Língua Portuguesa – 9º Ano



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Escola Básica e Secundária de Fajões

2010/11

Língua Portuguesa – 9º Ano






O Infante


Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.

Deus quis que a terra fosse toda uma,

Que o mar unisse, já não separasse.

Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,

E a orla branca foi de ilha em continente,

Clareou, correndo, até ao fim do mundo,

E viu-se a terra inteira, de repente,

Surgir, redonda, do azul profundo.

Quem te sagrou criou-te português.

Do mar e nós em ti nos deu sinal.

Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.

Senhor, falta cumprir-se Portugal!

Fernando Pessoa, Mensagem.



O desenvolvimento do assunto deste poema desenvolve-se em três partes. A primeira parte é constituída apenas pelo primeiro verso, que contém uma afirmação tripartida de tipo aforístico: "Deus quer, o homem sonha, a obra nasce". Os três termos desta afirmação seguem-se segundo a ordem lógica causa-efeito: o agente ou causa próxima da obra (efeito) é o homem, mas a causa remota, o primeiro determinante é Deus. Se Deus não quisesse, o homem não sonharia e a obra não nasceria. De notar que o sentido aforístico da frase tem um valor universal: o substantivo homem refere-se ao ser humano em geral e obra designa qualquer acção humana.


A segunda parte do texto (do segundo verso da 1.ª estrofe até ao fim da 2.ª) apresenta-nos a vontade de Deus que quer toda a terra unida pelo mar (que a separava), confiando essa missão ao Infante D. Henrique que levou, como por encanto, essa orla branca até ao fim do mundo, surgindo, em visão miraculosa, a terra redonda do azul profundo. Esta segunda parte subdivide-se em três momentos: a acção de Deus, a acção do Infante (herói ungido por Deus) e a realização da obra (o grandioso efeito que transcende as forças humanas, próprio de heróis).
A terceira parte é constituída pela última estrofe, em que se transpõe para o povo português a glória do Infante (quem te sagrou criou-te português). O povo português foi, pois, o eleito por Deus para esta façanha. Mas o sujeito poético assinala também o desmoronar-se do império dos mares (o império se desfez), prevendo, no entanto, uma nova acção para renovação e engrandecimento de Portugal (falta cumprir-se Portugal).
O assunto evolui primeiro do geral (universal) para o particular: o homem e a obra do primeiro verso têm aplicação universal, ao passo que, na segunda parte, o homem se particulariza no Infante e a obra na epopeia marítima. Dá-se, depois, na passagem da segunda para a última parte do poema, uma mudança de sentido oposto: transição de um plano particular (Infante) para um plano geral (os portugueses).
Deus => o homem => a obra = Pela vontade de Deus e pelo querer e acção do homem português realizou-se a epopeia marítima, "cumpriu-se o mar", mas, logo a seguir, o Império se desfez. Dá-se o desânimo nacional, uma pausa no caminho glorioso do nosso povo. Daí a súplica do sujeito poético ao Senhor que dá origem a tudo: "Senhor, falta cumprir-se Portugal!..." Sugere-se, pois, uma nova acção de Deus e do homem português, de forma a repor, ou a acrescentar ainda mais a glória do povo luso. De novo se vai repetir a mesma sequência do primeiro verso do poema: um impulso de Deus => um sonho do homem => e uma nova epopeia.
Neste poema realça-se a função iniciática do Infante na obra dos descobrimentos, acção essa que lhe foi confiada pela própria divindade. Daí o emprego de palavras carregadas de conotações simbólicas. Assim, a expressão "sagrou-te", talvez ligada na mente do sujeito poético
à palavra Sagres (o Infante de Sagres), sugere a escolha do Infante para uma missão divina ("Deus quer"). O facto de o sujeito lírico usar maiúsculas em "Mar" e "Império" dá às palavras uma dimensão marcadamente simbólica. Mar é símbolo do desconhecido, do mistério. Daí as expressões "desvendando a espuma" (desfazendo o mistério), "nos deu sinal" (dar um sinal é dar a chave para decifrar o mistério), que denunciam já o levantar de um véu, o caminhar para a plena luz. As palavras, ou expressões "espuma" (branca), "orla branca", "clareou", "surgir" (sair das sombras, revelar-se), "do azul profundo" (do mar imenso, do fundo do mistério), com todo o seu conteúdo simbólico, exprimem a passagem do mistério para a plena luz. Esta passagem apresenta-se como repentina, espectacular, miraculosa. É o que sugere a expressão: "E viu-se a terra inteira, de repente,/ Surgir redonda..."
Esta visão da terra redonda, surgida repentinamente, sugere a ideia de que a obra dos portugueses é o realizar de um plano divino. O redondo, a esfera, é o símbolo da perfeição cósmica, da unidade, da obra completa e perfeita que Deus quis: "Deus quer... /Deus quis que a terra fosse toda uma..."
O próprio Infante surge-nos aqui mais como símbolo do herói português escolhido por Deus para ser agente da sua vontade: "Quem te sagrou criou-te português".
É nítido no poema um certo pendor dramático não só atendendo à tensão emocional que se revela sobretudo na segunda estrofe com a visão da terra redonda surgindo magicamente do azul profundo, mas também porque há três personagens: o sujeito emissor (sujeito poético), Deus e o Infante. Se os dois últimos não falam, o primeiro dirige-se ao Infante (sagrou-te, Quem te sagrou, em ti) e interpela Deus (Senhor, falta cumprir-se Portugal). Há portanto um diálogo, pelo menos implícito, o que está de harmonia com o carácter misterioso, messiânico do poema.
O texto começa com os verbos no presente (quer, sonha, nasce), de harmonia com o discurso aforístico do primeiro verso, passa para o passado (quis, sagrou-te, foi, clareou, viu-se) narrativo de acontecimentos passados, para regressar ao tempo presente (Falta cumprir-se Portugal).
Após a primeira aventura vitoriosa dos portugueses (o Império se fez), veio o desânimo. Por isso o sujeito poético, voltando-se para Deus: "Senhor, falta cumprir-se Portugal". Este presente "falta" confere à frase uma sugestão de urgência, necessidade. De notar que esta última frase do texto, com toda a sua indeterminação e ambiguidade, juntamente com todas as palavras e expressões carregadas de conotações simbólicas (já referidas atrás) dá ao poema características simbolistas.
O último verso só indirectamente formula uma súplica a Deus. Apenas se enuncia perante Ele um facto: falta cumprir-se Portugal. Segundo a técnica simbolista, é mais belo sugerir do que afirmar. Além disso, esta enunciação da súplica, não em forma imperativa, mas em forma informativa, relaciona-se com as características messiânicas do poema: o povo português é o eleito de Deus; basta que Deus veja o que falta a Portugal para que desencadeie as acções necessárias para restabelecer a glória do seu povo.
Esta dinâmica cíclica-messiânica da história de Portugal não se encontra apenas neste poema de Fernando Pessoa; vemo-la também n'Os Lusíadas de Camões: no último canto é claro o incitamente do poeta a D. Sebastião (enviado por Deus) para que reponha e, se possível, acrescente a glória de Portugal
A tua professora de Língua Portuguesa,

Paula Fraga


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