Luciano coutinho



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Encontro20.07.2016
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O desafio da exportação de manufaturados

LUCIANO COUTINHO

Os dois principais tigres asiáticos, Coréia do Sul e Taiwan, ultrapassaram a

crise e já retomaram o crescimento. Podem crescer acelerada e

sustentadamente, com fortes superávits comerciais e até com balanços de

pagamentos superavitários. A capacidade de exportar manufaturados para os

países desenvolvidos (notadamente para os EUA) lhes permitiu escapar da

crise em que o conjunto da Ásia ainda está mergulhada, aguardando a difícil

recuperação do Japão.

Enquanto isso, as exportações brasileiras estão empacadas. De um lado, a

nossa pauta é primordialmente composta por commodities primárias ou

semiprocessadas cujos preços estão bastante deprimidos. De outro lado, a

América do Sul, maior mercado para nossas exportações de manufaturados,

encontra-se em recessão. Há, porém, uma exceção notável: a Embraer. As suas

exportações de aeronaves saltaram de US$ 193 milhões em 1995 para US$ 1,17

bilhão no ano passado e devem chegar a US$ 1,8 bilhão em 1999.

A Embraer vai superar a Companhia Vale do Rio Doce (as exportações da Vale

estão previstas para US$ 1,54 bilhão no ano em curso), tornando-se a maior

exportadora brasileira. A sua presença na feira aeronáutica de Le Bourget,

França, nesta semana que passou, foi brilhante. A empresa fechou contratos

de grande escala (US$ 4,9 bilhões) com a Crossair suíça, incluindo a sua

nova série de aviões maiores (de 70 a 108 assentos). A carteira de

encomendas já ascende a US$ 9 bilhões, o que garante sua expansão nos

próximos anos.

O caso da Embraer exemplifica como é importante deter competitividade em

produtos de alta tecnologia, dinâmicos no comércio exterior, a partir de

empresas de capital nacional. Como, infelizmente, ela é uma avis rara no

cenário brasileiro, cabe inquirir sobre a contribuição que as empresas

transnacionais, que dominam a maior parte dos setores manufatureiros,

poderiam dar às nossas exportações.

Uma avaliação do desempenho no comércio exterior das subsidiárias

estrangeiras no Brasil, realizada pelos meus colegas do I.E/Unicamp, Mariano

Laplane e Fernando Sarti, mostra que elas têm, de fato, potencial para

auxiliar a melhoria da nossa balança comercial*. Nos últimos anos, porém, em

decorrência da forte sobrevalorização da taxa de câmbio, as subsidiárias

industriais estrangeiras aumentaram significativamente as suas importações,

de modo que em 1997, na maioria dos setores industriais, o comércio exterior

das empresas estrangeiras era deficitário. Nos setores que já eram

deficitários mesmo antes da sobrevalorização do real, o desequilíbrio

aumentou ainda mais. Nos setores que antes eram superavitários, reduziu-se o

superávit (sendo que, no caso da indústria automobilística, o superávit

inverteu-se para uma posição deficitária).

Outra tendência a ser levada em conta é a contribuição negativa, do ponto de

vista das transações cambiais, das empresas estrangeiras que investiram

pesadamente nos últimos anos nos setores de serviços e infra-estrutura.

Esses setores, "non tradeables" (e.g. bancos, telecomunicações, energia

elétrica, ferrovias etc.), não geram receitas de exportação, mas oneram a

conta de serviços do balanço de pagamentos pelas suas remessas de lucros e

juros.

Aumenta, assim, o desafio a ser empreendido pelas empresas industriais



estrangeiras que podem exportar. A recente desvalorização da taxa de câmbio

abre nesse sentido uma nova perspectiva. No setor automobilístico e de

autopeças, por exemplo, a balança comercial pode melhorar muito. O setor de

bens de capital sob encomenda pode ampliar expressivamente sua contribuição.

No caso dos setores de tele-equipamentos e de bens de informática o déficit

comercial, atualmente enorme, pode ser reduzido. Nada disso ocorrerá, porém,

se o governo brasileiro não reconhecer que a mudança cambial, embora muito

positiva, por si só não resolve o problema. Parece indispensável convocar o

quanto antes as transnacionais aqui instaladas para um esforço conjunto,

baseado em políticas setoriais bem coordenadas, incluindo os fornecedores

das respectivas cadeias produtivas.

Esse é o caminho para que as exportações de manufaturas deslanchem a curto

prazo. A médio prazo, além do estímulo continuado às transnacionais, o país

deveria desenvolver a capacitação própria de empresas nacionais para se



tornarem competitivas em produtos de maior valor agregado, o que requer,

obviamente, uma política industrial e tecnológica de longo alcance.


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