Linguagem – As práticas discursivas como locus de investigação



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Linguagem – As práticas discursivas como locus de investigação

Language – Discourse practices as locus of investigation


Relações indivíduo e cultura no campo da psicologia e antropologia

Maria Cristina Soares de Gouvêa, Universidade Federal de Minas Gerais, Brasil



O selvagem está num período rudimentar de mentalidade em que a relação entre as coisas é mística, é metafísica, é pré lógica (e não antilógica) diz Levi Bruhl, cuja filosofia (1910) esclarece esses assuntos. Jean Piaget renova a psicologia infantil, seguindo-lhe as pegadas, estudando o pensamento simbólico, do primitivo infantil, pré-lógico.
Este extrato de texto, retirado de um dos mais importantes manuais de história da educação brasileira é elucidativo de uma imagem que se fez presente com centralidade no pensamento social do início do século XX. Imagem que teve ecos duradouros em distintos campos de conhecimento e práticas sociais diferenciadas, como nas práticas educativas.
Ao refletirmos sobre a relação educação e etnia, é fundamental analisar como na produção científica, o pensamento sobre a diferença entre as raças foi historicamente compreendido, a partir da equação primitivo/civilizado. Iremos aqui centrar a análise, inicialmente, nas formulações que, ao buscar compreender as diferenças raciais e culturais na segunda metade do século XIX, associavam a lógica dita primitiva à menoridade do pensamento infantil. Por outro lado, procuraremos compreender de que maneira os modelos construídos no início do século XX pela psicologia para compreender o pensamento da criança também são tributários da mesma equação.
Trataremos, portanto, de abordar as origens de tal concepção na ciência sócio-antropológica do século XIX, perseguindo as suas marcas no pensamento psicológico, na construção do ideário educacional e nas práticas pedagógicas pertinentes.

