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Autor: Alaôr Eduardo Scisínio.

Título: Itaocara  Uma Democracia Rural

Indicação bibliográfica: Niterói: Imprensa Oficial, 1990. (Biblioteca de Estudos Fluminenses, Série Municípios) 316 págs.

Localização: BHP-UFF

Data da 1º edição: 1990

Informações sobre a edição: Herval Bazílio, Diretor-Presidente da Imprensa Oficial do Estado do Rio de Janeiro  quando da publicação do livro  inicia o livro com uma nota explicativa sobre a série, pela qual obra agora citada foi lançada:

“A Biblioteca de Estudos Fluminenses é ... um projeto aberto a historiadores, professores, universitários, autores didáticos e pesquisadores em geral, identificados com seu propósito primeiro: o de reunir e divulgar o maior volume possível de informações sobre a história fluminense, deste modo preservando  e valorizando  a memória e a grandeza do passado e das tradições do Estado do Rio de Janeiro.”

O autor do prefácio é o jornalista Emmanuel de Macedo Soares. Este, sobre a obra afirmou:

“... seu livro não é apenas destinado às amenidades da leitura, mas também instrumento de ensino e aprendizado, vai descrevendo fatos anteriores e posteriores á criação do município. Os movimentos cívicos e políticos que ali se observaram ao longo dos anos; as lendas e curiosidades locais; a presença de várias gerações de itaocarenses nos mais diversos modos de atividades; o desenvolvimento urbano, cultural e social, enfim, enfocando pela evolução do ensino,da religião, do comércio, da indústria, dos serviços públicos, dos órgãos da administração. Aborda, em sua função didática, os aspectos físicos, geográficos e econômicos, com despretensiosa precisão e sem os cansativos e monótonos tecnicismos da linguagem. E assim chega a Itaocara contemporânea, que retrata e documenta isento de paixões traiçoeiras ou nefastas, valendo ressaltar a importância do que registra sobre a vida política, da emancipação aos nossos dias.”

E, outra vez, Herval Bazílio, finaliza a parte de apresentação da obra  comemorativa ao Centenário de Itaocara como município  dizendo:

“A Imprensa Oficial do Estado do Rio de Janeiro e o Governador Moreira Franco associam-se, com a edição deste livro, ao regozijo da Cidade de Itaocara nos festejos do seu Centenário.”

Sobre o título de seu livro, Eduardo Scisínio, revela:

“... escolhi para uma conferência proferida no Instituto Histórico de Niterói, em 11 de setembro de 1986, o título “Itaocara, uma democracia rural”, com o qual batizo também este livro que não traz quase nada de novo por ter sido quase tudo publicado ou dito alhures, mas que traz a cor de nosso amor pela terra que nos viu crescer, homenageando-a neste seu centenário de independência política.”

Informações sobre o autor: fluminense nascido em 19-011927, quando publicou o livro exercia a função de professor nas Faculdades de Direito da UFRJ, da UFF e da SUESC. Sendo que, também, já havia exercido o cargo de Procurador-Geral do Município de Niterói , assim como, o de Secretário de Cultura do mesmo Município.

Livro
Ilustrações:

► (Pág. 28) “Rio Paraíba na Aldeia da Pedra em 1850. Desenho de Herman Burmeister”.

► (Pág. 31) “Fazenda da Água Preta ao tempo em que pertencia ao Cel. Manoel Lourenço de Souza”

► (Pág. 32) “Vista panorâmica de Itaocara, em 1879  A quarela de A. Scisínio de Araújo”

► (Pág. 129) “Fazenda da Serra Vermelha, que pertenceu ao Cap. Pedro de Souza Coelho, oferecendo belo contraste da vida rural itaocarense”  na foto, distinguimos trabalhaodres negros , próximos á casa da principal da fazenda, e, provável o seu proprietário num carro típico do início dos 20/30.

► (Pág. 132) “ O Conjunto Musical Amizade, da Família Lourenço, na inauguração da caixa Rural de Itaocara”  é um conjunto musical, aparentemente, formado por mestiços.

► (Pág. 178) “Carro alegórico puxado a bois, no carnaval itaocarense do princípio do século XX”  enquanto o carro passa, levando sentados homens brancos bem vestidos e elegantes, uma platéia mestiças e negra, vestida de forma mais simples, assiste o desfile.

