Livro há dois mil anos: uma fraude histórica completa II. 2 Quem foi Públio Lêntulo?



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LIVRO HÁ DOIS MIL ANOS: UMA FRAUDE HISTÓRICA COMPLETA

II.2) Quem foi Públio Lêntulo?

Portanto, parte-se do pressuposto que, apesar de somente aparecer (ou reaparecer) a partir dos finais do séc. XIV, e de sofrer, em seu “cabeçalho”, uma série de modificações, a “carta de Lêntulo” ainda possa referir-se a algum documento autêntico da época de Cristo. A partir daí, uma série de perguntas poderiam ser feitas, e a primeira, obviamente, seria: quem foi esse Públio Lêntulo?

O cognome “Lêntulo”, na época, era exclusivo dum ramo da “gens” Cornélia – os Cornélios Lêntulos eram membros da velha aristocracia patrícia, duma “stirps” que se destacara dos antigos Cornélios Maluginenses e Cossos, sendo seu primeiro representante Sérvio Cornélio Lêntulo, filho de Gneu, neto de Gneu, cônsul em 303 aC. Seria por demais cansativo acompanhar as vicissitudes dessa família ao longo dos 300 anos seguintes, mas o fato é que ela ainda existia no início da era cristã, e mais, nos reinados de Augusto, o primeiro Imperador (31 aC – 14 dC), e de seu sucessor Tibério (14 – 37 dC) estava de novo no meio do círculo governante romano, com uma importância longe de pequena. Como o “Públio Lêntulo” autor da carta era contemporâneo de Cristo e bisneto de Lêntulo Sura, então a resumida investigação genealógica a seguir centralizar-se-á nesses dois tópicos.

II.2.1) Lêntulo Sura, o conspirador catilinário, e sua improvável progênie:

Públio Cornélio Lêntulo Sura (114 – 63 aC), com certeza neto do Públio Cornélio Lêntulo (cônsul sufeta em 162 aC), foi qüestor em 81 aC, pretor em 74 aC e cônsul em 71 aC. Sua carreira iniciou-se com algum atraso, mas isso deveu-se ao fato de estar, entre 86 aC e 82 aC, servindo sob as ordens de Sila, o Ditador, que alias o fez avançar nos cargos públicos, permitindo-lhe obter a qüestura em 81 aC; nessa ocasião, ao que se diz, comportou-se de modo extremamente corrupto, a ponto de ter sido chamado à atenção pelo próprio Sila – mas isso, aparentemente, não interferiu com seu progresso político posterior.

Apesar de ter atingido o consulado, e de sua carreira parecer estar consolidada, os ventos políticos mudaram, e ele, bem como inúmeros outros, foi enfim expelido do Senado pelos censores de 70 aC (Gneu Cornélio Lêntulo Clodiano e Lúcio Gélio Publícola), alegadamente por conduta imoral. A partir daí, a fim de recuperar-se, optou por posturas políticas mais “radicais”. Ligou-se ao grupo de descontentes que girava em torno de Lúcio Sérgio Catilina, que em 63 aC concorreu (sem sucesso) para o consulado. Mas Sura teve mais sorte, nesse ano foi eleito pretor pela 2a vez, podendo assim reassumir sua cadeira no Senado.

