Luis fernando verissimo Crônicas Selecionadas da coluna do Estadão



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Quando os liberais falavam num Estado que não atrapalhasse queriam dizer um Estado cúmplice, intervencionista mas "no bom sentido", definido pelo interesse deles. O Estado seria desnecessário para defender o bem público da voracidade natural do capital, o que só desestimularia o empreendimento, e deveria ser minimizado quando desse qualquer sinal de cumplicidade com o outro lado. Mas tornava-se imprescindível quando intervinha no mercado para dar subsídio a quem não precisava, como os bancos. Enquanto a utopia do Estado nenhum não chega, o capital contenta-se com um Estado conivente, condicionando a sua atividade normal à concessão de isenções e favores com dinheiro público. No Brasil, a caminho do seu fim, o Estado provisório dos liberais encontrou um meio-termo entre um Estado francamente refém do capital e um Estado irrelevante: um Estado chantageado.

Se a vitória do Lula significa a primeira conseqüência conseqüente do fracasso do modelo liberal na América Latina, vai ser curioso ver como o Estado será usado no seu governo, dentro das famosas "margens de manobra" limitadas que herdará. O Estado será cúmplice de que mudanças, e com que força, já que o esquema chantagista não fará o favor de acabar só em homenagem às covinhas do Lula? Ele não foi eleito para repetir nenhuma experiência de Estado forte socialista, mas também não foi eleito para continuar a utopia utilitária dos liberais, ou reconhecer que o Pensamento Único, afinal, tinha razão, e que não há alternativa viável para o que está aí. O voto em Lula foi um voto num governo intervencionista, mas intervencionista em que sentido, a favor de quem e, principalmente, contra quem?

Enfim, vão ser tempos interessantes.

Estragou a televisão


― Iiiih...

― E agora?

― Vamos ter que conversar.

― Vamos ter que o que?

― Conversar. É quando um fala com o outro.

― Fala o que?

― Qualquer coisa. Bobagem.

― Perder tempo com bobagem?

― E a televisão o que é?

― Sim, mas aí é a bobagem dos outros. A gente só assiste. Um falar com o outro, assim, ao vivo... Sei não...

― Vamos ter que improvisar nossa própria bobagem.

― Então começa você.

― Gostei do seu cabelo assim.

― Ele está assim há meses, Eduardo. Você é que não tinha...

― Geraldo.

― Hein?


― Geraldo. Meu nome não é Eduardo, é Geraldo.

― Desde quando?

― Desde o batismo.

― Espera um pouquinho. O homem com quem eu casei se chamava Eduardo.

Eu me chamo Geraldo, Maria Ester.

― Geraldo Maria Ester?!

― Não, só Geraldo. Maria Ester é o seu nome.

― Não é não.

― Como, não é não?

― Meu nome é Valdusa.

― Você enlouqueceu, Maria Ester?

― Por amor de Deus, Eduardo...

― Geraldo.

― Por amor de Deus, meu nome sempre foi Valdusa. Dusinha, você não se lembra?

― Eu nunca conheci nenhuma Valdusa. Como é que eu posso estar casado com uma mulher que eu nunca... Espera. Valdusa. Não era a mulher do, do... Um de bigode.

― Eduardo.

― Eduardo!

― Exatamente. Eduardo. Você.

― Meu nome é Geraldo, Maria Ester.

― Valdusa. E, pensando bem, que fim levou o seu bigode?

― Eu nunca usei bigode!

― Você é que está querendo me enlouquecer, Eduardo.

― Calma. Vamos com calma.

― Se isto for alguma brincadeira sua...

― Um de nós está maluco. Isso é certo.

― Vamos recapitular. Quando foi que nós casamos?

― Foi no dia, no dia...

― Arrá! Está aí. Você sempre esqueceu o dia do nosso casamento. Prova de que você é o Eduardo e a maluca não sou eu.

― E o bigode? Como é que você explica o bigode?

― Fácil. Você raspou.

― Eu nunca tive bigode, Maria Ester!

― Valdusa!

― Está bom. Calma. Vamos tentar ser racionais. Digamos que o seu nome seja mesmo Valdusa. Você conhece alguma Maria Ester?

