Luis fernando verissimo Crônicas Selecionadas da coluna do Estadão



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― Raul? Que Raul?

― Como, que Raul? Seu filho, Raul.

― O Raul é seu filho.

― Meu?!

― Quando nós nos casamos, você tinha o Raul, o Oswaldo e a Carmem Maria. Eu tinha a Denise e o Daniel. Nós tivemos o Betinho.

― De maneira nenhuma. Você tinha o Raul, a Denise e o Daniel, eu tinha o Oswaldo, que na verdade era do Miro, ou da Teresa mas ficou com o Miro, e a Carmem Maria.

― Mas então de onde saiu o Raul?

― Eu pensei que ele estivesse com você.

― Criamos um clandestino todos estes anos!

― Bem que eu desconfiava. Ele é o que mais gasta. E que fim levou o Rui?

― Que Rui?

― O seu filho com a Teresa. Você disse que ficou com todos os filhos do casamento.

― É. A Teresa não quis ficar porque ia se casar com o Potiguar e o Potiguar já tinha sete.

― Então o Rui ficou com você.

― Pois é...

― E que fim levou?

― Deixa eu pensar. Depois da Teresa eu me casei com a Jô...

― Então o Rui ficou com a Jô.

― Não. Espera aí...

― O quê?

― Lembra aquela nossa ida à Disney?

― Lembro. Levamos todas as crianças.

― Inclusive o Rui...

― E esquecemos ele lá!

― Tudo bem. Deve estar feliz.

― E o Raul?

― Fica com você.

― Não sei por quê?! Eu fico com o Raul, o Oswaldo, a Carmem Maria e o Betinho e você fica só com a Denise e o Daniel, que são os que gastam menos? Muito bonito.

― Mas você fica com a babá.

― Fica pelo menos com o Raul.

― O Raul não fica com ninguém. Já está com 21 anos e pode trabalhar.

E, mesmo, não posso ficar com mais dois.

― Por quê?

― Porque pretendo me casar com a Marilu, que já tem cinco.

― E eu e o meu novo marido?

― O Potiguar já tem sete. Mais quatro não vai fazer diferença.


Filmes

Antigamente, pelo menos em Porto Alegre, os cinemas mostravam filmes "científicos" em sessões especiais a partir da meia-noite, aos sábados.

"Científico" queria dizer que tratavam de sexo. Mas quem ia aos cinemas esperando ver na tela o que não podia ver em nenhum outro lugar, salvo eventuais revistas estrangeiras com fotos de mulher nua ou quadrinhos clandestinos de sacanagem nacionais, se decepcionava. Os filmes eram quase sempre sobre doenças venéreas, seu tratamento e suas terríveis conseqüências. Mas tinham o seu público. E, acredite ou não, sessões separadas para homens e mulheres.

Não sei o que pensavam que aconteceria se homens e mulheres se sentassem lado a lado para ver os tais filmes. Sexo grupal, certamente, não seria. O efeito mais provável das cenas mostradas era as pessoas renunciarem ao sexo para sempre. Mas havia a divisão. E pensei nela assistindo As Horas. Não que o filme lembre um daqueles documentários "científicos". É que me senti como um penetra numa sessão só para mulheres. Temendo ser identificado a qualquer momento como "um deles", um homem, e denunciado à gerência. As Horas não é um filme "para mulher" no sentido amplo de ser reflexivo e psicologicamente denso e não ter o Charles Bronson. Também é um filme para homens, só que numa platéia separada. Na presença de mulheres, não há como os homens não se considerarem intrusos, espiões, vendo coisas que não são para os seus olhos, rituais secretos de uma tribo que decididamente não é a sua. Os beijos na boca vistos no filme são de várias categorias de beijo na boca ― desesperado, compreensivo, apaixonado ― e são todos entre mulheres, um claro sinal de que não temos nada a contribuir a estas estranhas transações, nem compreensão. E na presença de mulheres os homens não podem chorar sem constrangimento. Pois eles têm muitas razões para chorar vendo As Horas. Os homens são os desgraçados do filme. Os maridos sofridos e pacientes de mulheres difíceis, os filhos emocionalmente marcados por toda a vida por mães complicadas, os coadjuvantes desprezados de dramas femininos que não lhes dizem respeito.

