Lugares etruscos



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LUGARES ETRUSCOS
D.H. LAWRENCE
LUGARES ETRUSCOS
tradução

HELDER MOURA PEREIRA


nota introdutória

ANTHONY BURGESS


ASSÍRIO & ALVIM

NOTA INTRODUTÓRIA


TÍTULO ORIGINAL: ETRUSCAN PLACES
ASSÍRIO & ALVIM

RUA PASSOS MANUEL, 67 B, 1150-258 LISBOA


EDIÇÃO 0759, ABRIL 2004
ISBN 972-37-0812-4
Lugares Etruscos é o último dos seus livros de viagens, designação que deve abranger não só os que estão relacionados com a Itália mas também os romances Kangaroo e The Plumed Serpent (embora as categorias formais sejam irrelevantes em Lawrence )Mornings in México. O fascínio de Lawrence pelos etruscos vem já de 1920 mas só em 1927, depois do regresso do México, vai visitar, com o seu amigo americano Earl Brewster os locais dessa desaparecida e misteriosa civilização - Cervetri, Tarquínios, Grosseto, Volterra. A sua intenção era escrever um livro bastante maior do que este sobre os etruscos mas, reconhecendo não poder competir - tanto a nível da observação directa como da informação académica com as autoridades cujo trabalho lera exaustivamente, sobretudo Villanovans and Early Etruscans, de D. Randall Maclver, Etruria Antica, de Pericles Ducato e a conhecida obra do seu compatriota, e portanto potencial competidor, George Dennis, acabou por não o fazer. A Lawrence faltou sempre a disciplina e a investigação objectiva do verdadeiro académico. O seu livro sobre a história da Europa, por exemplo, apoia-se mais numa interpretação subjectiva de autor do que na realidade factual. Ainda assim, a sua aproximação profundamente idiossincrática aos etruscos talvez tenha influenciado mais gente - entre os não especialistas, entenda-se - do que os verdadeiros académicos. Lugares Etruscos tem, além do mais, a pungência particular que advém de sabermos que um homem já perto da sua própria morte vai beber à fonte de uma civilização dedicada à vida. Na verdade, estava a um ano ou dois de morrer quando vagueou pelos túmulos etruscos. O livro, de resto, só seria publicado postumamente, em 1932.
Os túmulos etruscos mantêm-se praticamente nas mesmas condições, tal como acontece ainda com as igrejas barrocas e as estradas das legiões, mas a Itália que Lawrence conheceu é muito diferente, em vários aspectos, da Itália de hoje; ao entrarmos nos seus livros, entramos num mundo remoto que, para usar um paradoxo, só toca a modernidade através das suas perenes relíquias. Naqueles tempos, viajar era uma experiência lenta e dolorosa, pois Mussolini ainda não obrigara os comboios a cumprir horários, não havia autostrade nem motéis à sua beira. As pensões, de um modo geral, eram sujas e estavam infestadas. As viagens de Lawrence em autocarro, nos desconfortáveis comboios-correio durante a noite, ou a pé, estão na linha da esforçada tradição que é responsável pelos mais genuínos livros de viagens - o olhar captando pormenorizadamente tudo em redor, os pés doridos a obrigar ao descanso que permite observar com atenção as pessoas na cozinha fumarenta de uma pensão. No final de Twilight in Italy já se deixava ouvir a estridente nota que ecoaria mais tarde em Lady Chatterleys Lover. por baixo desses rostos que se cruzavam, parecendo cheios de vida, nas ruas de Milão, escondia-se «o mesmo fétido desígnio em todos eles, a mecanização, a rotina mecanizada da vida humana». Apesar de saber apreciar um bom automóvel italiano ou uma boa estrada italiana, estou em crer que Lawrence não saberia reconhecer as delícias de uma viagem pela Itália dos tempos actuais, tais como o desespero de não poder estacionar em Spoleto ou as incaracterísticas vias rápidas, e ficaria irado com a poluição industrial sobre Ravena. Veria tudo isto como o triunfo definitivo de Roma, essa força desumana que destruiu os etruscos e gerou monstros como Mussolini.
Porque a verdade é esta: em Lugares Etruscos como em outros livros, de um modo ou de outro, ele lança sobre a vida mediterrânica um olhar que não é totalmente inocente. Há em Lawrence aquilo que ele próprio definiu como uma filosofia, o que significa uma convicção emocional elevada acerca da localização exacta dos valores humanos, e aplica-a sempre a tudo o que observa - a maior parte das vezes de forma subtil mas de outras vezes com um fervor oratório que se torna ostensivo. O instinto é mais importante do que a razão; não é o cérebro mas as entranhas que estão no centro da vida; uma civilização mecanizada contém em si o mal. Viajou até à Etrúria na expectativa de encontrar o povo «naturalmente» perfeito que também já procurara no México; ficou, como ele próprio diz, «instintivamente atraído» e é esse instinto, tão característico de Lawrence, que tudo justifica, até mesmo a construção de uma filosofia que, apesar da sua fragilidade, tudo pretende abarcar. Ele pode ser amargamente sarcástico em relação a tudo o que seja anti-etrusco (e o mesmo é dizer anti-vida, anti-Quetzalcoatl e anti-Lawrence), quer se trate de um historiador como Mommsen («Talvez porque não lhe era conveniente reconhecer a sua existência. O que havia de prussiano nele estava fascinado pelo que havia de prussiano nos conquistadores romanos») quer dos povos que foram governados por «Messalina, Heliogábalo e outros da mesma estirpe» e que, devido à dimensão «viciosa» (ou amante da vida) dos etruscos, exterminaram impiedosamente a sua civilização. Nas ruínas etruscas ele vê não só a alegria do viver mas a sua própria metafísica do «falismo». Quanto à anti-plenitude e ao anti-falismo, já desde 1912o encontrara, nos crucifixos tiroleses: «É então esta a adoração, a adoração da morte e das aproximações à morte, à violência física, à dor. Há algo de cruel e sinistro nessa adoração, quase como uma depravação, uma forma de fazer inverter e obrigar à regressão o curso de sangue que gerou a vida».

