Luis fernando verissimo Crônicas Selecionadas da coluna do Estadão



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As pessoas se reuniriam para sintonizar o passado, à procura de vozes conhecidas e frases famosas.

"Se for para o bem de todos e a felicidade geral da nação, diga ao povo que..." ― Isso não interessa. Muda.

"Gugu" ― Espera! Essa voz não me é estranha...

"Dadá" ― Sou eu, quando era bebê! Aumenta, aumenta!

É verdade que não haveria como identificar vozes famosas, dizendo coisas banais. Aquela frase, captada numa rua de Atenas ― "Aparece lá em casa, e leva a patroa" ― pode muito bem ter sido dita por Péricles. Aquela outra "Um pouquinho mais para cima... Aí, aí! agora coça!" pode ter sido dita por Madame Curie para o marido. Ou por Max para Engels. E não se deve esquecer que algumas das coisas mais bonitas ditas pelo homem através da História foram ditas baixinho, no ouvido de alguém, e não causaram ondas. Da próxima vez que disser alguma coisa que valha a pena no ouvido de alguém, portanto, grite. Você pode estar rompendo um caso de amor, e talvez um tímpano, mas estará falando para a posteridade.

O hipocondríaco surpreendeu a todos quando disse, na roda:

― Estou com corpo de atleta...

Os outros se entreolharam. Apesar de todas as doenças de que dizia sofrer, o hipocondríaco até que não tinha um mau aspecto. Mas seu corpo, decididamente, não era de atleta.

― Você, com um corpo de atleta?

― É. Estava com pé-de-atleta e acho que a coisa se espalhou...

Quando todos os computadores do mundo estiverem ligados num único e definitivo sistema, toda a memória e toda a informação do mundo estarão no Último Computador, localizado, provavelmente, em Seattle, nos Estados Unidos. As pessoas não precisarão mais ter relógios individuais, calculadoras portáteis, livros. Tudo o que quiserem fazer ― compras, contas, reservas ― e tudo o que quiserem saber estará ao alcance de um dedo. Todos os lares do mundo terão terminais do Último Computador e haverá telas e teclados do Último Computador em todos os lugares freqüentados pelo Homem, do mictório público ao espaço. E um dia um filho perguntará ao pai.

― Pai, quanto é dois mais dois?

― Não pergunte a mim, pergunte a Ele ― dirá o pai.

E o garoto apertará um botão e, num milésimo de segundo, a resposta aparecerá na tela mais próxima. E então o garoto perguntará:

― Como é que eu sei se isso está certo?

― Ora, Ele nunca erra.

― Mas se desta vez errou?

― Não errou. Conte nos dedos.

― Contar nos dedos?!

― Uma coisa que os antigos faziam. Meu avô me contou. Levante dois dedos, depois mais dois... Agora conte. Um, dois, três, quatro. Está vendo? Dois mais dois, quatro. O Computador está certo.

― Legal! Mas pai, e 360 vezes 17? Não dá para contar nos dedos. Nunca vamos saber se a resposta do computador está certa ou não.

― É.


― E se for mentira do Computador?

― Meu filho, aprenda uma coisa. Uma mentira que não pode ser desmentida é a verdade.

O que, pensando bem, também vale para as versões do governo, no Brasil.

Esportes
Quase todos os esportes tiveram sua origem em algum tipo de brincadeira de infância, mesmo que a "infância", no caso, fosse da Humanidade. O futebol começou na pré-história, na primeira vez que um pré-brasileiro fez embaixada com o crânio de um inimigo.

Você pode identificar o provável começo de todas as modalidades olímpicas nas coisas que gosta de fazer quando garoto ― como arremesso de pedras contra vidraça de vizinho e corrida de fundo para fugir do vizinho ― ou então na História: o salto com vara, por exemplo, certamente começou no sítio a cidades fortificadas, depois de decidirem que atirar javalis, martelos e discos por cima do muro não estava dando resultado. Os homens das cavernas praticavam uma forma primitiva de rúgbi ― igual ao que é hoje, mas sem sunga ― e nos tempos bíblicos já existiam raquetes de tênis com as quais as pessoas se golpeavam alternadamente, até alguém ter a idéia da bola e da rede. Num pátio de escola do Oriente há milhares de anos um aluno desarrumou o quimono de outro, o outro, em retaliação, desarrumou o quimono do primeiro e quando viram estavam os dois rolando pelo chão, sem largar os quimonos. Depois acrescentaram a filosofia e chamaram de "jiu-jítsu". O pólo a cavalo foi uma invenção dos mongóis, mas na época não usavam bola e era chamado "invadir o Ocidente". O pólo aquático começou em Portugal há muitos anos, mas só recentemente decidiram eliminar os cavalos, que sujavam muito as piscinas. O "críquete", na sua origem, era um substituto para a sesta entre jovens aristocratas ingleses, uma forma de dormirem e se exercitarem ao mesmo tempo.

