Livros históricos



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DIVISÕES E CONTEÚDO

O livro de ESDRAS divide-se em duas grandes partes:

I. Regresso do Exílio e reconstrução do templo: 1,1-6,22;
II. Organização da comunidade: 7,1-10,44.

O livro de NEEMIAS consta também de duas partes:
I. Reconstrução das muralhas de Jerusalém: 1,1-7,72;
II. Proclamação da Lei e Reformas: 8,1-13,31.

Estas duas partes andam à volta de certos temas dominantes, que se apresentam por esta ordem:

1. Neemias passa da corte persa para governador de Jerusalém: 1-2;
2. Construção das muralhas, apesar de inúmeras dificuldades: 3-6;
3. Recenseamento do povo, celebração da Lei e renovação da aliança: 7-10;
4. Repovoamento de Jerusalém e das terras da Judeia: 11;
5. Medidas para garantir o culto e a pureza dos costumes: 12-13.
PERSPECTIVA TEOLÓGICA ESDRAS e NEEMIAS narram acontecimentos ocorridos logo após o édito de Ciro (538 a.C.), que permitia o regresso do cativeiro da Babilónia. Mostrando a situação difícil dos repatriados, fazem sobressair o esforço pela restauração do povo, no aspecto material e religioso.

Contêm uma admirável mensagem doutrinal, centrada em três preocupações fundamentais: o templo, a cidade de Jerusalém e a comunidade do povo de Deus.

Após as provas do Exílio, com as suas más consequências no aspecto religioso, o povo organiza-se numa grande unidade nacional e religiosa.

Meditando na Lei, compreende como o castigo lhe foi mandado por Deus, devido à sua infidelidade, e como, apesar de tudo, a misericórdia divina se mantém para com o resto de Israel, detentor das grandes promessas em relação ao Messias. A Palavra de Deus é, assim, a base da reconstrução do povo que volta do Exílio.

Tobite

Escrito sob a forma de um romance de cariz sapiencial, este livro narra-nos a história de Tobite, de Sara, mulher de seu filho Tobias, e das respectivas famílias. Apresentados como israelitas piedosos, que sempre permaneceram fiéis ao Senhor seu Deus, mesmo no meio das piores tribulações, constituem, por isso mesmo, um paradigma de comportamento nas circunstâncias normais da vida. Dentro desta perspectiva, toda a trama se desenrola em torno de questões práticas que vão sendo resolvidas sempre com uma fé inabalável em Deus e dentro da fidelidade absoluta à sua vontade. Atribuindo-lhe uma linguagem dos nossos dias, poderíamos dizer que se trata de um tema de amor. Amor de dois jovens esposos; amor das diversas personagens dentro do quadro das respectivas famílias; amor dos fiéis pelo seu Deus que, através dos séculos e do suceder-se aparentemente inocente dos acontecimentos, guia o seu povo em direcção ao cumprimento do seu destino de realização plena.

O TEXTO A história da sua transmissão é algo atribulada e só com alguma dificuldade entrou no conjunto dos livros canónicos. Com efeito, é considerado apócrifo pelas Igrejas Evangélicas, não faz parte do cânone hebraico e só o Concílio de Hipona, em 393, o admitiu como inspirado. O livro foi redigido em aramaico, língua esta que, sendo próxima do hebraico, rapidamente se tornou também veículo de comunicação em toda a zona do Crescente Fértil e das suas zonas circundantes. Não chegou até nós nenhuma versão do texto nesta língua. Assim, o conhecimento que temos desta obra, é através das suas traduções em grego e latim. Para a tradução que se segue, usamos quase exclusivamente o chamado texto longo da versão dos LXX.

AMBIENTE E CRONOLOGIA Não há unanimidade acerca da data de composição do livro. Para uns, teria sido escrito provavelmente entre os anos 200 e 180 a.C. e para outros numa data muito posterior. Como quer que seja, todo o texto deixa perceber um ambiente ligado à diáspora, em torno à época do exílio persa. Contudo, e independentemente das considerações cronológicas, é um texto com uma intencionalidade didáctica e edificante evidente, visível não só a partir da sua forma narrativa, em jeito de saga, mas também a partir da constatação do pouco cuidado que o autor colocou nas referências cronológicas, históricas e geográficas, que resultam, na sua maioria, incoerentes.