Paradigmas na tentativa de apreensão do outro
De forma a melhor compreender a associação entre o primitivo e a criança cabe-nos historicizá-la na construção do campo científico. É importante afirmar que tal representação, que atravessa a produção científica desde o século XVII assume diferentes significações ao longo deste período e distintas conformações de acordo com as diferentes áreas d econhecimento.
A idéia do selvagem ou primitivo povoa o imaginário europeu ao longo dos últimos cinco séculos. A alteridade humana busca ser compreendida pelos povos ditos civilizados de acordo com diferentes representações que buscam dar-lhe legibilidade. Quer seja atribuindo às demais raças uma inferioridade constitutiva que as aproximaria das outras espécies animais, quer reduzindo-as a uma escala evolutiva em que o homem branco europeu ocuparia o topo de uma escala na qual os povos indígenas e africanos situariam-se no primeiro patamar, quer associando o selvagem a uma pureza próxima da natureza da qual os povos civilizados teriam se distanciado. Neste contexto, as representações das diferenças raciais são mitificadas por uma lógica etnocêntrica que, em última instância, visam à legitimação das políticas colonialistas dos séculos XVII a XX.
Tais formulações irão justificar práticas de extermínio, escravidão ou de imposição de uma lógica e moral “civilizadas” aos povos ditos bárbaros ao longo dos últimos cinco séculos. Ao mesmo tempo, a idéia da diferença, da alteridade irá povoar as produções simbólicas ocidentais, confirmando o temor e o fascínio perante o estranho, o primitivo, o exótico.
A ciência irá se ocupar, caracteristicamente a partir do século XIX do estudo das diferentes raças e culturas, marcando o início da antropologia. Antropologia que irá se firmar no diálogo com a sociologia, a história e a biologia, forjando no campo das ciências sociais a teoria evolucionista.
Uma primeira vertente de compreensão das diferenças raciais desenvolvida principalmente ao longo do século XVIII irá associar as demais raças a um estágio intermediário entre as outras espécies e o homem branco, tomado como sinônimo de humanidade. Um dos grandes debates do período é se a espécie humana teria uma raiz genética única (monogenismo) ou diferenciada (poligenismo). Fundado numa biologia ainda em construção, o conceito de raça é identificado com o de espécie, como se biologicamente a espécie humana não fosse una, mas tivesse origens genéticas diversas. Tal debate é superado na primeira metade do século XIX quando uma perspectiva monogenista se impõe. A espécie humana seria única geneticamente, mas com distintos patamares de desenvolvimento.
Com o franco desenvolvimento da biologia na segunda metade do século XIX, a partir da divulgação da teoria da evolução das espécies a partir da seleção natural de Darwin, as ciências sociais irão fundamentar suas formulações no campo das teorias raciais no paradigma evolucionista da biologia. Haveria uma inferioridade nos povos ditos primitivos reputada à natureza, que imporia suas leis à cultura. O evolucionismo assume aí uma inscrição social. A compreensão da alteridade na teoria evolucionista do século XIX significará, inicialmente, a transposição de conceitos biológicos para compreensão da vida social.
Segundo a perspectiva evolucionista os povos europeus estariam num estágio superior de desenvolvimento não apenas tecnológico, mas cultural. No dizer de TYLOR: “ por um lado, a uniformidade que tão largamente permeia entre as civilizações pode ser atribuída, em grande parte, a uma uniformidade de ação de causas uniformes, enquanto, por outro lado, seus vários graus podem ser considerados como estágios do desenvolvimento ou evolução” ( idem, ibiden,p. 30). O processo civilizatório levado a cabo pelos sistemas imperiais seria a possibilidade de evolução de outras raças e povos. Seria o contato sistemático com a cultura européia que permitiria a superação de um atraso ancestral.
Tal pensamento irá encontrar fortes ecos no Brasil. O fenômeno da miscigenação, característico de nossa composição étnica irá constituir entrave ao desenvolvimento, no pensamento sócio antropológico brasileiro, das teorias fundadas na diferenciação genética. Se descendemos de povos genética e constitutivamente inferiores, ao Brasil seria impossibilitada uma equiparação, mesmo que em termos futuros, com nações européias civilizadas. Se, ao contrário, temos uma raiz genética comum, a misicigenação iria paulatinamente aprimorando a raça, levando a um embranquecimento da população. Na medida que a raça branca seria superior seus padrões civilizados iriam se impor às demais raças, num quadro evolutivo.
Uma outra vertente, ao buscar estabelecer uma análise comparativa entre os diferentes povos e raças irá relacionar, não as distintas culturas , mas indivíduos. A comparação aí se dará entre o selvagem, origem do homem civilizado e a criança, gênese do adulto ocidental.
Tal perspectiva comparativa, segundo Jahoda (1999) no século XVIII será inicialmente positivada no pensamento europeu. A identificação do selvagem com a natureza, supostamente pura, livre dos malefícios da civilização irá associar-se à idéia de que a criança, ainda não exposta aos perigos da sociedade e, portanto, também aproximada de uma ética não civilizada, ditada pela natureza. O pensamento iluminista e caracteristicamente Rousseau e Montesquieu serão os representantes desta visão ao associar a criança ao primitivo e à natureza em oposição ao adulto civilizado, corrompido pela sociedade. Se, nesta visão, tal associação será positivada, ao longo do século XIX será ressignificada.
No dizer de Jahoda, duas matrizes irão marcar, no pensamento científico dos oitocentos a associação entre a criança e o primitivo: uma primeira, fundada no evolucionismo social de Spencer e a segunda fundada nas leis da biologia desenvolvida principalmente por Haeckel.
É neste contexto que formula-se na ciência sócio-antropológica nascente o método comparativo, tomado como ferrramenta de análise e compreensão das diferenças sócio culturais. O método comparativo fundava-se na identificação das similariedades nas instituições e artefatos em diferentes tempos e espaços. Spencer irá comparar não apenas culturas e raças diferenciadas, mas atribuirá á criança e ao selvagem características cognitivas semelhantes, como dificuldade de abstração e utilização de um léxico restrito para nomear uma pluralidade de fenômenos, ao mesmo tempo que uma afetividade marcada pela impulsividade .
Mas será LUBBOCK quem irá dar forma mais acabada à associação entre a criança e os povos primitivos, tendo suas obras enorme repercussão à época. Segundo este autor:
“ Savages may be likened to children, and comparison is not only correct, but also highly instrutive...in fact, we may fairly sum up this part of the question in a few words by saying, as the most general conclusion which can be arrived at, that savages have the caracter of children with the passions and strength of men” (1863: p. 562-565 apud JAHODA 1999: p. 137)
Por sua vez, a matriz biológica fundava-se numa associação embriológica para analisar a relação entre o primitivo e a criança. Haeckel formulou a chamada lei biológica, que seria segundo suas palavras: “ a lei fundamental da evolução orgânica” (1870).:
“ This generally law... may be briefly expressed in this phrase: “ the history of the foetus is a recapitulation of the history of the race; or in other words, “ ontogeny is a recapitulation of phylogeny. It may be more fully stated as follows: the series of forms through which the individual organism passes during its development from the ovum to the complete bodily structure is a brief, condensed repetition of the long series of forms which the animal ancestors of the said organism, of the ancestral forms of the species, have passed through from the earliest period of organic life down to the present day” ( HAECKEL, [1870] 1905, vol. 1, p. 5 apud JAHODA, 1999:p. 153)
Embora a lei biológica referir-se originariamente aos domínios da embriologia, sua idéia geral foi estendida a análise das diferenças raciais, no interior da matriz evolucionista social. Haveria um desenvolvimento unilinear marcado por uma série de estágios que culminariam na civilização ocidental. Os indivíduos, no interior de cada raça teriam seu desenvolvimento definido a partir do grau alcançado por esta.