E encontra sempre nas suas deslocações símbolos para o seu maniqueísmo; até a Sardenha e a Itália se tornam exemplos dos aspectos bons e maus da alma humana. Lawrence era mais um pesquisador de símbolos do que um pensador (na verdade, desaprovava mesmo a própria actividade do pensamento, a não ser que derivasse das entranhas ou dos instintos). Pertencia, numa palavra, ao melhor que a filosofia pode ser, ou seja, era um poeta.


ANTHONY BURGESS
CERVETRI
Da Introdução ao livro D.H. Lawrence and Italy, publicado pela primeira vez em

1972 e integrando « Twilight in Italy», «Sea and Sardinia» e «Etruscan Places».

Os etruscos, como é sabido, foram um povo que ocupou o centro da Itália nos primeiros tempos romanos e a quem os romanos, com a sua habitual maneira de estabelecer relações de vizinhança, trataram de erradicar completamente, a fim de criar espaço para uma Roma com R bem grande. Não conseguiram fazê-los desaparecer na totalidade, porque eram muitos. Mas acabaram com a existência dos etruscos como nação e como povo. O que é uma consequência inevitável da Expansão, com E também muito grande, a única raison d’être de povos como os romanos.


Ora, dos etruscos apenas sabemos o que encontramos nos seus túmulos. E há também algumas referências em escritores latinos. Mas conhecimento em primeira mão só o que os túmulos facultam.
É então para lá que nos devemos dirigir: ou para os museus que contêm as coisas que lhes foram subtraídas.
No que me diz respeito, a primeira vez que tive consciência de estar perante objectos etruscos, no museu de Perugia, fiquei instintivamente atraído. Ao que parece, acontece sempre assim. Ou se sente imediata simpatia ou imediato desdém e indiferença. Há muita gente que despreza tudo o que, antes de Cristo, não seja grego, pela simples razão de que, se não é grego, devia sê-lo. E assim, tudo o que é etrusco é desvalorizado como fraca imitação greco-romana. Um grande historiador, Mommsen, chega mesmo a pôr em dúvida que os etruscos tenham existido. Talvez porque

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não lhe era conveniente reconhecer a sua existência. O que havia de prussiano nele estava fascinado pelo que havia de prussiano nos conquistadores romanos. E o reputado historiador quase chega a negar a existência do próprio povo etrusco. Apenas porque a ideia não lhe agradava. O que pelos vistos bastava ao suposto grande cientista da História.


