Luis fernando verissimo Crônicas Selecionadas da coluna do Estadão



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Brasileiro entra no restaurante e fica esperando que o francês venha recebê-lo, com Faisandê ao seu lado para instruí-lo. O francês não vem.

Brasileiro ― Ó, amizade!

Faisandê ― Amitiê.

Brasileiro ― O, amitiê! Gente boa!

Faisandê ― Bon gens.

Brasileiro ― Bon gens! Comandante!

Faisandê ― Commandant!

Brasileiro ― Commandant! Meu chapa!

Faisandê ― Me plaque!

Brasileiro ― Me plaque! (para Faisandê) Ele não vem...

Faisandê ― Espere. Civilização é saber esperar. Ele vem vindo...

Brasileiro ― Mas nessa velocidade? Ó lesma!

Faisandê ― Escargot.

Brasileiro ― Escargot!

Corta para brasileiro e Faisandê sentados à mesa do bistro. O brasileiro tem um prato de escargots à sua frente que contempla com cara de nojo.

Faisandê (para a câmera) Segunda lição de etiquette: como comer num restaurante francês. Pediu escargot, tem que comer. Antes de mais nada, certifique-se que o escargot está pronto para ser comido. Se ele ainda estiver se mexendo, é porque não está pronto.

Brasileiro ― Olha, aquele ali está tentando fugir do prato.

Faisandê ― Deixa ele ir. Agora, a correta escolha do talher para comer o escargot.

Há uma fileira de talheres ao lado do prato que o brasileiro vai mostrando.

Mostra um garfo grande.

Faisandê ― No-no-non.

Brasileiro mostra um garfo pequeno.

Faisandê ― No-no-non.

Brasileiro mostra uma colherinha.

Faisandê ― No-no-non. (pegando a agulha que é a última coisa na fileira de talheres). Voilá. Enfie na concha e pesque o escargot.

Brasileiro enfia a agulha e tira um pedacinho mínimo de carne, que olha com mais nojo ainda.

Brasileiro ― Não vou conseguir. Quero pedir outra coisa.

Faisandê (com um suspiro de resignação) ― Trés bien. (entregando um cardápio). Le menu.

Brasileiro (olhando o menu) ― Está aqui o que eu quero. Uma boa carne. Este bife tartar deve ser bárbaro.

Faisandê (tirando o menu das suas mãos e pedindo para o garçom). Le tartare.

O prato é servido em seguida, provocando outra cara de nojo no brasileiro.

Brasileiro ― O que é isto?!

Faisandê ― Boeuf tartare. Carne crua picada.

Brasileiro desiste. Levanta-se, virando a mesa.

Brasileiro ― Eu vou me embora! Devolve o meu bumbo e a minha mulher!

Faisandê ― Monsieur!

Brasileiro ― Eu quero meu bumbo e a minha mulher!


El Dorado

Do baú. O Brasil mantém vivos alguns dos mitos que faziam os europeus se lançarem ao mar em cascas de nozes na conquista do desconhecido. Eles vinham para este Outro Mundo para explorar, subjugar, catequizar e ― no caso dos portugueses ― porque era preciso, mas também vinham atrás de fantasias. E uma das mais, assim, chamativas era a fantasia erótica.

A expansão do Cristianismo se misturava com a expansão dos sentidos reprimidos na Europa da Reforma. Não é preciso ir além de Os Lusíadas para flagrar (como fez, num livro fascinante chamado The Book of Babel, o inglês Nigel Lewis) a confusão, nas almas navegadoras portuguesas, entre a Virgem Maria, padroeira de Portugal e protetora dos seus navios, e Vênus, a estrela do mar, guiando-as para a Ilha do Amor e outros prazeres pagãos em paraísos ainda não conquistados.

A Virgem com ares de Vênus de Camões é um pouco a Vênus com cara de Virgem de Botticelli, saindo de dentro de um "coquille Saint Jacques", outra tentação marítima.

A confusão é antiga. Maria vem de "mare". Afrodite, o outro nome de Vênus, quer dizer "nascida da espuma" ("aphrós", em grego). A espuma do mar tem conotação sexual e simboliza o esperma em vários mitos de origem ― e não vamos nem falar nas alusões sexuais de conchas e moluscos.

A fantasia era poderosa, e os fatos muitas vezes a reforçavam, com simbolismo irresistível. A grande aventura atrás de lucro e conhecimento, mas insuflada pela testosterona, teve uma espécie de síntese casual na primeira viagem do capitão Cook, em 1769. A viagem era para fazer um estudo astronômico da trajetória de Vênus. Acabou na descoberta da Polinésia, um arquipélago do Amor, e das suas nativas desinibidas e dadas.