No campo da psicologia tal perspectiva foi fundante na construção desta ciência, sendo referida como teoria da recapitulação. Assim é que, ainda no século XIX, Stuart Hall vai buscar compreender o processo de desenvolvimento individual a partir de tal referencial, ao fundar o movimento de estudos sobre a criança. Hall busca fomentar a psicologia genética nascente formulando as leis de desenvolvimento, da infância até a adolescência, comprendidas como estágios que recapitulariam a evolução da espécie.


Se o diálogo dar-se a no século XIX com a biologia, nas primeiras décadas do século XX a teoria da recapitulação será ressignificada na interlocução com a antropologia, ainda marcada pela teoria evolucionista. Mais caracteristicamente a psicologia genética irá articular-se no diálogo com Levi Bruhl, antropólogo cujas concepções sobre a mentalidade dos povos primitivos terá enorme repercussão à época.

O diálogo entre a antropologia e a psicologia
No século XX os campos de produção científica irão progressivamente se especializando. A psicologia se afirma como campo de investigação sobre o indivíduo, de acordo com os diferentes paradigmas para sua apreensão. Mais exatamente a psicologia genética irá investigar a infância de maneira a compreender o psiquismo adulto.
Nas primeiras décadas do século XX, o diálogo entre a antropologia, ainda de base evolucionista, e a psicologia genética, se intensificará. O método comparativo é ressignificado pela psicologia, na busca de referenciais para construção das leis psicológicas universais, de maneira a analisar comparativamente a lógica infantil e a adulta. Observa-se, no entanto, uma enorme diferenciação e um deslocamento teórico na análise do pensamento infantil, a partir das pesquisas desenvolvidas por Piaget, Vygotsky e Wallon1. Estes autores buscam investigar a lógica infantil na sua alteridade, avaliando-a não a partir da lógica adulta, como presente em Hall, mas buscando compreender seus mecanismos característicos.
Mas em suas análises fica presente a questão da universalidade das estruturas cognitivas, que encontra resposta claramente diferenciada em Piaget e Vygotsky. Ambos, no entanto, irão dialogar com a produção antropológica da época e claramente Lévi Bruhl.
Para melhor compreender tal diálogo, na análise das formulações assumidas sobre a relação primitivo/ criança em tais obras, cabe apresentar o pensamento de Lévi Bruhl, tão referido e, ao mesmo tempo, pouco estudado no campo a antropologia.

