Luis fernando verissimo Crônicas Selecionadas da coluna do Estadão



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"É porque ela não conheceu o Aurelinho." Conhecer o Aurelinho se transformara num adágio familiar, significando acertar a vida. E agora ali estava ele. O Aurelinho da dona Marta, em pessoa, radiante no meio do velório por ter finalmente encontrado a Cristina do seu Paulo.

― Você também mora no Rio.

― É.


― A sua mãe, a dona Marta...

― Faleceu.

― Mmm.

Não conversaram muito mais do que isso durante o velório, e se perderam um do outro depois do enterro. Mas descobriram que estavam no mesmo hotel ― e em quartos contíguos! Naquela noite, eram as únicas duas pessoas no bar do hotel, e no dia seguinte as únicas duas no café da manhã. Trocaram reminiscências da tia Chica, riram bastante, ele contou que também não era casado e que nunca se acertara com ninguém. Foram para o aeroporto no mesmo táxi, mas só quando se viram outra vez sentados lado a lado no mesmo vôo foi que Cristina perguntou:



― Você não acha tudo isso coincidência demais, não?

― Você quer dizer que...

― Que a tia Chica pode estar orquestrando tudo.

― Lá de cima?

― Sei lá. Ela pode estar, finalmente, em posição de determinar o nosso destino. E está puxando as cordinhas.

― Será?


Quando chegaram ao Rio, marcaram um jantar num restaurante para aquela noite mesmo. Coincidência ou não, o fato era que o encontro tão desejado pela tia Chica finalmente acontecera. Mas quando entrou no seu apartamento e olhou em volta, as suas coisas desorganizadas como ela queria, aquele cenário de resignação confortável e boa solidão, tudo que ela teria que desalojar para acomodar o destino, Cristina pensou: não vou. Desculpe, Aurelinho, mas não vou. E pensou: boa tentativa, tia Chica. Mas tarde demais.


Conselho de mãe

Conselhos que mães dão para filhas antes do casamento fazem parte do folclore de todos os povos. Variam de cultura para cultura e mudam com o tempo, pois o que uma filha de antigamente ouvia da mãe, quando havia pelo menos uma presunção de virgindade, era muito diferente do que ouve hoje.

Como não há mais nada a ser ensinado sobre as surpresas e as artimanhas de uma noite de núpcias ― a não ser o que a filha pode ensinar à mãe ― os conselhos devem tratar de aspectos práticos da vida em comum com um homem.

Ou com um marido, que é o homem no cativeiro, portanto ainda mais perigoso.

Por exemplo.

É importantíssimo estabelecer, desde o primeiro minuto de um casamento, os perímetros de poder de cada um.

― Importantíssimo, minha filha. Escute.

― Estou escutando, mamãe.

― Acabou a lua-de-mel. É o primeiro dia do casamento real. Deste momento em diante vocês não são mais apenas duas pessoas apaixonadas. São coabitantes.

― Certo, mamãe.

― Entende? Coabitantes. Vão ocupar o mesmo espaço e o espaço que define a relação entre as pessoas. Não é a cama. A cama é um espaço para tréguas, negociações, troca de prisioneiros, etc. O verdadeiro espaço em que se decide um relacionamento é fora da cama. É tudo que não é cama. Você está me ouvindo?

― Estou, mamãe.

― Muito bem. É o primeiro dia normal de vocês. O primeiro em que vocês passarão mais tempo fora da cama do que na cama. O dia em que começará a se delinear a rotina do seu casamento, as regras implícitas da sua coabitação.

Você precisa deixar claro o seu perímetro de poder, desde o primeiro momento. Como um bicho marcando, com a urina, os limites do seu território.

― Ai, mamãe!

― O assunto é sério, minha filha. O sucesso ou o fracasso de um casamento dependem deste primeiro momento. Estamos falando da possibilidade do convívio humano. Talvez até da sobrevivência da espécie. Preste atenção.

― Estou prestando.

― Primeiro dia normal. Você precisa definir o seu espaço. Cravar a sua bandeira antes que ele crave a dele. O que você faz?

― Ahn... Ocupo todo o armário do banheiro com as minhas coisas.

― Não.


― Exijo uma linha de telefone só pra mim.

― Não.


― O que, então?

