Literatura e Denúncia



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Literatura e Denúncia

A fusão e confusão entre as forças da lei e aqueles que devem ser por elas tolhidos não é fato novo. A pena de execução, tanto cruel e desnecessária, a mutilação, a tortura, não são fatos novos. Partem de vários pontos. No entanto, tornam-se mais apavorantes quando seus atores se organizam, têm uma hierarquia, uma tática e, até mesmo, um linguajar próprio. As chamadas forças da lei, sabidamente, agem com mais rigor sobre os desvalidos. Aqueles que deveriam ter o apoio do poder público são, por esse mesmo poder, tratadas com mais rigor, seus delitos são imperdoáveis. O poder coercitivo, por vezes, extrapola em suas funções, “na certeza de que a história não chegará lá”. (CUNHA, E. Os sertões)

A literatura tem, com muita freqüência, passeado por esse tema. Vitor Hugo transformou, para sempre, em referenciais os seus Quasímodo e Jean Valjean. Também assim o fizeram Dostoievsky e tantos outros. A abordagem utilizada, porém, muito difere de autor a autor, de obra a obra.. Não é em vão o protesto dos indivíduos da raça negra contra Pai Tomás. O homem simples é, aí, apresentado por demais simples. O homem-objeto foi por demais coisificado, mostrado com nulamente senhor do seu destino e, ainda mais, tomado como padrão de boa conduta.

No Brasil, também tem-se discorrido sobre os “excluídos”, com diversas abordagens :



  • O pobre dos poetas românticos é enaltecido – os excluídos de Alencar e de outros é heróico, além do que o permitiria sua miserável condição;

  • O pobre de Graciliano Ramos é petrificado – de tão petrificado, assume a cor terrosa, é o soldado amarelo de Vidas Secas; fundem-se com o solo que os produz, uma perda não só da cidadania como da humanidade; as crianças não têm nome, são o menino mais velho e o menino mais moço.

  • O pobre de Monteiro Lobato é apático, atrasado, desumanizado; seu personagem, Jeca (Tatu), de apelido de João, talvez, ou José, tornou-se sinônimo de mau gosto, fora de moda, sem elegância; não só pessoas como roupas e demais objetos podem ser jecas

  • O pobre de Lima Barreto é ressentido, desenvolve uma ira patológica; é um revoltado, infeliz, para ele não há solução, já que não só os fatores externos lhe são adversos, como ele próprio já interiorizou essa adversidade.

  • O pobre de Guimarães Rosa é, sobretudo, poético; é lírico; não sofre com as condições materiais e sim, com seus amores difíceis, suas solidões, suas questões existenciais;

  • O pobre de João Antonio é boêmio, é urbano, como também o encontramos, em Aluísio de Azevedo; vive em promiscuidade com outros de sua condição o que gera atritos, somados ao alcoolismo, desaguando na violência; em João Antonio há pungente lirismo, com toques de humor negro, enquanto que em Aluísio há pretensão cientificista, com base em teorias de Lombroso, Taine e mesmo Darwin.

Ainda teríamos a considerar a visão de José Lins do Rego, Simões Lopes Neto e tantos outros, em que os excluídos são mais peça de cenário que propriamente personagem.


Em geral, falam os autores sobre o desvalido, numa visão externa; seja por destino, seja pela maldade dos homens, seja pela própria incompetência, a pobreza é tida como irremediável, não se apontam soluções. Visando à indignação, visando à simples descrição, não se apontam causas removíveis para as situações apresentadas. São ficções românticas, com alguma base verídica, mas sempre românticas, mesmo fora do período propriamente dito romântico.
Outro enfoque é o falar de dentro como o fez Euclides da Cunha em Os sertões. Dentro geograficamente, por estar a escrever no próprio cenário dos acontecimentos; dentro historicamente, por estar a escrever ao mesmo tempo em que os fatos ocorrem; dentro socialmente, pela sua fascinação, claramente assumida, ante a natureza-cenário e o homem-ator. Nega, assim, a Providência, a Liberdade, a pessoa e parte da coletividade. Está sempre a fazer referência ao corpo ou à raça (que sofre ou vence as condições do meio natural) e aos valores por onde se mede o merecimento do homem e sua capacidade de progresso espiritual. “Quer fazer a ciência dar seu depoimento”. O empobrecimento da fala, enquanto agente exteriorizador dos processos mentais não é mais que espelho da miséria orgânica, miséria biológica, criada pelas condições de vida subumana, infra-humana a que as pessoas estão chumbadas.