― Deixa eu pensar. Maria Ester... Nós não tivemos uma vizinha chamada Maria Ester?

― A única vizinha que eu me lembro é a tal de Valdusa.

― Maria Ester. Claro. Agora me lembrei. E o nome do marido dela era... Jesus!

― O marido se chamava Jesus?

― Não. O marido se chamava Geraldo.

― Geraldo...

― É.


― Era eu. Ainda sou eu.

― Parece...

― Como foi que isso aconteceu?

― As casas geminadas, lembra?

― A rotina de todos os dias...

― Marido chega em casa cansado, marido e mulher mal se olham...

― Um dia marido cansado erra de porta, mulher nem nota...

― Há quanto tempo vocês se mudaram daqui?

― Nós nunca nos mudamos. Você e o Eduardo é que se mudaram.

― Eu e o Eduardo, não. A Maria Ester e o Eduardo.

― É mesmo...

― Será que eles já se deram conta?

― Só se a televisão deles também quebrou.

Estragou a televisão


Descobriram que há organismos que nascem e crescem em lugares que até pouco tempo eram consideradas impossíveis para a vida, como em torno das ventas vulcânicas no fundo do mar. A descoberta aumentou a perspectiva de se encontrar vida em outros planetas, pois nenhum dos nossos conhecidos é tão inóspito que não admitiria algum tipo de bactéria se reproduzindo na sua superfície, ou nas suas profundezas. Esses organismos que sobrevivem nas condições mais inesperadas têm um nome: extremófilos. Eles amam os extremos.

Dependem dos extremos para viver. Ou ― o caso da Narinha ― só se sentem realmente vivos perto dos extremos.

Havia, na turma, uma séria desconfiança de que a Narinha nascera numa rachadura do fundo do mar, e só respirara enxofre durante a infância. Isso explicava ela ter sobrevivido àquele seu amor pelos extremos que teria destruído qualquer outro organismo, que em qualquer outro organismo seria um sinal de vocação suicida. Na Narinha, não. A Narinha procurava os extremos, aproveitava intensamente os extremos e saía de cada novo encontro com um extremo rejuvenescida, pronta para um extremo maior.

Não se tinha notícia de um namorado da Narinha que não fosse no mínimo ou o dobro ou a metade da sua idade.

Uma vez a Narinha namorara um homem tão mais velho do que ela que o traíra com seu bisneto ― na cama do próprio velho enquanto ele dormia, pois a Narinha também gostava de riscos extremos e, mesmo, tinha que estar por perto para lhe dar o remédio na hora certa.

Outra vez encontraram a Narinha com o namorado num restaurante e ela anunciou que era uma ocasião especial: estavam comemorando o nascimento do primeiro pêlo pubiano dele, o que significava que ele já podia tomar vinho.

Mas o romance acabou logo em seguida quando a Narinha fugiu para Paris com a avó do rapaz, que fizera análise e descobrira que era lésbica, e que também foi abandonada quando a Narinha conheceu um estudante basco que planejava se atirar de pára-quedas sobre a embaixada espanhola com dinamite amarrada no corpo e, claro, não pode resisti-lo. Até conhecer um homem de 85 anos que a convidou para testar o funcionamento do pênis eletrônico que inventara em condições de gravidade zero, num jato em queda livre.

As convicções políticas da Narinha eram variáveis e quando queriam saber se ela era de extrema esquerda ou de extrema direita, ela costumava perguntar:

"Que dia é hoje?”

Por tudo isso, todos estranharam quando a Narinha começou a sair com o Miro.

O Miro era mais ou menos da sua idade. Nem muito mais velho nem muito mais moço. Funcionário público. Gostava de futebol mas não era fanático por nenhum clube. Lia pouco. Seleções, alguns livros de auto-ajuda. Também não era muito de cinema. Lamentava que não aparecessem mais filmes do Charles Bronson. Bebia com moderação, gostava de dormir cedo e, em matéria de política, não tinha opinião formada. Votava em quem parecesse mais honesto.

Sua filosofia era que, se todos no Brasil apenas fizessem o seu trabalho corretamente, como ele na repartição, este país tinha jeito sim. Pediram explicações à Narinha.

