Literatura Brasileira – Simbolismo Cruz e Souza e o Simbolismo Características do Simbolismo



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Literatura Brasileira – Simbolismo

Cruz e Souza e o Simbolismo

Características do Simbolismo:

  • Linguagem sugestiva e abstrata, que prefere sugerir a nomear;

  • Presença abundante de metáforas (sugestão), comparações, aliterações, assonâncias, paronomássias  (musicalidade) e sinestesia;

  • Subjetivismo;

  • Antimaterialismo e anti-racionalismo: a razão é incapaz de explicar o espírito;

  • Misticismo e religiosidade;

  • Pessimismo e dor de existir - A dor leva ao prazer - Elevação de espírito;

  • Desejo de transcendência, de integração cósmica;

  • Interesse pelo noturno (trevas da vida material), pelo mistério e pela morte;

  • Interesse pela exploração das zonas desconhecidas da mente humana (emoção e espírito) e pela loucura;

  • Sinestesia: Naturalismo - Criar um ambiente real;

  • Simbolismo: abrir o sentido;

Influências:

  • Bérgson: intuição;

  • Freud: o sonho - subconsciente;

  • Schopenhauer: Karma - Nirvana;

  • Baudelaire:  Teoria da correspondência entre os sentidos. Uso de sinestesia;

  • Mallarmé: Sugestão. Quebra a letargia (preguiça mental);

  • Paul Verlaire: a musicalidade;

  • Verlaire: Musicalidade;

  • Rimbaud: A linguagem denotativa é incapaz de captar o universo espiritual - Psicologia do ser;

Autores

Cruz e Sousa:

Alphonsus de Guimaraens: MG

- Tropas e fantasia;
- Missal 
- Broqueis;
- Faróis;
- Evocações:
- Últimos sonetos: Tranqüilidade: nirvana;

- O Solitário de Mariana;
- Poesia barroca: Matéria x Espírito;
- Poesia transcendental; 

Poema Simbolista




"A música da morte, a nebulosa,

estranha, imensa música sombria,

passa a tremer pela minh'alma e fria

gela, fica a tremer, maravilhosa...

Onda nervosa e atroz, onda nervosa,

Letes sinistro e torvo de agonia,

Recresce e lancinante sinfonia,

Sobe, numa volúpia dolorosa

Sobe, recresce, tumultuando e amarga,

tremenda, absurda, imponderada e larga,

de pavores e trevas alucina

E alucinado e em trevas delirando,

Como um ópio letal, vertiginando,

Os meus nervos, letárgica, fascina..."

( Cruz e Souza in "Música da morte" )

Numa época em que os homens estavam confiando muito neles mesmos e na ciência , quando a literatura produziu obras de cunho realista, naturalista ou mesmo parnasianas que tentaram destruir o sonho Romântico de uma vez por todas, surge um grupo de poetas que apostaram todas as fichas num sonho de transcendência: foram os Simbolistas. Mais uma vez, a França servia de berço para uma vanguarda literária. É certo que o precursor era um poeta norte- americano : Edgar Alan Poe era o seu nome ( seu principal poema é "O Corvo" -1845- que expõe um viúvo a lamentar- se da morte da esposa, Lenora e é então visitado por um estranho corvo, símbolo do além , numa noite de mistérios). Poe escrevia histórias de terror (contos), ensaios e poemas. O pobre Edgar comeu o pão que o diabo amassou numa sociedade conservadora como era a americana. Do mesmo modo, os poetas franceses simbolistas também foram chamados de malditos (eram pessimistas às vezes) ou decadentistas ( "religião, costumes , justiça, tudo decai...") .

Em comum com o Parnasianismo: preocupação com a forma, culto à rima, preferência pelo soneto, distanciamento da vida "comum" - viviam numa espécie de torre-de-marfim, eram chamados também nefelibatas (viviam nas "nuvens" ).

Poetas franceses(Simbolistas): Baudelaire (buscou aproximar o físico do metafísico-a "a teoria das correspondências") . Verlaine ( experimentou a musicalidade), Mallarmé (hermetismo, rebeldia sintático- semântica). Rimbaud (alquimia vocabular, o poder encantatório do vocábulo). É comum nestes poetas a ruptura com o descritivo e linear (eles preferiam sugerir), o fluxo de consciência, a sondagem da memória.

No Brasil, dois poetas marcaram o Simbolismo: Alphonsus de Guimaraens (saudosismo e o culto a Maria) e Cruz e Souza (o corpo como o cárcere da alma). Foi com a publicação de "Missal"(poemas em prosa) e "Broquéis" (pequenos escudos), da autoria do último, que se instaurou este movimento por aqui. O "final "do Simbolismo brasileiro seria em 1922, mas outros preferem 1902, com a publicação de " Os Sertôes", de Euclides da Cunha.

Principais características: negação do Positivismo, do Cientificismo e do Materialismo (por tabela: Realismo e Naturalismo ). Podemos dizer que o Simbolismo intensificou a experiência Romântica , buscando uma poética do inconsciente, da intuição, da sugestão , do eu-profundo , da associação de idéia e imagens. Tudo isso permeado de espiritualidade, misticismo, subjetivismo, ocultismo, num tom vago, impreciso, usando por vezes a sinestesia (fusão dos sentidos. Ex.: "Nasce a manhã, a luz tem cheiro(...) Oh sonora audição colorida do aroma!" - A. Guimaraens) , musicalidade - aliteração e assonância - ( "E as cantilenas de serenos sons amenos,/ fogem fluidas fluindo à fina flor dos fenos" - Eugênio Castro). Usavam também letras maiúsculas alegorizantes ("Indefiníveis músicas supremas/ Harmonias da Cor e do Perfume.../ Horas do Ocaso, trêmulas, extremas,/ Réquiem do sol que a Dor da luz resume"- Cruz e Souza), amplo uso das reticências, dando o tom vago, impreciso. Devemos lembrar do uso das cores e a fixação pela cor branca.