Além do mais, os etruscos eram um povo vicioso. Julgamos sabê-lo, porque nos foi dito pelos seus inimigos e exterminadores. Tal como nós julgávamos saber dos sentimentos profundos dos nossos inimigos, na última Grande Guerra. Quem não é vicioso aos olhos do seu inimigo? Para os meus detractores eu sou a própria efígie do vício. À la bonne heure!
Ora, foram os romanos, esses seres tão inocentes, de hábitos tão puros e tão delicada alma, esses mesmos que esmagaram nação atrás de nação e destruíram a alma livre de tantos povos, que foram governados por Messalina, Heliogábalo e outros da mesma estirpe, foram eles que passaram a ideia de que os etruscos são viciosos. Portanto basta! Quandle maitre parle, tout lê monde se tait. Os etruscos eram viciosos! Até mesmo, quem sabe, possivelmente o único povo vicioso à face da terra. Você e eu, caro leitor, nós dois não temos mácula, pois não? Por isso, temos o direito de julgar por nós próprios.
No que me diz respeito, de resto, se os etruscos foram viciosos, tanto melhor. Para os puritanos tudo é impuro, como alguém já afirmou. E esses joviais vizinhos dos romanos, pelo menos, conseguiram evitar ser puritanos.
Mas para os túmulos sigamos então, para os túmulos! Numa solarenga manhã de verão, lá nos dirigimos aos túmulos. Saindo de Roma, a cidade eterna, agora já envolta em fumo escuro. Não foi longa a viagem - cerca de trinta e dois quilómetros pela Campânia em direcção ao mar, no sentido de Pisa.

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A Campânia, com a vasta extensão verde do trigo já crescido, quase volta a ser humana. Embora se vejam também faixas de terreno molhadas e sem nada, pois os pequenos narcisos crescem agora nas pequenas matas ou então ocupam campos inteiros. E há zonas verdes e branco-espuma, cheias de camomila, na manhã solarenga deste princípio de Abril.


Dirigimo-nos a Cervetri, antigamente Caere, ou Cete, e que teve também nome grego, Agylla. Era uma cidade alegre e divertida ao tempo em que Roma apenas começava a erguer os primeiros casebres: é a tese mais provável. Seja como for, agora só restam os túmulos.
O inestimável e volumoso guia ferroviário italiano indica que a estação se chama Paio e que Cervetri dista oito quilómetros e meio: cerca de cinco milhas. Mas há uma camioneta que faz o transbordo.
Chegamos a Paio, uma estação no meio do nada, e perguntamos se há camioneta para Cervetri. Não! Lá fora está uma espécie de carroça muito velha, com um cavalo branco igualmente velho. Para onde vai? Para Ladispoli. Como não é para Ladispoli que queremos ir, ficamos ali a olhar para a paisagem. Não se arranjaria uma carruagem ou coisa que o valesse? Era difícil. Diziam sempre a mesma coisa: difícil! O que significava impossível. E não mexem uma palha para ajudar. Há algum hotel em Cervetri? Não sabem. Nunca ninguém lá esteve, apesar de ficar apenas a oito quilómetros e meio, uns túmulos, sim, parece que há. Bom, se calhar o melhor é deixar os nossos dois sacos na estação. Mas não os querem aceitar. Dizem que não estão fechados. Mas porque haveria um saco destes de ter chave e fechadura? Era difícil! Pois bem, ficam assim, e que os roubem se quiserem. Impossível! É uma responsabilidade moral muito grande! É impossível deixar um saco que não esteja fechado à guarda da estação. Uma grande responsabilidade para os empregados!

Assim sendo, fazemos uma última tentativa junto do homem que está a atender no pequeno bar. É muito lacónico, mas não parece má pessoa. Lá nos deixa pôr as coisas num canto do pequeno e obscuro lugar de comes e bebes e partimos a pé. Felizmente ainda só passa pouco das dez da manhã.


Era uma estrada direita e de terra esbranquiçada, ladeada por imponentes pinheiros de copa arredondada nas primeiras centenas de metros, uma estrada não muito longe do mar, deserta, espalmada e batida pelo sol. Ao longe na distância apenas um carro de bois aos solavancos, como se fosse um enorme caracol com os quatro cornichos no ar. Ao lado da estrada um alto asfódelo deixa cair as suas pintas espasmódicas e cor-de rosa totalmente ao acaso, sente-se um cheiro a gatos. Um pouco mais à frente, à esquerda, por trás do trigo verde e rasteiro, está o mar, o Mediterrâneo a brilhar calmo e indolente, como sempre sucede nas zonas mais baixas. Mais à frente vêem-se uns montes, e entre eles o pequeno fragmento de uma cidade cinzenta, com um edifício enorme e feio, também cinzento: eis Cervetri. Avançamos penosamente ao longo daquela estrada desoladora. Até nem é muito, apenas uns oito quilómetros e mais qualquer coisa.
Continuamos até mais perto e iniciamos a subida. Caere, como a maior parte das cidades etruscas, ficava no cimo de um monte escarpado, de altos rochedos. Não que esta Cervetri seja a mesma cidade etrusca. Caere, a verdadeira cidade etrusca, foi absorvida pelos romanos e, depois da queda do Império Romano, deixou de existir. Mas acabou por renascer timidamente e hoje o que se nos depara, fechada nas suas muralhas empedernidas, não passa de uma velha vila italiana, com algumas casas novas que parecem caixas iguais, todas cor-de-rosa, e moradias no lado de fora da muralha.
Passamos a porta da cidade, onde estão homens na conversa e mulas amarradas e, por entre aquelas ruas sinuosas e cin-

