Lugares de memória na obra El lápiz del carpinteiro de Manuel Rivas



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Lugares de memória na obra El lápiz del carpinteiro de Manuel Rivas
Débora Karine Vollmann(PIBIC/Fundação Araucária/Unioeste), Adriana Aparecida de Figueiredo Fiuza(Orientadora), e-mail: adrifiuza@yahoo.com.br
Universidade Estadual do Oeste do Paraná/Centro de Educação, Comunicação e Artes/Cascavel, PR
Grande área e área: Linguística, Letras e Artes - Letras
Palavras-chave: Guerra Civil Espanhola, Franquismo, El lápiz del carpinteiro.
Resumo
A Guerra Civil Espanhola (1936-1939) foi um conflito bélico caracterizado por muitas violências, mortes e traumas; logo depois de finalizada, foi instaurada na Espanha a Ditadura Franquista (1939-1975), que prosseguiu com os métodos de torturas, aprisionamentos e fuzilamentos. Após esses acontecimentos de guerra e pós guerra, houve um período de silenciamento na Espanha, que visava “esquecer” os fatos ocorridos durante 1936 a 1975. Essa temática (de guerra e franquismo) quase não era tratada nas representações sociais; foi somente a partir de 1990 que as memórias da Guerra Civil Espanhola e do Franquismo começaram a ser retomadas em diversos meios, como em obras de ficção. Entre as obras literárias que surgem para retratar esses temas, tem-se El lápiz del carpinteiro (1998) de Manuel Rivas, que busca mostrar o período bélico e ditatorial por meio da narrativa ficcional. Dessa forma, esta pesquisa visa verificar as memórias encontradas nesse romance histórico, observando como o passado espanhol é reconstruído de maneira bastante verossímil pela ficção.
Introdução
A Guerra Civil Espanhola (GCE) destaca-se pelas tragédias físicas e econômicas, e principalmente pelos traumas psicológicos e morais que perduram ainda hoje. Historiadores como Buades (2013) e Graham (2013) afirmam que a guerra, por ter obtido ajuda e influência de outras potências, como a Alemanha nazista e a Itália fascista, alçou nível internacional. Em termos gerais, a Espanha estava dividida entre nacionalistas e republicanos, e os republicanos foram vencidos, sendo então imposta a ditadura franquista pelo general Francisco Franco, cujo regime político aplicava penalizações a quem era contra os ideais franquistas. Somente com a morte de Franco (1975), a ditadura foi dada como finalizada. A partir disso, os espanhóis buscaram esquecer esse sangrento período na história espanhola, denominado "amnésia coletiva". A partir de 1990 houve interesse em recontar o passado espanhol, que motivou diversas publicações, pesquisas, produções, músicas e outras artes, das quais se encontram diversas representações dos acontecimentos na Espanha e suas memórias. Helen Graham (p. 7, 2013) afirma que existem mais de 15 mil livros a respeito da GCE, estando no mesmo patamar da Segunda Guerra Mundial. Ao Compreender-se a importância desta guerra para a história, procuramos resgatar nesta pesquisa as memórias por meio do romance El lápiz del carpintero (1998), do escritor galego Manuel Rivas, obra que, atualmente, já existe traduzida para outros idiomas. Visto que a literatura galega foi praticamente silenciada durante o franquismo, o romance tem o intuito de revelar o terror que foi a GCE, especialmente na Galícia (atual Comunidade Autônoma na Espanha). A obra narra uma história que se passa em Santiago de Compostela e na Corunha, e retrata a realidade na guerra e no início da ditadura; foi escrita depois de anos após a GCE, pois Rivas não era nascido na época do conflito, mas produziu seus escritos acerca da guerra e da ditadura "buscando na memória coletiva, registrando reminiscências e folheando os arquivos históricos, obras relevantes para se refletir sobre aquela catástrofe" (LESTE, 2011, p. 21). El lápiz del carpintero, então, reconta o passado espanhol, evidenciando o período de 1936 a 1975 com base em pesquisas, buscando recuperar a história e a memória galega e espanhola.
Materiais e Métodos
O início da pesquisa deu-se por meio de levantamento bibliográfico sobre assuntos relevantes à pesquisa: GCE, Franquismo e Memórias. Posteriormente, foi realizada a leitura da obra El lápiz del carpintero (1998) de Manuel Rivas, assim, comparando o contexto histórico espanhol do século XX com a ficção de Rivas. Após o término das leituras, foram feitos fichamentos das obras para, além da melhor compreensão, auxiliar nos relatórios e nos textos escritos.
Resultados e Discussão
Por meio de pesquisas e leituras feitas no decorrer de um semestre, foram comparados alguns trechos da obra literária com o contexto espanhol de 1936 a 1975. Rivas buscou apresentar cenas similares em El lápiz del carpintero aos relatos históricos oficiais compendiados pelos "historiadores" (franquistas) ou pelos que cultivam empatia com os dominadores (LESTE, p. 35). Buscou evidenciar também como os assuntos acerca da guerra e do franquismo são importantes serem tratados para que se mantenha viva a memória e, consequentemente, a história da Espanha. Nora (1993, p.16) afirma que “não somente os antigos marginalizados da história oficial que são obcecados pela necessidade de recuperar seu passado enterrado”, mas que todos sentem essa necessidade de encontrar suas origens. No romance, os que ficaram à margem do franquismo se veem obrigados a recuperar seu passado doloroso, mas os que estiveram ao lado dos vencedores também, como é o caso de Herbal, guarda franquista que intenta recuperar suas memórias. Sobre essas questões ligadas ao identitário, Bernd (2013, p. 25) indaga: “como afirmar-se como indivíduo ou como cidadão [...] sem conhecer a trajetória de seus ancestrais ou os mitos, lendas e narrativas da comunidade em que se está inserido?”.

