Luis fernando verissimo Crônicas Selecionadas da coluna do Estadão



Baixar 2.79 Mb.
Página10/44
Encontro29.07.2016
Tamanho2.79 Mb.
1   ...   6   7   8   9   10   11   12   13   ...   44

Pensando bem, nossa infância era cheia de surrealismo inconsciente, de ameaças e sentenças que só não nos paralisavam de medo ou perplexidade porque não pensávamos muito a respeito. Não me lembro de ficar muito impressionado com a informação de que eu só não perdia a cabeça porque ela estava presa no corpo, por exemplo. Hoje, sim, penso naquela terrível possível conseqüência da minha distração ― ir embora e deixar a cabeça em algum lugar! Ou, já que o cérebro estava na cabeça, pelo menos a maior parte, me dar conta que meu corpo tinha me esquecido. Sem poder gritar, sem poder sequer assoviar, já que os pulmões tinham ido junto. Uma cabeça abandonada no mundo, incapaz de sequer se alimentar.

A não ser, claro, que um aviãozinho surgisse, misteriosamente, do passado, carregado de papinha, para me salvar.

Pulseira dourada Mais lembranças inúteis. Tinha eu meus 7 anos... Se você quiser parar por aqui, tudo bem. Não, não, nenhum constrangimento. Vá ler o resto do jornal, aqui você só estaria perdendo tempo. O que é isso? Eu entendo. Numa boa. Eu mesmo só fico porque preciso botar o ponto final. Mas tinha eu meus 7 anos e morávamos em Los Angeles. Meu pai lecionava na Ucla, eu e minha irmã freqüentávamos uma escola perto de casa. E me apaixonei por uma menina da escola. Uma daquelas paixões dos 7 anos, terrível e, no meu caso, secreta e silenciosa. Os donos da casa que alugávamos tinham deixado uma bijuteria mal escondida atrás de uns livros, numa prateleira da sala. Uma pulseira dourada dentro de uma caixa. Um dia, tomei a decisão. Meu amor justificava tudo, até o crime. Peguei a pulseira e a levei, escondida, para a escola. Na saída, entreguei a caixa para a menina ― e saí correndo.

Em casa nunca deram falta da pulseira. A menina nunca disse nada sobre o presente. Eu, obviamente, nunca mencionei o fato para ninguém, muito menos para a menina ― com quem, aliás, nunca troquei nem um tímido "hello". A história termina aqui. Eu avisei que você ia perder tempo. Mas às vezes penso naquela pulseira e imagino coisas. Chegar, um dia, nos Estados Unidos e alguém da imigração americana consultar um computador e dizer "Há a questão de uma certa pulseira dourada na Califórnia, Mr. Verissimo..." Estar assistindo à entrevista de alguma atriz famosa na TV e ela contar que um dia, quando tinha 7 anos, um garoto estranho lhe entregara uma pulseira e saíra correndo, e mostrar a pulseira dourada, que lhe dera sorte, que era responsável pelo seu sucesso, e que ela nunca pudera agradecer... Pelo menos minha vida de crimes acabou ali.

Post-scriptum tipo nada a ver com nada. Muitos anos depois visitei o bairro em que morávamos em Los Angeles e fui procurar a escola, palco do meu gesto tresloucado. Tinha sido destruída por um terremoto.

Mudança ― As seis colunas semanais que publico no Estadão vão ser reduzidas para duas: esta, aos domingos, e uma que sairá às quintas-feiras. A mudança é a meu pedido, por nenhuma outra razão além da mais antiga que existe, a vontade de trabalhar menos. Esta seção continuará igual. Não adianta protestar, continuará.

Banalidades, banalidades


Acho que devemos todos nos dedicar seriamente à banalidade. O mundo não tem jeito mesmo, deixa o mundo para lá. Não se preocupe em se distrair e ficar desinformado: quando o mundo chegar ao fim, com um estrondo ou uma inalação, nós saberemos. Fique descansado, ele não acaba sem você. Às banalidades, portanto.

Por exemplo: para onde vão os seios à mostra quando saem das passarelas?

Espera um pouquinho. Deixa eu reformular a pergunta. Em todos os desfiles de moda pelo menos metade das modelos mostra roupas transparentes em que os seios aparecem. Mas é raro encontrar alguém na, digamos, vida civil usando as mesmas roupas, ou roupas com a mesma transparência. Os seios não aparecem na mesma proporção, quando as roupas saem das passarelas para a realidade.