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zentas, vamos à procura de um sítio para comer. Uma tabuleta diz Vini e Cucina, Vinhos e Refeições; mas o que se nos depara é um buraco cavernoso onde os condutores de mulas bebem um vinho quase negro.


Ainda assim, perguntamos ao homem que está na rua a limpar a camioneta se não há outro sítio. Diz-nos que não e por isso não temos outro remédio senão descer uns degraus e penetrar naquele esconso buraco.
As pessoas parecem todas muito afáveis. Mas a comida é a de sempre, guisado de carne, um caldo deslavado com macarrão desfiado lá dentro, tripas, e também espinafres. O guisado não sabe a nada, a carne ainda sabe a menos, os espinafres, ai de nós, foram cozinhados no vapor gorduroso do próprio guisado. Mas sempre era uma refeição - que incluía um bocado de uma coisa a que chamavam queijo de ovelha, tão salgado e rançoso que só podia ser da Sardenha; e um vinho que sabia, e certamente era, aquele vinho escuro da Calábria, acrescentado de uma boa percentagem de água. Mas como refeição até serviu. Assim já podíamos ir ver os túmulos.
Lá dentro, na caverna, pavoneia-se um pastor, de esporas e calças de pele de cabra, com o pêlo em farripas já de um castanho enferrujado a pender-lhe das pernas. Sorri, bebe o seu vinho, e logo nos vem à memória o antigo fauno, com as pernas todas cobertas de pêlos. O seu rosto é o rosto de um fauno, jamais tocado por qualquer moral. Sorri calmamente e fala de forma suave e tímida com o homem que tira o vinho dos barris. Vê-se bem como os faunos são tímidos, muito tímidos, sobretudo na presença de gente moderna como nós. Lança-nos um olhar pelo canto do olho mas logo o desvia, limpa a boca com as costas da mão e sai, as pernas cobertas de peles saltam para cima do esquálido pónei e aí vai ele num redemoinho sob as muralhas a caminho do campo aberto,

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deixando no ar o som suave e harmonioso dos cascos. É o fauno, mais uma vez escapando-se para fora do espaço da cidade, muito mais tímido e evanescente do que qualquer virgem da cristandade. Ninguém consegue decifrar os seus sentimentos.


Ocorre-me agora como raramente se vêem na Itália de hoje desses rostos de fauno que se viam antes da guerra: rostos morenos, de nariz afilado, com um pequeno bigode preto e por vezes uma pequena barbicha preta: olhos desconfiados, muito tímidos por trás de longas pestanas mas capazes, uma vez por outra, de um olhar intenso e atrevido; e lábios que se mexiam muito e tinham esse modo atrevido de deixar ver os dentes, uns dentes sempre resplandecentes e brancos. Eram um tipo humano muito, muito antigo e bastante comum no sul. Mas agora só raramente se vêem desses homens de rosto de fauno, sem mácula e sem inconsciente. Aparentemente, morreram todos na guerra: sabiam que não podiam sobreviver numa guerra assim. O último que conheci, um simpático indivíduo da minha idade - quarenta e poucos anos - tornou-se uma criatura estranha e rabugenta, esmagada entre memórias de guerra constantemente presentes na sua mente e mulheres muito nervosas e sem sombra de remorso. Quando voltar ao Sul, provavelmente já terá desaparecido. Não podem sobreviver, esses homens com rosto de fauno, de perfil tão puro e uma estranha quietude, fora de qualquer moral. Porque só os rostos dilacerados sobrevivem.
E tudo isto a propósito de um pastor de Marema! Saímos dispostos a enfrentar o sol de Abril nas ruas de Cervetri, Cerevetus, a velha Caere. E um pequeno emaranhado de ruas já muito batidas, fechadas no interior de muralhas. Erguendo-se, à esquerda, fica a citadela, a acrópole, a zona alta, a arx da cidade etrusca. Mas agora a zona alta está abandonada, vê-se apenas um edifício grande e agressivo, parecido com qualquer palácio de governador ou

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bispo, ocupando todo o cimo a seguir ao portão do castelo, e um terreiro desolador prolongando-se por trás dele, com uma cerca estragada e a cair aos bocados a toda a volta. Não há palavras que possam descrever o estado de abandono em que se encontra, sente-se ali a morte mas é uma morte que contém uma grandeza muito maior do que a daquele emaranhado de pequenas ruas com gente que está viva.