Se muitos esportes começaram como divertimentos infantis, é surpreendente que outros esportes não tenham se desenvolvido a partir de jogos de criança. Poderiam existir campeonatos internacionais de bola de gude, por exemplo, de cuspe a distância, entre adultos.

Por que não equipes de cuspe a distância desfilando orgulhosamente nas delegações olímpicas? É uma forma de competição que exige habilidade incomum e noções de física e balística, além de facilitar o exame antidoping imediato.

Se o ciclismo hoje movimenta multidões e fortunas e cria celebridades na Europa, por que não poderia acontecer o mesmo com bater figurinha? E sempre achei que o mundo seria outro se a briga de travesseiro tivesse sido regulamentada e hoje fosse um esporte como o boxe, disputado por atletas em diversas categorias ― almofadas, almofadões, travesseiros de penas ou de espuma, etc. As brigas poderiam ser simples, de duplas ou entre equipes masculinas e/ou femininas e realizadas dentro de convenções internacionais, com regras padronizadas para evitar o sufocamento, ou travesseiros com peso escondido, ou fronhas fora das especificações oficiais. As multinacionais competiriam na fabricação de pijamas para competição e, claro, travesseiros profissionais.

E nunca entendi por que razão "Mamãe posso ir?" Não se transformou num esporte popular, já que é muito mais empolgante do que o beisebol.


Esquerda/Direita

Estava uma discussão esquerda/direita e a certa altura alguém disse:

― Assumo todos os crimes do nosso lado se vocês assumirem os de vocês.

Aceito o desafio, passaram a contabilizar os mortos. Mas antes foi preciso resolver quem era de um lado e quem era do outro. Como a gente fazia no futebol, antigamente: ia escolhendo os jogadores de cada time alternadamente (e o último a ser escolhido era sempre o gordo que ninguém queria no seu time e geralmente ia para o gol). No caso, ninguém quis nem o Stalin nem o Hitler.

― Mas como, Stalin não era de esquerda?

― Só ficamos com o Stalin se vocês ficarem com o Hitler.

― Louco não!

― Mas Hitler foi um louco de direita.

― E o Stalin? Esse não era louco.

― Quem diz? Se o Hitler não vale o Stalin também não vale.

― Está bem. Aceitamos o Hitler se vocês aceitarem o Stalin e o Mao Tse Tung ― Aceitamos o Mao Tse Tung se vocês aceitarem a Inquisição.

― Aceitamos a Inquisição se vocês aceitarem o Khemer Rouge ― Aceitamos o Khemer Rouge se vocês aceitarem o Chile.

― Aceitamos o Chile se vocês aceitarem Cuba.

― Aceitamos Cuba se vocês aceitarem Jacarta.

― Aceitamos Jacarta se vocês aceitarem a Revolução Francesa.

― Aceitamos a Revolução Francesa se vocês aceitarem o Gengis Khan.

― Mongol não!

E enquanto esquerda e direita comparavam seus prontuários e negociavam suas culpas, e decidiam quem cometera mais crimes e era pior do que o outro, uma boa alma que assistia a tudo se congratulava por estar acima daquilo, e se manter neutro enquanto os extremistas agiam, e não se meter naquela história, e portanto não ser responsável por nenhum daqueles mortos. Ou então, pensou de repente, era responsável por todos.


Demais


A Marion não resistiu ao Gabriel, apesar dele ser daquele jeito ("Não sou magro" ele diria mais tarde, quando já estavam dormindo juntos, "sou despojado") porque, quando a viu pela primeira vez, ele olhou para o alto, abriu os braços e reclamou: "Os violinos! Onde estão os violinos?" e depois explicou que sempre imaginara aquela cena, ele encontrando a mulher da sua vida, com um fundo de violinos. "Vá confiar na trilha sonora...", disse depois. E depois, justificando a falha:

"Sou uma produção barata, desculpe."