Numa sessão segregada, só para eles, os homens poderiam soluçar à vontade.

Eu tinha lido que Michael Caine era a única razão para ver O Americano Tranqüilo. Não é. O trabalho de Caine como um típico herói de Graham Greene, um homem atrás da culpa que o salvará, é extraordinário, mas o filme não é ruim, e não tem nenhuma ambigüidade com relação ao papel dos americanos na degringolada que levou à Guerra do Vietnã, como se temia. O católico Greene não podia entrar nos Estados Unidos porque era considerado comunista mas nunca foi inteiramente aceito como autor engajado, pela esquerda, porque o seu assunto era sempre a alma humana, ou o que há de mais individual e antipolítico na gente. Mas nas suas buscas pela redenção ou pelo desencanto final ele observou o sangrento século 20 como poucos e em O Americano Tranqüilo fez um dos seus livros mais políticos. Na sua autobiografia, Greene conta que se tivesse que escolher uma epígrafe para toda a sua obra seria um trecho de um poema de Robert Browning, "Nosso interesse está na margem perigosa das coisas, no ladrão honesto, no assassino terno, no ateu supersticioso... Observamos enquanto eles mantêm o equilíbrio do estonteante caminho do meio". O estonteante caminho pelo meio das nossas contradições, que também passa pelo meio dos perigosos paradoxos da História, é o caminho escolhido por Greene. O filme não é tão bom quanto Michael Caine, mas, como ele, é grahamgreenesco de cima a baixo.

Se o filme Chicago fosse do Fosse, seria ótimo. Não apenas porque seria melhor do que esse mas porque, com Sweet Charity e Cabaret, dois outros musicais que ele dirigiu no teatro e depois no cinema, completaria uma simétrica trilogia da renovação do gênero by Bob Fosse. Ninguém antes dele tinha usado a câmera e a montagem como parte da coreografia, aproveitando a técnica do cinema um pouco como tinha explorado a expressividade do corpo humano, na dança, de formas nunca antes imaginadas. Ele fez dois outros filmes além de Charity e Cabaret: outro musical, All That Jazz, autobiográfico e bom, apesar de um pouco megalomaníaco demais, e Lenny, uma biografia do cômico Lenny Bruce, em preto-e-branco, com Dustin Hoffman, que precisa ser revisto porque provavelmente era melhor do que se pensava.

Chicago é um filme de Bob Fosse sem o essencial, o próprio Bob Fosse, mas bem-vindo assim mesmo: porque continua o que ele começou, e simplesmente por ser um filme musical, que alguém já descreveu como a grande contribuição americana ao surrealismo, e que tinha desaparecido. Vale principalmente pelas poderosas coxas da Catherine Zeta-Jones Era compreensível que providenciassem um novo nariz para a Nicole Kidman, já que era inaceitável uma Virginia Woolf de nariz arrebitado. Mas se podiam fazer o nariz que quisessem, por que fizeram um nariz errado? Pelo que se vê nas fotografias a escritora tinha um nariz longo mas reto e o que deram para a atriz é aquilino. Ou adunco. Aquilino é como bico de águia, adunco é como o que mesmo? De qualquer jeito, está errado. Dizem os maldosos que o importante era que o nariz falso não desmanchasse na água. De qualquer jeito, por trás do nariz está a Nicole, o que torna qualquer crítica irrelevante.




Fizemos bem

Do baú. Console-se com o seguinte pensamento: se não tivesse reprimido nenhum impulso e feito tudo que deu vontade de fazer, na hora em que deu vontade, você hoje estaria preso, ou gravemente desfigurado. Civilização é autocontrole.

Só chegamos vivos a este ponto porque resistimos à tentação de dizer aquela verdade, enterrar o nariz entre aqueles seios fazendo "ióim, ióim", jogar tudo no 17 ou sair dançando com o PM. Todo homem (mulher, menos) é a soma, não das suas decisões mas das suas hesitações, ou do que, pensando melhor, decidiu não fazer.

