Lucas jannoni soares



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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

Faculdade de Filosofia, Letras e CIÊNCIAS HUMANAS

Departamento de História

Programa de Pós-Graduação em História Econômica

LUCAS JANNONI SOARES


Entre a missão política e a ciência histórica:

Francisco Adolfo de Varnhagen e a colonização portuguesa do Brasil

(1854-1877)_

São Paulo

2011
UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

Faculdade de Filosofia, Letras e CiênciaS Humanas

Departamento de História

Programa de Pós-Graduação em História Econômica



Entre a missão política e a ciência histórica:

Francisco Adolfo de Varnhagen e a colonização portuguesa do Brasil

(1854-1877)
LUCAS JANNONI SOARES

Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História Econômica do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, para obtenção do título de Doutor em Ciências, Área de Concentração História Econômica.

Orientadora: Profa. Dra. Vera Lucia Amaral Ferlini

São Paulo

2011
Autorizo a reprodução e divulgação total ou parcial deste trabalho, por qualquer meio convencional ou eletrônico, para fins de estudo e pesquisa, desde que citada a fonte.

Soares, Lucas Jannoni


Entre a missão política e a ciência histórica: Francisco Adolfo de Varnhagen e a colonização portuguesa no Brasil – (1854-1877). / orientadora Vera Lucia Amaral Verlini. - São Paulo, 2011.

Tese (Doutorado)--Universidade de São Paulo, 2011.



  1. Historiografia Brasileira. 2. Francisco Adolfo Varnhagen. 3 Império do Brasil. 4. Colonização. . II. Título. III. Título: CDD

Catalogação da Publicação

Serviço de Documentação Biblioteca Florestan Fernandes

Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo

Edison de Campos Soares

e

In memoriam

Marisa de Souza Jannoni




AGRADECIMENTOS
Muitas pessoas contribuíram para que essa tese de doutorado pudesse ser concluída. Os agradecimentos são ao mesmo tempo afirmação de gratidão e reconhecimento do impacto dos amigos e dos interlocutores em minha trajetória acadêmica. Por isso agradeço:

Em primeiro lugar, à paciência e à dedicação de minha orientadora, prof. Vera Lucia Amaral Ferlini. Seu conhecimento profundo do debate da historiografia colonial foi decisivo para o desenvolvimento de meus estudos.

Aos amigos Paulo Gonçalves, Pablo Mont Serrath e Rosângela Leite pelo companheirismo, pela amizade e pela franqueza nas discussões e debates. Ao agora prof. dr. Rodrigo Ricupero pelas conversas sobre livros e sobre a esquerda contemporânea.

Ao Bruno Vilagra e a Natália Tammone pelos cafés e conversas na Cátedra Jaime Cortesão, além do interesse em acompanhar e discutir o andamento da escrita da tese. Aos amigos da Cátedra: Luís Otávio, Patrícia, Tati, Mikhail, Ana, Edu e Ronaldo. E à Ana Luíza Marques pelas dicas de leitura sobre o historicismo.

À profa. Raquel Glazer pelas observações, críticas e comentários na banca de qualificação, apontando caminhos e possibilidades de pesquisa.

Aos funcionários do IEB, do Arquivo do Itamaraty no Rio de Janeiro e do Arquivo do Museu Imperial de Petrópolis. Em especial a Neibe Cristina Machado da Costa, responsável pelo Arquivo do Museu Imperial, não apenas pelo suporte ao trabalho de pesquisa, como também pelo levantamento dos documentos relativos ao Visconde de Porto Seguro.

Aos amigos da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, cujas discussões sobre a política contemporânea ajudaram a enriquecer a minha visão de mundo, em especial: José César Magalhães, Tatiana Maranhão, Júlio Miranda, Laura Penna, Marina Yajima, Bruno Nadai, Francisco Prata Gaspar, Gilberto Tedéia e Anderson Gonçalves. Ao Sílvio Rosa, pelas alentadas conversas nos fins de tarde em Barão Geraldo. E ao prof. Paulo Arantes que insiste em pensar que a história tem sentido.

Aos professores João Manuel Cardoso, Liana Aureliano e Luiz Gonzaga Belluzzo pela licença concedida pela Facamp para que eu pudesse encerrar a escrita de minha tese. Além disso, tive o prazer de ouvir deles histórias e análises sobre Florestan Fernandes e Celso Furtado, entre outros, que aumentaram ainda mais minha admiração por aqueles grandes intelectuais. A todos os colegas e amigos da Facamp.

Aos meus alunos do curso de História da FESB, em Bragança, pois com eles pude desenvolver ideias que, se não estavam diretamente relacionadas à minha pesquisa, permitiram o aprofundamento de questões gerais tanto para a política do século XIX brasileiro quanto para os debates gerais de historiografia.

Ao Márcio que conhece como poucos as regras da amizade Em um tempo no qual as relações são cada vez mais inconsequentes, ele mantem o firme compromisso entre as suas ideias e aquilo que pratica: se você cativar alguém, já dizia a velha raposa, você é responsável por ele.

Aos meus irmãos, Paulo e Marina, e ao meu pai, Edison, pois juntos enfrentamos a perda de Marisa (mãe e companheira) e conseguimos sobreviver como indivíduos e como família.

E por último, não se trata propriamente de um agradecimento, mas de uma lembrança. Ao olhar para o meu trajeto, não posso deixar de pensar que estou envolvido em discussões sobre história colonial brasileira desde a graduação. E isso graças à intervenção generosa e comprometida de Ilana Blaj, cuja saudosa memória me acompanhou em todos os passos de minha pesquisa.


Esta tese foi financiada por dois anos e seis meses por meio de bolsa da CAPES.

Em suma, nunca se explica plenamente um fenômeno histórico fora do estudo de seu momento. Isso é verdade para todas as etapas da evolução. Tanto daquela em que vivemos como das outras. O provérbio árabe disse antes de nós: “Os homens se parecem mais com sua época do que com seus pais.” Por não ter meditado essa sabedoria oriental, o estudo do passado às vezes caiu em descrédito.”


Marc Bloch
Resumo

A presente pesquisa tem por ponto de partida a análise do objeto “colonização portuguesa na América” na construção da historiografia brasileira. Após a fundação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), em 1838, inicia-se um esforço continuado e sistemático de dotar o novo país de um passado histórico coerente com as perspectivas civilizacionais dos construtores do Império brasileiro. Dentro deste esforço, o uso do patrimônio comum com Portugal – o passado colonial do Império – foi um elemento fundamental. A questão permanecia conflitiva, contudo, na necessidade de se equacionar a relação contraditória entre a ruptura do estatuto colonial e as permanências político-econômicas do país, de resto mais visíveis aqui do que no restante do continente americano. Intenta-se nesta pesquisa analisar, na História Geral do Brasil de Varnhagen as soluções dadas para este impasse entre ruptura e continuidade na elaboração de um discurso científico sobre o passado brasileiro. O foco da pesquisa será dado no uso das ideias de civilização e desenvolvimento do Estado, pois elas foram fundamentais para o trabalho do Visconde de Porto Seguro ao escrever a sua História Geral do Brasil. Essa foi a primeira obra a dar conta, de modo bem peculiar, do projeto do IHGB de escrita de uma história para o Brasil. Assim, objetiva-se compreender esse esforço para transformar o passado colonial em discurso capaz de fundamentar a história nacional, tornando a nação brasileira resultado direto da colonização portuguesa.