Neste contexto, surge no Brasil esta poesia de João da Cruz e Souza (Santa Catarina,1861- Minas Gerais ,1898). Seus pais foram ex-escravos . Apelidado de o "Dante Negro" (numa alusão ao poeta- maior da Itália ), herdou a preocupação formal parnasiana, porém sua temática era diferente: mistérios da vida e da morte, do enigma da existência de Deus e, utilizando uma linguagem rica e exuberante, falou também dos miseráveis e marginalizados.

O simbolista Cruz e Souza foi nosso grande triste monge, ermitão, anjo demônio, santo, cético, nababo ou miserável. Expôs sua escala de sensações, inventariando com rara meticulosidade e de forma inovadora, sua lírica insólita, sua singular "tortura " existencial.

A cor branca, a alma , a musicalidade , o transcendente, o infinito, a fuga do tédio absoluto , a tentativa de superar o que as conveniências sociais exigem, protegeram Cruz e Souza contra os assaltos da lucidez: "Apaguem o sol, apaguem o sol. Extingam a luz desta supérflua lamparina de ouro que nos ofusca e irrita. Inútil tudo , minha atroz fatalidade, nascido dotado com os peregrinos dons intelectuais , estas nobres mãos feitas para a colheita dos astros . Pesado cárcere da matéria, irei tragando todas as ofensas, as ironiazinhas e ainda curvar a fronte e mostrar - me oco, cair de joelhos, babando e beijando o chão , emudecer para que não sintam as ansiedades que trago, os idealismos que carrego através das avenidas sombrias da minha alma ".

Este poeta catarinense, que durante toda sua vida padeceu com o preconceito racial, morreu na miséria, porém sempre pairou acima do turbilhão humano do Brasil de sua época. Seu verbo era inflamado com vertigens e chamas. Evitou ao máximo a flor tóxica da perversidade. Falou baixo nos instantes vesgos e oblíquos em que sua dor o maltratava. Ele não era deste mundo, seu mundo era o dos sonhos. Sua arte elevava-o às esferas celestes ou afogava- o em infernos multidimensionais. Gigantescas escadas em confusas espirais babélicas, labirínticas . Ele bateu em portas que não se abriram , nem se abrirão.

As estrelas foram seu consolo quando seu espírito, perdido em errante sofrimento, era presa dolorosa dos ritmos sombrios do infinito, vagava tristemente. Aquele negro sem mistura, nascido escravo, sem família, alforriado por padrinhos brancos que lhe deram o sobrenome e o protegeram até onde se pode "proteger" alguém. Jornalista e secretário de uma companhia teatral, foi , com muito esforço, nomeado para promotor, porém impedido de assumir por causa da sua cor. Casou-se com uma afro-brasileira e teve quatro filhos, todos mortos prematuramente( o que mais viveu chegou aos dezessete). Sua esposa enlouquece e Cruz (já a carregava até no nome! ), tuberculoso, morre pobre. Seu corpo é carregado, sem caixão, num vagão de animais.

Sua obra completa foi publicada pela Editora Nova Aguilar (Prosa e Poesia) em 1961.

Sinestesia, léxico abstrato, uso de maiúsculas intermediárias (para apontar o absoluto), rigor com a forma, depuração estética, tom elegíaco, pessimismo, materialismo, desespero existencial, misticismo, poesia como válvula de escape de tensões interiores e compensação das insatisfações (individualismo?), desajuste social. Assim escreveu Cruz e Souza, assim atravessou este silêncio escuro de trágicos deveres.


EXERCÍCIO

01. (PUC-RS)

"Noiva de Satanás, Arte Maldita,

Mago Fruto letal e proibido,

Sonâmbula do além, do Indefinido

“Das profundas paixões, Dor infinita.”

A linguagem do poema situa-o no:

a) Romantismo

b) Parnasianismo

c) Impressionismo



d) Simbolismo

e) Modernismo



02. (VUNESP) Assinale a alternativa em que se caracteriza a estética simbolista.

a) Culto do contraste, que opõe elementos como amor e sofrimento, vida e morte, razão e fé, numa tentativa de conciliar pólos antagônicos.

b) Busca do equilíbrio e da simplicidade dos modelos greco-romanos, através, sobretudo, de uma linguagem simples, porém nobre.

c) Culto do sentimento nativista, que faz do homem primitivo e sua civilização um símbolo de independência espiritual, política, social e literária.

d) Exploração de ecos, assonâncias, aliterações, numa tentativa de valorizar a sonoridade da linguagem, aproximando-a da música.

e) Preocupação com a perfeição formal, sobretudo com o vocabulário carregado de termos científicos, o que revela a objetividade do poeta.



