Luis fernando verissimo Crônicas Selecionadas da coluna do Estadão



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― A culpa não é do chão, é da obra. Nenhum país se torna uma cleptocracia moderna e fica inocente ao mesmo tempo. Este canteiro de transformações, em qualquer outro lugar, teria dado a mesma coisa. Todo o mundo sabe o que há num canteiro de obras: métodos pesados e muita lama. Não é um lugar para almas leves. É um lugar para tratores e estevãos.

― A culpa é da luz! Razão teve o Jânio, que deu no pé. Não foi golpe mal dado nem ressaca, foi lucidez. Jânio encarou a luz de Brasília e decidiu que ela, sim, o enlouqueceria. Era ela ou ele. Fugiu.

― Jango chegou a Brasília com a pior ilusão que um presidente pode ter: a de que preside. Não soube administrar nem a sua solidão. Foi expulso.

― Os presidente militares sobreviveram à luz, ao ar e ao sortilégio de Brasília porque souberam usar a principal virtude militar, que é a falta de imaginação. A solidão não os afetou porque mesmo o general mais sozinho tem a companhia das suas divisas e pelo menos uma presunção de tropa.

― Brasília não se contentou em repudiar Tancredo. Matou― o.

― Culparam os germes do hospital, mas foram os germes que escaparam quando acordaram o monstro, como as bactérias vingativas de uma tumba invadida.

― A danação poupou Sarney.

― Tudo poupou Sarney. A vida, a história, a crítica literária, os eleitores... Sarney descobriu a camuflagem perfeita para passar por Brasília incólume. Se disfarçou de José Sarney.

― Collor foi o primeiro produto natural de Brasília a chegar ao poder. Está explicada a sua empáfia: ele pensava que sabia todos os truques do lugar.

Mas Brasília o surpreendeu. Produziu um estrangeiro para derrubá-lo, o motorista Eriberto. Foi golpe alto, não estava nas regras de Brasília.

― E Itamar?

― Itamar escapou porque, onde quer que ele esteja, está sempre em Juiz de Fora. É um caso raro em que a geografia acompanha o homem.

― E chegamos a Fernando Henrique.

― O Surpreendido. Este descobriu um meio de conviver com Brasília, e com o Brasil no qual nenhum presidente desde Juscelino pensara.

― Qual?

― Não prestar muita atenção.

― Foi mais longe do que o Itamar: nunca está completamente em lugar algum.

Só chega para se surpreender.

― Exato.

― E nós, o que fazemos aqui?

― Parte da paisagem.

― Ou outra maneira de não se envolver.

― Isso.


Diálogos imaginários

― Antes de mais nada ― diz Osama bin Laden ― temos que estabelecer uma coisa. Quem de vocês é o verdadeiro Saddam Hussein?

― Por quê? ― pergunta Saddam Hussein, ou um dos seus sósias.

― Porque vocês todos não podem ficar aqui. Este esconderijo mal dá para mim.

Só pode ficar o verdadeiro Saddam Hussein. Os outros seis vão ter que se esconder em outro lugar. Ou mudar de cara.

Os Saddans se entreolham. Pode ser um truque de Osama, que, todos sabem, nunca foi muito com a cara deles e um dia chamou Saddam Hussein de "infiel pulguento". Osama pode estar planejando passar o verdadeiro Saddam Hussein na cimitarra. Finalmente, um dos Saddans aponta para outro e diz:

― Eu sou aquele ali.

O outro reage:

― Eu, não. Ele é ele.

E aponta para outro. Os sete Saddans se apontam mutuamente.

― É ele! É ele!

― Chega! ― grita Osama. ― Está bem. Podem ficar os sete. Mas só o verdadeiro dorme no sofá. Os outros dormem no chão.

Mais hesitação e olhares. Na cabeça de todos os Saddans passa o mesmo pensamento. Osama caminhando, no meio da noite, com uma adaga na mão, na direção do Saddam que dorme no sofá, cuidando para não pisar nos Saddans que dormem no chão. Levantando a adaga e...

― Todo o mundo dorme no chão ― determina o Saddam.

― Outra coisa ― diz Osama. ― Todos vão ter que ajudar na despesa do esconderijo.

― OK ― dizem todos.

