Lucas jannoni soares


Capítulo 2 A escrita da História Geral do Brasil: o nexo entre política e história



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Capítulo 2

A escrita da História Geral do Brasil: o nexo entre política e história.

No primeiro quartel do século XIX iniciou-se no Brasil o esforço de construção do Estado e da nação brasileiros. O processo de independência, iniciado com a chegada da família real em 1808, levou ao rompimento com a metrópole portuguesa e à necessidade de erguer na antiga América portuguesa, agora império do Brasil, um aparelho de estado capaz de manter a unidade territorial do novo país, bem como o ordenamento social herdado do colonizador português132. Conjuntamente à ação política de fundação do Estado, iniciou-se, no plano simbólico, a busca por elementos passíveis de constituir a memória social da nova nação, permitindo a transformação do passado em um tipo peculiar de memória: a história nacional.133 Tal modo de manejar o passado não era aberto a todos. A escrita da história nacional demandaria, necessariamente, o surgimento de uma nova figura no cenário intelectual brasileiro qual seja a do historiador profissional, capaz de seguir certos procedimentos e atender a determinadas exigências – analisadas no capítulo anterior – capazes de habilitá-lo a receber o reconhecimento dos pares e a atenção dos leitores134. Como veremos adiante, a obra maior de Varnhagen, em face da descrição acima, apresenta uma série de dificuldades para o trabalho de análise das condições de sua escrita e de sua recepção. Contudo, e, aí reside a questão central deste capítulo, a sua História Geral do Brasil viria, ao longo do tempo, a ocupar o lugar de obra fundadora da historiografia brasileira no sentido moderno deste termo, ou seja, uma obra escrita a partir de vasta documentação e pautada pela preocupação de dotar o país de um passado organizado, cujo sentido permitisse ao jovem império estabelecer a sua perspectiva de futuro135.


Com a criação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro em 1838, surgiu no cenário intelectual brasileiro uma instituição capaz de abrigar a disputa pela definição dos quadros gerais que deveriam nortear a escrita da história nacional brasileira136. A ausência de ambiência universitária levou o Instituto a ocupar lugar central na elaboração da nossa história e é a partir da atuação de seus membros – aí incluído o Visconde de Porto Seguro – que podemos mapear o esforço de transformação do passado colonial em história nacional brasileira. Desse modo, nos termos de Arno Wehling, passou a ser posta em prática um “política da memória nacional”137, premida pelas demandas de estabilização do Estado-nacional brasileiro, no movimento regressista pós-regência, cujo ápice foi a ascensão ao trono do jovem D. Pedro II em 1840. Em alguns anos, esse mesmo imperador passaria a ter grande influência sobre o IHGB, tornando-se seu grande patrono. Tal relação foi elemento vital na constituição do projeto de história da nação, pois a defesa da monarquia tornou-se ponto pacífico entre os membros do IHGB, o que traria como consequência o vínculo estreito entre o discurso histórico e as questões políticas do Segundo Reinado. 138.

Como observa Temístocles Cezar, comentando o Discurso Inaugural do Cônego Januário da Cunha Barbosa, os fundadores do IHGB tinham clareza da necessidade de uma história geral do país, que articulasse os eventos passados e auxiliasse na organização presente da nação brasileira. A história geral deveria cumprir o papel de fornecer, tanto aos brasileiros quanto aos estrangeiros, nas palavras de Januário da Cunha Barbosa, o sentimento patriótico necessário para sustentar a “glória da pátria” brasileira. Além disso, havia claro esforço, ao menos no plano das intenções, de nacionalizar a produção historiográfica sobre o país, iniciando, desse modo, o processo de “purificação” dos erros e inexatidões presentes nas obras até então existentes.139

