Luciane neves beppler



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LUCIANE NEVES BEPPLER





ÉTICA E CIÊNCIA: O DILEMA DA RACIONALIDADE NA SOCIEDADE PÓS-MODERNA

Paper apresentado como requisito

Parcial à obtenção dos créditos na

Disciplina de Ética.

Curso de Mestrado em Administração,

Setor de Ciências Sociais Aplicadas,

Pontifícia Universidade Católica.

CURITIBA

2002

SUMÁRIO



1. INTRODUÇÃO 1

2. ÉTICA E CIÊNCIA – UM BREVE HISTÓRICO 2

3. RACIONALIDADE E PROGRESSO – EVOLUÇÃO? 3

4. A ÉTICA DA PESQUISA CIENTÍFICA 5

5. O FUTURO DA ÉTICA 6

6. CONCLUSÃO 8

7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 9





Klee – Angelus Novus

Minhas asas estão prontas para o vôo,

Se pudesse, eu retrocederia.

Se ficasse no tempo vivo,

Eu teria menos sorte.


(Gerhard Scholem, Saudação do Anjo)

“Há um quadro de Klee que se chama Angelus Novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Esta tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos progresso."


(Walter Benjamin, Obras Escolhidas, p. 226)






1. INTRODUÇÃO

Ao longo da história, em especial nos últimos dois séculos, a tecnologia tem ocupado um papel cada vez mais relevante na sociedade. De uma sociedade industrial, baseada em produção em massa e redução do custo unitário, adentramos na chamada Sociedade da Informação, onde a tecnologia é empregada para maximizar os resultados.


Segundo FOUREZ (1995), a ciência e a tecnologia tiveram uma parte significativa na organização da sociedade contemporânea, a ponto de esta não poder prescindir das primeiras. Explorada na competição industrial, na medicina e na indústria bélica entre outras, a tecnologia tem se tornado perigosa na medida em que se ignoram seus efeitos nocivos e se permite que ela adquira uma legitimação própria ou uma suposta neutralidade. A evolução da ciência e da tecnologia não foi acompanhada por uma evolução filosófica, o que tem criado paradoxos intrigantes.
A justificação da tecnologia e de seus custos é feita em comparação com alguns dos êxitos que vêm sendo obtidos, fazendo-a adquirir uma mística mágica e determinística e colocando-a acima da moral e da razão. A mídia da sociedade pós-moderna vende a tecnologia com esta aura, e os que a isso se opõem são classificados de reacionários.
A ciência tem estado a serviço do capital, sendo que muitas pesquisas são hoje financiadas por grandes instituições do mercado. O investimento na ciência não se deve ao interesse de se saber a verdade, mas sim ao de se aumentar o poder através do controle do mercado e da satisfação econômica dos acionistas. A classe técnica e científica passou a ocupar o lugar do Estado enquanto validadores das conseqüências e legisladores de valores, ditando o mínimo legal vigente na pós-modernidade.
O papel da sociedade frente a aceitação ou não do emprego de tecnologias e da validade deste uso precisa ser rediscutido e exercido, uma vez que a classe técnica e científica se exime das culpas e o Estado não está em condições de legislar sobre o assunto. No presente trabalho pretende-se esboçar um referencial teórico sobre a relação entre ética, ciência, tecnologia e pesquisa científica, buscando-se um ponto de equilíbrio que mostre que não é necessário que a tecnologia seja renegada, mas sim que o progresso seja medido em termos de custos e benefícios para a geração atual e as futuras, e não em termos da ética do individualismo ora vigente.


2. ÉTICA E CIÊNCIA – UM BREVE HISTÓRICO

A aventura moderna de autoconfiança da razão foi inaugurada claramente por Descartes e teve seus extremos na transformação do positivismo em religião. Com Kant, a produtividade autocrítica do entendimento produziria um esclarecimento compatível com a Paz Perpétua. Em Hegel, chegou-se à confiança na identidade entre o racional e o real. Para Marx, a fé nas virtudes emancipatórias da razão foi associada ao controle da história pelos trabalhadores, entendidos como sujeitos da criação de valor negados pelo capital. No extremo oposto, a acumulação de capital e a expansão dos mercados foi vista pelos liberais como a garantia "trans-histórica" de uma emancipação também racional, com a transformação da economia política em economia pura ("economics").


