Livros históricos



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CONTEÚDO E DIVISÃO O que melhor se nota, ao determinar a estrutura dos livros de SAMUEL, é que os cap. 1-12 apresentam claras afinidades com o livro dos Juízes e que os cap. 1-2 de 1 Rs parecem o prolongamento lógico de 2 Sm 9-20. A actual divisão interna corta o relato da morte de Saul (1 Sm 31; 2 Sm 1) e, sobretudo, a unidade mais ampla da "subida de David ao trono" (1 Sm 16; 2 Sm 5). Apesar disso, a obra apresenta-se como uma unidade literária, histórica e teológica, ligada por três protagonistas: Samuel, Saul e David. 

O seu conteúdo poderá ser dividido nas secções que apresentamos seguidamente:

I. Infância de Samuel; a Arca e os filisteus
: 1 Sm 1,1-7,17;
II. Realeza - Samuel e Saul: 1 Sm 8,1-15,35;
III. Subida de David ao trono: 1 Sm 16,1 a 2 Sm 5,25;
IV. David e a Arca; êxitos de David: 2 Sm 6,1-8,18;
V. Sucessão de David: 2 Sm 9,1-20,26; ver 1 Rs 1-2;
VI. Vários apêndices: 2 Sm 21,1-24,25.
FONTES A crítica literária detectou a existência de fontes documentais e tradicionais diversas, as quais, unidas a elementos redaccionais de origem deuteronomista, seriam os materiais dos livros de SAMUEL. Relativamente à sua antiguidade, há concordância quanto a reconhecer-lhes uma aproximação aos factos, embora no estado actual já sejam resultado de diversos retoques sofridos na época salomónica e, inclusive, exílica. Entre as unidades mais importantes e antigas estariam os relatos da sucessão de David (2 Sm 9-20) e da sua ascensão ao trono (1 Sm 16,1-13; 2 Sm 5,5; 8,1-18), ainda que este apresente maiores problemas: há duas versões da entrada de David ao serviço de Saul (1 Sm 16,14-23; 17,55-58), e dos relatos do atentado falhado de Saul contra David (1 Sm 18,10-11; 19,9-10), da intervenção de Jónatas a favor de David (1 Sm 19,4-7; 20,1-42), da chegada de David à terra filisteia (1 Sm 21,11-16; 27,1-12), do perdão de David a Saul (1 Sm 24 e 26) e das denúncias dos habitantes de Zif (1 Sm 23,19; 26,1). 

Na mesma linha, poderiam situar-se as tradições favoráveis a Saul (1 Sm 9-11; 13-14; 31), a história da Arca (1 Sm 4-6; 2 Sm 6) e o núcleo inicial da profecia de Natan (2 Sm 7). Pode também considerar-se como fontes a documentação oficial da corte, de que seriam reflexo as listas dos filhos de David (2 Sm 3,2-5; 5,13-16), dos oficiais de David (2 Sm 8,16-18; 20,23-26), dos heróis de David (2 Sm 23,8-39) e dos gigantes filisteus, a quem venceram (2 Sm 21,15-22), os resumos das campanhas de David e Saul (1 Sm 14,47-52; 2 Sm 5,17-25; 8,1-14), o recenseamento do povo e a compra da eira de Arauna (2 Sm 24,16-23). 
A estas unidades se teriam juntado, por volta do séc. VIII, novos materiais aparecidos em círculos proféticos. Podem colocar-se neste período as tradições sobre a infância de Samuel (1 Sm 1-3), a rejeição de Saul (1 Sm 13,7b-15a; 15), a unção de David (1 Sm 16,1-13), o combate entre David e Golias (1 Sm 17) e o relato da vidente de En-Dor (1 Sm 28,3-25). 
Outras unidades menores isoladas, como dois salmos (1 Sm 2,1-10; 2 Sm 22), duas lamentações de David (2 Sm 1,19-27; 3,33-34) e um oráculo (2 Sm 23,1-7) foram sendo integradas na obra, ao longo do seu processo de formação.

MENSAGEM TEOLÓGICA Os livros de SAMUEL fazem parte de um grande projecto teológico, conhecido como "História Deuteronomista". Designa-se assim o trabalho de reflexão histórico-teológico realizado cerca do ano 550 a.C. por um grupo de teólogos, guiados ideologicamente pelos princípios da teologia do Deuteronómio, a partir de fontes plurais e heterogéneas preexistentes, orais e escritas. O seu propósito não era apresentar uma "exposição neutral" da História, mas afirmar a sua "importância teológica" a partir da dolorosa experiência do desterro na Babilónia (586 a.C.).