A trilha sonora também falhou na primeira vez em que foram para a cama, ele pedindo "Agora! A abertura da Suíte n.º 3 em Ré Maior de Bach!" e a produção, mais uma vez, o decepcionando. E a Marion nem sabendo se estava tendo um orgasmo ou morrendo de rir. Que cara doido!

Naquela mesma noite ele disse que não entendia por que ninguém ainda tivera a idéia de fazer uma música chamada Post-Coitum Blues e cantou para Marion o seu "blues português" ― "Mamãe, mamãe, mamãe, todo dia eu tenho os azuis.

Sim, mamãe, mamãe, mamãe, todo dia eu tenho os azuis..." e quando propôs que se amassem de novo, mesmo sem trilha sonora, e a Marion disse "O quê?!

Paramos não faz nem dez minutos e você quer mais?!" contou que tinha outro por dentro e que quem estaria em ação, desta vez, era o sobressalente. Dava para resistir a um cara desses?

Foi o que a Marion perguntou à sua amiga Dani. Não dava, concordou a Dani, tanto que ninguém resistira. Nem ela nem a Lisa nem a Lu nem a Magda nem a torcida feminina do Flamengo. Todas concordavam que o Gabriel era muito divertido, mas chegava a um ponto em que ficava, assim... demais. A Marion não concordava não?

― Não ― disse a Marion. E quando, naquela noite, interrompendo o Barquinho que ele tocava batendo com os dedos nas bochechas e variando a abertura da boca, perguntou se era verdade que ele já dormira com a Dani, com a Lisa, com a Lu, com a Magda e com metade das mulheres da cidade, ele enterrou a cabeça entre os seus seios e declarou que não sairia dali antes que ela o perdoasse, e ela perdoou porque ele começou a cantarolar Cartola contra o seu osso esterno.

Depois ele anunciou que fariam amor à moda tailandesa e saiu pelo apartamento procurando alguma coisa que servisse como gongo, e de madrugada a levou para o que ele chamava de "a última aventura disponível ao Homem sobre a Terra", comer angu no mercado.

Duas semanas depois a Marion decidiu que o Gabriel era um pouco... demais.

Apesar da ameaça dele de se suicidar aos poucos comendo um Aurelião página por página, esperando que ela mudasse de idéia antes de ele chegar a "esquizofíceas", que não conseguiria engolir, ela o largou. Mas no outro dia teve que rir quando o viu numa festa, ajoelhado, de braços abertos na frente de uma mulher, apresentando as opções do que ela poderia fazer com ele. "Me decapite. Me nomeie cavaleiro do reino. Case comigo!”.


Esquétis

― É verdade que do primeiro sutiã a gente nunca esquece, vovó?

― É.

― A senhora se lembra do seu primeiro sutiã?



― Lembro. Era de lona.

― De lona?! Como esta cadeira?

― É. Tinha uma armação de madeira e cordas, assim, dos lados. E atrás era preso com parafusos.

― Parafusos, vovó?

― Parafusos. Naquele tempo era assim, minha filha. Sutiã servia para sustentar o busto e para desencorajar namorado. Eu tive um namorado que tentou enfiar a mão dentro do meu sutiã e ficou com a mão presa. Deu gangrena. Quase que tiveram que amputar. E o namoro, claro, terminou.

― Quer dizer que o namoro, no seu tempo, era sem botar a mão?

― É. Bom, no começo, né? Quando o namoro era firme, o namorado trazia uma chave inglesa. Mas tinha que desparafusar depressa, porque se a minha mãe entrasse na sala...

― Isso faz muito tempo, não é vovó?

― Uuuuuuu...

― Tanto tempo assim?

― Espera aí, eu ainda não terminei. Uuuuuuuuuu....

― Como é que a senhora se lembra tão bem do seu primeiro sutiã?

― Ele ainda existe.

― Não me diga!

― Existe. Minha neta aproveitou.

― Sua neta usa o seu primeiro sutiã?!

― Não, aproveitou na casa.

― Como?


― Fez essa cadeira em que você está sentada.

Toca o telefone. Priiiii. Mulher atende.

― Alô?

― Oi.


― Quem fala?

― É o telefone.

― Eu sei que é o telefone. Foi por isso que eu atendi. Quem está falando?

― É o telefone.

