com um herói imaginário em que ela era a insólita heroína. Uma distração em sua mente e seu ânimo deu boas-vindas até um momento antes do acidente.

Estava sonhando com salteadores de estradas. Ou, para ser mais exata, com um salteador de estrada em particular. Por suposição, ele não se parecia com nenhum assaltante real que apreciasse, um desses ladrões depravados, sujos, desonestos e toscos que cortavam o pescoço dos desafortunados viajantes. De jeito nenhum. O salteador era moreno, charmoso, elegante e risonho; com dentes brancos e perfeitos e uns olhos de um brilho alegre atrás dos buracos da estreita máscara negra. Galopou através das verdes pradarias iluminadas pelo sol até o caminho, refreando sem esforço o seu poderoso e magnífico garanhão branco com uma mão enquanto com a outra apontava uma pistola -descarregada, faltaria mais- para o coração do cocheiro. Ria e brincava alegremente com os passageiros enquanto os despojava de seus objetos de valor, embora depois os devolvesse a aquelas pessoas que não podiam se permitir a perda. Não, não devolvia todos os objetos a todos os passageiros, já que não se tratava de um salteador de verdade, mas sim de um cavalheiro que pretendia vingar-se de um vilão ao qual esperava encontrar viajando por esse mesmo caminho.

Era um nobre herói disfarçado de bandido, com uns nervos de aço, um espírito livre, um coração de ouro e uma aparência que provocava palpitações no coração das passageiras; palpitações que nada tinham a ver com o medo.

E em um dado momento desviava o olhar para Judith... todo o universo se detinha e as estrelas começavam a cantar em suas órbitas. Até que, é claro, ele se punha a rir de boa vontade e anunciava que a despojaria do pingente que pendia sobre seu busto, apesar de ser evidente a falta de valor. Não era mais que... algo que sua mãe a deu em seu leito de morte, algo que Judith jurara que jamais tiraria enquanto vivesse. De modo que ela se colocava com valentia diante do salteador, jogava para trás a cabeça e cravava o olhar nesses olhos risonhos sem intimidar-se. Não lhe daria nada, dizia-lhe com uma voz alta e clara que não tremia nem um ápice, ainda que isso lhe causasse a morte.

Ele se punha a rir de novo enquanto seu cavalo se erguia sobre as patas traseiras e se encrespava um pouco antes que o controlasse com facilidade. Nesse caso, se não podia levar o colar sem ela, declarou, o levaria com ela. Aproximou-se com lentidão para Judith, tão grande, ameaçador e esplêndido, e quando estava bastante perto, inclinou-se na sela, agarrou-a pela cintura com suas poderosas mãos -Judith passou por cima do problema da pistola, que momentos antes empunhava em uma mão- e a içou sem esforço algum até a sela de montar.

O estômago deu voltas quando perdeu contato com o chão e de repente, algo a devolveu à realidade. A carruagem perdeu tração no caminho enlameado e deu um brusco giro antes de ziguezaguear e sacudir-se sem controle. Houve tempo suficiente -muito mais que suficiente- para sentir um terror espantoso antes que derrapasse para um lado, colidisse com um montículo de erva, girasse bruscamente para o caminho, cambaleasse com maior intensidade e de uma forma mais alarmante ainda e, afinal, caísse sobre uma vala de pouca profundidade onde por fim ficou imóvel, apoiado pela metade sobre o teto e uma lateral.

Quando Judith recuperou o sentido todos seus companheiros de viagem pareciam estar gritando ou gemendo. Mas ela não formava parte desse grupo; estava mordendo os lábios para evitá-lo. Os seis passageiros do interior, conforme pôde descobrir, estavam amontoados sobre uma lateral da carruagem. Seus xingamentos, gritos e gemidos testemunhavam que a maioria deles, se não todos, estavam vivos. De fora chegavam gritos e os relinchos dos cavalos assustados. Duas vozes, que se escutavam por cima do resto, expressavam-se mediante a mais vulgar e surpreendente das linguagens.