Ou eu é que ando freqüentando a realidade errada?

Pode-se argumentar que os desfiles são representações de um ideal impossível de ser reproduzido no cotidiano. Num desfile de modas todas as mulheres são lindas, altas e magras. São, por assim dizer, mulheres destiladas, ou a mulher como ela sonha ser ― e andar, e brilhar, e vestir roupas caras. Desta maneira os seios à mostra nos desfiles também seriam idealizações. Só seriam seios reais se viessem junto com o vestido, e a mulher, usando sua transparência, automaticamente ficasse com seios de manequim.

Pessimamente comparando, as manequins são como aqueles desenhos nos cartões à sua frente nas poltronas dos aviões, de pessoas ajustando o colete salva-vidas, colocando as máscaras de oxigênio, assumindo a posição adequada para o caso de queda do avião, atirando-se pelo tobogã para sair do avião acidentado ― enfim, em situações de emergência. E ninguém tem cara de quem está numa situação de emergência. Não estão exatamente sorrindo, mas suas expressão é de quem enfrenta emergências com naturalidade, até com um certa indiferença. São o tipo de pessoas que seguiriam as instruções de respirar normalmente depois de colocar as máscaras de oxigênio ― coisa que você e eu nunca faríamos. As manequins são assim. Desfilam como se ser magnífica, com seios magníficos, fosse uma coisa comum. Na vida real, poucas mulheres podem usar uma roupa cara como a roupa cara merece, como manequins. Na vida real, ninguém respira normalmente durante uma emergência.

Banalidades, banalidades. Nada mais invejável, hoje em dia, do que não estar nem aí. E a forma mais enternecedora de desinformação é a conclusão errada.

Como a daquela senhora hipotética que ouviu contarem que as companhias de aviação estavam pensando em eliminar as facas nas suas refeições de bordo e achou que já não era sem tempo. Aplaudiu a medida, pois sempre fora da opinião que a maior ameaça à segurança dos vôos era servirem carne ― muitas vezes carne dura, sabe como é comida de avião ― e provocarem guerras de cotoveladas entre as pessoas tentando cortá-la sem espaço, e que cedo ou tarde resultaria num conflito de proporções no interior da aeronave. O fim das facas significava que daqui por diante só serviriam comida pré-cortada, ou que se pode cortar com o garfo. Bravo.

― Não, não, Edimilda. É por causa dos terroristas.

― Que terroristas?!

Também tem o caso daquele antropólogo amador que desenvolveu a tese de que já existiram seres com três braços, deduzindo isso dos poucos vestígios deixados pela raça desaparecida sobre a Terra, como o chuveirinho para se segurar com a mão, com o qual ninguém com apenas duas mãos consegue tomar banho; o coquetel, no qual, com uma mão segurando uma bebida e a outra um canapé, usava-se a terceira para cumprimentos ou coceiras extemporâneas, e... Está bem, chega. Mas me agradeça pela banalidade. Conseguimos chegar até aqui sem falar uma só vez em antraz.


Banalidades

Acho que devemos todos nos dedicar seriamente à banalidade. O mundo não tem jeito mesmo, deixa o mundo para lá. Não se preocupe em se distrair, ficar desinformado e ser esquecido: quando o mundo chegar ao fim, com um estrondo ou uma inalação, você saberá. Fique descansado, o mundo não acaba sem você.

Às banalidades, portanto.

Por exemplo: para onde vão os seios à mostra quando saem das passarelas?

Espera um pouquinho. Deixa eu reformular a pergunta. Em todos os desfiles de moda pelo menos metade das modelos mostra roupas transparentes em que os seios aparecem. Mas é raro encontrar alguém na, digamos, vida civil, usando as mesmas roupas, ou roupas com a mesma transparência. Os seios não aparecem na mesma proporção, quando as roupas saem das passarelas para a realidade.

Ou eu é que ando freqüentando a realidade errada?

Pode-se argumentar que os desfiles são representações de um ideal impossível de ser reproduzido no cotidiano. Num desfile de modas todas as mulheres são lindas, altas e magras. São, por assim dizer, mulheres destiladas, ou a mulher como ela sonha ser ― e andar, e brilhar, e vestir roupas caras. Desta maneira, os seios à mostra nos desfiles também seriam idealizações. Só seriam seios reais se viessem junto com o vestido, e a mulher, usando sua transparência, automaticamente ficasse com seios de manequim.