Hoje os turistas sexuais que desembarcam de aviões no Rio ou no Nordeste brasileiro dispensam a estrela-guia sedutora. Navegam pela nossa reputação, mas perseguem a mesma fantasia. E o que os entusiasma nas nossas nativas pré-adolescentes devem ser as mesmas "vergonhas tão altas e tão cerradinhas, de a nós muito bem olharmos, não tínhamos nenhuma vergonha" que entusiasmaram Pero Vaz de Caminha há 500 anos. Nada, na verdade, mudou.

Outro mito que o Brasil se encarregou de não deixar morrer é o de El Dorado, a fantasia da fortuna instantânea. El Dorado existe, e é aqui. Ou foi aqui, nos últimos anos, quando alguns bancos lucraram o que provavelmente ninguém tinha lucrado num único período, dentro da lei, em 500 anos de história. E não tiveram nenhuma vergonha.


Eliot e o Groucho


O poeta T.S. Eliot era um admirador de Groucho Marx e os dois se encontraram para almoçar um dia, em Londres ― porque Groucho perdeu a oportunidade de dizer que se recusava a almoçar com um poeta que almoçava com gente como ele.

Não se sabe o que falaram durante o almoço, tudo são especulações.

Como esta:

Eliot ― Abril é o mais cruel dos meses...

Groucho ― E eu não sei? É quando preciso pagar meu Imposto de Renda.

Eliot ― Você notou como o céu lá fora parecia um paciente eterizado, estendido sobre uma mesa?

Groucho ― Não, mas uma nuvem me lembrou minha tia Sarah saindo do banho.

Eliot (examinando uma fruta do arranjo no centro da mesa) ― Eu ouso comer um pêssego?

Groucho (confuso) ― Já estamos na sobremesa? Que fim levou o almoço?!

Eliot ― Na cozinha as mulheres vêm e vão, falando de Michelangelo.

Groucho ― E da sua receita para o fettuccine, eu espero. Escuta, T...

Eliot ― Eu envelheço, eu envelheço. Usarei minhas calças enroladas no começo.

Groucho ― Por favor, poupe-me os detalhes. Mas T...

Eliot ― Shantih shantih shantih.

Groucho ― Certo. Mas por que era mesmo que você queria falar comigo?

Eliot ― Nós somos homens ocos, homens empalhados, escorando-nos um ao outro, com nossas cabeças cheias de feno. Alas! Nossas vozes secas, quando murmuramos juntos, são quietas e sem sentido, como o vento na grama seca, ou os pés de ratos sobre vidro partido, no nosso porão ressequido.

Groucho ― Não sei se concordo mas, por via das dúvidas, vou apagar o charuto. Ouça, T... Ou devo chamá-lo de S?

Eliot ― Haverá tempo, haverá tempo de preparar um rosto para encontrar os rostos que encontramos; tempo para assassinar e para criar, e tempo para todos os trabalhos de dias e de mãos que erguem e deixam cair uma pergunta no seu prato; tempo para você e tempo para mim, e ainda tempo para cem indecisões, e para cem visões e revisões, antes da nossa torrada com chá.

Groucho ― Torrada? Chá? Pergunta no prato em vez de comida? Está certo que você queira ser mais inglês do que os ingleses, meu caro, mas eu já tenho uma raça, obrigado. Bem que me disseram que a anglofilia é uma forma de jejum. Garçom!

Eliot ― É assim que termina o mundo, não com um estouro, mas com um gemido.

Groucho ― Não quero dizer nada, mas isso pode ter sido a minha barriga.

Eliot ― Esta é a terra morta, a terra dos cactos. Aqui se erguem as imagens de pedra, aqui elas recebem a súplica da mão de um morto, sob o cintilar de uma estrela evanescente.

Groucho ― E não só isto: o serviço é péssimo.

Eliot ― Entre o desejo e o espasmo, entre a potência e existência, entre a essência e a decadência, cai a Sombra.

Groucho ― E você também não me parece muito bem, E. Deixe eu tirar seu pulso... Hmmm. Ou o meu relógio parou ou você está morto. Que é o mais inglês que alguém pode ficar, segundo dizem. Parabéns. Garçom, chame um médico. Me peça uma pizza. Faça alguma coisa!

