Léon Denis No Invisível Título Original em Francês Léon Denis Dans l'Invisible Paris (1903)



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Prefácio da edição de 1911


Nos dez anos que transcorreram, do aparecimento desta obra até à presente edição, o Espiritismo prosseguiu a sua marcha ascensional e se opulentou com experiências e testemunhos de elevado valor, entre os quais particularmente os de Lodge, Myers, Lombroso lhe vieram realçar o prestígio e assegurar, com a autoridade científica que lhe faltava, uma espécie de consagração definitiva. Por outro lado os abusos e as fraudes, que precedentemente assinalamos, se multiplicam. Haverá nisso porventura uma lei histórica, em virtude da qual o que uma idéia ganha em extensão deverá perder em qualidade, em força, em intensidade?

No que respeita aos testemunhos coligidos e aos progressos realizados, a situação do Espiritismo na França não é idêntica à alcançada em certos países estrangeiros. Enquanto na Inglaterra e na Itália conquistou ele, nos círculos acadêmicos, adesões de singular notoriedade, a maioria dos sábios franceses adotou a seu respeito uma atitude desdenhosa e, mesmo, de aversão,ii no que revelaram eles bem escassa clarividência; porque, se a idéia espírita apresenta, às vezes, exageros, repousa, entretanto, em fatos incontestáveis e corresponde às imperiosas necessidades contemporâneas.

Há de todo espírito imparcial reconhecer que nem a ciência oficial nem a Religião satisfazem às necessidades e às aspirações da maior parte da Humanidade. Não é de admirar, portanto, que tantos homens tenham procurado em domínios pouco explorados, posto que abundantíssimos em subsídios psicológicos, soluções e esclarecimentos que as velhas instituições não são capazes de lhes fornecer. Pode esse gênero de estudos desagradar a uns tantos timoratos e provocar, de sua parte, condenações e críticas. Arrazoados vãos que o vento leva. Apesar das exigências, das objurgações e anátemas, as inteligências não cessarão de encaminhar-se ao que mais justo, melhor e mais claro lhes parece. As repulsas de uns e as desaprovações de outros nada conseguirão. Fazei mais e melhor – é a objeção que se oporá. Padres e sábios, que vos podeis consagrar aos lazeres do espírito, em lugar de escarnecer ou fulminar no vácuo, mostrai-vos capazes de consolar, de amparar os que vergam sob um trabalho material esmagador, de lhes explicar o motivo de seus sofrimentos e lhes fornecer as provas de compensações futuras. Será o único meio de conservardes a vossa supremacia.

Pode-se, além disso, perguntar qual será mais apto a julgar os fatos e discernir a verdade: se um cérebro atravancado de prevenções e de teorias preconcebidas ou se um espírito livre, emancipado de toda rotina científica e religiosa.

Por nós responde a História!

É indubitável que os representantes da ciência oficial têm prestado valiosos serviços ao pensamento e muitos extravios lhe evitaram. Quantos obstáculos, porém, não opuseram eles, em numerosos casos, à ampliação do conhecimento, verdadeiro e integral!

O professor Charles Richet, que é autoridade na matéria, pôs vigorosamente em relevo, em “Annales des Sciences Psychiques”, de janeiro de 1905, os erros e as debilidades da ciência oficial.

A rotina ainda hoje impera nos meios acadêmicos; todo sábio que se esquiva a seguir a trilha consagrada é reputado herético e excluído das prebendas vantajosas. Demonstração lamentável desse fato é o exemplo do Dr. Paulo Gibier, obrigado a expatriar-se para obter uma colocação.

A esse respeito não se tem a Democracia mostrado menos absolutista nem menos tirânica que os regimes decaídos. Aspira ao nivelamento das inteligências e proscreve os que a procuram libertar das materialidades vulgares. A interiorização dos estudos depauperou o pensamento universitário, deprimiu os caracteres, paralisou as iniciativas. Inutilmente se procuraria entre os sábios, na França, um exemplo de intrepidez moral comparável aos que deram, na Inglaterra, William Crookes, Russel Wallace, Lodge, etc., Lombroso e outros, na Itália. A única preocupação que parece terem os homens em evidência é modelar suas opiniões pelas dos “senhores do momento”, a fim de se beneficiarem dos proventos de que são estes os dispensadores.