O grupo de Catilina advogava medidas bastante ousadas, como o cancelamento das dívidas dos pobres e o assentamento dos veteranos em lotes de terras públicas (terras essas que, muitas vezes, haviam sido apropriadas pelos grandes latifundiários). Era quase certo que as medidas não visavam o bem da população, mas serviriam apenas como trampolim para o poder; qualquer que fosse o caso, a violenta oposição dos “situacionistas”, comandados por Cícero, cônsul em 63 aC, parecia frustrar os planos de Catilina. Após um discurso bombástico contra Catilina (21 de outubro de 63 aC), no qual o acusou abertamente de conspirar contra a República, Cícero conseguiu que o Senado aprovasse a “lei marcial” (senatus consultum ultimum); diante dos fatos, e percebendo que uma tomada do poder em linhas mais ou menos legais estava agora fora de cogitação, Catilina resolveu sair de Roma (8 de novembro), e reuniu seus partidários (basicamente veteranos sem terras e proletários) em Fésulas, na Etrúria (atual Fiesole). A situação quedou-se inconclusa em Roma, já que Catilina e seu grupo possuíam muitos contatos entre os senadores, e nem todos estavam certos da existência duma conspiração. Mas isso mudaria no dia 3 de dezembro, quando documentos comprometedores chegaram às mãos de Cícero. De fato, os partidários de Catilina em Roma (entre os quais Lêntulo Sura) haviam solicitado, por escrito, apoio dos embaixadores dos gauleses alóbragos, então presentes na cidade, para um eventual levante – e essas solicitações acabaram caindo nas mãos de Cícero, o qual, enfim, pôde mostrá-las a um Senado aterrorizado como provas indiscutíveis de conspiração1[4]. Aproveitando-se do calor do momento, e da lei marcial ainda em vigor, Cícero prendeu todos os implicados (entre os quais Sura), e os fez executar (5 de dezembro). Ao saber do ocorrido, Catilina e seu exército tentaram sair da Itália, rumando para o norte, em direção à Gália. Não obstante, interceptados por forças senatoriais muito mais numerosas em Pistória (atual Pistóia), comandadas por Gaio Antônio Híbrida, o outro cônsul (tio de Marco Antônio), foram derrotados e quase todos mortos, incluindo-se o próprio Catilina, depois de renhida batalha (janeiro de 62 aC).

Essa, em resumo, é a famosa conspiração catilinária, por causa da qual Lêntulo Sura perdeu a vida. Sendo membro do “partido derrotado”, sobre ele caiu toda a espécie de acusação de vida desregrada, viciada e imoral. Obviamente, ele não era nenhum exemplo de virtude, mas praticamente nenhum político da época (talvez nem o próprio Cícero) era, e seu maior pecado, sem dúvida, foi o de ter sido derrotado. A questão que aqui se coloca, porém, é: teve Lêntulo Sura descendentes em linha masculina? Porque, segundo “Emanuel”, Públio Lêntulo, o senador contemporâneo de Cristo (e autor do “relatório” a Tibério) era bisneto de Lêntulo Sura.

Há toda a probabilidade de que Lêntulo Sura não tenha tido herdeiros masculinos que a ele sobrevivessem. Da vida pessoal de Sura, sabe-se que casou-se com Júlia, a viúva de Marco Antônio Crético (o pai do famoso Marco Antônio, o triúnviro, futuro marido da rainha Cleópatra do Egito).

Essa Júlia, filha de Lúcio Júlio César (cônsul 90 aC), havia se casado inicialmente com o já citado Marco Antônio Crético, que foi pretor em 74 aC e logo depois foi nomeado propretor com poderes extraordinários para combater os piratas orientais, de Creta e da Cilícia, entre 73 e 71 aC (daí retirou seu cognome “Crético”, ou seja, “Cretense”). Contudo, não foi bem sucedido, e morreu em campanha, deixando Júlia viúva com três filhos: o famoso Marco Antônio (o filho mais velho, nascido em 82 ou 81 aC), Gaio Antônio e Lúcio Antônio. A fim de assegurar tanto a sua sobrevivência quanto o futuro político de seus três filhos, Júlia fez o que qualquer viúva romana em sua situação faria: procurou um novo marido, politicamente conectado, que estivesse disposto a se casar com ela – e encontrou essa pessoa em Públio Cornélio Lêntulo Sura.



Todas as evidências históricas disponíveis são claras: foi Lêntulo Sura quem criou, com Júlia, os três filhos que ela tivera com Marco Antônio Crético. Isso é confirmado por Cícero, que, vários anos depois, num de seus famosos discursos contra Marco Antônio2[5], explicitamente declara, a fim de ter mais uma arma com que acusar seu inimigo, haver sido ele criado pelo conspirador catilinário. Muito da ira de Marco Antônio contra Cícero veio do fato de este último haver condenado à morte o seu padrasto de modo sumário, sem o benefício dum julgamento. Mas há mais: por ocasião da morte de Sura, foi Marco Antônio que reclamou o seu corpo e providenciou o seu enterro, como narra Plutarco no início de sua biografia de Antônio:

