Lucas jannoni soares



Baixar 0.91 Mb.
Página5/15
Encontro29.07.2016
Tamanho0.91 Mb.
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   15

A questão nacional
A historiografia inaugurada em Varnhagen consolidou, no campo do conhecimento histórico, a passagem da colônia à nação como continuidade, ou seja, no esforço continuado de manutenção e ampliação da civilização no Brasil. Todo o esforço de colonização dos portugueses - de evangelização dos gentios, de criação de estruturas econômicas, de integração hierarquizada das diferentes raças, de organização de um aparelho administrativo e de ocupação do território- em suma, todo o esforço da coroa portuguesa criou as condições para o surgimento da nação brasileira. Logo, tornava-se necessário, desse ponto de vista, manter o vínculo com aquela tradição, representada na figura do Imperador Pedro I e depois em seu filho, Pedro II, que continuaram as linhas mestras formuladas na colônia, no processo de colonização267.

A afirmação de identidade nacional própria dentro da construção da História Geral também é problemática. "Quem é brasileiro?" A resposta dessa questão não era simples. Forçoso reconhecer as dificuldades em definir claramente quem integrava e quem não integrava o corpo político da nação em vias de construção, ou melhor, em definir o significado concreto da situação política de ser brasileiro na primeira metade do século XIX268. Em 1854, Varnhagen relatava ao imperador Pedro II o seu encontro com a Princesa D. Francisca e com o príncipe de Joinville, que ficaram surpresos quando o descobriram brasileiro, pois o nome e a aparência do diplomata não indicavam essa origem.. Surpreso por esses comentários, decidiu omitir o seu nome da capa do livro para não associá-lo ao estrangeiro e torná-lo um livro de apenas "um brasileiro" ou do "Instituto Histórico do Brasil", portanto "de todo o Brasil".269 Tal confissão aponta a instabilidade, mais evidente no autor, do caráter da nacionalidade brasileira.

Retomemos na íntegra o trecho no qual Varnhagen, consolidava suas ideias sobre a nacionalidade brasileira e sobre o modo de descrevê-la:
"Assim pois a verdadeira história do Brasil reduz-se á da colonização, civilização, organização e desenvolvimento deste Estado. Ao patriotismo do historiador toca apresentar dela os factos com dignidade, evitando sobretudo continuar declamações malcabidas, que nada podendo aproveitar á geração atual, só serviriam a deslustrar-nos ante as outras nações. Há verdades acerca das quais o historiador deve proceder como o dramaturgo, que esconde de traz os bastidores o que julga conveniente á melhoria da sua produção. Sem faltar á verdade poderá algumas vezes o historiador calar ações (boas ou más) desnecessárias, segundo seu modo de ver. - E muitas vezes mostrará ele mais mérito em saber calar, que terá tido em escrever um de suas melhores páginas."270
Ao sintetizar o que para ele era nação e como se deveria escrever a história nacional, Varnhagen apresentava uma gama de problemas para a reflexão do papel do historiador no século XIX. A nação brasileira aparecia como o fruto de longo processo de gestação do Estado responsável pela montagem dos fundamentos civilizacionais no território colonial. Este ponto de vista implicava cortar os elementos que perturbassem a evolução natural da ação estatal e dos princípios que a norteavam. Ou seja, em uma primeira aproximação, a nacionalidade posta em questão por Varnhagen estava ligada menos ao sentimento nacional e mais ao nacionalismo como elemento constituído de "estrutura e doutrinas claramente definidas" capazes de servir de orientação para partidos que tomem a frente da construção da nação271. Era função do historiador converter esse processo numa narrativa ou, para ficar junto à imagem por ele cunhada, numa “encenação dos grandes fatos históricos” constitutivos da civilização a ser instaurada no território ocupado pelos portugueses. Podemos aproximar essa visão do que Benedict Anderson, retomando Seton Watson, definia ironicamente como "nacionalismos oficiais", construções em grande medida resultantes de reações, nos velhos impérios europeus, às manifestações de um "nacionalismo popular" e explosivo272. No Brasil, importa ressaltar, não se tratava tanto de conter levantes populares, quanto de garantir a manutenção do status quo econômico e político.