► (Pág. 242) “Mineiro-pau de Coronel Teixeira dirigido por Manoel”

►(Pág. 242) “ Mineiro-pau de Porto da Cruz”

► (Pág. 243) “ Folia de Reis de Portela”

► (Pág. 244) “Folia de Reis de Porto Marinho”

► (Pág. 247) “ Maria Rita, bonita e famosa caxambuense de Itaocara, de braços com o autor”  o Autor é Negro.
OBS: há várias outras fotos no livro, porém, me restringe a anotar apenas algumas.

Scisínio, também, informa que, além dos seus próprios arquivos, as ilustrações que aparecem nas páginas de sua obra foram retirados dos seguintes arquivos das seguintes pessoas:

→ Carlos Henrique Berriel;

→ Dr. Faria Souto;

→ Francisco Cunha de Souza;

→D. Jayssa Vieira Pinheiro;

→ José Jorge;

→ José Caldeira Filho;

→ Prof. Mercedes Coelho Pinto;

→ Pedro Pedreti Filho; e

→Waldo Cunha Cidade.

► (Pág. 293) “ A Rua Santo Antônio, antiga Rua dos Velhacos é tomada pela enchente. Na canoa do Aristeu Bucker, em pé, à esquerda, estão entre outros, Elpidio Machado com sua flauta, Agenor Simões com o violão e Simãozinho com o cavaquinho”  nesta divertidíssima foto, todos os músicos são negros e ou mestiços.



História de Itaocara:

►Informações históricas sobre a região: (Págs. 15-17) “Introdução”.

“Em todo o Brasil colônia, até a primeira República, a propriedade rural era fator de liderança política local. E essa liderança era exercida em favor das fazendas onde cornéis exerciam o mando, multiplicando suas riquezas, falseando os votos, nomeando autoridades, empregando familiares e sonegando tributos.

Assim era em São Fidelis. Assim era em Cantagalo. Assim era na maioria dos municípios brasileiros.

Victor Nunes Leal (Coronelismo, enxada e voto, p.21) vê no coronel aquele que “comandava discricionariamente um lote considrável de votos de cabresto” e “enfeixam em suas mãos com ou sem caráter oficial, extensas funções policiais, resultando esta ascendência, para Victor Nunes Leal, da sua qualidade de proprietário rural que é o “coronel rico”.

Mas em Itaocara não era assim. Seu coronelismo foi um coronelismo diferente. O Cel. Antônio Alves Pitta de Castro, Prefeito, deputado estadual, presidente da Câmara e chefe político por longos anos, não tinha propriedade rural. Nem eram fazendeiros (senhores rurais) os chefes Cel. Antônio da Silva pinto, Prefeito Dr. Carlos de faria Souto, deputado federal e chefe político, o Cap. Pedro Joaquim da Cunha, Ataliba Marinho, Nicolau Mary e Amaury Guimarães. Todos exerciam o mando, revezando entre si a direção do município e nenhum era fazendeiro ou mesmo proprietário de terras.

Por outro lado, os grandes proprietários de terras, como, por exemplo, o Cel. Luiz Corrêa da Rocha Sobrinho, usineiro do Engenho Central de laranjeiras, com um feudo de várias fazendas entrecortadas de estrada de ferro própria, não tinha mando nem voz.

Faltando ao meio rural coronéis, não se instituiu ali a aristocracia rural. Havia, é claro, proprietários, grandes e pequenos. Mas eles não eram “Senhores Rurais”.

Itaocara, “de costumes democráticos, impermeável a preconceitos e á estratificação social em classes”, na expressão de Milton F. Burger, rompeu ainda com outra tradição. Na indústria açucareira e mesmo na lavoura canavieira de todas de todas comunas brasileiras, é nítida a separação de classes e de raças. Foi assim no Brasil colônia. Foi assim no Brasil império. Mesmo após a abolição, o senhor de engenho continuou para um lado e escravo para outro, seguindo a eterna linha divisória entre a Casa-Grande e a Senzala.

Em Itaocara não houve esta divisória entre o trabalhador e o senhor engenho. Não havia, aliás, senhor de engenho, ainda que houvesse engenhos, nem havia senzalas, ainda que houvesse escravos. Só em Laranjais havia um resquício desse passado cruel e rude para o trabalhador. Mesmo assim era mais uma divisão de classe do que de raça, pois entre os dominados havia muitos não negros. O primeiro líder dos trabalhadores do Engenho, lavrador em Santa Bárbara, Maciel Rodrigues, não era preto. Foi ele quem organizou o sindicato, contratou juntamente Neném Belloti o advogado Denancy Almeida, de São Fidelis, para inúmeras reclamações trabalhistas que tanto desgostaram o Dr. Péricles Corrêa da Rocha.