A rapariga que trabalhava naquele buraco esconso, simpática mas má cozinheira, arranjou-nos um guia, o irmão dela, pois claro, para nos levar à necrópole. É um rapaz dos seus catorze anos e, tal como toda a gente neste lugar ermo, é tímido e desconfiado, do género de manter as distâncias. Pede-nos que esperemos um pouco e parte a correr para fazer qualquer coisa. Por isso, tomamos um café no pequeno café perto do qual a camioneta se mantém todo o dia parada, até o rapaz regressar com um amigo, que também irá connosco e sabe melhor o caminho. Vão os dois no seu próprio pequeno mundo à parte, caminhando à nossa frente um pouco afastados, ignorando-nos na medida do possível. Porque um estrangeiro é sempre uma ameaça. O B. e eu somos de boas maneiras, incapazes de fazer mal a quem quer que seja. Mas ao primeiro rapaz nem lhe passaria pela cabeça ir sozinho connosco. Sozinho nunca! Sentiria medo, aquele medo que se tem do escuro.
Conduziram-nos pela única porta que saía dali até à cidade velha. As mulas e os póneis estavam amarrados lá fora, na ladeira daquele lugar ermo, e mulas de carga iam chegando, tal como se vê no México. Virámos à esquerda, junto ao rochedo no cimo do qual o palácio, ou coisa do género, irrompia subitamente, de janelas escancaradas sobre o mundo. É de crer que tenham sido os etruscos a desbastar toda aquela parte do rochedo, e que toda a coroa onde agora se situa o perímetro da aldeia de Cervetri

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possa ter sido a arx, a arca, citadela interior e lugar sagrado da cidade de Caere, ou Agylla, a magnífica cidade etrusca, com os seus bairros de gregos. Havia, na movimentada Caere, uma colónia estabelecida de gregos da Jónia, ou de Atenas, quando Roma não passava ainda de um lugar quase inóspito. Cerca do ano de 390 a.C. os gauleses atacaram Roma de surpresa. E devido a isso os romanos enviaram as virgens vestais e outras mulheres e crianças para a então cidade rica de Caere, onde foram acolhidas pelos etruscos. É possível que as vestais refugiadas tivessem ficado alojadas neste rochedo. Ou talvez não. Pode não ter sido exactamente esta a localização de Caere. Contudo, sabe-se que ocupava esta mesma encosta, para leste e para sul, à volta do pequeno planalto, numa extensão de sete ou oito quilómetros, e por onde se estendia uma cidade enorme, trinta vezes maior do que a actual Cervetri. Mas acontece que os etruscos construíam tudo em madeira - desde casas a templos -, à excepção das muralhas de fortificação, dos enormes portões, das pontes e de outras obras de drenagem. E, tal como acontece com as flores, as cidades etruscas acabaram por desvanecer-se completamente. Só os montes tumulares, os grandes bolbos de terra, ficavam debaixo do chão. Porque as cidades, os etruscos construíam-nas, sempre que possível, num pequeno planalto não muito largo ou num pequeno monte entre os campos, preferindo como base um rochedo bem firme, tal como em Cervetri. À volta do topo do rochedo e do pequeno monte, passavam as muralhas da cidade, por vezes quilómetros envolvendo todo o perímetro. Dentro das muralhas escolhiam um lugar mais elevado para a citadela, a arx. E no exterior agradava-lhes que houvesse um declive pronunciado ou uma ravina, com outro monte do outro lado. Era nesse outro monte que situavam a sua cidade dos mortos, a necrópole. E assim, do cimo das suas muralhas, sobre esse vale onde o curso



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da água seguia o seu caminho entre os bosques, ali, desde a cidade cheia de vida, com as suas casas coloridas e alegres e os seus templos, podiam contemplar a cidade dos seus queridos mortos, tão perto, tão delicada na calma das suas veredas e símbolos de pedra, nas pinturas dos seus túmulos.