O modelo de Lévi Bruhl
Do ponto de vista teórico, a sua problemática é a mesma da antropologia como um todo: trata-se de articular o postulado da unidade humana com o fato da diversidade cultural. De acordo com Goldman (1994), Lévy-Bruhl teve duas possiblidades para o desenvolvimento de um pensamento original e próprio. O primeiro caminho seria colocado pela necessidade de dar à questão da moral um tratamento científico, afastando-se das concepções dominantes de “natureza humana”2. Este esforço exigiria a formulação de uma psicologia de base sociológica e etnográfica que pudesse se converter numa verdadeira antropologia científica. Por outro lado, o autor pretendia analisar o espírito humano a partir de uma ótica distinta da perspectiva adotada pelo introspeccionismo filosófico tradicional. As razões metodológicas para a realização deste empreendimento teórico estavam na necessidade de levar em conta o caráter sociológico das chamadas “funções mentais superiores”. A questão colocada para Lévy-Bruhl pode ser resumida nos seguintes termos: como construir uma psicologia objetiva que leve em consideração, ao mesmo tempo, as representações e os sentimentos, que não separe o indivíduo do meio social em que vive?
A resposta para esta questão exigia tomar como objeto de análise os fenômenos que acontecem, de forma pura, “nesses verdadeiros laboratórios” naturalmente oferecidos pelas sociedades primitivas”. A proposta desta ciência objetiva do psiquismo humano era estabelecer os princípios diretores da “mentalidade primitiva”, ou seja, determinar as leis mais gerais a que obedecem as representações coletivas nas “sociedades inferiores”, para poder explicar, por diferenciação, o funcionamento de nossas próprias categorias e os nossos princípios lógicos de apreensão da realidade3.
Seriam os modos de compreensão dos povos primitivos idênticos aos modos de apreensão da realidade, características das sociedades modernas ocidentais?
O interesse e a maior contradição das construções teóricas do antropólogo francês está no cerne de suas formulações a respeito do pensamento dito “primitivo
O que fica evidente é que o pensamento deste autor caracteriza-se por uma tensão entre uma concepção etnocêntrica e evolucionista, característica de todo o pensamento antropológico de seu tempo, com a busca de compreender o outro a partir de novos referenciais
É importante ressaltar que o autor afasta-se das idéias, também dominantes em seu tempo, de que os povos “ditos primitivos” não teriam à sua disposição o mesmo aparato orgânico, as mesmas habilidades perceptuais, as mesmas características anatômicas e funcionais dos povos europeus civilizados. Neste campo, a aplicação direta da teoria da evolução sugeria uma série de desvantagens para os povos cujas raças eram diferentes e para sociedades que não dominavam a escrita, como a maioria dos grupos de sociedades tradicionais estudados.
Apesar de estar implícito no conceito de prelogismo a idéia de que os povos primitivos não seriam capazes de funcionar de acordo com os princípios da lógica ocidental, Lévy-Bruhl sustenta que este pensamento só é pré-lógico no sentido de que ele não teria sofrido o tratamento dado pelo indivíduo, porque, nas sociedades “ditas primitivas” a ordem coletiva impõe-se ao indivíduo, sem oferecer a ele condições de reflexividade. Neste contexto, as representações coletivas seriam “concretas, emocionais, vividas, sentidas, sintéticas, presas às imagens, em outras palavras, irracionais”4.
Por outro lado, haveria um predomínio da “ordem de indivíduo” nas sociedades diferenciadas ocidentais européias, que compartilhariam, por oposição, representações “abstratas, racionais, analíticas e conceituais”5. O que explica esta dicotomia é a construção de uma oposição entre a noção de “indivíduo” e de “coletivo”, que o mesmo autor pretendia superar. Submetidas ao tratamento do indivíduo, que seria, por definição, racional, as representações coletivas ganhariam outros contornos e superariam o seu caráter concreto e emocional que as definiria nas sociedades tradicionais.