― O controle remoto.

― O controle remoto?!

― Da televisão. Apodere-se dele. É o seu alvo prioritário. Sua primeira ação. Sua cabeça de ponte. Quem domina o controle remoto da televisão, domina o casamento.

― Mas se ele quiser...

― Não deixe. Você está me ouvindo? Defenda a sua posse do controle remoto a qualquer custo. Ceda em outras coisas, ofereça compensações. Mas não largue o controle remoto.

― E se eu tiver que sair e...

― Leve o controle remoto. Durma com ele embaixo do travesseiro, ou acorrentado ao seu pulso. Use-o pendurado no pescoço.

― Como é que eu vou andar com um controle remoto de televisão pendurado no pescoço, mamãe?

― Você quer elegância ou um casamento que dê certo? E quem sabe? Você pode lançar uma moda.

― Não sei...

― Minha filha, ouça o que eu digo. Não faça o que eu fiz. Deixei que seu pai assumisse o controle remoto desde o primeiro dia, e ele nunca mais largou.

Minha vida tem sido um inferno. Sabe por quê? Porque minha mãe não me avisou. Ela era do tempo em que essas coisas nem eram discutidas. Deus me livre, falar sobre controle remoto com o meu pai. Ele era capaz de me expulsar de casa.

― Pensando bem, o papai não larga mesmo o controle.

― Seu pai não viu mais de cinco segundos de nenhum programa nos últimos dez anos. Até dormindo ele muda de canal, o dedão não pára. Só posso acompanhar minhas novelas em segmentos de cinco segundos, de cinco em cinco minutos.

Confundo tudo. Na outra noite, achei que a Jade estava de caso com um macaco do Discovery Channel.

― Acho que você tem razão, mamãe...

― Pegue o controle remoto, minha filha!

Meses depois:

― Minha filha, eu não queria lhe contar isso, mas seu marido foi visto saindo de um motel ontem à noite.

― Eu sei, mamãe.

― Você sabe?!

― Ele vai sempre que tem futebol. Para ver na televisão.

― Ah, bom. E o controle remoto, minha filha?

― Pendurado no pescoço. E sabe que muitas das minhas amigas estão usando também?


Contos de começo de verão

Pobre da Rosimara O Jailton anunciou seu casamento com a Rosimara dizendo que iam "juntar as suas tripas". Os que não conheciam bem o Jailton ainda tentaram corrigi-lo.

Não era "tripas", era "trapos". Os que conheciam bem o Jailton apenas suspiraram e pensaram "Pobre da Rosimara". O Jailton só ria.

Ahn?


Um veleiro encalhou numa praia do Rio Grande do Sul e foi aquela sensação.

Juntou gente para assistir ao resgate. De onde vinha o veleiro? Teria alguém a bordo? Tinha só um homem dormindo abraçado a uma garrafa de conhaque, e foi impossível acordá-lo. O barco cheio de autoridades, imprensa, etc. e o homem dormindo. Olharam os papéis e os mapas, deduziram que o barco era finlandês, e o homem dormindo. Roncando. Tiraram o homem do barco e o levaram para o hospital mais próximo, que ficava longe. Uma caravana de veículos. Autoridades, imprensa, etc. A Kombi em que viajava o homem capotou e o homem foi expelido e caiu dentro de um chiqueiro. Abriu os olhos, olhou em volta, viu os porcos, viu o fotógrafos... Um dos repórteres depois contaria que nunca tinha ouvido as frases clássicas "Onde estou? O que aconteceu?" ditas com tanta sinceridade.

O vestido O Carlos chegou em casa com a grande novidade, o Pércio, sim, o Pércio, seu patrão, viria jantar na casa deles. E disse "Olha, Má. Faz aquele teu arroz e usa aquele teu vestido."

― Qual? ― perguntou sua mulher, Marina.

― Aquele com ervilha e...

― Não, qual vestido?

― O preto com o decote.

― Carlinhos, você não...

― O Pércio gostou de você. Me falou: sua mulher, hein? E comentou o vestido.

― Quando?

― Depois da festa na empresa. E olha, ele disse que tem uma coisa importante pra falar comigo. Só pode ser promoção. Só pode.

― Carlinhos...

― Usa o vestido preto.