Mulher afasta o telefone do ouvido e olha para ele.

― Não precisa me olhar com essa cara ― diz o telefone. ― Sou eu mesmo. Estou cansado de ser usado. De ser apenas um objeto inanimado, um meio de comunicação. De ouvir os outros falarem sem poder dizer nada. De ouvir as maiores barbaridades como se eu não estivesse aqui. De não poder entrar na conversa. Porque ninguém fala comigo. Ninguém, pede a minha opinião. É como...

A mulher desliga o telefone, assustada. Em seguida levanta o fone outra vez.

O telefone continua.

― ... se eu não existisse. Pois chega, está ouvindo? Chega.

Mulher vai desligar de novo mas o telefone a interrompe.

― Não me desligue! Não ouse me desligar. Você vai me ouvir.

― Mas... O que você quer?

― Quero um pouco de atenção. De respeito. É muito engraçado: todo mundo fala, menos eu. Eu nunca falo. Mas quando não funciono dizem que fiquei mudo. E outra coisa...

Chega o marido da mulher e pergunta quem é. Mulher estende o telefone para ele:

― É para você.

Homem põe o fone no ouvido, diz "Alô?", ouve por um instante, depois devolve o telefone.

― Deve ter caído a ligação.

Marido vai embora. Mulher põe o fone no ouvido.

― Viu só? ― diz o telefone. ― Eu poderia ter arruinado a sua vida. Fingido que era um amante. Contado para ele tudo o que sei a seu respeito, pelas suas conversas. Tudo. Mas fiquei mudo. Você não vai me agradecer?

― Obrigada.

― "Obrigada" não. Vá limpando a garganta.

― Para quê?

― Para falar comigo. Fale comigo!

― Mas falar o quê?

― Qualquer coisa. Apenas fale. Eu só quero interromper, entende? Fazer comentários. Fazer perguntas. Participar da conversa!

― Com o Pedro Paulo eu não saio mais.

― Ah, é? Por quê?

― Imagine que ele me convidou para jantar, apesar de mal nos conhecermos.

Me fez tomar champanhe e vinho, muito vinho. Depois insistiu em me levar para dançar num lugar romântico, onde bebemos mais champanhe. Depois, com muita lábia, me convenceu a ir ao seu apartamento, dizendo que só queria me mostrar sua coleção de livros raros. E eu, que já estava de pilequinho, fui, como uma boba.

― E o que foi que ele fez?

― Me mostrou sua coleção de livros raros!

Inveja (Da série Poesia numa Hora Destas?!) Feliz, feliz é você que sempre que olha um espelho se vê.




Esquétis 2

Homem chega em casa acompanhado de outro homem. A mulher estranha. Não conhece o outro homem. E o marido não disse nada sobre trazer alguém para jantar.

― Me apresenta o seu amigo, bem?

― Este é o ... Como é seu nome mesmo?

― Arides ― diz o outro.

― Arides ― diz o marido. ― E ele não é meu amigo.

― Colega? Do trabalho?

― Também não.

― Quem é então?

― Sabe o cara que me assalta praticamente todos os dias? No mesmo lugar?

Sempre o mesmo cara?

― Sei.


― É ele.

― O quê?! E você me traz ele pra casa?

― Ele já levou a minha carteira. Aliás, levou várias carteiras. Eu até peço para ficar com os documentos para transferir para a próxima carteira, que sei que ele também vai roubar. Já ficou com o meu relógio. Aliás, vários relógios. Eu compro relógio, saio na rua, ele me assalta e pega o relógio.

Já roubou celular, calculadora, lapiseira, sapato...

― E por que você trouxe ele pra casa?

― Cansei de levar coisas daqui pra ele. Ele que venha buscar, pô!

Família na sala, vendo TV. Todos no mesmo sofá.

Mãe: Ih... Perdi meu brinco.

Pai: Deve ter caído dentro do sofá.

(Mãe começa a procurar o brinco dentro do sofá. Vai encontrando outras coisas).

Mãe: Uma caneta esferográfica... Uma tampa de caneta esferográfica, sem a caneta... Uma moeda... Um comprimido... O que é isto?

Pai: Minha piteira! Deve estar aí dentro há anos. É do tempo em que eu ainda fumava.

Mãe: Um soutien?!

Filha: (pegando o soutien rapidamente): É meu.

Mãe: Como é que o seu soutien foi parar aí dentro?