Esta história está estruturada em quatro grandes etapas: conquista da terra (Josué), confederação tribal (Juízes), instituição da monarquia (SAMUEL), desenvolvimento e final dramático da monarquia (Reis). Trata-se de uma "releitura histórica" destes acontecimentos. Os elementos redaccionais, ainda que mais perceptíveis em Juízes e Reis, não estão ausentes nos livros de SAMUEL (1 Sm 2,22-36; 4,18; 7; 8; 10,17-27; 2 Sm 2,10-11; 5,4-5; 7). Dentro deste projecto teológico, os livros de SAMUEL sublinham três aspectos: a origem, a natureza e as exigências da monarquia em Israel, a importância do profeta, como intérprete e mediador de Deus, e a centralidade política e religiosa de Jerusalém.

1. Origem, natureza e exigências da monarquia israelita: a introdução da monarquia em Israel, como forma de governo, não esteve isenta de reticências e ambiguidades: podia supor um afastamento de Javé, o único e verdadeiro Senhor. Além disso, os modelos monárquicos existentes em redor de Israel implicavam certa divinização do rei, e adoptá-los supunha um risco acrescentado por causa das estruturas da religião javista. O equívoco desfaz-se porque o próprio Senhor dá a sua aprovação. No entanto, permanece claro que a monarquia israelita não é democrática nem autocrática, mas teocrática. Tanto Saul como David (e Salomão) são "ungidos" de Deus e "obrigados" a manter-se submissos à sua vontade, pois Deus é o verdadeiro rei do povo.

2. Importância do profeta: o profeta aparece como contraponto do poder monárquico; é a memória constante do senhorio de Deus. Face à tendência institucional (2 Sm 7), significa o elemento carismático; e, perante a pretensão absolutista do poder, assegura a consciência crítica (2 Sm 12). Samuel e Natan encarnam, de maneira especial, essas funções. A História, em todas as suas instâncias (políticas, sociais, religiosas), deve estar aberta ao juízo de Deus; e o profeta é o instrumento de que Deus se serve para isso.

3. Centralidade de Jerusalém: convertida por Deus em capital política e religiosa, Jerusalém passa a ser um dos sinais de identidade mais importantes do judaísmo. Embora a sua importância política tenha decaído, a sua estrutura religiosa adquiriu grande desenvolvimento. A teologia de Sião, expressa nos chamados "Cantos de Sião" (Sl 46; 48; 76; 87) e em grande parte da pregação de Isaías, é uma prova disso. Os livros de SAMUEL sublinham intencionalmente estes aspectos (2 Sm 5; 6; 24,18-25). Por isso, Jerusalém será também o centro de todas as instituições teológicas de Israel até ao Apocalipse (Ap 21-22).

Reis

Segundo o texto original e a antiga tradição hebraica, estes dois livros constituiriam uma só obra, que descreve a história da monarquia hebraica desde a subida de Salomão ao trono até à conquista e destruição de Jerusalém por Nabucodonosor, em 586 a.C. É à antiga tradução grega dos Setenta que se fica a dever esta divisão em dois livros, a qual acabou por ser transposta igualmente para a divisão e numeração do próprio texto original hebraico.
Aliás, a consciência da unidade dos conteúdos levou os Setenta a ligarem estes dois LIVROS DOS REIS com outros dois que em hebraico se chamam os Livros de Samuel e que também tratam dos inícios da monarquia. E assim, tanto nos Setenta como nas traduções latinas e modernas, inspiradas em certos aspectos por aquelas antigas traduções, o 1.° e 2.° Livros de Samuel eram designados 1.° e 2.° livros dos Reis. Por isso, os livros 1.° e 2.° dos REIS do original hebraico ficavam a chamar-se 3.° e 4.° dos Reis. Actualmente voltou a estar mais em uso a denominação que vem da tradição hebraica. A leitura do Antigo Testamento aproximou-se geralmente do texto oferecido pelo original hebraico. Mas a opção dos Setenta implica uma leitura perfeitamente plausível.