― Mas não é vestido pra usar em casa!

― Marina. Eu estou te pedindo muito? Não precisa seduzir o cara, pô. Eu ia te pedir isso? Só usa o vestido preto que ele gostou.

Na noite do jantar, Pércio chegou sozinho. Carlos perguntou:

― Ué, e a patroa?

― Não pode vir. E o nosso assunto... Eu achei que ela, sabe como é. O Carlos sabia como era. Sua mulher, Marina, também não gostava quando o assunto era negócios. Na mesa, não falaram em negócios. Até que o Pércio, depois de elogiar o arroz da Marina, beber o que sobrara de vinho no seu copo e também elogiar o vinho, disse que tinha uma coisa muito importante para tratar com o Carlos.

― Aliás ― disse, olhando para Marina ― nós dois temos uma coisa importante para lhe dizer, não é Marina? Mas Marina não disse nada enquanto Pércio contava ao Carlos que tinha se apaixonado pela sua mulher na primeira vez em que a vira, na festa da firma, que não conseguia tirá-la do seu pensamento, que a procurara, que ela a princípio resistira mas acabara cedendo, que eles se amavam, que ele pretendia se separar da mulher para ficar com Marina e que os dois esperavam que ele, sendo uma pessoa civilizada, aceitasse a situação.

Carlos ficou mudo. Depois de um longo silêncio, Marina falou:

― Trago a sobremesa?

Depois que Pércio se foi, Carlos esbravejava:

― Tinha que usar esse vestido na festa? Tinha?

A volta Quando Lucas voltou para casa, sua mãe disse que seu quarto estava exatamente como ele o deixara. Ela não tocara em nada. Vinte anos, e não tocara em nada, esperando a sua volta. Lucas foi olhar seu velho quarto, emocionado, e encontrou um homem com um piercing no canto da boca dormindo na sua cama. Depois a mãe disse que o homem se chamava Rocão.

― Mas ele não mexe em nada, meu filho!

Constrangimento Quando abriram a casa da praia descobriram que ela estava ocupada por um casal de pingüins. Que continua lá.

― Mas como? Vocês não botaram os pingüins pra fora?

― Não conseguimos ― disse a mulher. ― Eles são tão formais...

― E ainda por cima ― disse o marido, compungido ― são argentinos.

Autocontrole Estava lendo um livro policial nas férias passadas mas não conseguira terminar, e nestas férias encontrou o livro com o lugar em que parara marcado. Retomou a leitura de onde a interrompera. E tem tido que se controlar para não espiar e ver como o livro começa.




Contos de reis

Os baixos instintos Houve o rei Felisberto II, num daqueles anos com três dígitos, tão antigamente que os historiadores não precisavam estudar o passado, que na época quase não existia. Tomavam nota na hora. Felisberto II era chamado de O Interrompido, pois devido a um problema na sua concepção, parece que com uma crise de soluços do seu pai (Felisberto I) na hora da ejaculação, ele nascera em duas partes: primeiro a parte de cima e alguns minutos depois, quando a rainha já se resignara a ser mãe de meio filho, a parte de baixo.

Pelo resto da sua vida seria assim: as partes separadas do rei levando vidas separadas. A parte de cima ia na frente, carregada por criados, e a parte de baixo ia atrás, sempre atrasada, ainda mais porque tinha dificuldade em vestir as calças, sem braços. A parte de baixo não tinha criados, nem ajudantes de qualquer espécie, virava-se sozinha. Porque a parte, assim, nobre do rei era a parte de cima, onde ficava a cabeça e o coração, ou o centro de decisões, e os braços e as mãos, que assinavam, e abençoavam, e distribuíam, e comandavam e afagavam, enquanto a parte de baixo só podia dar pontapés. O rei era a parte de cima, a outra parte era apenas sua complementação, uma espécie de abono, supérfluo como todos os abonos. Só o que a parte de baixo tinha era mobilidade e baixos instintos, e o que são a mobilidade e os baixos instintos comparados com a inteligência, a generosidade e a virtude num homem? A parte de cima do rei era superior em todos os sentidos.

As duas parte de Felisberto II, o Interrompido, só se uniam em solenidades do reino, quando então a parte de baixo era obrigada a se controlar, e não sair sapateando pelo salão como gostaria porque não agüentava o tédio, e a ficar firme sob a parte de cima enquanto este dirigia a solenidade, e cumprimentava dignitários visitantes, e fazia discursos e tomava decisões, e reinava com sabedoria e serenidade. Não foram poucas as vezes em que a parte de baixo teve que fazer um esforço para não chutar um dignitário, ou dar um pum no meio da solenidade, só para chatear, pois preferia estar sendo supérfluo em outro lugar, fazendo outra coisa, em vez de ali, simulando a integridade de um rei. E no futuro os historiadores lembrariam do rei Felisberto II como um grande rei, sereno e sábio, e estranhariam que ninguém da sua imensa prole ― cento e dezessete príncipes, cada um de uma mãe diferente e cada um pior do que outro ― tivesse herdado o seu valor, ou continuado o seu reino. Pois haviam todos puxado a sua parte inferior, que, além dos baixos instintos, tinha muito mais mobilidade. Significando que somos todos filhos da parte de baixo, a parte de cima é que é uma espécie de abono.

O leão Samul foi buscar a neta na escola, como fazia todos os dias, e na volta pararam na sorveteria do Giacomo, como faziam todos os dias. Ela tomou um sorvete, ele aproveitou para conversar com o Giacomo, o Mario, o Luigi e seus outros amigos da sorveteria. Samul e Giacomo torciam pelo Roma, Mario e Luigi pelo Lazio, a conversa deles era sempre a mesma, gritavam, insultavam-se e riam muito. Samul gostava daquela rotina diária. Depois chegaria em casa, ajudaria a neta com a lição, ligaria a televisão, tomaria a sua sopa na frente da televisão, mais tarde sua filha o acordaria e o mandaria para cama. Mas naquele dia foi diferente. Quando ele e a neta chegaram em casa havia uma multidão de repórteres na frente do prédio.

Botaram microfones na sua cara, perguntaram se ele já sabia. Sabia o quê? O governo revolucionário da sua terra fora derrubado, o povo exigia a sua volta, as potências ocidentais queriam a sua volta, ele era a solução para unir todas as facções revoltadas na sua terra e manter o equilíbrio geopolítico da região, ele tinha que voltar para o trono. Depois de dez anos de exílio, o rei precisava voltar e reinar outra vez. Dentro da casa, sua filha estava eufórica. Finalmente, justiça! Eles deixariam aquela vidinha medíocre de classe média e voltariam para o Palácio de Marfim e seus mil empregados. Seriam, de novo, adulados, e temidos e invejados. Era para aquele dia sonhado que ela tinha guardado a túnica majestosa do pai, feita de lã estriada com ouro. Era vestindo a túnica dos seus antepassados que Samul, o Leão, receberia a imprensa internacional, e revelaria seus planos para a restauração. Quando a filha foi buscar a túnica, Samul viu que a neta lhe fazia um sinal da porta da cozinha. Vem! A neta o puxou pela mão e ele não resistiu. Saíram os dois de mãos dadas pelos fundos do prédio, sem serem vistos. Talvez o Sr. Sandro, da farmácia, com quem Samul jogava xadrez todas as quintas, poderia escondê-los em casa até que passasse aquela onda.

Engano Por uma dessas confusões diplomáticas, o Rei da Pamonha de Piripoga, São Paulo, foi convidado para a coroação de um rei europeu ― e foi. Na chegada do Rei da Pamonha de Piripoga e da mulher, Arides e Lucialva, no castelo onde se realizaria a cerimônia houve uma certa confusão, de que família real eles eram, mesmo? Pamonha de Piripoga não constava em nenhum almanaque de monarquias. Mas eles tinham o convite e entraram, e a Lucialva até chegou a falar rapidamente com a rainha Elizabeth da Inglaterra ("Good, good", referindo-se a um canapé que ambas comiam) e a certa altura o Arides foi visto confidenciando a um duque francês que o cerimonial se enganara, ele não era um rei de verdade, que "Rei da Pamonha" era só um slogan publicitário, como o "Rei da Surdina", também de Piripoga, e que no Brasil rei, rei mesmo, só havia um: o Roberto Carlos.

