Luis fernando verissimo Crônicas Selecionadas da coluna do Estadão



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Civilização, para um detetive brasileiro, é a velhinha morta na hora do chá. Na cena da última chacina sangrenta, obviamente ligada ao tráfico, que ele precisa investigar sabendo que não vai dar em nada, ele fecha os olhos e pensa na cena do crime inglês. As pistas intactas, os botões localizados, as impressões digitais recolhidas, o fumo de cachimbo mandado para o laboratório. Tudo pronto para ele começar seu trabalho, que concluirá com a constatação científica de que o vigário matou a velhinha depois de uma discussão sobre borboletas. Ele abre os olhos e vê que o sangue cobre seus sapatos.

Brasil e Costa Rica


Ficou combinado que o grupo se reuniria na casa do Edson para assistir Brasil e Costa Rica. Sem as mulheres, claro. Elas tinham sido companheiras às seis da manhã contra a Turquia, tinham sido companheiras às 8 e meia da manhã contra a China, mas solidariedade às 3 e meia da manhã era pedir demais. As mulheres ficariam em casa, dormindo, enquanto os homens assistiam Brasil e Costa Rica na casa do Edson. E o Gilson aproveitou. Pela primeira vez em dez anos ― na verdade pela primeira vez desde o caso com a Regininha, se é que aquilo podia ser chamado de caso ― o Gilson não resistiu. O álibi estava pronto, e era perfeito. A Luiza não desconfiaria. E afinal, dez anos de fidelidade mereciam um prêmio. Mereciam, pelo menos, uma folga. Gilson não foi à casa do Edson ver Brasil e Costa Rica.
* * *
Quando Gilson entrou no quarto, às 6 da manhã, a Luiza acordou. E disse:

― Que coisa, hein?

― O quê?

― O jogo.

Gilson gelou. O que teria acontecido no jogo? Ele não sabia de nada. Saíra diretamente do motel para casa. No motel, nem pensara em ligar a televisão. Ou ligara, mas para verem Tara no Internato no circuito interno. O que acontecera? Várias possibilidades catastróficas passaram pela sua cabeça. O Brasil perdeu para a Costa Rica. O Brasil foi goleado pela Costa Rica. Pior, o Brasil foi goleado e alguém se machucou. Alguém foi expulso. Meio time foi expulso. O Felipão mordeu o juiz. O estádio desmoronou. O que acontecera, meu Deus? Decidiu ganhar tempo.

― Você viu o jogo?

― Vi. Perdi o sono e acabei vendo. Que coisa, né?
* * *
Gilson disse "Mrlm" e entrou no banheiro. "Mrlm" tanto poderia significar "É" como nada. O importante era não se comprometer. E se fosse um truque? E se fosse um teste? Se ele dissesse "É", estaria reconhecendo que algo acontecera, e obrigado a comentar o acontecido. E então ela daria o bote. Não aconteceu nada. Ou se aconteceu, eu não vi. E nem você, seu cretino! Onde você estava na hora do jogo? Onde você estava? Hein? Hein? O melhor era se trancar no banheiro, e demorar. Com sorte, quando saísse do banheiro ela estaria dormindo outra vez. Ele precisava de tempo. Precisava pensar. Precisava se organizar.
* * *
Trancado no banheiro, não conseguia pensar em nada. Só que precisava se organizar. Digamos que tenha acontecido mesmo uma catástrofe. Posso improvisar. Concordar que foi um horror e deixar ela falar, para descobrir o que foi. Fingir que ainda estou abalado pelo acontecido e prefiro não tocar no assunto. Mas é um risco. Se na verdade não aconteceu nada, eu estarei me denunciando. Mas se aconteceu e eu não vi, é pior! Calma. Preciso de calma. Frieza. Raciocínio. O que pode ter acontecido no jogo para merecer a frase "Que coisa, né?" Pode ter sido apenas um mau jogo. Mais difícil do que o esperado, só isso. Não tenho razão para me apavorar. Ou tenho? Ela nunca me perdoou pela Regininha.
* * *
O celular! Claro! Por que não pensei nisso antes? Estou com o meu celular. Ligo para o Edson e pergunto o que aconteceu no jogo. Não, o Edson não. Não tenho tanta intimidade assim com ele. Não para acordá-lo às 6 da manhã. O Rubinho. O Rubinho é amigão. Amigo de se acordar a qualquer hora, numa emergência. É esta é uma emergência. Meu casamento pode estar ameaçado. Minha vida pode estar ameaçada. O Rubinho. Qual é o número do telefone do Rubinho? Sei de cor mas esqueci. É o nervosismo, tenho que me controlar. Me lembrei! Rubinho, amigão. Me salva!