CONTEÚDO O esquema geral da obra é a sequência da sua história: Origens de Tobite e a sua piedade (cap. 1). Tobite no cativeiro (2,1-9). A sua resignação nas provas (2,10-3,6). Sara, no meio da sua aflição, ora ao Senhor (3,7-17). Discurso de Tobite a seu filho (cap. 4). O filho de Tobite empreende a viagem, acompanhado por um anjo (5,1-6,9). Bodas do filho de Tobite com Sara (6,10-8,9). Gabael assiste às bodas (cap. 9). Regresso de Tobias para junto de seus pais (10-11). Revelação do anjo (cap. 12). Cântico de Tobite (cap. 13). Mortes de Tobite e de Tobias (cap. 14).


DIVISÃO E CONTEÚDO
 O livro pode dividir-se nas seguintes secções:
I. História de Tobite: 1,1-3,6;
II. História de Sara: 3,7-4,21;
III. Preparação da viagem: 5,1-23;
IV. Viagem à Média: 6,1-19;
V. Casamento de Tobias e Sara: 7,1-14,15.
MENSAGEM TEOLÓGICA Depois do Exílio, enquanto uma parte do povo judeu se reuniu à volta de Jerusalém, um grande número permaneceu na Babilónia e nos outros territórios em redor de Israel: no Egipto, na Assíria e nos territórios que actualmente constituem a zona norte do Irão. Muito provavelmente, o livro de TOBITE nasce dentro deste ambiente linguístico e geográfico. Ao ser um texto narrativo de carácter "romanceado", a atenção do leitor é levada a centrar-se nas personagens, nas suas genealogias escrupulosamente israelitas e na forma fiel e piedosa segundo a qual orientam as suas vidas. Estas características, típicas dos intervenientes, são ainda postas em relevo graças ao recurso sistemático a comparações, quer com os outros membros do povo de Israel, quer com as personagens reais com as quais cada um deles se vai relacionando.

Assim, o texto avança claramente em dois níveis paralelos e concêntricos de desenvolvimento: por um lado, o nível da fidelidade e piedade de Tobite e dos seus familiares directos; por outro, a infidelidade do povo e a impiedade dos governantes. Todo o enredo, na sua forma simplista, está impregnado de um inconfundível sabor sapiencial e de referências indisfarçáveis, por exemplo, à História de José e à personagem de Job.

Nesta simplicidade linear, o texto não é capaz de criar qualquer tensão dramática. Desde o início, o leitor tem a sensação de já saber o que vem a seguir. Seguindo as regras típicas deste género, o texto avança num crescendo de complicação com sucessivos momentos de resolução, atingindo o climax ou ponto de viragem quando ficam resolvidas as duas dificuldades principais ligadas à questão da herança: o aspecto financeiro e a descendência, que se supõe venha a seguir-se à conclusão feliz do casamento de Sara e Tobias.

Apesar disto, e na sua ingenuidade, o livro de TOBITE respira um ambiente de fé incondicional em Deus. Para além das tribulações e dificuldades sofridas, as personagens centrais vivem com a certeza inabalável da presença de Deus, como condutor da História, e da recompensa que hão-de ter pela sua fidelidade. 

O próprio nome de Tobite (abreviatura hebraica de "Tôbiyyâh", que quer dizer "Deus é bom", ou "o meu bem está em Deus") confirma a acção da divina Providência, que vela por aqueles cuja fé é inabalável e os ajuda a vencer as provações, acabando por lhes dar uma recompensa muito acima de toda a expectativa, como no caso do próprio Tobite.


Judite


Este livro, cujo nome é o da sua figura principal, mostra-nos como Israel domina todas as dificuldades quando obedece ao Senhor. As pessoas e os lugares nele descritos fazem crer que o autor pretendeu dar-lhes nomes fictícios, embora não se saiba exactamente porquê. O significado de alguns deles quadra bem com o próprio conteúdo do livro. O nome da heroína, Judite, que lhe serve de título, simboliza "a judia", expressão frágil e desamparada do próprio Israel, sob a ameaça dos inimigos. O importante, contudo, é a lição que nos é dada pelo seu cântico: só os que temem o Senhor podem ser grandes em todas as coisas.

TEXTO Aquele que terá sido o texto original hebraico ou aramaico do Livro de JUDITE há muito que desapareceu. O testemunho escrito que chegou até nós era constituído por três recensões gregas, uma versão siríaca, a antiga versão latina e a tradução latina feita por São Jerónimo. As poucas recensões hebraicas que se conhecem são consideradas pouco fidedignas para nos darem a conhecer o texto original, uma vez que se apresentam como elaborações livres feitas sobre o mesmo texto.