Eliot ― Eu devia ser um par de garras serrilhadas escapulindo pelo chão de mares silenciosos...

Groucho ― Não antes de pagar a conta!

Emotiva
Quando a Maria Helena ficou grávida, e era o primeiro filho, ela ficou muito emotiva. O Raul descobriu isso um dia quando entrou na cozinha e a encontrou sentada na frente de uma torrada, chorando. Levou um susto:

― O que foi?!

A Maria Helena nem podia falar.

― Que foi, Maria Helena? Tá sentindo alguma coisa?

A Maria Helena soluçava.

― Alguém telefonou? Alguma má notícia?

Maria Helena sacudiu a cabeça. Apontou para a torrada.

Conseguiu dizer:

― Essa torrada!

― O que tem a torrada?

Ela estava começando a se controlar.

― Não tem nada. É que eu vi a torrada, assim, no prato...

E Maria Helena caiu de novo num choro convulsivo. Só muito depois pôde explicar que a torrada, daquele jeito, a deixara comovida.

Que jeito, Maria Helena?

― Assim, no prato. Sozinha. Úmida de manteiga. Com as bordas queimadas. Sei lá, eu...

O choro não deixou Maria Helena terminar.

No outro dia foi uma nuvem. Maria Helena chamou o marido para ver pela janela. Uma nuvenzinha cor-de-rosa, no fim do dia. Tão... Tão... O Raul teve que amparar a mulher, que chorava de ganir contra o seu peito.

Passou todo mundo a esperar as crises emotivas da Maria Helena. O Raul telefonava para os amigos. Contava:

― Desta vez foi aquele comercial da TV. Dos detergentes. Ela ficou com pena do que não lavava tão branco. Chorou a noite inteira!

Mas o cúmulo foi quando, numa reunião, o Almir mostrou o celular novo que tinha comprado, um que cabia no bolso da camisa. A Maria Helena não agüentou. Tiveram que trazer água para acalmá-la. E o pior é que sua emoção era contagiante. Já tinha mais gente com lágrimas nos olhos, enternecida, sem saber por que, com o celularzinho do Almir.

O Raul não via o dia daquele bebê nascer.


Entrega em domicílio


Não sei quando será, mas não deve demorar. O lugar? Qualquer grande cidade brasileira. Noite. É cedo, mas não se vêem carros nas ruas nem gente nas calçadas. Só o que se vê são motociclistas. Suas motocicletas têm caixas atrás, para carregar os pedidos. São entregadores. Motoboys. Teleboys. Eles se cruzam nas ruas vazias, em disparada. Como os carros não saem mais à noite, e os motociclistas não os respeitam mesmo, os faróis semafóricos não funcionam. O amarelo fica piscando a noite inteira, e nos cruzamentos a preferência é dos entregadores mais corajosos. Há várias batidas e pelo menos um morto por noite. Mas o número de motociclistas nas ruas não pára de crescer.

A população não sai mais de casa. Tudo é pedido pelo telefone. Os restaurantes despediram seus garçons e trocaram por motoboys. Telegarçons. Se você quiser um jantar fino à luz de velas, com vários pratos, sobremesa e vinho, existem serviços de entrega para tudo. Um entrega os pratos finos. Outro a sobremesa. Outro os vinhos. Outro a toalha de linho, os talheres e as flores. E já há um televelas.

Como as pessoas não saem à noite e ninguém mais vai jantar na casa de ninguém, há uma cooperativa que se prontifica a mandar os próprios teleboys como convidados a jantares finos. A telenós. Você especifica o tipo de conversa que quer à mesa ― mais ou menos intelectual, divertida, safada, política, variada, etc. ― e na hora marcada chegam os telecomensais, no número e com o traje que você quiser. Eles comem, conversam, elogiam os anfitriões e vão embora ou, por um adicional, limpam a cozinha.

Como a sociedade passou a depender deles para tudo, é natural que comece a haver distorções criminosas no mundo da entrega em domicílio e teleboys se aproveitem do seu poder para aterrorizar a população. Você abre a porta para o entregador de pizza com a mussarela pequena que pediu e de repente se vê acossado por um bando de dez, cada um com uma caixa de supercalabresa que você é obrigado a pagar, e ainda dar gorjeta. Não adianta você telefonar para a polícia. A polícia também não sai mais na rua. Existe um serviço de telessocorro que fornece ajuda parapolicial, mas eles não agem contra teleboys. O corporativismo da classe é forte.