Já no final do século XIX e no início do século XX, no entanto, começaram a brotar as críticas ao projeto modernizador do capital e às virtudes emancipatórias da razão. Nietzsche, Kieerkegard e Freud, mas também Schumpeter, Keynes e Adorno, foram reunindo elementos de acusação. Para Nietzsche, todo indivíduo é virtualmente um inimigo da civilização, sendo que a civilização precisa, portanto, ser defendida contra o indivíduo.
As guerras mundiais expuseram definitivamente o problema: era perigoso acreditar demais nas virtudes do controle científico da natureza e no potencial de emancipação das novas tecnologias. Essa geração crítica que desponta na primeira metade do século XX em alguns casos significou uma recaída no romantismo e no irracionalismo, em outros se prestou à formulação de intensas críticas sociais e estético-filosóficas à civilização promovida pelos capitalistas.
Heidegger achava ser preciso levar a técnica até seu ponto máximo, porque "lá onde está o perigo também viceja o que salva". No entanto, para a ética de Aristóteles, o que constituí o sentido da existência humana não é o domínio, mas o conhecimento. A moral deveria ser o conjunto de ações pelas quais o homem prudente, impregnado pela razão, dá forma à sua existência. O homem de Aristóteles deveria se aperfeiçoar o máximo possível, desenvolvendo a consciência de que ele está integrado sem ruptura à totalidade do mundo. Para ele, somente esse comportamento garantiria que o homem não destruísse a si mesmo. Para Jasper, por exemplo, "não existe nenhuma lei histórica que determine o curso das coisas em seu todo. É da responsabilidade das nossas decisões e nossos atos humanos que o futuro depende". O saber não pode, enquanto tal, ser isolado de suas conseqüências.
Através deste histórico, DUPAS(2000) mostra que, apesar de o mundo ter aparentemente evoluído, proporcionando uma condição quase que ideal em termos de cultura e tecnologia, o século XXI iniciou em uma atmosfera de inquietação. Em parte, a culpa disso se deve ao fato do capitalismo ter direcionado a tecnologia e as ciências no sentido de criação de valor econômico.

3. RACIONALIDADE E PROGRESSO – EVOLUÇÃO?

HABERMAS (1973), classifica em três modelos as interações entre sociedade e ciência. No modelo tecnocrático, as ciências e técnicas determinam as políticas; No decisionista, os consumidores determinam os fins, os técnicos e os meios e; No pragmático-político as definições decorrem das interações e negociações entre “especialistas” e “não-especialistas”. Alertando para um possível abuso de saber por parte dos especialistas, uma vez que a sociedade contemporânea se apoia fortemente no modelo tecnocrático, Fourez (1995) aponta que quanto mais complexas as tecnologias, mais elas ficam nas mãos de especialistas e que por isso, as escolhas de tecnologia deveriam ser escolhas de sociedade, advindo daí a necessidade da vulgarização científica.