Segundo Orígenes e São Jerónimo, este livro não era considerado canónico pelos judeus da Palestina. Entretanto, foi traduzido pelo Targum, e o Talmude atribuiu-lhe um grau inferior de inspiração. Contudo, no séc. I d.C. o livro fazia parte do cânone dos judeus de Alexandria. Tudo isto contribuiu para o facto de alguns Padres da Igreja terem posto em causa, e mesmo negado, a sua inspiração.

O texto desta Bíblia foi traduzido a partir da edição crítica dos Setenta de A. Rahlfs, Septuaginta, elaborada com os textos gregos recolhidos dos códices Vaticano, Sinaítico e Alexandrino.

CONTEXTO HISTÓRICO Estamos, muito provavelmente, diante de um texto parenético e didáctico, composto a partir de um núcleo original. Com efeito, o texto que chegou até nós apresenta dados históricos e geográficos que põem muitos problemas, quer de situação, quer de identificação. Por exemplo: Nabucodonosor é posto a lutar contra um Medo, de nome Arfaxad, que não se sabe exactamente quem é. Diz-se, igualmente, que conquistou Ecbátana, quando se sabe que ele nunca conquistou esta cidade nem combateu os Medos. A cidade de Betúlia, o Sumo Sacerdote Joaquim e a própria Judite, exceptuando a filha de Jacob e Lia, não aparecem referidos em nenhum outro texto do Antigo Testamento.

DIVISÃO E CONTEÚDO O livro de JUDITE divide-se em duas partes:

I. Antecedentes do cerco a Betúlia (1,1-6,21): o poder de Nabucodonosor (1); expedição de Holofernes (2); procedimento das nações gentias (3); os Judeus preparam-se para a guerra (4); discurso de Aquior a Holofernes (5); resposta de Holofernes (6).

II. Vitória dos Judeus
 (7,1-16,25): a situação torna-se difícil em Betúlia (7); Judite diante dos chefes do povo (8); a oração de Judite (9); a caminho do acampamento assírio (10); na presença de Holofernes (11); Judite na ceia de Holofernes (12); regresso triunfante à cidade (13); ataque contra os assírios (14); vitória completa dos Judeus (15); cântico de Judite (16,1-17); conclusão da história de Judite (16,18-25).

TEOLOGIA Quando Holofernes e os assírios sitiaram Betúlia, esgotou-se a água na cidade, e os seus habitantes estavam na iminência de perecer. Foi então que uma viúva, chamada Judite, traçou e pôs em prática um plano, que levou os sitiantes à debandada e deu a vitória final aos israelitas.

Como quer que seja, e para além dos pormenores históricos e geográficos, a doutrina do livro merece a nossa atenção. Estamos diante da afirmação de verdades que em nada põem em causa o conjunto da teologia do AT: proclama-se a providência de Deus para com o seu povo; a omnipotência, realeza e sabedoria universal de Deus; a ideia da dor e do sofrimento como prova; a centralidade, reverência e valor do templo; o valor do jejum, da oração e dos actos de penitência.

Este livro manifesta, sobretudo o amor de Deus pelos pequenos, servindo-se de todos os meios para os defender. No nosso caso, de uma mulher, que nunca tinha participado numa guerra.

Ester

O livro de ESTER é uma apaixonada descrição das experiências dramáticas por que passou a comunidade hebraica de Susa, quando esta cidade era capital do império persa. O texto sugere que esses acontecimentos afectariam a vida de todos os judeus residentes dentro das fronteiras daquele imenso império, que se estendia desde a Índia até à Etiópia. Quer dizer que os episódios narrados atingiam todos os judeus do mundo e as consequências diziam respeito à sua sobrevivência.

As figuras centrais são um judeu de nome babilónico Mardoqueu e uma sua parente e protegida, chamada Ester, nome de ressonâncias simultaneamente babilónicas e persas. Mardoqueu surge como chefe da comunidade judaica; Ester é a personagem decisiva no desenrolar dos acontecimentos.

O livro descreve uma ameaça de morte que se transformou numa afirmação de triunfo. Semelhante sucesso merece ser celebrado e recordado. E, de facto, o livro de ESTER culmina numa festa anual, ainda hoje celebrada entre os judeus: a festa de "Purim", ou das "sortes" lançadas e transformadas.