Estava viva, pensou Judith com certa surpresa. Também estava-comprovou a conjetura com cautela- ilesa, embora se sentisse bastante maltratada. De alguma forma, acabou em cima de um monte de corpos. Tentou mover-se, mas nesse preciso instante a porta que havia sobre ela se abriu e alguém, o próprio cocheiro a olhou de cima.

- Me dê sua mão, senhorita - ordenou - A tiraremos rapidamente. Pelo amor de Deus, deixe de dar esses gritos, mulher! -disse à senhora faladora com uma lamento- falta de tato, tendo em conta que ele fora o culpado de tombar a carruagem.

Demorou algo mais de um Pai Nosso, mas ao final todos estavam de pé sobre a erva que cobria a beira da vala ou sentados sobre as bolsas caídas, observando com desespero a carruagem, que obviamente não ia reatar a viagem em um futuro próximo. De fato, era evidente inclusive para os olhos inexperientes de Judith que o veículo sofreu danos consideráveis. Não havia sinal de nenhum assentamento humano a leste no horizonte. As nuvens estavam baixas e ameaçavam descarregar chuva a qualquer momento. O ar era úmido. Era difícil acreditar que fosse verão.

Por algum estranho milagre, inclusive os passageiros que viajavam no exterior da carruagem se livraram de feridas graves, embora dois deles estivessem sujos de barro e essa circunstância não parecia fazê-los muito felizes. Para falar a verdade, os ânimos estavam muito exaltados. As vozes se elevavam e punhos se brandiam. Algumas dessas vozes eram furiosas e exigiam saber por que um cocheiro perito os levara direto para o perigo quando na última parada o aconselharam que esperasse um momento. Outros gritavam com a intenção de que suas sugestões a respeito do que teria que fazer se escutassem por cima da gritaria. E uns terceiros se queixavam dos cortes, machucados e outras feridas pelo aspecto. À mulher queixosa sangrava o pulso.

Judith não emitiu queixa alguma. Tinha escolhido continuar a viagem mesmo quando escutara a advertência e poderia ter esperado uma carruagem posterior. Tampouco tinha sugestão alguma que fazer. E não sofria nenhuma ferida. Somente se sentia desventurada, por isso olhou a seu redor em busca de algo que separasse de sua mente o fato de que estavam parados no meio do nada com uma ameaça de chuva iminente. Começou a ocupar-se daqueles que precisavam, embora a maioria das feridas fosse mais imaginária que reais. Era algo que podia realizar com segurança e certa destreza, posto que frequentemente tivesse acompanhado sua mãe quando visitava os doentes. Enfaixou cortes e contusões utilizando qualquer material que tivesse à mão. Escutou uma e outra vez todas e cada uma das narrações individuais sobre o acidente e murmurou palavras reconfortantes enquanto buscava um assento aos que se sentiam enjoados e abanava os desfalecidos. Em poucos minutos tirou o chapéu, que não deixava de incomodá-la, e o jogara no interior da carruagem caída. Estava-lhe soltando o cabelo, mas não se deteve para tentar recompor seu penteado. A maior parte das pessoas, descobriu, tinha um horrível comportamento durante as crises, embora aquela não fosse nem de perto tão desastrosa como poderia ter sido.

Não obstante, estava tão desanimada como os outros. Isto, pensou, era a gota que enchia o copo. Era impossível que sua vida pudesse ser mais deprimente. Havia tocado fundo. Em certo sentido inclusive era um pensamento reconfortante. Era pouco, provável que as coisas pudessem ficar pior. Somente melhor... ou fazia um eterno prosseguimento do mesmo.

- Como é que está tão alegre, querida? - perguntou a mulher que ocupou espaço e meio.

Judith sorriu.

- Estou viva - respondeu, - e você também. Há algo pelo qual não devesse estar alegre?

- Me ocorrem um par de coisas, na verdade - comentou a mulher.

Mas nesse momento as distraiu o grito de alguns passageiros viajavam nos assentos exteriores e que assinalava longe, em direção ao caminho pelo qual chegaram minutos antes. Aproximava-se um cavaleiro, só um homem a cavalo. Alguns dos passageiros começaram a chamá-lo, apesar de que o tipo estava ainda muito longe para escutá-los. Estavam tão entusiasmados como se um salvador sobre-humano se preparasse para resgatá-los. Judith não conseguia imaginar o que teriam pensado que podia fazer um só homem para melhorar a penosa situação em que se encontravam. Sem dúvida, eles tampouco saberiam dizer no caso de que perguntasse.