HISTORICIDADE A actual redacção dos LIVROS DOS REIS não pretende apresentar uma simples e despretensiosa historiografia da monarquia hebraica. Apesar disso, os dados históricos referidos e os seus contextos concordam bem, no geral, com a imagem quer dos dados da Arqueologia quer das numerosas fontes extra-bíblicas que hoje se podem aproveitar e comparar. O quadro internacional em que se desenvolve esta História, à sombra da sucessiva hegemonia do Egipto, da Assíria e da Babilónia como impérios dominantes e condicionantes, corresponde fielmente à imagem real que a História do Próximo Oriente Antigo nos oferece. No entanto, mantêm-se em aberto alguns complexos problemas de cronologia relativamente aos dois reinos.

HISTÓRIA LITERÁRIA Os LIVROS DOS REIS são parte nuclear de uma das unidades literárias mais influentes na Bíblia, além do Pentateuco: a História Deuteronomista, empreendimento de grande vulto e enorme repercussão em Israel. Por isso, a questão histórica da sua redacção fica envolvida na complexidade das hipóteses levantadas e muito discutidas sobre autores, lugares e datas daquela História.

Entre as muitas hipóteses propostas, é consensual considerar-se que os principais momentos de redacção dos LIVROS DOS REIS se devem situar entre a parte final da monarquia, sobretudo depois do reinado de Josias, e algumas dezenas de anos depois de terminado o Exílio. Em suma, o choque do Exílio e os tempos de cativeiro na Babilónia foram muito marcantes no processo da redacção destes livros.

Para essa redacção foram utilizadas fontes escritas relativas à História dos reis das monarquias hebraicas, nomeadamente a História de Salomão (1 Rs 11,41), a Crónica da Sucessão de David (1 Rs 1-2), o livro dos Anais dos Reis de Israel e de Judá, frequentemente citados no texto actual, além de outras fontes documentais neles referidas, mas hoje desconhecidas (1 Rs 5,7-8). Outras narrativas, como as de Elias e Eliseu, provavelmente, já existiam também antes de serem integradas na redacção deuteronomista.

CONTEÚDO E DIVISÃO Versando sobre a história dinástica de Israel, o conteúdo dos LIVROS DOS REIS divide-se em três fases principais:

Em 1 Rs 1-11 descreve-se o reinado de Salomão: com alguma pompa e pormenor, narram-se as vicissitudes e os jogos de corte, por ocasião da sua designação para a sucessão, na dinastia de David, a grandeza do seu reinado, a sua sabedoria e riquezas. 
No final, e quase em ar de transição, como quem abandona um recinto de festa, são-lhe feitas algumas críticas, apresentadas como causas do desmoronamento da realeza única, levando à separação dos dois reinos antes unificados.

De 1 Rs 12-2 Rs 17 decorre a parte mais longa deste conjunto, que apresenta a História paralela dos dois reinos separados: o do Norte, também chamado de Israel ou da Samaria, e o do Sul, também referido como de Judá ou de Jerusalém. O fio condutor desta História é a exposição paralela das duas séries de reis que personificavam, a cada momento, as dinastias dos Hebreus. O esquema de apresentação é uniforme para quase todos, traduzindo o essencial da sua biografia política e, muito particularmente, a qualificação de bom ou mau rei, segundo os critérios religiosos de valor sistematicamente aplicados. 
Algumas das mais significativas interrupções deste esquema rígido acontecem com o aparecimento de personagens especiais, sobretudo Elias e Eliseu (1 Rs 17-2 Rs 13). As suas histórias tratam não apenas dos dois profetas mais prestigiados desta primeira parte da monarquia, mas de duas personagens cuja actividade profética influenciou as opções tomadas por alguns reis, condicionando o destino da própria monarquia hebraica.

A parte final (2 Rs 18-25) constitui quase um epílogo sobre a ameaçada sobrevivência da dinastia davídica de Jerusalém e a sua dramática destruição. É intensa e dramática, tanto pelos efeitos imediatos do cataclismo da Samaria, como pelas necessidades de reforma que constituíram uma reacção a médio prazo às mesmas preocupações, e pelos sinais cada vez mais claros da próxima destruição de Jerusalém, cujos sinais se tornavam cada vez mais evidentes.