03. (UFV-MG) Assinale a alternativa em que todas as características do estilo são do Simbolismo.

a) impassibilidade, vida descrita objetivamente, ecletismo
b) hermetismo intencional, alquimia verbal, musicalidade
c) favor da forma, expressões ousadas, fidelidade nas observações
d) atmosfera de imprecisão, realismo cru, religiosidade
e) complexidade, ressurreição dos valores humanos, materialismo pornográfico

04. (UFMA) Sobre o Parnasianismo e o Simbolismo, na Literatura Brasileira, é correto afirmar que:

a) os estilos são absolutamente distintos quanto à técnica da versificação.

b) os dois estilos se aproximam pelas preferências temáticas.


c) à metafísica do primeiro, juntou-se o realismo do segundo.
d) os dois estilos se aproximam quanto à técnica da versificação.
e) não há proximidade entre os dois.

05. (FEI-SP) Escolha a alternativa que preencha corretamente, na ordem apresentada, as lacunas da frase seguinte.

"O Simbolismo se opõe ao ____________, aproximando-se do _____________, no que diz respeito à presença do subjetivismo e da emoção, segundo observa, por exemplo, em ___________, célebre autor de Broquéis."

a) (1) Realismo / (2) Romantismo / (3) Cruz e Sousa
b) (1) Naturalismo / (2) Modernismo / (3) Gonçalves Dias
c) (1) Arcadismo / (2) Romantismo / (3) Castro Alves
d) (1) Romantismo / (2) Barroco / (3) Manuel Bandeira
e) (1) Naturalismo / (2) Modernismo / (3) Olavo Bilac

06. (FEMP-PA) Seus poemas sugerem um clima de mistério, através de uma linguagem rica em adjetivos semanticamente vagos e imprecisos. Trata-se de __________, que escreveu _________ e, como poeta, está vinculado ao _______________.

a) Vinicius de Moraes / Sonetos e baladas / Modernismo

b) Álvares de Azevedo / A lira dos vinte anos / Romantismo



c) Cruz e Sousa / Faróis / Simbolismo

d) Olavo Bilac / O caçador de esmeraldas / Parnasianismo

e) Cecília Meireles / Vaga música / Modernismo 

07. (FMU/FIAM-SP) O poeta simbolista tem outra visão da natureza e do mundo. Para ele, o que importa é:

a) a impassibilidade, o rigor formal, a busca da perfeição.
b) a valorização do gosto burguês, o nacionalismo, a tradição.
c) a realidade social, o combate do idealismo, o racionalismo.
d) o elemento pitoresco, o final inesperado, a caricatura.
e) a analogia profunda entre a realidade aparente e a realidade oculta das coisas, a sugestão, a musicalidade.

08. (FUVEST-SP)

I.

"Longe do estéril turbilhão da rua,



Beneditino, escreve! No aconchego

Do claustro, na paciência e no sossego,

Trabalha, e teima, e sofre, e sua!"

II.


"Ó Formas alvas, brancas, Formas claras
De luares, de neves, de neblinas!

Ó Formas vagas, fluidas, cristalinas...

Incensos dos turíbulos das aras..."

As estrofes da página anterior são, respectivamente, dos poetas:

a) Manuel Bandeira e Olavo Bilac.

b) Vinicius de Moraes e Fagundes Varela.



c) Olavo Bilac e Cruz e Souza.

d) Cruz e Sousa e Castro Alves.

e) Castro Alvez e Alphonsus de Guimaraens.

09. (F. Objetivo-SP) A negação do Positivismo, do Materialismo e das estéticas neles fundamentadas; a criação poética como fruto do inconsciente, da intuição, da sugestão, da associação de imagens e idéias; o tom vago, impreciso, nebuloso; o uso acentuado de sinestesias e intensa musicalidade são características do:

a) Realismo

b) Simbolismo

c) Naturalismo

d) Romantismo

e) Parnasianismo



10. (FCMSCSP)

I.

"Musa! um gesto sequer de dor ou de sincero luto jamais te afeie o cândido semblante!



Diante de Jó, conserva o mesmo orgulho; e diante de um morto, o mesmo olhar e sobrecenho austero"

II.


"Brancuras imortais da Lua Nova,

frios de nostalgia e sonolência...

Sonhos brancos da Lua e viva essência dos fantasmas notívagos da Cova."

Conforme atestam, respectivamente, os excertos, o ________ pregou, em seu programa, a impassibilidade, ao passo que o __________ marcou a poesia com as impressões mais densamente subjetivas, atingindo mesmo as profundidades do inconsciente.

a) Barroco / Arcadismo

b) Arcadismo / Romantismo

c) Romantismo / Parnasianismo

d) Parnasianismo / Simbolismo

e) Sombolismo / Modernismo



11. (UCP-PR) Assinale a afirmativa correta:

a) O Romantismo é conseqüência do surto de cientificismo e da fadiga da repetição das fórmulas subjetivas.

b) O poeta parnasiano deixa-se arrebatar pelo conflito entre o mundo real e o imaginário, expresso num sentimentalismo acentuado.



c) O Realismo é conseqüência do surto de cientificismo e da fadiga da repetição das fórmulas subjetivas.
d) No Romantismo, o escritor mergulha no interior das personagens, mostrando ao leitor seus dramas e sua agonia.
e) No Simbolismo, predominou a prosa.

12. (PUC-RS) A crítica constata, nas metáforas simbolistas de Cruz e Souza, a obsessão pela cor:



a) branca.

b) negra.

c) rubra.

d) roxa.


e) azul.