Dirigiu sua atenção de volta a um dos desafortunados cavalheiros encharcados, que entre caretas de dor estava limpando com um lenço cheio de barro o sangue de um arranhão no rosto. Possivelmente, pensou ela bem a tempo de reprimir uma sonora gargalhada, o desconhecido que se aproximava fosse o salteador moreno, alto, cavalheiresco e risonho de suas fantasias. Ou possivelmente fosse um bandido de verdade que vinha roubá-los, indefesos como estavam, todos seus pertences de valor. Possivelmente as coisas sim pudessem piorar depois de tudo.

Embora se tratasse de uma viagem longa, lorde Rannulf Bedwyn ia no lombo de seu cavalo; evitava viajar de carruagem sempre que era possível. O veículo que transportava tanto sua bagagem como seu valete, rodava por algum lugar do caminho atrás dele. Seu criado, uma alma tímida e precavida, com bom senso teria decidido deter-se na estalagem que deixou atrás fazia coisa de uma hora, depois de ser advertido da ameaça de chuva por um hospedeiro decidido a fazer negócio.

Devia ter caído um bom toró nessa parte do condado não fazia muito tempo. Inclusive nesse momento parecia que as nuvens estivessem contendo o fôlego antes de liberar outra descarga de água. O caminho estava cada vez mais molhado e enlameado, e nesse instante parecia um resplandecente lodaçal de lama revolta. Poderia ter retornado, supôs. Mas ia contra sua natureza abaixar as orelhas e fugir de um desafio, fosse humano ou de qualquer outra classe. Entretanto, teria que deter-se na seguinte estalagem que encontrasse. Talvez não lhe importassem os perigos que pudesse correr sua pessoa, mas devia mostrar consideração com seu cavalo.

Não tinha nenhuma pressa por chegar a Grandmaison Park. Sua avó o convocou, como fazia em algumas ocasiões, e ele a estava agradando, tal como estava acostumado a fazer. Amava-a muito, independente do fato de que alguns anos atrás o tivesse nomeado herdeiro de todas as propriedades e a fortuna que não estavam ligadas ao título que ela possuía, a despeito de ter dois irmãos mais velhos e um mais novo... sem contar suas duas irmãs, é óbvio. O motivo de sua falta de pressa era que, uma vez mais, sua avó anunciou que descobriu uma noiva adequada para ele. Tirar da anciã a impressão de que podia organizar sua vida sempre requeria uma combinação de tato, humor e firmeza. Não tinha intenção alguma de casar logo. Só tinha vinte e oito anos. E quando se casasse - se é que o faria-, Por Deus que seria ele quem escolheria sua noiva, ainda que não fosse o primeiro da família a cair nas redes do matrimônio. Aidan, um de seus irmãos mais velho, sucumbira e se casou em segredo poucas semanas atrás a fim de cumprir uma dívida de honra com o irmão da dama, um oficial com o qual serviu na Península. Por algum estranho milagre, o apressado matrimônio de conveniência parecia haver-se convertido em uma união por amor. Rannulf conhecera Eve, agora lady Aidan, fazia apenas dois dias. De fato, empreendeu a viagem de sua casa nessa mesma manhã. Aidan vendera seu cargo no exército e estava se adaptando à vida de um cavalheiro rural com sua esposa e seus dois filhos adotivos, o estúpido apaixonado. Mas a Rannulf caíra bem sua cunhada.

Para falar a verdade, era um alívio saber que se tratava de um matrimônio por amor. Os Bedwyn tinham a reputação de ser desmedidos, arrogantes e inclusive frios. Entretanto, também havia uma tradição familiar que os obrigava a permanecerem escrupulosamente fiéis as suas esposas uma vez casados.