― Alô?


Meu Deus. Acordei a mulher do Rubinho.
* * *
― Oi, Neidinha. Acordei você?

― Claro que acordou, não é, Gilson?

― Desculpe. É que eu... O Rubinho pode atender?

― O Rubinho não está com você?

Ai, ai, ai.

― Ele não está aí?

― Na cama, não. Pelo menos na nossa cama, não. Ele me disse que vocês iriam tomar café da manhã juntos e ele chegaria mais tarde. Pronto. O Rubinho também aproveitou Brasil e Costa Rica para fazer programa.

― É. Nós estávamos juntos até há pouco. Pensei que ele já tivesse chegado em casa.

― Algum problema, Gilson?

― Não, não. Nada. Nada. O Rubinho deve chegar aí a qualquer momento.

― Como foi o jogo?

― Mrlb.


― O quê?

― Nada. Vai dormir, Neidinha.


* * *
― Algum problema, Gilson?

Agora era a Luiza, batendo na porta do banheiro.

― Não, não. Nada. Nada. Já vou sair.

O Edson. O jeito era telefonar para o Edson. Se já não eram tão amigos, ficariam menos com um telefonema àquela hora. Mas não havia outro jeito. Como era mesmo o número do Edson?

― Alô?

― Alô, Edson? Gilson. Desculpe eu estar...



― Sim senhor hein? Belos amigos vocês são. Eu preparo tudo, compro bebidas, faço sanduíches, e não me aparece ninguém.

― Ninguém?!

― Ninguém. Vi o jogo sozinho.

― Puxa. Mas Edson, falando nisso, o que aconteceu no...

― Ó Gilson, quer saber de uma coisa? Vai a merda.

E Edson desliga o telefone.


* * *
Bom, pensa Gilson. Pelo menos eu sei que não fui só eu. Todos aproveitaram o álibi do jogo. O Rubinho, o Alci, o Careca, o Pena. Cambada de safados. Agora só o que eu tenho que fazer é esperar um pouco e ligar para todos. Para combinarmos uma história em comum. Meu único problema é explicar à Luiza por que eu não saio do banheiro.

― Gilson, qual é o problema?

― Nada, não. Uma dorzinha de barriga. Deve ter sido os sanduíches do Edson.

Buddha Bar


Conseguiram me levar ao Buddha Bar. Me convenceram que eu não podia deixar de ir ao Buddha Bar. Que eu seria apontado na rua como o homem que, estando em Paris com meios e noites livres, não foi ao Buddha Bar. Mães me usariam como exemplo, para os filhos, de negligência turística e preconceito, e dos males do desânimo social. Eu não poderia dizer que tinha conhecido o mundo e passado pelo milênio sem uma visita, pelo menos uma, ao Buddha Bar. Devia aquilo à minha biografia. Fomos ao Buddha Bar.

Antes de mais nada, minha relutância não era preconceito. Ao contrário, meu conceito de lugares da moda se formou depois de conhecer alguns. Os lugares da moda costumam estar cheios de pessoas que querem ver quem está lá e tiram o lugar de quem estaria lá para ser visto. O serviço geralmente é ruim e a comida, se existir, é só passatempo. E se o lugar está na moda é porque já passou da moda. Isto é, as pessoas que o transformaram em moda já pararam de ir. E você não pode dizer como a maravilhada Charity no filme de Bob Fosse, depois de olhar em volta num restaurante de Nova York, "Eu sou a única pessoa aqui de quem eu nunca ouvi falar!"

As celebridades visíveis do Buddha Bar naquela noite estavam à nossa mesa, a Danuza e o Xeréo. O lugar é bonito e bom e o único problema com o serviço é a dificuldade em distinguir as moças e os rapazes que servem da clientela. Você pode acabar pedindo outra mineral para um herdeiro ou um modelo que passa ― todos são magros, pálidos e de preto. Parece ser só restaurante, mas é possível que depois da meia-noite arredem o grande Buda que domina o salão e dancem. E não é que a comida é boa? Gostei do Buddha Bar. Mas tomaram minha aprovação como uma conversão e já estavam me incluindo numa ida a um lugar chamado Blue Elephant. Tive de reagir. O Elefante Azul não. Todo homem precisa definir os limites do que fará, as fronteiras do que se permite. O Elefante Azul é o meu limite.