13. (UFSCar-SP) A ênfase na seleção de vocabulário poético, com o objetivo de transferir ao poema o máximo de correspondência sensorial, é uma característica do:

a) Romantismo, sobretudo na obra de Castro Alves.

b) Barroco, principalmente em Gregório de Matos.



c) Simbolismo, representado pelas obras de Cruz e Sousa e Alphonsus de Guimaraens.

d) Parnasianismo, representado pela obra de Alberto de Oliveira.


e) Pré-Modernismo, principalmente em Jorge de Lima.

14. (PUC-SP) Cruz e Sousa e Alphonsus de Guimaraens são poetas identificados com um movimento artístico cujas características são:

a) o jogo de contrastes, o tema da fugacidade da vida e fortes inversões sintáticas.

b) a busca da transcendência, a preponderância do símbolo entre as figuras e o cultivo de um vocabulário ligado às sensações.

c) a espontaneidade coloquial, os temas do cotidiano e o verso livre.

d) o perfeccionismo formalista, a recuperação dos ideais clássicos e o vocabulário precioso.

e) o jogo dos sentimentos exacerbados, o alargamento da subjetividade e a ênfase na adjetivação.



15. (UNIFICADO-RS)

"Nasce a manhã, a luz tem cheiro... Ei-la que assoma
Pelo ar sutil... Tem cheiro a luz, a manhã nasce...
Oh sonora audição colorida do aroma!"

A linguagem poética, em todas as épocas, foi e é simbólica; o Simbolismo recebeu esse nome por levar essa tendência ao paroxismo.

Os versos acima atestam essa exuberância, pela fusão de imagens auditivas, olfativas e visuais, constituindo rico exemplo de:

a) eufemismo



b) sinestesia

c) antítese

d) polissíndeto

e) paradoxo



16. (FEI) Rejeitando os ideais românticos, retomam a tradição clássica, defendem o princípio da "arte pela arte" e supervalorizam a linguagem preciosa.

O texto acima se refere a poetas:

a) parnasianos

b) naturalistas

c) simbolistas

d) modernistas

e) árcades

17. (UM-SP) Alphonsus de Guimaraens é um poeta identificado com um período literário cujas características são:

a) mitologia pagã e busca da natureza.

b) simbologia matemática e musical.

c) análise social de grupos humanos marginalizados e valorização do coletivo.

d) exaltação da natureza pátria e do índio.



e) misticismo, amor e morte.

18. (FUVEST-SP)

I.

"Porque não merecia o que lograva,



Deixei, como ignorante, o bem que tinha,

Vim sem considerar aonde vinha,

Deixei sem atender o que deixava."

II.


"Se a flauta mal cadente

Entoa agora o verso harmonioso,

Sabei, me comunica este saudoso

Influxo a dor veemente;

Não o gênio suave,

Que ouviste já no acento agudo e grave."

III.

"Da delirante embriaguez de bardo,



Sonhos em que afoguei o ardor da vida,

Ardente orvalho de febris pranteios,

Que lucro à alma descrida."

Cada estrofe, a seu modo, trabalha o tema de um bem, de um amor almejado e passado perdido.


Avaliando atentamente os recursos poéticos utilizados em cada uma delas podemos dizer que os movimentos literários a que pertencem I, II e III são respectivamente.

a) barroco, arcadismo, romantismo

b) barroco, romantismo, parnasianismo

c) romantismo, parnasianismo, simbolismo

d) romantismo, simbolismo, modernismo

e) parnasianismo, simbolismo, modernismo
Camilo Pessanha (1867 - 1926)

Camilo de Almeida Pessanha nasceu no dia 7 de setembro de 1867 na cidade de Coimbra em Portugal. Após formar-se em Direito foi para Macau, na China, onde exerceu a função de Professor. Acometido de Tuberculose e, segundo alguns estudiosos, viciado em ópio, o que contribuía para o agravamento da doença, retornou várias vezes para a Portugal para tratar da sua saúde.

Essas viagens de pouco valeram, uma vez que o poeta faleceu em 1º de março de 1926 em Macau. Camilo Pesanha que é, sem sombra de dúvidas, o maior e mais autêntico poeta Simbolista português foi fortemente influenciado pela poesia de do poeta frances Verlaine.

Sua poesia, que influenciou vários poetas modernistas, como por exemplo, Fernando Pessoa, mostra o mundo sob a ótica da ilusão, da dor e do pessimismo. O exílio do mundo e a desilusão em relação à Pátria também estão presentes em sua obra e passam a impressão de desintegração do seu ser. A sua obra mais famosa é " Clepsidra", relógio de água, que contém poemas com musicalidade marcante e temas até certo ponto dramáticos.


Vénus

À flor da vaga, o seu cabelo verde,


Que o torvelinho enreda e desenreda...
O cheiro a carne que nos embebeda!
Em que desvios a razão se perde!

Pútrido o ventre, azul e aglutinoso,


Que a onda, crassa, num balanço alaga,
E reflui (um olfacto que embriaga)
Que em um sorvo, murmura de gozo.

O seu esboço, na marinha turva...


De pé flutua, levemente curva;
Ficam-lhe os pés atrás, como voando...

E as ondas lutam, como feras mugem,


A lia em que se desfazem disputando,
E arrastando-a na areia, co'a salsugem.