― E ajudar na faxina.

― Eu, Saddam Hussein, fazendo faxina?! ― protesta Saddam. Em seguida se dá conta de que se entregou e tenta disfarçar, apontando para um sósia: ― Quero dizer, ele, Saddam Hussein, fazendo faxina?!

Mas um sorriso malicioso aparece no rosto de Osama, que já sabe quem é o verdadeiro Saddam Hussein. Agora é só cuidar para não embaralhar o verdadeiro com os outros, pensa Osama. E vai afiar a cimitarra.

Saddam Hussein, na última câmara subterrânea do seu último castelo em Bagdá, com as tropas americanas já entrando na cidade, recebe a visita de... George W. Bush!

― Bush! Você?!

― Vim lhe fazer um favor, Saddam. Tome. Bush entrega um cartão a Saddam.

― Como você entrou aqui?

― Não interessa. Trago a sua salvação. Olhe o cartão.

― Não estou entendendo. Você, George Bush, está aqui para me salvar?

― Eu não sou George Bush, Saddam. Sou Osama bin Laden.

― Osama bin... Mas é a cara do Bush! Até as orelhas!

― Eu sei, eu sei. Olhe o cartão.

Saddam olha o cartão, onde há um nome. Osama explica:

― É o meu cirurgião plástico.

Passam-se semanas, meses, e ninguém encontra Saddam Hussein. O exército americano, a CIA, o FBI caçam Saddam Hussein por todo o território iraquiano e nada. Nem sinal de Saddam Hussein. Um dia surge a notícia de que alguém, num pequeno vilarejo ao norte de Bagdá, encomendou torneiras de ouro. A encomenda é suspeita porque o vilarejo é pobre, muito pobre. Ninguém no vilarejo tem condições de comprar torneiras, quanto mais de ouro. A coisa fica mais suspeita ainda quando descobrem que as torneiras de ouro são para uma humilde casa de barro na zona mais pobre do pobre vilarejo. Os americanos resolvem investigar. Uma tropa do exército cerca a casa e quando as torneiras de ouro são entregues na porta, a tropa entra junto ― e encontra o Saddam Hussein. Uma família do lugar o acolheu, em troca de uma recompensa, e Saddam tem um pequeno quarto com um modesto banheiro nos fundos da casa, que ocupa desde que fugiu de Bagdá.

Enquanto Saddam está sendo algemado, o chefe da família comenta:

― Eu avisei que ia dar galho. Eu disse que iam desconfiar. Torneiras de ouro para o banheiro... Mas você insistiu.

Saddam dá de ombros. Diz:

― Quando a gente se acostuma com alguma coisa...

― Obrigado, Deus, pela vitória ― diz George Bush.

― Tudo bem ― diz Deus.

― Não, obrigado mesmo. Nós não teríamos conseguido sem o Senhor.

― Pode deixar.

― O senhor atendeu às minhas preces.

― Certo, certo. E olhe que tive que desprezar as preces de gente de peso, como o papa.

― Eu sei, e estou eternamente grato. Agora, tem uma coisa...

― O quê?

― O senhor não poderia, já que está aí em cima, com uma visão privilegiada que nós não temos, nos dar uma dica sobre onde estão as armas de destruição em massa do Iraque, e...

― Epa. Alto lá. Uma mãozinha, tudo bem. Mas espionagem não!

Dias perdidos


Viajando de Paris a Sydney na semana passada, perdi uma terça-feira inteira.

Ou voei por cima de uma terça-feira, o que dá no mesmo. Em 1582, numa das muitas tentativas de sincronizar ciclos lunares, ciclos solares, calendário humano e as festas da Igreja, o papa Gregório XIII decretou a supressão de dez dias do ano. Para que a Páscoa voltasse a ser calculada com mais precisão em relação ao equinócio vernal, depois do 4 de outubro de 1582 veio o 15 de outubro. Os dias 5 a 14 simplesmente não aconteceram. A humanidade perdeu dez dias, e eu me queixando de uma mísera terça-feira.

Imagine-se, você, um Gregório retroativo com a capacidade de cortar dez dias da sua vida. Mas dias consecutivos ― nada de ir escolhendo datas avulsas para eliminar, como aquela do vexame que você deu na sala de aula e todo o mundo riu, ou aquela da declaração de amor tão ensaiada que você disse errado e ela disse "Eu, hein?", sem contar dias negros na história do País e da humanidade que seria melhor não terem acontecido. Que período de dez dias você baniria do passado?

Talvez seja prudente esperar o fim desta Copa. A gente pode querer eliminar alguns dos dias que esperam a seleção do Felipão.

Reticências preocupadas.

Água mineral O Valtão chegou na roda com a notícia de que tinha largado todos os vícios.

Como o Valtão tinha mesmo todos os vícios, foi recebido com incredulidade barulhenta. Vaias, risadas, "Tá bom" e "Conta outra, Valtão". Mas Valtão estava sério. Para dramatizar sua nova disposição, pediu ao garçom:

― Alberico: uma mineral.

Alberico hesitou. Servia a turma há 10, 12 anos e nunca ouvira um pedido igual. Talvez tivesse ouvido errado.

― Uma quê?

― Uma mineral. Água mineral. Mi-ne-ral.

Alberico de boca aberta. Na falta de precedentes, precisava de mais detalhes.

― Com ou sem gás?

Valtão não respondeu em seguida. Ficou olhando para Alberico, como se a resposta estivesse em algum lugar do seu rosto. Estava decidido a largar todos os vícios, começando pela bebida. Era um homem novo. Um homem que tomava mineral. Mas com ou sem gás?

― Sem ― disse Valtão.

Houve um murmúrio na mesa. O próprio Valtão se assustou com o que tinha dito. Água mineral sem gás era água pura. Ele queria água pura? Queria.

Tinha que ser assim. Um corte limpo. De todas as bebidas para a água pura.

Estava certo.

Como o Alberico continuasse na sua frente, em estado de choque, Valtão repetiu:

― Sem.


Mas quando o Alberico se virou para ir buscar a água, Valtão fraquejou.

Talvez fosse melhor... Chamou o Alberico de volta.

― Olha aí: traz com gás.

E para os outros, racionalizou:

― Nessas coisas é melhor ir por etapas.

O alívio na mesa foi evidente. Ninguém ali estava preparado para radicalismos. Não assim, não num fim de tarde de domingo.

A água pura seria uma intrusa na mesa. Um constrangimento. A virtude com gás era manejável. Era recorrível.

Com bolinha ainda dava para voltar atrás.

Cama estranha Pediram para o Billy Wilder resumir numa frase quem era o Don Siegel e ele disse que se um dia acordasse numa cama estranha ao lado de uma prostituta morta com uma faca espetada no peito, chamaria o Don Siegel, que saberia o que fazer. Não li o resto para descobrir que poderes ou conexões tinha Don Siegel, lenda do cinema como ele, para salvar o Billy Wilder, mas fiquei pensando na frase. Você pode dividir sociedades inteiras de acordo com o que as pessoas fariam se um dia acordassem ao lado de uma prostituta assassinada sem saber como fora parar ali. Já que, decididamente, não é uma situação em que você pode chamar a mãe, ou um conselheiro espiritual, ou, em muitos países, a polícia. E também pensei: todo o mundo deveria ter um amigo como o Don Siegel para momentos assim ― mas só para momentos assim. No resto do tempo, não seria alguém com quem você gostaria de conviver.

Teclados silenciosos Os escritores que escreviam com penas de ganso escreviam muito mais do que nós, e acho que existe uma relação direta entre dificuldade e quantidade ― e qualidade. Não há nada parecido, na era dos escritores eletrônicos, com o volume de correspondência dos escritores a pena, que além de manuscrever livros que pareciam monumentos manuscreviam cartas que pareciam livros.

Quanto mais fácil ficou escrever, menos os escritores escrevem. Os livros ficaram mais finos e a correspondência se reduziu a latidos digitais, breves mensagens utilitárias, tecla "send" e pronto. Já um George Bernard Shaw escrevia uma peça atrás da outra com introduções maiores do que a peça e ainda tinha tempo para escrever cartas para todo o mundo. Geralmente xingando-os, o que exigia mais tempo e palavras. Desconfio que a nova técnica também constrangeu o jornalismo. As barulhentas redações pré-eletrônicas eram áreas conflagradas onde o combate com o teclado duro era um teste de resolução e resistência. Depois vieram os computadores e a briga diária com o instrumento de trabalho e, por extensão, com a empulhação oficial e com as idéias recebidas, foi substituída pela facilidade, e pela reverência. Enfim, pelo jornalismo pacífico. E isso que a gente muitas vezes confunde com subserviência ou abandono da crítica ou resignação ao Pensamento Único pode muito bem ser apenas um efeito dos teclados silenciosos.

Dos entusiasmos sinceros

A imprensa brasileira tem uma longa história nobre, mas também tem uma longa história ignóbil. Foi admiravelmente atuante e conseqüente, mas também foi omissa e comprometida mais do que precisava e as duas tradições se construíram simultaneamente. Na média, nada do que se envergonhar demais. Foi antes de tudo uma imprensa precária, até começar a se profissionalizar para valer, e isso não faz muito tempo.

A precariedade determinava promiscuidade mais evidente com o poder ― eram raros os que podiam viver exclusivamente do jornalismo, por isso recorriam ao emprego público e eram mais fiéis aos governos patrões do que a qualquer objetividade. Muitos faziam bico na imprensa só para ter direito a pequenos privilégios, como a carteirinha de repórter, tão valorizada para o trânsito livre no futebol e na boate como a carteirinha de policial. Alguns privilégios só eram explicados por uma presunção de penúria insanável. Você sabia que até uma certa época jornalista brasileiro tinha passagens de avião praticamente de graça? Dizer que não pagava Imposto de Renda não significa nada, naquele tempo ninguém pagava Imposto de Renda.

Ou seja: uma discussão sobre as relações da imprensa com o poder como a que foi provocada pelo livro do Mario Sergio Conti, Notícias do Planalto, seria impensável há poucos anos. Poucos mesmos. Eu ainda peguei o finzinho da fase semi-amadora, em que só não havia corrupção porque ninguém se lembraria de chamá-la assim, e olha que eu estou no jornalismo há apenas... Esquece, mau exemplo. Seria impensável num passado relativamente recente. O que significa que melhoramos muito, já que o que antes era mais ou menos rotina hoje seria escândalo.

Ainda não li o livro do Conti ― estou fazendo halterofilismo para poder segurá-lo, mas acho que ele nos presta um serviço. O corporativismo jornalístico vai além do coleguismo e da solidariedade de classe, em poucos outros locais de trabalho as pessoas se expõem e se julgam mutuamente com tanta freqüência como numa redação de jornal, e isso ― aliado ao fato de que é notoriamente uma profissão de grandes egos ― causa melindres compreensíveis, mas que não devem impedir o auto-exame. Não sei como Conti julgou os colegas empolgados, digamos assim, pelo poder. O entusiasmo comprado, claro, tem maior potencial jornalístico e é o que está causando sensação. Mas me interesso mais pelos entusiasmos sinceros, principalmente a história do que os sortilégios de Collor e depois de Éfe Agá fizeram com a imprensa brasileira.

Não foi só o óbvio apoio das grandes empresas de comunicação à abertura econômica e ao modelo de mercado trazidos por Collor, e a conseqüente boa vontade editorial, até que ele não servisse mais. Também houve a coincidência da juventude e do dinamismo de Collor com o estilo da primeira geração criada na era moderna, pós-amadora, do jornalismo que chegava ao poder intermediário nas redações e com jovens empresários liberais em outros setores, uma identificação que sobreviveu mesmo aos primeiros ridículos. Com Éfe Agá houve identificação parecida, perfeitamente respeitável e justificável, pois Éfe Agá era o Collor sem o olhar assustador e com uma boa biografia, além da mesma política. A identificação continua. Mais importante do que saber como a imprensa brasileira reagiu às seduções ilícitas do poder é examinar como ela está convivendo com a sua própria parcialidade, como se disfarça o pensamento único sem sacrificar a credibilidade, como é possível, enfim, conciliar independência com a necessidade de defender uma idéia de sociedade e de organização econômica e combater as suas alternativas. Não é uma questão brasileira, é uma questão que só não existe em países totalitários ou em utopias, pois a absoluta isenção jornalística é uma fantasia. O livro, pelo que sei, toca nesse assunto, dos entusiasmos sinceros, mas deformadores, quando comenta episódios como o do favorecimento de Collor pela Globo na montagem do seu último debate com Lula, mas ele merece outro tijolaço do Conti. Talvez seja melhor esperar o fim do período Éfe Agá para reunir todo o material sobre a imprensa e os dois Fernandos e, às histórias das fraquezas e pecados do clero, juntar a da estratégia dos cardeais.


Dossiês, escândalos, etc.

A palavra "nefesh" em hebraico quer dizer, mais ou menos, sopro vital, ser, uma forma exaltada do "eu" (e também que dizer pescoço, presumivelmente porque pelo pescoço passam o sopro vital e todas as conexões indispensáveis para a autoconsciência), mas não quer dizer alma. A oposição entre corpo e alma não existia em tempos bíblicos, ou pelo menos na linguagem bíblica. Mas a versão em latim antigo das Escrituras que Santo Agostinho lia usava "anima" para traduzir "nefesh" e foi aí que tudo começou. A alma e o corpo se separaram e nunca mais se encontraram. E nunca mais se pode ler o Velho Testamento a não ser como Agostinho o lia, não como um relato da aventura do corpo humano no mundo como Deus o fez, cheio de som, fúria, sangue e sacanagem, mas como uma alegoria espiritual, em que até os cantares eróticos de Salomão queriam dizer outra coisa. A luta da alma para transcender o corpo, que para Agostinho significava a sexualidade. Tudo culpa de um mau tradutor.


***
Freud tentou, de certa maneira, retransformar "anima" em "nefesh", mas como muito do que ele escreveu em alemão também foi mal traduzido em outras línguas, a confusão só aumentou. No fim a grande danação sob a qual vive a humanidade não é a da História nem da carne, é a insanável danação de Babel.

Deus disse "que haja muitas línguas, e que cada língua tenha muito dialetos". E depois, para ter certeza que os homens nunca mais se entenderiam, completou: "E que haja tradutores."


***
"Corrupção", você talvez se interesse em saber, vem do latim "rumpere" ou romper, quebrar. "Corrumpere" quer dizer quebrar completamente, inclusive moralmente, o que significa que quem foi corrompido não tem mais conserto, não importa o que diga a sua assessoria de Imprensa. O mais inquietante, no entanto, é que da mesma origem latina vem a palavra "rota", através de "ruptura", que virou "rupta" no latim vulgar, um caminho aberto ou batido, e que está na origem do francês "route", de "rota" e de "rotina". Quer dizer, há poucas esperanças da corrupção deixar de ser uma rotina no Brasil: até a etimologia está contra nós.
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"Dossiê", outra palavra muito usada, ultimamente, é o aportuguesamento, ou a baianização, do francês "dossier", que tem origem na palavra "dos", dorso, costas, que vem do latim "dorsum". O "dossier" se chamava assim porque era uma coleção de papéis sobre uma pessoa suspeita cujo nome aparecia no fim, nas costas. Da mesma raiz vem "endossar", assinar nas costas de um título ou documento. Nos dossiês em circulação no Brasil o nome do suspeito vem na frente, o nome de quem o preparou vem subentendido e o nome de quem o escondeu nem vem.
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"Escândalo" está indiretamente ligados aos pés. Sua raiz indo-européia é "skand", pular ou subir, de onde também vem escalada. Quem pula ou sobe precisa cuidar onde põe os pés e o grego "skandalon" significa um obstáculo ou uma armadilha. "Scandalum" em latim tanto pode significar tentação como armadilha. No francês antigo "scandal" era um comportamentro anti-religioso que agredia a Igreja toda-poderosa e, da mesma origem, existia a palavra "sclaudre", de onde vem o inglês "slander", ou difamação, portanto cuidado.
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Alguns escândalos, de tão não investigados, acabam virando anedotas. "Anedota" vem, através do francês "anecdote", do grego "anekdotos", história não publicada, presumivelmente tanto no sentido de inédita quanto no sentido de versão não oficial, secreta, clandestina, enfim, história tipo em Brasília todo mundo sabe. Em francês queria dizer pequeno relato ilustrativo à margem de um relato maior. No seu sentido brasileiro continua sendo uma história marginal, só que engraçada, ou se esforçando para ser. Sobrevive, na anedota, a tradição homérica da literatura oral, passada de geração a geração sem necessidade de escrita. Se for escrita, deixa de ser anedota.

Muitos contadores anotam o fim da anedota para não esquecê-la, mas se sentiriam heréticos se a escrevessem toda, apesar do risco que correm de esquecerem o resto e ficarem com uma coleção de últimas frase sem sentido:

"E aí o pastor, o padre, o rabino e o ateu pularam do avião e Deus deu o pára-quedas para o ateu, explicando para os outros que o céu estava numa campanha por novos adeptos."

"E aí o marido vingativo gritou para a mulher dentro da jaula do gorila:

`Diz para ele que você está com dor de cabeça, diz!'" "E aí o cara de cuecas disse: `E eu, que só vim entregar uma pizza?'"
***
O "rude e doloroso" idioma de Bilac é falado por mais gente do que fala francês, mas temos razões para nos queixar da sua relativa obscuridade. Ao contrário da Espanha, que perdeu seu império americano, mas deixou um imenso mercado para o García Márquez e o Vargas Llosa, Portugal não foi muito pródigo com a sua língua. Seus navegadores, catequisadores e comerciantes apenas largaram palavras avulsas pelos caminhos da sua exploração do mundo, como pepitas raras. Até hoje na Costa Ocidental da África usam a palavra "dash" para gorjeta. Vem do português "deixar", como em "Vou deixar uns trocados para você, ó mameluco!". No Japão, o prato de camarão com legumes fritos chamado "tempura" tem este nome por causa dos portugueses que só comiam peixe durante os "Quattuor Tempora", ou Quatro Tempos, de cinzas e contrição, do ano litúrgico. O "mandarim" chinês vem de "mandar" mesmo, combinada com o sanscrito "mantrin", ou conselheiro. Algumas palavras portuguesas andaram pelo mundo e voltaram com seu sentido mudado. "Casta", substantivo, camada social, vem do português "casta" adjetivo. "Fetiche" começou a vida como feitiço. E o "joss" do chinês pidgin, significando ídolo, é uma corruptela do "Deus" chiado dos portugueses. Enfim, não é muito, mas é nosso.

Ecos da Copa de 98


Agora pode ser revelado! Não, não o que aconteceu com o Ronaldinho antes da final da Copa, mas um teipe preparado pela embaixada brasileira em Paris com o consultor Jean-Paul Faisandê, para orientar os torcedores brasileiros que chegavam na França para ver a Copa.

Jean-Paul Faisandê ― Torcedor brasileiro: attention. Não ouse chegar na Coup du Monde sem antes tomar lições de etiquette. É para isto que eu, Jean-Paul Faisandê, estou aqui. Para evitar que você envergonhe o seu país na França, comportando-se como um brasileiro. Primeira lição de etiquette: como entrar num bistrô parisiense. A cena que veremos a seguir, graças a Deus, é uma simulação.

Torcedor brasileiro, de bermuda e camiseta, carregando um bumbo e uma bandeira do Brasil, acompanhado da sua mulher também de bermuda e camiseta entra num bistrô parisiense espalhafatosamente. Escolhem uma mesa e o brasileiro grita para o francês atônito atrás do balcão.

Brasileiro ― Ó, amizade. Baixa uma ceva, dois copos e uns quesquecê aí pra beliscá.

Faisandê (entrando na cena) ― Arréte, arréte, arréte! Está tudo errado. Para começar, mude imediatamente de roupa.

Técnica: as bermudas e a camiseta se transformam imediatamente em terno e gravata.

Faisandê ― Livre-se desse bumbo ridículo.

O bumbo desaparece.

Faisandê (depois de examinar a mulher e hesitar) ― E desta mulher também.

Mulher (começando a protestar antes de desaparecer também) ― Espera um po...

Técnica: mulher desaparece.

Faisandê ― Essa bandeira... Não tem uma mais discreta?

Brasileiro (segurando a bandeira contra o peito) ― Epa. A bandeira fica.

Faisandê (suspirando) ― Está bem. Alors, num bistrô não se entra assim, à la façon de Miguelon. Você espera na entrada para ser recebido e levado à sua mesa. Vamos de novo.




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