No Engenho, no qual o Cel. Luiz Correa da Rocha chegava em classe especial da Leopoldina, rumando para a sede da fazenda sem cumprimentar os empregados pelos quais passava, o chalé simbolizava a Casa-Grande, ficando a senzala representada pelo bairro chamado “Quarenta”. Os negros ali alojados descendiam, em sua maioria , de escravos trazidos pelo Barão de Nova Friburgo, o maior traficante interno da região de Cantagalo e que, um pouco antes da abolição, usando a desvalorização do elemento escravo ocasionada pelo próximo evento daquela, comprava-os no Ceará, trazendo-os para o gavião e para Areal e fornecendo braços aos engenhos do Norte Fluminense e às fazendas de café do centro norte, reembolsando-se dos gastos.

Mas essa separação ostensiva de classes se circunscrevia ao Engenho Central. Não atingia flagrantemente nem mesmo a Laranjais, onde todos eram tratados igualmente por todos.

O Dr. Péricles Corrêa da Rocha, chamado de “O Doutor”, foi herdeiro daquele status, tido como necessário ao exercício do controle social, pelo temor reverencial por ele produzido.

Em Itaocara inexiste essa separação. Há uma convivência democrática. Num dos últimos carnavais, por exemplo, o usineiro Marino Coelho Ornellas, um dos mais prósperos fazendeiros do município, desfilou, fantasiado, na comissão de frente da Escola de samba Verde e Rosa, ligado ao E.C. Nacional, juntamente com os seus cortadores de cana, com a plebe itaocarense.

[...]

Receberam os índios da região  como donos da terra, os portugueses, oferecendo-lhes a mais fina hospitalidade indígena. Recusaram-se, porém, a aceitar o nome de São José de São Marcos, em homenagem ao Vice-Rei, preferindo chamar a sua aldeia de de Aldeia da Pedra, nome que conservou até a substituição por Itaocara, que seria a versão tupi do nome primitivo.



Sofria a aristocracia, nessas pequenas atitudes dos gentios, seu primeiro revés e disso não esqueceu o nosso Imperador que não distribuiu títulos nobiliárquicos em nosso território, onde sempre passou, sem parar, sem uma pessoa apta recebê-lo com as honras monárquicas, como acontecia em Cantagalo, São Fidelis e pelos pequenos lugarejos ou estações ou mesmo fazendas por onde passava.

Nos municípios limítrofes, florescia uma aristocracia rural que foi pujante na primeira metade do século XIX. Cantagalo tinha todo o seu território dividido em feudos que iam da divisa do curato de S.J. de Leonissa até Itaboraí. São Fidélis gravitava em torno dos engenhos que ocupavam os territórios de Campos a Macaé. Santo Antônio de Pádua, aldeia como Itaocara, pertencendo ambas a São Fidélis, era uma região com meia centena de fazendeiros, cujas terras pertencem ainda hoje às suas famílias Luz, Ferreira, Leite, Perlingeiro, Barros, Linhares, Olivier, Campelo, Monteiro de Barros, Decnop, Aquino, Campanário, Tostes, Padilha, formando uma aristocracia rural até hoje algo dominadora.

Itaocara não cresceu em volta das usinas. Pelo contrário. As usinas cresceram em torno dela. Foi uma Vila sem sesmarias, excetuando-se um resto delas nas antigas dimensões de Estrada Nova que foi distrito desmembrado de Cantagalo, quase todo dividido outrora em grande propriedades.

Outro traço marcante da sociologia itaocarense é a cooperação não-contratual muito comum entre os seus moradores, sobretudo os da zona rural.

As colheitas, os plantios, as roçadas, as construções de barracos, as construções pontilhões, limpezas de poços, o combate às queimadas são feitos no regime de mutirões entre lavradores e pequenos sitiantes que prestam mutuamente os seus serviços e até levam para eles os sues empregados, colonos e serviçais.

[...]


Demografia:

► (Pág. 45) “População”. Sugiro tirar foto ou fotocópia.

► (Pág. 85-101) “Os Distritos”. Idem.