Varnhagen ecoaria tais preocupações, em carta ao imperador D. Pedro II, escrita em Madri em julho de 1857, quando afirmava não ter dúvidas que a adoção da História Geral do Brasil nas academias do país serviria para estimular o “patriotismo” e a “harmonia do espírito nacional fomentada pela igualdade de educação de todos os subditos”. O conjunto de sua obra poderia, no caso, ser lido como a busca de estimular o sentimento nacional no conjunto das províncias, como fez no Florilégio da Literatura Brasileira140 Nesse livro, as biografias de brasileiros ilustres de todas as províncias tinham por função elidir diferenças e afirmar a unidade das províncias, partes do Império brasileiro, afastando o risco de fragmentação devido ao “provincianismo excessivo” ainda latente na sociedade brasileira141.
A necessidade de conhecer de modo confiável e retificar os antigos escritores que trataram do Brasil antes de sua independência, preocupação recorrente no século XIX, tinha em Varnhagen um firme defensor. Escrevendo ao Cônego Januário da Cunha Barbosa142 em 1839, dizia que terminara uma memória sobre a obra de Gabriel Soares de Souza, com a qual buscava “restaurar o nome e a obra do principal escritor antigo do Brasil”143. Para tanto, arriscava-se mesmo a atrair certo ressentimento dos leitores brasileiros144, mal maior, contudo, seria abster-se de noticiar a existência nos arquivos europeus – em especial os portugueses - de tantos escritos e memórias sem os quais não seria possível conhecer de fato a história e a geografia do Brasil.145. Recomendava Varnhagen que o Instituto mobilizasse pessoas e recursos para, nos moldes realizados em Portugal, garantir cópias dos textos e documentos disponíveis nos arquivos. Constatava que a dimensão do trabalho de pesquisa era ampla demais para um indivíduo. Mesmo assim procurava, sem esperar o apoio do IHGB, avançar o levantamento documental necessário para dar a público uma versão confiável do Tratado de Gabriel Soares Em carta ao amigo Joaquim Heliodoro da Cunha Rivara, Diretor da Biblioteca de Évora, relatava seus progressos:

“Cá vou continuando a confrontar o Gabriel Soares, com o códice da Bibliotheca das Necessidades – e tenho encontrado ainda mais coisinhas e verificado quasi todas as de V. Sa: Já vou na 2ª parte.”146.


Varnhagen, apesar da dedicação aplicada na averiguação de fontes históricas, estava mais propenso naquele momento a escrever uma “Geographia Physica do Brasil”. Somente após incentivos do Cônego Januário da Cunha Barbosa, impressionado pela capacidade de trabalho do jovem pesquisador, passaria a considerar a possibilidade de redigir uma História doBrasil147.
A autenticidade, veracidade e correção dos textos antigos e dos documentos não eram as únicas questões presentes nas preocupações dos membros do IHGB. A escrita da história do país demandava o estabelecimento dos quadros gerais de reflexão sobre o passado, por isso determinar o status quo das condições de produção da ciência no país eram considerados decisivos para o sucesso da empreitada historiográfica nacional.

O Marechal Raimundo José da Cunha Matos, autor de dois textos importantes para a compreensão desse primeiro momento da escrita da história nacional, ilustra bem os dilemas enfrentados pelos primeiros historiadores brasileiros.

Em 1824, portanto antes da fundação do Instituto, publica Verdades oferecidas aos Brasileiros por hum verdadeiro amigo do Brasil. Nessa memória o marechal destacava os problemas que pesavam sobre o país devido ao domínio colonial português. Analisando a situação cultural do Brasil, constatava que duas instituições básicas para a formação nacional - a instrução e a educação – encontravam-se em situação precária. Portugal, país inculto, segundo o autor, não só legou tal condição ao Brasil, como também não engendrou esforços no sentido de estimular o progresso das luzes na sua grande colônia148. Isso teve como resultado, no ponto concernente à nossa discussão, o predomínio da imaginação em detrimento da ciência, ou seja, apesar do talento e a instrução de alguns brasileiros para os assuntos e ideias, seus voos tendiam a ficar desorientados sem o “farol da ciência”.149

Cunha Mattos, que era português de origem e formação, tinha em mente a produção científica realizada na Europa, cujo patamar em muito se distanciava da situação no Brasil. Escrever uma história na periferia do sistema europeu significava ter de dar conta de duas séries distintas de dificuldades150. Além das limitações impostas pelo ambiente cultural rebaixado, como ele apontava acima, o “viver em colônia” teria ainda outro empecilho, a ausência da “liberdade de escrever”, ou seja, a ausência de espaços públicos para o debate de ideias. As condições para produção de ciência não eram adequadas à formação de historiadores com consistência para escrever uma história geral do Brasil. Em 1839, respondendo a questão elaborada pelo Cônego Januário da Cunha Barbosa, aprofundando suas críticas, ele observava que, até 1822, havia sérias restrições à liberdade de escrever, por isso, o debate de idéias tendia a ficar comprometido. Dada tal condição, observava o autor, nada mais natural do que a ausência de histórias sobre o Brasil escritas por historiadores brasileiros, cabendo aos estrangeiros, como Southey, escrever sobre o país151.