Euclides também tem preocupações cientificistas. Também apresenta uma visão banhada pelas teorias de Taine, Lombroso, Darwin e, até, Marx. Na denominação das partes de que se compõe a obra já o observamos:



  1. A terra

  2. O homem

  3. A luta

Seria cada parte a conseqüência inevitável da anterior. A descrição minuciosa do terreno, da flora e da fauna não é gratuita. As pessoas são tão ásperas e desgraciosas como os elementos naturais. O habitante do sertão é tão inóspito quanto o próprio sertão.
Há uma segunda maneira de lidar com a relação entre o excluído e a escrita. Em vez de se tomar a figura do homem sem letras como objeto, procura-se entender o pólo oposto: o excluído enquanto sujeito do processo simbólico, a relação entre os agentes da cultura não letrada, quase sempre anônimos, e a palavra oral, pois o imaginário popular não deixou de se exprimir, durante séculos, porém abaixo do limiar da escrita. No conjunto, o que aconteceu foi uma verdadeira operação de passagem, pela qual o letrado brasileiro foi incorporando ao repertório do leitor culto os signos e as imagens de um estilo de vida interiorano, rústico e pobre. Valorizando estética e moralmente as tradições populares, carreava-se água para o moinho das identidades regionais e, no limite, da identidade nacional. Quanto ao uso ideológico dessa valorização do popular dependia-se e depende-se, em cada caso, da visão conservadora ou progressista do pesquisador e dos seus leitores; e é por isso que a questão da cultura popular, em termos ideológicos de regresso ou resistência, é, ainda hoje, uma questão aberta. De todo modo, formalmente, e como sistema de exceções, constituem o que se chama cultura de fronteira. É a situação, bem conhecida, dos narradores de cordel, que transpõem para letra de forma as histórias que foram, outrora, apenas recitadas ou cantaroladas por uma fieira de repentistas anônimos. Só com o tempo, a partir dos fins do século XIX, é que esses cantadores foram assumindo a condição de autores individualizados. Outro exemplo notável, e já plenamente urbano, de cultura de fronteira é o de uma favelada, apenas alfabetizada, que registrou seu cotidiano em um diário pungente, publicado em 1960 com o título de Quarto de despejo. Fala-se de Carolina de Jesus, cuja obra foi traduzida para as principais línguas cultas do mundo, reproduziu-se amplamente e atingiu um milhão de exemplares. O romancista Alberto Moravia, um dos maiores desse século, prefaciou a edição italiana. Sem dúvida, um tento difícil de se repetir. Propõe-se a desenvolver uma vertente dessa segunda maneira de ver a relação entre o excluído e a escrita. Parte da hipótese de que é possível identificar, na dinâmica dos valores vividos em contextos de pobreza, certas motivações que levem à atividade social da leitura e da escrita. Trata-se de descobrir o leitor-escritor potencial. É o excluído agindo como agente virtual da escrita, quer literária, quer não-literária. É o excluído entrando no circuito de uma cultura cuja forma privilegiada é a letra de forma. Pensando-se os passos desse itinerário, chegamos a ver melhor a zona de interseção que se estende entre a situação-de-classe e a escrita.
Obs: Jean Valjean e Quasímodo são personagens respectivamente de O corcunda de Notre Dame e os Miseráveis. Não confundir com a versão disneyana, com seu final feliz. No original de Vitor Hugo, o final não é feliz
Esses personagens de Dostoiewsky aparecem, sobretudos nas obras Crime e castigo e Recordações da casa dos mortos.
Leia mais:

BOSI, Alfredo. “A escrita e os excluídos”. On-line.

COUTINHO, Afrânio dos Santos. Euclides, Capistrano e Araripe. R..J.: Ediouro, 1967.

CUNHA, Euclydes da. Os sertões. Rio de Janeiro; Francisco Alves, 1979.

DANTAS, Paulo. Os sertões de Euclides e outros sertões. S. P. Cons. Est. de Cultura, s./d.

ROMERO, Sílvio. História da literatura brasileira. Rio de Janeiro: Ed. José Olympio, 1960.



Toledo, Roberto Pompeu de. “Os sertões e o caso Tim Lopes”. Veja, 31/07/2002, p.114.


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