O diálogo da psicologia com Levi Bruhl
Imersos num ambiente intelectual marcado pela idéia de evolução e de progresso, estes conceitos serão traduzidos, por um lado, como suportes para definir processos evolutivos do pensamento do homem. Por outro lado, serão apreendidos pela psicologia naquilo que interessam como suporte para a descrição de processos evolutivos individuais, e, no caso de Vygotsky, dos processos sócio-históricos. Neste sentido, o pensamento pré-lógico irá preceder evolutiva e temporalmente o pensamento lógico. O pensamento primitivo seria marcado pelo prelogismo, no sentido de ser incapaz de ultrapassar os limites dos “complexos”. Em Vygotsky esta operação aparece também na distinção elaborada entre o pensamento do senso comum e o pensamento científico. O primeiro seria pré-lógico, e o segundo, conquistado no interior da escola, seria caracterizado pela lógica e pela abstração. Observa-se que as propriedades heurísticas do conceito foram assumindo outras configurações dentro da psicologia. O caráter coletivo associado estreitamente ao conceito de prelogismo é colocado em segundo plano, em nome de uma perspectiva que retém a sua dimensão temporal e evolutiva.
O pensamento primitivo pode operar com conceitos; estes na medida em que estão antecipadamente fixados, não podem, contudo, se oferecer plasticamente ao trabalho da lógica, não possuindo, portanto, a capacidade de se compor e decompor, nem de entrar como peças em um sistema hierárquico superior (Lévy-Bruhl,1910 apud Goldman, 1994, p. 205).
O pensamento pré-lógico não quer dizer alógico ou antilógico. Pré-lógico, aplicado à mentalidade primitiva significa apenas que não faz qualquer esforço deliberado, como nós fazemos, para evitar contradições. Quando afirma que a “mentalidade primitiva” é pré-lógica, irremediavelmente não crítica, Lévy-Bruhl não está se referindo à capacidade ou incapacidade de raciocinar de um indivíduo, mas das categorias nas quais ele raciocina (Evans Pritchard, 1980, p. 171).
Importante ressaltar que nos últimos escritos a reformulação conceitual é radical. Lévy-Bruhl renuncia a hipótese da diferença afirmando que a estrutura lógica do espírito humano é a mesma em todas as sociedades humanas conhecidas, do mesmo modo que todas elas possuem uma língua, costumes, instituições (Les Carnets, 1949, p.63). No entanto, é preciso reter os fatos nomeados e incontestáveis de que a mentalidade primitiva possui hábitos mentais que diferem dos nossos, como, por exemplo, uma menor exigência lógica.
Do ponto de vista estritamente lógico nenhuma diferença essencial é constatada entre a mentalidade primitiva e a nossa. Em tudo que diz respeito à experiência corrente ordinária, transações de todas as sortes, vida política, econômica, uso da numeração, etc., eles se comportam de uma maneira que implica o mesmo uso de suas faculdades que nós fazemos da nossa.6
Importante ressaltar que entre as idéias fundamentais que serão importantes para o ponto de partida no diálogo com Vygotsky é o reconhecimento da heterogeneidade entre o primitivo e o civilizado, ponto de partida de Lévy-Bruhl negado no final de sua obra. E, em segundo lugar, a idéia da mediação das representações coletivas, que oferecem a Vygotsky uma referência para pensar nas leis de construção das funções psíquicas superiores, ponto central de sua obra.
As considerações feitas acima nos permitem afirmar que Durkheim e Lévy-Bruhl serão importantes na construção da abordagem da evolução do pensamento verbal. Durkheim será fundamental para deixar claro a natureza social dos processos de construção das categorias lógicas que permitem ao ser humano compreender o mundo. Lévy-Bruhl será uma das principais referências7 para compreender o processo de evolução do pensamento humano, na medida em que foi, segundo Vygotsky, um dos autores mais sensíveis para detectar e propor um modelo de leitura para compreender e explicar as diferenças existentes entre o pensamento dito primitivo e pensamento europeu ocidental. Sua produção deixa profundas marcas na teoria sócio-histórica, na definição dos processos de evolução do pensamento verbal (Van der Veer, 1996, p. 248).
Neste texto, faremos um esforço de apresentar algumas idéias fundamentais da rica interlocução que se estabeleceu entre Vygotsky e Lévy-Bruhl. Parte-se do pressuposto de que a discussão da relação entre evolução da sociedade e transformação dos modos de representação e de compreensão do mundo, realizada no campo da antropologia, teve um profundo impacto na elaboração do modelo sócio-histórico, constituindo-se ora como fonte de inspiração, ora como campo de disputas, na construção de sua abordagem sobre o desenvolvimento do saber na humanidade.
Em Piaget, o diálogo com Lévi Bruhl será sistemático ao longo de toda sua obra. Piaget irá recorrer, com restrições, ao conceito de mentalidade pré-lógica para compará-lo ao pensamento infantil, imputando aos povos ditos primitivos uma estrutura cognitiva próxima a de uma criança de 12 anos:
“é, em particular, muito possível, e é impressão que nos dão os trabalhos etnográficos conhecidos que em muitas sociedades, o pensamento adulto não ultrapassa o nível das operações concretas e não atinge pois o das operações proposicionais que se elaboram entre os 12 e 15 anos em nosso meio” ( PIAGET, 1972 p. 288).
No mesmo texto, Piaget apresenta uma avaliação crítica da obra de Lévi Bruhl apontando tanto um exagero nas oposições entre a mentalidade primitiva pré-lógica e a civilizada, como distanciando-se também das suas retratações posteriores que negariam a generalidade das estruturas.
A obra de Piaget revelará também uma incorporação da teoria de recapitulação de Haeckel (Banks Leite, 1997). Piaget acreditava na unidirecionalidade da construção da lógica humana, tomada como universal, investigando os mecanismos da construção do conhecimento de um “ sujeito epistêmico universal”. Centrando sua análise nos estudo do desenvolvimento das estruturas cognitivas desde a infância até a idade adullta, crianças estas inseridas na cultura racional ocidental, Piaget estende seus conceitos às demais culturas.
Assim é que na lógica etapista piagetiana o ápice do processo de desenvolvimento cognitivo seria caracterizado pelo pensamento hipotético-dedutivo, característico de uma lógica científica ocidental. As culturas ditas primitivas manifestariam a mesma lógica de apreensão do mundo das crianças ocidentais, ambas caracterizadas por um raciocínio animista.
Por outro lado, o ser humano ao longo de seu desenvolvimento individual, recapitularia os processos mentais desenvolvidos pela espécie. Segundo BANKS LEITE:
“Piaget elaborou um projeto semelhante ao de Haeckel. Assim criou uma espécie de embriologia mental orientada ao estudo dos mecanismos de evolução e desenvolvimento na conquista da realidade através da mente em evolução. “ (1997:p. 27)
É interessante observar que o diálogo entre a antropologia e a psicologia do início do século, mesmo que assentado na presença da teoria evolutiva, com o desenvolvimento subsequente de tais campos de conhecimento, é progressivamente abandonado, levando segundo BRANDÃO:
“ ..ao se separarem por longo tempo as diferentes psicologias e as ciências sociais cavam entre si um foço cujas passagens, em ambas as direções, têm sido raras e efêmeras. O resultado, no âmbito de nossas discussões aqui é este: de um lado temos uma criança sem cultura e, de outro, uma cultura sem crianças” (BRANDÃO, 1985: 126).