A história do século XIX pode ser descrita também como a da "construção da nação". Hobsbawm frisa, a partir desta observação, o caráter moderno e recente da nação como realidade política e, ao mesmo tempo, como conceito problemático para analisar tal realidade. A articulação de novos corpos políticos dentro dos aparelhos de Estado europeus, e em suas colônias americanas, realizada em meio aos processos revolucionários nos dois lados do Atlântico, avançava de modo aparentemente irresistível, sem com isso, apresentar uma forma política comum273. Mesmo na Inglaterra, na França ou na Espanha, de onde poderia observar bases aparentemente seguras - quais sejam a unidade de território, uma língua dominante e um aparelho de Estado centralizado - para a construção nacional, a distinção entre as ideias iniciais sobre o caráter da nação e sua definição, ao longo do XIX, obriga o estudioso a ficar alerta quanto à instabilidade do objeto “nação”.274 No caso das ex - colônias americanas, somava-se ao processo de instituição da nação o de criação tanto do território quanto do Estado responsável pela ordem interna das novas sociedades.

Sérgio Campos Matos define como problemática a relação entre história e nacionalidade em virtude do caráter deformador que o nacionalismo tende a impor à reconstituição histórica275, tal problema surgia de forma evidente nos países europeus do XIX; dado os processos de urbanização e industrialização que permitiram, segundo Ernest Gellner, a homogeneização da população e a integração, via alfabetização, das populações europeias em unidades identitárias.276 No Império brasileiro a questão nacional não era tratada como uma questão geral e popular e sim como uma necessidade do Estado em estabelecer as condições que definiam aquela nacionalidade. A história do Brasil a ser escrita no XIX não era a escrita da história de um povo realizando a sua formação, era sim como observava Nilo Odalia, a descrição da ação do Estado “tutelando, orientando e controlando”277 a construção nacional.

Nesse sentido Varnhagen permaneceria vinculado ao Estado de modo semelhante ao geral dos membros do IHGB, pois não só a sua escrita de história tinha na ação política o seu elemento central, como também do ponto de vista da reprodução material da vida, ele dependia, como apontava Sérgio Buarque de Holanda, assim como outras figuras políticas e intelectuais do império, do acesso aos empregos públicos. Ele ficava desse modo à mercê do jogo de influências e favores “da formidável soma de poderes de que dispunha o monarca brasileiro, graças ao Poder Moderador”.278



Em manifesto redigido por Joaquim Gonçalves Ledo para D. Pedro I destacava-se a unidade de todas as províncias como a garantia da independência e como base da nacionalidade:
"Não se ouça pois entre vós, outro grito que não seja União! - Do Amazonas ao Prata não retumbe outro echo que não seja Independencia! Formem todas as nossas provincias o feixe mysterioso que nenhuma força pode quebrar. Desapareçam, por uma vez, antigas preocupações , substituindo o amor de bem geral ou de qualquer provincia, ou de qualquer cidade." 279
O esforço de Varnhagen direcionou-se a dar consistência histórica àquele sentimento de unidade, àquele “desejo dos brasileiros de ter uma” história nacional280, permitindo a conciliação entre o caráter científico e a missão histórica da nascente historiografia brasileira.
Ao escrever sua História Geral do Brasil, Varnhagen tinha por meta reconstituir os acontecimentos de modo objetivo,. A relação entre o ponto de partida bárbaro da terra descoberta e as condições necessárias para fazê-la progredir rumo à civilização, rumo ao século XIX marcam, para o autor, a passagem do passado ao presente A colonização portuguesa não foi apenas o ato de ocupação de terras estrangeiras por um povo, mas, principalmente, o estabelecimento de novas relações sociais, políticas e econômicas que determinariam a constituição da nação brasileira. Como tantos historiadores do XIX, Varnhagen tinha na ideia de origem o ponto de partida de sua história. Não pretendia escrever uma “história colonial”, mas, dadas as condições da passagem da colônia à nação, o único meio de realizar sua história nacional era colocar aquele passado colonial - da nação brasileira que falava português, era governada pela dinastia de Bragança e seguia a religião católica – como constitutivo da nacionalidade brasileira. Diferentemente do que aconteceu nas repúblicas hispânicas ou nos EUA, nos quais a ruptura com a metrópole determinaria a independência como ponto de partida para a história nacional, no caso brasileiro a colonização tomava lugar de momento mesmo de criação da nação brasileira.