Palavras-chave: Historiografia, Varnhagen, Império do Brasil, Colonização

ABSTRACT
This thesis analyses the concept of “colonisation” in the construction of brazilian historiography of the 19th Century. I argue that after the foundation of the Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), in 1838, the efforts to elaborate a coherent social memory to the new country gained consistence and a cientiphique shade, placing the shared past between Portugal and Brazil, the colonial times, at the center of the modern brazilian historiography. The new country was born from de rupture of the bonds with its metropolis, so to keep that connection as the basis of the national history was problematic. I aim to demonstrate that the “História Geral do Brasil”, work of the Visconde of Porto Seguro, succefully gave form to this paradox: a national history that is at the same time colonial history. Varnhagen answered the question “How to write Brazil´s history” by telling in his book the process of implantation of, at least, two fundaments of modern society: Civilization and Development of the State in the territory of the Portuguese America. Furthermore, I intent to comprehend this effort to transform de colonial past into a historical discourse able to give a ground basis to the national history, and to make the brazilian nation a direct result of the portuguese colonization.

Keywords: Historiography, Varnhagen, Brazilian Empire, Colonization.


Lista de Abreviaturas

Museu Imperial de Petrópolis – Rio de Janeiro (MI)


Arquivo do Itamaraty (AI)
Biblioteca Florestan Fernandes da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (BFF/FFLCH)
Instituto de Estudos Brasileiros (IEB)


Abreviaturas de obras:
1ª Edição da História Geral do Brasil:
VARNHAGEN, Francisco Adolfo. Historia Geral do Brazil isto é do descobrimento, colonisação, legislação e desenvolvimento deste Estado, hoje imperio independente, escripta em presença de muitos documentos autenticos recolhidos nos archivos do Brazil, de Portugal, da Hespanha e da Hollanda. Por Um socio do Instituto Historico do Brazil Natural de Sorocaba. Rio de Janeiro: E e H Laemmert.
Vol 1 – HGB, 1854.

Vol 2 – HGB, 1857.


2ª Edição da História Geral do Brasil
VARNHAGEN, Francisco Adolfo. História Geral do Brasil - Antes de sua separação e independencia de Portugal pelo Visconde de Porto Seguro, 2ª ed. Rio de Janeiro: E & H Laemmert, 1877.
Vol 1 – HGB, 1877.

Vol 2 – HGB, 1877a




SUMÁRIO

Introdução _____________________________________ __ 12
Capítulo 1

Francisco Adolfo de Varnhagen:

um historiador do século XIX _____________________ ____ 19
Capítulo 2

A escrita da História Geral do Brasil:

nexo entre política e história.. ________________________ 66
Capítulo 3

Continuidade e descontinuidade na obra de Varnhagen:

o fim dos “grilhões coloniais” e o Império do Brasil.._______ 114
Considerações Finais______________________________ 163
Fontes e Bibliografia_______________________________ 168
ANEXO
“Como se deve entender a nacionalidade

na História do Brasil” ________________________________192



Introdução
A primeira edição da História Geral do Brasil de Francisco Adolfo de Varnhagen foi publicada entre os anos de 1854 e 1857. Apesar da frieza da recepção de sua obra por parte do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), logo seria reconhecida – inclusive entre sábios europeus como Alexander von Humboldt e Ferdinand Denis – como a mais bem acabada reconstituição dos acontecimentos relativos à história do Império do Brasil. Em 1877, quando da publicação da 2ª edição, Varnhagen continuava sendo relativamente ignorado pelo IHGB1. Contudo, se os seus pares resistiam a reconhecê-lo, o mesmo não se dava com seu protetor – D. Pedro II. Em 1872, Varnhagen foi agraciado com o título de Barão de Porto Seguro e, em 1874, foi elevado à Visconde de Porto Seguro, com grandeza2 em virtude dos serviços prestados à escrita da história pátria.

Depois de sua morte, em 1878, o reconhecimento da relevância de seus trabalhos começaria a crescer entre seus pares nacionais3. Capistrano de Abreu, em Necrológio dedicado a Varnhagen, pontuava a grande qualidade do historiador: sua capacidade de levantar e organizar verdadeira “massa ciclópica de materiais”.4, com a qual foi escrita sua história da pátrianacional, verdadeira ideia fixa. O destaque dado ao embasamento documental das obras de Varnhagen tornou-se constante nas análises posteriores e nas suas biografias5. Se Capistrano de Abreu posteriormente mudou seu juízo sobre Varnhagen, criticando-o duramente6, isso não alteraria sua constatação de que a sua obra era o grande trabalho histórico do século XIX brasileiro.

Varnhagen, contudo, nunca se considerou mero “cronista” ou “compilador de documentos”, ansiava ser reconhecido como historiador nos moldes estabelecidos pelas transformações do “ofício” em curso na Europa. O “gosto pelos arquivos” era apenas uma das características definidoras do seu trabalho. A compreensão dos dilemas e impasses políticos da construção do Império do Brasil devia integrar a sua reflexão sobre a História. Era preciso definir com clareza o ponto de chegada de sua reconstituição do passado, estabelecendo os critérios para a seleção e ordenamento dos acontecimentos. A língua portuguesa, a religião católica, Estado (a monarquia e os valores constitucionais) e a estrutura econômica produtiva não eram os fundamentos da sociedade brasileira do XIX? Se assim o fosse, o historiador deveria buscar as origens daquelas instituições. A nação livre estava continuamente pressuposta no pensamento de Varnhagen.7

Desse modo, a sensibilidade diante das questões do presente e a abertura de perspectivas de futuro vinculavam-se na sua obra. Jose Honório Rodrigues, comentando as contribuições de Varnhagen, percebia nele a primeira configuração de uma consciência histórica no Brasil. Sua obra apoiada em estudos que conectavam a história geral e a particular à capacidade de partir do tempo presente para construir suas problemáticas, exerceria influência decisiva na inspiração e estímulo de uma consciência nacional. 8

O sentimento nacional daí decorrente, contudo, era bem determinado. Varnhagen, membro do IHGB e da burocracia monárquica “central”, tratava a Nação sempre em confluência com o Estado, pois a primeira era vista como resultado da ação do segundo.9. Do ponto de vista pessoal, a sua relação próxima ao Imperador D. Pedro II simbolizava o seu engajamento na defesa dos valores monárquicos.
Francisco Adolfo Varnhagen dedicou sua vida para dotar o Brasil de uma história geral. A ideia de nacionalidade que pautou a sua visão do passado era baseada na firme crença do papel positivo da colonização portuguesa na constituição daquela história. A tal ponto que, e aqui seguimos a sugestão de José Honório Rodrigues, “a colonização portuguesa no Brasil era o grande tema de sua obra”10. O empreendimento português de ocupar e colonizar suas descobertas americanas permitira, ao mesmo tempo, a fecundação do Império do Brasil.