É assim Cervetri. Desde a orla do mar - e o mar, nos tempos etruscos, provavelmente estaria cerca de dois quilómetros mais perto -, a terra deixa a costa e vai subindo em encosta pouco íngreme até ao cimo dos pequenos rochedos da cidade. Mas mais atrás, saindo pela porta da cidade e virando na direcção oposta à do mar, tem de passar-se junto ao pequeno e abrupto rochedo da vila e continuar para baixo, pela rua empedrada até à pequena ravina coberta de bosques.
Mesmo no fim da ravina, a cidade - ou vila, para ser mais preciso - construiu uma lavandaria comunitária, onde as mulheres lavam a roupa branca quase em silêncio. São mulheres muito bonitas, pertencem a um velho mundo, atraem pela quietude e pelo recolhimento que todas as mulheres devem ter tido um dia. Como se, no íntimo de cada mulher, voltasse a haver de novo algo a procurar, algo que não se pode ver a olho nu. Algo que pode estar perdido, mas que também pode nunca vir a ser descoberto.
Junto do cimo, no outro lado da ravina, há uma pequena subida íngreme, com um carreiro definido na rocha, que vai dar a um caminho livre e os dois rapazes começam a trepar decididos, um pouco à nossa frente. Passamos através de uma porta rasgada na rocha. Dou uma espreitadela para dentro daquele buraco húmido e escuro que, aparentemente, terá sido um túmulo. Mas deve ter pertencido a gente de pouca importância, é apenas uma pequena cavidade na rocha, agora já vazia. As grandes sepulturas da Bandittacia têm a cobri-las montes tumulares, os tumuli. Ninguém se demora a ver aquelas pequenas reentrâncias escavadas na

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superfície do rochedo, entre os bosques. E eu trepo também, tento apressar-me atrás dos outros.


Para chegar ao topo e olhar a planície espraiando-se, rude e inculta. Como no México, mas numa escala mais pequena, a planície, extensa e incólume; ao longe, pequenas montanhas em forma de pirâmide alinhavam-se um pouco acima da zona plana, a curta distância; e no meio um pastor, de montada a galope à volta de um rebanho de ovelhas e cabras misturadas, parecendo de tamanho mínimo. Exactamente como no México, mas mais pequeno e mais humano.
Os rapazes seguiam à frente, através da terra bravia, onde havia muitas flores, frágeis verbenas de cor púrpura, frágeis malmequeres e muitas resedas selvagens que exalavam um perfume suave e adocicado. Perguntei aos rapazes como lhes chamavam. Deram a habitual e estúpida resposta: «É uma flor!». Nos pequenos montes que se sucediam na direcção do cimo da ravina os asfódelos cresciam selvagens e largos, com flores altas que me chegavam aos ombros, cor-de-rosa e bastante espasmódicos. Estes asfódelos são bem conhecidos e muito típicos de toda esta zona costeira. Pensei que os rapazes haviam de saber que nome tinham. Mas não! com ar envergonhado, voltaram a dar a mesma resposta: «É un flore! Puzza!» - É uma flor. Cheira mal! - Como ambos os factos eram mais do que evidentes, não havia nada que os pudesse contradizer. Embora o cheiro do asfódelo não seja desagradável, para mim: e acho a flor, agora que a conheço bem, muito bonita, no modo como abre as suas flores esbatidas, enormes, estelares e cor-de-rosa e como deixa muitos dos seus botões fechados, com as suas riscas escuras e avermelhadas.
Muita gente, contudo, fica desapontada quando verifica que os gregos atribuíram tanta importância a esta flor. Verdade seja dita que a palavra «asfódelo» faz pensar mais num lírio grande e

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misterioso do que nesta flor vigorosa e assertiva que espalha à sua volta um leve cheiro a cebola. Mas o suposto mistério dos lírios, a mim, não diz muito, nem mesmo a enigmática timidez dos lírios-mariposa. E tendo eu já estado naqueles montes rochosos da Sicília, entre os asfódelos cor-de-rosa, orgulhosos e altivos, elevando-se no ar como nuvens sobre o mar, maiores do que eu, desprendendo flores pequenas todas diferentes num esplendor impetuoso e fulgurante, ao mesmo tempo que guarda os botões listrados nas suas espigas, devo confessar que admiro a flor. Há nela uma glória altiva, tal como estimavam os gregos.