Por que o Miro?

― Cansei ― disse, simplesmente, a Narinha.

Era difícil acreditar que a extremófila cansara dos extremos. A Narinha acomodada? A Narinha dormindo cedo? A Narinha concordando que a verdade está sempre no meio-termo, como gostava de dizer o Miro? A Narinha moderada?!

Impossível. E começaram as especulações. O Miro seria um extremista disfarçado. Seu exterior de pão-de-ló esconderia um coração de Al Qaeda. Ou ele era alguma coisa extrema na cama, alguma coisa que a Narinha não encontrara em moços, velhos, lésbicas ou acessórios.

Mas não. Miro parecia ser exatamente o que parecia ser. Qual era a explicação? Não havia explicação racional. Até que um dia alguém notou a expressão no rosto da Narinha enquanto o Miro descrevia o novo método de arquivamente que inventara para o escritório. A adoração, quase o gozo, no rosto de Narinha. Era isso! Era a explicação.

― Vocês já notaram como o Miro é chato?

― É, coitado.

― Não, o Miro é muito chato. O Miro é extremamente chato.

E então todos se deram conta. A Narinha não mudara.

― O Miro é, provavelmente, o homem mais chato do mundo!

Claro. A Narinha sentira a necessidade de abandonar sua vida de loucuras e encontrar alguém normal. Mas, uma extremófila irrecuperável, não se contentaria com alguém apenas normal. Tinha que ser alguém radicalmente normal. Um chato até as últimas conseqüências.

E até hoje, quando o Miro diz coisas como "Eu, se não durmo minhas oito horas por noite, fico imprestável" a Narinha olha em volta, radiante, desafiando alguém da turma a produzir um chato mais chato do que o dela.


Satisfações


Da recepção avisaram que tinha um Carmano para falar com ele. Carmano, Carmano... O nome não lhe era estranho. Queria falar com ele ou com qualquer um do jornal?

― Pediu para falar com o senhor.

― Manda subir.

Estava só ele na redação. Às quintas, sempre ficava até mais tarde para fechar o caderno de cultura que saía nos domingos. Fazia o caderno de cultura quase que sozinho. Editava, diagramava, escrevia resenhas...

Resenhas. Era isso. Comentara um livro desse Carmano semanas antes. Um livro policial. Metera o pau. Na certa o tal de Carmano viera pedir satisfações.

Tarde demais para barrá-lo na recepção. Ele estava subindo. Ele estava no elevador. Talvez já engatilhando a pistola com que se vingaria da crítica.

Ou seria uma navalha? No livro o assassino usava uma navalha.

Mas o Carmano que entrou na redação parecia estar desarmado. Era um homem franzino, camisa fora das calças, mais moço do que ele. Chamou-o de senhor.

― O senhor é o Zardo do caderno de cultura?

― Sou eu.

Ele estendeu a mão.

― Carmano. O senhor escreveu sobre o meu livro na semana passada.

― Ah, certo. Certo. E aí? Tudo bem?

― Eu só queria fazer uma pergunta.

― Faça.

― O senhor...

― Me chame de você.

― Você disse que a cena do crime era inverossímil. O cara sozinho no local de trabalho. Como o criminoso iria saber que o cara estava sozinho, lembra?

― É. Olha. Inverossímil, não. Achei meio forçado.

― O senhor escreveu "inverossímil".

― No sentido de forçado. Improvável. Coincidência demais.

― Era só o assassino investigar a vida do cara para descobrir os seus hábitos, a sua rotina de trabalho. A cena não era inverossímil.

― Mas você não escreveu nada sobre essa investigação. Ficou parecendo que o assassino foi matar o cara contando com a coincidência, contando com a eventualidade de ele estar sozinho. Quer dizer...

― Mas a investigação está subentendida.

― Não. Péra um pouquinho. Você não pode pedir que o leitor subentenda nada.

É como pedir que ele faça o seu trabalho por você. O leitor só sabe o que você diz pra ele. Só sabe o que você quer que ele saiba.

― Como é que você sabe?

― Eu sei, meu caro. Estou cansado de ler policial. E sempre me coloco no lugar do leitor comum. E o leitor comum nunca subentende. Entende o que você lhe conta ou não entende nada. Subentender, nunca. Não é a função dele.