Assim, teríamos nestes dois livros as partes seguintes:


I. Fim do reinado de David e reino de Salomão: 1 Rs 1,1-11,43;

II. Divisão do Reino. Reis de Israel: 1 Rs 12,1-22,54;

III. Fim da História Sincrónica de Israel e Judá: 2 Rs 1,1-17,41;

IV. Fim do reino de Judá: 2 Rs 18,1-25,30.


TEOLOGIA Com esta redacção deuteronomista dos LIVROS DOS REIS parece ter-se pretendido fazer uma espécie de exame de consciência sobre o comportamento dos reis de Israel e de Judá, pois nele se espelhava o destino de todo o povo. Procurava-se uma explicação das desgraças que, nos últimos tempos, se tinham abatido sobre o povo de Israel e a sua imagem de identidade - a monarquia, o templo e a capital. É que a maior parte dos seus reis fez "o que era mal aos olhos do SENHOR". Podendo representar práticas variadas, este pecado, na linguagem do Deuteronomista, parece referir-se sobretudo à tolerância e aceitação dos cultos prestados a deuses estrangeiros (1 Rs 11,1-10.33; 14,22-24); mas também caracteriza os actos de culto a Javé, realizados em santuários fora de Jerusalém (1 Rs 12,26-33). É sobretudo este o pecado de Jeroboão, frequentemente referido (1 Rs 13,34; 14,16; 15,30; etc.). 

A História Deuteronomista é adepta da centralização do culto em Jerusalém. Por isso, além de David, como "fundador" do templo de Jerusalém, e de Salomão, como seu construtor, somente Ezequias e Josias, reformadores do culto no sentido pretendido pelo deuteronomista, são objecto de elogios. E assim, os LIVROS DOS REIS, que, pelo seu tema histórico, poderiam parecer de pouca importância para o pensamento religioso de Israel, acabam por se encontrar no centro de uma das mais marcantes Teologias da História que dão conteúdo à Bíblia.

As suas ideias são, por isso, muito semelhantes às do Deuteronómio: o templo de Jerusalém deve ser o centro geográfico e cultual da religião hebraica. Esta especificidade religiosa dos LIVROS DOS REIS explica o facto de, na tradição hebraica, serem integrados no âmbito dos "Profetas anteriores". A importância que os profetas como Elias, Eliseu e até Isaías têm ao longo destes livros simboliza bem o seu alcance religioso.

Na História Deuteronomista, estes livros assumem a realeza como uma grande instituição da religião de Israel, apesar do dramatismo com que apresentam as infidelidades da maior parte dos reis para com o javismo. Ao assumirem a realeza como instituição que interfere profundamente no domínio religioso, oferecem a referência histórica essencial para a ideia do messianismo.


Crónicas


Normalmente as traduções da Bíblia apresentam apenas uma introdução para os dois livros das CRÓNICAS, porque na Bíblia hebraica eles constituíam um todo, num único livro chamado "Dibrê hayyamîm" (Anais). A Bíblia grega dos Setenta chamou-lhes "Paralipómenos", isto é, coisas transmitidas paralelamente, porque boa parte do seu conteúdo constava já dos livros de Samuel e Reis.

CONTEXTO HISTÓRICO Deve tratar-se de uma obra da segunda metade do séc. IV, entre 350-250 a.C.; no entanto, reflecte a restauração religiosa do reino de Judá, depois do exílio da Babilónia, nos fins do séc. VI a.C.. 

Nesta História têm lugar de relevo a tribo de Judá (que é a tribo de David), a tribo de Levi (por causa de Aarão, o protagonista do sacerdócio e do culto divino) e a tribo de Benjamim (à qual pertence a família de Saul, e em cujo território está implantado o templo). 
Isto explica o silêncio acerca do reino do Norte, ou Israel, e a omissão de muitas coisas - sobretudo as negativas referentes a David - que se encontram noutros livros históricos, especialmente nos de Samuel. David e Jerusalém, com o seu templo, estão no centro das CRÓNICAS, tal como Moisés e o Sinai estão no centro do Pentateuco e da História Deuteronomista.

DIVISÃO E CONTEÚDO As CRÓNICAS visam apresentar a grande História do povo de Israel. Por isso, no seguimento do Pentateuco, estão na linha dos livros de Josué, Juízes, 1 e 2 Samuel, 1 e 2 Reis (História Deuteronomista) e de Esdras e Neemias. Constituem, com Esdras e Neemias, um conjunto chamado "Obra do Cronista". Além de terem o mesmo estilo e pensamento, os últimos versículos de 2 Cr (36,22-23) repetem-se no início de Esdras (Esd 1,1-3).