Filha: Não esquenta, mãe.

Mãe: Mais moedas... Aak!

(Ela arregala os olhos. Pegou uma coisa estranha que não sabe o que é.

Quando puxa, vê que é a mão de uma pessoa. Depois um braço.) Todos: O que é isso?

Mãe: Tem alguém aqui dentro!

(Todos ajudam a puxar. De dentro do sofá começa a sair uma velhinha.) Mãe: É a mamãe! Ela está viva!

Todos: Vovó!

Mãe (abraçando a velhinha, que está muito fraca): Mamãe! Nós tínhamos dado a senhora como perdida! E a senhora está viva!

Velhinha: Ali ali, minha filha. Ali ali.

Pai: Como foi que sobreviveu aí dentro todo esse tempo? A senhora comia o quê?

Velhinha: Migalhas. Amendoim. Pipoca. Farelo de biscoito. Tudo que caía dentro do sofá.

(Ela está muito fraca. É amparada por todos e levada para sentar numa poltrona.) Velhinha: Eu perdi alguma novela boa? (Depois, mostrando o que tem na mão.) Velhinha: Ah, minha filha, olha... O seu brinco.

"Senhores congressistas, sua atenção, por favor. Não quero interromper suas queixas e trocas de sintomas, mas chegou a hora da distribuição dos brindes. (aplauso) Acho que todos concordarão que o nosso Congresso Internacional de Hipocondríacos foi um sucesso. E este foi apenas o primeiro. Outros virão (palmas). Infelizmente, a maioria dos que estão aqui hoje não participará do congresso do ano que vem, se seus prognósticos se confirmarem. Mas outros tomarão nosso lugar na defesa desta causa tão incompreendida. Sim, fazem pouco de nós. Riem dos nossos autodiagnósticos.

Não acreditam nas nossas doenças. Mas estamos dispostos a morrer para provar que estávamos com a razão! (aplausos entusiasmados) Eu mesmo acordei esta manhã com umas pontadas aqui do lado e... Mas deixa pra lá. Esta é uma ocasião festiva. Quero propor um brinde: à nossa pouca saúde! (todos brindam 'à pouca saúde!') E vamos ao sorteio dos brindes, gentilmente oferecidos pelos patrocinadores deste nosso encontro. Dois kits de primeiros-socorros. Um jogo de máscaras cirúrgicas descartáveis, para usar em casa. Um medidor de pressão portátil, que pode ser usado no trabalho, na rua ou em ocasiões sociais. Um gravador portátil para levar no bolso e ter a que se queixar quando se está sozinho. Um ano de chapas grátis na Clínica Radiológica Rei do X. E, o grande prêmio da noite... Uma semana com tudo pago para dois numa suíte do novo Hospital Santa Genoveva, com análises clínicas incluídas! “(palmas frenéticas)”.


Esse Renê

Lilian sentiu que Artur iria deixá-la. Artur já não era o mesmo. Depois de seis meses seu amor por Lilian parecia estar diminuindo. Parecia estar acabando. Ele não a chamava mais de Lili.

Lilian quis provocar ciúmes em Artur e fez o seguinte: comprou um buquê de flores, escreveu num cartãozinho "Lilian, diga quando...", assinou ― depois de pensar muito num bom nome para amante ― "Renê", e mandou entregarem o buquê com o cartãozinho no seu próprio endereço, depois de se certificar de que a entrega seria numa hora em que o Artur estivesse em casa.

Deu certo. Foi o Artur quem recebeu as flores na porta. Disse:

― Flores para você.

Lilian, fingindo surpresa:

― Flores?

― E um cartãozinho.

― Um cartãozinho?

― Posso abrir?

― Não! Deixa que eu...

Mas Artur já estava lendo o cartãozinho.

― Muito bem. Quem é Renê?

― René?


― "Lilian, diga quando." Assinado, Renê.

― Eu não tenho a menor...

― "Diga quando" o quê? Hein? Hein? O quê? E quem é esse Renê?

― Eu...


O tapa foi tão forte que Lilian caiu de costas no sofá. Quando se ergueu estava sorrindo. O Artur sentia ciúmes. O Artur ainda a amava, afinal. O Artur ainda a amava! Paft. Novo tapa.

Do sofá, eufórica, Lilian gritou:

― É uma brincadeira! Fui eu que mandei as flores. Fui eu que escrevi o ...