TEXTO Esta multiplicidade de experiências tem a sua expressão no próprio estado do texto chegado até nós, com dois estratos bem distintos: algumas secções, que constituem a parte mais longa e mais antiga estão em hebraico e parecem representar o fio condutor da história; outras encontram-se só em grego e são suplementos, ampliações e reformulações do mesmo assunto, mas com um espírito e um horizonte algo diferentes, tentando recriar e reformular novas perspectivas. Estas novidades do texto grego vão sendo inseridas ao longo de toda a história descrita. 

São Jerónimo, ao preparar a edição da Bíblia em latim, chamada Vulgata, para que estas interrupções não cortassem a sequência do texto hebraico, decidiu colocar em primeiro lugar a tradução contínua do hebraico e acrescenta-lhe os suplementos em grego, numerados nos capítulos 11 a 16. E assim se apresentava o livro de ESTER, nas traduções que dependiam directamente da Vulgata. 

No entanto, esta solução tornava mais difícil a leitura dos suplementos, que não representavam uma sequência completa. Por isso, é hoje mais habitual manter as interpolações do texto grego no seu lugar correspondente na narrativa, distinguindo-as do texto hebraico por um tipo de letra e por uma numeração diferentes. Nesta edição, o texto hebraico aparece em caracteres redondos, como no resto da Bíblia; os Suplementos gregos vão em itálico e são numerados por uma letra de A a F, representando cada uma como que um capítulo suplementar; e, em cada uma dessas letras ou capítulos, os versículos são numerados a partir do n.° 1. Outras edições contam os suplementos gregos como continuação do texto hebraico e numeram os novos versículos por letras acrescentadas ao número do versículo hebraico, a partir do qual se fez a interrupção e começou o suplemento.

HISTORICIDADE Literariamente, esta narrativa apresenta-se como descrição histórica. Aliás, em 9,32 e 10,2 existem alusões explícitas ao facto de ter sido escrito aquilo que acontecera com Ester e com Mardoqueu. Esta fisionomia literária condiz bem com o carácter mais ou menos histórico do seu conteúdo. A descrição dos ambientes e dos costumes tem alguma exactidão.

No entanto, numerosos indícios levam-nos a pensar que os muitos elementos de figuras e experiências históricas podem ter sido elaborados nesta obra, que é construída segundo o modelo literário de um romance histórico. Os nomes de Mardoqueu e de Ester dão aos seus heróis certa verosimilhança histórica. O nome de Assuero, dado ao rei, é a versão bíblica normal para o bem conhecido nome de Xerxes. E isto constitui mais uma razão de verosimilhança histórica. A vida da corte, aqui descrita, corresponde igualmente bem à imagem histórica; pelo contrário, o facto de Mardoqueu ter sido exilado de Jerusalém no tempo de Nabucodonosor e estar ainda, mais de cem anos depois, a dirigir estes acontecimentos levanta fortes dúvidas. Além disso, os conflitos religiosos e culturais descritos, e mesmo os nomes da rainha rejeitada e da nova rainha escolhida por Assuero, ou Xerxes, são inteiramente desconhecidos na corte persa. 

É possível, por conseguinte, que tenham sido acumuladas aqui, numa única história, muitas experiências dramáticas de comunidades judaicas em contextos sociais adversos; e também muitas esperanças que, entretanto, as foram reanimando, garantindo-lhes a sobrevivência. De tudo isso poderá ter resultado este livro, como memória exultante e como razão de esperança. 

De facto, em ESTER condensam-se experiências de rejeição e de ameaça, que punham em causa a sobrevivência do judaísmo e, por antítese, descreve-se a forma como todos os perigos se transformaram em retumbante afirmação dos seus ideais. Tão entusiasta quiseram os judeus tornar a sua vitória, que não conseguiram evitar excessos: da pura autodefesa, passaram a gestos exagerados de vingança.


ORIGEM, ACEITAÇÃO E DIVISÃO Os problemas quanto ao seu conteúdo vão desembocar na data de composição deste livro. A opinião mais aceite é a de que o texto hebraico teria sido escrito durante o séc. III ou II a.C.. Nessa altura, o império persa já tinha terminado. Significaria isto que as situações descritas se referiam ao tempo dos persas, mas os problemas e as preocupações reais que, naquele momento, levavam a escrever este livro, podiam ser confrontações com outros inimigos. De facto, no séc. III a.C. ou depois, os conflitos do judaísmo eram sobretudo com o helenismo. E, se assim foi, o livro de Daniel e o de Judite dão testemunho de um recurso literário muito semelhante: servir-se de uma história referente a épocas do passado para enfrentar e combater dramas próprios do momento presente.