Nunca lamente o caminho não tomado, ele provavelmente levaria à ruína ― ou à fortuna, mas ela não lhe faria bem. Quanta gente você não teve vontade de esgoelar e no fim apenas sorriu e limpou sua lapela? Quanto jornal você não teve vontade de amarrotar e jogar no lixo, desejando que em vez do jornal fosse o articulista, mas se conteve e passou, educadamente, à página seguinte? Fez bem. Ignore o aviso de que a repressão de impulsos leva a manchas na pele, cavernas no fígado e sono agitado do qual você acorda soqueando o travesseiro. Acredite, pensar melhor é muito mais saudável.

Uma retrospetiva de tudo que você imaginou fazer e não fez o convenceria disto: foi ou não foi mais prudente abandonar aquele plano de dinamitar o Ministério da Fazenda e, em vez disso, mandar uma carta com ironias pesadas sobre o modelo econômico aos jornais? A orelha dela estava ali, a poucos palmos da sua boca, por que não dar uma mordidinha, só porque vocês estavam numa roda com outros, inclusive o marido dela, seu patrão e ninguém entenderia quando você explicasse que confundira a orelha com um canapé? Mas você recuou, civilizadamente. Fez bem.

Eu, por exemplo, fiz bem quando resisti ao impulso de fugir de casa para ser aviador. Poupei-me da frustração de descobrir que eles não aceitavam pilotos de caça com menos de 6 anos de idade. Um dia corri atrás de uma menina para dizer que a amava, pensei melhor e apenas esbarrei nela, esperando que ela interpretasse a colisão com uma declaração. Deixei-a sentada no chão, chorando, mas escapei do ridículo, pois eu nem sabia seu nome.

Pensei vagamente em estudar arquitetura, como todo o mundo. Acabaria como todos que eu conheço que estudaram arquitetura, fazendo outra coisa.

Poupei-me daquela outra coisa, mesmo que não tenha me formado em nada e acabado fazendo esta estranha outra coisa, que é dar palpites sobre todas as coisas.

É verdade que às vezes me pergunto como teria sido se eu não tivesse reprimido o impulso de ir estudar cinema em Londres. Eu hoje poderia ser, sei lá, um dos melhores lavadores de pratos do Soho. Agora é tarde, nunca saberei. Mas acho que fiz bem.

Frases venenosas

O Terceiro Homem era baseado numa história do Graham Greene (e dirigido pelo Carol Reed), mas consta que a sua fala mais famosa foi escrita por quem a diz no filme. Orson Welles, sobre a Suíça: "Na Itália, durante 30 anos sob os Borgias, houve guerras, terror, assassinatos, sangue. Eles produziram Michelangelo, Leonardo da Vinci e a Renascença. Na Suíça, tiveram amor fraternal, 500 anos de democracia e paz e o que produziram? O relógio cuco.”

É verdade que Welles falava pela boca do desprezível Harry Lime, justificando sua vilania. Mas não existe nada para estimular a criatividade humana como falar mal de outro país ― ou do seu.

Questin Crisp: "Os ingleses confundem incompetência com sinceridade."

"Um inglês é uma criatura que pensa que está sendo virtuosa quando está apenas desconfortável”. (George Bernard Shaw).

"Os ingleses estão sempre prontos para admirar qualquer coisa desde que possam fazer fila”. (George Mikes).

Billy Wilder: "A França é o único país em que as notas se desmancham em suas mãos e você não consegue rasgar o papel higiênico". Antigo. Tanto o dinheiro quanto o papel higiênico melhoraram muito na França. Pode-se até estabelecer uma regra universal: quanto mais próspero o país, mais resistente o dinheiro e mais mole o papel higiênico.

"A mente alemã tem um talento para não cometer nenhum erro salvo os maiores”. (Clifton Fadiman).

"Um alemão, um filósofo. Dois alemães, uma manifestação pública. Três alemães, uma guerra”. (Robert MacDonald).

"As grandes virtudes do povo alemão produziram mais males do que o ócio jamais produziu vícios”. (Paul Valéry).

"Depois de apertar a mão de um grego, conte os seus dedos”.(Ditado albanês).

"A irlandesa é uma raça muito popular ― entre eles”. (Brendan Behan).

"Os japoneses aperfeiçoaram as boas maneiras a ponto de deixá-las indistinguíveis da grosseria”. (Paul Thoreaux).