Rannulf não podia imaginar-se amando uma só mulher durante o resto de sua vida. A idéia de permanecer fiel durante toda a vida era deprimente ao extremo. Só esperava que sua avó não tivesse comentado nada sobre o matrimônio em amadurecimento à dama em questão. O fez em uma ocasião e havia lhe custado muito convencer à mulher -sem que parecesse que o fazia, é óbvio- de que na realidade ela não queria casar-se com ele.

Perdeu o fio de seus pensamentos de repente quando apareceu diante dele uma mancha negra mais escura que as cercas e o barro imperantes. A princípio acreditou que se tratava de um edifício, mas à medida que se aproximava se deu conta de que era um grupo de pessoas e uma enorme diligência. Um veículo tombado, compreendeu imediatamente, com um eixo quebrado. Os cavalos se encontravam no caminho, igual a algumas pessoas. A maioria, não obstante, amontoava-se sobre a grama em frente à carruagem caída, a fim de manter os pés afastados do barro. Muitos gritavam e faziam gestos com as mãos, como se esperassem que desmontasse, apoiasse o ombro contra o veículo desconjuntado, voltasse a colocá-lo no caminho e reparasse o eixo por arte de magia antes de colocá-los todos no interior uma vez mais e pô-los a caminho para o proverbial entardecer.

Teria sido uma grosseria, certamente, passar ao largo pelo mero feito de não poder lhes oferecer nenhum tipo de ajuda prática. Puxou as rédeas ao chegar junto ao grupo e esboçou um sorriso quando todos tentaram falar ao mesmo tempo. Levantou uma mão para detê-los e perguntou se havia algum ferido com gravidade. Ao que parecia não havia.

- Nesse caso, o melhor que posso fazer por vocês - disse quando a gritaria sossegou de novo - é cavalgar tão rápido quanto possa e lhes enviar ajuda da aldeia ou povoado que se encontre mais perto.

- Há um povoado com mercado uns cinco quilômetros mais adiante, senhor - disse o cocheiro enquanto assinalava o caminho com um dedo.

Um cocheiro particularmente inepto, julgou Rannulf, já que perdeu por completo o controle de sua carruagem em um caminho lamacento e nem sequer teve a ocorrência de mandar a um lacaio com um dos cavalos em busca de assistência. Claro que o homem mostrava sinais inequívocos de haver-se fortalecido contra a umidade e o frio com o conteúdo da garrafa que se via através de um buraco no bolso de seu casaco.

Um dos passageiros, uma mulher, não se unira as boas-vindas que lhe devotaram os outros. Inclinava-se sobre um cavalheiro coberto de barro que estava sentado em uma caixa de madeira, e pressionava algum tipo de atadura improvisada sobre seu rosto. O homem tirou a atadura enquanto Rannulf os contemplava e a mulher se endireitou e se virou para olhá-lo.

Era jovem e alta. Ia vestida com uma capa verde um pouco molhada e ligeiramente enlameada na prega. A capa se abriu à frente para deixar descoberto um ligeiro vestido de musselina e um busto que imediatamente elevou em dois graus a temperatura corporal de Rannulf. Levava a cabeça descoberta. O cabelo desordenado lhe caía parcialmente sobre os ombros. Era de um glorioso e brilhante tom dourado avermelhado que ele jamais contemplou antes em um ser humano. O rosto que havia mais abaixo era oval, de faces rosadas e olhos brilhantes -os olhos eram verdes, acreditava- e para sua surpresa, adoráveis. Devolveu-lhe o olhar com aparente desdém. O que esperava essa moça que fizesse? Saltar ao barro e fazer-se de herói?

Dirigiu-lhe um sorriso lânguido e começou a falar sem afastar muito o olhar dela.

- Suponho – disse - que poderia levar uma pessoa comigo. Uma dama? Senhora, lhe parece bem?

As demais passageiras não demoraram a dizer o que pensavam, tanto de sua oferta como de sua escolha, mas Rannulf não fez conta. A beleza ruiva voltou a olhá-lo e ele chegou a pensar que declinaria a proposta a julgar pelo desprezo que refletia seu rosto. Não tinha dúvida de qual seria sua resposta quando um de seus companheiros de viagem, um indivíduo magro como um junco e com um nariz bicudo que bem poderia tratar-se de um clérigo, deu sua opinião sem que ninguém a pedisse.