Varnhagen debater-se-ia com essas limitações ao escrever a sua História Geral do Brasil, pois ele teria em mente que as continuidades coloniais, apesar de problemáticas, não significavam a inviabilização da escrita de uma história geral.152
Impasses entre o projeto de uma história para o Brasil e a sua realização.

A produção do conhecimento histórico, afirmava Lucien Febvre, não podia ser entendida a partir de uma divisão de trabalho entre “pedreiros benévolos” e ”arquitetos responsáveis”. O estabelecimento dos fatos históricos, por meio do tratamento das fontes, e a reflexão necessária para atribuir-lhes significado histórico deveriam caminhar juntos153. A divisão, entre as duas operações, além de não corresponder a realidade, tem por base uma concepção de história incapaz de alçar-se à compreensão dos processos históricos postos pela modernidade154.

As observações do historiador francês – visando criticar certa concepção histórica do fim do XIX – parecem ecoar as preocupações dos fundadores da historiografia brasileira. Como vimos, o Cônego Januário e o Marechal Cunha Matos preocupavam-se em garantir que a escrita de história do Império fosse mais do que, como então eles se referiam, mera crônica do passado. Era preciso garantir que os historiadores realizassem o esforço de escrever uma “história filosófica”, ou seja, orientada em função dos desafios de construção da pátria. Podemos perceber, embutida na concepção de história desses homens, a existência de questionamento sobre a essência do país que devia ser historiado.
Na historiografia do século XIX, Varnhagen tendia a ser considerado como o “pedreiro benévolo” da história do Brasil, cujo grande mérito era o levantamento de imenso corpo documental. Karl Friedrich Martius, por sua vez, ocuparia o lugar de seu “arquiteto”. Mas, o diálogo entre os dois extrapolava essa divisão. A aplicação das orientações do naturalista bávaro de modo unilateral não é o que encontramos na obra de Varnhagen155. As distinções entre os autores apareciam, por exemplo, na avaliação do papel que deveriam cumprir índios e negros na história pátria.

A resposta dada por Martius à pergunta “Como se deve escrever a história do Brasil?”156 fornecia linhas gerais para a compreensão da lógica de funcionamento da sociedade brasileira. As três raças (branca, índia e a negra), de modo hierarquizado, constituíam o seu motor:


“Cada uma das particularidades físicas e morais, que distinguem as diversas raças, oferece a este respeito um motor especial; e tanto maior será a sua influência para o desenvolvimento comum, quanto maior for a energia, o número e a dignidade da sociedade de cada uma dessas raças. Disso necessariamente se segue o português, que, como descobridor, conquistador e senhor, poderosamente influiu naquele desenvolvimento; o português, que deu as condições e garantias morais e físicas para um reino independente; que o português se apresenta como o mais poderoso e essencial motor. Mas também decerto seria um grande erro para todos os princípios da historiografia pragmática, se se desprezassem as forças dos indígenas e dos negros importados, forças estas que igualmente concorreram para o desenvolvimento físico, moral e civil da totalidade da população.”157.
Com isso, Martius propunha o reconhecimento de um papel próprio, ainda que subalterno, para os indígenas e os negros na história do Brasil, uma vez que, para o olhar estrangeiro, sua influência parecia evidente. O estudo das tribos indígenas, além do mais, permitiria ao historiador brasileiro perscrutar o passado remoto da nação, pois eram consideravas verdadeiras ruínas de antigas civilizações158. Assim, os “primitivos” contavam um tipo particular de história, necessária para a elucidação das condições da formação nacional. Varnhagen afastar-se-ia dessa visão, recusando a existência mesma de historicidade própria aos índios: seu estudo deveria ser feito por meio apenas de noções de etnografia. 159.