Capítulo 3
Continuidade e descontinuidade na História do Brasil: o fim dos “grilhões coloniais” e o Império do Brasil.
A passagem da colônia portuguesa à nação brasileira tem sido alvo de alentados debates historiográficos desde o final do século XIX. A permanência do tema da independência na historiografia denota continuado esforço de compreensão da formação nacional, pois a sua discussão tem sido especialmente, como o afirma Wilma Perez Costa, sensível às paixões políticas. Definir aquele processo histórico tende, inevitavelmente, a gerar diagnósticos sobre a situação contemporânea do país281. A formação da nação tornou-se por isso, campo fértil de polêmicas sobre as continuidades e as rupturas no interior do Estado e da sociedade brasileiros, principalmente em virtude do caráter distintivo da crise das relações do mundo luso-brasileiro em relação aos movimentos de independência das Américas hispânica e anglo-saxã282. A solução imperial para a transição da colônia para a nação independente marcaria de modo indelével a fundação do Estado.

O problema, conforme sinalizava Florestan Fernandes, era equacionar a transição na Independência do Brasil, a partir da situação sui generis de inversão da relação colonial, já em 1808. A invasão francesa de Portugal levara a Coroa portuguesa a “interiorizar o Império colonial” nas suas posses Americanas, e proceder de modo a aparelhar o Brasil com as instituições “necessárias à eficácia do poder imperial”, abandonando com isso a condição dada pelo Antigo Sistema Colonial. A transição dentro da ordem, baseada na família real portuguesa, permitiu a antiga classe de “senhores coloniais” a possibilidade de ambicionarem a ser apenas “senhores”.283

Caio Prado Jr., em Evolução Política do Brasil ressaltava essa peculiaridade do processo brasileiro, ao enfatizar o papel decisivo da vinda da família real: “A transferência da Côrte constituiu praticamente a realização de nossa independência.”284 Os eventos de 1808 marcavam com isso o disparar da problemática ruptura dos laços entre a colônia e a metrópole. Para Caio Prado, era perceptível que as linhas de continuidade pautaram a evolução política daquele momento, impondo limites às transformações políticas em curso devido à crise nas relações entre Brasil e Portugal.

José Honório Rodrigues procurava refletir, 40 anos depois de Caio Prado, em termos de “revolução e contrarrevolução”, os impasses da independência política , questionando a contenção dos ímpetos revolucionários realizada por D. Pedro I285. Para os autores, as linhas de continuidade apareciam como problemáticas e limitadoras do potencial de transformação que a emancipação política carregava em si, evidenciando seu caráter conservador. Pois afinal, como sintetizava José Honório, “A Guerra da Independência não modificou a estrutura econômica nem as relações sociais, e por isso ela não foi uma revolução completa”286.

A “herança colonial” era ponto central nos debates sobre o processo de independência, a partir da qual se articularam as posições historiográficas e políticas dos autores, e estabeleceram-se o as bases da reconstituição histórica da construção nacional brasileira287. Nesse sentido, a obra de Varnhagen contrasta nitidamente com os juízos posteriormente estabelecidos sobre o caráter da independência.
Mas, como definir com precisão a relação, de resto fundamental na produção do conhecimento histórico, entre mudança e permanência? Entre continuidade e descontinuidade? Para evidenciar a amplitude do problema, podemos lembrar o caso clássico no qual aparentemente a mudança impunha-se de modo dramático por sobre a permanência: a Revolução Francesa. Alexis de Tocqueville, autor de predileção de Varnhagen, observava que, diferentemente do que pensavam muitos de seus contemporâneos, a sociedade francesa pós-revolucionária mantinha muitas características em comum com a sociedade do Ancien Régime. E, o que se podia observar, do ponto de vista do ordenamento administrativo e social, era o aprofundamento das transformações oriundas da velha monarquia absolutista e não a criação de novas instituições288. A centralização administrativa do Estado, a destruição dos resquícios feudais, a luta pela igualdade e a questão da liberdade –- configuravam, para Tocqueville, linhas de continuidade na passagem entre a França Ancien Régime e a França revolucionada289.

