Língua Portuguesa 9ºano Os Lusíadas



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Língua Portuguesa - 9ºano

- Os Lusíadas -



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Os Lusíadas - A temática do Amor no episódio de Inês de Castro
A história e o mito que envolvem os amores de D. Inês de Castro e D. Pedro I têm servido como tema para várias obras literárias. Desde autores nacionais a estrangeiros, autores de séculos distantes a autores nossos contemporâneos, a verdade é que a morte de Inês de Castro tem servido de inspiração literária e, por tal, esta história de amor portuguesa superou a temporalidade. O amor de Pedro e Inês foi imortalizado, permanecendo vivo até aos nossos dias.

Ao lermos o episódio de Inês de Castro, em Os Lusíadas, verificamos que as alterações à verdade histórica, operadas por Camões, se destinam a uma poetização mais intensa da morte de Inês. O poeta insiste mais na inocência de Inês do que nas razões de Estado. Inês é, sobretudo, vítima do destino, do amor, muito mais do que míseras razões políticas.

É visível a alteração à verdade histórica através da morte poetizada de Inês – o seu peito é trespassado por um punhal, - quando, na verdade, a rainha morta foi degolada. Claro está que a degolação não teria os mesmos efeitos estéticos, não realçava o facto de se estar a matar o amor de Pedro. Este tipo de morte – trespassando o coração – está mais na linha da lírica, da poetização sentimental e constitui uma morte marcada por características clássicas.

A par desta observação, podemos ver um outro elemento característico da poesia lírica – o Amor como entidade destruidora. A estrofe 119 apresenta-nos o amor personificado, como causa não só deste “...caso triste e digno de memória”, mas também de toda a tragédia humana “Tuas aras banhar em sangue humano”. O narrador dirige-se ao Amor – através da apóstrofe -, caracterizando-o antiteticamente. Por um lado, o Amor é puro, atrai irresistivelmente o coração humano mas, por outro, age com crueldade, sendo capaz de atrair e causar as maiores desgraças e o maior sofrimento. Adornando o poema com esta linguagem antitética, Camões pretendeu apresentar o amor como um sentimento contraditório, continuamente a seduzir, mas sempre pronto a gerar as maiores tragédias. Foi por Amor que Inês morreu. Foi o seu Amor por Pedro que a matou. Daí a insistência nas apóstrofes e vocativos, presentes em todo a estrofe. Inês foi uma vítima inocente de um sentimento maravilhoso – o Amor, que, no episódio, é o o grande agente da tragédia que vitimou a “...mísera e mesquinhae se confunde com destino, fado, fortuna. A heróina deste episódio acabou por ser vítima de si própria, da sua beleza; o seu único crime era ser bela:

“No colo de alabastro, que sustinha

As obras com que Amor matou de amores

Aquele que depois a fez rainha.”

Acrescente-se que o Amor é apresentado mais do que personificado, ele é uma autêntica divindade sedutora que oferece alegria e felicidade, mas exige dor e sofrimento. Há uma clara culpabilização do amor, são-lhe atribuídas características humanas (animismo), mas não dum ser humano qualquer, trata-se dum ser inexorável, “áspero e tirano” que exige sacrifícios, faz vítimas. Todos os adjectivos presentes nesta estância têm uma conotação negativa e as aliterações em -r, -m e -f dão ênfase à ferocidade e barbaridade com que este Amor trata as suas vítimas. Estas vítimas surgem, ainda, como inimigas, como se duma batalha se tratasse, batalha esta que só acaba quando o Amor vê saciado o seu desejo: sangue humano, as lágrimas não são suficientes. Bastaria olharmos para esta estância do Canto Terceiro de Os Lusíadas para compreendermos como o amor-paixão é algo tão intenso e arrebatador que poderá ter um fim tão violento como ele próprio é.

A morte de Inês é sentida transcendentalmente, tal como o Amor. Inês é assassinada e todos os elementos da Natureza reflectem esta morte (típico das produções líricas renascentistas): o sol esconde-se; os vales reproduziram em eco o último sopro de vida de Inês que continha o nome do seu amado; as ninfas do Mondego choraram durante muito tempo a sua morte e estas lágrimas perpetuaram-se na Fonte da Lágrimas (na Quinta das Lágrimas, em Coimbra). O episódio termina com a referência a esta fonte mágica, dando um aspecto ainda mais lendário a esta história de amor.

Embora as interpretações deste episódio possam ser subjectivas e diferentes entre si mesmas, a verdade é que todas elas têm algo em comum: o mito do amor-paixão, que desemboca irremediavelmente na morte. Este mito tem sido um dos preferidos ao longo dos tempos, é aquele que faz o Homem sonhar, é aquele que causa uma certa compaixão e comoção. Tristão e Isolda; Romeu e Julieta; Teresa e Simão - são todos casais cujo amor tem como destino um final trágico. Esse destino surge a partir do momento que decidem tentar alcançar o impossível. Todos estes casos caminharam para o abismo, abismo esse que em Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco, está bem retratado numa carta que Simão escreve a Teresa: “Lembra-te de mim. Vive, para explicares ao mundo, com a tua lealdade a uma sombra, a razão por que me atraíste a um abismo.”

No caso específico de Inês de Castro, esta desafia o poder do Estado, isto é, desafia a vontade de Afonso IV. Por motivos de ordem política, Afonso IV não aceita Inês de Castro como esposa legítima de D. Pedro e, por tal, ela terá de morrer, pois escolheu entregar-se a este amor. O abismo é, então, a partir dessa escolha, inevitável.

No entanto, é o fim trágico (catástrofe) desta história de amor que a torna transcendente. Não houvesse nenhum obstáculo e nenhum desafio, seria uma história de amor igual a tantas outras. O que a torna diferente é a tragédia circundante - o desespero e o sofrimento progressivo de Inês de Castro são elementos que têm sido fortemente explorados por vários escritores, como fonte de inspiração literária.

Embora o Amor tenha sido o agente da morte de Inês, a verdade é que foi ele, também, o responsável pela sua imoralização. Defende-se que Inês é hoje a única rainha viva de Portugal, a única que vive presente na memória colectiva de um povo, e que o episódio da sua coroação é o único que merece ser contado, pela sua magia e simbologia.

No episódio de Inês de Castro, Amor e Morte sempre interligados, como que dependendo um do outro para a eternização do sentimento supremo que todos ansiamos sentir.




Bom trabalho,







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