"Para fazer uma piada entrar na cabeça de um escocês, só com cirurgia”. (Sydney Smith).

"Três espanhóis, quatro opiniões”.Ditado espanhol. Também se diz: "Três judeus, dois contra e dois a favor”.

"Os suecos não têm despesas com tratamento médico, têm ajuda oficial para tudo e subsídio para o aluguel e recebem tanta assistência que quando perdem as chaves do carro, se suicidam”. (Godfrey Cambridge).

"A Suíça não é um país, é um limpo, silencioso e próspero negócio”. (William Faulkner).

F. Scott Fitzgerald, na mesma linha de Orson Welles: "A Suíça é um país onde poucas coisas começam, mas muitas coisas acabam.”

Anônimo: "Se quem fala várias línguas é poliglota, quem fala três línguas é triglota e quem fala duas línguas é biglota, quem fala uma língua o que é? Resposta: provavelmente americano”.

"Se Deus quisesse que os texanos esquiassem, faria bosta branca”. (Anônimo).

"A Califórnia é maravilhosa. Num dia claro, quando a cerração desaparece, você pode ver a poluição”. (Anônimo).

"O que mais impressiona nos Estados Unidos é como os pais obedecem a seus filhos”. (O duque de Windsor).

"É claro que a América tinha sido descoberta várias vezes antes de Colombo, mas sempre abafaram”. (Oscar Wilde).

"A América não sabe para onde vai, mas quer chegar lá o mais rápido possível”. (Laurence J. Peter).

"Sem coisas como o Guinness Book of Poisonous Quotes um cronista seria reduzido a inventar as próprias frases”. (L.F. Verissimo).



Fronteiras

No tempo da guerra fria havia as fronteiras ideológicas que atravessavam países e continentes, separando o "mundo livre" do outro e dos simpatizantes do outro. Foi para defender a fronteira ideológica na América Latina que a política de contra-insurgência americana patrocinou os nossos governos militares, treinou os nossos torturadores e zelou pelas nossas respectivas seguranças nacionais. A não ser que visitasse um país comunista ou freqüentasse algum aparelho, você nunca cruzava a fronteira ideológica.

Sequer a via. Independentemente das suas simpatias ou eventuais rebeldias, vivia dentro de um perímetro comum delimitado e firme. Quando a guerra fria amainou e as fronteiras ideológicas começaram a desaparecer, nos vimos livres dos generais, mas dentro de outra macrogeografia, a das fronteiras econômicas. E estas são visíveis demais. Separam bairros, dividem ruas, são fluidas e ondulantes ― e você as cruza todos os dias. Mais de uma vez por dia você passa por flóridas, suíças, bangladeshes, algumas bolívias... E em cada sinal que pára, está na Somália.

É impossível defender esta fronteira. A grande questão do fim do século é como defender seu perímetro pessoal da miséria impaciente e predadora. Os americanos não podem ajudar desta vez. A fronteira maluca ziguezagueia dentro dos Estados Unidos também. E, afinal, eles não conseguiriam intervir em todas as somálias. No Brasil da criminalidade crescente experimenta-se com uma versão da teoria de segurança nacional adaptada às fronteiras econômicas. Enfrenta-se ao mesmo tempo uma bandidagem organizada e a falência de uma organização policial. Mas no fim é uma guerra de contenção, de proteção do perímetro. E os excessos cometidos podem ser defendidos com a velha frase, o adágio definidor do século 20: os fins justificam as barbaridades. As chacinas no campo e na cidade, a liberdade de pequenos tiranos de uniforme para serem arbitrariamente violentos, até as condições subumanas das nossas cadeias, tudo é permitido porque não se está apenas mantendo a ordem, está-se defendendo uma pátria ameaçada, a pátria do privilégio e da insensibilidade social. Tudo, no fim, é escaramuça na fronteira.