No caso dos negros o historiador brasileiro precisaria, sempre segundo Martius ficar atento a dois pontos:


“De si mesmo oferecem-se então muitas comparações sobre a índole, os costumes e usos entre os negros e os índios, que sem dúvida contribuirão para o aumento do interesse que nos oferecerá a obra. Enfim será conveniente indicar qual a influência exercida pelo tráfico de negros e suas diferentes fases sobre o caráter português no próprio Portugal”160 p. 103.

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Martius percebia certas semelhanças entre os índios e os negros que abriam campo para o historiador realizar trabalhos comparativos entre as duas “raças”, garantindo com isso o aprofundamento da compreensão do papel de ambas na formação da sociedade brasileira. Os negros entravam também na história brasileira devido ao impacto do tráfico e da escravidão no ordenamento social português, como vimos anteriormente, este era um assunto delicado para Varnhagen, pois se o tráfico e a escravidão eram criticáveis, a ênfase na crítica sempre trazia embutido o risco de se por em causa a legitimidade da ordem social do Império. Além disso, a escravidão não era essencialmente um problema para Varnhagen, pois a questão repousava sobre as razões para se escravizar e não sobre a instituição nela mesma. Assim como meios violentos eram necessários para integrar o índio à civilização, a escravidão cumpria esse papel no caso do negro, sendo criticável apenas quando não o cumpria, como no caso dos descendentes dos escravos nascidos no Brasil161. Contudo a escravidão tinha papel ambíguo na história do Brasil, ao mesmo tempo garantia o aumento da riqueza na colônia e levava à perversão dos costumes sociais entre os colonizadores.162



Nesse sentido, a sua discussão sobre a sociedade brasileira abandona em parte as propostas de Martius, pois o viajante e naturalista bávaro, escrevendo de Munique, propunha um modelo de escrita de história que, mantendo a primazia do elemento português, buscava harmonizar as contribuições de índios e negros na construção da sociedade brasileira. A determinação das particularidades de cada uma das raças tornaria visível o movimento de fusão das raças, parte dinâmica do processo histórico de formação da ideia de humanidade.163 Tal argumentação poderia soar plausível no campo da História Universal de cunho iluminista ou mesmo em certas perspectivas românticas de um ideal de povo homogêneo, porém, para os responsáveis pela articulação da história particular do Império brasileiro, surgia nitidamente o problema do comprometimento com uma parcela da população cuja própria existência, em última instância, contrariava a sua visão de mundo. Lúcia Guimarães aponta este problema, ao discutir a impossibilidade dos membros do IHGB aceitarem o “cruzamento das raças” como o fundamento de um “império mestiço”164:

Varnhagen, no prefacio do II volume da sua primeira edição, ressaltava que parte substancial do seu trabalho era estabelecer uma “verdadeira apreciação comparativa” entre a civilização dos colonizadores europeus e a barbárie dos “colonos africanos” trazidos à força para a colônia e a selvageria dos povos nômades que habitavam o território.165. Essa comparação foi fundamental para o eixo da narrativa da História Geral Brasil. A partir dela o autor pode cunhar o critério de seleção e avaliação dos fatos disponíveis, ou seja, fixada a ideia de “progressiva civilização do Brasil” o historiador reconstituiu o passado, dando aos “bárbaros” e aos “selvagens” o crédito quando contribuíam para a realização daquele desígnio superior.166


Outro ponto central para a construção da história do Império era a definição da relação entre o centro e as províncias. Martius defendia o caráter multifacetado da nação brasileira e que, para ser efetiva, a história do país deveria dar conta dessa diversidade. O conhecimento da história das províncias deveria constituir elemento central na narrativa da história brasileira, articulando-se o particular e o geral. Entre os obstáculos que o Marechal Cunha Mattos anotava para a escrita de uma história geral para o Brasil não era menor o desconhecimento das histórias locais das províncias do Império167. Como solução para tal impasse Martius recomendava vivamente que o historiador brasileiro viajasse pelo país para conhecer in loco as diferenças tão marcantes entre as regiões brasileiras. Dada a dimensão do país, era muito fácil para o historiador apagar suas particularidades em nome de generalizações feitas a partir de um ponto só.168.