Na verdade, um claro paradoxo se instala nas sociedades pós-modernas. Ao mesmo tempo em que elas se libertam das amarras dos valores de referência, a demanda por ética e preceitos morais parece crescer indefinidamente. A cada momento um novo setor da vida se abre à questão do "dever". Jonas, pensador alemão aluno de Heidegger, lembra-nos que, pela primeira vez na História da humanidade, as ações do homem parecem irreversíveis. Isso nos remete basicamente ao princípio da responsabilidade, já enunciado por Platão, que governa a ética e a moral, tornando cada um responsável por seu destino. Instigado pelo potencial destruidor das novas tecnologias, Jonas introduziu a idéia de uma humanidade frágil e perecível, perpetuamente ameaçada pelos poderes de um homem perigoso para si mesmo.
Próximo da idéia de Weber, que dizia que a racionalidade pode ser tanto a base para o desenvolvimento, quanto o próprio veneno que dará cabo da civilização humana, DUPAS (2000) mostra que o homem se tornou perigoso para si mesmo, devido à perda dos valores éticos e morais que ocorreu em escala inversa ao progresso científico e tecnológico.
No artigo Reflexões sobre o Meio Ambiente, Tecnologia e Política, Bornhein (em ÉTICA, 1996) aponta um dos paradoxos criados pela tecnologia, mostrando que tudo que compõe a máquina tecnológica, a partir de certo ponto de sua evolução, desprende-se da dicotomia sujeito-objeto e passa a ter autonomia, dando a impressão de que a tecnologia passa a comandar seu destino e necessidade. Mesmo se mantendo dócil ao comando humano, seu agigantamento tende a tornar-se incontrolável. Citando Heidegger, Bornhein aponta que a técnica pertence à essência da ciência moderna, e assim o conhecimento torna-se cada vez mais uma forma de dominação, de poder.
O paradoxo mais visível criado pela Sociedade da Informação, é que quanto maior a quantidade de conhecimento que temos sobre os danos causados pelo homem ao ecossistema e sobre a irreversibilidade de muitas destas ações, maior é a escala de destruição perpetrada em nome da obtenção deste conhecimento e da manutenção desta sociedade, que tendo por modelo o padrão de vida norte-americano, é o objeto de desejo de muitas das demais. Do exterior o homem recebe superabundância de informação, comunicação mercantilizada e material cultural programado. No entanto, não lhe é dado quase nada de referencial cultural e filosófico.


4. A ÉTICA DA PESQUISA CIENTÍFICA

A estratégia hoje exalta a capacidade de inovação, de diferenciação tecnológica e de produção a baixo custo, alterando as formas de produção. A perda de poder por parte dos sindicatos e a crescente utilização de mão de obra terceirizada e de organizações desfronteirizadas, ilustra este ponto. A tecnologia está sendo aplicada como uma ferramenta de expressão de competição global, em um ciclo de aplicação da tecnologia para agregar valor e permitir, com os lucros, um reinvestimento na tecnologia.


Segundo DUPAS(2000), parte significativa dos cientistas se dedica hoje ao desenvolvimento de tecnologia para as grandes corporações globais, que buscam atender as demandas de mercado e estabelecer a taxa de retorno do investimento de seus acionistas. As conseqüências destas inovações, como por exemplo, um índice crescente de desemprego, é transferido para a sociedade, liberando as empresas de sua responsabilidade social. Outra conseqüência do emprego da tecnologia e do contexto econômico e histórico da sociedade pós-moderna, diz respeito à capacidade de produção atual ser superior à demanda dos mercados.
A auto-legitimidade e a neutralidade da ciência devem ser revistos com olhos críticos, abandonando-se a aura mágica e deterministica emprestada à ciência pela sociedade espetáculo. As razões para que se faça algo devem passar a ter precedência sobre o domínio do conhecimento para fazê-lo. Segundo Desmond, deve-se procurar evitar que o técnico torne-se um servo da ideologia técnica, ao invés de um guardião da mente livre.
Um grande embaraço no qual se encontra a academia hoje, diz respeito a escândalos como os da Enron, financiadora de pesquisas na área de administração. Mesmo no ambiente acadêmico, a obtenção de verbas para pesquisas ou o interesse na publicação de artigos, podem fazer com que o pesquisador distorça os dados de forma a adequá-los a interesses de poderosas indústrias, mesmo que para isso a verdade seja posta em segundo plano. A ciência corre o risco de ter anos de práticas pouco ou nada éticas reveladas.

5. O FUTURO DA ÉTICA

É portanto perigoso confiar demais na razão e na tecnologia. Há escolhas políticas, culturais e extra-econômicas que precisam ser explicitadas, negociadas, não para que a história chegue a algum "final" (feliz ou não) mas simplesmente para que se preserve a possibilidade de os seres humanos fazerem história.