Fonógrafo



Vai declamando um cómico defunto.
Uma plateia ri, perdidamente,
Do bom jarreta... E há um odor no ambiente
A cripta e a pó – do anacrónico assunto.

Mudo o registo, eis uma barcarola:


Lírios, lírios, águas do rio, a lua...
Ante o Seu corpo o sonho meu flutua
Sobre um paul – extática corola.

Muda outra vez: gorjeios, estribilhos


Dum clarim de oiro – o cheiro de junquilhos,
Vívido e agro! – tocando a alvorada...

Cessou. E, amorosa, a alma das cornetas


Quebrou-se agora orvalhada e velada.
Primavera. Manhã. Que eflúvio de violetas.

Ao longe os barcos de flores

Só, incessante, um som de flauta chora,


Viúva, grácil, na escuridão tranquila,
– Perdida voz que de entre as mais se exila,
– Festões de som dissimulando a hora.

Na orgia, ao longe, que em clarões cintila


E os lábios, branca, do carmim desflora...
Só, incessante, um som de flauta chora,
Viúva, grácil, na escuridão tranquila.

E a orquestra? E os beijos? Tudo a noite, fora,


Cauta, detém. Só modulada trila
A flauta flébil... Quem há-de remi-la?
Quem sabe a dor que sem razão deplora?

Só, incessante, um som de flauta chora...

Violoncelo

Chorai arcadas


Do violoncelo!
Convulsionadas,
Pontes aladas
De pesadelo...

De que esvoaçam,


Brancos, os arcos...
Por baixo passam,
Se despedaçam,
No rio, os barcos.

Fundas, soluçam


Caudais de choro...
Que ruínas (ouçam)!
Se se debruçam,
Que sorvedouro!...

Trémulos astros...


Soidões lacustres...
– Lemos e mastros...
E os alabastros
Dos balaústres!

Urnas quebradas!


Blocos de gelo...
– Chorai arcadas,
Despedaçadas,
Do violoncelo.

Passou o Outono já, já torna o frio...


– Outono de seu riso magoado.
Álgido Inverno! Oblíquo o sol, gelado...
– O sol, e as águas límpidas do rio.

Águas claras do rio! Aguas do rio,


Fugindo sob o meu olhar cansado,
Para onde me levais meu vão cuidado?
Aonde vais, meu coração vazio?

Ficai, cabelos dela, flutuando,


E, debaixo das águas fugidias,
Os seus olhos abertos e cismando...

Onde ides a correr, melancolias?


– E, refractadas, longamente ondeando,
As suas mãos translúcidas e frias...

Floriram, por engano, as rosas bravas (soneto)
Floriram por engano as rosas bravas
No Inverno: veio o vento desfolhá-las...
Em que cismas, meu bem? Porque me calas
As vozes com que há pouco me enganavas?

Castelos doidos! Tão cedo caístes!...


Onde vamos, alheio o pensamento,
De mãos dadas? Teus olhos, que um momento
Perscrutaram nos meus, como vão tristes!

E sobre nós cai nupcial a neve,


Surda, em triunfo, pétalas, de leve
Juncando o chão, na acrópole de gelos...

Em redor do teu vulto é como um véu!


Quem as esparze – quanta flor! – do céu,
Sobre nós dois, sobre os nossos cabelos?

Fernando Pessoa, no heterônimo Ricardo Reis

Para o nascimento de Ricardo Reis, quer na mente do poeta, quer na sua "vida real", Fernando Pessoa estabelece datas distintas. Primeiro afirma, de acordo com o texto de Páginas Íntimas e de Auto- Interpretação (p.385) que este nasce no seu espírito no dia 29 de Janeiro de 1914: «O Dr. Ricardo Reis nasceu dentro da minha alma no dia 29 de Janeiro de 1914, pelas 11 horas da noite. Eu estivera ouvindo no dia anterior uma discussão extensa sobre os excessos, especialmente de realização, da arte moderna. Segundo o meu processo de sentir as cousas sem as sentir, fui-me deixando ir na onda dessa reacção momentânea. Quando reparei em que estava pensando, vi que tinha erguido uma teoria neoclássica, que se ia desenvolvendo.». Mais tarde, numa carta a Adolfo Casais Monteiro datada de 13 de janeiro de 1935, altera a data deste nascimento afirmando que Ricardo Reis nascera no seu espírito em 1912. Fernando Pessoa considera que este heterónimo foi o primeiro a revelar-se-lhe, ainda que não tenha sido o primeiro a iniciar a sua actividade literária. Se Ricardo Reis está latente desde o ano de 1912, a julgar pela carta mencionada, é só em Março de 1914 que o autor das Odes inicia a sua produção, desde então continuada e intensa, e sempre coerente e inalterável, até 13 de Dezembro de 1933. Também no que respeita à biografia de Ricardo Reis, Fernando Pessoa apresenta dados distintos. No horóscopo que dele fez, situa o seu nascimento em 19 de Setembro de 1887 em Lisboa às 4.05 da tarde. Na referida carta a Adolfo Casais Monteiro altera a cidade natal de Ricardo Reis de Lisboa para o Porto.