Pessimamente comparando, as manequins são como aqueles desenhos nos cartões à sua frente nas poltronas dos aviões, de pessoas ajustando o colete salva-vidas, colocando as máscaras de oxigênio, assumindo a posição adequada para o caso de queda do avião, atirando-se pelo tobogã para sair do avião acidentado ― enfim, em situações de emergência. E nenhuma das pessoas tem cara de quem está numa situação de emergência. Não estão exatamente sorrindo, mas suas expressão é de quem enfrenta emergências com naturalidade, até com uma certa indiferença. São o tipo de pessoas que seguiriam as instruções de respirar normalmente depois de colocar as máscaras de oxigênio ― coisa que você e eu nunca faríamos. As manequins são assim. Desfilam como se ser magnífica, com seios magníficos, fosse uma coisa comum. Na vida real, poucas mulheres podem usar uma roupa cara com a cara que a roupa cara merece, como fazem as manequins. Na vida real, ninguém respira normalmente durante uma emergência.

Banalidades, banalidades. Nada mais invejável, hoje em dia, do que não estar nem aí. E a forma mais enternecedora de desinformação é a conclusão errada.

Como a daquela senhora hipotética que ouviu contarem que as companhias de aviação estavam pensando em eliminar as facas nas suas refeições de bordo e achou que já não era sem tempo. Aplaudiu a medida, pois sempre fôra da opinião que a maior ameaça à segurança dos vôos era servirem carne ― muitas vezes carne dura, sabe como é comida de avião ― e provocarem guerras de cotoveladas entre as pessoas tentando cortá-la sem espaço, e que cedo ou tarde resultaria num conflito de proporções no interior da aeronave. O fim das facas significava que daqui por diante só serviriam comida pré-cortada, ou que se pode cortar com o garfo. Bravo.

― Não, não, Edimilda. É por causa dos terroristas.

― QUE TERRORISTAS?!

Também tem o caso daquele antropólogo amador que desenvolveu a tese de que já existiram seres com três braços, deduzindo isso dos poucos vestígios deixados pela raça desaparecida sobre a Terra, como o chuveirinho para se segurar com a mão, com o qual ninguém com apenas duas mãos consegue tomar banho; o coquetel, no qual, com uma mão segurando uma bebida e a outra um canapé, usava-se a terceira para cumprimentos ou coceiras extemporâneas, e... Está bem, chega. Mas me agradeça pela banalidade. Conseguimos chegar até aqui sem falar uma só vez em Iraque, Bin Laden, armas químicas ou o terrível, etc.

Beijinho, beijinho


Na festa dos 34 anos da Clarinha o seu marido, Amaro, fez um discurso muito aplaudido. Declarou que não trocava a sua Clarinha por duas de 17, sabiam por que? Porque a Clarinha era duas de 17.Tinha a vivacidade, o frescor e, deduzia-se, o fervor sexual somado de duas adolescentes.

No carro, depois da festa, o Marinho comentou:

― Bonito, o discurso do Amaro.

― Não dou dois meses para eles se separarem ― disse a Nair.

― O quê?

― Marido, quando começa a elogiar muito a mulher...

Nair deixou no ar todas as implicações da duplicidade masculina.

― Mas eles parecem cada vez mais apaixonados ― protestou Marinho.

― Exatamente. Apaixonados demais. Lembra o que eu disse quando a Janice e o Pedrão começaram a andar de mãos dadas?

― É mesmo...

― Vinte anos de casados e de repente começam a andar de mãos dadas? Como namorados? Ali tinha coisa.

― É mesmo...

― E não deu outra. Divórcio e litigioso.

― Você tem razão.

― E o Mário com a coitada da Marli? De uma hora para outra? Beijinho, beijinho, "mulher formidável" e descobriram que ele estava de caso com a gerente da loja dela.

― Você acha, então, que o Amaro tem outra?

― Ou outras.

Nem duas de 17 estavam fora de cogitação.

― Acho que você tem razão, Nair. Nenhum homem faz uma declaração daquelas assim, sem outros motivos.

― Eu sei que tenho razão.

― Você tem sempre razão, Nair.

― Sempre, não sei.

― Sempre. Você é inteligente, sensata, perspicaz e invariavelmente acerta na mosca. Você é uma mulher formidável, Nair.

Durante algum tempo, só se ouviu, dentro do carro, o chiado dos pneus no asfalto. Aí Nair perguntou:

― Quem é ela, Marinho?