Em matéria de psiquismo parece haver carência do vulgar bom-senso à maioria dos cientistas. O professor Flournoy o confessa: “Para a Humanidade das remotas eras, como atualmente ainda para a grande massa que a compõe, a hipótese espírita é a única verdadeiramente conforme ao mais elementar bom-senso, quanto a nós, cientistas, saturados de mecanismo materialista desde os bancos escolares, essa mesma hipótese nos revolta até às maiores profundezas do bom-senso, igualmente mais elementar.” iii

Em apoio de suas asserções, cita ele os dois seguintes exemplos,iv relativos a um fato universalmente reconhecido verdadeiro:

“O grande Helhholtz – relata o Senhor Barrett – certa vez disse que nem o testemunho de todos os membros da Sociedade Real, nem a evidência de seus próprios sentidos o poderiam convencer sequer da transmissão de pensamento, impossível que era esse fenômeno”.

“Um ilustre biologista – refere também o Senhor W. James – teve ocasião de me dizer que, mesmo que fossem verdadeiras as provas da telepatia, os sábios se deveriam coligar para as suprimir ou conservar ocultas, pois que tais fatos destruiriam a uniformidade da Natureza e toda espécie de outras coisas de que eles, sábios, não podem abrir mão, para continuar suas pesquisas.”

Os fatos espíritas, entretanto, se têm multiplicado, imposto com tamanho império que os sábios se têm visto obrigados à tentativa de os explicar. Não são, porém, as elucubrações psicofisiológicas de Pierre Janet, as teorias poligonais do Doutor Grassei, nem a criptomnésia de Th. Flournoy que podem satisfazer aos pesquisadores independentes. Quando se possui alguma experiência dos fenômenos psíquicos fica-se pasmado ante a penúria de raciocínio dos críticos científicos do Espiritismo. Escolhem eles sempre, na multidão dos fatos, alguns casos que se aproximem de suas teorias e silenciam cuidadosamente de todos os inúmeros que as contradizem. Será esse procedimento realmente digno de verdadeiros sábios?

Os estudos imparciais e persistentes induzem a outras conclusões. Falando do Espiritismo, Oliver Lodge, reitor da Universidade de Birmingham e membro da Real Academia, o afirmou: “Fui pessoalmente conduzido à certeza da existência futura mediante provas assentes em bases puramente científicas.” (“Annales des Sciences Psychiques”, 1897, página 158.)

J. Hyslop, professor da Universidade de Colúmbia, escrevia: “A prudência e reserva não são contrárias à opinião de que a explicação espírita é, até agora, a mais racional.”

Se, pois, não têm sido poupados sarcasmos aos espíritas, nas esferas científicas, há, como se vê, sábios que lhes têm sabido fazer justiça. O professor Barrett, da Universidade de Dublin, se exprimia do seguinte modo, por ocasião de sua investidura na presidência da “Society for Psychical Research” em 29 de janeiro de 1904:v

“Não poucos dos que me ouvem se recordam certamente da cruzada outrora empreendida contra o Hipnotismo, que então se denominava mesmerismo. As primeiras pessoas que com tais estudos se ocuparam foram alvo de incessantes opugnações do mundo científico e médico, de um lado, e do mundo religioso, do outro. Foram denunciadas como impostoras, repudiadas como párias, enxotadas, sem cerimônia, das sinagogas da Ciência e da Religião. Passava-se isso numa época bastante próxima de nós para que eu tenha necessidade de o recordar. A ciência médica e filosófica não pode deixar de curvar as cabeças envergonhadas, lembrando-se desse tempo e vendo o Hipnotismo e o seu valor terapêutico atualmente reconhecidos, tornados parte integrante do ensino científico em muitas escolas de Medicina, sobretudo no Continente!... Não é nosso dever cultuar hoje a memória daqueles intrépidos pesquisadores, que foram os primeiros desse ramo dos estudos psíquicos!”.