Mas fomos, a Lúcia e eu, ao Batalclan. A causa era nobre, ver e ouvir o Herbie Hancock. Na fila de espera para entrar eu já comecei a ficar preocupado. Ao cruzarmos a porta do Bataclan certamente soaria uma sirene, alguém começaria a gritar "Sexagenário! Sexagenário!" e eu seria barrado por excesso de idade. Mas entramos com os moços e encontramos o Ruy Carlos Ostermann, que tinha chegado mais cedo. O que foi bom, porque o Ruy aumentava a média de idade do lugar. O Bataclan é um antigo teatro ou cinema do qual retiraram as cadeiras da platéia. Você pode escolher entre ficar de pé na frente do palco ou subir e sentar no balcão. Conseguimos sentar. O Ruy preferiu ficar na platéia, e desapareceu. Herbie Hancock demorou a chegar. Esperamos fumando, contra a nossa vontade. Como todos à nossa volta no balcão fumavam, como todo mundo na França fuma, devemos ter liquidado, involuntariamente, várias carteiras antes e durante o show. A fumaça subia da platéia como se ela tivesse acabado de ser bombardeada. Não me pergunte como está o Herbie Hancock. Mal consegui vê-lo, através da fumaça. Só o que eu via eram as fagulhas dos cigarros chegando à forração. E quem consegue ouvir alguma coisa pensando sem parar nas conseqüências de um incêndio? Eu só imaginava o seguinte: vão encontrar meus ossos no meio das cinzas, observar que são de uma pessoa muito mais velha do que todos os outros e se perguntar o que eu estaria fazendo ali. Além de tudo, não vão entender os meus ossos!


Casal
O irmão da noiva foi encarregado de fazer o vídeo do casamento e apareceu no altar com um negro grande chamado Rosca para segurar as luzes. O irmão e o Rosca passaram todo o tempo circundando o casal e o padre, com o irmão sinalizando onde queria as luzes e o Rosca tirando padrinhos e madrinhas do caminho, subindo em nichos do altar e se agarrando em santos para se colocar, e a certa altura da cerimônia batendo no ombro do padre e pedindo "Quédalicença?" porque o padre estava fazendo sombra.

Na fila dos cumprimentos a Maria Alice, com quem o noivo quase se casara, se aproximava, com seus seios portentosos. Mais de uma amiga, depois de beijar a noiva, avisou: "Viu quem está na fila?" e a noiva firme, só pensando "Cadela". Quando Maria Alice e seu decote chegaram na frente do noivo ele, de olho no decote, perguntou "Como vão vocês?" e depois não pode se corrigir porque a Maria Alice estava abraçando-o e beijando-o e desejando toda a felicidade do mundo, viu? De coração. E para a noiva: você também, querida.

Na recepção, depois, a mãe da noiva dançou com o noivo, o pai do noivo dançou com a noiva, a mãe do noivo dançou com o pai da noiva, a nova mulher do pai da noiva dançou com o namorado da mãe do noivo, a terceira mulher do pai do noivo dançou com o Rosca e o padrasto da noiva, felizmente, estava com um problema na perna.

― Você, quando viu a Maria Alice, não...

― Não!


― Jura?

― Juro.


― Porque com todo aquele enchimento...

― Enchimento? Você acha?

― Pelo amor de Deus! Plástica!

― Sei não...

Ele ia dizer que conhecia os seios da Maria Alice pessoalmente, que botava as mãos no fogo pelo... Mas ela tinha começado a chorar.

― Bitutinha! O que é isso?

― Não sei...

― Chorando por causa dos seios postiços da Maria Alice, Bitutinha?!

― É insegurança, entende?

Quarta ou quinta noite da lua-de-mel. Bom como nunca tinha sido antes, nem no namoro. A janela aberta, um único grilo prendendo a noite lá longe, como um preguinho de som, e os dois suados e abraçados na cama do hotel-fazenda.

Tão apertado que um parecia querer atravessar o outro, porque não sabiam o que dizer, não sabiam o que era aquilo, aquele se gostar tanto. Bom de doer, bom de assustar. E ele pensando: vai dar certo, vai ser sempre assim, nós vamos ser sempre assim, a felicidade é esta coisa meio muda e desesperada que a gente não quer que acabe, ela vai ser minha mulher para sempre e vai ser bom, eu não precisava ter me preocupado tanto só porque ela pediu para tocarem Feelings no casamento.

