Luis fernando verissimo Crônicas Selecionadas da coluna do Estadão



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― Bilhões.

― É o Pepeu?

― O Pepeu?! Não. O Pepeu está metido em alguma...

― Esquece.

Escuta aqui, se você não reconhece a minha voz, como sabe que era eu na conversa com o ministro?

― Mas se eu não sei quem é você, como vou saber se era você na gravação? Ou se é você agora?

― Eu sei que eu sou eu. O que você gravou podia ser outro. Dizendo que era eu, para me incriminar.

― Mas você acaba de dizer que eu gravei você falando com o ministro, e que você quer a fita.

― Agora não sei mais. Podia não ser eu.

― Há uma maneira muito simples de resolver isto.

― Qual é?

― Me diga o seu nome.

― E se não for eu quem está falando, e eu disser meu nome? Para me incriminar?

― Como é?

― Hein?

― Espera um pouquinho...

― Faz o seguinte... Você está gravando esta conversa, não está?

― Claro que não.

― Eu sabia. Faz o seguinte: recua a fita e toca até aqui, pra gente tentar esclarecer isto.

― É mais simples você dizer seu nome.

― Acho que não.

― As iniciais.

― Não.

― Qual era o seu assunto com o ministro?



― Você sabe. Aquele negócio.

― Que negócio?

― Aquele.

― O da Superintendência?

― Não.

― O do Fundo?



― Não.

― O da venda do Piauí?

― Venda do Piauí?!

― O do superfaturamento do prédio do Instituto Nacional da Moral e da Ética?

― Não.

― O do... Não, isso era o Pepeu. O da licitação para o hospital?



― Não.

― Então, sinto muito. Esses são todos os escândalos que eu estou vendendo, no momento.

― E o meu?

― Tem certeza que fui eu que gravei a sua conversa com o ministro?

― Como é o seu nome?

― Só digo o meu se você disser o seu.

― Diga o seu primeiro.

― Diga você primeiro.

― Você.

― Você.


― Você.

― Você.

Guarde seu champanhe

1998. Ano de Copa do Mundo, ano de eleição e ano de decidir, de uma vez por todas, o que fazer com os computadores na virada do milênio, quando ― se entendi bem ― eles interpretarão o ano 2000 como sendo o ano 00, concluirão que o tempo acabou e se autodesligarão para sempre, jogando nossa civilização no caos. E, antes de mais nada, ano de decidir se 2000 será mesmo o primeiro ano do terceiro milênio ou último do segundo.


Você eu não sei, mas eu sofro de uma certa neurose cronológica. Preciso saber, sempre, a hora exata, ou razoavelmente aproximada. Há pessoas que não entendem como a vida era possível antes do velcro ou do controle remoto. Eu não concebo a vida sem o relógio de pulso. Minha obsessão pela hora certa não é incomum. É a mesma que levou a humanidade a procurar formas cada vez mais precisas de medir a passagem do tempo, do pau fincado no chão às oscilações de um eléctron de átomo que definem os 86.400 segundos que dura cada rotação da Terra. E a ainda se angustiar com a descoberta de que a rotação da Terra não é constante e sua variação pode chegar a um milésimo de segundo num ano. Não me importo com um milésimo de segundo a mais ou a menos no meu ano, mas não agüento não saber se estou a dois ou três anos do fim do século.

Um dos grandes problemas da medição do tempo sempre foi adequar o tempo artificial determinado pela religião, o comércio e a vida cívica e o tempo natural. A difícil coordenação de ciclos lunares, anos solares e calendários humanos levou a repetidas revisões dos métodos de organizar o tempo na Antiguidade. Numa Pompilius, o segundo rei de Roma, acrescentou dias e meses ao calendário primitivo de 10 meses supostamente elaborado por Rômulo (com a presumível assistência de Remo) e baseado nas fases da lua e nos períodos de gestação de mulheres e gado. (A aproximação do milênio, que leva tantos ao desespero ou ao misticismo, leva-me a ler adoidado sobre o tempo e sua história, o que não deixa de ser uma forma de pânico organizado.) Em todas as reformas do calendário depois de Numa Pompilius, o objetivo era harmonizar os dois ritmos que ditam o nosso tempo, o dos movimentos da Terra em relação aos movimentos da Lua, e o dos movimentos da Terra em relação ao Sol.

Muitas fórmulas foram tentadas, mas no ano 150 a.C. os romanos inventaram um mês de 22 ou 23 dias, chamado Mercedonius, que deveria ser inserido depois do dia 23 de fevereiro em anos intercalados ― ou sempre que fosse preciso. No velho calendário romano, 23 de fevereiro era o último dia do ano e dia do Festival da Terminália, quando se faziam sacrifícios a Terminus, deus dos limites. Quem determinava se era preciso ou não acrescentar o Mercedonius no calendário e tornar o ano um mês mais longo eram os pontífices, os romanos encarregados de administrar os cultos do Estado. E passou a ser comum os pontífices só alongarem os anos em que seus amigos estavam no poder. Com um ou mais Mercedonius, estendiam o mandato de seus preferidos sem necessidade de uma emenda de reeleição. O que só mostra como é antigo o hábito do patriciado de passar dos limites para proteger os seus. Quem acabou com o costume foi, ironicamente, Júlio César, quando fez sua própria reforma do calendário romano.

Júlio César ― o original, não o nosso ― encarregou Sosigenes, o seu assessor para assuntos cronológicos, de dar um jeito definitivo na questão. Sosigenes, como tecnocratas em Estados ainda por nascer, agiu sem nenhuma sutileza. Para restabelecer a ligação da data certa com o equinócio da primavera e resincronizar o tempo oficial com o tempo natural, determinou que três meses inteiros fossem acrescentados ao ano de 46 a.C., que, com seus 445 dias, ficou conhecido como "O ano da grande confusão". Também abandonou a adesão estrita aos ciclos lunares e estabeleceu para sempre os 365 dias do ciclo solar como base do calendário ocidental, além de inventar o ano bissexto. Bem ou mal, a reforma juliana agüentou 1600 anos.

A reforma seguinte que nos interessa foi a do papa Gregório XIII, em 1582. Mais uma vez o problema foi o desencontro com o equinócio vernal, tornado mais grave para a Igreja pela importância do equinócio na fixação da data da Páscoa. Como na reforma anterior, apelaram para uma intervenção radical no calendário: eliminaram dez dias do ano. Um decreto papal determinou que, depois de 4 de outubro, viesse 15 de outubro de 1582. Também mudaram a regra dos anos bissextos: desde então os anos que encerram (ou iniciam?!) os séculos só têm um dia a mais em fevereiro se não forem divisíveis por 400, como se não tivéssemos complicações suficientes. O ano 2000 será bissexto, isso está estabelecido. Mas será o começo do novo milênio ou o último ano do milênio velho?

As liberdades tomadas com o calendário pela conveniência religiosa inspiraram o arcebispo James Ussher a calcular que o mundo tinha sido criado no dia 23 de outubro de 4004 a.C. ― ao meio-dia. Não se sabe se o bom bispo levou em consideração nos seus cálculos os meses adicionais do Sosigenes e os dias cortados de Gregório. Mas, com todas as suas ficções e inconstâncias, o calendário romano adaptado pela Igreja é o que rege as nossas vidas e as nossas celebrações ― mesmo porque no tempo natural não existem séculos e milênios. E, no século 6 da Era Cristã, Dionysius Exiguus, ou Dionísio o Pequeno, preocupado em organizar uma cronologia da sua igreja triunfante para o papa João I, introduziu uma variação na contagem do tempo histórico usada até então. Não mais os anos desde a fundação de Roma, mas os anos desde a circuncisão do menino Jesus, oito dias depois do seu suposto nascimento no dia 25 de dezembro do ano 753 romano. O primeiro ano da nova era seria I Anno Domini. Não houve o Anno Domini zero. Assim o último ano do primeiro século depois de Cristo tinha sido 100 e o último ano do primeiro milênio seria 1000.

Os cálculos do baixinho podiam ser tão fantasiosos e arbitrários quanto o do bispo Ussher, mas não temos outros. Guarde seu champanhe especial por mais um pouco, portanto, 2000 é o último ano do segundo milênio depois de Cristo.

Mas vá explicar tudo isso a um computador.




Guia do carnaval

O turista que chega para assistir ao nosso carnaval pode ter alguma dificuldade em entender o que está vendo e ouvindo nas ruas, nos bailes, nas transmissões de TV, etc. e perderá muito do significado da nossa maior festa popular. Por isto estou republicando este pequeno guia para sua orientação e um glossário com as principais palavras e frases que ele ouvirá durante sua estada.

Atenção, turista.

Para começar, o que é "carnaval"?

Bem, o carnaval (pronuncia-se car-nah-val) já existia na Europa quando o Brasil foi descoberto, só que com roupa. Ele veio nas caravelas portuguesas junto com o nosso descobridor, Pedro Álvares Cabral (pay-dro al-va-rays ca-brawl), e aqui incorporou elementos nativos como bateria, baianas, bicheiros, cambistas e, claro, a principal contribuição do Novo Mundo ao rito milenar, a miçanga (miss-ang-ah). No calendário cristão, como se sabe, o carnaval é a festa do "adeus à carne" que precede a Quaresma. No Brasil é a mesma coisa, só que a gente dá adeus à carne, dá adeus, mas ela não vai embora.

Quanto dura o carnaval?

O carnaval é um tríduo de quatro dias: sexta, sábado, domingo, segunda e terça. Tem uma vez por ano, menos na Bahia, onde o atual carnaval é o de 1948, que ainda não terminou.

O que são "escolas de samba"?

As escolas de samba ("samba schools") são escolas públicas que, com a falta de apoio dado à educação no Brasil, foram obrigadas a buscar outras fontes de renda e hoje vivem de vender fantasias para turistas e depois desfilar para o turista não pensar que foi logrado.

Eu posso desfilar numa "escola de samba" sem saber sambar?

Sim, mas aí terá que ser Madrinha da Bateria. Não, Nigel, você não.

Como se chega ao Teatro Municipal?

Estudando, estudando muito.

Não, quero dizer para o baile.

Não existe mais baile do Municipal. Nem a revista Cruzeiro, nem o Evandro Castro Lima, nem lança-perfume Rodo e olha, eu mesmo já estou desaparecendo de um lado.

Eis algumas expressões que você, turista, ouvirá durante os folguedos (fowl-gay-dos).

"Oba" (oh-bah) ― Palavra de origem nativa. Ouvida pela primeira vez quando os tupinambás viram seu primeiro europeu, que em seguida comeram. Desde então ficou como manifestação prazerosa da expectativa de comer alguém ou alguma coisa, mesmo hipoteticamente (he-po-tay-etc.).

"Epa" (eh-pah) ― O oposto de "oba". Usada por quem ouve um "oba" e se apressa a esclarecer que não pode ser com ele.

"Evoé!" ― "Oba!" em Juiz de Fora.

"Ai!" ― Expressão de dor. Como "ouch" em ingles, "ai-o" em italiano, "merde" em francês e "grossenwienerzschzipel" em alemão.

"Ui!" ― Expressão dúbia (doo-bia). Tanto pode ser de dor como de alguém cuja espinha dorsal está sendo riscada sugestivamente com um picolé. De qualquer maneira, mantenha-se a distância.

"É um assalto!" ― Significa que você está sendo assaltado, por um meliante (may-lee-anti) ou por um político. Dá para distinguir o político porque, antes, ele pede o seu voto.

"Polícia!" ― Termo de retórica, com pouca utilidade real.

E aqui está um pequeno dicionário com frases práticas que poderão ser úteis ao turista no carnaval, caso ele se perder do guia.

"Where is the american (ou italian, ou french, etc) consulate?" ― Estou apertado. Deve ter sido o angu. Onde tem um toalete por aqui?

"How much?" ― Quanto?

"What?!" ― Tá doido!

"No, I do not want to hold your ganzá" ― Manera, pô.

"Do you take dollars?" ― Quer casar comigo?

"Vous est tres jolie" ― Quanto?

"Voglio conoscere il vero Brasile" ― Bota uma pinga aí "Help!" ― Ziriguidum (zee-ree-gui-doom)!

Harry Belafonte


― Harry Belafonte.

― Harry Belafonte?

― É. Ele era a única pessoa viva em Nova York depois de uma guerra nuclear. Como era o nome do filme?

― Harry Belafonte?!

― Não interessa quem era. Só sobrava ele em Nova York. Só ele no mundo.E ele não lavava os pratos. Quando acabava de comer, jogava os pratos sujos pela janela. Tinha todos os pratos e os copos de Nova York ao seu dispor.

― É disso que eu preciso, minha filha. Só o que eu faço é lavar copo. Minha vida é lavar copo. Mas, depois de uma guerra nuclear, como é que ainda tinha copo inteiro em Nova York?