A ausência de oposição entre a ideia de Brasil e a ação do colonizador permeava o pensamento histórico brasileiro do XIX. Manoel Salgado Guimarães chama a atenção para esta particularidade, enfatizando a unidade entre as ideias de “Nação, Estado e Coroa” na realização da tarefa civilizadora a ser continuada no Império.11 Em carta enviada em julho de 1857, Varnhagen afirmava ao Imperador D. Pedro II sua intenção de evitar o ódio ao português ou à “estrangeira Europa” na produção da sua ideia de nacionalidade brasileira. Deixava para os discípulos de um “subversivo cabloclismo” o ônus de considerar o “Brazil ainda intelectualmente [...] escravo de Portugal”.12 Varnhagen transformou essa relação estreita entre colonização e formação da nação em eixo central de sua obra.


A ação da metrópole portuguesa desempenhava na obra de Varnhagen função articuladora, servindo como critério para a reconstituição dos acontecimentos do período colonial. Arno Wehling leva esse argumento ao extremo quando afirma que para o historiador o processo colonial foi desejado, planejado e executado pelo Estado português, agente forjador das relações sociais.13 Procuramos demonstrar que o cerne da questão era menos a ação estatal e mais os efeitos civilizadores da presença dos colonizadores. Por isso a importância para Varnhagen das lutas contra os holandeses, primeiro momento de afirmação de nacionalidade “crioula” nas partes do Brasil. 14

A visão de Brasil nutrida pelo Visconde de Porto Seguro foi decisiva na concepção e na realização da escrita de sua história. As condições que deveriam nortear a sedimentação da Nação brasileira no século XIX desempenhavam o papel de parâmetros ordenadores de seu trabalho. Partimos da ideia de que era preciso dar consistência e legitimidade para os vetores civilizacionais (a monarquia, a língua portuguesa, a religião cristã e a propriedade) sem os quais a nação seria incapaz de continuar evoluindo. O Brasil, colonizado pelos portugueses, era tratado como uma unidade transformando-se ao longo do tempo. Por conta disso, a Independência representou desafio decisivo para a construção da obra de Varnhagen, pois as linhas de continuidade precisavam ser conciliadas com a autonomia conquistada pelo país. A origem portuguesa era fundamental para definir o caráter e história nacionais, mas não deveria resumi-los.


Gostaríamos de destacar dois trabalhos cuja leitura permitiu enquadrar de modo mais preciso o objeto de nossa pesquisa. Temístocles Cezar que, sob orientação de François Hartog, procurou compreender a produção historiográfica do século XIX sob o ponto de vista da construção de uma “retórica da nacionalidade”, realizada pelo conjunto dos membros do IHGB, cujo caso mais exemplar seria Varnhagen. O desafio central dessa operação era encetar soluções para os impasses gerados pela influência de uma “poética da história”. Essa reminiscência subjetiva, oriunda dos viajantes e dos relatos de viagem, problematizava a objetivação do texto histórico. O esforço dos membros do Instituto para distanciar o conceito de história das formas ficcionais ou ligadas às impressões subjetivas constituiu-se em eixo mediador na constituição da historiografia brasileira. O historiador Varnhagen, apesar de não dar solução definitiva para o impasse entre retórica e ciência, escreveu a obra mais próxima de transformar a “retórica da nacionalidade” em conceito organizador e recurso narrativo de sua obra15.

Renilson Rosa Riberio procura, a partir da biografia de Varnhagen e sua problemática relação com o IHGB, estabelecer o lugar de escrita de história de Varnhagen na formação dos grandes temas da historiografia colonial brasileira. Trata-se de rastrear e identificar tais temas que, como Ribeiro observa, tornar-se-iam paradigmáticos não só na historiografia ligada ao IHGB como também no material didático escrito no XIX e no início do XX. A passagem entre o distanciamento inicial que o IHGB impôs à obra de Varnhagen e a transformação deste em “patrono da história do Brasil” serve de parâmetro para estabelecer a criação das bases para uma identidade nacional que repercutiria, via educação, na sociedade brasileira do XIX e do início do XX. 16

Esses trabalhos privilegiam a relação entre Varnhagen e o IHGB para analisar a História Geral do Brasil. A leitura que nos propomos a seguir enfatiza menos a relação com o IHGB e mais a inserção de Varnhagen no movimento mais amplo de renovação historiográfica que procuramos discernir no primeiro capítulo. Obviamente não se trata de desconsiderar aquela relação, de fundamental importância para Varnhagen, porém procuramos ter como ponto de partida o fato da incompreensão que os membros do IHGB nutriram inicialmente pela sua obra ligava-se à dificuldade de compreensão dos seus fundamentos. Pois, embora esses fossem teoricamente aceitos pelos membros do IHGB, na prática iam de encontro com os seus interesses acadêmicos e políticos. A sugestão desse descompasso encontra-se, por exemplo, em José Veríssimo que atribuía a dificuldade de se aceitar naquele momento um trabalho de erudição daquela magnitude.17 Procuramos ler tal descompasso como indício de que havia na escrita de Varnhagen novidades que ainda não tinham lugar determinado na vida intelectual brasileira: a ênfase totalizadora na colonização portuguesa – em detrimento do passado indígena - e a base documental da história apareciam como combinação rara e de difícil localização em meados do XIX. Além disso, a relação fundante entre colonização, civilização e nacionalidade ligava-se diretamente à elaboração do trabalho de Varnhagen no sentido de fornecer os eixos que orientaram a escrita do seu texto histórico. E esse formaria os “quadros de ferro” que desafiariam a historiografia brasileira até meados do século XX.
No primeiro capítulo discutimos a inserção da visão de história de Varnhagen no âmbito das transformações da produção histórica do século XIX. A valorização da base documental foi posta efetivamente em prática na sua escrita e, ao mesmo tempo, as questões atinentes à compreensão da nacionalidade como objeto de estudo também estariam presentes. Tanto a crônica quanto a história filosófica – imbuída de razões externas aos fatos – foram evitadas em seus trabalhos. Através de sua correspondência, do Memorial Orgânico e da memória Como se deve entender a nacionalidade na história do Brasil buscamos mostrar que isso não significava a ausência de articulação na sua obra. A ideia de civilizar progressivamente o Brasil, processo em curso desde a sua origem, permitiria o estabelecimento de um núcleo a partir do qual os acontecimentos podiam ser reconstituídos e carregados de significado histórico.