Depois da inauguração do apartamento ele ouviu ela chorando no banheiro, foi ver e ela tinha se emocionado vendo as escovas de dentes deles, lado a lado.

Era bobagem, ela sabia, mas não tinha podido se controlar. Naquela noite foi no chão do banheiro mesmo, ele e a sua Bitutinha.

― Só dá a Maria Alice!

No teipe do casamento, era mesmo a Maria Alice, no seu vestido vermelho, quem mais aparecia. Mais, até, do que a noiva. O irmão tentou se explicar.

― O vermelho atrai a câmera.

E prometeu um parecer científico que comprovava o fenômeno.

― Lembra do Rosca pedindo para o padre se afastar porque estava atrapalhando a filmagem?

― Parece que faz tanto tempo, né?

― Bom. Brincando, brincando, lá se vão...

Brincando, brincando, lá se tinham ido dois anos. Depois foram mais cinco, depois mais três...

― Você se dá conta que nós estamos casados há 12 anos?

Doze anos já se passaram!

E ele, distraído:

― Essas coisas, quando começam, não param.

― Como é que você me chamava?

― Eu?

― É. Você tinha um apelido pra mim. Na cama. Lembra?



― Tem certeza que era eu?

― Burungunga. Não, Burungunga não. Tutuzinha? Não...

― Pokémon?

― Não, nem existia, na época. Era alguma coisa como... Xurububa.

― Duvido.

E um dia ele leu no jornal que a Maria Alice faria uma palestra sobre Psicologia Motivacional. Tinha fotografia da doutora Maria Alice: óculos, papada, busto matronal. O tempo pensou ele, é isso, o que transforma os seios da Maria Alice em busto matronal. A destruição de impérios e civilizações é só efeito colateral, e não nos diz respeito.


Choque cultural


Todos ficaram preocupados quando o Márcio e a Bete começaram a namorar, porque cedo ou tarde haveria um choque cultural. Márcio era louco por futebol, Bete só sabia que futebol se jogava com os pés, ou aquilo era basquete? Avisaram a Bete que para acompanhar o Márcio era preciso acompanhar a sua paixão, e ela disse que não esquentassem, iria todos os dias com o Márcio ao Beira-Mar, se ele quisesse.

― Beira-Rio, Bete...

Naquele domingo mesmo, Bete estava com Márcio no Beira-Rio, pronta para torcer ao seu lado, e quase provocou uma síncope em Márcio quando tirou o casaco do abrigo.

― O que é isso?!

Estava com a camiseta do Grêmio, em marcante contraste com o vermelho que Márcio e todos à sua volta vestiam. Desculpou-se. Disse que pensara que se pudesse escolher uma camiseta que combinasse com a roupa e...

― Está bem, está bem ― interrompeu o Márcio. ― Agora veste o casaco outra vez.

― Certo ― disse Bete, obedecendo. E em seguida gritou "Inter!", depois virou-se para o Márcio e disse: ― O nosso é o Inter, não é?

― É, é.


― Inter! Olha, eu acho que foi gol!

― O jogo ainda não começou. Os times estão entrando em campo.


Bete agarrou-se ao braço de Márcio.

― Você vai me explicar tudo, não vai? Gol de longe também vale três pontos?

― Não. Vale dois. O que que eu estou dizendo? Vale um.

Mas Bete não estava mais ouvindo. Estava acompanhando um movimento no gramado com cara de incompreensão.

― Pensei que em futebol se levasse a bola com o pé.

― É com o pé.

― Mas aquele lá está levando embaixo do braço.

Márcio explicou que aquele era o juiz e estava levando a bola embaixo do braço para o centro do campo, onde iniciaria o jogo. Não, os outros dois não estavam ali para evitar que tirassem a bola das mãos do juiz, como no futebol americano. Eles eram os auxiliares do juiz. O que os auxiliares faziam?

― Bom, quando um dos auxiliares levanta a bandeira, o juiz dá impedimento.

― E o que o auxiliar faz com o impedimento?

Márcio suspirou. Foi o primeiro dos 117 suspiros que daria até o namoro acabar duas semanas depois. Explicou:

― Os auxiliares sinalizam para o juiz que um jogador está em impedimento, isto é, está em posição irregular, impedido de jogar, e o juiz apita.

― Meu Deus!

Márcio olhou para Bete. O que fora?

― O juiz apita?! ― perguntou Bete, com os olhos arregalados.