― Se for inteligente, subentende. Talvez você não seja um leitor inteligente.

― Bom, se você vai partir para...

― Por exemplo: o que o senhor subentende da minha presença aqui, hoje, a esta hora?

― O quê?

― Não está subentendido que eu pesquisei a sua vida, descobri a sua rotina de trabalho e sabia que às quintas você fica até tarde na redação, e que a esta hora estaria aqui sozinho? Aqui onde eu posso matá-lo sem que ninguém veja, e ninguém descubra até eu estar longe?

― Me matar?

Carmano levou a mão direita às costas. Disse:

― Não está subentendido que eu tenho uma arma na cintura, aqui atrás?

― Que arma?

― Subentenda.

― Navalha?

― Vejo que o senhor leu meu livro com atenção. Não gostou, mas leu até o fim. Outra pergunta. Por que o senhor disse que a identidade do criminoso ficava evidente desde o começo, no livro?

― Porque o criminoso era obviamente o menos provável, o que parecia mais inofensivo, o que ninguém desconfiaria.

― Por que era um insignificante como eu?

― Não. Eu...

― O senhor acha verossímil que eu tenha uma navalha aqui atrás?

― Acho. Quer dizer...

― Pois não é uma navalha.

Carmano começou a movimentar o braço lentamente, para mostrar o que tinha na mão escondida.

Zardo:


― Você vai me matar por causa de uma resenha? Só porque eu...

― Você me ridicularizou. Você me chamou de inocente inútil. Disse que eu tinha muito que aprender sobre livros policiais e que a primeira lição era não fazer outro.

― Mas eu gostei, viu? Eu gostei! Achei um pouco forçado mas...

Carmano mostrou a mão. Ela também não segurava uma pistola. Imitava um pistola, com dois dedos estendidos. Que ele apontou para a testa de Zardo.

― Veja. Uma pistola subentendida.

E fez:


― Pum!

Depois que se recuperou, Zardo ligou para a recepção e deu ordens para nunca mais deixarem entrar alguém para falar com ele, às quintas. Naquele domingo sairia uma resenha dele metendo o pau no trabalho de uma nova poeta. Era só o que faltava, a poeta também ir pedir satisfações.

Talvez agredi-lo com o salto do sapato. Ou coisa pior. Com as poetas, nunca se sabe.


Fase 4

O nome era Tratamento de Emergências Sexuais Assinérgicas e Orgânicas e as pessoas geralmente só se davam conta que a sigla era "Tesao", com o til subentendido, quando já tinham iniciado o tratamento. Que sempre começava com uma entrevista.

― Como podemos ajudá-lo?

― Eu não estou mais conseguindo, doutor.

― O quê?

― Ter uma ereção.

― Sim. Sempre, ou de vez em quando?

― Sempre. Isto é, nunca.

― Vamos dar um jeito nisso. O senhor sabe como nós trabalhamos?

― Não, eu...

― Passe para a salinha ao lado, tire toda a roupa e deite-se. De costas. O homem passa para a salinha ao lado, tira toda roupa e deita-se de costas. Dali a instantes entra uma moça vestida de enfermeira que também tira toda a roupa e deita-se ao lado do homem. Ela é linda. Seu corpo é escultural, e não estamos falando do Giacometti. O homem hesita, depois pergunta:

― O que nós vamos fazer?

― Conversar.

― Conversar?

― Bem, eu vou falar. Mas o senhor pode fazer perguntas, se quiser. E a moça passa a relatar sua vida sexual. Desde a primeira vez, aos 16 anos, com o namorado, e os pontos altos desde então. O que fazia, o que gostava, as experiências com posições diferentes, combinações de parceiros, acessórios... Depois de uma hora, o médico entra na salinha.

― E então?

― Nada ― diz a moça, vestindo-se.

― Nada ― confirma o paciente.

― Nem um tremor? Nem um abano?

― Nada.


― Muito bem ― diz o médico. ― O estímulo verbal não funcionou. Vamos passar para a Fase 2.

― Fase 2?