- Rameira! - exclamou o homem.

- Ouça - disse outra das passageiras, uma mulher alta e gorda com as faces vermelhas como tomates e um nariz mais tinto ainda, - cuidado a quem chama rameira, meu senhor. Não acha que não me dei conta de como a olhou durante toda a viagem... porque sim me dei conta, velho lascivo... remexendo-se a todo o momento em seu assento para poder manuseá-la sem que o notasse. E isso porque levava um livro de orações na mão e to… Deveria ter vergonha! Vá com ele, querida. Eu o faria se me pedisse isso, embora não o fará porque sabe que partiria o lombo do cavalo dele.

A ruiva sorriu a Rannulf nesse instante, um sorriso que cresceu com lentidão juntamente com o rubor de seu rosto. - Será um prazer, senhor - disse ela com um tom de voz quente e rouco que percorreu as costas de Rannulf como uma luva de veludo.

Cavalgou até a beira do caminho, para ela.

Não se parecia em nada ao salteador de estradas de suas fantasias. Não era sutil, nem moreno, nem elegante nem usava máscara; e embora sorrisse, sua expressão era mais irônica que despreocupada.

Esse homem era maciço. Não gordo, e sim... maciço. O cabelo que se apreciava sob seu chapéu era loiro. Parecia ondulado e sem dúvida o usava mais comprido do que ditava a moda. Seu rosto era de tez morena, com sobrancelhas escuras e um nariz grande. Os olhos eram azuis. Não era charmoso absolutamente. Mas tinha algo. Algo irresistível. Algo inegavelmente atraente... embora essa palavra não fosse bastante forte.

Algo ligeiramente perverso.

Esses foram os primeiros pensamentos que atravessaram a mente de Judith quando o olhou. E estava claro que não era um salteador, e sim um simples viajante que se ofereceu a ir em busca de ajuda e a levar alguém consigo.

Ela.

Seu segundo pensamento foi de espanto, indignação e afronta. Como se atrevia? Por quem a tomou para esperar que ela se mostrasse de acordo em subir em um cavalo com um desconhecido e partir sozinha com ele? Era a filha do reverendo Jeremiah Law, cujas expectativas sobre o rígido decoro e a moralidade de seus fiéis só se viam superadas pelo que esperava de suas próprias filhas... sobretudo dela.



Seu terceiro pensamento foi que a pouca distância -o cocheiro havia dito cinco quilômetros- havia um povoado e a comodidade de uma estalagem, que talvez pudessem alcançar antes que caísse um toró. Se aceitasse a oferta do desconhecido, claro.

E então recordou uma vez mais sua fantasia; a absurda e encantadora fantasia a respeito de um audaz salteador que estivera a ponto de levá-la para uma estranha e fabulosa aventura, liberando-a assim de todas as obrigações para com sua família e seu passado, liberando-a de tia Effingham e da deprimente existência de trabalho duro que a esperava em Harewood. Um sonho que se fez em pedacinhos quando a carruagem tombou.

Esse momento lhe oferecia a oportunidade de experimentar uma aventura de verdade, por pequena que fosse. Durante cinco quilômetros e possivelmente um pouco mais de uma hora poderia cavalgar diante desse atraente desconhecido. Poderia fazer algo tão escandaloso e impróprio como abandonar a segurança e o decoro que oferecia a multidão para estar a sós com um cavalheiro. Se seu pai chegasse a saber, dar-lhe-ia uma Bíblia e a encerraria a pão e água em seu quarto durante uma semana; e tia Effingham bem poderia decidir que nem sequer um mês seria suficiente. Mas quem ia saber? Como poderia sair prejudicada?

Foi nesse instante quando o homem esquelético a tinha chamado de rameira.

Por estranho que pudesse parecer, não se sentiu indignada. A acusação lhe pareceu tão absurda que esteve a ponto de tornar a rir. Embora fosse como um desafio para ela. E a mulher gorda a estava animando. Poderia chegar a ser tão patética para afastar uma oportunidade das que só se apresentam uma vez na vida? Esboçou um sorriso.

