Luis fernando verissimo Crônicas Selecionadas da coluna do Estadão



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"Sssssssssônia..." E ela respondia: "Ssssssssim?" E ele: "Ssssssensacional."

Viam-se pouco. Cruzavam-se no clube, só isso. Uma vez ela tentara se informar a seu respeito e ouvira que era um solteirão, com talvez o dobro da sua idade. Diziam que era impotente, um acidente na mocidade, ninguém sabia muito bem. Tinha dinheiro, não fazia nada. Vivia no clube, fumando seu cachimbo. Usava uma echarpe de seda no pescoço, para dentro da camisa, inverno ou verão. Não parecia dar muita atenção a ninguém, mas, por alguma razão, a distinguira com aquela brincadeira. Quando a via sempre dizia "Ssssssssônia." E ela: "Ssssssssim?" E ele: "Ssssssensacional." Na única vez em que tiveram uma conversa mais demorada, ele contou que uma cigana lera sua mão e dissera que ele morreria com 72 anos. Depois olhou o relógio, suspirou e disse.

― Ainda falta tanto tempo...

Depois sorriu para ela e disse:

― Ssssssssônia...

― Ssssssssim?

― Sssssssssensacional.
5. O CÚMULO

Dalton chegou ao cúmulo. Levou o celular para dentro d'água, quando entrou no mar. A mulher atrás, gritando: "Desliga, Dalton!" e o Dalton com a mão no alto, para o celular não molhar.


6. AMADURECIMENTO

Rosildo e Múcio cresceram juntos, se formaram juntos, casaram no mesmo dia com irmãs e foram morar juntos. Claro, deu confusão. Depois da briga entre os casais, Rosildo e Múcio ficaram uns dez anos sem se falar.

Reencontraram-se, reconciliaram-se e abriram uma firma juntos. Nova briga, desta vez por causa de dinheiro, mais cinco anos de separação. Um dia, por acaso, se cruzaram em Veneza, os dois já divorciados, e quando viram estavam tendo um romance homossexual, mãos dadas na gôndola e tudo. Na volta ao Brasil brigaram feio, ciúmes, mais 20 anos sem se ver. Há alguns anos se encontraram na praia, os dois aposentados, com mulheres e netos. Acabaram formando uma dupla de vôlei. Já são tri-campeões da categoria sêniors.

Nunca brigam, jogam com um entendimento perfeito, descobriram sua vocação.

Mas os dois dizem que uma dupla de vôlei perfeita não se forma, assim, da noite para o dia. Muita coisa tem que acontecer antes para uma dupla de vôlei atingir a perfeição. É um longo processo de amadurecimento, diz o Rosildo, e o Múcio concorda.

Contos rápidos de verão
Nervinho
Aquela conversa de travesseiro, "Quem é o meu quindinzinho?" "Sou eu. Quem é a minha roim-roim-roim?" "Sou eu", e ele inventou de dizer que jamais se separariam e que ele seria, para ela, como aquele nervinho da carne que fica preso entre os dentes, e ela disse "Credo, Oswaldo, que mau gosto!" e saiu da cama e depois nunca mais. Acabou por metáfora errada.

Espetáculo


Chuva, chuva, chuva, mas no fim da tarde o sol passou pela abertura entre as nuvens e o horizonte como um suicida pela janela. Mas tempo o bastante para as nuvens, teve gente que contou, mudarem de cor nove vezes. Nove!

Pressentimento


Linda, um amor, quase casaram, mas ela se chamava Duzineide e ele pressentiu que teria problemas com os sogros.

Investigação


O inspetor que investigou o caso da trapezista checa morta com uma adaga de gelo tinha um cachimbo permanentemente no canto da boca mas com o fornilho virado para baixo. Dizia que era para não ter nem a tentação de enchê-lo, pois estava proibido de fumar, mas o importante não é isso, nem o inspetor e nem a trapezista morta. É que fui investigar no dicionário para escrever este conto e só então descobri que aquela parte do cachimbo se chama fornilho, o que passei a maior parte da minha vida sem saber. Toda literatura, no fim, é autobiográfica.

No elevador


Conto erótico. "Lambo você todinha" disse o homem no ouvido da mulher, no elevador. A mulher firme. Silêncio. No décimo andar o homem falou de novo.

"Lambo... Palavra engraçada, né?" Nunca tinha se dado conta. Está bem, mais ou menos erótico.