No segundo capítulo, partimos da discussão sobre a historiografia do século XIX brasileiro para compreender o clima intelectual no qual Varnhagen estava imerso. Analisamos sua História Geral do Brasil procurando demonstrar como a colonização era interpretada por Varnhagen a partir do movimento ao mesmo tempo de ocupação territorial e de implantação do Estado e da civilização europeia. As modificações realizadas pelo autor na 2ª edição da obra, para além de atender as exigências de uma introdução geográfica, visavam demarcar de modo mais preciso o papel da colonização portuguesa na construção do Brasil. Os limites para a crítica daquele processo, que configuram momentos de afirmação da fidelidade de Varnhagen ao projeto unitário e monárquico representado pelo Imperador d. Pedro II, permitem-se avaliar as dificuldades enfrentadas pelo historiador para manter a objetividade de sua reconstituição. Além disso, procuramos pontuar a presença permanente da nação livre no horizonte de sua obra.

No último capítulo, tratamos dos problemas ligados à questão da continuidade/descontinuidade no processo de emancipação do país na História Geral do Brasil e na História da Independência do Brasil de Varnhagen. A passagem de colônia à nação aparece na sua obra sob a marca da continuidade dada pela permanência de um membro da casa de Bragança como cabeça do Estado. Contudo, essa solução apresentava dificuldades para o historiador na medida em que ele objetivava definir a emergência de uma nova entidade política: o Império do Brasil. Procuramos demonstrar que a “crise” da ruptura nas relações entre Brasil e Portugal aparecia como resultado do amadurecimento das instituições implantadas no território colonial pela metrópole. A revolução de 1817 em Pernambuco e a Constituinte de 1823 foram enfocadas como momentos nos quais o autor teve de enfrentar as ameaças de descontinuidade na sua obra.
Capítulo 1

Francisco Adolfo de Varnhagen: um historiador do século XIX.
No século XIX constatamos, afirma George Lefebvre, o nascimento da historiografia moderna. O historiador da Revolução Francesa percebia um corte nítido na maneira como a história passaria a ser escrita e no modo pelo qual deveria ser pensada18. A Revolução Francesa, o Império Napoleônico e o rearranjo político interno e externo dos poderes europeus marcaram profundamente o imaginário teórico e político dos pensadores europeus do período. Os historiadores foram, gradativamente, obrigados a articular a reconstituição dos eventos ou dos acontecimentos históricos de modo a integrá-los em uma narrativa que deveria observar novas regras de escrita e novos padrões de exigência – que logo viriam a ser chamadas científicas –, se quisessem exercer de fato o seu ofício. A produção historiográfica do continente Europeu, pelo menos em sua porção ocidental, sofreu um movimento geral de transformação que colocou em pauta as tradições de pensamento, aquelas vinculadas ao Iluminismo, que passaram a ser consideradas incapazes de dar conta dos novos problemas, notadamente aqueles ligados à questão nacional, que assolavam os Estados Europeus no início do XIX19.

Fernand Braudel, tratando da história do século XX, observa que cada época tende a ter a história adequada aos seus pontos de vista e aos dilemas que encontra diante de si20. A observação do historiador francês tem como fundamento a existência de um vínculo estreito entre história -entendida como processo social que se movimenta do passado para o presente- e a historiografia, relato do passado ou ciência histórica que se orienta do presente para o passado. Ora, no século XIX, século da história e mais além, como lembram Novais e Forastieri, retomando e ampliando o velho adágio, o século da ciência, podemos perceber intensa transformação do fazer do historiador21.

Escrever história não podia mais se resumir à narrativa dos fatos passados, o que obrigava os historiadores a observar novas exigências para a escrita da História. O historiador deveria ser capaz de apreender o enlace destas duas dimensões temporais, o presente e o passado, pois disto dependia o estabelecimento de uma perspectiva de futuro, sem a qual a reconstituição do passado perdia sentido. Esta mudança na dinâmica do conhecimento histórico tinha em si mesma, a sua historicidade. E podemos datar o início do problema da relação entre o passado e o presente na escrita da história na emergência do historicismo no século XIX22.

Temos em vista uma mudança fundamental, pois a escrita da história não mais poderia ser compreendida como relato neutro do passado ou mero levantamento de fatos interessantes para a preservação da memória social. Assim, fazer da história uma ciência, no sentido moderno da palavra, passou a constituir parte importante do trabalho dos historiadores.

Tendo como ponto de partida o embate com as visões de história oriundas da Ilustração, os historiadores do XIX europeu buscaram estabelecer o caráter próprio e particular da história como uma ciência autônoma em relação à filosofia e às ciências naturais. O historicismo e o romantismo foram os grandes movimentos a reordenar a escrita de história do período. Duas variáveis tornaram-se fundamentais para esse processo: a nação como objeto e o caráter científico ou positivo da história. Em primeiro lugar, enfatiza-se a nação como foco da nova história, cujo sentido seria o de reconstituir o passado a partir dos parâmetros particulares de cada povo, transformando a ação dos homens do passado em um movimento de construção da Nação. E, em segundo lugar, emerge o caráter científico da prática do historiador como único critério de verdade possível de ser aplicado ao conhecimento histórico23.

A transformação da história, de preservação da memória, em método de conhecimento do passado, sujeito a regras e princípios lógicos, foi processo tortuoso, cujo momento de sedimentação data do século XIX. A ideia de estabelecer a crítica documental como esteio do conhecimento - obrigando a separação entre as fontes que se supunham confiáveis daquelas que não permitiam reconstituição fiel do passado foi sua pedra angular. Isso implicou na desmistificação nos dados manifestos na documentação e não exercício da dúvida sobre as informações ali presente24.

O avanço da crítica textual e a separação entre documentos “falsos” e “autênticos”, para a crítica documental no sentido contemporâneo, permitiu a ampliação do uso da documentação disponível ao historiador, dotando-o de instrumentos para datar, localizar e precisar as informações disponíveis nos arquivos. Para além da oposição verdade/falsidade, ainda outra questão surgiria nesse desenvolvimento do pensamento histórico: a oposição entre, nos termos de Marc Bloch, os “documentos que visavam alguma posteridade” daqueles “voltados para outros fins” 25.