Os motoboys dominam a noite da cidade e desenvolveram uma cultura própria. Têm seu folclore, seus mitos, seus heróis. Como "Fast Boy" Menezes, que entrega sorvete na mão em qualquer ponto da cidade e você não paga pela parte que derreter. Ou Jorge ("Armário") Freitas, que adaptou sua moto para carregar qualquer coisa, bateu o próprio recorde entregando um piano de cauda numa recepção improvisada ― com o banquinho e o pianista ― e morreu numa freada brusca, esmagado pela jacuzzi portátil que levava para uma festa gay.

Os motoboys terão o monopólio da aventura urbana, pois nem os táxis sairão à noite, já que ninguém mais irá a parte alguma. E com o aumento do número de motoboys e da competição entre eles, aumentarão os casos de pirataria, com motoboys sendo obrigados a entregar sua encomenda e o endereço do destinatário a motoboys clandestinos, que percorrerão as ruas da cidade em bandos selvagens, roubando dos motoboys mais fracos.

Não sei quando será, mas não deve demorar.

Era para ser outra coisa

Nunca contei esta história antes. Não sei por que vou contar agora. Talvez porque esteja chegando naquela idade em que as pessoas começam a se inventariar. Aquela idade em que o passado deixa de ser um rabo e passa a ser um cortejo, e a gente conclui que, já que ele tem esse tamanho, deve ter um significado.
No fim da tarde do dia 12 de fevereiro de 1970, eu, então com 33 anos, estava caminhando pela Praia de Torres, no Rio Grande do Sul. Caminhava sozinho na beira do mar, na areia dura. Tinha tirado os sapatos, que carregava nas mãos. Não havia quase ninguém na praia àquela hora e eu caminhava olhando para o chão. De repente, levantei a cabeça e vi uma coluna de luz que se movia na minha direção. Olhei para o alto, procurando a origem da luz, mas em seguida me vi envolvido pela luminosidade, tão intensa que me cegou. Meus pés se desprenderam do chão, me senti transportado para o alto e quando recuperei a visão estava dentro de um domo de metal, diante de uma espécie de formiga branca e gigantesca cujos olhos pareciam perturbadoramente humanos.

Preciso dizer que nunca acreditei em disco voador e visitante de outros planetas, que sou um homem racional que vive com os dois pés no chão e, mesmo naquele momento, meu cérebro procurava uma explicação lógica para o que estava acontecendo. Mas meus pés decididamente não estavam mais no chão, eu fora tragado por um facho de luz, eu estava dentro de uma abóbada asséptica sendo examinado por uma bateria de olhos incrustados na cabeça de um monstro que não era deste mundo ― e o monstro começou a falar. Não vi por onde saía a voz, mas ele, ela, a coisa, falava português. Perguntou meu nome. Respondi. Absurdamente, fiz questão de dizer que o "Luís" era com "s".

Ele quis saber tudo a meu respeito. O que eu fazia, se tinha família. Contei que trabalhava numa agência de publicidade, que minha mulher estava grávida do nosso terceiro filho. A tudo que eu dizia ele fazia "Aaah!", como se minha resposta estivesse acabando com uma dúvida antiga. E aqueles olhos me examinando, voltando seguidamente para o par de sapatos que eu segurava numa mão, como se ele hesitasse em mencioná-los, por educação. Quando o interrogatório parecia ter terminado, perguntei onde eu estava. Ele não respondeu. Em vez disso me pediu perdão. Disse que eu ficaria paralisado por uns segundos, o bastante para que uma célula fosse injetada no meu organismo. Antes que eu pudesse perguntar "Uma o quê?", senti uma picada atrás da orelha direita e, quando tentei me virar, não consegui, estava petrificado.

Quando finalmente pude olhar para trás, não vi ninguém, a picada podia ter sido de um mosquito. Então, o formigão disse que eu tinha recebido uma missão. "Que missão?", perguntei. "Ela está no seu sangue, a célula lhe dirá o que fazer", disse ele. Comecei a protestar, a dizer "que brincadeira é essa?", a gesticular, e deixei cair os sapatos, e quando vi estava de volta à praia, no ponto exato de onde fora sugado. Me lembro que voltei para o nosso apartamento alugado, pensando no que ia dizer para a minha mulher sobre os sapatos. Não sei que desculpa inventei para o seu desaparecimento. Naquela noite, estranhamente, não pensei sobre o que tinha acontecido na praia. Era como se nada tivesse acontecido. A não ser pela comichão atrás da orelha.