- Será um prazer, senhor - disse e descobriu com certa surpresa que não utilizou sua própria voz, e sim a da mulher de suas fantasias, a que se atrevia a fazer coisas como aquela.

Ele aproximou o cavalo até ela sem deixar de olhá-la nos olhos e se inclinou na sela.

- Nesse caso me dê à mão e apóie o pé em minha bota - foram suas instruções.

Judith o fez e a partir desse momento foi muito tarde para mudar de idéia. Com uma facilidade e uma força que em lugar de assustá-la a deixou sem fôlego, o homem a levantou, a fez girar e, sem que se desse conta, abandonou o chão e acabou sentada de lado diante dele, envolvida entre seus braços que ofereciam uma enganosa sensação de segurança. Havia muito ruído a seu redor. Algumas pessoas se puseram a rir e a animavam, enquanto que outras protestavam por ficar para trás e suplicavam ao desconhecido que se apressasse em enviar a ajuda necessária antes que começasse a chover.

- Alguma dessas bolsas de viagem é sua, senhora? - perguntou o desconhecido.

- Essa aí - respondeu ela enquanto assinalava com o dedo - Ah, e a bolsa de mão que está ao lado. - Ainda que só contivesse a pequena quantidade de dinheiro da qual seu pai pudera desprender-se para que tomasse uma xícara de chá e possivelmente um pouco de pão e manteiga durante a longa viajem, horrorizava-lhe ter estado a ponto de esqueça-la.

- Você, jogue-me isso - disse o cavaleiro ao cocheiro - A bolsa de viagem da dama pode esperar, a recolherão com as demais mais tarde.

Assim que Judith agarrou a bolsa de mão, o homem aproximou o chicote à aba de seu chapéu e incitou seu cavalo para que se pusesse em marcha. Ela se pôs a rir. A patética e pequena grande aventura de sua vida começara e desejou que esses cinco quilômetros durassem eternamente.

Durante uns momentos a preocupou o fato de encontrar-se tão longe do chão no lombo de um cavalo - nunca fora muito boa amazona-, para não mencionar que o chão se transformou em um oceano de barro. Entretanto, não levou muito tempo a dar-se conta de quão íntima era essa postura. Sentia a calidez do corpo do desconhecido em todo o lado esquerdo. Suas pernas - que pareciam muito musculosas cobertas com as calças de montar ajustados e as flexíveis botas de cano longo - rodeavam-na por um e outro lado. Judith tinha os joelhos apertados contra uma dessas pernas e notava que a outra lhe roçava as nádegas. Percebia o aroma do cavalo, do couro e da colônia masculina. Os perigos da viagem empalideceram ao lado dessas outras sensações, totalmente desconhecidas.

Estremeceu.

- Está bastante fresco para um dia de verão - afirmou o cavaleiro, que a rodeou com um braço e a inclinou para o lado, de modo que seu ombro e seu braço estivessem apertados com firmeza contra o peito masculino; a Judith não restou nada mais que apoiar a cabeça sobre seu ombro.

Era mais que escandaloso... e sem dúvida emocionante.

Também a fez recordar de repente que não pusera o chapéu e não era só isso: com uma rápida olhada de esguelha descobriu que ao menos uma parte de seu cabelo estava solta e caía em desordem sobre seus ombros.

Que aparência teria? O que pensaria dela?

- Ralf Bed... Bedard ao seu serviço, senhora - disse.

Como poderia ela apresentar-se como Judith Law? Não estava se comportando absolutamente tal e como a ensinaram.

Talvez devesse fingir ser alguém muito diferente... uma pessoa inventada.

- Claire Campbell - disse ela, juntando os dois primeiros nomes que lhe vieram à cabeça - Como está você, senhor Bedard?

- No momento, extremamente bem - afirmou ele com voz rouca e ambos puseram-se a rir.

Estava flertando com ela, pensou. Que escandaloso! Seu pai teria desalentado semelhante impertinência com algumas palavras mordazes... e depois a teria castigado por fanfarronar diante dele. E desta vez teria tido razão. Mas não estava disposta a arruinar sua preciosa aventura pensando em seu pai.

- Aonde se dirige? - perguntou o senhor Bedard. - E por favor, não me diga que há um marido esperando em alguma parte onde você desça da carruagem. Ou um noivo.