Contos de verão


A mulher voltou para casa mais cedo do que o previsto e encontrou o marido só de cuecas, segurando uma motosserra, enquanto na cozinha uma loira vestida apenas com um dólmã do Exército russo fritava pastéis e no sofá da sala um baixinho de barba ruiva, também nu, brigava por um acordeão com um animal que podia ou não ser um urso de calcinha, sutiã e chapéu de bombeiro na cabeça e no chão, aparentemente morto, estava um homem com toda a indumentária do corpo de bombeiros, menos o chapéu.

― O que é isso?! ― gritou a mulher.

Depois de um instante de choque e silêncio, o homem suspirou, deixou-se cair numa poltrona e disse:

― É uma história comprida...

Pronomes Antes de apresentar o Carlinhos para a turma, Carolina pediu:

― Me faz um favor?

― O quê?

― Você não vai ficar chateado?

― O que é?

― Não fala tão certo.

― Como assim?

― Você fala certo demais. Fica meio esquisito.

― Por quê?

― É que a turma repara. Sei lá, parece...

― Soberba?

― Olha aí, "soberba". Se você falar "soberba" ninguém vai saber o que é. Não fala "soberba". Nem "todavia". Nem "outrossim". E cuidado com os pronomes.

― Os pronomes? Não posso usá-los corretamente?

― Está vendo? Usar eles. Usar eles!

O Carlinhos ficou tão chateado que, junto com a turma, não falou nem certo nem errado. Não falou nada. Até comentaram:

― Ó Carol, teu namorado é mudo?

Ele ia dizer "Não, é que, falando, sentir-me-ia vexado", mas se conteve a tempo. Depois, quando estavam sozinhos, a Carolina agradeceu, com aquela voz que ele gostava.

― Comigo você pode botar os pronomes onde quiser, Carlinhos.

Aquela voz de cobertura de caramelo.

Esquerda X Direita Meio de brincadeira, decidiram que o futebol na praia seria entre esquerda e direita. Brota, o mais indiscutivelmente PT do grupo, escolheria um lado, Renê, reacionário assumido, o outro. No terceiro escolhido do René já deu problema. O Martins apontou para o próprio peito e disse:

― Eu?

― Você ― confirmou Renê.



― E desde quando eu jogo no teu time, Renê?

― Vai dizer, agora, que é de esquerda?

― Toda a vida.

― Ó Martins? Eu te conheço do tempo da faculdade.

― Pois então? Se você me conhece sabe qual é a minha posição.

― Sei. Quero você pra jogar na direita.

― No seu time eu não jogo.

Ficou um clima ruim e o Renê decidiu escolher outro.

Apontou para o Melchiades, que também se rebelou.

― Essa não, Renê!

― Que foi?

― Eu de direita?

― E não é? Eu ainda me lembro de você...

Mas o Melchíades estava com as mãos espalmadas na frente do peito, pedindo para ele parar.

― Não me vem com passado, não me vem com passado.

― Você pode jogar na meia-esquerda.

― No time da direita eu não jogo.

René perdeu a paciência.

― Será possível que ninguém é de direita neste país?

― Eu sou ― disse o Alemão, que se chamava Bruno Almiro.

René suspirou. Sabia que o Alemão tinha até retrato do Hitler em casa. Mas o Alemão era muito ruim de bola. O Alemão, apesar de baixinho, só sabia dar pau.

― Desisto ― disse o Renê.

Voltaram para o casados x solteiros, depois que os casados aceitaram que o gordo Paixão fosse para a zaga dos solteiros, já que o que havia entre ele e a Vanusa não podia mais ser chamado de casamento.

Infelizes ― Como vocês me acharam?

― Perguntamos quem era o homem mais infeliz da cidade. Você ganhou.

― E eu pensava que estava disfarçando bem...

― Só quem não votou em você foi um bêbado no boteco. Disse que o mais infeliz era ele. Mas você era o segundo.

― O Argeu. Sei quem é. Conversamos muito.

― Você tem mala?

― Não, não. E, mesmo, pra que mala na prisão?

― Então, vamos?

― Vamos.

― Só me diz uma coisa...

― O quê?

― Que foi que ela lhe fez, pra merecer morrer daquele jeito?

― Infeliz. Me fez infeliz.

E depois:

― Mais infeliz do que com ela, só sem ela.

― Mulheres...