Nas semanas, nos meses e nos anos seguintes ― na verdade, até agora ―, não foram poucas as vezes em que fui tomado por impulsos e visões. Volta e meia me surgia um nome na mente. Eu o ignorava. Uma vez recebi ordens interiores para embarcar urgentemente para o Nepal. Não fui. Histórias insólitas brotavam na minha cabeça, ímpetos inexplicáveis. Tudo, imaginava, parte da minha missão, tudo instrução da célula que corria no meu sangue emitindo ordens. Eu não dava bola. Eu nunca dei bola. No máximo aproveitava algum nome ou alguma situação nas minhas histórias. Quando sentia que era preciso fazer alguma coisa, em vez de fazer, escrevia. Em vez de obedecer à célula implantada e seguir seu plano, ou pelo menos descobrir qual era ― salvar a espécie, juntar-me com outros escolhidos para fundar uma civilização, explicar a galáxia para a minha raça ―, escrevi.

Durante todos esses anos desde aquele dia na praia, várias coincidências aconteceram em minha vida. Todos os números com mais de três algarismos que me dão ― todos: placas de carro, contas em bancos, guias de internamento, telefone ― contêm o número 48. Em qualquer quarto de hotel que eu me hospede, o canto da página 417 da Bíblia está dobrado, como se alguém tivesse marcado o lugar. Sempre que chego de avião a algum lugar, há uma pessoa no aeroporto com um cartaz nas mãos onde se lê o nome "Roszak", e a pessoa sempre me olha intensamente, como se esperasse que eu me identificasse. Nunca fiquei para ver se aparecia o tal Roszak. Nunca liguei para qualquer um desses sinais. Se é que são sinais.

Às vezes fico tentando decifrar, pelas minhas inclinações, pelas minhas vontades inexplicadas, qual era a intenção da célula. Qual era a minha missão, afinal. Nada envolvendo política, isso é certo. O objetivo não era o poder. Nenhum contato com líderes mundiais, para transmitir um ultimato ou um conselho. Acordo no meio da noite com fomes estranhas, mas duvido que alguma superior civilização extragalática tivesse vindo aqui só para me inocular com o desejo de banana com alcaparras. Quase me convenci de que a tal célula já saiu na urina há muitos anos. Mas persiste a idéia de que traí minha missão e algum tipo de retribuição me espera.

Uma vez, fui entrevistado por um grupo de colegiais. Quando se deu conta de que eu inventava as histórias, que todos os escritores inventavam as suas histórias e os livros que ela lia a enganavam, eram mentira, a menina ficou furiosa e me acusou com os olhos. A professora que acompanhava o grupo ainda riu e disse: "Não faz essa cara pro tio", mas a menina não me perdoaria. Fiquei tentado a explicar para ela o que tinha acontecido, a suplicar sua absolvição. Foi uma missão mal compreendida, entende? Era para ser outra coisa. Mas eu sabia que, por mais que jurasse que a história da praia era verdadeira, e até mostrasse o ponto vermelho que ficou atrás da orelha, ela não acreditaria.

Hoje, sei que eu devia ter avisado ao formigão que era um escritor. Se ele soubesse que eu já tinha a compulsão de inventar histórias como esta, não teria me confiado a missão e desperdiçado sua célula.

Por via das dúvidas, nunca mais caminhei sozinho pela beira da praia.


Escolha
Nélia ficou muito impressionada quando perguntou à sua amiga Laurita o que ela achava do Paulo Artur, da sua intenção de casar com o Paulo Artur, e a Laurita ficou olhando para ela em silêncio, depois disse:

― Nelinha você tem um compromisso com a espécie.

― O que?

Nélia não sabia de compromisso algum. Que espécie? Laurita suspirou e perguntou o que a Nélia estava pensando. Que a questão era só aquela? Que era simples assim, caso ou não caso? Que não havia uma história por trás da sua história pessoal, a história da raça, a história dos genes da raça? A espécie humana, Nelinha. A espécie humana. Você é responsável pela espécie humana.

Nelinha cada vez mais assustada.

― Eu?

― Somos nós, as mulheres, que determinamos a evolução da espécie. Nós somos as responsáveis. Você e eu, Nelinha. É assim em todas as espécies, a fêmea tem a última palavra sobre quem vai impregná-la, sobre que tipo vai se reproduzir, sobre qual corrente genética continua e qual acaba. Você já pensou nisso? No poder que você tem? Com um simples "não" você pode interromper uma linhagem de DNA que vem desde a criação do mundo. Recusando-se a ter seu filho, você pode, sem saber, estar negando a reprodução do último descendente direto de Adão, e bem-feito.