A afirmação de Ranke, de que o passado deveria ser reconstituído tal qual o que nele se passou – o famoso wie es eigentlich gewesen (tal como efetivamente aconteceu) -pedia claramente uma posição nova do historiador, colocando, acima de seus interesses pessoais e acima dos da tradição, aquilo que mais deveria importar: a reconstituição do passado. Sérgio Buarque caminhou nessa direção ao lembrar as críticas que Ranke sofria pela aparente falta de “convicção moral”, que norteava, não só o seu pensamento, como também a sua vida: resultado dos esforços do historiador prussiano para isolar seu trabalho de fatores que pudessem desviar a sua análise do seu foco objetivo. A história deveria ser uma ciência capaz de compreender o passado de modo integral. Ranke, em meados do século XIX, afirmava que o saber histórico, para alcançar seus objetivos, deveria ser capaz de, por meio da pesquisa e de considerações gerais, estabelecer as conexões objetivas ativas nos acontecimentos do passado26

Os historiadores passariam a se aproximar de certa ideia de ciência. Isso era significativo, pois até o século XVIII, a História não possuía outro fundo além do que era narrado, não sendo com isso, capaz de estabelecer relações de causa e efeito ou, como diria Wilhelm Humboldt, “conexões causais profundas”27 que sustentassem uma racionalidade para além dos fatos. Com Ranke uma lenta história, a da própria História, deu um passo decisivo a fim de se tornar disciplina ou ciência histórica; e essa adquire historicidade, nos termos definidos por Kosseleck28

A construção do passado como forma de conhecimento demandava, no século XIX, mudança na relação com a documentação e da forma como se pensavam os dados relatados pelos testemunhos. Não era mais possível empreender a simples reprodução do conteúdo presente na documentação, pois a história deveria sair do nível da crônica dos eventos para o da sua análise. E, para tanto, a confiabilidade das informações disponibilizada era fundamental. Fazia-se necessário perscrutar os fatos históricos e buscar nesses os ordenamentos que lhes emprestavam sentido.

Os antigos cronistas tendiam, segundo Sérgio Buarque, a descrever os acontecimentos como uma “sucessão inumerável e mal articulada entre si” Ora Ranke objetivava escrever sua história tendo em vista “grandes unidades de sentido”, pois só a sim poder-se-ia extrair daquela sucessão a sua verdadeira significação histórica”.29.

Quando afirmamos o caráter decisivo da contribuição de historiador prussiano, de modo algum queremos dar a entender uma inovação repentina e descolada da linha do tempo da própria história. Pois se Ranke afirmava ser necessário narrar a história “tal como foi”, o “pai de nossa disciplina”, Heródoto, iniciava seu trabalho com o dito “contar o que foi”30. E não nos esqueçamos de que Lourenço Valla, no início do XVI, já observava as complexidades do trabalho do historiador a partir de constatações simples como a de que um mesmo evento podia ser descrito de formas diferentes, mesmo por pessoas que o tivessem visto in loco. Contudo, no século XIX, no esforço de construção da disciplina chamada História, uma distinção em relação aos momentos anteriores permanece fundamental: a transformação da história em mecanismo de entendimento do mundo com fins, inclusive, de melhor organizá-lo. Não é por acaso que a grande história do século XIX tende irresistivelmente para a “história nacional”, para o suporte da construção da nação31.

Tal salto na elaboração do discurso historiográfico não poderia deixar de ser acompanhado de uma nova visão sobre a função da história na cultura ocidental32. A necessidade de trazer à tona, não uma sucessão cronológica de fatos exemplares, mas sim os motivos ocultos na formação das sociedades, passou a nortear a elaboração do discurso histórico.33 A história , gradativamente, desempenharia papel fundamental na consolidação de um novo tipo de memória social, a de tipo “nacional”. O objetivo último era dotar os países de um passado que correspondesse ao presente vivido.

No final do século XIX, a ideia de uma “historiografia científica” e oposta tanto aos cronistas de tempos passados como aos filósofos e cientistas sociais contemporâneos dos historiadores oitocentistas, estava bem consolidada a ponto de tal definição estar presente em manuais e tratados sobre o conhecimento histórico. Huizinga observou inclusive que a definição do conceito de história, apoiado na ideia de ciência moderna, implicava em dificuldades insuperáveis para o estabelecimento de um conceito geral de história, pois definir a história – narrativa sobre o passado - como ciência levava à exclusão de toda a produção historiográfica anterior. 34

O historiador holandês partia da constatação de que o processo de afirmação da história como ciência alcançara seu objetivo e, no balanço feito por ele, era necessário recuar alguns passos para se preservar os elementos próprios à história como patrimônio comum no ocidente. De forma geral, o termo história abrigava três sentidos, diversos, porém relacionados: o “acontecido”, a “narrativa do acontecido” e a “ciência” que relata o acontecido. No século XIX houve um esforço por parte dos historiadores para restringir o conceito de história ao último dos três sentidos, definindo-a como uma ciência ocupada em buscar as conexões causais na evolução humana ao longo do tempo e do espaço. Além disso, fazia-se necessário observar um conjunto de regras que visavam garantir a objetividade da escrita da história, pois o resultado da reconstituição deveria ser “autêntico” e “verdadeiro” e para tanto, o aporte fornecido por documentação – de origem e conteúdo verificados com os recursos das ciências auxiliares da história (como paleografia, filologia, crítica textual etc.) – era imprescindível. 35

Esse movimento geral ligava-se ao anseio de permitir a reconstituição dos fatos passados de modo seguro e em consonância com os princípios gerais das ciências em desenvolvimento. A história reagia ao contato com as ciências do homem de modo geral obrigando-se a ter padrões similares capazes de permitir a reconstituição mais precisa possível do passado.


A escrita da História no Brasil oitocentista: Varnhagen e sua visão da nacionalidade brasileira
No Brasil não seria diferente. A necessidade de dotar o país de uma história parecia evidente para os homens de saber do XIX. Não foi por outra razão que Varnhagen colocou como epígrafe na sua História Geral do Brasil a afirmação de Cairu que rezava: “A importância de uma História Geral de qualquer Estado independente é reconhecida em todo o país culto.”36 Escrever a história do país era também dotá-lo de condições de fazer parte das nações civilizadas.

Contudo, para que tal evento ocorresse era necessário que a história estivesse escrita de acordo com os “modernos parâmetros” estabelecidos no continente Europeu. Além da “mera crônica” dos eventos do passado brasileiro, era preciso dar conta dos dilemas que permitiram o desenvolvimento do país e o progressivo avanço da civilização em seu território. Ou, como afirmou Varnhagen no prólogo à segunda edição de sua História Geral do Brasil: mais do que narrar os acontecimentos políticos e as biografias dos mandatários locais, era preciso ater-se aos “fatos históricos” na sua relação com o “verdadeiro desenvolvimento e civilização do país”, pois somente daí poderia advir o que ele buscava: a “verdade” da História do Brasil.37


Em 1878, no Necrológio sobre o Visconde de Porto Seguro, Capistrano de Abreu observava que Varnhagen, apesar das grandes contribuições dadas a construção da história nacional brasileira, pecava em dois aspectos: em primeiro lugar na sua “falta de espírito plástico e simpático”, que fazia o historiador ser insensível ao todo da história do Brasil, transformando momentos contrários à afirmação do poder português, ou melhor, da monarquia portuguesa, em elementos externos à nossa história, em ameaças. Além disso, a insensibilidade que Varnhagen aparentava ter em relação às “doutrinas criadoras” de sentido da época, resultava em sua incapacidade de compreender a ligação entre os fatos singulares e aqueles mais amplos e profundos, tornando-o, com isso, incapaz de operar a generalização daqueles fatos em “teorias” ou em “leis basilares” 38.