Há dois narradores na história: Herbal (guarda a favor dos franquistas), e o Lápis do carpinteiro (narrador onisciente que discorre acerca das vivências de Herbal). A recordação, na obra, é ativada especialmente pela memória do encontro de Marisa e o Dr. Da Barca, durante uma entrevista; e também pelo lápis do carpinteiro. Dessa forma, o lápis é o instrumento/portador de memória, funcionando como uma consciência do guarda.



Diversos fragmentos da narrativa buscam representar o período torturoso que foi a guerra e o pós guerra, especialmente para os republicanos aprisionados. “Era imposible conseguir jabón y la ropa se lavaba sólo con agua, muy escasa. Había que quitar con mano paciente los parásitos y las ladillas. La segunda fauna más abundante en la cárcel eran las ratas. Familiarizadas [...]” (RIVAS, p. 65). Outro momento importante da narrativa é quando se discorre acerca de Da Barca, condenado à morte por ser republicano que, no entanto, não morre, por causa de intervenções que fazem a pena de morte se converter em prisão perpétua. Assim, pode-se verificar a vida precária daqueles que eram opositores aos ideais conservadores: condenada, aprisionada e exilada que, somente com a morte do ditador Franco seria possível prosseguir com uma vida "normal". A morte de Franco, como afirma Osorio (2009, p. 8), representa o fim da censura e do sistema repressivo. Na ficção, a morte de Franco é significativa não somente para Da Barca, mas também para Herbal, que após a morte ele desfaz o silêncio reprimido até então. Leste (2011, p.40-41) utiliza as denotações de Iser (1999, p. 65-77) para afirmar que a tradição fez com que se cristalizasse o pensamento de que a História é impessoal, trata de fatos/eventos que aconteceram em determinado tempo e em certo lugar, localizável geograficamente. Contudo, afirma-se que é senso comum tomar-se a ficção/literatura, como narração de “ato fingido” e não factual (como, de fato, é). Dessa forma, tanto o romance quanto a história oficial podem ser vistas como escritas semelhantes, que buscam a veracidade. Conhecer o passado é importante para poder conhecer não somente sua cultura, a sociedade, mas conhecer a si mesmo, e a literatura busca recontar essas memórias, muitas vezes silenciadas e esquecidas, especialmente a quem não pertenceu ao período histórico.
Conclusões
Diante do que expusemos nesta pesquisa, verificamos que El lápiz del carpintero é uma das obras que procura reconstruir a identidade e a memória galega, que sofreu com a repressão Franquista e foi silenciada durante muitos anos, dessa forma, a obra busca manter viva a cultura e a história galega, bem como a Espanhola. A literatura permite reativar a memória para que esses episódios não sejam esquecidos. Verificamos que há muito que investigar a respeito da história espanhola e, acerca do romance analisado, existem ainda diversas passagens que podem ser exploradas. Para tanto, é interessante que a pesquisa tenha continuação, pois a literatura tem sempre muito a recontar o que por muito tempo foi silenciado e censurado.
Agradecimentos
À Fundação Araucária que financiou este projeto. Ao CNPq que financia o projeto "Entre a memória e o esquecimento: releituras da história da Guerra Civil e do franquismo na narrativa e na filmografia espanhola contemporânea (1975-2011)". À UNIOESTE que incentiva projetos de pesquisa, importantes para o aprimoramento da formação discente.
Referências
BERND, Zilá. Estratégias memoriais na sociedade contemporânea. In: ______ Por uma estética dos vestígios memoriais: releitura da literatura contemporânea das Américas a partir dos rastros. p. 25-43. Belo Horizonte, MG: Fino Traço, 2013.
BUADES, Josep M. A Guerra Civil Espanhola: o palco que serviu de ensaio para a Segunda Guerra Mundial. São Paulo: Contexto, 2013.
GRAHAM, Helen. Guerra Civil Espanhola. Título original: The Spanish Civil War. Tradução: Vera Pereira - Porto Alegre, RS: L&PM, 2013.
LESTE, Sebastião Ferreira. Zonas de penumbra e vazios: memória e ficção na obra de Manuel Rivas. 2011. Disponível em: http://www.bibliotecadigital.ufmg.br/dspace/bitstream/handle/1843/ECAP- 8GCPUC/dissertacao__sebastiao_ferreira_leste___zonas_de_penumbra_e_vazios_ __mem_ria__e_fic__o_na_obra_de_manuel_rivas.pdf?sequence=1. Acesso em: 10 fev. 2015.
NORA, Pierre. Entre memória e história: a problemática dos lugares. Projeto História: Revista do Programa de Estudos Pós-Graduados em História e do Departamento de História da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), n. 10, p. 7-28. 1993.
OSORIO, Lily Marlene Vergara. Memoria y dolor en El lápiz del carpintero de Manuel Rivas. Santiago, Chile. 2007. Disponível em: http://www.tesis.uchile.cl/tesis/uchile/2007/vergara_l/pdf/vergara_l.pdf. Acesso em: 13 fev. 2015.
RIVAS, Manuel. El lápiz del carpintero. Madrid: Prisa Ediciones, 2013.




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