Houve alguém que afirmou julgar que nos enganamos quando chamamos a esta flor o asfódelo grego, pois algures no grego o asfódelo é chamado amarelo. Por isso, segundo certo escolástico cidadão inglês, o asfódelo dos gregos não seria outro senão o simples narciso.
Nada disso! Há no Etna um asfódelo muito bonito, amarelo e sedoso, puro oiro. E sabe Deus quão comuns são os narcisos selvagens na Grécia. Não parece ser uma flor tipicamente mediterrânica. Uma outra variedade de narciso, o narciso poliante, é puramente mediterrânico, e também grego. Mas não se pode dizer que o narciso comum seja a mesma coisa que o narciso-dos-prados!
De facto, só um inglês, e dos modernos, para querer transformar o asfódelo, flor de porte elevado, orgulhosa, altiva e audaz, num vulgar narciso! Eu acho que nós não gostamos do asfódelo, porque não gostamos de nada que mostre orgulho e altivez. O mirto desabrocha do mesmo modo que o asfódelo, de forma explosiva, lançando dos estames pequenas pétalas cintilantes. Creio que foi o que os gregos viram. Porque também eles eram assim.
Mas isto são cogitações enquanto se vai caminhando na direcção dos túmulos: que estão já ali à nossa frente, uns montes em forma de cogumelo, cobertos de erva, montes enormes que

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lembram cogumelos, ao longo da parte superior da ravina. Quando digo ravina, não se imagine uma coisa tipo Grand Canyon. Apenas uma dessas modestas ribanceiras, muito comuns por toda a Itália, e cujo fundo quase pode atingir-se de um salto.


Quando nos aproximamos, vemos que os montes estão apoiados numa base de alvenaria, com enormes cordões biselados e cinzelados na própria pedra, a toda a volta, tocando o chão em linhas flexíveis e assimétricas, tal como as cordas que prendem as bóias enormes e instáveis, meio submersas no mar. Também eles penetram ligeiramente no chão. E há uma correnteza de montes tumulares, com um caminho um pouco afundado entre os dois lados, paralelo à ravina. Parece evidente que era este o caminho principal da necrópole, tal como no cemitério-dos-milionários em Nova Orleães. Absit omenl
Entre nós e os montes tumulares há uma vedação de arame farpado. E um portão, também de arame, no qual está escrito que não é permitido apanhar flores, seja o que for que isso queira dizer, uma vez que não se vislumbra uma única flor. Um outro aviso diz para não dar gorjeta ao guia, porque o trabalho é gratuito.
Os rapazes correm até à pequena casa de cimento, ali mesmo ao lado, e trazem o guia: um rapaz jovem, de olhos avermelhados e com uma das mãos envolta em ligaduras. Perdeu um dedo no caminho-de-ferro, há um mês. É tímido, fala em voz baixa, não mostra qualquer simpatia ou jovialidade, mas não tem ar de má pessoa. Traz chaves e um candeeiro a gás, e nós atravessamos com ele o portão de arame e entramos para o sítio onde estão os túmulos.
Há uma estranha quietude e uma calma pacífica e invulgar nos lugares etruscos que já visitei, diferente da agressividade latente dos lugares celtas, da alguma repugnância que se sente em Roma e na antiga Campânia, ou do sentimento de profundo horror nos lugares das grandes pirâmides no México, Teotihuacán e Cholula, e Mitla, mais a sul; ou mesmo dos acolhedores lugares de culto de Buda, no Ceilão. Há nesses enormes montes tumulares cobertos de erva, com os seus antigos aros circundantes em pedra, uma quietude e uma suavidade tais que transmitem, à medida que vamos andando ao longo do caminho principal, uma sensação de isolamento e de felicidade. É verdade que era uma manhã calma e solarenga de Abril e que as cotovias levantavam voo da erva macia dos túmulos. Mas irradiava no ar daquele lugar profundo uma tão grande quietude, uma tão grande suavidade, que nos faziam sentir que estar ali era uma coisa boa para a alma.
E a mesma sensação ocorria quando descíamos os poucos degraus e entrávamos nas salas de pedra, já dentro do túmulo. Agora já nada ali existe. É como uma casa que foi esvaziada: os inquilinos partiram e parece aguardar que outros cheguem. Mas seja quem for que ali esteve, deixou no ar um sentimento benfazejo que aquece o coração e apazigua as entranhas.
São surpreendentemente amplas e acolhedoras estas casas dos mortos. Feitas na rocha maciça, parecem-se exactamente como quaisquer outras casas. O tecto tem uma viga central, para imitar as traves-mestras das casas comuns. Sim, é mesmo uma casa, um lar.
Logo à entrada, há duas pequenas salas, uma à direita, outra à esquerda, as antecâmaras. Diz-se que as cinzas dos escravos eram colocadas aqui, em urnas, sobre grandes mesas de pedra. Porque os escravos eram sempre queimados, supõe-se. Mas em Cervetri os grandes senhores eram sepultados de corpo inteiro, por vezes no grande sarcófago de pedra, de outras vezes em grandes caixões de terracota, com os seus melhores bens. Na maior parte das vezes, todavia, ficavam apenas ali colocados, no largo leito de pedra que circunda o túmulo, agora vazio, e aí ficavam a repousar, sobre um ataúde, sem estarem fechados em sarcófagos mas parecendo dormir, como em vida.