Varnhagen parecia não corresponder a certo modelo de história, uma história capaz de fornecer “teorias gerais” sobre o Brasil. Capistrano tinha em mente os trabalhos de sociólogos como Comte e Spencer, que pautaram as discussões filosóficas e históricas no Brasil do fim dos oitocentos, e tiveram adeptos como Silvio Romero, entre outros, que defendiam tenazmente o papel da teoria na produção intelectual – quer do crítico quer do historiador39. A insensibilidade de Varnhagen, apontada por Capistrano, merece ser posta em perspectiva. A escrita da história no XIX foi marcada pela sua crescente vinculação com a construção do Estado-nacional e pela necessidade de dar rigor científico aos trabalhos dos historiadores no esforço de reconstituição do passado.

O papel central da história na cena política do século XIX era perceptível na medida em que, como afirma François Dosse, ao historiador seria atribuída a função de “enunciar o tempo laicizado, de narrar o telos, de afirmar a direção para a qual se dirige a humanidade”40, de ter com isso a missão de articular simbolicamente as mudanças operadas pela ascensão liberal decorrente da queda do Antigo Regime face os impactos da Revolução Francesa. Os historiadores teriam posição privilegiada junto ao Estado, quer como membros do corpo político, como Guizot e Thierry na França, quer como formuladores das ideias centrais para a articulação do Estado, como Herculano, em Portugal, e Ranke, na Prússia. O dever desses historiadores era narrar os fatos de modo apurado, além de compreender o movimento geral das sociedades, sem fazer uso de teorias generalizadoras.41

O que pretendemos demonstrar é como esta aparente limitação de Varnhagen pode ser lido menos como um traço de seu caráter e mais como esforço próprio de transformação da história em ciência autônoma, capaz de funcionar sem se remeter às, como Capistrano de Abreu denominava-as, “doutrinas criadoras” de sentido para os fatos históricos então em pleno processo de nascimento ou às filosofias da história que faziam uso do particular apenas como momentos de determinação do universal.


Alexander von Humboldt, naturalista prussiano e autor de Cosmos, irmão de Wilhelm Von Humbold, escrevendo a Francisco Adolfo Varnhagen em 1855, parabenizava o autor brasileiro pela publicação de sua História Geral do Brasil. Destacava, a partir da leitura das primeiras folhas a que tivera acesso, três qualidades centrais na obra: 1) o fato dela ser fundada em “penosa e séria pesquisa em arquivos”; 2) a inspiração na impressão pessoal da fisionomia do país e 3) as qualidades artísticas presentes.42

Apesar de não ser possível determinar a opinião do sábio prussiano para o conjunto da obra, as intenções do trabalho de Varnhagen lhe pareciam bastante evidentes. Além disso, outros se manifestaram de modo semelhante, como Friedrich von Martius e Ferdinand Dénis, afirmando o caráter moderno ou atualizado da escrita da História de Varnhagen. Muito embora o otimismo inicial da recepção da obra de Varnhagen fosse pouco a pouco se diluindo em meio a críticas e ressalvas, como veremos mais adiante, ou mesmo na falta de interesse real, para além das especulações, de se realizarem traduções para as línguas europeias, critério decisivo para a inserção da obra no debate intelectual mais amplo, com o tempo o Visconde de Porto Seguro viria a ser reconhecido como o primeiro a dotar o Brasil de uma história no sentido moderno do termo – nacional e científica.

Entre tais qualidades, a primeira seria a mais associada ao trabalho de Varnhagen. Sérgio Buarque de Holanda, em artigo publicado no Correio da Manhã, no qual fazia um levantamento do pensamento historiográfico brasileiro na primeira metade do século XX, afirmou que a “busca documental” realizada pelo Visconde de Porto Seguro era o grande trabalho historiográfico dos oitocentos43. De modo geral, já era consenso entre os membros do IHGB o reconhecimento do uso da documentação como elemento indispensável para se escrever uma história que fosse considerada científica44.A reunião exaustiva buscava garantir a constituição do arquivo necessário para manter a memória nacional. Varnhagen foi, entre os membros do IHGB, aquele que levou mais longe tal esforço. Inicialmente levado por “vocação natural” e depois, aproveitando-se de seu trabalho como membro do corpo diplomático do Império, procurou e levantou imensa quantidade de documentos.45

Para estabelecer um padrão de medida para a posição de Varnhagen entre os historiadores do século XIX, precisamos ter em vista os problemas formulados pela historiografia geral no período e o modo pelo qual o historiador brasileiro respondeu a tais dilemas,. Apesar da dificuldade em se mapear, como afirma Temístocles Cézar, de modo preciso o jogo de influências que esteve presente na vida intelectual de Varnhagen, ainda assim podemos perceber de modo difuso algumas características comuns entre o seu trabalho e o clima geral da historiografia oitocentista.46.

Varnhagen, ao planejar a escrita de sua história geral do Brasil, pensava em fazer uso do, assim ele o chamava, “novo methodo de escrever a história”.47 No esforço de erguer o monumento da história do país, era preciso especial atenção aos recursos que deveriam ser utilizados no processo de construção. O historiador deveria exercer seu ofício segundo parâmetros que permitissem o acesso à verdade histórica, sem ser levado pelos erros e distorções oriundas das antigas práticas de cronistas ou memorialistas. Na polêmica travada com José Inácio Abreu e Lima, que se arrastou entre os anos de 1843 e 1846, autor de um Compêndio da História do Brasil48, Varnhagen explicitou suas ideias sobre a escrita de história. Diferentemente do que pensava Abreu e Lima – que todo historiador, por trabalhar a partir de documentos e autores, é sempre um compilador – era possível discernir os lugares distintos ocupados por historiadores e por compiladores:
“Escrever uma história, encarar nela devidamente os fatos, e contá-los com algum interêsse para o leitor, e com proveito para o país, não é ser mero compilador. Para escrever uma história é necessário ter fé viva no que se escreve, e um entusiástico amor pela verdade: é necessário que a alma do historiador tenha erudição no assunto, na crítica histórica, independência de caráter, luzes gerais dos conhecimentos humanos e consciência: é necessário que seja grave, urbano, e que tenha miras de bom estadista. Para ser compilador, ainda melhor, plagiário, basta ter ido à escola e saber copiar traslados, e ter muito atrevimento, - como têm sempre os mais ignorantes.”49

No fecho da polêmica, podemos perceber a separação que Varnhagen realizava entre quem escreve história e quem não a escreve. Não bastava apenas fazer a crônica dos eventos ou reunir as informações disponíveis. Diante do historiador, colocavam-se uma série de questões cuja solução era fundamental para se equacionar o ofício e tornar a obra que se escrevia passível de reconhecimento, pelos seus pares e pelos seus leitores. Varnhagen participava, a seu modo, da disputa pelo passado e por determinar quem tinha a legitimidade de reconstituir o acontecido50.

Este novo método de escrever a história era para Varnhagen peça fundamental de sua história geral, pois garantir ao país de adoção uma história “verdadeira” e cujas bases pudessem ser compartilhadas com os sábios da Europa significava dar mais um passo na obra de construção da nação. Neste sentido, o autor da história geral inseria-se no amplo processo de transformação pelo qual passava o Ocidente. A escrita da história no século XIX, pautava-se na exaustiva pesquisa documental e no movimento de dar resposta aos problemas oriundos da formação dos Estados Nacionais.