[I].[01] O avô de Antônio foi o famoso orador, morto por Mário por ser partidário de Sila. Seu pai foi Antônio, cognominado Crético, de fama moderada e que não se distinguiu sobremaneira na vida pública, mas, no consenso geral, um bom homem, particularmente notável por sua liberalidade, como o exemplo a seguir mostrará. [02] Ele nunca tinha sido muito rico, e, por essa razão, sempre teve sua tendência às liberalidades combatida por sua esposa; tendo, certo dia, um amigo necessitado lhe solicitado um empréstimo, e não tendo Antônio dinheiro para lhe ceder, mandou um escravo trazer-lhe água numa bacia de prata; lavou o rosto na água, como se fosse a seguir barbear-se; [03] despedindo o escravo, a pretexto de um ou outro afazer, deu a bacia ao amigo, para que a usasse conforme suas necessidades. E quando, depois, instalou-se um grande rebuliço na casa por causa da bacia desaparecida, e sua esposa estava já prestes a convocar todos os domésticos para uma busca rigorosa à peça faltante, Antônio finalmente confessou o que havia feito, pedindo-lhe perdão.

[II].[01] Sua esposa era Júlia, da família dos Césares, que, por sua prudência e comportamento honrado, não era em absoluto inferior a nenhuma das grandes matronas de seu tempo. Sob sua guarda, o jovem Antônio recebeu sua educação, tendo ela se casado novamente, após a morte do marido, com Cornélio Lêntulo, aquele que foi executado por Cícero por sua participação na conspiração de Catilina. [02] A morte do padrasto esteve, provavelmente, na origem do clima de inimizade e desconfiança que sempre imperou no relacionamento entre Cícero e Antônio. Com efeito, Antônio afirmou, mais tarde, que ao corpo de Lêntulo fora negado o enterro, e que somente por intermédio duma súplica sua dirigida à esposa de Cícero foram os restos de seu padrasto devolvidos a Júlia. [03] Isso, contudo, parece inverídico, já que a ninguém dentre aqueles executados sob o consulado de Cícero foi negada a sepultura.

(Plutarco de Queronéia, “Vidas Paralelas”, “Vida de Antônio”, capítulos I (inteiro) e II (seções 1 a 3)

Ora, essa tarefa caberia aos filhos; se o enteado, com menos de 20 anos na ocasião (Antônio nasceu em 82 ou 81 aC, e a execução de Sura deu-se nos finais de 63 aC), a tomou para si, a conclusão lógica é a de que Sura não tinha filhos vivos que pudessem assumir essa sagrada responsabilidade. Portanto, ou ele não se casou (sendo Júlia sua primeira esposa)3[6], ou, se se casou antes, não teve filhos, ou, se os teve, eles não sobreviveram à idade adulta. Portanto, torna-se bastante difícil sustentar que Públio Lêntulo, o senador romano da época de Cristo (se é que de fato existiu), pudesse vir a ser bisneto de Lêntulo Sura, o conspirador catilinário.

II.2.2) Os Lêntulos da Época Imperial:

Assim, torna-se problemático ligar “Públio Lêntulo”, o pretenso contemporâneo de Cristo, e autor do famoso “relatório” a Tibério, à progênie de Lêntulo Sura. Mas afinal haveria alguma referência, entre os Lêntulos da primeira época imperial, a algum “Públio Lêntulo” que pudesse vir a ser o autor da carta? É isso que agora se há de investigar.

A ligação entre os Lêntulos da época final da República e os Lêntulos da primeira época imperial nem sempre é tarefa fácil, mas esse problema não será abordado aqui. O pretenso bisneto de Lêntulo Sura, Públio Cornélio Lêntulo, a mais famosa encarnação de “Emanuel”, é apresentado como contemporâneo de Cristo – assim, deve ter nascido por volta do início da era cristã; com certeza (segundo a psicografia “Há Dois Mil Anos”), morreu na erupção do Vesúvio que soterrou Pompéia no início do império de Tito, ou seja, no ano 79 dC. Por conseguinte, grosso modo, Lêntulo/“Emanuel” nasceu entre, diga-se, 5 aC e 5 dC, e morreu em 79 dC. Portanto, a questão que se põe é bem simples: haveria alguma referência a um Públio Cornélio Lêntulo, entre o início da era cristã e o final do período júlio-cláudio, diga-se, entre os anos 1 e 68 dC, que possa vir a ser o famoso Públio Lêntulo contemporâneo de Cristo?