Varnhagen, grande viajante, discordava frontalmente desse ponto de vista, pois a recomendação de destacar as particularidades de cada província iria de encontro à possibilidade de se escrever uma história geral da nação. Desse modo, o objetivo de suas viagens era angariar fontes e informações capazes de sedimentar a visão do todo da história do Brasil, definindo em primeira mão o caráter da unidade nacional pela ação dos portugueses ao colonizar o território da América169.

A história geral proposta por Martius estava embebida da ideia de relacionar três diferentes tipos de história: História Pragmática – que deveria orientar os rumos da sociedade; História Filosófica – que deveria interpretar os acontecimentos à luz das grandes tendências filosóficas e, por último, História Crítica – que deveria fazer a crítica da documentação de modo a atingir a sua verdade objetiva livre das opiniões e interferências subjetivas, políticas ou religiosas além dos excessos literários170. O caráter moderno dessas sugestões171, colocando a escrita da história do Brasil dentro da renovação geral da historiografia europeia, agradou os membros do Instituto, que não tardaram em declará-la a mais adequada para servir de norte para os futuros historiadores do Brasil. Contudo, entre o plano de escrita e a realização do projeto certas mudanças deveriam ser levadas em conta para adequar o modelo à realidade do Império do Brasil172.
A posição política de Varnhagen e sua escrita de história
A primeira edição da História Geral do Brasil de Francisco Adolfo Varnhagen, o Visconde de Porto Seguro, cujo primeiro volume fora impresso em 1854173, não teve a acolhida esperada por seu autor. Em carta enviada a D. Pedro II, ele reclamou da falta de consideração e até mesmo da “miséria” com que seu livro era tratado pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB). Esperava do mecenas imperial algum tipo de intervenção de modo a garantir que sua obra não “fosse lançada à fogueira inquisitorial do juízo público”, sem que antes o Instituto desse “algumas palavras autenticas” sobre seu trabalho. Esse quadro não sofreria alterações no lançamento do 2º volume da 1ª edição, em 1857 e muito menos ao tempo no qual veio a lume a 2ª edição da obra, em 1877174. Fernando Amed chama a atenção para a posição deslocada do historiador, apontando para a questão mais geral do lugar do intelectual ou do estudioso numa sociedade sem público – afora os próprios pares – que travasse contato com seus textos, dando-lhes repercussão e consequência175. A indiferença ou frieza com que o IHGB tratou Varnhagen contrastava com o reconhecimento que sua obra obteve junto ao Imperador. Este outorgou-lhe os títulos de barão e, posteriormente, de visconde de Porto Seguro176 . Na historiografia, o reconhecimento iniciou-se com a apreciação de Capistrano, do caráter incontornável da obra de Varnhagen para todos aqueles que, depois dele, tivessem por objetivo escrever uma história do Brasil177.

Esse descompasso, entre as expectativas de reconhecimento nutridas por Varnhagen e a acolhida fria dada a sua obra pela principal instituição voltada para a criação de uma memória histórica para o país, aponta para o problema da posição do historiador brasileiro no campo de pensamento do século XIX brasileiro. Para Varnhagen, a forma de governo a ser defendida era a monárquica, sustentada pelo Parlamento, que não deveria, contudo, ser uma barreira para o Monarca. Na estrutura social, as aristocracias cumpririam o papel fundamental de fornecer o equilíbrio político para a sociedade brasileira; enquanto ao restante da população, “povo e classes médias”, caberia a função de sustentar materialmente a sociedade dada a sua capacidade produtiva178. A história do país deveria acompanhar a formação dessa estrutura social e política, que tinha como contraponto exemplar as repúblicas da América do Sul, dominadas pelo despotismo e desrespeito aos direitos mais básicos dos seus cidadãos179. Portanto, se fazia necessário realizar mais do que mera crônica dos eventos e das figuras importantes do passado brasileiro, era preciso orientar o passado no sentido da evolução das bases do Império Brasileiro.