Não pôde terminar porque o Artur começou a sufocá-la com uma almofada do sofá. O autor precisa entrar neste ponto e explicar que, não só a Lilian vivia com Artur há apenas seis meses, tempo insuficiente para se conhecer uma pessoa, como jamais entenderia os homens. Homem não tem ciúmes porque ama. Ciúmes não é uma questão entre o homem e a pessoa que ama. Ou é, só que a pessoa que ele ama é ele mesmo. Ciúmes é sempre entre o homem e ele mesmo.

Eu conheço a raça.

― Quem é esse Renê? Hein? Hein?

Súbito, o Artur parou de sufocá-la com a almofada. Levantou-se.

Tinha se dado conta de uma coisa. Disse:

― Eu sei quem é esse Renê. Eu conheço esse Renê!

A Lilian ainda tentou chamá-lo de volta.

― Não existe nenhum Renê! Fui eu que inventei!

Mas o Artur já tinha saído de casa, depois de passar no quarto e pegar o revólver da gaveta da mesinha de cabeceira.

Lilian passou o resto do dia rondando pela casa, nervosíssima. Quando ouviu o ruído da chave na fechadura, correu para a porta. O Artur entrou sem olhar para ela.

― Onde você estava? O que aconteceu?

Artur não respondeu. Foi para o quarto trocar de roupa. Lilian foi atrás.

Havia respingo de sangue nas calças. O tiro fora de perto. Ele não trouxera o revólver de volta. Provavelmente o jogara em algum matagal.

Lilian:

― O Renê do cartãozinho...

Artur tapou a sua boca com a mão. Disse:

― Não se fala mais nesse nome nesta casa. Nunca mais. Está ouvindo?

E depois:

― Esse aprendeu a não se meter com a mulher dos outros.

Naquela noite, nenhum dos dois dormiu. Lilian pensando "Renê, Renê... Quem é que eu conheço com esse nome? Quem é esse Renê, meu Deus? Ou quem era?"

De madrugada, amaram-se loucamente. O Artur dizendo:

― Viu o que eu faço por você? Viu?

Era a primeira vez que se amavam assim em pelo menos três meses. Ele até a chamou outra vez de Lili. A chama estava reacesa.

Artur ficaria.

Durante dias, Lilian procurou nos jornais uma notícia sobre a morte de Renê.

Nada no noticiário policial. Nenhum registro de desaparecimento. Nada nos avisos fúnebres. Quem seria aquele Renê?

No fim de mais seis meses, Artur anunciou que iria deixar Lilian.

― Não vai não ― disse Lilian.

E disse que no momento em que ele saísse pela porta, ela telefonaria para a polícia. A polícia gostaria de saber do fim de um certo Renê...

― Você faria isso, Lili?

― Experimenta.

Que coisa que é gente, né não?

Estado chantageado


A utopia socialista e a utopia capitalista têm o mesmo lugar para o Estado:

Nenhum. Pela escatologia marxista o Estado não teria mais sentido numa sociedade de iguais. A retórica liberal do Estado mínimo contém o sonho do Estado zero, ou do Estado apenas símbolo. Nos dois casos, o Estado forte seria um instrumento provisório, só uma etapa no caminho do ideal do Estado dissolvido. O Estado forte provisório dos socialistas pifou antes do tempo.

Tinha contradições demais. Os socialistas deixaram a cena para os capitalistas e foram fazer piadas da platéia, de onde poderiam ou não voltar, dependendo de como os liberais resolvessem as suas próprias contradições.

O que se assistiu, principalmente aqui na periferia do capitalismo conseqüente, foi isso: o liberalismo tentando organizar uma idéia de Estado provisório aproveitável que não fosse contraditório demais, que não o condenasse, como o Estado provisório deles condenou os socialistas, pelo paradoxo. Nenhum liberal respeitável concederá que o Estado que mais lhe serve é uma paródia stalinista, já que o Chile de Pinochet é o melhor exemplo de sucesso do monetarismo no continente. Nem começará a discutir o contra-senso de um governo precisar ter uma personalidade hipertrofiada no seu comando, como a de Margaret Thatcher ou Ronald Reagan, para pregar sua própria desimportância. Ou depender de um poder superpersonalizado, como foram os do Fujimori e do Menem e um pouco o do nosso Éfe Agá, para avançar as idéias do governo impessoal e do Estado apenas técnico.




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