Jonas enuncia o novo princípio da responsabilidade como sendo uma ética “razoável”, um esforço de conciliação entre os valores e interesses. O imperativo kantiniano enunciava que o indivíduo deveria agir de tal modo que pudesse igualmente querer que a máxima por ele apregoada se tornasse uma lei universal, já não pode ser aplicado atualmente, sendo substituído pelo de Jonas, que permite ao indivíduo a possibilidade de arriscar a própria vida, mas não a da humanidade futura.
O vetor tecnológico pode ter o rumo que a sociedade humana desejar, se for capaz de se organizar em função dos interesses da maioria de seus cidadãos. Essa aliança com as técnicas deve ser negociada continuamente e requer cidadãos esclarecidos, vigilantes e críticos, não consumidores fascinados (DUPAS, 2000).
Segundo FOUREZ (1995), a escolha dos meios técnicos determina toda uma organização social, e não é indiferente em relação aos valores e aos fins. É esta impossibilidade de distinguir de maneira adequada os meios, que leva a uma representação da interação entre o saber e as decisões éticas ou políticas como negociações pragmáticas. As decisões relativas à sociedade deveriam ser feitas através de negociações socio-políticas, e/ou debates éticos para discutir e determinar o que se considera comportamentos sociais adequados.
FOUREZ (1995) mostra que ainda que a ciência permita, através dos pressupostos de seu paradigma, uma análise mais completa dos efeitos e da coerência de uma determinada abordagem, ela nunca poderá fornecer a resposta à questão ética: “Queremos assumir tal decisão?”
Dupas afirma que o cuidado com a aplicação da tecnologia não se trata da adoção de um posicionamento reacionário, mas sim a da necessidade de submissão da técnica a uma ética que permita o progresso contemplando o bem-estar das gerações presentes e futuras, atuando a favor da humanidade e não dos interesses de uma minoria ou de necessidades imediatas.

6. CONCLUSÃO

Se na Idade Média a Igreja comandava os destinos, delegando às autoridades eclesiásticas o direito de atribuir normas e legitimar a sociedade da época, na atualidade a tecnologia e os técnicos e cientistas possuem o status de decisores, capazes de prolongar a vida, aliviar a dor e atender às demandas da sociedade.


O grande perigo desta fé cega na tecnologia reside no fato de nunca antes haverem tantas chances e meios do homem destruir à si próprio e à sua civilização. A racionalidade à qual a sociedade tão fortemente se apega pode vir a ser a razão de seu colapso. Os avanços da ciência e da tecnologia não foram acompanhados por avanços de cunho ético e moral que habilitariam o homem a lidar de forma desapaixonada com sua criação. A ciência foi corrompida pelo capitalismo e deixou de buscar a verdade em função da busca pelo poder obtido pela inovação tecnológica.
Os filósofos chamam atenção para a necessidade da sociedade assumir o papel de decisora, com respeito à criação e aplicação de tecnologias perigosas. Conforme Dupas, a aliança com as técnicas se negocia continuamente, requer cidadãos esclarecidos, vigilantes e críticos, não consumidores fascinados. Tal posição é corroborada por Habermas e Fourez que entendem a negociação e o diálogo sobre o emprego da técnica entre especialistas e não-especialistas como sendo o ponto de partida para as decisões sobre a validade da aplicação de progressos tecnológicos.
A noção da neutralidade ou da auto-legitimidade da técnica precisa ser revista pela sociedade, como uma forma de evitar que a racionalidade consumista destes últimos séculos não leve o homem a esgotar os recursos do ambiente em que vive. É necessário que as rédeas da decisão e da História, sejam novamente empunhadas por considerações meta-físicas e éticas e não apenas por considerações de ordem prática e imediatista.

7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

DUPAS, G. Ética e poder na sociedade da informação. São Paulo: Editora UNESP, 2000.


FOUREZ, G. A construção das ciências: Introdução à filosofia e à ética das ciências. São Paulo: Editora UNESP, 1995.


    HABERMAS, Jürgen. Técnica e ciência enquanto ideologia. In.: BENJAMIN, Walter; HORKHEIMER, Max; ADORNO, Theodor; HABERMAS, Jürgen. Textos escolhidos. Trad. Zeljiko Loparic e Andréa Maria Altino de Campo Loparic. São Paulo: Abril Cultural, 1980. P. 313 — 343. (Original alemão) (Coleção Os pensadores).


PUC. Ética. Apostila do curso de pós graduação em administração com ênfase em planejamento. Curitiba, 1996.


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