Uma visão centralista e liberal, ou como diziam à época, constitucionalista180, marcou a formação e a visão de mundo de Varnhagen. Quando da sua juventude lutou ao lado das tropas de D. Pedro IV, D. Pedro I no Brasil, herói liberal para os portugueses, contra as forças miguelistas nitidamente vinculadas ao retorno do absolutismo português181. Varnhagen não hesitou em tomar partido na luta contra a ação de D. Miguel, pois se evidenciava nela claro desrespeito ao pacto político estabelecido na sociedade portuguesa, retirando, com isso, qualquer possibilidade de legitimidade no exercício de poder. O poder do Rei precisava estar em ressonância com as instituições fundamentais do reino, do contrário deixaria de ser rei para se tornar tirano.

A formação do futuro historiador foi realizada em Portugal. foi marcada pelo contato com intelectuais, como Herculano, preocupados em escrever a história de Portugal em acordo com as novas ideias liberais fomentadas pela Revolução do Porto em Portugal, no plano interno. No plano externo, ecoava ainda a Revolução Francesa, que tornou o ideário iluminista parte ativa do cenário político europeu182. Havia um problema, contudo, na forma como Varnhagen absorveu essas influências. Se, naquele momento, ele antevia os “perigos democráticos” oriundos da radicalização do liberalismo português, não hesitaria, posteriormente, em desqualificar Herculano pelas recusas em servir em cargos públicos e, portanto, auxiliar na ação do Estado sobre a sociedade. O Estado deveria ser o fiador da liberdade e, por isso, deveria contar com o apoio incondicional de seus intelectuais183.

A “ameaça democrática” deveria ser combatida, pois significaria por em risco a afirmação de um poder central forte capaz de manter a nação brasileira unida, mas, ao mesmo tempo, era necessária a defesa de valores constitucionalistas, para afastar o perigo de rompimento da relação legítima entre o monarca e os seus súditos. Varnhagen tinha como ideal político a ideia de Monarquia constitucionalista ou representativa, que não se confundia nem com a democracia, nem com a monarquia em seu estado puro. Era nas palavras do Marques de Caravelas “um governo misto, que se combina umas vezes com elementos democráticos, outras vezes com aristocracia e democracia conjuntamente”184. Os problemas levantados pela Revolução Francesa, de todo desprezada por Varnhagen, não poderiam deixar de influenciar a formação política daqueles envolvidos com o fim do Império português na América e com a construção da nação brasileira, como forma de continuar a civilização na América.

Na Europa, a divisão político-ideológica pós-revolução francesa se deu entre os que defendiam a mudança realizada pela revolução e viam nela a ascensão do povo à condição de sujeito histórico – como Michelet – e aqueles que olhavam com desconfiança os feitos revolucionários e suas consequências consideradas nefastas para o conjunto da sociedade – como Tocqueville. Entre os dois extremos, (progressistas e conservadores) oscilava variada nuance de posições políticas185.