Religião:

► (Pág.126) “Candomblé”.



O Candomblé puro não existe em Itaocara. Em Santa Bárbara, segundo distrito e na Serra da Água Quente, chegaram a funcionar terreiros que eram, em verdade, terreiros de umbanda mesclados pelo candomblé.

A Umbanda vem funcionando regularmente em Itaocara com d. Zizinha que possui um templo na outra margem do Paraíba, em terreno que pertenceu a Manoel Antônio de Carvalho. Ostenta ainda Itaocara um terreiro comandado pela d. Laci, irmã do mestre Folia  de Reis?  Onofre, na zona rural do primeiro distrito.

► (Págs. 151-152) “Curandeirismo”. Esta parte é muito interessante. Scisínio parece conhecer bastante as pessoas que aqui cita. Por exemplo, fala sobre Bernardo Estevão  Bernardo Pereira Neto  nascido na Volta do Ipê, em Itaocara, em 22.9.1923. Sobre o vale a pena transcrever o que nos informa Scisínio:

...se classifica como isoterista-kardecista. Na sua “Tenda” há sincronismo de umbanda, catolicismo e isoterismo, dizendo Bernardo que sua crença começou quando recebeu o espírito de Antônio Olívio de Rodrigues, fundador, em 1909, do Círculo Esotérico da Comunidade Pernambucana. No terreiro que hoje não existe mais, chegou a ter 350 médiuns e ali “recebia” o Pai Benedito, que ainda incorpora na sua salinha onde recebe para consultas, em média, dez pessoas por dia. Com o Pai Benedito incorporado, receita hortelã, mangericão, guiné-preto,guiné-vassoura (estes para banho), alecrim, cipó-bravo e outras ervas comuns em Itaocara. Não vende as ervas nem cobra receita. Quando recebe espírito de um cientista anônimo, o seu receituário é o da farmacopéia. Bernardo que tem 14 filhos de dois matrimônios, tem premonições. Quando garoto, diz ele, aconselhou o pai a não deixar uma determinada vaca dormir onde guardava o carro de bois. O pai não lhe deu ouvidos. A vaca foi coçar-se no carro. O chiffe agarrou no fueiro, o carro andou e matou a vaca. O pai o expulsou de casa dizendo que ele era um feiticeiro. Foi mestre folia de reis. Em 20 de março de 1950, o Pe. Waldomiro Pires requisitou do Promotor Ivo Soares (depois desembargador) denúncia contra Bernardo por contrafração do culto católico, por realizar ele uma procissão que conduzia as imagens de São Jorge e São Sebastião. O Dr. Ivo conversou com Bernardo e naquele ano a procissão não saiu ás ruas. Isto está no Livro Tombo da Paróquia, p.24.

Além de Bernardo Estevão, o autor menciona outras personagens famosas por suas conhecidas ligações com o curandeirismo. São elas: d. Quitéria ( parteira e rezadeira), d. Sofia (rezadeira), d. Manoela (rezadeira) e, também, segundo Scisínio, o famoso curandeiro de Jaguarembé Chico Caxixa.

Sobre essas práticas, Scisínio comenta:

“Do curandeirismo para a macumba é um pulo.Gamaliel Borges Pinheiro, em “Moleque Amaro, levado do Diabo”, p. 108, conta esta história que é confirmada pela população da região:

“ Falava-se muito nessas rodinhas das estripulias de Pai Laranjeira, preto velho do tempo da escravidão, morto havia poucos meses, na Fazenda da Boa-Fé, onde nascera e fora criado. Mestre da curimba, fazia seus despachos no esteio de uma porteira da divisa da fazenda. Se encontrasse um branco que não lhe tomasse a ‘bemça’ fazia-o sentir, na hora, tremenda dor de barriga e desandar-lhe o intestino. Brigava com o saci, ‘cortava chuva’, ‘amarrava’ carro de boi, botava praga, enfim, era negro de corpo fechado. Depois de morto, deu para aparecer às sextas-feiras, à meia-noite, todo de preto, com a carapinha branca, no tal esteio. Muita gente o viu ali e ficou apavorada, tornando-se o lugar assombrado e amedrontador. O dono da fazenda, Luiz Corrêa da Rocha, mandou arrancar o esteio, levou para o Engenho Central e mandou lançá-lo à fornalha da usina, para mostrar que não acreditava no azar. Foi uma desgraça completa! À noite, o saci começou a apitar, as moendas e engrenagens do engenho quebraram-se inexplicavelmente. No dia seguinte, diversos carros cheios de cana despencaram do alto do morro, matando 12 bois e danificando cangas e peças diversas. Quando a fornalha esfriou, uma vez que moagem foi interrompida por mais de uma semana, Luiz Correa viu estarrecido que o esteio não fora atingido pelo fogo e estava todo molhado. Apavorado, mandou tirá-lo de lá e recoloca-lo no lugar de origem. Até bem poucos anos atrás, ainda existia o ‘esteio do Laranjeira’ na Fazenda da Boa-Fé, agora dentro da macega, por ter sido mudado o curso do caminho. Pretos e brancos supersticiosos colocavam flores, acendiam velas ao pé dele, às sextas-feiras, e no dia 13 de maio. Diziam ainda que Luiz Correa adoeceu para o resto da vida.”