“Não devemos, do mesmo modo, esquecer esse pequeno grupo de investigadores que, antes do nosso tempo e ao fim de pacientes e demoradas pesquisas, tiveram a coragem de proclamar sua crença em tais fenômenos, que denominaram espiríticos... Não foram, sem dúvida, os seus métodos de investigação totalmente isentos de crítica, o que, todavia, os não impediu de ser pesquisadores da verdade, tão honestos e dedicados como pretendem ser; e tanto mais dignos são eles da nossa estima quanto sofreram os maiores sarcasmos e oposição. Os espíritos fortes sorriam então, como agora, dos que mais bem informados que eles se mostravam. Suponho que todos somos inclinados a considerar o nosso próprio discernimento superior ao do nosso próximo. Não são, porém, afinal o bom-senso, as precauções, a paciência, o estudo contínuo dos fenômenos psíquicos que maior valor conferem à opinião que viemos, por fim, a adotar e não a argúcia ou o cepticismo do observador?”.

“Devemos ter sempre em consideração que o que é afirmado, mesmo pelo mais obscuro dos homens, em resultado de sua experiência pessoal, é sempre digno de nos prender a atenção; e o que é negado, mesmo pelos mais reputados indivíduos, desde que ignoram a coisa, jamais no-la deve merecer”.

“Aquele perspicaz e valoroso espírito que era o professor De Morgan, o grande denunciador do charlatanismo científico, teve a coragem de publicar, há muito, que por mais que se tente ridicularizar os espíritas, nada deixam por isso eles de estar no caminho que conduz ao adiantamento dos conhecimentos humanos, seguindo, embora, o espírito e o método primitivos, quando era preciso rasgar nas florestas virgens a estrada por onde podemos agora avançar com a maior facilidade.”

Rendendo homenagem aos espíritas, o professor Barrett reconhecia, como juiz imparcial, que não era isento de crítica o seu zelo. Hoje, como então, essa opinião é inteiramente justificada. A exaltação de uns tantos adeptos, o seu entusiasmo em proclamar fatos duvidosos ou imaginários e a insuficiência de verificação nas experiências têm prejudicado muitas vezes a causa que acreditavam servir. É isso talvez o que, até certo ponto, justifica a atitude retraída, por vezes hostil, de alguns sábios a respeito do Espiritismo.

O professor Ch. Richet escrevia nos “Annales des Sciences Psychiques”, de janeiro de 1905, pág. 211: “Se os espíritas foram muito arrojados, usaram, entretanto, de bem pouco vigor e é uma deplorável história a de suas aberrações. Basta por agora ficar estabelecido que eles tinham o direito de ser muito arrojados e que não lhes podemos, em nome da nossa ciência falível, incompleta, ainda embrionária, censurar esse arrojo. Dever-se-lhes-ia, ao contrário, agradecer o terem sido tão audaciosos.”

As restrições do Sr. Richet não são menos fundadas que os seus elogios. Muitos experimentadores não conduzem os seus estudos com a ponderação e a prudência necessárias. Empenham-se, de preferência, em obter as manifestações tumultuárias, as materializações numerosas e repetidas, os fenômenos de grande notoriedade, sem considerar que a mediunidade só excepcionalmente e de longe em longe pode servir à produção de fatos desse gênero. Quando têm à mão um médium profissional dessa categoria, o atormentam e esgotam. Levam-no fatalmente a resvalar para a simulação. Daí as fraudes, as mistificações, assinaladas por tantas folhas públicas.

Muitíssimo preferíveis são, a meu ver, os fatos mediúnicos de índole mais íntima e modesta, as sessões em que predominam a ordem, a harmonia e a comunhão dos pensamentos, por cujo veículo fluem as coisas celestes, como orvalho, sobre a alma sequiosa e a esclarecem, confortam e melhoram. As sessões de efeitos físicos, mesmo quando sinceras, sempre me deixaram uma impressão de vácuo, de desgosto e mal-estar, em razão das influências que nelas intervêm.