Besouro maldito


Preciso dizer que não sucumbirei ao telefone celular. O bom de se chegar a uma certa idade é que você pode dizer "nunca" com convicção, confiante de que não beberá mesmo dessa água ― não por firmeza de caráter, mas por falta de tempo. Não tenho e nunca terei um telefone celular. Quando preciso usar um, uso o da Lúcia. Mas segurando-o como se fosse um grande inseto, possivelmente venenoso, desconhecido da minha tribo.

Para começar, eu não saberia escolher a musiquinha que o identifica. Aquela que, quando toca, a pessoa diz "É o meu!", e passa à tarefa frenética de localizar, desdobrar e ligar o celular, não ouvir nada, dizer "alô?" várias vezes, apertar botões errados, sacudir o desgraçado, desistir e desligar, depois fazer tudo de novo quando a musiquinha toca outra vez.

Não sei, a gente escolhe a musiquinha quando compra o celular?

― Tem aí um Beethoven?

― Não. Mas temos as quatro estações do Vivaldi.

― Manda a primavera.

Porque a musiquinha do seu celular também identifica você. Há uma enorme diferença entre uma pessoa cujo celular toca, digamos, Take Five e uma cujo celular toca Wagner. Você muitas vezes só sabe com quem realmente está quando ouve o seu celular tocar, e o som do seu celular diz mais a seu respeito do que você imagina. Se bem que, na minha experiência, a maioria das pessoas escolhe músicas galopantes ― como a introdução da Cavalleria Rusticana ou a ouverture do Guilherme Tell ― apenas para já colocá-la no adequado espírito de urgência, ou pânico controlado, que o celular exige.

Sei que alguns celulares ronronam e vibram, discretamente, em vez de desandarem a chamar seus donos com música. Infelizmente, os donos nem sempre mostram a mesma discrição. Não é raro você ser obrigado a ouvir alguém tratando de detalhes da sua intimidade ou dos furúnculos da Djalmira a céu aberto, por assim dizer. É como o que nos fazem os fumantes, só que em vez do nosso espaço aéreo ser invadido por fumaça indesejada, é invadido pela vida alheia. Que também pode ser tóxica.

Não dá para negar que o celular é útil, mas no caso a própria utilidade é angustiante. Estávamos num barco subindo o Rio Negro quando o celular da Lúcia tocou. Era alguém de Porto Alegre, um assunto menor, ou desproporcional à grandeza da paisagem. Quem chamara, provavelmente de outro celular, não tinha a menor idéia de onde nós estávamos, nem que sua voz também estava subindo o Rio Negro. O celular reduziu as pessoas a apenas extremos opostos de uma conexão, a pontos soltos no ar, sem contato com o chão. Onde você se encontra tornou-se irrelevante, o que significa que em breve ninguém mais vai se encontrar, e a palavra “incomunicável” perderam o sentido. Estar longe de qualquer telefone não é mais um sonho realizável de sossego e privacidade ― o telefone foi atrás. A tecnologia que permitiu que a voz chegasse de um besouro eletrônico em Porto Alegre a um besouro eletrônico no meio do Rio Negro também é angustiante. Eu conheço o princípio que a torna possível, o que não quer dizer que o aceite com tranqüilidade.

Chega o momento em que cada nova perplexidade é uma afronta pessoal, ainda mais para quem ainda tem dificuldade em entender a torneira.

Estarei entre os últimos resistentes. Ouvi dizer que o celular destrói o cérebro aos poucos. Nos vejo ― os que não sucumbiram ― como os únicos sãos num mundo imbecilizado pelo microondas de ouvido, com os quais as pessoas trocarão grunhidos pré-históricos, incapazes de um raciocínio ou de uma frase completa, mas ainda conectados. Seremos poucos, mas nos manteremos unidos, e trocaremos informações, usando sinais de fumaça.