A definição do funcionamento, no discurso histórico, das linhas de continuidade e de descontinuidade dos vetores sociais, políticos, econômicos é elemento vital para a capacidade de o historiador estabelecer, de modo consistente, a reconstituição dos seus objetos. Paul Ricoeur salienta essa característica como uma das centrais no cerne do tempo histórico, pois permite ao historiador delinear os sentidos inseridos nos fatos históricos, marcando de modo claro a arquitetura temporal da civilização do ocidente290

Varnhagen, que via em Tocqueville autoridade insuspeita291, enfatizaria, na sua obra, as linhas de continuidade entre a “história pátria colonial” e a posterior história do império “independente e liberal”292. No plano geral da sociedade que emergia após a fim do regime dos tempos coloniais, os efeitos da ação colonizadora portuguesa foram centrais na determinação de seu caráter: “o Brazil contava já em seu seio com patricios eminentes, cidades policiadas e fontes de riqueza, abertas pela agricultura, pela industria e pelo comercio”293. A continuidade era dada pela articulação, no território da colônia, das dinâmicas oriundas da civilização europeia, cujo avanço ou recuo permitia estabelecer o critério para a escrita de sua história. Além disso, forneceria as bases para a determinação de juízos – políticos ou morais – sobre o conjunto da obra dos portugueses na América.

Como afirma José Carlos Reis, muito embora os historiadores do XIX procurassem programaticamente afastar-se da filosofia da história, de modo a afirmar o caráter científico de sua disciplina, continuaram em grande medida presos a noções metafísicas, a estruturas de sentido que permitiam a organização de suas narrativas dos eventos passados294.

No caso de Varnhagen, percebemos menos o vínculo a uma filosofia da História e mais a disposição em elaborar os eventos em função de um projeto nacional, baseado na defesa da Coroa e na realização da civilização no Brasil. Nesse sentido, discordamos do ponto de vista, primeiro estabelecido por Capistrano de Abreu e retomado, frequentemente, na bibliografia sobre Varnhagen, sobre a ausência de uma filosofia, teoria ou doutrina criadora de sentido em sua obra, que privaria sua obra de nexos de sentido. Tende-se com isso a reduzi-la à categoria de uma “história tradicional”, apoiada apenas na cronologia, tendo por único mérito a pesquisa documental. 295
Varnhagen delimitava esse vínculo entre história e política quando escrevia na sua História Geral do Brasil :
"É assim que os estudos acerca do passado de uma nação nunca são inuteis para o governo della, como muitos politicos improvisados querem desdenhosamente inculcar, para não dar importancia ao que não aprenderam, e que alias devera nas universidades ensinar-se com o direito administrativo, até porque as glorias communs da mesma historia suscitam mais sympathias mutuas e por conseguinte maior integridade no presente. O conhecimento das vicissitudes por que passou o paiz, quer como colonia dependente, quer como estado sujeito, quer finalmente como nação livre, é essencial ao estadista que pretende governar com prudencia e emprehender reformas de boa fé. - Para edificar solidamente necessita o architecto conhecer o terreno; se já alguma vez desabou, se ha nelle ruinas, cujas pedras e alicerces possam aproveitar-se; se tem matos que se devam cortar, utilizando-se as madeiras etc."296
Tal concepção de história marcou profundamente a historiografia brasileira do século XIX e encontraria ecos na do século XX. Caio Prado, escrevendo sua tese para concorrer à cadeira de História da Civilização Brasileira da USP – vaga em virtude da aposentadoria de Sérgio Buarque de Holanda – buscava delimitar o a relação entre o estudo do passado e a ação no presente. Para ele, a historiografia deveria cumprir o papel de fornecer as informações básicas para orientar comportamentos coletivos dos homens em sociedade. E, no caso do Brasil, cujo passado ainda se achava tão entrelaçado ao presente, o conhecimento histórico constituía ferramenta fundamental para garantir que ideias abstratas – no campo econômico por exemplo – não fossem postas em prática, sem a devida consideração pelas particularidades da formação do Brasil contemporâneo.297 Fernando Novais e Carlos Guilherme Mota, de modo mais mediado, caminharam também nessa direção ao sugerirem a importância da compreensão do momento da Independência para se pensar a “questão das ‘dependências’, a autonomização em países do Terceiro Mundo e a ‘questão nacional” correntes durante os anos 60 e 70 do século XX. 298