No Brasil, por sua vez, o evento que realizou esse corte na vida política foi a Independência política, o fim do jugo metropolitano, que teve como resultado o embaralhamento das referências políticas europeias aqui aplicadas. Pois, diferentemente do que ocorreu na Europa, não haveria nenhum defensor do retorno ao estatuto colonial ou mesmo disposto ao elogio puro e simples daquele passado: os resquícios coloniais, como a escravidão, dividiam os políticos e os intelectuais no tocante à velocidade em que deveriam ser superados e não quanto a sua manutenção. Daí o ar de indiferenciação política que parece marcar o cenário político imperial e dar-lhe, nas palavras de Roberto Schwarz, o tom de comédia ideológica, sintetizada no dito de Honório Cavalcanti : “nada mais parecido com um saquarema do que um luzia no poder.”186 A complexidade que assume o debate de ideias políticas no século XIX brasileiro fica evidente quando enfocamos o conceito de liberalismo. João Camilo Castelo Branco, na sua A Democracia coroada (teorio política do Império do Brasil), ressaltava o caráter plurívoco que o liberalismo constitucional viria a assumir no país, premido pelas particularidades da sociedade brasileira. Com isso, definir quem era liberal ou quem era conservador implicava em esmiuçar o conjunto das variadas e multiformes significações deste conceito político.187
Varnhagen mantinha-se informado sobre a situação política do Império, buscando sempre defender seu ponto de vista favorável à centralidade do Império e à figura do Imperador. Ilmar Mattos enfatiza a visão centralista que o historiador tinha da formação da nação brasileira. Suas críticas aos movimentos que ameaçavam a unidade do Império, como a Revolução Pernambucana de 1817, qualificavam Varnhagen como o “historiador do tempo Saquarema”.188 Por outros termos, Capistrano de Abreu marcava, em 1882, a tendência do Visconde de Porto Seguro a “homogeneizar” a história da pátria de tal modo que se “uniformiza e esplandece; os relevos arrasam-se, os característicos misturam-se e as cores desbotam. Vê-se uma extensão, mas plana, sempre igual, que lembra as páginas de um livro que o brochador descuidadoso repete.”189 Estas observações apontam para uma crítica recorrente feita ao autor da História Geral: o fato de ele elaborar uma história muito ligada ao ponto de vista da organização do Estado central no Rio de Janeiro. Mais ainda, indicam um projeto definido sobre os moldes nos quais deveriam ser construído tal Estado.
Para esses autores a visão de mundo, centralista e monarquista, de Varnhagen ligava-se necessariamente ao seu modo de escrever história. Ele não podia deixar de pensar a sua História Geral do Brasil como a afirmação do progresso da monarquia, único vetor capaz de garantir a unidade do território da colônia portuguesa na América e, depois, do império do Brasil. O título original da primeira edição já apontaria para isso “Historia Geral do Brazil - isto é - do descobrimento, colonização, legislação e desenvolvimento deste Estado, hoje império independente”190 Tratava-se de perseguir a consolidação no país do Estado brasileiro, cuja história, deveria ser vista como uma linha de continuidade entre a ação do Estado, primeiro português e depois brasileiro, e as necessidades de conquista e manutenção da união das partes do Brasil. Varnhagen escrevia no seu prefácio em sua História da Independência do Brasil:
“Quanto ao método adotado na exposição, foi a própria experiência que no-lo aconselhou. Não escrevemos anais, escrevemos uma História, e os saltos continuados a uma e outra província, deixando interrompido o fio dos sucessos importante e capitais, produzia confusão e não permitia que os próprios das províncias fôssem convenientemente explicados. Além de que, na época da Independência, a unidade não existia: Bahia e Pernambuco algum tempo marcharam sôbre si, e o Maranhão e o Pará obedeciam a Portugal, e a própria província de Minas chegou a estar por meses emancipada. A mesma experiência convencerá os leitores da vantagem do método adotado, quando notem que por meio dêle se lhe gravam melhor os fatos narrados.”191
A visão política e a questão do método do historiador aparecem visivelmente vinculadas. Pensar a história da independência do Brasil passava necessariamente pela descrição geral do processo – “método adotado” – em detrimento da análise detida de cada uma das futuras províncias. A unidade não estava posta em cada uma delas, mas apenas esboçada no centro, pois no restante da colônia, ao contrário, avultavam as ameaças à unidade do território. Se a independência era para o autor inevitável, pois é da natureza das colônias amadurecerem e se emanciparem de suas metrópoles, distinta era a questão quanto à unidade do território, pois excluída a figura do príncipe D. Pedro I, não havia muito a unir o conjunto das províncias do “Amazonas até o Rio Grande do Sul”.

Diante de tal fato, o dever do historiador, comprometido com a segurança e o desenvolvimento de sua “pátria” era o de registrar a história do país, ao mesmo tempo, que a própria nação encontrava-se em construção. Como dizer todas as verdades quando o povo ainda não está constituído? Era preciso aguardar a passagem de algumas gerações, até que educação e a moralização da população, feitas de modo “lento, cauteloso e político” transformasse o conjunto heterogêneo de livres, “servos e bugres” em cidadãos da pátria brasileira192. Desse modo, como vimos no primeiro capítulo, Varnhagen distanciava-se da noção de imparcialidade que marcou historiadores como Ranke.193. Sua obra problematiza de modo distinto a relação entre escrita da história, moral e política: o seu entrecruzamento seria recorrente em.