― Mas o Paulo Artur não...

― Nelinha. Escuta. O período de namoro, de noivado, é a oportunidade que nós temos de avaliar se o homem que pretende depositar sua semente em nós merece isso. Ele só quer cumprir o seu papel, que é passar adiante, por assim dizer, a sua encomenda genética. Não está nem aí. Cabe a nós ter critérios e selecionar os melhores, para o bem da espécie, Nelinha. A corte, o assédio, a conquista, tudo isso existe até entre os cascudos, Nelinha, até entre os cascudos e é a ajuda que natureza nos dá para fazermos a seleção. Para compararmos os machos em todos os quesitos que significarão a evolução ou o atraso da raça. Estejam eles trocando cabeçadas numa savana africana ou comparando bíceps ou carteiras de ações na nossa frente, os machos estão se entregando ao nosso escrutínio, à nossa sentença. Disputando a nossa aprovação e o privilégio de usarem o nosso ventre. Mas a decisão final é nossa. A responsabilidade é nossa, Nelinha.

Nélia ficou muda. Não sabia que era tão importante. Laurita arrematou, para completar.

― E o Paulo Artur, francamente...

Paulo Artur não tinha nada para contribuir à espécie a não ser sua cara. E uma coisa que a espécie decididamente não estava precisando era outra covinha no queixo.

Detalhe ― Quando o Reali Junior e a Amélia foram para Paris, onde ele é correspondente do Estadão, já tinha as suas quatro filhas, que cresceram lá. Periodicamente, eles traziam as meninas a São Paulo, para não perderem o contato com o Brasil e a família. Numa destas visitas as meninas foram apresentadas a uma coisa que nunca tinham visto: uma ratoeira. Reali mostrou como era o mecanismo simples, como colocavam o queijo para atrair o rato... E Mariana, a filha mais moça, então pequenininha, só fez uma pergunta:

― De que tipo é o queijo?

Foi quando o Reali e a Amélia se convenceram de que não tinha jeito, estavam criando uma francesa.

Talvez seja necessário ter se desacostumado com o Brasil, ou simplesmente ter outra sensibilidade, para dar importância ao detalhe que a gente não nota porque é brasileiro. Pelo noticiário do blecaute da outra semana, que entrou para a grande coleção de histórias mal contadas deste governo, alguém atento ao detalhe ficaria sabendo que, embora a maioria das companhias de energia continuasse estatizada, o regulador do setor era um empresa privada. Em vez de o governo controlar o privado, o privado controlava o governo. Ou tentava, porque o tal ONS ficou literalmente no escuro durante todo o episódio e dizem que continua com velas acesas porque ainda não lhe contaram que a luz voltou. Um acostumado com o Brasil não se surpreenderia com essa inversão, com o particular regulando o público, ou com a privatização começando justamente por onde nunca deveria chegar. Afinal, este foi o país que inventou a privatização com dinheiro público.

Escuta
Já que está se falando tanto em aparelhos de escuta, imagine se existisse um aparelho capaz de captar do ar tudo que já foi dito pela raça humana desde os seus primeiros grunhidos. Nossas palavras provocam ondas sonoras que se alastram e quem nos assegura que elas não continuam no ar, dando voltas ao mundo, junto com as palavras dos outros, para sempre? Como não parece existir fronteiras para a técnica moderna, o aparelho certamente se sofisticaria em pouco tempo e logo poderíamos captar a época que quiséssemos e isolar palavras, frases, discursos inteiros, inclusive identificando o seu lugar de origem. Sintonizar o Globe Theater de Londres e ouvir as palavras de Shakespeare ditas por atores da época elizabetana, com intervenções do ponto e comentários da platéia, por exemplo. Ouvir, talvez, o próprio Shakespeare falando. Ou tossindo, já que todos os sons que emitimos ― espirros, gemidos, puns também continuariam no ar para serem ouvidos. O grito do Ipiranga. Discursos do Rui Barbosa. O silêncio do Maracanã quando o Uruguai marcou o segundo gol. As grandes frases da humanidade, na voz do próprio autor! Descobriríamos que Alexandre, o Grande, tinha voz fina, que Napoleão era linguinha, que a primeira coisa que Cabral disse ao chegar ao Brasil foi "Diabos, enxarquei as botas"...




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