Como dissemos, no centro destes livros está David e o seu reinado, para o qual converge toda a História precedente, e radicam, não só a organização do povo como, sobretudo, as estruturas cultuais do templo. O seu conteúdo pode resumir-se deste modo:



I. História do povo desde Adão até David (1 Cr 1,1-10,14). É como que a pré-história de David, com início em Adão, constituída quase totalmente por listas genealógicas, algumas das quais vão até ao pós-exílio (cap. 1-9). Termina com a morte de Saul (cap. 10). A genealogia, ou sucessão de gerações, era um género literário frequente na Bíblia e nas culturas antigas, como forma de exprimir a fé na presença da divindade nos meandros da História dos homens. Mas não se lhe exija o rigor da árvore genealógica dos tempos modernos: os nomes que a integram podem exprimir apenas vagas relações de parentesco ou de simples vizinhança, afinidades de ordem política e económica; por vezes, nomes de povos e de regiões passam a ser nomes de pessoas.

Para os hebreus, era através da genealogia que alguém podia tornar-se participante das bênçãos prometidas por Deus a Abraão. As listas das CRÓNICAS veiculam a promessa messiânica, de que David é sinal privilegiado. Estas genealogias afirmam, ainda, a importância do princípio da continuidade do povo de Deus através de um período de ruptura nacional, causada pelo exílio na Babilónia, e fundamentam a esperança da restauração. 

II. História de David
 (1 Cr 11,1-29,30). Faz-se a História do reinado de David desde a sagração e a entronização até à sua morte, dando especial relevo à actuação do rei nos preparativos para a construção do templo e a organização do culto litúrgico.

III. História de Salomão
 (2 Cr 1,1-9,31). Destaca-se a sua sabedoria, a construção e dedicação do templo de Jerusalém e outros acontecimentos já narrados em 1 Rs. Termina com a morte de Salomão.

IV. História dos reis de Judá (2 Cr 10,1-36,23). Começa com a divisão do reino davídico, depois da morte de Salomão, e termina com o édito de Ciro, após um relato resumido da actividade dos reis de Judá.

FONTES LITERÁRIAS E OBJECTIVO Aonde foi o Cronista buscar todo este material? As genealogias (sobretudo 1 Cr 1-9) estavam nos livros do Génesis, Êxodo, Números, Josué e Rute; Samuel e Reis - por vezes transcritos textualmente - forneceram-lhe grande parte do restante material histórico.

Mas o autor tem ainda as suas próprias fontes literárias, às quais acrescenta a reflexão pessoal, colocando-a, por vezes, na boca de grandes personagens sob forma de discursos. É o caso da organização davídica do culto em Jerusalém (1 Cr 22-26) e das reformas religiosas dos reis Asa e Joás (2 Cr 15 e 24). Quanto aos discursos, ver, por exemplo: 1 Cr 28,2-10; 29,1-5.10-19; 2 Cr 12,5-8; 13,4-12; 15,2-7; 21,12-15; 30,6-9. 

Tudo foi utilizado nesta perspectiva: pôr em relevo Judá, sobretudo o rei David e a cidade de Jerusalém. Para isso, o Cronista engrandece os aspectos positivos e elimina os negativos; retoca e adapta este e outro material, a fim de fazer sobressair as preocupações teológicas.

TEOLOGIA O lugar central da dinastia davídica na História de Israel é a ideia teológica mais importante do Cronista. As genealogias de 1 Cr 1-9 preparam-na; o resto do 1.° livro (11-29) está inteiramente consagrado a David e à sua actividade, tanto profana como litúrgica; o 2.° livro é a História dos descendentes de David, que devem ver nele o rei modelo e o ponto de referência da fidelidade a Deus e ao povo. Seu filho Salomão é idealizado por ter construído o templo de Jerusalém e ter cumprido, assim, o testamento de David seu pai.
O relevo dado ao culto e ao templo é complementar daquela ideia teológica. Por isso, o Cronista dá maior atenção aos reis que se preocuparam com o culto do templo ou o reformaram: além de David e Salomão, os reis Asa (2 Cr 14-16), Josafat (2 Cr 17-20) e, sobretudo, Ezequias (2 Cr 29-32) e Josias (2 Cr 34-35). Esta mesma atenção é dada pelos livros de Esdras e Neemias aos ministros do culto: Aarão e os sacerdotes e levitas (1 Cr 9; 15-16; 23-26; 2 Cr 29-31; 35; Ne 12); mas só o Cronista atribui aos levitas o título e a função de profetas (1 Cr 25,1-8).