A médiuns profissionais deveram sem dúvida sábios como Crookes, Hyslop, Lombroso, etc., os excelentes resultados que obtinham; em suas experiências, porém, adotavam precauções de que não costumam os espíritas munir-se. Em sessões de materialização realizadas em Paris por um médium americano, em 1906 e 1907, e que alcançaram desagradável notoriedade, haviam os espíritas estabelecido um regulamento que os assistentes se comprometiam a observar e de cujas estipulações resultava a inesperada conseqüência de isentar o médium de toda eficaz verificação. A obscuridade era quase completa no momento das aparições. Os assistentes tinham que conversar em voz alta, cantar, conservar as mãos presas formando a cadeia magnética e, além de tudo, abster-se de tocar nas formas materializadas. Desse modo, a vista, o ouvido, o tato ficavam pouco menos que aniquilados. Tais condições, é certo, se inspiravam numa louvável intenção, porque, em tese geral, como teremos ocasião de ver no curso desta obra, favorecem a produção dos fatos; mas no caso em questão contribuíam também para mascarar as fraudes. As faculdades do médium, entretanto, eram reais e nas primeiras sessões se produziram autênticos fenômenos, que adiante relatamos. Houve, em seguida, uma mistura de fatos reais e simulados e o embuste veio, por fim, a tornar-se constante e evidente. Depois de haver, numa revista espírita, assinalado os fenômenos que apresentavam garantias de sinceridade, mais tarde me senti realmente obrigado a denunciar fraudes averiguadas e comprometedoras.

Ao fim de longa pesquisa e de acuradas reflexões, nada tenho que retirar de minhas apreciações anteriores. Fiz justiça a esse médium, indicando o que havia de real em suas sessões, mas não hesitei em lhe denunciar as simulações no dia em que numerosos e autorizados testemunhos as evidenciaram, entre os quais se encontra o de um juiz da Corte de Apelação, que é ao mesmo tempo eminente psiquista.

Guardar silêncio acerca dessas fraudes, encobri-las com uma espécie de tácita aprovação, seria abrirmos a porta a um cortejo de abusos que, em certos meios, têm desacreditado o Espiritismo e estorvado o seu desenvolvimento. Atrás do hábil simulador, logo entre nós surgiram umas intrusões condenadas pelos tribunais de vizinhos países. Mais recentemente, o médium Abendt foi, em idênticas circunstâncias, desmascarado em Berlim, como em seguida o foram Carrancini em Londres e Bailey em Grenoble. Sem o brado de alarme que soltamos, correríamos o risco de resvalar por um fatal declive e cair num precipício.

Os espíritas são homens de convicção e fé. Mas, se a fé esclarecida atrai, nos planos espirituais e materiais, nobres e elevadas almas, a credulidade, no plano terrestre, atrai os charlatães, os exploradores de toda espécie, a chusma dos cavalheiros de indústria que só nos procuram ludibriar. Aí está o perigo para o Espiritismo. Cumpre-nos, a todos os que em nosso coração zelamos a verdade e nobreza dessa coisa, conjurá-lo. De sobra se tem repetido: o Espiritismo ou será científico, ou não subsistirá. Ao que acrescentaremos: o Espiritismo deve, antes de tudo, ser honesto!

*

Mais algumas palavras cabem aqui sobre a doutrina do Espiritismo, síntese das revelações mediúnicas, entre si concordantes, obtidas em todo o mundo, sob a inspiração dos grandes Espíritos que a ditaram. Cada vez mais se afirma e se vulgariza essa doutrina. Até mesmo entre os nossos contraditores não há quem se não sinta na obrigação moral de lhe fazer justiça, reconhecendo todos os benefícios e inefáveis consolações que tem prodigalizado às almas sofredoras.

O professor Th. Flournoy, da Universidade de Genebra, assim se exprime a seu respeito no livro “Espíritos e Médiuns”: “Isenta de todas as complicações e sutilezas da teoria do conhecimento e dos problemas de alta Metafísica, essa filosofia simplista se adapta por isso mesmo admiravelmente às necessidades do povo.”

A seu turno, J. Maxwell, advogado geral perante a Corte de Apelação de Paris, se pronunciava do seguinte modo em sua obra “Os Fenômenos Psíquicos”: “A extensão que a doutrina espírita adquire é um dos mais curiosos fenômenos da época atual. Tenho a impressão de estar assistindo ao nascimento de um movimento religioso a que estão reservados consideráveis destinos.”