Médico de profissão, monárquico, facto que o levou a viver emigrado alguns anos no Brasil, educado num colégio de jesuítas, recebeu, pois, uma formação clássica e latinista e foi imbuído de princípios conservadores, elementos que são transportados para a sua concepção poética. Domina a forma dos poetas latinos e proclama a disciplina na construção poética. Ricardo Reis é marcado por uma profunda simplicidade da concepção da vida, por uma intensa serenidade na aceitação da relatividade de todas as coisas. É o heterónimo que mais se aproxima do criador, quer no aspecto físico - é moreno, de estatura média, anda meio curvado, é magro e tem aparência de judeu português (Fernando Pessoa tinha ascendência israelita)- quer na maneira de ser e no pensamento. É adepto do sensacionalismo, que herda do mestre Caeiro, mas ao aproximá-lo do neoclassicismo manifesta-o, pois, num plano distinto como refere Fernando Pessoa em Páginas Íntimas e Auto Interpretação, (p.350): «Caeiro tem uma disciplina: as coisas devem ser sentidas tais como são. Ricardo Reis tem outra disciplina diferente: as coisas devem ser sentidas, não só como são, mas também de modo a integrarem-se num certo ideal de medida e regras clássicas.


Associa-se ainda ao paganismo de Caeiro e suas concepções do mundo vai procurá-las ao estoicismo e ao epicurismo (segundo Frederico Reis a filosofia da obra de Ricardo Reis resume-se num epicurismo triste-in Páginas Íntimas e Auto Interpretação, p.386). A sua forma de expressão vai buscá-la aos poetas latinos, de acordo com a sua formação, e afirma, por exemplo, que «Deve haver, no mais pequeno poema de um poeta, qualquer coisa por onde se note que existiu Homero.

Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho

(Recife, 19 de abril de 1886Rio de Janeiro, 13 de outubro de 1968) foi um poeta, crítico literário e de arte, professor de literatura e tradutor brasileiro.

Considera-se que Bandeira faça parte da geração de 22 da literatura moderna brasileira, sendo seu poema Os Sapos o abre-alas da Semana de Arte Moderna de 1922. Juntamente com escritores como João Cabral de Melo Neto, Paulo Freire, Gilberto Freyre e José Condé, representa a produção literária do Estado de Pernambuco.

Ele foi um dos poetas nacionais mais admirados, inspirando, até hoje, desde novos escritores a compositores. Aliás, o "ritmo bandeiriano" merece estudos aprofundados de ensaístas. Por vezes inspira escritores não só em razão de sua matemática, mas também devido ao estilo sóbrio de escrever.

Manuel Bandeira possui um estilo simples e direto, embora não compartilhe da dureza de poetas como João Cabral de Melo Neto, também pernambucano. Aliás, numa análise entre as obras de Bandeira e João Cabral, vê-se que este, ao contrário daquele, visa a purgar de sua obra o lirismo. Bandeira foi o mais lírico dos poetas. Aborda temáticas cotidianas e universais, às vezes com uma abordagem de "poema-piada", lidando com formas e inspiração que a tradição acadêmica considera vulgares. Mesmo assim, conhecedor da Literatura, utilizou-se, em temas cotidianos, de formas colhidas nas tradições clássicas e medievais. Em sua obra de estréia (e de curtíssima tiragem) estão composições poéticas rígidas, sonetos em rimas ricas e métrica perfeita, na mesma linha onde, em seus textos posteriores, encontramos composições como o rondó e trovas.

É comum encontrar poemas (como o Poética, parte de Libertinagem) que se transformaram em um manifesto da poesia moderna. No entanto, suas origens estão na poesia parnasiana. Foi convidado a participar da Semana de arte moderna de 1922, embora não tenha comparecido, deixou um poema seu (Os Sapos) para ser lido no evento.

Uma certa melancolia, associada a um sentimento de angústia, permeia sua obra, em que procura uma forma de sentir a alegria de viver. Doente dos pulmões, Bandeira sofria de tuberculose e sabia dos riscos que corria diariamente, e a perspectiva de deixar de existir a qualquer momento é uma constante na sua obra.

A imagem de bom homem, terno e em parte amistoso que Bandeira aceitou adotar no final de sua vida tende a produzir enganos: sua poesia, longe de ser uma pequena canção terna de melancolia, está inscrita em um drama que conjuga sua história pessoal e o conflito estilístico vivido pelos poetas de sua época. Cinza das Horas apresenta a grande tese: a mágoa, a melancolia, o ressentimento enquadrados pelo estilo mórbido do simbolismo tardio. Carnaval, que virá logo após, abre com o imprevisível: a evocação báquica e, em alguns momentos, satânica do carnaval, mas termina em plena melancolia. Essa hesitação entre o júbilo e a dor articular-se-á nas mais diversas dimensões figurativas. Se em Ritmo Dissoluto, seu terceiro livro, a felicidade aparece em poemas como "Vou embora para Pasárgada", onde é questão a evocação sonhadora de um país imaginário, o pays de cocagne, onde todo desejo, principalmente erótico, é satisfeito, não se trata senão de um alhures intangível, de um locus amenus espiritual. Em Bandeira, o objeto de anseio restará envolto em névoas e fora do alcance. Lançando mão do tropo português da “saudade”, poemas como Pasárgada e tantos outros encontram um símile na nostálgica rememoração bandeiriana da infância, da vida de rua, do mundo cotidiano das provincianas cidades brasileiras do início do século. O inapreensível é também o feminino e o erótico. Dividido entre uma idealidade simpática às uniões diáfanas e platônicas e uma carnalidade voluptuosa, Manuel Bandeira é, em muitos de seus poemas, um poeta da culpa. O prazer não se encontra ali na satisfação do desejo, mas na excitação da algolagnia do abandono e da perda. Em Ritmo Dissoluto, o erotismo, tão mórbido nos dois primeiros livros, torna-se anseio maravilhado de dissolução no elemento líquido marítimo, como é o caso de Na Solidão das Noites Úmidas.