A fl. 13 do Livro de Tombo da Paróquia o Pe. Waldomiro Pires fez o seguinte registro: “Numa noite o alto-falante da municipalidade lançou no ar o seguinte anúncio: ‘Precisa-se de macumbeiro com as devidas credenciais, garante-se absoluto sigilo. Tratar neste Serviço de Alto-Falantes. Esse anúncio foi repetido três vezes’. Julgamos nossa obrigação exprimir junto ao locutor nossa admiração e estranheza. Felizmente, fomos atendidos e o anúncio foi suspenso.”

Poderosas e respeitáveis feiticeiras e temidos feiticeiros fizeram tremer muita gente na terra itaocarense. Na zona rural dos 2º e º distritos era Pedro Felipe, bombeiro do Engenho Central (bombeiro era o trabalhador que conduzia a água ao eito dos canaviais para saciar a sede dos plantadores ou cortadores de cana). Em Itaocara era d. Gabriela, a mulher dos olhos caídos, mãe da Santa, umadas mais bonitas mulatas da região... D. Quitéria que sendo apenas curandeira muitos a tomavam por feiticeira e a Velha Preta Ignês. (falta a página)



Agricultura:

►(Págs. 130-134) “Agricultura”. Descrição de aspectos ligados á agricultura do município. O autor ressalta o papel importante do lavrador para a mesma.

► (Págs. 134-135) “O Café”.

Retorna o café a Itaocara em pequenas lavouras. O Município foi essecialmente cafeeiro. Descendo de Cantagalo, os Senhores de terra aqui adquiriram suas fazendas que dotavam de café e de seu companheiro inseparável: o escravo.

A produção municipal era pequena. Como até Itaocara se estendia a linha de férrea, para a sua estação era remetido o café produzido em São Sebastião do Alto até Madalena e São Fidélis, na divisa com Jaguarembé, para seu embarque.

Existiam em todas as fazendas terreiros de café e em Itaocara a Usina Leonissa de beneficiamento, de propriedade de Machado Filho, gerenciada pelo sr. Genaro Machado, que canalizara para sua residência a palha-de-café para alimentar o fogão da cozinha.

Itaocara se apresentava como grande produtor de café, tomando-se por base a exportação que fazia desse produto, e foi beneficiado com esse engano.

Quando Deputado Federal pelo Município, o Dr. Carlos de Faria Souto conseguiu ele do Instituto Brasileiro do Café a construção de uma grande usina no Ponto do Pergunta, para atender a Itaocara e São Fidélis. A usina construída não chegou a funcionar. Deu-se a queda do café que levou à ruína inúmeros fazendeiros e comerciantes, aos quais o governo faltou depois de ter obtido deles a produção durante anos, que garantiu o equilíbrio de nossa balança de exportação.

[...]

O ciclo do café não foi longo. Ele sucedeu o da extração de madeira e deu lugar à cana-de-açúcar, que vem reduzindo sua potencialidade principalmente após o fechamento do Engenho Central de Laranjeiras, ligando-se hoje a cana exclusivamente à indústria aguardenteira.



OBS: essa foi a análise do autor nos anos 90.
Festas:

► (Pág. 177-182) “Carnaval”. Descrição do carnaval de Itaocara, inclusive, o autor cita vários grupos que rivalizavam entre si nas ruas da cidade. Interessante.