Os membros da família mais facilmente atestáveis (e identificáveis) foram aqueles que conseguiram obter a máxima honra da carreira pública, o consulado, quer o consulado ordinário, quer o consulado sufeta (substituto). A partir de 18 aC (ano em que reentraram novamente nas graças políticas, em “grande estilo”), são os seguintes os Lêntulos que foram cônsules:

 18 aC: Públio Cornélio Lêntulo Marcelino, filho de Públio, e Gneu Cornélio Lêntulo, filho de Lúcio (no ano 18 aC, ambos os cônsules foram Lêntulos – o ano é comumente designado como “ano do consulado dos Lêntulos”)

 16 aC: Públio Cornélio (Lêntulo) Cipião, filho de Públio, neto de Públio

 14 aC: Gneu Cornélio Lêntulo, o Áugure, filho de Gneu

 3 aC: Lúcio Cornélio Lêntulo, filho de Lúcio (neto de Lúcio)

 1 aC: Cosso Cornélio Lêntulo, filho de Gneu (neto de Gneu), dito Getúlico

 2 dC: (sufeta): Públio Cornélio Lêntulo Cipião, filho de Gneu, neto de Gneu

 10 dC (sufeta): Sérvio Cornélio Lêntulo Maluginense, filho de Gneu, neto de Gneu

 24 dC: Sérvio Cornélio (Lêntulo) Cétego, filho de Sérvio, neto de Gneu

 (sufeta) Públio Cornélio Lêntulo Cipião, filho de Públio, neto de Gneu

 25 dC: Cosso Cornélio Lêntulo Getúlico, filho de Cosso, neto de Gneu

 26 dC: Gneu Cornélio Lêntulo Getúlico, filho de Cosso, neto de Gneu

 27 dC: Lúcio Cornélio Lêntulo Cipião, filho de Públio, neto de Gneu

 51 dC: Sérvio Cornélio (Lêntulo Cétego Cipião) Salvidieno Orfito, filho de Sérvio, neto de Sérvio

 55 dC (sufeta): Gneu Cornélio Lêntulo Getúlico, filho de Gneu, neto de Cosso

 56 dC: Públio Cornélio (Lêntulo) Cipião, filho de Lúcio, neto de Públio

 60 dC: Cosso Cornélio Lêntulo Getúlico, filho de Cosso, neto de Cosso

 68 dC (sufeta): Públio Cornélio (Lêntulo) Cipião Asiático, filho de Públio, neto de Públio

Públio Cornélio (Lêntulo) Cipião Asiático, nomeado por Galba nos finais de 68 dC, foi o último dos Lêntulos a obter o consulado (embora não tenha sido, em absoluto, o último Lêntulo “de sangue” atestado, como se verá). Para todos os efeitos práticos, a estirpe dos Lêntulos chegou enfim à extinção, ao menos nas linhas masculinas.

Apresentar-se-ão, a partir de agora, de modo forçosamente breve e resumido, os cônsules referidos acima, mostrando-se suas ligações genealógicas, bem como alguns outros membros de suas famílias.

Para o início da era cristã, cuidadosas pesquisas genealógicas4[7] permitiram mostrar que os Lêntulos sobreviventes podem ser considerados, didaticamente, como pertencentes a três ramos distintos: a) o dos Lêntulos Clodianos, representado unicamente por Gneu Cornélio Lêntulo, o Áugure (cônsul 14 aC), filho de Clodiano; b) o dos descendentes de Lúcio Cornélio Lêntulo Níger, pretor 61 aC e flâmine de Marte, representados por Gneu Cornélio Lêntulo, filho de Lúcio (cônsul 18 aC) e por seu provável irmão Lúcio Cornélio Lêntulo, filho de Lúcio (cônsul 3 aC); c) o prolífico ramo dos Lêntulos Marcelinos, que terá de ser tratado separadamente.

Deve-se notar, antes de mais nada, que os Lêntulos Clodianos não eram, a rigor, Lêntulos de sangue, mas sim o resultado de adoção testamentária no seio dos Cláudios (quase certamente, dos Cláudios Pulcros, patrícios) – portanto, não havia qualquer ligação entre eles e Lêntulo Sura. O mesmo se pode dizer dos Lêntulos Marcelinos – eram também o resultado de adoção testamentária, desta vez no seio dos Cláudios Marcelos (plebeus), e também não exibiam ligação de espécie alguma com Lêntulo Sura. E, enfim, a estirpe de Lêntulo Níger, embora pudesse se gabar de ser “genuinamente” do sangue dos Lêntulos desde as mais antigas gerações, sem o uso do recurso à adoção testamentária, não tinha nenhuma ligação com o ramo de Lêntulo Sura5[8].