Esse drama silencioso surpreende mesmo em poemas “ternos”, quando inesperadamente encontram-se, como é o caso dos poemas jornalísticos de Libertinagem, comentários mordazes e sorrateiros interrompendo a fluência ingênua de relatos líricos, fazendo revelar todo um universo de sentimentos contraditórios. Com Libertinagem, talvez o mais celebrado dos livros de Bandeira, adotam-se formas modernistas, abandona-se a metrificação tradicional e acolhe-se o verso livre. Em grosso, é um livro menos personalista. Se os grandes temas nostálgicos cedem ao avanço modernista, não é somente porque os sufocam o desfile fulminante de imagens quotidianas e os esquetes celebratórios do modernismo, mas também porque é um princípio motor de sua obra o reencenar a luta dos dois momentos sentimentais da alegria e da tristeza. O cotidiano “brasileiro” aparece ali, realçando o júbilo evocatório, com o pitoresco popular que se assimila, por exemplo em Evocação do Recife, ao tom triste e nostálgico; usa-se o diálogo anedótico para brindar fatos tão sórdidos quanto sua própria doença (Pneumotórax); a forma do esquete, favorável à apreensão imediata do objeto, funde-se, em O Cacto, a um lirismo narrativo que se aperfeiçoará em sua poesia posterior. Tanto em Libertinagem como no restante de sua obra, a adoção da linguagem coloquial nem sempre será coroada de êxito. Em certos meios-tons perde-se a distinção entre o coloquial estilizado e o coloquial natural, como em Pensão Familiar, onde os diminutivos são usados abusivamente. Libertinagem dará o tom de toda a poesia subseqüente de Manuel Bandeira. Em Estrela da Manhã, Lira dos Cinquent’anos e outros livros, as experiências da primeira fase darão lugar ao acomodamento do material lírico em formas mais brandas e às vezes mesmo ao retorno a formas tradicionais.

Poesia

  • A cinza das horas, 1917

  • Carnaval, 1919

  • O ritmo dissoluto, 1924

  • Libertinagem, 1930

  • Estrela da manhã, 1936

  • Lira dos cinquent'anos, 1940

  • Belo, belo, 1948

  • Mafuá do malungo, 1948

  • Opus 10, 1952

  • Estrela da tarde, 1960

  • Estrela da vida inteira, 1966

  • O bicho, 1947

Prosa

  • Crônicas da Província do Brasil - Rio de Janeiro, 1936

  • Guia de Ouro Preto, Rio de Janeiro, 1938

  • Noções de História das Literaturas - Rio de Janeiro, 1940

  • Autoria das Cartas Chilenas - Rio de Janeiro, 1940

  • Apresentação da Poesia Brasileira - Rio de Janeiro, 1946, 2ªed.Cosac Naif-São Paulo 2009

  • Literatura Hispano-Americana - Rio de Janeiro, 1949

  • Gonçalves Dias, Biografia - Rio de Janeiro, 1952

  • Itinerário de Pasárgada - Jornal de Letras, Rio de Janeiro, 1954

  • De Poetas e de Poesia - Rio de Janeiro, 1954

  • A Flauta de Papel - Rio de Janeiro, 1957

  • Itinerário de Pasárgada - Livraria São José - Rio de Janeiro, 1957

  • Andorinha, Andorinha - José Olympio - Rio de Janeiro, 1966

  • Itinerário de Pasárgada - Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1966

  • Colóquio Unilateralmente Sentimental - Editora Record - RJ, 1968

  • Seleta de Prosa - Nova Fronteira - RJ

  • Berimbau e Outros Poemas - Nova Fronteira - RJ

  • Cronicas inéditas I

  • Cronicas inéditas II- Ed Cosac Naif- SP- 2009.

Vou-me Embora pra Pasárgada

Manuel Bandeira

Vou-me embora pra Pasárgada


Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei

 

Vou-me embora pra Pasárgada


Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

 

E como farei ginástica


Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

 

Em Pasárgada tem tudo


É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

 

E quando eu estiver mais triste


Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.
Mario Faustino

Vida, amor e morte são temas capitais da poesia de Mário Faustino. Entrelaçados, esses elementos sustentam o seu timbre poderoso, erudito. A morte em Mário não é apenas um pretexto de escrita, uma vacilação. É anseio, pressentimento. A sua morte trágica em 27 de novembro de 1962, na explosão de um Boeing da Varig, confirmou a previsão de uma frenóloga de Nova York. Morreu aos 32 anos de morte anunciada e pressentida. Toda a sua obra é marcada de presságios, envolta numa aura dramática, tensa, onde a morte paira seu silêncio e vulto.