Outro de elevador


"Ascende" dizia o ascensorista. Depois: "Eleva-se". "Para cima". "Para o alto". "Escalando". Quando perguntavam "Sobe ou desce?" respondia "A primeira alternativa". Depois dizia "Descende", "Ruma para baixo", "Cai controladamente", "A segunda alternativa"... "Gosto de improvisar", justificava-se. Mas como toda arte tende para o excesso, chegou ao preciosismo.

Quando perguntavam "Sobe?" respondia "É o que veremos..." ou então "Como a Virgem Maria". Desce? "Dei" Nem todo o mundo compreendia, mas alguns o instigavam. Quando comentavam que devia ser uma chatice trabalhar em elevador ele não respondia "tem seus altos e baixos", como esperavam, respondia, cripticamente, que era melhor do que trabalhar em escada, ou que não se importava embora o seu sonho fosse, um dia, comandar alguma coisa que andasse para os lados... E quando ele perdeu o emprego porque substituíram o elevador antigo do prédio por um moderno, automático, daqueles que têm música ambiental, disse: "Era só me pedirem ― eu também canto!"


Má impressão


Calçada. Homem com cachorro. Cachorro fazendo coco. Passa mulher. Mulher:

"Que nojo”.Homem, para mulher que se afasta: "Nós somos só amigos!”.


Bolo
Sete de cada lado, as mulheres assistindo, todos com barriga e pouco fôlego, menos o Arruda. O Arruda em grande forma. Magro, ágil, boa cabeleira.

Cinqüenta anos, e brilhando. Foi depois do Arruda dar um passe para ele mesmo, correr lá na frente como um menino, chutar com perfeição e fazer o gol, para delírio das mulheres, que todo o time correu para abraçá-lo. Que gol! O Arruda era demais. Empilharam-se em cima do Arruda. Apertaram o Arruda. Beijaram o Arruda. O Arruda depois diria que alguém tentara morder a sua orelha. Quando o Arruda quis se levantar para recomeçarem o jogo, não deixaram. Derrubaram o Arruda outra vez. Quando ele parecia que estava conseguindo se livrar dos companheiros, veio o time adversário e também pulou no bolo para cumprimentar o Arruda. O Arruda acabou tendo que sair de campo, trêmulo, amparado pelas mulheres indignadas, enquanto o jogo recomeçava, agora só com os fora de forma. Na hora do churrasco o Arruda ainda não estava totalmente recuperado da comemoração, para aprender.

Doze anos


― Você não está me reconhecendo...

― Claro que estou. Rodrigo, certo?

― Renato.

― Renato, claro. Na casa da Aninha.

― Repartição. Há uns 12 anos.

― E eu ia esquecer? Repartição. Você namorava a... a...

― Você.

― Eu namorava a...? Quem?

― Eu namorava você, Paulo Augusto.

― Espera um pouquinho. Que repartição?


Final
"Puxou o fio, só por curiosidade, e no dia seguinte leu no jornal que o Taj Mahal tinha desmoronado”.Ainda vou escrever um conto que termina, e não começa, assim.

Amor
A verdade é que devemos tudo aos amores infelizes, aos amores que não dão certo. A poesia se faz antes ou depois do amor, ninguém jamais fez um bom poema durante um amor feliz. Pois se o amor está tão bom, pra que interrompê-lo? O amor feliz não é assunto de poesia, o amor feliz é em vez de poesia. Literatura é quando o amor ainda não veio ou quando já acabou, literatura durante é mentira. Ou ela é empolgação ou é remorso, revolta, saudade, tédio, divagação desesperada ― enfim, tudo que dá bom texto.

Desconfie de quem explica um estado de exaltação criativa dizendo que está amando. Algo deve estar errado.

― Você está amando, mas ela não está correspondendo, é isso?

― Não, não. Ela também me ama. É maravilhoso.

― É maravilhoso, mas você sabe que não pode durar, é isso? Seu poema é sobre a transitoriedade de todas as coisas, sobre o efêmero, sobre o fim inevitável da felicidade num mundo em que...

― Não! É sobre a felicidade sem fim!

― Não pode ser.

― Mas é. Acabei o poema e vou fazer uma canção. Depois, talvez, uma cantata. E estou pensando num romance. Tudo inspirado no nosso amor. Não posso parar de criar. Estou transbordando de amor e idéia. Crio dia e noite.