Por isso, poderá pensar-se num levita ou num grupo de levitas como autores desta obra.
O facto de o Cronista se cingir ao reino do Sul, aos seus reis e ao seu culto, poderá indiciar uma certa atitude polémica em relação ao Norte: a Samaria, que há muito se havia afastado do culto ao Deus verdadeiro. Mais um sinal de que a fidelidade a Deus, manifestada no cumprimento da Lei e no ritual do culto de Jerusalém, constitui o propósito fundamental desta obra.


Esdras e Neemias


Os livros de ESDRAS e de NEEMIAS formavam um só "Livro de Esdras", na Bíblia Hebraica e na versão grega dos Setenta. Como esta versão recolhia também o livro apócrifo grego de Esdras e lhe dava o primeiro lugar (1 Esdras), o livro de ESDRAS-NEEMIAS era denominado 2 ESDRAS. Na época cristã foi dividido em dois. A Vulgata latina adoptou essa divisão em 1 Esdras (=ESDRAS) e 2 Esdras (=NEEMIAS), reservando ao apócrifo grego a designação de 3 Esdras. A designação dos dois livros a partir das respectivas personagens principais, Esdras e Neemias, é mais recente, mas foi assimilada mesmo nas edições impressas da Bíblia massorética.

AUTORIA E DATAÇÃO Não é dada qualquer indicação sobre o autor destes livros, mas admite-se ser um só: o mesmo chamado Cronista, que redigiu e compôs a vasta síntese histórica dos dois livros das Crónicas, seguidos de ESDRAS E NEEMIAS. Um dos indícios mais significativos é a identidade entre os últimos versículos de 2 Crónicas (36,22-23) e os primeiros versículos de ESDRAS (1,1-3), o que sugere a continuidade da narrativa. Pode, assim, situar-se esta obra nos finais do séc. IV ou início do séc. III a.C..

QUESTÃO CRONOLÓGICA Discute-se qual dos dois deverá ser colocado em primeiro lugar. Muitos preferem a sucessão NEEMIAS-ESDRAS; mas ainda não se encontrou uma solução satisfatória para estabelecer a cronologia dos acontecimentos em questão. O texto fala da chegada de Esdras a Jerusalém, no sétimo ano do rei Artaxerxes (Esd 7,7) e indica a sua actividade reformadora (Esd 8-10); depois, vem Neemias, no vigésimo ano de Artaxerxes (Ne 2,1) e a sua preocupação pela reconstrução das muralhas (Ne 1-7); surge outra vez Esdras, para a leitura solene da Lei (Ne 8-9); e, finalmente, Neemias, por ocasião de uma segunda estadia em Jerusalém, no ano 32.° de Artaxerxes (Ne 13,6-7).

Teriam estado estes dois homens ao mesmo tempo em Jerusalém, a trabalhar independentemente? A resposta mais aceitável é a seguinte: a actividade de Neemias seria toda ela anterior a Esdras (Ne 1-7 e 10-13, onde aparece como construtor e reformador); mais tarde, talvez no ano 7.° de Artaxerxes II (e não Artaxerxes I), por volta de 398-397 a.C., veio Esdras a Jerusalém: empreendeu reformas (Esd 7-10), restaurou o culto e fez a solene leitura pública da Lei (Ne 8-9). Ao aplicar a sua perspectiva teológica a este emaranhado de dados, o redactor final é que terá desorganizado a cronologia real dos acontecimentos.

No entanto, não se pode negar ou diminuir o valor histórico das informações veiculadas por estes livros. Concordam perfeitamente com os dados das fontes bíblicas e profanas, como, por exemplo, os papiros das ilhas Elefantinas (Egipto).

DOCUMENTAÇÃO UTILIZADA Na composição destes dois livros, o Cronista utilizou como fontes diversos documentos antigos (entre eles, as memórias pessoais das duas personagens em questão), que ele reproduziu e organizou, relacionando-os uns com os outros, segundo a sua visão teológica, de forma a obter um conjunto harmonioso. Assim, podem encontrar-se:


a) documentos oficiais em hebraico (listas, estatísticas, como as de Esd 2 e Ne 7,6-68; 10,3-30; 11,3-36; 12,1-26) e em aramaico (correspondência diplomática, decretos oficiais: Esd 4,6-6,18; 7,12-26;
b) memórias de Esdras (Esd 7-10), com partes redigidas na primeira pessoa (Esd 7,27-9,15) e outras na terceira: Esd 7,1-10; 10; Ne 8-9;
c) memórias de Neemias: Ne 1-7; 10; 12,27-13,31.



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