► (Pág. 249) “Festas Religiosas”. Entre as festas religiosas, há mais afamada é a do Divino Espírito Santo, que a longos anos não se realizam mais. A primeira delas teve lugar em 1826 sob a orientação dos capuchinhos, não os dando notícias os registros que dela tenham participado os índios ou negros como nas festas do Divino no Norte do País.

Aconteceu uma notável em 1895, realizando-se varias outras quase anualmente sem as mesmas pompas daquela de 95. Só em 1925 realizou-se outra grande festa, parecendo-se que as Cavalhadas é que emprestavam aos festejos religiosos a pompa que as credenciavam como atração entre os municípios vizinhos.

Mas, em verdade, as Festas do Divino realizado em Itaocara, subtraindo-se as Cavalhadas, nada mais dela se assemelhava àquelas que se realizavam no Rio, em Minas ou na Bahia e que foram recolhidas como manifestações folclóricas.

Em determinado ano quando promovida pela Irmandade do Santíssimo Sacramento, ela se fez uma réplica da Festa do Divino Paulista, de origem européia com fundamentos caritativos, pois naquele ano o Pe. Vicente Garcia de La Veja distribui vale de dois mil réis para que os pobres os recebessem da Comissão de Festas. Nunca mais isso se repetiu e em nada elas diferiram nos últimos anos da Festa do Rosário ou mesmo da Festa de São José de Leonissa que o Pe. Luiz de Almeida chegou a suspender por considerá-la eminentemente profana e alimentadora de barriquinhas espalhadas na cidade.


Folclore:

► (Pág. 240) O folclore foi sempre cultivado e estudo seriamente em Itaocara. O Prefeito Faria Souto (o Dr. Carlinhos) em 1974 contratou a Professora Cristina Lanes, de 18 anos, para contar histórias infantis em praça pública e ela, com o auxílio de alto-falantes, contava às crianças de todos os cantos do Município, aventuras de príncipes, princesas, fadas e vilões. A titia Cristina era, em verdade, a reprodução dos MARANDUEIRAS, nome dado entre os coroados e os puris desta região ao índio escolhido pelo pajé, cuja função era contar aos indiozinhos histórias das guerras dos que enriquecem a literatura infantil.

Mercedes Coelho Pinto, em cujo acervo particular fomos buscar algumas fotos das ilustrações deste livro, vem há longos anos, recolhendo o nosso folclore e dando a ele a divulgação necessária, o mesmo ocorrendo com a Prof. Noêmia Teixeira.

A Prefeitura Municipal e os colégios municipais e estaduais valoram as manifestações folclóricas. Recentemente, isto é, em 19 e 20 de agosto de 1989, o PREFEITO Robério Ferreira da Silva, realizando, com o seu Secretário de Agricultura José Luiz Teixeira Guimarães a 1 ª Exposição de Produtos Agrícolas de Itaocara (que pode não ter sido a primeira), programou para a mesma a exibição do Mineiro Pau, da Folia de Reis e um Forró.

Os grupos folclóricos existentes em Itaocara são sos seguintes:

Peixe-Vivo – Colégio Itaocara

Frevo – Colégio João Brasil

Dança das Fitas – G.E. Frei Tomás

As Pastorinhas – Crianças da comunidade

Todos os grupos são constituídos de alunos de nossas escolas, educados, treinados e dirigidos pela Professora Mercedes Coelho Pinto e sua equipe.

Há os grupos de formação espontânea e caráter permanente que serão destacadas em seguida.
Caxambu:

► (Págs. 240-241) O Caxambu de Itaocara é originário do Congo, África, e veio com o elemento negro trazido para São Fidélis e Cantagalo para as lavouras de café e da cana-de-açúcar, fixando-se em maior porção no nosso Município, onde não havia nem Casa-Grande nem Senzala, misturando-se com os nossos nativos quando fugiam das fazendas do Barão de Nova Friburgo, certos de que entre os puris ninguém se sentia encorajado a buscá-los. O interior de Estrada Nova e do 1º Distrito era um grande quilombo. O Caxambu foi muito freqüente quando contava com jongueiros como José Aniceto, Zé-Pato, Sabina, Moleque, Sinhanga, Evaristo, Neco, Totônio Dias, Manoel Inácio, Rufino, Maria Tubia, Donga e entre outros os mais novos Badega (chefe de excelente grupo), Carlinhos (do 3º distrito de Portela), Meranda, Laurides, Tibúrcio e muitos outros.