O Novo Testamento não deu muita importância a este livro, pois não se refere a ele. O judaísmo, pelo contrário, sempre o valorizou bastante. A festa de Purim, aqui iniciada, também não consta no calendário de Qumrân, nem o livro é referido na biblioteca da seita. Mas, para o judaísmo, ESTER foi sempre um dos mais importantes dos cinco "rolos" ou "livros" cuja leitura ocorria regularmente em certas festas. O Cânon hebraico ou judeo-palestinense inclui só o texto hebraico de ESTER, classificando-o na categoria dos "Escritos" ou "Literatura". O Cânon grego ou judeo-alexandrino inclui também os suplementos gregos, considerando-os igualmente canónicos, aparecendo ESTER entre os livros históricos.

O esquema geral do livro é aquele que se nos apresenta através da narrativa em hebraico: 


I. Ester torna-se rainha
: A,1-2,23;
II. Conspiração contra os judeus: 3,1-5,14;
III. Haman é condenado à morte: 6,1-7,10;
IV. Os hebreus vingam-se dos inimigos: 8,1-F,11.


TEOLOGIA É, sobretudo, na teologia que se nota a diferença mais sensível entre o texto hebraico e os textos em grego. No texto hebraico não existe sequer referência ao nome de Deus. Seja qual for a razão que levou a uma narrativa de aspecto aparentemente laico, pressupõe-se que, por detrás das vicissitudes da experiência histórica, existe uma outra instância da qual poderá vir a resposta para os problemas, se os humanos não forem capazes de os resolver (ver 1,14). É uma evidente referência a Deus, implícita mas forte.

Além disso, toda a narrativa se desenvolve num ambiente e com uma ressonância sapiencial clara. Ora toda a sabedoria oriental, mesmo quando expressa numa linguagem aparentemente profana, está imbuída de um profundo humanismo religioso.

Uma das evidentes novidades do texto grego é a maneira como sublinha os vários aspectos teológicos, em concreto a intervenção de Deus como providente condutor dos acontecimentos históricos. À primeira vista, pareceria que foi esta a razão que levou aos acrescentos gregos. Mas, fosse ou não essa a intenção principal, o facto é que o texto grego enquadra toda a história no contexto de um sonho, que é contado no princípio e explicado no fim. Tudo o que acontecera já tinha sido revelado a Mardoqueu por meio daquele sonho: estava previsto e cumpriu-se tal qual.

Isto é a expressão de uma concepção de História conduzida providencialmente, que vê os acontecimentos como um plano de Deus. Precisamente no final do capítulo 4, ao aproximar-se o momento decisivo, é que o texto grego insere os suplementos da letra C, com uma oração de Mardoqueu e outra de Ester, cheias de ressonâncias bíblicas.
Aliás, conflitos como os apresentados neste livro costumam empurrar as partes em litígio para comportamentos, que só quando excessivos dão a sensação de vitória. De facto, na Bíblia, o castigo dos maus, mesmo quando é atribuído a Deus, tem frequentemente aspectos excessivos.

É também importante, do ponto de vista religioso, o facto de o livro de ESTER servir como texto justificativo da festa religiosa de "Purim", que se tornou uma das mais pitorescas do calendário religioso dos judeus, semelhante ao nosso Carnaval.


Macabeus

Com o título de MACABEUS são designados dois livros que fazem parte da Sagrada Escritura, embora sejam conhecidos mais dois com este nome na antiga literatura judaica. Nos primeiros séculos da Igreja, houve algumas dúvidas em considerá-los parte do Cânone. De facto, não constam no Cânone da Bíblia Hebraica dos judeus palestinenses; mas fazem parte da Bíblia do judaísmo de Alexandria. Este facto veio a criar, por parte das igrejas protestantes, uma atitude de reserva para com eles; quanto aos outros dois, cedo lhes foi recusada a classificação de livros bíblicos, tanto pelos judeus como pelos cristãos.