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A sala central é a maior; ao meio deve ter havido uma grande coluna em forma de quadrado, aparentemente para suportar um telhado firme, tal como o pau de fieira suporta o telhado de uma casa. E a toda a volta da sala corre um largo leito de pedra, por vezes de duas prateleiras, onde se punham os mortos, nos seus caixões, ou a descoberto em padiolas de pedra ou madeira cinzeladas, um homem resplandecente na sua armadura doirada, uma mulher vestida de branco e carmesim, com colares grandes no pescoço e anéis nos dedos. Aqui ficava toda a família, os grandes chefes e suas mulheres, os lucumones, mais os seus filhos e filhas, todos num único túmulo.


Um pouco mais à frente há um caminho em pedra, muito apertado, estreitando ainda mais à medida que sobe, tal como no Egipto. Tudo, de resto, faz lembrar o Egipto: aqui, porém, tudo é plano, simples, quase sempre sem qualquer decoração e de proporções tão simples e naturais que quase não damos pela beleza das coisas, pois apresentam-se-nos assim naturalmente, fisicamente. É a beleza natural da proporção da consciência fálica, em contraste com a proporção, mais estudada e mais estática, da Consciência mental e espiritual a que estamos habituados.
Através do corredor interior chega-se à última sala, pequena e escura, e a mais importante. Mesmo frente à porta começa o leito de pedra, onde presumivelmente ficava o lucumo e o tesouro sagrado que o acompanhava, o pequeno barco da morte que o levaria para o outro mundo, os vasos de jóias com os seus adornos, os vasos com as pequenas taças, as pequenas estatuetas e utensílios de bronze, as armas, a armadura: a imponente bagagem dos mortos importantes. Por vezes, nesta sala interior, podia também ficar a mulher, a grande dama, com todos os seus mantos, de espelho na mão, e os seus tesouros, jóias, pentes, caixas de prata com cosméticos, em urnas e vasos colocados a seguir uns aos outros. É extraordinária a quantidade enorme de coisas que levavam na viagem para a morte.
Um dos túmulos mais importantes é o túmulo dos Tarquínios, a família que deu reis etruscos à primitiva Roma. Desce-se um pequeno lanço de escadas e entra-se no lar subterrâneo dos Tarchne, como os etruscos escreviam. No meio da sala grande há dois pilares, à esquerda em relação ao rochedo. As paredes da enorme sala de estar dos Tarquínios mortos, se podemos dizer assim, são estucadas, mas não existem quaisquer pinturas. Há apenas uns escritos nas paredes e nos nichos das sepulturas na parede acima do longo leito de prateleira dupla; pequenas frases escritas desordenadamente a tinta vermelha ou preta, ou arranhadas com as unhas no estuque, ao acaso, por vezes de baixo para cima e da direita para a esquerda, sintoma da própria vida etrusca, tão despreocupada e tão cheia de vida. Podemos ler com grande facilidade estas joviais inscrições, que parecem ter sido escritas a giz, com as arcaicas letras etruscas, no dia anterior e sem qualquer intenção especial. Mas quando as lemos não sabemos o que significam. Avie - Tarchnas - Lanhai- Clan. Parece claro. Mas que querem dizer? Ninguém sabe ao certo. Nomes, nomes de famílias, relações de parentesco, títulos de mortos - pode ser tudo isso. «Aule, filho de Larte Tarchna», concluem os especialistas, depois de aturados esforços. Mas a verdade é que não é possível decifrar uma frase completa. A língua etrusca é um autêntico mistério. E contudo, nos tempos de César, era a língua usada no dia a dia da maior parte das populações da Itália central - ou, pelo menos, da sua parte leste. E muitos romanos falavam etrusco, tal como hoje nós falamos francês. Apesar disso, a língua está completamente extinta. O destino é uma coisa estranha.
O túmulo chamado Grotta Bella é interessante devido aos pilares, com baixos-relevos gravados e relevos em estuque, e às



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