― A cidade estava inteira. As pessoas tinham morrido de como é que chama? Radiação. Irradiação? Radiação. Irradiação?

― Radiação. Esse aí o que é que tem?

"Esse aí" era eu, em pré-coma alcoólica, com a cabeça sobre o tampo da mesa da cozinha. Mas consciente, ouvindo tudo, reconhecendo as duas pela voz. A Luciana e a Maria do Algodão, lavando copos. Quanto mais eu bebia, mais lúcido ficava. Só não conseguia me mexer.

― Ora, o quê. Esse já chegou pronto. Dizem que tá tomando vodca de manhã. Não sei como a Socorro agüenta. E pensar que ele foi campeão de natação. Campeão é exagero. Algumas medalhas. E se me atirarem numa piscina eu saio nadando como antes, como um peixe. Em tese, porque não entro numa piscina há uns 30 anos. Maria do Socorro era a minha mulher. Quando nos casamos, seu nome ainda não era uma ironia.

― Tem copo limpo? Uma terceira voz na cozinha. Algodão, o dono do apartamento. Maria do Algodão, irritada:

― Calma. Calminha. Nenhuma das mulheres da turma tinha mais paciência com o marido. Nem a Aimê, recém-casada como o Gordo Viana. Voltou da lua-de-mel já revirando os olhos para o céu de impaciência com o Gordo Viana. Todas as mulheres do Gordo Viana, cedo ou tarde, começam a revirar os olhos, mas a Aimê começou com 15 dias.

― Deixa eu ajudar.

― Nã-nã-nã. Homem na cozinha só atrapalha. Se quiser ajudar, dá um jeito nesse seu amigo, que está ocupando espaço. O Algodão me sacudiu, para certificar-se que eu não estava morto. Aparentemente não estava, porque ele foi embora. Sua voz foi substituída pela da Chica.

― Vocês não vão acreditar. O Albino e o Tatá estão brigando de novo.

― Não me diz que é a mesma briga.

― É. Você acredita?

― Eu não agüento. Eu não agüento? A Luciana era mulher do Tatá. A Luciana era quem tinha se lembrado do Harry Belafonte. Ela estava sempre se lembrando de filmes antigos, alguns improváveis. Vivia no passado. Era a sua maneira de não matar o Tatá. As brigas do Tatá e do Albino sempre começavam com os dois lembrando marcas de cigarro antigas e acabavam, ninguém sabia como, em horóscopo, no qual um acreditava e o outro não. Todas as reuniões da turma acabavam com o Tatá e o Albino brigando por causa do horóscopo.

― Esse aí, o que que tem?

― Ora, o quê.

― Não é melhor avisar a Socorro?

― Deixa ele aí. Só assim ele não está incomodando a coitada. Preciso dizer, neste ponto, que uma vez salvei uma criança do afogamento. Foi na praia, durante o verão de mil novecentos e deixa pra lá. E a vodca, às vezes, é com Lanjal. As três saíram da cozinha com os copos lavados tilintando numa bandeja. O Algodão inventou que não se toma nada no mesmo copo sem lavá-lo entre uma dose e outra. Nem cerveja. É uma das teorias do Algodão que enlouquecem a Maria e que ela agüenta porque não pôde dar-lhe um filho e se sente culpada. Tentei virar a cabeça, para apoiar o outro lado no tampo da mesa, mas não consegui. Vozes exaltadas invadiram a cozinha.

Me larga, Luciana. Me larga!

― Tatá...

― Hoje eu vou acertar esse cara.

― Tatá, deixa de ser ridículo.

― Ridículo, é? Ele vai ver ridículo.

― Essa briga interminável de vocês é ridícula. Vocês são ridículos. Se você não parar eu vou embora, Tatá. Vá ser ridículo, mas não na minha frente.

― Luciana, espera... Os dois saíram da cozinha. Depois entrou alguém que se assustou quando me viu.

― O que é isso?! A voz da Aimê. Atrás dela entrou o Romeu. O Romeu sempre dava em cima das mulheres do Gordo Viana. Era outra tradição da turma.

― Esse aí tá morto ― disse Romeu. E depois: ― Aimê, eu precisava te falar uma coisa...

― Aqui não, Romeu.

― Olha...

― O Viana pode aparecer a qualquer... Romeu, não!