A preocupação de Varnhagen em escrever uma história fundamentada em princípios modernos é bem perceptível na viagem de pesquisa e reconhecimento de quase um ano que fez, entre os anos de 1840 e 1841, pelo Brasil e que podemos acompanhar por uma série de cartas que enviou ao Cônego Januário da Cunha Barbosa, secretário do Instituto Histórico e Geográfico (IHGB). Sua viagem foi dedicada em grande parte às obrigações que se lhe impunham “a qualidade de ser membro” do Instituto51, ou seja, de examinar arquivos, bibliotecas e monumentos com o fito de apurar informações pertinentes à escrita da história e ampliar a base documental disponível para os outros membros52. A viagem, ademais, colocava-o em contato com as paisagens do país, possibilitando o confronto entre as informações fornecidas pelos autores de referência até então, como Manuel Aires Cazal53, e os dados disponíveis em locais muitas vezes de difícil acesso. É o caso, por exemplo, do Padrão de Cananéia:


“Na Cananéia fui examinar o Padrão de que fallo à pag. 90 do Diário de Pero Lopes. – É falso o que diz Cazal de se ler alli certo anno, do que elle tira um argumento. Não teve nem tem anno algum especificado. Eu fiz disso lavrar um auto com testemunhas que algum dia apresentarai.”54
Aqui podemos observar os procedimentos de Varnhagen no trato com suas fontes. As referências de outros autores são tomadas como orientações de pesquisa, não mais como fatos históricos. A simples afirmação não bastava mais para transformar aquilo que os predecessores imaginavam ser um dado em uma fonte histórica confiável para fundamentar o trabalho do historiador, era preciso apurar as informações autênticas, separando-as daquelas que eram falsas no novo registro de escrita histórica55.

O acesso à documentação marcava não só o desejo de escrever a História do Brasil, mas era também, para Varnhagen, um movimento de aproximação do país que decidira adotar. Realizar pesquisas na Torre do Tombo, levantar e fazer anotações de documentos referentes ao passado do Império do Brasil era, ao mesmo tempo, um modo de ir ao encontro da nação a cujo destino decidirá vincular o seu56. Tratava-se de uma relação viva com o Arquivo; esse não era o depositário de documentos desprovidos de significado presente, era o local de encontro do historiador com a sua “missão” científica e política.

Obviamente não temos aqui a relação que Paul Ricouer definia como a busca pelo rastro efetuada pelo historiador a partir de perguntas norteadoras de seu fazer, resultado da revolução historiográfica operada pela Escola dos Annales. Mas estamos no passo anterior, que Marc Bloch definia como “ingenuidade epistemológica”, ou seja, “que poderia existir uma fase número um, em que o historiador reuniria os documentos, os leria e ponderaria sua autenticidade e veracidade, após a qual viria a fase dois, em que os utilizaria” 57. Varnhagen trabalhava tendo em vista a necessidade de reunir o máximo possível de informações a serem transformadas em fontes históricas viáveis para a elaboração de sua história. Tal ingenuidade, contudo, não deve ser tomada no sentido literal, ou seja, de ignorância do papel decisivo da reflexão na escrita da história. Varnhagen não acreditava ser possível escrever uma história geral do Brasil apenas compilando fatos. Pelo contrário, a condição sine qua non para viabilizar seu projeto, para torná-lo mais do que, em suas palavras, mera crônica, era ter ciência do papel dessa história no presente e ser capaz de orientar a reconstituição do passado em direção a esse presente.

Assim, Varnhagen estaria mais perto daquilo que Wilhelm Von Humboldt definia como “fatos históricos” resultantes da pesquisa e da tradição, que davam substância à primeira exigência da tarefa do historiador, a mais “pura e completa exposição do acontecimento”. O passo seguinte, a segunda exigência, era a capacidade criadora de dar forma ao acontecido, indo além da superfície fornecida pelos fatos, compondo um todo a partir “de um conjunto de fragmentos”.58 Apesar de não fazer referência a Humboldt, não deixa de ser curiosa a semelhança entre as reflexões do alemão e as ideias de Varnhagen sobre o necessário para se alcançar o título de historiador: erudição, dotes filosóficos e literário-poéticos, requeridos em igual medida para sustentar a escrita de história na qual a verdade e a sua função política fossem alcançadas59.

A erudição não era apenas entendida como a ampliação continuada dos dados disponíveis para o historiador, era antes o levantamento de “fatos averiguados” sem os quais a escrita da história seria considerada, principalmente para um estrangeiro, como mera “novela” ou “romance provável”. Por isso, o historiador deveria estar atento continuamente às fontes e pautar-se nelas para guiá-lo nos meandros do assunto tratado60. A preocupação com a opinião de estrangeiros, que aqui podemos resumir na figura do Europeu ocidental, não é um dado irrelevante, pois evidencia o lugar de inserção da história brasileira. Sem aceitação na Europa, a obra da história do Brasil não atingiria a sua plena realização.

A integração do Brasil à Civilização – entendida como Ocidental e Cristã – passava não só por manter internamente no país os vetores civilizados – Estado, Lei e a Religião – como também ligar a vida espiritual nacional ao processo cultural Europeu. Antonio Candido descrevia a Literatura brasileira como “galho secundário da portuguesa, por sua vez arbusto de segunda ordem no jardim das Musas” 61. Tal afirmação, que não deve ser compreendida como juízo moral, aponta para o vínculo continuamente buscado pelos intelectuais brasileiros, quer escritores quer historiadores, com a matriz europeia, estabelecendo a qualidade de seu trabalho a partir da relação – positiva ou negativa – com o centro europeu. A recepção de Varnhagen e sua obra na Europa compunha parcela considerável do juízo que o historiador fazia do Velho Continente. Por isso, fez questão de publicar os comentários de sábios europeus no 2º volume de sua História Geral do Brasil, procurando demonstrar que a história particular do Império ecoava no lugar de produção da grande história da civilização62.

Contudo, não bastava levantar os fatos históricos, tendo-os fundamentado em pesquisa apurada em arquivos os mais diversos. Varnhagen percebe a necessidade de articular tais fatos com elementos aparentemente externos à reconstituição histórica. O “discernimento crítico” permitiria ao historiador elevar-se acima da “mera crônica” dos fatos para a escrita da história no sentido estrito da palavra. O historiador deveria ser capaz de articular os conhecimentos gerais humanos e, a partir do domínio de noções científicas e políticas, tornar-se “testemunha do passado” e “luz e guia da nação”63. Nesse ponto podemos observar uma diferença entre a visão de história de Varnhagen e a professada por Wilhelm Humboldt, pois esse afirmava que apenas o erro e a ausência de aprendizado poderiam resultar das tentativas de fazer a história fornecer exemplos que deveriam ser seguidos64.