O momento de transição de “colônia dependente” para “nação livre” permitia a Varnhagen delimitar os níveis da continuidade histórica que procurava determinar. O Império deveria ser governado tendo-se em conta as “vicissitudes” próprias da sua constituição. Não era apenas uma questão de fidelidade ao conhecimento histórico do passado nacional o que se almejava299,. Desejava-se também a compreensão dos impasses contemporâneos ao nascimento da nação: unidade territorial e a continuidade do progresso da civilização nos moldes europeus. A arquitetura política deveria ser acompanhada pela arquitetura histórica dos vetores que, permitindo estabelecer os limites a partir dos quais seria possível administrar o império, conciliariam os interesses e horizontes comuns a ser buscados, idealmente, por todos os brasileiros. O conhecimento do passado não só permitia a instrução do presente, como garantia a realização futura do edifício nacional.300

José Carlos Reis, ao discutir a criação das identidades nacionais, enfatiza essa unidade entre o pensamento de Varnhagen e o valor coletivo e histórico de sua interpretação do passado brasileiro. Debatendo com Nilo Odalia e José Honório Rodrigues, assenta sua análise no caráter político da obra de Varnhagen, para depois poder avaliar o efeito das posições políticas na sua obra:
“[Ele] Deve ser lido como um grande depósito de informações sobre o Brasil, um arquivo portátil, e como interpretação do Brasil mais elaborada e historicamente eficaz o século XIX. Quando faz o elogio da colonização portuguesa e defende a continuidade luso-brasileira, caminho pelo qual, de fato, optaram as elites brasileiras[...]”301
José Honório Rodrigues referia-se a Varnhagen como mestre da História do Brasil; contudo, não escondia seu desconforto com as opções políticas que inviabilizavam, no seu entender, a visão de conjunto dos processos sociais brasileiros302. Sua crítica lastreava-se em grande medida em divergências de visão de mundo, pois a defesa da monarquia e o ataque aos movimentos de contestação ao poderio dos Braganças – antes e depois da independência – realizados por Varnhagen eram sinais evidentes da sua “ideologia conservadora”.303 Rebeca Gontijo observa que a forma de análise de José Honório tendia a enfatizar as questões políticas e críticas, em detrimento da análise das obras propriamente ditas. A questão política emergia na medida em que os autores analisados – aí incluído Varnhagen – não contemplavam o interesse nacional, pois levavam em conta apenas a história colonial “não sendo capaz de desenvolver aquilo que seria o seu oposto: a ‘história nacional’”.304

Além disso, o discurso histórico elaborado por Varnhagen apoiava-se na idéia de positividade inquestionável da civilização que foi implantada, ao longo de três séculos, no Brasil. Era o eixo que deveria organizar a sua história do Brasil. Quando fazia ressalvas ao movimento geral da colonização, não deixava de contrabalançar as críticas com os resultados palpáveis obtidos no saldo final do processo:


“E ainda admitindo que muitas vezes abusavam os superiores dos inferiores, os senhores dos escravos, e uns e outros dos Indios, como é certo, não é também certo que, à custa das lágrimas do exilio, nos legaram elles a nós, seus herdeiros, as casas fabricadas, as fazendas criadas, as villas e cidades fundadas, - a vida, a religião, o commercio, a riqueza, a civilização,... a patria em fim?”305
A perspectiva histórica de Varnhagen orientava-se em torno de dois “momentos fatais” – o descobrimento e a independência, lendo, à sua maneira, a perspectiva geral desenvolvida junto ao Instituto Histórico306. Mais exatamente, como definimos no capítulo anterior, o início da efetiva ocupação das partes do Brasil pelos portugueses, com a criação das Capitanias Hereditárias, foi o momento do desenlace da colonização portuguesa na América. Esse arco temporal, ou seja, esse fluxo do discurso histórico, que preenche o espaço entre dois pontos significativos – um começo e um fim – exerceu função decisiva na sua escrita. Para além da ideia de conservadorismo, buscamos compreender esta teleologia ligando-a ao desejo de dar significado ao processo histórico. O cônego Januário da Cunha Barbosa sintetizava tal perspectiva, ao defender que a história deveria exercer a “força de um laço moral” e com isso atuar como “nexo da nacionalidade” brasileira307.

Nesse sentido, Varnhagen alinhava-se entre os historiadores da América Latina que, segundo Richard Grahan, que tendia a estabelecer dois eixos de força para a relação entre Estado e Nação. O primeiro apontava a anterioridade da identidade nacional aos estados independentes na América Latina; o segundo, por sua vez, partia do pressuposto da montagem do Estado como condição primeira para a criação da Nação308. Varnhagen ecoava ambos os eixos ao estabelecer a nacionalidade brasileira como produto da colonização portuguesa e buscar vincular a constituição da nação brasileira como efeito direto da ação do Imperador que, ao assumir a soberania após a independência, garantiu as bases políticas para a sua constituição.


A história que Varnhagen escrevia não era apenas registro do passado, voltado para a produção de saber sobre o Brasil. Era também mecanismo de articulação dos interesses políticos vigentes no Império. Buscava solucionar o impasse entre o desenvolvimento de uma ciência do estudo do passado e a criação de uma identidade no presente. Os riscos dessa síntese, entre ciência e missão, não eram pequenos para a elaboração de sua história nacional. Ernst Renan, em conferência sobre a ideia de “nação”, proferida em 1882, não hesitava em afirmar que o esquecimento e o erro histórico constituíam não entraves, mas elementos essenciais na criação de uma nação, pois o conhecimento histórico apurado teria de por às claras os horrores inerentes a todo processo de unificação, ameaçando a sua legitimidade.309

A violência, contudo, não era um problema em si mesmo para Varnhagen, uma vez que a colonização era vista sob a ótica da conquista, regida pelo direito do vencedor. A escrita de sua história partia desse pressuposto, por isso a violência reduzia-se a efeito necessário daquele processo.. Não haveria razão para destacar os “abusos”, uma vez que estavam contextualizados em função do processo mais amplo de integração do território americano à civilização europeia310.


Catálogo: groups -> 15665882
groups -> Gerência 5 recursos humanos 7 comercial 9 contábil/fiscal/financeira 20 tele(marketing) 27 atendente 29 design/publicidade/comunicaçÃO 30 informática 31 comércio exterior 36 logística / almoxarifado / expediçÃO 36 engenharia 41 projetos
groups -> Formado ou cursando Contábeis, Administração, Economia, Direito. Rotinas e experiência de constituição de Empresas, conhecimento de órgãos públicos. Salário à combinar + vr +VT, horário comercial. Bairro São Francisco
groups -> 1 Para o trabalhador avulso, pode ser considerado como salário de contribuição: a as gorjetas
groups -> Logo correta é a letra "C"
groups -> Pedagogia waldorf (Diversos textos retirados de sites diferentes) Introdução V. W. Setzer
groups -> Introdução
groups -> O conceito, a doutrina e as origens do cooperativismo
groups -> Marshall berman tudo que é SÓlido desmancha no ar a aventura da modernidade
15665882 -> A experiência da história numa era de expectativas decrescentes
15665882 -> A senhora pode nos contar as circunstâncias e motivações que a levaram a este estudo? A senhora, na nota explicativa do livro, disse que o presente estudo partiu


Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   15


©principo.org 2019
enviar mensagem

    Página principal