Assim, nenhum dos representantes atestados dos Lêntulos entre o início da era cristã e o final da família em linha masculina exibe a menor relação, indireta que seja, com Lêntulo Sura.

Gneu Cornélio Lêntulo, o Áugure (porque exerceu esse importante ofício sacerdotal), cônsul 14 aC, teve sua carreira favorecida pelo Imperador Augusto, gozando também da estima e da consideração de seu sucessor Tibério; a herança paterna, bem como o beneplácito imperial, fez com que se tornasse extremamente rico – uma das maiores fortunas de Roma6[9]; sabe-se também que possuía propriedades na Hispânia Tarragonense, onde ânforas de vinho com seu selo foram descobertas. Após seu consulado, comandou os exércitos romanos na fronteira danubiana, como governador da Mésia, ao norte da Ilíria (c.10 a c. 6 aC), derrotando os Getas7[10] e fazendo jus aos ornamentos triunfais (ornamenta triumphalia). Procônsul na Ásia entre 3 e 2 aC, morreu no ano 25 dC, sem herdeiros, deixando ao Imperador Tibério sua enorme fortuna.

De Gneu Cornélio Lêntulo, um dos dois Lêntulos que foram cônsules no ano 18 aC, virtualmente nada se sabe, afora o seu consulado ordinário. Quanto a Lúcio Cornélio Lêntulo, seu parente, e também progênie de Lêntulo Níger, ele ocupou o prestigioso posto sacerdotal de flâmine de Marte (flamen Martialis), foi cônsul ordinário em 3 aC e, logo depois (4-5 dC), procônsul da África. Sabe-se com certeza que morreu em terras africanas, derrotado pelos berberes Nasamões, numa das endêmicas campanhas que os romanos foram obrigados a mover contra esses nômades das fímbrias do deserto do Saara, que constantemente invadiam não apenas as regiões fronteiriças da província romana, mas também os territórios do reino-cliente da Mauritânia8[11]. Também se sabe que não teve filhos homens, mas apenas uma única filha, Cornélia, herdeira de todos os seus bens, e que haveria de se casar com Lúcio Volúsio Saturnino, cônsul sufeta em 3 dC, e já de certa idade. Ela lhe daria dois filhos: o mais velho, nascido por volta do ano 20 dC, foi Lúcio Volúsio Saturnino, o Moço, membro do colégio dos pontífices, mas que morreu relativamente jovem, por volta do ano 55 dC, sem ter tido oportunidade de ascender ao consulado; o mais novo, contudo, nascido no ano 24 ou 25 dC, Quinto Volúsio Saturnino, seria cônsul em 56 dC 9[12].

Para a morte de Lêntulo em terras africanas, bem como para o fato de ter tido uma única filha, há testemunhos diretos. Um fragmento de Dionísio o Periegeta, conservado pelo escritor bizantino do séc. XII, Eustácio, arcebispo metropolitano da Tessalônica, assim informa10[13]:



Porque eles [i.e., os Nasamões, uma tribo berbere da fronteira norte-africana] traiçoeiramente mataram Lêntulo, um general dos romanos, quando ele lá esteve, e, por essa razão, acabaram mais tarde escravizados pelos romanos.

A sua morte (e o fato de ter apenas uma filha) é também confirmada incidentalmente por uma citação nas “Instituições” de Justiniano, a respeito dos codicilos:

Ante Augusti tempora constat ius codicillorum non fuisse, sed primus Lucius Lentulus, ex cuius persona etiam fideicommissa coeperunt, codicillos introduxit. nam cum decederet in Africa scripsit codicillos testamento confirmatos, quibus ab Augusto petiit per fideicommissum ut faceret aliquid: et cum divus Augustus voluntatem eius implesset, cuius deinceps reliqui auctoritatem secuti, fideicommissa praestabant, et filia Lentuli legata quae iure non debebat solvit, dicitur Augustus convocasse prudentes, inter quos Trebatium quoque, cuius tunc auctoritas maxima erat, et quaesisse, an possit hoc recipi nec absonans a iuris ratione codicillorum usus esset: et Trebatium suasisse Augusto, quod diceret, utilissimum et necessarium hoc civibus esse propter magnas et longas peregrinationes, quae apud veteres fuissent, ubi, si quis testamentum facere non posset, tamen codicillos posset. post quae tempora cum et Labeo codicillos fecisset, iam nemini dubium erat quin codicilli iure optimo admitterentur