Ecos nas práticas educativas
Mas voltemos à questão inicial. O texto do manual supra citado ao introduzir o texto aponta a associação entre os trabalhos de Lévi Bruhl e os de Piaget para compreender a criança e o selvagem.
As repercussões de tal associação fizeram-se presentes no campo educacional direta e indiretamente. A criança foi tomada como dotada de uma racionalidade incapaz de operar com logicidade. Deste modo, podemos observar que nas práticas escolares o “primitivo” constituiu matriz de construção de produções culturais dirigidas á infância. O folclore, abordando com todo o preconceito as produções das culturas indígenas e africanas tornou-se referência para elaboração de livros, músicas, brincadeiras, associando, de maneira descontextualizada, a criança ao primitivo:
“ O homem erudito de sensibilidade cultivada, que faz do processo um artesanato, brinda a literatura com romances, poemas, peças. O homem rústico, das camadas menos esclarecidas, não liberto dos temores e anseios da humanidade primitiva, forja lendas, mitos, modismos. faz matéria do folclore (...) a análise litero folclórica ensina que a ontogênese e a filogênese seguem os mesmos caminhos. Isto é: o indivíduo, em evolução desde o feto à decrepitude, passa pelos mesmos estágios que os povos: nebulosidade, insegurança, dependência, curiosidade, espírito e atos de rebeldia, preparo, revelação de qualidades e requinte de defeitos, (?deperecimento?), fim. A humanidade fabulou tal e qual as crianças fabulam; com elas sonhou; com elas criou histórias e idealizou mundos irrealizáveis”.
Pensando nas práticas pedagógicas a criança negra ou indígena, ao inserir-se na escola viveu ( e vive) um processo de desqualificação de sua herança étnica, identificada com o primitivismo e ignorância. Sua cultura é historicamente analisada de acordo com uma perspectiva evolucionista que a situaria num patamar de desenvolvimento inferior da herança cultural branca, européia.