― A Sandrinha.
* * *
A Sandrinha também é linda. E a Sandrinha também tira toda a roupa, assim que o médico sai da salinha. Mas a Sandrinha não se deita ao lado do paciente. Trouxe seus óleos e pomadas e começa a massagear o paciente, concentrando-se na área deficiente. Sem resultado. Quando o médico volta, uma hora depois, ela apenas sacode a cabeça. Nada. ― Nada ― confirma o paciente.

― Nem um aceno? Nem um bom-dia?

― Nada.

― Muito bem. O estímulo manual também não funcionou. Vamos passar para a Fase 3.


* * *
A Fase 3 é a Mônica. Outra beleza. Que também tira toda a roupa. E em seguida dá ao paciente uma pílula e, enquanto o paciente toma a pílula com a ajuda de um copinho d'água, tira da sua maleta uma seringa e uma agulha.

― Epa ― diz o paciente, quando vê a seringa.

― Não vai doer nada ― diz a Mônica, ajustando a agulha. ― Vire-se de bruços. Realmente, a injeção na nádega não dói nada. Mas o homem arregala os olhos quando vê a Mônica mergulhar a mão na maleta outra vez.

― O que você vai fazer agora?

― Esperar para ver se faz efeito ― diz Mônica, sorrindo.

E tira de dentro da maleta uma revista para ler enquanto espera.

― Vire-se ― instrui Mônica.

O paciente fica deitado de costas e a Mônica fica lendo a sua Caras, e às vezes espiando para ver se há algum movimento, por uma hora. Até o médico reaparecer.


* * *
― Nada?

― Nada.


― Bom ― diz o médico. ― O estímulo verbal não funcionou, o estímulo manual não funcionou, o estímulo químico não funcionou...

― Eu estou desenganado, doutor?

― Nós nunca desistimos. Já estabelecemos que seu caso não pode ser resolvido cientificamente. Esqueceremos a ciência e passaremos à Fase 4.

― A Fase 4?

― A Jandira.
* * *
A Jandira já entra na salinha nua. É uma mulher magnífica, negra, com grandes seios, perfumada, ondulante. Como que por mágica, a iluminação da salinha diminui à sua entrada e sons de tambores enchem o ambiente.

― Oi, bem ― diz Jandira, com sua voz rouca.

― Oi...

― Vamos começar?

― Va-vamos. Eu só acho que não vou con...

― Vai sim. Deixe que eu faço tudo.

O paciente fecha os olhos e se prepara para ser montado por aquele corpo quente, apertado por aquelas coxas lustrosas, docemente sufocado pelo volume daqueles seios rijos... Mas só o que sente são alguns respingos na barriga. Abre os olhos e vê que Jandira está espargindo um líquido sobre seu pênis com um galho do que parece ser arruda. Ela está de olhos fechados, com o rosto voltado para o alto, e começa a entoar:

― Iamantuê nanguem babô, iamantuê nanguem babô...

Uma velha encantação para convocar o espírito dos mortos.

Filhos
Antigamente não se sabia se ia ser homem ou mulher. Diziam que dava para ver pelo formato da barriga. Barriga pontuda, macho. Barriga redonda, fêmea. Não há estatísticas que mostrem se as barrigas acertavam mais do que erravam. Mas crenças como esta sobrevivem justamente porque independem da estatística.

Hoje pode haver um desencontro de informações.

― O exame deu que é homem mas a barriga está redonda.

― O que você acha?

― Os aparelhos se enganam. Não vê como vem erro na conta do telefone?

― Você então...

― Sou mais a barriga.

Mas os aparelhos ficam cada vez mais sofisticados, e em breve estarão informando muito mais do que só o sexo do bebê antes dele nascer. Todas as características genéticas, possíveis alergias, doenças que deve evitar, traços psicológicos ― e mais.

― Saiu o resultado do exame que pedimos.

― E aí?

― Tudo bem. Ele é botafoguense!

O verdadeiro teste de um pai é a fralda com cocô. Trocar fralda de xixi é sopa. Um tio troca fralda de xixi. É pela sua disposição de tirar a fralda com cocô, descartar a fralda suja e colocar uma fralda nova depois de limpar a área, sem fazer cara feia, que se conhece o grau de envolvimento de um pai no maravilhoso processo de procriação e no rico cortejo da Vida. Quem nunca trocou uma fralda com cocô será sempre um pai incompleto e um descompromissado com a família e com o, por assim dizer, barro do mundo. E, principalmente, jamais poderá apelar para a suprema chantagem sentimental, quando se sentir desafiado por um filho:

― Eu limpei o teu cocô, animal!

Pais e mães são os ídolos dos filhos até começarem a envergonhá-los. Chega uma idade em que o terror dos filhos é os pais darem vexame em público e qualquer coisa que os pais fazem em público é um vexame. Pai só diz bobagem, mãe fala alto demais, pai usa gíria antiga, mãe quer ver como está a assadura na frente dos outros, pai leva no bar mas deixa bem na frente e toda a turma vê que foi ele, mãe usa bermuda e briga no super, e não há careta ou protesto de filho ("Eu não acredito!") que faça pai e mãe se flagrarem. Você sabe que acabou a adolescência dos filhos quando os seus vexames, em vez de envergonhá-los, começam a enternecê-los. Você passou de herói a embaraço e está terminando como figura.

Nada contribuiu mais para sabotar a autoridade paterna do que a invenção do computador. Até o computador, o pai, de um jeito ou de outro, ensinava ao filho o manejo das coisas e lhe passava os segredos da espécie. Hoje a sabedoria da tribo é transmitida ao inverso, de filho para pai, e isso se o pai conseguir manejar o mouse. No pulo da máquina de escrever e da calculadora automática para o computador perdeu-se toda a noção de hierarquia, que os saltos da tecnologia desde então só foram deixando mais impraticáveis. Pois de nada adiantará você já ter nascido na era do computador e poder conversar com o seu filho, ele vai nascer sabendo tudo que você sabe sobre o modelo que tornou o seu obsoleto há quinze minutos. E de nada adiantarão suas tentativas de reimpor o respeito. Nem "Eu limpei o seu cocô!”.

― Vai ser homem ou mulher, doutor?

― Não dá para ver. Só sei que vai ser "hacker" ― Por que?

― Ele está interferindo, lá de dentro, na leitura do aparelho.

― Só me diz uma coisa, doutor. Ele ou ela vai nos dar desgostos ou alegrias?

Vai ser companheiro ou companheira ou vai nos rejeitar? Vai no deixar orgulhosos ou pensando em fracassos? Vai ser um amor ou uma peste?

― Vai.

Filhos
Quando o Eduardo e a Carminha resolveram se divorciar, surgiu o problema de quem ficava com os filhos.

― O Betinho fica comigo porque é pequeno e precisa dos cuidados da mãe ― disse Carminha.

― Mas quem cuida dele é a babá e a babá vai comigo ― disse Eduardo.

― Como, vai com você?

― Eu preciso da babá para cuidar do Oswaldo.

― Mas o Oswaldo está com 17 anos!

― Ele e a babá são muito apegados. Seria uma maldade separar os dois.

― Então o Oswaldo fica comigo. O Oswaldo, o Betinho, a Carmem Maria, a Denise e a babá.

― Você está esquecendo de uma coisa.

― O quê?

― A Denise não é sua filha. Quando eu me separei da Jô e casei com você, trouxe a Denise e o Daniel comigo.

― Se é por isso, o Oswaldo também não é meu.

― O quê?

― Era do meu segundo marido, que não quis ficar com ele.

― O Oswaldo não era seu filho?

― Não, era do Miro. Pensando bem, nem era do Miro, era da Teresa.

Quando os dois se separaram, o Miro ficou com o Oswaldo. Acho que por distração.

― Mas eu casei com você convencido de que o Oswaldo era seu filho.

― Que diferença faz?

― Que diferença faz? Você esquece que eu estive casado com a Teresa durante três anos.

― E daí?

― Daí que o Oswaldo pode ser meu filho. É engraçado, quando me separei da Teresa, tenho certeza que fiquei com todos os filhos. Deixei um ótimo cachimbo, mas trouxe os filhos.

― Você teve o Rui e o Raul com a Teresa. O Oswaldo é filho da Teresa com o Potiguar.




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