Há um sentimento generalizado, mesmo que não seja dito, que a maior parte da população do mundo é lixo. Excrescência irrecuperável, condenada a jamais ser outra coisa. Esta não é certamente uma constatação nova e nem qualquer utopista ultrapassado chegou a pensar que o contrário era completamente viável. A novidade é que hoje se admite pensar o mundo a partir dela. Já se pode dormir com ela. Os países desenvolvidos podem erguer barreiras cada vez mais rigorosas contra os pobres sem ferir suas convicções liberais, embora, claro, não aprovem quando neonazistas atacam imigrantes ou a barbaridade se torna excessiva demais. A ordem econômica mundial está baseada na inevitabilidade de a maior parte do planeta ser habitada por lixo irreciclável. Ser "politicamente correto" hoje é dizer o que ninguém mais realmente pensa ― sobre raças, sobre os pobres, sobre consciência e compaixão ― para não parecer insensível, mas com o entendimento tácito de que só se está preservando uma convenção, que a retórica dos bons sentimentos finalmente substituiu totalmente os bons sentimentos. É a intuição destes novos tempos sem remorso que move qualquer tipo de extermínio organizado ou não, institucionalizado ― como nas cadeias superlotadas ― ou clandestino. Nem tem sentido discutir se as vítimas mereceram ou não. Não existe lixo inocente ou culpado. O que está no lixo é lixo. Demasia. Excesso. Excrescência.

Síndrome Há anos o Brasil vive num vaivém entre duas formas de poder discricionário, a ditadura institucionalizada e a ditadura da personalidade. Só Dutra, Sarney e Itamar, não por acaso três homens sem qualquer carisma que foram mais transições do que presidentes, fizeram governos "normais" e escaparam da síndrome. O governo Juscelino foi "normal" só na fachada, poucas vezes uma personalidade ditou a política de uma era como a dele, mesmo mantidas as formalidades democráticas. A síndrome vem desde 1930. Depois do Estado Novo e da transição Dutra, da breve volta do salvacionismo com Getúlio e dos anos com a grife JK veio Jânio, uma espécie de apoteose do personalismo no poder.

Depois da renúncia, da frustração de Jango, de 20 anos de governo militar e poder despersonalizado e da transição Sarney, Collor, para mostrar que a nação não aprendera com Jânio a desconfiar dos homens providenciais. E depois da transição Itamar, Efe Agá, outro triunfo de uma personalidade sobre o seu próprio desempenho, pois só a simpatia pessoal explica o que resta de aprovação do seu governo. Efe Agá, pelo menos, não assusta. Pois nesse vaivém entre duas formas de poder excepcional, sem cara ou com cara demais, tivemos sorte. Nossa única opção para que as coisas mudassem no Brasil parecia ser entre ditadores e loucos, e só a benevolência divina nos poupou, até hoje, de alguém que acumulasse as duas condições.


Gencianáceas

Dizem que não há afrodisíaco melhor do que amendoim, mas com casca. Você espana as cascas do colo dela, ela espana as cascas do seu colo, e em pouco tempo vocês não precisarão mais do pretexto das cascas. Outros afrodisíacos, no entanto, precisam ser ingeridos, e sobre estes existe uma vasta literatura ― quase toda ela em francês, claro.

Mme. de Maineton mandava fazer costeletas de vitela com anchovas, basílico doce, cravo, coentro e conhaque para animar o Luís XIV. Não se sabe o resultado que elas produziam no rei mas o prato Côtelettes de Veau à la Maintenon é famoso até hoje, um exemplo de efeito colateral histórico. Já Mme. Du Barry fazia fé em suflês de gengibre para manter o interesse de seu amante real, Luís XV. Dizia que ele nunca desandava. O suflê, não o rei.

Alcachofras eram consideradas afrodisíacas. E o escritor Hector Dirssot preparava-se para noites de loucura na alcova comendo enguias com trufas, enroladas em papel amanteigado, assadas na brasa e servidas sobre um ragu de siri apimentado, e que só tinham o efeito desejado se acompanhadas por um bom vinho Sauternes. Não se conhece qualquer depoimento de uma parceira do escritor sobre a eficiência da receita. Pela sua descrição, desconfia-se que muitas vezes Dirssot recorria ao prato não para assegurar o sexo mas para substituí-lo.