- Nenhuma das duas coisas - respondeu ela, que se pôs a rir sem outro motivo que não fosse o alegre que se sentia. Ia desfrutar de sua pequena aventura até o último momento. Não pensava desperdiçar tempo, energia nem oportunidades em sentir-se escandalizada. - Estou solteira e sem compromisso... como desejo estar - mentirosa. Senhor, que mentirosa.

- Você acaba de me devolver à alma - assegurou ele - nesse caso, quem a espera ao final da viagem? Sua família?

Judith deu de ombros para si mesma. Não queria pensar no final da viagem. Entretanto, o bom das aventuras consistia em que não eram reais nem duravam muito. Durante o que restava desse estranho e breve interlúdio poderia dizer e fazer - e ser - o que desse vontade. Era como viver um sonho e estar acordada ao mesmo tempo.

- Não tenho família - disse - Ao menos nenhuma diante da qual deva responder. Sou atriz. Dirijo-me a York para representar uma nova obra. Um papel principal.

Pobre papai, pensou. Dar-lhe-ia uma apoplexia. Não obstante, esse sempre fora seu sonho mais persistente e desatinado.

- Uma atriz? - inquiriu ele junto a seu ouvido com voz grave e rouca - Devia imaginar assim que pus os olhos sobre você. Uma beleza tão vibrante brilhará sobre qualquer cenário. Por que não a vi alguma vez em Londres? Será porque raras vezes vou ao teatro? Está claro que terei que me emendar.

- Londres... - disse ela com despreocupado desdém - eu gosto de atuar, senhor Bedard, não que me devorem com os olhos. Eu gosto de escolher as obras nas que vou participar. Prefiro os teatros de província. Neles sou muito conhecida, acho.

Deu-se conta de que ainda falava com essa voz que usou junto à estrada. E por incrível que parecesse, ele acreditou em sua história. Era evidente por suas palavras e pela expressão que seus olhos refletiam: alegre, apreciativa e eloquente. Branwell, quando começou as aulas na universidade e começou a conhecer o mundo, havia dito uma vez a suas irmãs - na ausência de seu pai - que as atrizes de Londres quase sempre incrementavam seus honorários convertendo-se nas amantes de algum tipo rico e com título. Judith sabia que se movia em águas perigosas. Mas seria só durante cinco quilômetros; só durante uma hora.

- Eu adoraria vê-la sobre o palco - disse o senhor Bedard, que a estreitou com mais força e lhe ergueu o queixo com o dorso enluvado de seus dedos. Beijou-a. Na boca.

Não durou muito. Antes de tudo se encontrava a cavalo em um caminho perigoso com uma acompanhante que entorpecia seus movimentos e os do animal. Não podia permitir a distração que suporia um abraço mais longo.

Entretanto, durou o suficiente. O bastante para uma mulher a quem nunca beijaram. Ele tinha os lábios separados e Judith pôde perceber a umidade de sua boca. Uns segundos, ou possivelmente não mais de uma fração de segundo, antes que seu cérebro registrasse a atrocidade que estava cometendo, todo seu corpo reagiu. Sentiu um formigamento nos lábios que se estendeu até a boca, a garganta e o nariz. Sentiu que lhe endureciam os mamilos e que um doloroso desejo se pulverizava por seu abdômen, seu ventre e a parte interna das coxas.

- Oh - disse quando terminou.

Entretanto, antes de chegar a expressar a indignação que sentia por semelhante insolência, recordou que era Claire Campbell, a famosa atriz de províncias, e que se esperava que as atrizes, mesmo quando não eram as amantes de algum tipo rico e com título, soubessem um par de coisas a respeito da vida. Olhou seus olhos e lhe dedicou um sorriso sonhador.

Por que não? Pensou de forma temerária. Por que não viver sua fantasia enquanto durasse aquele breve feitiço e descobrir aonde a conduzia? Depois de tudo, esse primeiro beijo também seria possivelmente o último.

O senhor Bedard lhe devolveu o sorriso com um olhar lânguido e zombador.

- Eu não teria expressado melhor - disse.


  1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   20


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal