Localizado a 615 quilômetros de Teresina, Dom Inocêncio é o município da microrregião de São Raimundo Nonato, situado no sul do Estado do Piauí



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Encontro23.07.2016
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Localizado a 615 quilômetros de Teresina, Dom Inocêncio é o município da microrregião de São Raimundo Nonato, situado no sul do Estado do Piauí. Com 10 mil habitantes, a economia da cidade se sustenta principalmente da agricultura de subsistência e da pecuária. E é neste município que surgiu há quase 10 anos o projeto Bordados da Caatinga.

Tudo começou em 1963 com a chegada do padre Manuel Lira Parente ao terreno que seria o embrião da Fundação Ruralista, no antigo distrito de Curral Novo. A vegetação na sua maioria é de cactos quase sempre escondidos em meio às folhas secas. O índice pluviométrico é muito baixo, são 180 milímetros de chuva por ano e por este motivo Dom Inocêncio é uma das cidades do nordeste que menos chove.

O Projeto dos bordados idealizado pelo padre Lira previa a instalação de reservatórios d'água, construção de estradas e principalmente escolas próximas ao povoado, mas só iniciou de fato no ano de 1965. Através da sensibilidade de um padre que sentia insatisfeito com o êxodo rural e com as condições precárias de vida desta população.

O principal objetivo da Fundação é fazer com que o homem sertanejo permaneça na sua terra natal, para que não seja obrigado a migrar no período da seca para as grandes cidades. Mas antes mesmo do projeto Bordados da Caatinga, a Fundação Ruralista já enxergava na arte do bordado uma possibilidade de melhoria de vida para as famílias da região. Ainda na década de 60, foram fundadas escolas de bordados. A tradição começou a ser ensinada na escola do município, para as meninas, e tornou-se uma das mais importantes ferramentas de geração de renda nos longos períodos de estiagem. Trata-se do resultado de um forte trabalho educacional, e um dos patrimônios da localidade.

A primeira escola sede da Fundação Ruralista começou a funcionar em 1º de julho de 1965, com trinta e dois alunos de várias idades. Ao mesmo tempo, com quarenta crianças iniciaram as aulas no povoado de Cacimbas a 18 km do povoado Curral Novo. A partir da fundação dessas duas escolas, as aulas eram ministradas para alunas com idade entre sete e quatorze anos e o bordado passou a ser atividade obrigatória e curricular nas escolas da região.

A Fundação Ruralista conseguiu manter trinta e duas escolas funcionando em boa parte do município. Diminuindo assim, o índice de analfabetismo na região.
Todo esse processo está relacionado ao Projeto idealizado por padre Lira, que tem como lema: “Educação é Desenvolvimento”. Isto remete que educação não é só ler e escrever, mas proporcionar uma atividade profissionalizante aos estudantes do semi-árido, um sistema de educação integrado, onde o aluno possa passar o dia todo na escola.
Foi pensando em desenvolver o projeto de artesanato do bordado em Dom Inocêncio, que em mil novecentos e sessenta e cinco padre Lira convidou a jovem bordadeira em ponto de cruz, Maria da Conceição Leal para atuar no projeto. Em mais de 30 anos passou de professora a coordenadora dos bordados da Fundação Ruralista. Ela visitava as escolas periodicamente, fazendo vistoria dos bordados e de toda a escola. Hoje ocupa o cargo de Presidente da Fundação Ruralista e vê os bordados como um futuro promissor.
Hoje as ex-alunas de Conceição tornaram-se professoras, muitas delas são mães e outras até avós, que passam esta antiga tradição portuguesa de geração em geração, como é o caso de Rosália e Laudilne.
No ano de 2000, o projeto ganha o reforço do SEBRAE/PIAUÍ juntamente com a EMBRATUR, que reconheceram o alcance social da iniciativa da Fundação Ruralista junto às 700 bordadeiras.

Foi criada, então, a marca “Bordados da Caatinga” e expandida assim, as possibilidades de comercialização dos produtos que já faziam parte da tradição local.

Atualmente, os Bordados da Caatinga são conhecidos nacional e internacionalmente e comercializados em países como Estados Unidos, França, Itália, Alemanha e Inglaterra.
Mas os benefícios não são apenas financeiros. Há 26 anos os bordados da Fundação receberam prêmio na categoria educação, ciência e cultura, no quesito qualidade, oferecido pela Organização das Nações Unidas durante evento realizado na França. Além disso, os bordados da caatinga já participaram de mais de 30 feiras e exposições no Brasil e exterior. Mas uma das mais significativas indicações aconteceu também em 2005, quando o projeto foi indicado ao prêmio Cláudia, na categoria “Trabalho Social”.
Se a idéia do Padre Lira era permitir às mulheres uma renda na época da estiagem, o projeto parece ter ultrapassado os sonhos mais otimistas de seu idealizador. Estima-se que mais de mil artesãs já tenham sido beneficiadas nesses nove anos de projeto. Apesar da seca, muitas famílias têm ficado em Dom Inocêncio, apoiadas na renda dos bordados.

Prova de que para evitar o êxodo rural e a favelização das grandes metrópoles, é preciso entender as vocações próprias e as necessidades de cada povo. E uma das vocações mais fortes de Dom Inocêncio é, sem dúvida, a arte do bordado.


Jornalista,

Marcelo Damasceno


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