É um ritual de terreiro dançado por adultos e crianças ambos os sexos numa roda em cujo centro fica um dançador puxando músicas chamadas ponto, enquanto salta, bate com os pés e com as mãos, dá volta e balança o corpo ao ritmo de dois tambores feitos de tronco de madeira, ocos, lisos, tapados com couro esquentado na fogueira com caxambuzeiros sentados sobre eles. Esses tambores chamam-se também angoma ou caxambu ou candonga. Em alguns lugares a angona é a cuíca que e menor, chamada, também ingona.

Badega começava o caxambu “salvando” o preto-velho e os jongueiros mortos e depois mandava um dançador desafiar os outros para que alguém o deixasse “amarrado” no meio da roda até que outro dançador colocasse o cotovelo no tambor fazendo-o parar. O primeiro dançador”amarrado” sentindo-se impotente, sai da roda. Aquele que fez cessar a dança reinicia o ritual, com as mesmas “salvações” aos pretos-velhos e e puxa novo “ponto” que pode ser memorizado, improvisado ou mesmo popular. Há sempre no ponto um lamento contra a opressão. Em Itaocara, o caxambu e o jongo têm a mesma coreografia e o mesmo ritmo. A proliferação dos terreiros de umbanda têm reduzido os grupos de caxambu. Sua aparição se dá nas festas consagradas a São João, Antônio e São Pedro, e em volta das fogueiras armadas em louvor a esses santos nos dias a eles consagrados.

Muitas manifestações folclóricas como o próprio caxambu, a fogueira , com a passagem de pés descalços sobre as suas brasas, nas noites de São João, as iguarias próprias paRa esses dias de folguedo devem sua permanência entre nós às festas juninas nas quais acontecem ainda o “pau-de-sebo”, o “mineiro-pau”, o “arrasta-pé”, animado por sanfona de oito baixos, o casamento na roça, a quadrilha para os quais tínhamos em Nestor Taveira e Bilete Lourenço, dois grandes marcadores.

E as grandes festas juninas de Itaocara eram realizadas pelo Sr. José Gonçalves, um comerciante de aves e ovos, defronte à sua casa, na ponta da Areia (confluência da Rua Nilo Peçanha com a Av. Roberto Silveira e Rua Silva Jardim), recebendo ele o auxílio decisivo de sua esposa d. Lucília Barros Gonçalves.

Italarico Alves, construtor licenciado, introdutor em Itaocara da estrutura de cimento armado, construindo para si um prédio de três andares na Rua Aristeu Bucker, foi outro realizador de grandes festas juninas, armando na rua, defronte à sua casa, enorme fogueira onde se aqueciam os jongueiros famosos de Itaocara, que iam com o Caxambu até a manhã do dia seguinte.”
Mineiro-Pau:

► (Págs. 241-243) Em Itaocara existem três grupos de Mineio-Pau: o do Engenho Central – o mais tradicional -, o do Porto da Cruz e o de Cel. Teixeira, dirigido por Manoel Luiz, ali residente, que tinha no seu velho pai, já falecido, um grande incentivador. É a dança folclórica mais movimentada, de mais bonita coreografia. Diz Cássia Frade: “é dança executada por homens, adultos e crianças, cada qual portando um ou dois bastões feitos de galhos de árvores resistentes, desenvolvida em círculos ou em fileiras que se defrontam, os dançarinos voltados de frente para o seu par, realizam uma coreografia totalmente marcada pela batida dos bastões. Sempre em compasso quaternário e marcando o tempo forte com as pontas dos bastões batendo no chão. A variedade de bater os bastões em três tempos é que dá nomes específicos às partes: batida de três, batida de quatro, batida cruzada, batida no alto, batida no baixo, etc”.

No grupo de Batatal o acompanhamento é feito pr Manuel Luiz com uma sanfona de 8 baixos, mais um bumbo de tamanho médio, uma caixa, um triângulo, um chocalho e um pandeiro. Prof. José Decusatis, em “Festas, Folguedos, Falares”, pág. 41, informa ter visto nos grupos de Mineiro-Pau, elementos como o boi Pintadinho, a Mulinha, O Gavião, etc, não comuns em Itaocara.

O Mineiro-Pau é uma dança que exige vigor e precisão rítmica de seus participantes. Um cantador ou “tirador” puxa a cantoria que é por todos respondida animadamente: “Oh Mineiro-Pau! Oh Mineiro-Pau!”


Folia de Reis:

► (Págs. 243-244) As Folias de Reis são grupos religiosos que saem no ciclo do Natal (25 de dezembro a 20 de janeiro), cantando a viagem que os Três Reis do Oriente fizeram ao Presépio de Belém. As partes cantadas, denominadas jornadas, contém textos eruditos e populares, havendo puxadores que habitualmente versificam os mesmos trechos bíblicos ou histórias tradicionais. Os instrumentos utilizados pelos tocadores são a sanfona, o cavaquinho, a viola, o pandeiro, o triangulo ou ferro, o chocalho, o bumbo e a caixa. À frente da folia aparecem figuras mascaradas denominadas palhaços, representado os soldados de Herodes que, diante da visão do Menino Deus, se converteram e tornaram-se espiões vestidos com roupas multicores e usando máscaras que são disfarces para não serem reconhecidos pelo diabólico Imperador. Não cantam as jornadas. Falam versos memorizados ou improvisados que animam as representações.

Em Itaocara existem as seguintes Folias de Reis: Estrada Nova, São José, Porto da Cruz, do Tavinho, de Santa Clara (dirigida por Onofre que eram um dos palhaços quando dirigentes e a Bernardo Estevão) e do Engenho Central, dirigido por João Santino.
Boi Pintadinho:

► (Págs. 244-245) No convite da Festa Folclórica de Itaocara, redigido por d. Mercedes Souza Pinto, há esta explicação: “Versão fluminense do brasileiríssimo Bumba-meu-Boi, o Boi Pintadinho, com figuras fantásticas, humanas e de animais apresenta-se no tempo do carnaval, animando e alegrando as ruas e estradas de várias cidades. Em Itaocara o grupo do ex -funcionário dos Correios e Telégrafos, Sebastião Lontra, conhecido por Filhinho Caolho, destaca-se por suas particularidades: os brincantes não são fixos. Participa quem gosta e quem quer. Depois da última apresentação costumam quebrar o corpo do boi, simbolizando o fim da temporada e a carcaça do bicho é colocada a porta dos organizadores que a reforma para o próximo ciclo”. Existe em Itaocara, no lugar chamado Campo Belo, outro Boi Pintadinho assemelhado ao do saudoso Filhinho. Existindo em Portela um Grupo de Boi-Coração II que é uma variação do Boi Pintadinho, dirigido por Pedro Garcia de Freitas.


Epidemias e tragédias naturais:

► (Pág 282) “A cólera morbus”.

Itaocara tem sido também os seus dias de luto, dias de tristeza. Os maiores deles talvez tenham sido os últimos dias do ano de 1885 e os primeiros de 1886, quando a população foi vítima de cólera “morbus”, de caráter epidêmico, morrendo dezenas e dezenas de pessoas.

O mês de outubro de 1885 marcou o início da epidemia, registrando o ver. Frei Florido às pp.135 e 136 do Livro de Registro de Óbitos nº 1 “ trinta óbitos por cólera fulminante”.

Em novembro de 1885 o mesmo frei Florido registrou 25 óbitos. Em dezembro foi feito o registro de 40 sepultamos, descendo o número consideravelmente nos meses de janeiro e fevereiro de 1886, mas ainda morrendo algumas pessoas.

Esses sepultamentos ocorreram em itaocara. Nos cemitérios da zona rural ocorreram inúmeras inhumações, registrando o livro de óbitos da Paróquia o sepultamento de três escravos: Cândido de nação, com 3 anos, Francisco com 18 anos e Joana com 1 ano, no cemitério improvisado na fazenda da Boa-Fé, de propriedade do Barão de Nova Friburgo.

► (Págs. 283-284) “Influenza hespanhola”. O autor relata aqui os efeitos produzidos pela “gripe espanhola” em Itaocara no ano de 1918. Relaciona alguns mortos.

►(Págs. 291-294) “Enchentes”. Informações sobre as diversas enchentes que vitimizaram Itaocara. Como observei, também, para outras regiões, as enchentes surgem como marcas dignas de notas na obras de vários historiadores e memorialistas com os quais trabalhei.



Comentários: a obra de Alaôr Eduardo Scisínio, procura ser abrangente plural. Scisínio parece conhecer muito bem  inclusive, quando escreve sobre religiosidade afro-brasileira  os eventos e as pessoas que cita. Não é uma obra de historiadores, mas, constituí-se em grande fonte de informações sobre o município de Itaocara.


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