Institutiones, lib. II, tit. XX, “De Codicilis”



Ou seja:

Antes do tempo de Augusto, o direito referente aos codicilos não existia. Lúcio Lêntulo foi o primeiro a introduzi-lo, e através dele tiveram início também os fideicomissos. De fato, estando ele na África, onde morreu, redigiu um codicilo confirmado no seu testamento; nesse codicilo, solicitou a Augusto, por meio dum fideicomisso, que executasse um determinado ato. Dado que Augusto executou a sua vontade [i.e., aceitou a incumbência que Lêntulo lhe havia rogado, por meio do codicilo], outros foram, pouco a pouco, com o exemplo do príncipe, adicionando a seus testamentos fideicomissos, e a própria filha de Lêntulo cumpriu desse modo os legados a que juridicamente não tinha direito. Conta-se que Augusto então convocou vários juristas, dentre os quais Trebácio Testa, que então gozava de grande prestígio, e lhes colocou a seguinte questão: seria tal prática admissível, e seria o emprego de codicilos dissonante com toda a coerência da ordem jurídica? Trebácio, diz-se, persuadiu o príncipe desta maneira: fazendo-o ver que era muito útil aos cidadãos, respondendo também a uma necessidade real, dadas as longas e contínuas estadas em países estrangeiros, então muito freqüentes, o poder fazer codicilos, se não era possível fazer um testamento.

Instituições, livro II, título 25, “Sobre os Codicilos”.



Originariamente um fideicomisso (fideicommissum) era um pedido dum testador a seu herdeiro para que cumprisse determinado ato (usualmente o pagamento duma soma de dinheiro, ou a transferência duma propriedade, para um terceiro). Os codicilos (codicili – o termo é sempre usado no plural) eram um documento escrito, mas sem as formalidades testamentárias, por um testador para que determinadas vontades suas fossem implementadas após a sua morte (exceto a instituição de herdeiro). Normalmente, os codicilos continham disposições fideicomissárias, mas havia uma diferença entre um legado (obrigação ao herdeiro) e um fideicomisso, que era a disposição duma última vontade, efetuada em termos de requerimento, e cuja execução era deixada à lealdade do onerado. O Imperador deu aos codicilos que continham disposições fideicomissárias um caráter juridicamente vinculante, como se legados fossem, tornando-os assim testamento confirmati e equiparando-os a legados.

Agora, resta examinar os Lêntulos da época imperial descendentes dos Lêntulos Marcelinos, ou seja, descendentes do casamento de Públio Cornélio Lêntulo Marcelino, monetalis 101 aC, e de Cornélia, filha de Públio Cornélio Cipião Násica Serapião, cônsul 111 aC. Marcelino era, ele mesmo, um plebeu (dos Cláudios Marcelos), adotado testamentariamente por um filho (Públio Cornélio Lêntulo) daquele Lêntulo Lupo que havia sido cônsul em 156 aC – portanto, embora utilizassem o gentílico e o cognome de “Cornélios Lêntulos” patrícios, os Lêntulos Marcelinos eram tecnicamente plebeus. A partir do casamento do primeiro dos Marcelinos com a filha dum Cipião, patrício, todos os seus descendentes passaram a reivindicar ascendência cipiônica e, cada vez mais, a se agarrar a essa pretensão. No início da era cristã, havia, entre os Lêntulos Marcelinos, três sub-ramos distintos: a) o dos “Cipiões”, descendentes do filho mais velho do casamento do primeiro Marcelino com Cornélia, Públio Cornélio Lêntulo Marcelino, questor propretoriano 75-74 aC; b) o dos “Getúlicos”, oriundos do filho mais novo do casamento, Gneu Cornélio Lêntulo Marcelino, cônsul 56 aC, por meio do filho mais velho deste último, Gneu Cornélio Lêntulo, que lutou na Sicília; c) enfim, o dos “Escribonianos”, logo extintos, que descendiam também do cônsul de 56 aC, mas por meio do filho mais novo deste, Lúcio Cornélio Lêntulo, cônsul sufeta 38 aC e, ao que tudo indica, marido da famosa Scribonia Caesaris. De todos, os mais importantes foram, sem dúvida alguma, os Getúlicos.