― É, o juiz sopra um apito. Aquilo que ele tem pendurado no pescoço é um apito.

― Ah.

Bete sentiu-se aliviada. Por alguns instantes, a idéia de um homem que apitava, sabia-se lá por que mecanismo insólito, quando lhe acenavam uma bandeira, parecia sintetizar toda a estranheza daquele ambiente em que se metera, por amor. Ele não apitava. Soprava um apito. Era diferente.



Mas Bete notou, pela cara do Márcio quando ela disse "Ah", que estava tudo acabado.


Coisas que não existem mais

Cigarreira, por exemplo. Não existe mais. Nunca fumei, mas lembro que acompanhava, fascinado, o ritual dos fumantes que traziam seus cigarros naqueles estojos de metal, dourados ou prateados. Só havia cigarreiras para homens. Mulher fumando era uma raridade, e fumando em público um escândalo, mas mesmo que fumassem como homens as cigarreiras não eram para elas. Eram coisas sólidas, másculas, coisas para trazer no bolso interno do paletó, como uma arma ou um documento importante, inimagináveis entre as frivolidades de uma bolsa feminina. Oferecer o cigarro de uma cigarreira a uma mulher era um ato, ao mesmo tempo, de compreensão (não a condeno por fumar, mas entendo que você não pode andar com cigarros na bolsa), de sedução (sim, sou um homem de cigarreira, e você sabe o que isso significa) e de cumplicidade (estou lhe abrindo um dos meus recessos, você está se servindo da minha intimidade, talvez até lendo a inscrição no interior, mas é só um vislumbre, o máximo permitido a alguém do seu gênero). E depois da cigarreira fechada com um estalo, o isqueiro tirado de outro bolso e oferecido aceso, numa rápida coreografia solícita, pois um homem de cigarreira geralmente também era um homem de isqueiro infalível. Parte do ritual era bater com a ponta do cigarro na superfície da cigarreira. Para o fumo baixar e encher a extremidade do cigarro, que sempre ficava meio vazia, era isso? Por alguma razão, sempre achei o gesto de bater com a ponta do cigarro o gesto definidor de gente grande. Você seria adulto quando batesse com a ponta de um cigarro antes de levá-lo a boca, e se batesse o cigarro na tampa de uma cigarreira prateada ou dourada, seria um adulto especial. Eu treinava para esse dia batendo com a ponta de cigarros de chocolate. Lembra cigarro de chocolate? Mas nunca fiz a transição do chocolate para o fumo.

Talvez já prevendo que os cigarros me fariam mal (naquele tempo ninguém ainda concluíra que sugar fumaça não podia fazer bem), talvez porque não tivesse muito entusiasmo em ser adulto.

Rede de cabelo para homem. Também não existe mais. Usavam para dormir e para jogar futebol. Você vê as fotografias de times de futebol daquele tempo e sempre tem uns três ou quatro com uma rede ― ou meia ― na cabeça, para manter os cabelos no lugar. Que tempo era esse? Acho que até o fim dos anos 50 homem ainda usava rede na cama e no campo. Hoje, no campo se não na cama, a cabeça raspada substituiu a rede e a escolha é entre cabelos esvoaçantes ou cabelo nenhum. Não há qualquer relação conhecida entre o uso da rede de cabelo e o tipo de futebol que se jogava então e não se joga mais. E que fim levou chapéu de mulher com véu? Se ainda existe eu não tenho visto. Os chapéus vinham com véus que cobriam o rosto da mulher. A cobertura era apenas simbólica, pois os véus eram diáfanos e o rosto da mulher ficava reconhecível, mas o que simbolizava a falsa máscara? Talvez a moda viesse do fim da era vitoriana e fosse uma espécie de antídoto para o inevitável relaxamento de costumes que já começara: a mulher estava a meio caminho entre repressão e a liberação mas ainda obrigada a simular recato, e a não ser identificada na rua. No véu estava implícito o anonimato, e a distância.

Atrás do seu véu a mulher continuava sendo um ser enclausurado, olhando o mundo ― simbolicamente ― através de treliças conventuais, não importa o que estivesse fazendo por baixo da mesa. Já que para proteger do sol é que não era. Naquele tempo levantar o véu de uma mulher para beijá-la equivaleria a um descerramento, a uma cortina de primeiro ato, mesmo que ela estivesse vestindo só o chapéu. Os véus davam um ar de mistério lúbrico às mulheres. O que jamais se poderia dizer das redes de cabelo para homens.