Brindes
Marcos e Nádia, Paulo e Andréa. Jantar na casa de Marcos e Nádia para comemorar a reconciliação de Paulo e Andréa. Os quatro na sala, depois do cafezinho. Marcos e Paulo conhaque, Nádia e Andréa licor. Marcos: ― E então? Paulo e Andréa coxa a coxa no sofá. Mãos dadas. Paulo, rindo: ― Então o quê? ― Tudo na mais perfeita? Paulo mostra as mãos dos dois entrelaçadas. ― Olha só. Andréa: ― Não largo mais desta mão. Em seguida larga, para ajeitar o cabelo. ― E vocês? ― pergunta Andréa. Marcos e Nádia se entreolham. ― Nós? ― diz Nádia. ― Muito bem. Maravilha. ― Como a gente briga por coisa pequena, não é mesmo? ― diz Paulo. ― O que um diz ou deixa de dizer. Bobagens. E o importante é isto aqui. Mostrando a mão. ― A aliança? ― Não, a pele. O importante é a pele. Uma pele contra a outra. Se é bom é porque é certo. Marcos propõe: ― Um brinde à pele. ― À pele. ― À pele. ― À pele. Nádia: ― Em nome das mulheres aqui presentes, proponho um brinde aos homens. ― Principalmente aos peludos ― diz Andréa. Uma referência à quantidade de pêlos que cobrem o corpo de Paulo. ― Aos pêlos ― reforça Nádia. ― Aos pêlos. ― Aos pêlos. ― Aos pêlos. É a vez de Paulo propor o brinde. ― Às mulheres, principalmente às nossas. Marcos acrescenta: ― Às suas calcinhas penduradas no banheiro. ― Às calcinhas. ― Às calcinhas. Nádia não brinda às próprias calcinhas. Propõe uma alternativa. ― Aos homens que não jogam nenhum papel fora. Marcos propõe outro. ― À tolerância. Às mulheres que aceitam seus maridos como eles são. Nádia: ― A todas as mulheres do mundo que precisam encontrar espaço para guardar os papéis que seus maridos não jogam fora. Paulo tenta mudar o rumo dos brindes e sugere: ― Ao amor. Mas Nádia não se contém. ― Anúncio de telepizza. Vocês acreditam? Anúncio de telepizza. ― O quê? ― Esse volantes que distribuem na rua. Ele não consegue jogar fora. ― Não é bem assim... ― tenta defender-se Marcos. ― E eu que encontre lugar para guardar. Marcos contra-ataca: ― E a minha coleção da Placar? Desde o primeiro número. Você jogou no lixo. ― Porque precisava do espaço no armário! Pra pendurar roupa! ― Para as suas calcinhas eu sei que não era. Essas você pendura no banheiro. Nádia ergue o copo de licor ainda mais. ― Às mulheres de maníacos de todo o mundo. Marcos: ― Aos maníacos incompreendidos! Paulo bate na perna de Andréa. ― Está na hora de ir dormir. Depois, na cama, Paulo comenta com Andréa: ― Acho que com o Marcos e a Nádia, ó... Está faltando isto. Pele. Ele alisa com a mão a parte carnuda do braço de Andréa. ― Sei não ― diz Andréa. ― Anúncio de telepizza... ― Qual é o problema? ― Francamente, Paulo. ― Não. Qual é o problema?


Empregos
― Este parece bom. Tem que ter boa aparência. ― Eu tenho. ― Curso secundário completo. ― Eu tenho. ― Noções de inglês. ― Ai réf. ― O quê? ― Ai réf. "Eu tenho", em inglês. ― É "ai rév". ― Eles não querem noção de inglês? Noção eu tenho. ― Acho que eles querem mais do que "ai réf". ― Que mania de inglês, também. O emprego é nos Estados Unidos? ― Não. ― Pois então. ― Aqui tem outro. Deve ter curso de informática. ― Qualquer imbecil pode manejar um computador. ― Experiência em gerenciar escritório. ― Qualquer imbecil gerencia um escritório. ― Não serve qualquer imbecil. ― Hein? ― Está escrito aqui. "Não serve qualquer imbecil." ― Vê outro. ― "Trabalhe próximo à direção." ― É esse. Senti que é esse. ― "Esteja preparado para viajar muito e conhecer pessoas." ― Sou eu escrito. Precisa de inglês? ― Não. De carteira de motorista. ― Carteira de motorista? ― É táxi. ― Táxi... Não deixa de ser um trabalho interessante. Vou ter autonomia.

Tomar minhas próprias decisões. Viro à esquerda? Viro à direita? Atravesso no amarelo? ― Olha este aqui. “Cargo de alta responsabilidade. Diploma de Harvard bem-vindo, mas não essencial. Dá-se preferência a poliglota com conhecimento de finanças internacionais. Deve estar disposto a morar em Genebra. ― Nunca! Diz que Genebra é uma chatice. Vê outro”.