Começando pelos “Escribonianos”: Lúcio Cornélio Lêntulo, cônsul sufeta em 38 aC, filho mais novo de Gneu Cornélio Lêntulo Marcelino (cônsul 56 aC), foi o pai (provavelmente tendo Escribônia como esposa) de Gneu Cornélio Lêntulo, o outro dos dois Lêntulos que foram cônsules em 18 aC, e de mais uma Cornélia. De Lêntulo não se conhecem descendentes, mas Cornélia casar-se-ia com Paulo Emílio Lépido, e sua filha sobrevivente, Cornélia Emília Lépida, haveria, como visto, de se casar com Lúcio Cornélio Lêntulo, o flamen Martialis. Isso resume os Escribonianos.

Segue-se agora para os “Cipiões”. Públio Cornélio Lêntulo Marcelino, sobrinho do cônsul de 56 aC, foi pretor em 29 aC; deve ter morrido logo depois, por não ter podido ascender ao consulado, mas teve um filho, Públio Cornélio (Lêntulo) Cipião, que seria cônsul em 16 aC. Lêntulo Cipião preferiu usar a nomenclatura mais simples, embora mais impressionante, de “Públio Cornélio Cipião”, deixando cair em desuso o cognome “Lêntulo”. Após o seu consulado, foi procônsul da Ásia, ao que tudo indica por dois turnos (12-11 aC e 11-10 aC)11[14]; e moedas foram cunhadas com a sua efígie pela cidade asiática de Pitane12[15].














O filho desse Cipião foi o seu homônimo Públio Cornélio Cipião, cuja carreira (bem como a de seu filho, neto do primeiro Cipião) pode ser reconstituída com razoável detalhe a partir duma famosa inscrição13[16] encontrada na 2a metade da década de 1960 no Vaticano14[17], que é reproduzida a seguir, juntamente com a sua reconstituição15[18]:












Pela inscrição, da época de Tibério, tem-se que Cipião iniciou sua carreira como decênviro para julgamento de assuntos relativos à cidadania (decemvir stlitibus iudicandis), um posto júnior (talvez c. 1 dC); depois, foi questor com poderes propretorianos (i.e., governador em exercício) na Acaia (Grécia) em 2-3 dC16[19]; de retorno a Roma, exerceu as funções de tribuno da plebe, e depois de pretor (talvez c. 7 dC); tendo alçado a pretura, atuou, logo após, com o título apropriado de procônsul, como governador numa província senatorial (provavelmente 12-13 dC)17[20], seguindo-se serviço na fronteira do Reno, como legado (i.e., comandante de uma legião – provavelmente a II Augusta, na qual seu filho também servia – ver próximo parágrafo), nos últimos tempos de Augusto e nos primeiros de Tibério (c.14 a c.16 dC)18[21]. Se, com essa notável ficha de serviços, não ascendeu ao consulado, isso significa que morreu antes de fazê-lo.

O filho desse Cipião, Públio Cornélio Cipião Orestino, é mencionado na inscrição mais à esquerda, que, reconstituída, permite constatar que, após acompanhar o futuro Imperador Tibério à fronteira do Reno (c. 10-12 dC), iniciou formalmente sua carreira do mesmo modo que o pai, como decemvir stlitibus iudicandis (talvez c. 13-14 dC), prestando depois serviço militar como tribuno da 2a legião (provavelmente entre os anos 14 e 16 dC) – quase certamente, essa seria a II Augusta, anteriormente na Espanha19[22] mas desde 9 dC transferida para a fronteira germânica do Reno, e, a partir de 17 dC, definitivamente estacionada em Argentorate (a atual Estrasburgo), até 43 dC, quando fez parte da invasão romana da Britânia, onde permaneceria a partir de então. Como o pai, não ascendeu ao consulado, e mais, não seguiu o resto da carreira senatorial normal (p.ex., não obteve sequer uma pretura), o que faz crer que tenha morrido relativamente novo – talvez pouco depois do pai; de qualquer forma, não se conhecem representantes posteriores, e com ele extinguiu-se esse sub-ramo, ao menos na linha masculina. O agnome de Cipião, “Orestino”, pode indicar que a sua mãe era uma Lívia Orestina (ou Orestila); de fato, o próprio Orestino foi o pai de Cornélia Lívia Orestina (ou Orestila), que seria a 2a esposa do Imperador Calígula20[23].

Falta agora examinar os Getúlicos.