NOME Chamam-se MACABEUS, não porque tal fosse o nome do seu autor, mas porque Judas - o protagonista dos principais acontecimentos narrados nos dois livros - foi denominado "Macabeu". Porém, foi São Clemente de Alexandria (séc. III d.C.) quem, pela primeira vez, lhes atribuiu esse título, que se tornou corrente na tradição cristã. 
Muito provavelmente, com esse nome ter-se-á querido salientar a missão que Deus, Senhor da História, quisera confiar a Judas Macabeu. De facto, o termo "macabeu" aparece em Is 62,2 com o significado de "designado de Deus", que corresponde perfeitamente à qualidade de chefe com que Judas é descrito em 2 Mac 8,1-7. Também é muito semelhante ao que se diz dos chefes carismáticos do período dos Juízes e ao papel dos que têm a missão de libertar o povo de um poder político ou de uma cultura que não respeita a fé de Israel.

AUTOR E MENSAGEM O 1.° livro dos MACABEUS é obra de autor desconhecido, mas bom conhecedor da Palestina e imbuído da fé que caracteriza o povo eleito. É precisamente esta fé que o leva a narrar a História recente do seu povo, para impedir os seus irmãos de raça de serem infiéis à aliança. 

No horizonte, está o confronto entre a fé de Israel e os novos modos de viver da cultura helenística, em que o judaísmo da diáspora se encontra. Para responder a essa situação concreta e precaver da traição à fé, o autor vai buscar este período histórico e os modelos de fé nele encontrados.

Tocado pela dura experiência do tempo do domínio selêucida, com Antíoco IV Epifânio à cabeça, volta-se para a raiz da fé, que é a aliança do Sinai, e diz ao povo: "Deus está sempre atento e vai fazer surgir homens corajosos e determinados, para resistirmos à imposição dos valores culturais que ameaçam as atitudes de vida exigidas pela aliança". Por isso, mais que descrever objectivamente o que fizeram esses homens, o autor preocupa-se em mostrar como, por atitudes idênticas às deles, o povo fiel pode continuar a viver a sua fé no Deus único e a manter a sua identidade nacional.

GÉNERO LITERÁRIO Os dois livros dos MACABEUS são históricos, segundo os critérios historiográficos da época, e com uma acentuada preocupação religiosa e edificante. 
Mais que uma narração objectiva dos acontecimentos do mesmo período, nem sempre concordantes, porque entre si distintos e independentes, assemelham-se a dois evangelhos sinópticos: o 1.° livro abrange o período que vai de 175 a.C. a 134 a.C. (subida ao trono de João Hircano); o 2.° livro cobre o período de 175 a.C. a 160 a.C. (morte de Nicanor). 

DIVISÃO E CONTEÚDO A narração dos acontecimentos está distribuída em quatro blocos: no primeiro traça-se o ambiente político e cultural criado por Alexandre Magno, que origina a revolta dos Macabeus (1,1-2,70); no segundo narram-se os feitos gloriosos de Judas Macabeu (3,1-9,22); no terceiro descrevem-se os feitos de Jónatas (9,23-12,54) e, no quarto, os feitos do Sumo Sacerdote Simão, fundador da dinastia dos Hasmoneus (13,1-16,24).
O seu conteúdo poderá ser divido nas quatro partes que apresentamos a seguir:

I. Ambiente político e revolta de Matatias (1,1-2,70): Alexandre Magno (1,1-9); Antíoco Epifânio (1, 10-40); perseguição religiosa (1,41-64); feitos de Matatias (2,1-70). 
II. Judas Macabeu (3,1-9,22): primeiras vitórias de Judas (3,1-4,35); purificação do templo (4,36-61); guerra contra os povos vizinhos (5); morte de Antíoco na Pérsia (6,1-17); Antíoco Eupátor ataca a Judeia e faz a paz com os judeus (6,18-63); Demétrio, sucessor de Eupátor, declara guerra a Judas Macabeu (7); Judas Macabeu alia-se aos romanos (8); morte de Judas Macabeu (9,1-22).


III. Feitos de Jónatas, sucessor de Judas Macabeu (9,23-12,54): modificação da situação dos judeus (9,23-73); Jónatas aproveita-se da guerra civil dos sírios (10); confirmação da situação de Jónatas (11); aliança com os romanos e com os espartanos (12,1-23); Jónatas em poder de Trifon (12,24-54).


IV. Simão, príncipe do povo judeu (13,1-16,24): Simão procura resgatar seu irmão (13,1-32); Simão assegura a liberdade do seu povo (13,33-53); Simão é aclamado príncipe do povo judeu (14); Antíoco Sidetes volta-se contra os judeus (15); morte de Simão (16).


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