E mata-borrão? Já devemos estar na segunda geração humana que não sabe o que é mata-borrão. Que nunca viu um mata-borrão, salvo em filme de época. Como explicar o prático objeto em forma de semicírculo com uma maçaneta em cima se, além de tudo, ele tinha um nome errado, um nome que desvirtuava sua função? Em vez de matar, o mata-borrão previnia o borrão, era um evita-borrão, portanto um difamado pelo próprio nome. A pronta aplicação da superfície porosa do papel do mata-borrão que absorvia o excesso de tinta molhada impedia que a tinta se espalhasse, ou fosse acidentalmente borrada e... Enfim, é um pouco difícil de explicar para quem não sabe nem o que é tinta molhada.

Não existem mais cigarreiras ou cigarros de chocolate, nem jogadores de futebol com rede de cabelo ou mulheres com véus e os mata-borrões não encontraram outra função no mundo ― ao contrário, por exemplo, dos tinteiros, que dão bons vasinhos, ou dos dinossauros, que foram para o cinema ― e o tempo continua fazendo das suas, passando desse jeito. Agora só falta eu ficar adulto de repente.


Conhecer o Aurelinho

Eles viajaram no mesmo avião, lado a lado. Não se falaram. Nem se tocaram, fora uma leve cotovelada, involuntária, na hora de cortar o bife.

― Desculpe.

― Tudo bem.

Só. Nem mais uma palavra. Ela olhando para a frente o tempo todo, ele olhando pela janelinha, espiando a revista de bordo, tentando dormir. Ela pensando no que a esperava, o enterro da tia Chica, pobre da tia Chica, o encontro com os primos que mal conhecia, a chateação. Tinha boas recordações da tia Chica, única irmã do seu pai, mas não a via há muitos anos. Se obrigara a ir ao enterro em memória do pai. Pobre da tia Chica. Papai a adorava. Mas ia ser uma chateação. Como era mesmo o nome dos primos? Tinha um Saul. Sabia que tinha um Saul. Mas, e os outros?

Também ficaram juntos na fila do táxi, sem se falarem. Ele tinha mais ou menos a sua idade. Quarenta e tantos, cinqüenta. Uma boa cara, apesar da expressão triste. Por que será que nem me olha? Eu não estou tão acabada assim. Ou estou? Preciso dar um jeito nesta cara. Botox não, Deus me livre.

Mas preciso dar um jeito. Na minha cara, na minha vida, na...

― Pegue esse você.

― Mas você está na minha frente.

― Não, tudo bem. Eu pego o outro.

― Obrigada.

O primo Saul a abraçou e a chamou de Cris. Agradeceu por ela ter vindo. A mãe falava muito nela. Sempre dizia, é uma pena vocês não conviverem mais com a prima Cristina, com a filha do Paulo. É uma pessoa adorável. Desde pequeninha, uma menina adorável. Ela ia gostar muito de saber que você veio, Cris, disse Saul. Ninguém a chamava de Cris. O Saul era gordo e estava com os olhos vermelhos. Levou-a para cumprimentar o resto da família. Ela estava no meio de um círculo de primos lacrimejantes, tentando lembrar seus nomes, quando viu o homem entrar. Seu vizinho do avião. Ele também sorriu ao reconhecê-la.

― Coincidência.

― Pois é.

― Você é...

― Cristina, sobrinha da tia Chica.

― Cristina?!

Ela estranhou. Por que aquela surpresa? O rosto dele parecia ter se inundado de prazer.

― Eu sou o Aurélio. Aurelinho. A sua tia Chica vivia...

Claro! A tia Chica vivia dizendo que eles precisavam se conhecer. Aquilo até virara uma brincadeira na família. A Cristina e o Aurelinho da dona Marta eram feitos um para o outro, segundo a tia Chica. Só precisavam se conhecer.

Mas nunca se encontravam, por mais que a tia Chica tentasse aproximá-los. O pai de Cristina repreendia a irmã: "Não tente fazer o papel do destino, Chica. Um dia eles vão se encontrar." E o encontro nunca se dera. Quando a Cristina vinha passar as férias no Sul, o Aurelinho estava na praia. Na vez em que o Aurélio, já homem feito, fora ao Rio com ordens da tia Chica para procurar a Cristina, alguma coisa acontecera. Uma inundação ou uma revolução. Não tinham se encontrado. Anos depois, quando o Paulo se queixava para irmã que a filha não se acertava com ninguém, a tia Chica setenciava:




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