Os trufas brancas da região do Piemonte já foram consideradas infalíveis, e ficavam ainda mais estimulantes se preparadas com fígado de ganso e um pouco de vinho branco. Brillat-Savarin escreveu que uma determinada senhora francesa quase sucumbiu ao assédio de um jovem gourmet que lhe propunha servir aves com trufas de Perigueux em troca de amor, e sua admiração era menos pela sólida virtude da dama do que pelo sua resistência, decididamente inexplicável. Brillat-Savarin insinua que o pretendente insistiu e a dama resistiu até ele oferecer trufas de Perigueux inteiras assadas na cinza, porque aí também já seria desumano.

Todas essas receitas ― tiradas, por sinal, de um livro de George Lang chamado Compêndio de Bobagens e Trivia Culinárias ― ficavam melhores e mais poderosas se acompanhadas de um Vin de Gentiane, ou vinho de genciana, assim preparado: rale-se uma raiz de genciana e deixe-a de molho no conhaque por um dia. Acrescente-se vinho Bordeaux, filtre-se tudo por uma peneira fina e deixe-se num receptáculo lacrado por oito dias. Não abrir perto das crianças.


* * *
― Você já ouviu falar de vinho de genciana?

― Não. Por quê?

― Eu estava lendo que parece que genciana é afrodisíaco.

― Eu nem sei o que é isso.

― Afrodisíaco?

― Não. Genciana.

― Nem eu. Vamos ver no dicionário?

Depois:


― Senta aqui do meu lado. Assim a gente vê juntos.

― Tá.


― Deixa ver. Ge, ge, ge... "Genioso", "genista", "genital"...

― Quando você era pequeno, não procurava nome feio no dicionário?

― Procurava! Me lembro quando eu descobri que no dicionário tinha "bunda". Foi uma sensação. Depois procurei todos os sinônimos de "bunda" que conhecia.

Eu fui logo procurar o, você sabe. Pênis.

― E todos os seus apelidos.

― Como a gente era boba, né?

― "Genitália"..."genitivo"... Espera aí, estou olhando na página errada. "Genciana"..."genciana"... Está aqui! "Genciana." Hmm... "Planta da família das gencianáceas..."

― Qual é a família?

― Gencianáceas. Por que, você conhece?

― Não, não. Foi a maneira como você disse. Achei...

― O quê?

― Bonitinho. "Gencianáceas"...

― Deixa eu guardar o dicionário que eu já volto.

Depois:


― Você não quer uns amendoins?
* * *
Hoje, com a química, toda essa literatura ficou ainda mais antiga. Trufas, enguias, ostras, raiz de genciana, casca de amendoim no colo, tudo foi substituído por uma pílula. É verdade que alguns dos recursos a que o homem recorria no passado, como chifre de rinoceronte pulverizado, não fazem falta. Mas a humanidade perdeu alguma coisa quando perdeu o risco de morrer de congestão durante o ato sexual, depois de se empanturrar para garantir que ele seria bom. Diminuiu-se a nossa aventura sobre a Terra. E fico pensando naquele ragu de siri...


Grampos

― Alô?


― Sou eu.

― "Eu" quem?

― Não está reconhecendo a voz?

― Não.


― Devia. Você a gravou.

― Quando?

― Há uma semana. Uma conversa minha com o ministro.

― Como você sabe que eu gravei uma conversa sua com o ministro?

― Por uma gravação de uma conversa sua com uma revista, oferecendo a gravação para vender.

― Você fez a gravação?

― Não. Passaram a gravação pra mim pelo telefone.

― E você gravou a gravação?

― Claro.

― O que você quer?

― A gravação.

― Minha com a revista?

― Não. Essa eu gravei. De uma gravação. Quero a minha.

― A sua com o ministro?

― É.

― Mas quem é você?



― Como, quem sou eu? Sou o que você gravou falando com o ministro.

― Mas gravei muita gente falando com o ministro.

― Você não reconhece a minha voz?

― Francamente, não.

― Eu sou aquele que você gravou falando com o ministro e depois ofereceu a gravação para a revista.

― Que revista?

― Como, que revista? Você não sabe?!

― Ofereci mais de uma gravação para mais de uma revista. Se você pudesse me dar uma pista... Qual era o assunto da conversa?

― Era...Você sabe. Aquele negócio.

― Que negócio?

― Você sabe...

― Milhões ou bilhões?




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