Além disso, Th. Flournoy, em seguida a uma investigação, cujos resultados menciona em sua obra pré-citada, expende os seguintes comentários:vi

“Há um coro geral de elogios acerca da beleza e excelência da filosofia espírita, um testemunho quase unânime prestado à salutar influência que exerce na vida intelectual, moral e religiosa de seus adeptos. Mesmo as pessoas que têm chegado a desconfiar completamente dos fenômenos e, por assim dizer, os detestam, pelas dúvidas e decepções a que dão lugar, reconhecem os benefícios que devem às doutrinas.”

E mais adiante:

“Encontram-se espíritas que nunca assistiram a uma experiência e nem sequer o desejam, mas afirmam ter sido empolgados pela simplicidade, beleza e evidência moral e religiosa dos ensinos espíritas (existências sucessivas, progresso indefinido da alma, etc.). Não se deve, pois, obscurecer o valor dessas crenças, valor incontestável, pois que inúmeras almas declaram nelas ter encontrado um elemento de vida e uma solução à alternativa entre a ortodoxia, de um lado, alguns de cujos dogmas repulsivos (como o das penas eternas), já não podiam admitir, e do outro lado às desoladoras negações do materialismo ateu.” vii

E, todavia, em que pese às observações do Senhor Flournoy, mesmo no campo espírita não têm escasseado as objeções. Entre os que são atraídos pelo aspecto científico do Espiritismo, alguns há que menosprezam a filosofia. É que para apreciar toda a grandeza da doutrina dos Espíritos é preciso ter sofrido. As pessoas felizes sempre são mais ou menos egoístas e não podem compreender que fonte de consolação contém essa doutrina. Podem interessar-lhes os fenômenos, mas para lhes atear a chama interior são necessários os frios sopros da adversidade. Só aos espíritos amadurecidos pela dor e a provação as verdades profundas se patenteiam em toda plenitude.

Em assuntos dessa ordem tudo depende das anteriores predisposições. Uns, seduzidos pelos fatos, se inclinam de preferência à experimentação. Outros, esclarecidos pela experiência dos séculos transcorridos ou pelas lições da atual existência, colocam o ensino acima de tudo. A sapiência consiste em reunir as duas modalidades do Espiritismo num conjunto harmônico.

A experimentação, como o veremos no curso desta obra, exige qualidades não vulgares. Muitos, baldos de perseverança, depois de algumas tentativas infrutíferas, se afastam e regressam à indiferença, por não terem obtido com a desejada presteza as provas que buscavam.

Os que sabem perseverar, cedo ou tarde, encontram os sólidos e demonstrativos elementos em que se firmará uma convicção inabalável. Foi o meu caso. Desde logo me seduziu a doutrina dos Espíritos; as provas experimentais, porém, foram morosas. Só ao fim de dez ou quinze anos de pesquisa foi que se apresentaram irrecusáveis, abundantes. Agora encontro explicação para essa longa expectativa, para essas numerosas experiências coroadas de resultados incoerentes e, muitas vezes, contraditórios. Eu não estava ainda amadurecido para completa divulgação das verdades transcendentes. À medida, porém, que me adiantava na rota delineada, a comunhão com os meus invisíveis protetores se tornava mais íntima e profunda. Sentia-me guiado através dos embaraços e dificuldades da tarefa que me havia imposto. Nos momentos de provação, doces consolações baixavam sobre mim. Atualmente chego a sentir a freqüente presença dos Espíritos, a distinguir, por um sentido íntimo e seguríssimo, a natureza e a personalidade dos que me assistem e inspiram. Não posso, evidentemente, facultar a outrem as sensações intensas que percebo e que explicam a minha certeza do Além, a absoluta convicção que tenho da existência do mundo invisível. Por isso é que todas as tentativas por me desviar da minha senda têm sido e serão sempre inúteis. A minha confiança, a minha fé, é alimentada por manifestações cotidianas; a vida se me desdobrou numa existência dupla, dividida entre os homens e os Espíritos. Considero por isso um dever sagrado esforçar-me por difundir e tornar acessível a todos os conhecimentos das leis que vinculam a Humanidade da Terra à do Espaço e traçam a todas as almas o caminho da evolução indefinida.

Setembro de 1911.

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