― E a mulher amada?

― Quem? Ah, ela. Bom, ela sabe que a atenção que não lhe dou, dou ao nosso amor perfeito.

Está explicado. Ele não canta a amada ou seu amor. Está fascinado por ele mesmo, amando. E o poema certamente é ruim.

Porque o amor, para ser de verdade, tem de emburrecer. Só devem lhe ocorrer bobagens para dizer ou escrever durante um caso de amor. Ou é kitch, de mau gosto, piegas ou copiado, ou não é amor. Qualquer sinal de originalidade pode até ser suspeito.

― Esses seus versos para mim... Estão ótimos.

― Obrigado.

― Essas juras de amor, essas rimas, essa métrica... De onde você tirou tudo isso?

― Eu mesmo inventei. Pensando em você.

― Seu falso!

― O quê?

― Só deixando de pensar em mim por algumas horas você faria uma coisa assim pensando em mim. Só tomando distância, escrevendo e reescrevendo, raciocinando e burilando, você faria isto. Um verso plagiado do Vinícius eu entenderia. Um verso original, e bom desse jeito, é traição. Só não sendo sincero você seria tão inteligente!

― Mas...

― Não fale mais comigo.

Pronto. O amor acabou, agora você pode ser criativo sem remorso. Você está infeliz, mas console-se. Pense em como isso melhorará o seu estilo.


Da série 'Poesia numa Hora Destas?'

O rico sedutor Esta sacada para o Gran Canal esta Lua de cartão-postal (o pôr-de-sol foi do Tiepolo) este salão descomunal e o mordomo, Manolo...

As lagostas do jantar os filés e o manjar o cheque sob o "richaud" as frutas do meu pomar e os vinhos do meu "chateau"...

Um final de fantasia pavê e ambrosia junto com um grande "apfelstrudel".

E ao fundo (covardia) Márcio Montarroyo no "flugel"...

Na cama em forma de nau ela não pode conter um "uau" de sacudir palazzo inteiro.

Não sei se foi meu "know-how" ou a jóia no travesseiro.

Pois o chocolate suíço os pavões e o serviço o Rolls-Royce e este show...

Será que ela liga pra isso ou me ama pelo que eu sou?

O imitador "João, imita cachorro" dizia a cruel Maria dando o pé pra ser lambido.

"Agora imita cavalo" e virava no outro sentido.

"João, imita tapete" dizia a cruel Maria quando o queria rasteiro.

Ou "imita caixa automática" quando queria dinheiro.

E um dia a cruel Maria disse "João, imita gente" e disse o João "imito quem?"

"Sei lá, qualquer pessoa, você vai pensar em alguém" E João, o imitador, fez Jack, o Extirpador.

Poema curto Existem só três rimas em "ândalo":

"Escândalo", "vândalo", "sândalo" e deu.

Alguém ainda fará um verso inteiro com política, destruição e bom cheiro ― mas não eu.

Cena suburbana A mãe gritou "Alcides!"

e ninguém veio.

Gritou "Cidinho!" e nada.

Foi só gritar "Paixão!"

e veio uma manada Observação antropológica Se agarram, rolam pelo chão abraçados, se beijam com fervor...

Se não foi gol, é amor.

O sedutor pobre Não tenho onde cair morto, ando matando cachorro a grito com uma mão atrás e outra na frente, tou duro, tou na pior, tou chamando urubu de "meu louro", numa merda federal, com a corda no pescoço, endividado até a alma e entrando pelo cano.

Mas, em compensação, te amo.

O sedutor médio Vamos juntar nossas rendas e expectativas de vida querida, o que me dizes?

Ter 2.3 filhos e ser meio felizes?

O sedutor intelectual Nietzsche teria algo a dizer sobre soutiens com enchimento Mas não é o momento, não é o momento... Te contei que minha miopia regrediu?

Desculpe, é nervosismo, viu? Não vá, espere, não desista de mim Eu nunca desisti, não me deixe assim. Daqui a pouco, garanto, outro se ergue.

Você só está vendo a ponta deste iceberg.


Da série 'Poesia numa hora destas?!'

Monsieur le Compte

Ele flana pelos corredores frios como um par de olheiras sobre patins com a tinta escorrendo dos cabelos a boca roxa, as mãos nos rins pedindo "Virgens!" para ninguém pedindo "Sangue!" para a escuridão chupando o ar como se fosse veia alugando o sótão para uma confecção.

Às vezes pára porque ouviu seu nome:

"Drakuuul!", longe, "Drakuuul!"

Mas é só um lobo desinteressado é sempre só um lobo que sabe nada e um longe sem significado.

Pede "Virgens!" e vem mingau pede "Sangue!" e trazem chá.

Bolachas ou outras coisas vivas?

"Monsieur le Compte, suas gengivas!"

Ele desliza pelos corredores noites a fio, noites a frio sonhando com pescoços latejantes lembrando as suas conquistas desejando uma estaca no peito abrindo o térreo pra turistas.

"Drakuuul! Drakuuul!"

Mas é sempre só um lobo anônimo.

Ou, possivelmente, irônico.

Celulares


Meu celular, disse um, mostra quem está chamando, e se é um chato, avisa.

O meu, disse o outro, acessa a internet, faz café e profetiza.

O meu é gravador, relógio, fax, macaco e granada de mão, e ainda faz logarítmos, disse um terceiro, é legal!

O meu, disse outro, codifica, decodifica e toca o hino nacional. E quando se perde, me chama.

E o meu? E o meu? disse um quinto, pra não fica atrás.

O seu o que que faz?

O meu, disse o quinto, me ama.

Estímulo
Num sebo, um dicionário de rimas com uma dedicatória grafada: "Agora você não tem mais desculpa..." Para um poeta hesitante, de alguma namorada? Mas não dera certo a empurrada, o poeta resistira ao estímulo da amada e vendera a obra presenteada ― talvez ao descobrir que "desculpa" não rimava com nada.


Confirmação


Tive certeza que era mesmo o Nabokov que voltara como uma borboleta quando peguei as suas diáfanas asas azuis e ouvi claramente a borboleta dizer, com um sotaque russo, "Proíbo você de usar isto como qualquer espécie de metáfora ou simbolismo 'ersatz', e solte-me em seguida", e tive que soltá-la.

Graças a Deus pela televisão

O ruim não é quando não há mais nada para dizer salvo "não há mais nada para dizer", é quando não há mais nada para fazer em vez de dizer, lembra?

Lembro, a gente fazia tanto que não tinha tempo para dizer.

Não, não, a gente fazia tanto que não precisava dizer.

Não, não, a gente dizia fazendo.

E agora tanto faz.

Acontece com todo o mundo.

A gente só não sabia que era todo o mundo, né?

Todo o mundo é.

Ssshhh.

Não me diz que você está vendo isso!


De volta ao grunhido


Ouvi dizer que é cada vez maior o número de pessoas que se conhecem pela Internet e acabam casando ou vivendo juntas uma semana depois. As conversas por computador são, necessariamente, sucintas e práticas, e não permitem namoros longos, ou qualquer tipo de aproximação por etapas. Estamos longe, por exemplo, do tempo em que as pessoas se viam numa quermesse de igreja e se mandavam recados pelo alto-falante. Como as quermesses eram anuais, elas só se falavam uma vez por ano, e sempre pelo alto-falante. Quando finalmente se aproximavam, eram mais dois anos de namoro e um de noivado, e só na noite de núpcias, imagino, ficavam íntimos, e mesmo assim acho que o vovô dizia: "Com licença." Na geração seguinte, o homem pedia a mulher em namoro, depois pedia em noivado, depois pedia em casamento, e, quando finalmente podia dormir com ela, era como chegar no guichê certo depois de preencher todas as formalidades, reconhecer todas as firmas e esperar que chamassem a sua senha. Durante o namoro, ele mandava poemas, o que sempre funcionava, e muitas mulheres de uma certa época, para serem justas, deveriam ter casado com Vinícius de Morais.

As pessoas dizem que houve uma revolução sexual. O que houve foi o fechamento de um ciclo, uma involução. No tempo das cavernas, o macho abordava a fêmea, grunhia alguma coisa e a levava para a cama, ou para o mato. Com o tempo desenvolveram-se a corte, a etiqueta da conquista, todo o ritual de aproximação que chegou a exageros de regras e restrições, e depois foi se abreviando aos poucos até voltarmos, hoje, ao grunhido básico, só que eletrônico. Fechou-se o ciclo.

A corte, claro, tinha sua justificativa. Dava à mulher a oportunidade de cumprir seu papel na evolução, selecionando para procriação aqueles machos que, durante a aproximação, mostravam ter aptidões que favoreceriam a espécie, como potência física ou econômica, ou até um gosto por Vinícius de Morais. Isso quando podiam selecionar e a escolha não era feita por elas. No futuro, quando todo namoro for pela Internet, todo sexo for virtual e as mulheres ou os homens, nunca se sabe, só derem à luz a bytes, o único critério para seleção será ter um computador com modem e um bom provedor de linha.

Talvez toda a comunicação futura seja por computador. Até dentro de casa. Será como se os nossos namorados da quermesse levassem os alto-falantes para dentro de casa. Na mesa do café, marido e mulher, em vez de falar, digitarão seus diálogos, cada um no seu terminal. E, quando sentirem falta de palavra falada e do calor da voz, quando decidirem que só frases soltas numa tela não bastam e quiserem se comunicar mesmo, como no passado, cada um pegará seu celular.

Não sei o que será da espécie. Tenho uma visão do futuro em que viveremos todos no ciberespaço, volatizados. Só nossos corpos ficarão na Terra porque alguém tem que manejar o teclado e o mouse e pagar a conta da luz.

Palavras


Certas palavras dão a impressão de que voam ao sair da boca. "Sílfide", por exemplo. Diga "sílfide" e fique vendo suas evoluções no ar, como as de uma borboleta. Não tem nada a ver com o que a palavra significa. "Dirigível" não voa, "aeroplano" não voa e "bumerangue" mal sai da boca. "Sílfide" é o feminino de "silfo", o espírito do ar, e quer dizer a mesma coisa diáfana, leve e borboleteante. Mas experimente dizer "silfo". Não voou, certo? Ao contrário de sua fêmea, "silfo" não voa. Tem o alcance máximo de uma cuspida. "Silfo", zupt, plof. A própria palavra "borboleta" voa mal. Bate as asas, tenta se manter aérea, mas choca-se contra a parede e cai.

Sempre achei que a palavra mais bonita da língua portuguesa é "sobrancelha". Esta não voa, mas paira no ar. Já a terrível palavra "seborréia" escorre pelos cantos da boca e pinga no tapete. Antônio Maria escreveu que sempre que alguém usa "outrossim" a frase é decorada. Eu mesmo tenho uma frase com "outrossim" pronta para usar há uns 20 anos, mas ainda não apareceu a oportunidade. Quando sentir que vou morrer a usarei, mesmo que a ocasião seja imprópria, para não levá-la entalada.

Às vezes fico tentando usar a palavra "amiúde", mas sempre hesito, temendo a quarentena social. E também porque amiúde penso que "amiúde" devia ser duas palavras, como em: "Ele entrou na sala à Miúde", ou à maneira do Miúde, seja o Miúde quem for. Muitas palavras pedem outro significado do que os que têm. "Plúmbeo" devia ser o barulho que um objeto faz ao cair na água. "Almoxarifado" devia ser um protetorado do xeque Al Moxarif. "Alvíssaras" deviam ser flores; "picuinha", um tempero; e "lorota", claro, o nome de uma manicure gorda.

Vivemos numa era paradoxal em que tudo pode ser dito claramente e mesmo assim os eufemismos pululam. (Pululas: moluscos saltitantes que se reproduzem muito.) O empresário moderno não demite mais, faz um "downsizing", ou redimensionamento para baixo, da sua empresa. O empregado pode dizer em casa que não perdeu o emprego, foi downsizeado, e ainda impressionar os vizinhos. E não entendi por que "terceirizar" ainda não foi levado para a vida conjugal. Maridos podem explicar às suas mulheres que não têm exatamente amantes, terceirizaram a sua vida sexual. E depois, claro, devem sair de perto à Miúde.


Depois da batalha


Quando um casamento dá errado, você pode apostar que o problema começou na cama. Mas ninguém entendeu quando o Jorge e a Gisela voltaram da lua-de-mel separados, e, em vez de constituírem um lar, constituíram advogados. Afinal, a não ser por alguma revelação insólita ― um descobrir que o outro não era do sexo que dizia ser, ou era tarado, ou era, sei lá, um vampiro, ou do PFL Jovem, nada que acontece ou deixa de acontecer na cama numa viagem de núpcias é tão terrível que não possa ser resolvido com tempo, compreensão ou terapia. O sexo não podia ter sido tão desastroso assim.