A construção da nação e a escrita da história possuíam relação diferente na Europa, muito embora pudessem ocorrer semelhanças. O jovem Ranke não escreveu em 1832 a seus compatriotas chamando-os a “resolver nossa própria e grande tarefa: temos de construir o verdadeiro Estado alemão, que corresponda ao gênio da nação”65. Naquele momento de sua vida, Ranke, assim como Varnhagen, preocupava-se com a organização do Estado, objetivo que os alemães alcançariam apenas em 1871. Posteriormente, contudo, acabou tomando distância desta posição, pois passou a considerar o vínculo entre a ciência e a política, danoso aos estudos em geral e aos estudos históricos em particular. O estudioso não deveria ser nem a favor nem contra os partidos, mas compreender o movimento geral da época. Este afastamento dar-se-ia principalmente em nome da objetividade do conhecimento científico, ideal maior do historiador prussiano. A sua objetividade, contudo, tendia a ser lida pelos contemporâneos como imoral e para os que vieram depois seria tida como impossível.66

Para Varnhagen, tal posição jamais poderia sustentar a sua escrita de história. Caminhou em direção oposta, afirmando mesmo ser a missão maior do historiador fornecer exemplos de boas práticas governativas e apontar os erros e descaminhos dos antepassados da nação, permitindo às gerações do futuro evitar as faltas que marcaram os seus antepassados.67 Ou seja, Varnhagen inseria sua escrita de história no âmbito da função exemplar que deveria ser exercida pelos historiadores, a Historia Magistra Vitae, a história mestra da vida.

Na Europa, como afirma Kosseleck, a história entendida como escola, cuja função era permitir aos homens assimilar os acertos dos antepassados bem como evitar os seus erros, passaria a sofrer pesadas críticas ao longo do XIX, até ser reduzida a uma questão não-científica68. No Brasil, país em plena formação de seu Estado e de sua nacionalidade, parecia evidente que olhar para o passado como meio de garantir o futuro era o cerne mesmo do trabalho do historiador comprometido com o país e com sua história. A questão do engajamento permitiu a Varnhagen estabelecer um critério de seleção dos fatos e, com isso, manter o controle sobre aquilo que participa de sua história e aquilo que deve ser excluído:


“Há verdades ácerca das quaes o historiador deve proceder como dramaturgo, que esconde de traz dos bastidores o que julga conveniente à melhoria da sua producção. Sem faltar à verdade poderá algumas vezes o historiador calar acções (boas ou más) desnecessárias, segundo seu modo de ver. – E muitas vezes mostrará elle mais merito em saber calar, que tera tido em escrever uma das suas melhores páginas.”69
O papel do historiador no Brasil não poderia se resumir ao do estudioso isolado e dedicado apenas ao seu estudo: o Estado precisava ser defendido, e a nação precisava ser erguida em bases sólidas. Como preservar a objetividade científica em meio a tais demandas políticas? Varnhagen avançou sobre tal questão ao afirmar que a defesa do interesse nacional era ela mesma a base que permitiria transformar a história em conhecimento objetivo do país. No prefácio do II volume da História Geral do Brasil, temos a afirmação desta relação quando Varnhagen compara sua obra, que deveria integrar o país nas “histórias das nações”, e a Monarquia, que havia integrado política e territorialmente o Brasil, levando-o a fazer parte do concerto geral das nações civilizadas. Ambas cumpriam, em lugares diferentes, o papel de dar substância à nacionalidade brasileira70.

E, por último, há em Varnhagen a preocupação estética, tão presente nos românticos e nos historiadores historicistas de modo geral. A forma de se escrever a história era tão importante quanto o seu conteúdo, pois a escrita histórica estava estreitamente ligada a sua forma narrativa, submetida por isso aos “preceitos da unidade e da verossimilhança”. Apenas a fundamentação documental e a orientação correta do sentido da escrita não eram suficientes, era necessária também precisão no uso da linguagem ou, do contrário, verdades históricas tornar-se-iam, na pena do historiador, inverossímeis ao leitor, inviabilizando a apreensão tanto dos fatos desta história quanto de suas lições morais e políticas71.



A questão estética marcou Varnhagen desde a juventude. Quando ainda morava em Portugal, podemos perceber esta inclinação em carta escrita a Joaquim Heliodoro da Cunha Rivara, diretor da biblioteca de Évora, em setembro de 1839, quando contava Varnhagen com 22 anos, e na qual transmitia ao amigo as informações sobre a formatação dos artigos a serem publicados no Panorama, periódico dirigido por Herculano. Dizia:
“Convêm ainda dizer outra reflexão: que convirá ser effectiva para todos os artigos que se escreverem em periódicos como o Panorama. É necessário que em todos elles trabalhe a imaginação, quero dizer, que com a verdade haja imagens e poesia que deleite. V. Sª bem saberá – É necessário que quem escreve incuta as suas ideias e é nisto que consiste a maior originalidade que de V. Sª pedem os Directores do Panorama.”72
Continuaria anos depois a seguir essa orientação. A relação entre a História e a Poesia pareceria a ele ainda mais necessária. A comparação se dava no sentido de haver, no trabalho de historiador, dimensões criativas, necessárias para entabular a verdade dentro de referências imagéticas comuns às dos seus leitores. Varnhagen não caminhava no sentido de apontar a criação da forma como elemento comum à poesia, como o faria Humboldt, e depois também Ranke, antes a sua perspectiva orientava-se no sentido de estabelecer semelhanças no campo dos temas afins das duas formas de escrita:
“Factos há tão sublimes na historia de todos os povos, paragens tão encantadoras em alguns paizes, como o nosso, acções tão bellas e generosas de alguns heroes, que o historiador que os não descrevesse poeticamente não interessaria o leitor, de modo conveniente à própria verdade.”73
Os temas sugeriam um tratamento poético, obrigando o historiador a trabalhar sua escrita para pô-la em ressonância com os assuntos tratados. Contudo, era preciso ter em vista as distinções entre a escrita poética e a histórica. Para Varnhagen, o fazer poético buscava sempre – quer por meio de palavras, imagens, sons etc. – conceber e definir o belo e o sublime, permitindo-se ao poeta inclusive a improvisação. Além disso, como afirmava Ranke, a arte basta-se a si mesma e a obra poética, uma vez escrita, atesta sua própria validade74. Já o historiador precisava prestar contas à sua erudição histórica ou, em outras palavras, a aridez da dedicação aos estudos de política e legislação tendia a minar a espontaneidade ou “impaciência” necessárias, na visão de Varnhagen, aos grandes gênios criadores da arte poética. Portanto, o historiador deveria ter cuidado extremo no uso de recursos poéticos em sua escrita, pois se usados de modo inconsequente punham em xeque a particularidade e a objetividade da História como forma de apreensão da realidade pautada em critérios objetivos. Por outro lado, se ignorados, inviabilizava-se o fim último da história: ser lida e compreendida pelas gerações presentes e futuras.

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