Borboletas


Criminologistas são o contrário de lepidopterologistas. Enquanto estes sonham em viver em lugares onde há muitas borboletas, aqueles sonham em viver em lugares onde os crimes são raros e eles podem exercer sua profissão com ciência e vagar. Um criminologista brasileiro deve se sentir como um lepidopterologista sepultado por borboletas, milhares de borboletas, tantas que não lhe permitem pegar sua rede e sua lupa, tantas que a apreciação fica impossível. Um criminologista no Brasil, onde a banalização do crime transforma a investigação técnica e a detecção em exercícios reincidentes de frustração, deve sonhar com a proverbial cidadezinha inglesa, onde assassinam uma velhinha de dez em dez anos. Em muitos casos, uma lepidopterologista. E ele pode colher pistas e impressões digitais, examinar os botões e o fumo de cachimbo deixados na cena do crime com instrumentos adequados, interrogar suspeitos e concluir pela culpa do vigário, com toda a calma.

No prototípico policial inglês o crime é apenas uma perturbação passageira na vida de uma comunidade onde, passado o choque ― quem diria, o vigário! ―, tudo volta à normalidade. Nos policiais americanos o crime é sempre um indício de uma perturbação mais funda, a ponta de uma engrenagem corrupta, de uma responsabilidade difusa, e a sua solução sempre desmonta algum sistema de poder por trás da loira com a arma. Dizem que a idéia de classes não viajou bem da Inglaterra para a sua principal colônia. No fim viajou, mas nunca se estruturou com a mesma solidez. Com a mesma presunção de inocência.

Sir Arthur Conan Doyle era espírita e fascinado por todas as formas de ocultismo. Mas criou o cético arquetipal, o detetive racional que nunca ― que eu saiba ― aceitou uma explicação sobrenatural para um caso, mesmo quando esta parecia ser a única explicação possível. Pode-se imaginar Sherlock Holmes contratado por algum amigo preocupado com a crescente crendice de Conan Doyle ― talvez o próprio doutor Watson ― para salvá-lo do ridículo e da exploração por charlatões. Sherlock Holmes solucionando O Caso da Médium Rumena, mostrando para Conan Doyle que o que ele acreditava ser a materialização de almas do além não passava de um engenhoso método de projeção de imagens na fumaça e...

― Não ― diz o escritor, interrompendo Holmes.

― Como "não", sir Arthur? ― pergunta Holmes, surpreso...

― Desta vez você errou.

― Eu nunca erro.

― Desta vez errou. Pela primeira vez em sua vida, você deixa de resolver um caso a contento. Não há projetor. Não há fumaça. Eram mesmo almas do além, me instruindo a doar 50 mil libras para madame Codescu criar o seu Instituto do Mundo Paralelo.

― Meu caro sr. Arthur, aqui está o projetor, ainda quente...

― Não interessa. Eram almas do além, falando comigo.

― Isso é ridículo. Pense um pouco. Como é que coisas que não existem poderiam aparecer; poderiam falar com o senhor?

― Você não está falando? E você não existe. Você é uma invenção minha. É um ser imaginário.

― Isso é diferente. Eu...

― Desapareça, Holmes.

Há muitos casos de escritores que criam versões românticas de si mesmos, para agirem na ficção com a liberdade e a irresponsabilidade que eles não têm. Personagens que podem se entregar a fantasias, enquanto seu criador cuida de manter o controle e a sensatez. Conan Doyle fez o contrário. Criou a sua versão sensata em Sherlock Holmes, um mestre da dedução lógica que não fazia qualquer concessão à metafísica, enquanto ele se entregava às especulações mais alucinadas e acreditava até em fadas. Mais interessante do que um encontro do autor com a sua criatura seria um encontro de um psicanalista com o autor. Um homem que, por trás de um exterior perfeitamente doido, escondia um racional reprimido.

Não sei se o aparecimento do detetive puramente dedutivo, o que não sai da sua cadeira e soluciona o caso sem ver uma pista ou falar com um suspeito, só ouvindo o relato do crime, coincidiu com a popularização da psicanálise, mas o seu modelo, talvez inconsciente, é o psicanalista. Ele também chega à verdade escondida ouvindo um relato, distinguindo o significativo do irrelevante, interpretando enigmas e mensagens cifradas. Toda análise ― no fim toda a literatura ― é uma investigação, uma exploração dos vãos sombrios e estratagemas da mente, de desejos e álibis e dos sortilégios da memória. Se no fim da exploração está um crime, é uma história policial. Se está uma culpa, é uma análise bem-sucedida. Se sobra apenas um mistério indesvendável, é a história de todo o mundo.




Compartilhe com seus amigos:
1   ...   6   7   8   9   10   11   12   13   ...   44


©principo.org 2019
enviar mensagem

    Página principal