A História Geral do Brasil foi escrita tendo por base a ideia de objetividade e verdade, assentadas ambas no apego à referência documental como critério de verdade194. A lealdade devida tanto à casa de Bragança quanto à unidade do território que ela representava, não eram, para Varnhagen, da ordem do obstáculo para o caráter científico, portanto objetivo, de sua obra. Pelo contrário, escrever a história do país significava compreender o caminho que levava do passado colonial à autonomia imperial. Varnhagen estabelecia claramente o vínculo entre a sua história e a monarquia ao afirmar que: “Assim a integridade do Brazil, ja representada magestosamente no Estado e no Universo pela monarchia, vai agora, bem que mui humildemente, ser representada entre as historias das nações por uma historia nacional.”195 A correlação entre História e Estado no presente era decisiva para o encaminhamento da narrativa que Varnhagen propunha-se a fazer.

Qual o peso para sua escrita de história de uma escolha política tão marcada? José Honório Rodrigues afirmava que o conservadorismo de Varnhagen era um de seus limites como historiador. O “horror ao inconformismo” produziria muitas distorções na reconstituição dos fatos, quando não pedisse a pura e simples omissão deles196. Como destacamos acima, Ilmar Mattos também não deixa de ressaltar o fato de o Visconde representar o pensamento “saquarema” de unidade imperial, levava-o a reduzir os elementos que escapavam à produção dessa realidade a meros obstáculos ou contratempos197. Contudo, a crítica ideológica-política ainda deixa em campo o problema de se compreender como um “historiador oficial”, voltado para a defesa da ordem, pode escrever uma história do Brasil, que mesmo para seus críticos, estava distante de mero panfleto ou defesa institucional aberta do regime centrado no Rio Janeiro, e que, além do mais, serviria de parâmetro fundante de uma historiografia propriamente brasileira198.



No plano político a questão era a de estabelecer a história do Império do Brasil. Quando ao da construção da obra o que estava em jogo era a aplicação de um “novo método de se escrever história”, cuja marca decisiva foi o apreço à documentação, não só como fonte, mas como alvo de análise, crítica, catalogação e arquivamento. Alice Canabrava retomou esta questão, buscando associá-la a influência dos trabalhos produzidos por Leopoldo Von Ranke na Alemanha199. A questão da influência direta permanece obscura, mas a ideia de dar consistência científica ao conhecimento histórico, abandonando as crônicas, memórias e narrativas de viagem, de fato aproxima os dois autores a certo clima mental de época. O “gosto pelos arquivos”, na expressão de Arlette Farge200, marcaria profundamente Varnhagen. Na primeira edição de seu livro, o título da obra era apenas História Geral do Brasil, acompanhada de uma explicação:
“[...]escripta em presença de muitos documentos autenticos recolhidos nos archivos do Brazil, de Portugal, da Hespanha e da Holanda.”201
A narrativa de seu livro deveria possuir tal objetividade que não pudesse ser alvo de restrições ao caráter científico. Desse modo, o próprio autor reconhecia o traço específico da construção histórica, ou seja, que a sua relação com a realidade, ou melhor, com os fatos, só poderia acontecer através dos documentos transformados, pela crítica, em fontes confiáveis. Essa ênfase documental, novamente o distancia do plano de Martius, que previa um historiador capaz de lidar diretamente com as, nas palavras de Alice Canabrava, “condicionantes sociológicas, antropológicas e culturais na formação histórica”202. A insensibilidade de Varnhagen a tais condicionantes privou sua obra de uma base teórica explícita203, mas permitiu demarcar com bastante acuidade o lugar específico da História, entendida então como Ciência, nos quadros da formação dos mecanismos espirituais e de conhecimento do Brasil. Outro efeito foi deixar de lado, ainda que de modo superficial, a condenação que a ciência europeia tendia sempre a lançar sobre as possibilidades de se transpor uma civilização para os trópicos204.
Varnhagen estabeleceu, na sua História Geral do Brasil, um modelo de reconstituição histórica nacional no qual o papel do período colonial seria central. O livro percorre o processo de colonização portuguesa, buscando constantemente dados que justificavam e afirmavam a empresa colonizadora como elemento de instauração, no território americano, da Civilização, entendida aqui como Universal. Portanto, como constatava Honório Rodrigues, o grande tema da obra é a colonização portuguesa no Novo Mundo205. O problema surgia na medida em que a noção de colonização deveria ser ampla o bastante para proporcionar as bases da construção de uma nação independente, fornecendo-lhe uma “alma” civilizada.206.
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