― É o que o Argeu diz sempre.


Contos de verão II


1. CÓDIGOS

Dona Paulina ensinou à sua filha Rosário que cada ponto do rosto onde se colocasse uma pinta tinha seu significado. Na face, sobre o lábio, num canto da boca, no queixo, na testa... A pinta, bem interpretada, mostrava quem era a moça, e o que ela queria, e o que esperava de um pretendente. O homem que se aproximasse de uma moça com uma pinta ― numa recepção na corte ou numa casa de chá ― já sabia muito sobre ela, antes mesmo de abordá-la, só pela localização da pinta. A três metros de distância, o homem já sabia o que o esperava. A pinta era um código, um aviso ― ou um desafio.

Anos depois dona Rosário ensinou à sua neta Margarida que a maneira de usar um leque dizia tudo sobre uma mulher. Como segurá-lo, como abri-lo, sua posição em relação ao rosto ou ao colo, como abaná-lo, com que velocidade, com que olhar... Só pelos movimentos do leque uma mulher desfraldava sua biografia, sua personalidade e até seus segredos num salão, e quem a tirasse para dançar já sabia quais eram as suas perspectivas, e os seus riscos, e o seu futuro.

Muitos anos depois a Bel explicou para a sua bisavó Margarida que a fatia de pizza impressa na sua camiseta com "Me come" escrito em cima não queria dizer nada, mas que algumas das suas amigas usavam a camiseta sem a fatia de pizza.


2. CASA NA PRAIA

― Você bateu quando eu estava com a mão cheia, Osni.

― Tá bom. Bati.

― Você sempre faz isso, Osni.

― Sempre não. Eu...

― Sempre, Osni. Eu não agüento mais, Osni.

― Tá bom, tá bom. É apenas buraco.

― Não é apenas buraco, Osni. É tudo. É a nossa vida. O buraco é só, só...

Como é que se diz?

― Exato. É só um jogo de cartas.

― Não é só um jogo de cartas, Osni!. É um símbolo. Tá entendendo?

― Ai meu saco... Epa!

― Sabe por que eu não te mato agora, Osni?

― Larga a faca.

― Sabe por quê?

― Larga essa faca.

― Porque se você morrer eu vou ter que jogar com a Ceres, que é pior que você. A Ceres não abre jogo. A Ceres fica com os jogos feitos na mão! Ela é mais débil mental que você!

― Ela é sua irmã, e ela está ouvindo.

― É uma débil mental! Você é um débil mental! Eu sou uma débil mental, por ter me casado com você!

― Larga a faca.

― A vida é uma parceria, Osni. Não se bate quando o outro acaba de comprar o morto. Entende? Essa é uma regra da vida. É uma das regras básicas da vida, Osni.

― Pronto, pronto. Me dá a faca. Isso. Pronto.

― Não se bate quando o parceiro está com a mão cheia, Osni!

― Está certo. Prometo não fazer mais. Agora calma.

― Eu estou rodeada de débeis mentais!

― Calma. Vou buscar seu comprimido.

― E essa merda de televisão que não pega nada, também!
3. CHEGADA

O Marcos já tinha telefonado para os pais, na praia, e avisado que não dera.

Não dera de novo. Era a quarta vez que fazia o vestibular, mas ainda não fora desta vez. Pegou uma carona para a praia e na chegada foi vendo as faixas na frente das casas de veraneio. "Alice ― Psicologia", Valeu, "Marcelão! Agronomia", "Bebeto, Engenharia", "Ieda, Oceanografia" ― as famílias recebendo seus heróis do vestibular para um descanso merecido.

Pô, pensou. Todo ano é assim. Pra me massacrá. E então viu que na frente da sua casa também tinham estendido uma faixa. Dizia "Marcos, Simpatia". Desceu do carro emocionado. Aquilo era coisa da velha. Só podia ser coisa da velha.

Correu para dentro da casa, pensando: ainda dá pra pegar umas ondas e, de noite, aquele churra pra comemorar minha chegada!

É preciso explicar que o apelido da mãe dele para o Marcos é "Lindinho".


4. SSSSSSSSSSS

"Sssssssssônia..." Era uma brincadeira deles. Desde a primeira vez em que ouvira o seu nome ele a chamava assim.




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