Referências bibliográficas
BRANDÃO, Carlos Rodrigues. A educação como cultura. São Paulo: Brasiliense, 1985

JAHODA, G. Images of savages. London: Routlege, 1999

LARAIA, Roque de Barros. Cultura: um conceito antropológico. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1986

LEVI BRUHL, ---------------

PARRAT, S.(org.) Jean Piaget: sobre a pedagogia. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1998

PIAGET, J. Problemas de psicologia genética in Os Pensadores. São Paulo : Abril, 1983

VIANNA, Oliveira. Evolução do povo brasileiro. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1933 (2 edição)

VONECHE, J. A origem das idéias de Piaget sobre gênese e desenvolvimento in LEITE, L. B. (org.) Percursos piagetianos. São Paulo: Cortez, 1997




1 Ao longo deste texto não será feita uma análise das teorias psicogenéticas da psicologia, proopriamente, mas apenas o diálogo que Vygotsky e Piaget estabelecem com Levi Bruhl. Apesar de em Wallon também se fazer presente uma interlocução com este antropólogo, os dados históricos são insuficientes para proceder a um estudo mais aprofundado tal diálogo.

2 Esta foi a mesma inspiração de Durkheim no desenvolvimento de sua teoria sociológica. Em As formas elementares da vida religiosa (1989/1912), o autor se debruçou sobre o material etnográfico disponível em seu tempo para desvelar nas sociedades “ditas primitivas” os processos pelos quais o homem se constitui enquanto tal. Durkheim encontrará nas formas da vida religiosa o fundamento da vida simbólica do ser humano e de todo o processo de seu conhecimento do mundo.

3 Gustav Jahoda (1999) afirma que idealmente o objetivo de Lévy-Bruhl era desenvolver uma tipologia de uma multiplicidade de mentalidades. Como esta tarefa seria praticamente impossível de ser realizada com os dados etnográficos disponíveis do período, Lévy-Bruhl teria se concentrado na elaboração da dicotomia entre “mentalidade primitiva” e a “mentalidade moderna” (p.180). Jahoda adverte, ainda, que como seus esforços foram compreendidos como uma tentativa de elaborar o quadro de dois tipos humanos completamente distintos, é preciso afirmar que esta não foi nunca a sua intenção. Ele compreendia bem que o homem primitivo em sua vida cotidiana era tão competente quanto o homem ocidental em lidar com o seu meio ambiente, seu trabalho não dizia respeito a este problema mas se dirigia à representação mental do mundo.

4 Estes mesmos termos são utilizados como modelo para descrever as sociedades orais não tocadas pela escrita, conforme, por exemplo, Goody (1963), Ong (1982).

5 Os adjetivos descritos acima são, por oposição, relacionados com o uso da escrita, conforme os mesmos autores citados. O que se evidencia é que Lévy-Bruhl criou um modelo de interpretação da cultura e do pensamento dos povos ditos “primitivos” que foi apropriado contemporaneamente por teóricos interessados na constituição de uma relação de causalidade entre uso da linguagem oral e escrita e domínio de determinadas categorias lógicas de compreensão do mundo.

6 Du point de vue strictement logique aucune différence essencielle n’est constatée entre la mentalité primitive et la nôtre. Dans tout ce qui touche à l’éxpérience courante ordinaire, transactions de toutes le sortes, vie politique, économique, usage de la numération, etc., ils se comportent dúne façon que implique le même usage de leurs facultés que nous faisons des nôtres. (Carnets, 1949/1938, p.70)

7 Vygotsky refere-se a Lévy-Bruhl no seu texto “História del desarrollo de las funciones psíquicas superiores” como “um dos mais profundos investigadores do pensamento primitivo. (Vygotsky, Obras Escogidas Tomo III, p. 34). Seu pensamento é citado extensamente ao longo dos textos mais importantes de Vygotsky, tanto para referendar procedimentos analíticos mais amplos na constituição da perspectiva genética (Obras Escogidas Tomo I), quanto como fontes de material empírico para fundamentação da análise sobre o pensamento primitivo, Tomo II, e III). Antes da pesquisa realizada por Luria no extremo oriente da União soviética, no início da década de trinta, os trabalhos de Lévy-Bruhl eram considerados os mais ricos em fontes sobre o pensamento primitivo, ao lado da Völkerpsicologie de Wundt e de Thurnwald.

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