O filho mais velho de Gneu Cornélio Lêntulo Marcelino, cônsul 56 aC, é, certamente, o Gneu Cornélio Lêntulo atestado como comandando, para Otaviano (o futuro Augusto), uma frota na Sicília c. 30 aC21[24]. O filho desse almirante foi seu homônimo Gneu Cornélio Lêntulo, que exerceu o cargo de “questor de César” (quaestor Caesaris) nalguma data entre 30 e 28 aC na Acaia (Grécia), atestado numa inscrição de Delfos22[25]. Note-se que nenhum dos dois atingiu o consulado. Para o almirante, isso se deve, quase certamente, à agitada época da última fase das guerras civis; quando, após o triunfo de Otaviano (Augusto), o caminho lhe estaria aberto, é provável que tenha morrido. Para o questor23[26], uma carreira promissora estava despontando; o fato de ele não ir além, e de desaparecer da História, aponta, mais uma vez, para uma morte prematura.

O questor imperial teve – e isso já está razoavelmente estabelecido – três filhos: Cosso Cornélio Lêntulo, Públio Cornélio Lêntulo Cipião e Sérvio Cornélio Lêntulo Maluginense. Os nomes (e cognomes) que escolheu para os filhos são notáveis – “Cosso”, “Cipião” e “Maluginense” são antigos cognomes da gens Cornélia. Os Cossos e os Maluginenses foram as mais antigas stirpes dos Cornélios, e estavam há muito extintas; quanto aos Cipiões, o questor era, por sangue (convém não esquecer esse detalhe), um Lêntulo Marcelino, portanto reivindicando ascendência cipiônica a partir de sua antepassada, a filha de Públio Cornélio Cipião Násica Serapião, cônsul 111 aC, que se havia casado com Públio Cornélio Lêntulo Marcelino, monetalis 101 aC,.

Dos três, o mais notável foi Cosso – amigo pessoal tanto de Augusto quanto de Tibério. Ele começou sua carreira como monetalis c. 12 aC (suas moedas ostentam tanto a efígie de Augusto quanto a de Agripa, o mais competente general de sua época, fiel partidário de Augusto desde o início e casado com sua filha Júlia; a efígie de Agripa ostenta uma dupla coroa naval e mural, fato que se deve ligar às homenagens prestadas ao grande general por ocasião de sua morte, em 12 aC24[27]); exerceu o ofício sacerdotal de qüindecênviro para assuntos sagrados (quindecimvir sacris faciundis), galgou todos os postos até ao consulado ordinário em 1 aC, seguindo-se o proconsulado da África entre 5 e 7 dC. Permaneceu no favor tanto de Augusto quanto de seu sucessor Tibério, sendo nomeado em 33 dC prefeito urbano de Roma – exercia esse prestigiosíssimo cargo quando morreu, de morte natural, em 36 dC.

O ponto central de sua carreira foi a sua atuação como procônsul da África, entre os anos 5 e 7 dC – justamente após a derrota e morte de Lúcio Cornélio Lêntulo, o flamen Martialis, naquela província, nas mãos dos berberes Nasamões. Ao contrário de Lúcio, porém, as campanhas de Cosso foram coroadas de sucesso, tendo ele derrotado os Musolanos e os “Gétulos” (este último um nome genérico para todos os berberes) ao longo da fronteira romana do Saara e no próprio reino-cliente da Mauritânia, recebendo enfim (6 dC) os ornamentos triunfais (ornamenta triumphalia) e o direito de usar o nomen triumphalis de Getúlico (Gaetulicus) – direito esse que não exerceu, mas que passou aos seus descendentes25[28]. Apenas para constar, deixando a palavra a Orósio:

E então, na África, quando os Musolanos e os Gétulos atacaram tais regiões, Cosso, general de César, reduziu seus territórios, confinou-os, e compeliu-os, por medo, a manterem-se distantes das fronteiras fortificadas dos romanos.

(Paulo Orósio, “Histórias Contra os Pagãos”, livro VI, cap. 21, par. 18)



Adicionalmente, as campanhas de Cosso são atestadas epigraficamente, a partir da inscrição26[29] encontrada em Lépcis a Grande (Lepcis Magna), na Tripolitânia (atualmente o campo de ruínas de Labdah ou Lebdah, na Líbia), cuja ilustração27[30], transcrição e tradução seguem:












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