Lista – português professor: Paulo Monteiro



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LISTA – PORTUGUÊS




Professor: Paulo Monteiro




AULA 1

O TEXTO E A QUESTÃO DA LITERARIEDADE

REVISÃO


Nessa primeira aula, tratamos em sala da questão conceitual de Literatura. Como a aula é esquemática, resolvemos aproveitar esse espaço para repassar alguns tópicos do que foi tratado em sala.

1. LITERATURA É “MIMESIS”, OU SEJA, IMITAÇÃO DA REALIDADE

Nesse ponto, deve-se observar que existe uma realidade que pode ser informada tal e qual de forma utilitária, impessoal e objetiva. Isto ocorre em obras não-literárias, como os livros de História, as reportagens jornalísticas e compêndios de natureza técnico-científica.

No entanto, a realidade pode ser recriada através dos dados da imaginação, tornando-se uma supra-realidade, ou uma realidade paralela e nova construída pelo escritor.

Percebamos que José de Alencar conhecia muito bem a realidade histórico-social do Rio de Janeiro naquela segunda metade do século XIX, expressa no comportamento de uma elite que experimentava o capitalismo e o dinheiro como meio definidor da existência, das relações sociais e principalmente do casamento.

Para discutir e expor um juízo sobre esta realidade, o brilhante romancista romântico inventou uma fábula, uma realidade paralela exposta no romance Senhora, que nos conta a história de Aurélia Camargo e seus conflitos com a sociedade, aviltada pelo interesse financeiro. A heroína, depois de amargar a pobreza, fica rica, compra um marido venal – Fernando Seixas – humilha-o para regenerá-lo, e finalmente se unem pelo amor, que supera exemplarmente os interesses capitalistas.

Do mesmo modo, Graciliano Ramos, conhecendo a realidade de tantos seres despossuídos de bens materiais e culturais, e por isso degradados ao nível da animalidade, cria um certo Fabiano e uma certa Sinha Vitória no romance Vidas Secas.

Em decorrência desses dois exemplos, o estudante de Literatura poderá depreender que, nas obras não-literárias, os fatos preexistem à obra; enquanto na obra literária, os fatos e as circunstâncias são pós-existentes.

Assim, Aurélia Camargo, Fernando Seixas e seus entreveros matrimoniais somente vêm ao nosso conhecimento a partir do ano de 1875, com a publicação do romance Senhora.

Do mesmo modo, Fabiano, Sinha Vitória, os dois meninos e a cachorra Baleia, bem como a tragédia cíclica de suas vidas, passam a fazer parte do nosso conhecimento somente após 1938, com a publicação de Vidas Secas.

2. LITERATURA É METÁFORA

A Metáfora é o ponto de interseção entre dois planos da linguagem: O real e o imaginado.




Plano


real

Plano

imaginado

Metáfora

Quando se lê:

Fabiano, você é um bicho!”, nota-se que Fabiano (plano real) imagina-se um bicho (plano imaginado), para valorizar seu poder de superar obstáculos e adaptar-se à adversidade (interseção).

Fabiano


Bicho

Competência

superação

adaptação








Obs.: A metáfora é uma associação de planos de linguagem num contexto psicológico e momentâneo, portanto relativizado.

– Na obra Vidas Secas, há momentos em que a associação Fabiano/bicho pode gerar como interseção significativa a despersonalização e a animalização.

– Do mesmo modo, quando alguém diz: “Sua presença é uma carne de peixe”, poderá estar fazendo um juízo de valor positivo ou negativo.

Na aula, mostramos a letra “Faltando um pedaço” de Djavan, na qual o compositor, ao falar do amor (plano real), vai associando-o a diversos planos imaginários: amor/laço; amor/lobo, etc.


Amor

Laço

Surpresa


aprisionamento

dominação


Para todos os que se preparam para o Vestibular, é oportuno lembrar que as obras de ficção indicadas para este concurso são grandes metáforas da realidade, transformada pela imaginação dos autores.

– Em Senhora, o plano de realidade conhecida de Alencar é o dinheiro como corruptor das ações e das consciências. A imaginação de Alencar configura esta realidade na elaboração do enredo, momento em que as pessoas (realidade histórico-social) viram personagens (realidade ficcional ou supra-realidade).

– Em Vidas Secas, a realidade do homem nordestino oprimido pelas poderosas forças sociais, econômicas, políticas e pela hostilidade do meio físico-geográfico encontra a interseção na fábula trágica de Fabiano, Sinha Vitória, os dois meninos e a cachorra Baleia.

– E o que são as peripécias das personagens de Viva o Povo Brasileiro, senão uma grande metáfora da trajetória de um povo em marcha em busca da identidade jamais alcançada?

3. LITERATURA É LINGUAGEM CARREGADA DE SIGNIFICADO

Essa assertiva se aplica mais ao plano interno do texto – poético ou ficcional. Diz respeito ao caráter lingüístico – expressional.

Nos textos não-literários, interessa a eficiência da mensagem, do conteúdo; no texto literário, importa o modo como se diz. Daí o apreço pela recriação que inova, e em conseqüência seduz o leitor.

Quando se lê: “O Carnaval da Bahia é o acontecimento mais participativo e democrático do calendário festivo”, não se avalia a forma, mas o conteúdo de participação e democracia. No entanto, quando Gonçalves Dias escreve em I – Juca Pirama:

Sou bravo, sou forte

Sou filho do norte;

Meu canto de morte,

Guerreiros, ouvi”.

é o plano da expressão que nos desperta a atenção. O poeta, construindo versos de cinco sílabas, com acento na segunda e na quinta, cria um ritmo incisivo, martelado, quase marcial, que enfatiza a exaltação da coragem manifesta no plano do significado.

Conclui-se, pois, que o texto não-literário se resume à mensagem; já o texto literário vai além, buscando também uma imagem estética.

Assim, quando o poeta Assêncio Ferreira escreve: “A boca da noite veio / e comeu o sol / como um fruto passado”, ele não exclui a mensagem: o registro do pôr-do-sol; mas elabora imagens: O sol é metaforizado como um fruto maduro que se expõe à colheita; e a noite é uma boca que o devora. Bela imagem anímico-metafórica.




LPor 3ª 6292 (A)




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