― Não, não ― disse o Jorge. ― O sexo foi ótimo. O problema foi outro.

― Qual?

― Batalha naval.

O sexo tinha sido tão bom que Jorge e Gisela ficaram uma semana sem sair da cama. Mas o amor, como se sabe, é como marcação sob pressão no futebol. Por melhor preparados que estejam os jogadores, eles não podem marcar sob pressão os 90 minutos. Nem se o Jorge e a Gisela fossem o Rincon e o Vampeta do sexo conseguiriam se amar o tempo todo, dia e noite, sem intervalos. E foi para preencher os intervalos que o Jorge propôs a Gisela que jogassem batalha naval. Tinham o que era preciso no quarto, papel e lápis. Qualquer borda reta serviria como régua para fazerem os quadradinhos. Não precisavam sair da cama. E o vencedor podia escolher a forma como se amariam, depois da batalha.

― Jota 11.

― Água. Bê 4.

― Outro submarino.

― Viva eu!

Quem passasse pela porta do quarto dos recém-casados e ouvisse aquilo não entenderia o que acontecia lá dentro. Jorge e Gisela, nus sob os lençóis, um atirando seus mísseis imaginários sobre a frota do outro. Gisela, estranhamente, acertando mais do que Jorge. Que já tinha perdido dois submarinos e um cruzador quando finalmente acertou um disparo.

― Agá 9 ― cantou Jorge.

― Ih... lamentou-se Gisela ― Parte do meu porta-aviões.

― Arrá! ― gritou Jorge, triunfante.

― Ele 12 ― tentou Gisela.

― Água, água ― disse Jorge, ansioso para terminar o serviço no porta-aviões inimigo.

― Agá 10!

― Água. Dê 13...

― Água. Agá 8...

― Água. Éfe 2...

― Água. Gê 9.

― Água. Ele 6.

― Água. I nove!

― Água. Ene...

― Espera um pouquinho. Como, água?

― Água. Você acertou na água.

― Você me disse que agá 9 era parte do seu porta-aviões.

― E é.

― Mas eu disparei em volta do agá 9 e não acertei mais nada.



― Exatamente. Só acertou água.

― E onde está o resto do seu porta-aviões?

― E eu vou dizer? Engraçadinho! Tente adivinhar.

Jorge estava de boca aberta. Quando conseguiu falar, foi com a voz de quem acaba de encontrar uma nova forma de vida, e tem medo de provocá-la.

― Deixa ver se eu entendi. O seu porta-aviões não está todo no mesmo lugar...

― Claro que não! Eu divido em quatro partes, e boto uma bem longe da outra. Assim fica mais difícil de atingir.

Os amigos concordaram que seria perigoso ficar casado com uma mulher que espalhava o seu porta-aviões. Por melhor que fosse o sexo, era preciso pensar no resto da vida, quando os intervalos ficariam cada vez maiores. Jorge nem chegou a contar que os submarinos da Gisela não constavam do diagrama da sua frota. Segundo ela, estavam submergidos, podiam estar em qualquer lugar, nem ela saberia onde encontrá-los. Era melhor pedir divórcio.

Depois do carnaval

Há muita literatura sobre o depois do carnaval, muito mais histórias de quartas-feiras cinzentas do que de terças-feiras gordas, desde clássico da melancolia envolvendo colombinas sem coração e pierrôs abandonados até flagrantes do reencontro de fidalgos de escola de samba com a dura realidade de um relógio de ponto. Passando por histórias de terror, como a da mascarada misteriosa que, depois de três dias de folia e amor, dá seu endereço para o havaiano apaixonado e ele descobre que o endereço é um cemitério.

Mas o carnaval mudou e a sua literatura também tem que mudar. Hoje, uma história romântica de carnaval poderia acabar com o pierrô e o arlequim se consolando mutuamente, pois a colombina não ficou com nenhum dos dois e sim com outra colombina, chamada Ferreira. Ou um Deus do Sol de carro alegórico chegando no trabalho sem ter tido tempo de mudar de roupa e aproveitando a pintura dourada e o esplendor chamejante para dominar uma reunião de diretoria e impor a sua decisão de demitir 300 funcionários, inclusive alguns que desfilaram na escola junto com ele, pois as escolas estão muito democráticas e aceitam cada vez mais grã-finos.




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