O poema Romance é exemplar dessa premonição. A respeito desta peça literária, a professora Albeniza Chaves, da Universidade Federal do Pará, se pronunciou: “O poeta experimentará situações místicas, pressentirá a proximidade do seu fim, sentirá, novo Cristo, o abandono e a traição, o peso e a ingratidão do mundo, fará, enfim, a sua via crucis sem conseguir resolver o enigma Vida-Morte, diante do qual seu sentimento é o trágico e o amor fati – aceitação heróica do destino”. Albeniza prossegue em sua análise: “Esse amor fati, ainda expressão de erotismo universal de Mário Faustino, tem algo de tragicidade inerente à atitude desafiadora do homem que procura uma estranha fé na Vida que a Morte revigora. É a confiança do ser desnudo, a fé na existência pela existência, que chega até mesmo a transformar a morte num acontecimento festivo, amado, esperado, como proclama a canção Romance: “Não morri de mala sorte/morri de amor pela morte”.

Poeta construtor, artífice, a mão suando cada verso, a palavra precisa em cada gesto, Mário – que também era jornalista – sabia das torturas que o poeta submete o vate desamparado. De nada adianta recorrer às musas simplesmente; é preciso pulsar a obra, concebê-la como universo a lapidar, suor, trabalho. Escrever – e escrever bem – é uma tarefa difícil, mas o poeta se atirou a essa penosa empreitada. Buscou em Eliot, em Pound, nos poetas da Antigüidade, as pilastras para a consumação de uma obra em vertiginosa ascensão.

Durante os anos em que editou a página Poesia Experiência, no Jornal do Brasil, mostrou sua verve crítica, a capacidade de reconhecer o verso preciso, a poesia fundamental em contemporâneos e avoengos. Comentava com precisão a metáfora ímpar e demolia sem titubear o texto empavonado e incompetente. Exigia dos autores o compromisso com a palavra, com a evolução da poesia. Exigia-lhes conhecimento do terreno, capacidade de superação.

Seu único livro publicado, O Homem e sua Hora, foi suficiente para dar a conhecer a sua voz poderosa. Poesia de tom nunca decadente, a de Mário. Em seu texto jamais o desleixo, a irresponsabilidade que conduz ao verso mal acabado à barbárie do poema sem convicção e sem unidade. Nesta edição, há bons exemplos de sua escritura. A palavra como ética, como expressão e como estética.

ROMANCE

Para as Festas da Agonia


Vi-te chegar, como havia
Sonhando já que chegasses:
Vinha teu vulto tão belo
Em teu cavalo amarelo,
Anjo meu, que, se me amasses,
Em teu cavalo eu partira
Sem saudade, pena, ou ira;
Teu cavalo, que amarraras
Ao tronco de minha glória
E pastava-me a memória
Feno de ouro, gramas raras.
Era tão cálido o peito
Angélico, onde meu leito
Me deixaste então fazer,
Que pude esquecer a cor
Dos olhos da Vida e a dor
Que o Sono vinha trazer.
Tão celeste foi a Festa,
Tão fino o Anjo, e a Besta
Onde montei tão serena,
Que posso, Damas, dizer-vos
E a vós, Senhores, tão servos
De outra Festa mais terrena
Não morri de mala sorte,
Morri de amor pela Morte.

O SOM DESTA PAIXÃO ESGOTA A SEIVA

O som desta paixão esgota a seiva


Que ferve ao pé do torso; abole o gesto
De amor que suscitava torre e gruta,
Espada e chaga à luz do olhar blasfemo;
O som desta paixão expulsa a cor
Dos lábios da alegria e corta o passo
Ao gamo da aventura que fugia;
O som desta paixão desmente o verbo
Mais santo e mais preciso e enxuga a lágrima
Ao rosto suicida, anula o riso;
O som desta paixão detém o sol,
O som desta paixão apaga a lua.
O som desta paixão acende o fogo
Eterno que roubei, que te ilumina
A face zombeteira e me arruína.
 
O MÊS PRESENTE

Sinto que o mês presente se assassina,


As aves atuais nascem mudas
E o tempo na verdade tem domínio
Sobre homens nus ao sul de luas curvas.
Sinto que o mês presente me assassina,
Corro despido atrás de cristo preso, |
Cavalheiro gentil que me abomina
E atrai-me ao despudor da luz esquerda
Ao beco de agonia onde me espreita
A morte espacial que me ilumina.
Sinto que o mês presente me assassina
E o temporal ladrão rouba-me as fêmeas
De apóstolos marujos que me arrastam
Ao longo da corrente onde blasfemas
Gaivotas provam peixes de milagre.
Sinto que o mês presente me assassina,
Há luto nas rosáceas desta aurora,
Há sinos de ironia em cada hora
(Na libra escorpiões pesam-me a sina)
Há panos de imprimir a dura face
A força do suor de sangue e chaga.
Sinto que o mês presente me assassina,
Os derradeiros astros nascem tortos
E o tempo na verdade tem domínio
Sobre o morto que enterra os próprios mortos.
O tempo na verdade tem domínio.
Amen, amen vos digo, tem domínio.
E ri do que desfere verbos, dardos
De falso eterno que retornam para
Assassinar-nos num mês assassino.
SONETO

Necessito de um ser, um ser humano


Que me envolva de ser
Contra o não ser universal, arcano
Impossível de ler

À luz da lua que ressarce o dano


Cruel de adormecer
A sós, à noite, ao pé do desumano
Desejo de morrer.

Necessito de um ser, de seu abraço


Escuro e palpitante
Necessito de um ser dormente e lasso

Contra meu ser arfante:


Necessito de um ser sendo ao meu lado
Um ser profundo e aberto, um ser amado.

Professor Heraldo Meirelles – Literatura: 3º Ano



Escola Coronel Sarmento. Alun@______________________

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