― O Viana está mais chapado do que esse aí. O parâmetro era eu. Aimê conseguiu escapar do Romeu, pois não ouvi mais nada dentro da cozinha, até ouvir a voz do Fábio dizendo:

― Não precisa, não precisa. Para o Algodão, que insistia em lavar o seu copo. E a voz enrolada do Algodão explicando que cada nova dose de bebida devia ser como a primeira, que devemos viver reinaugurando tudo, sempre, merda! E o barulho de um copo quebrando no chão. E o Fábio dizendo "Pode deixar, pode deixar", provavelmente pegando qualquer copo e fugindo da cozinha. Depois a voz da Maria, obviamente convocada pelo Algodão para limpar o chão, ordenando ao marido.

― Sai, sai! Luciana veio ajudar a Maria do Algodão na limpeza. Conseguira acalmar o Tatá.

― Luciana, você não tem a impressão que nós estamos sempre na mesma festa? Há anos. Dizendo sempre as mesmas coisas, fazendo sempre as mesmas coisas?

― E com as mesmas pessoas.

― Só muda a mulher do Gordo Viana.

― É como aquela ilha do Pacífico. Como é que chama? Uma que Darwin estudou para provar a sua teoria. Era tão fechada que tinha espécies em vários estágios da evolução vivendo ao mesmo tempo. Tinha os escolhidos pela seleção natural, mas tinha os rejeitados também. Bichos estranhíssimos, que não podiam continuar vivendo mas continuavam. Dizendo sempre as mesmas coisas, fazendo sempre as mesmas, ai!

― Você se cortou?

― Foi nada.

― Luciana, no tal filme que você falou. Por que o Harry Belafonte não era afetado pela radiação?

― Sei lá. Ele era imune.

― É. Algumas pessoas são imunes a tudo.

― Bom. Vou ver se consigo arrastar o Tatá pra casa.

― E o que a gente faz com esse aí?

― Deixa. Daqui a pouco a Socorro vem buscar.

― Que tristeza. Nunca fiquei sabendo no que deu o menino que salvei do afogamento. Pode ser uma pessoa importante, hoje. Um médico, um pesquisador. Se não acabou sendo um serial killer até que eu fiz alguma coisa útil. Que sei eu.


História pronta


É preciso ter uma história pronta, ensina o Matinhos. O mundo se divide entre os rápidos e os lentos, e o que os distingue é sua reação ao serem flagrados. Os rápidos inventam uma explicação na hora. Os lentos, que são maioria, precisam ter uma história pronta. Muitas vezes sua integridade física, se não sua sobrevivência, depende de ter uma história pronta. A história não precisa ser convincente, segundo o Matinhos, basta que esteja pronta.

O Matinhos sabe da importância da história pronta por experiência própria. Um dia estava na cama com a vizinha quando sua mulher chegou em casa do salão mais cedo do que o esperado. A mulher é dona de um salão de beleza, o Matinhos vive, como ele mesmo diz, em disponibilidade. Não é um vagabundo, é um disponível. Faz parte da grande reserva de mão-de-obra ociosa da Nação, esperando para ser convocada. Só não vai atrás do emprego, que já é pedir demais. A Nação que venha buscá-lo. Enquanto a Nação não vinha, o Matinhos enchia parte das suas horas vagas, que eram todas, namorando a dona Zeneida que também não tinha muito que fazer depois de alimentar seu marido, o Valdemar, um inativo, que dormia sestas longas e profundas e só acordava para ir jogar dominó no bar. E um dia a mulher do Matinhos chegou em casa mais cedo e por pouco não encontrou a dona Zeneida na cama com o Matinhos. Dona Zeneida conseguiu sair pela janela, sair pelo portão e entrar na sua casa só de calcinha, agarrando o resto das suas roupas na frente do corpo, sem ser vista e quando a mulher do Matinhos entrou no quarto encontrou o marido arquejante na cama, a cabeça atirada para trás, braços e pernas abertos, o pijama desfeito.

― O que é isso, Matinhos?!

O Matinhos mal conseguia falar.

― Não sei... Acho que...

― O que, homem de Deus?!

― Princípio de enfarte.

E o Matinhos não estava fingindo. O susto quase o matara. Fizeram exames, tudo bem, a mulher pediu para o Matinhos nunca mais assustá-la daquela maneira, e o Matinhos começou a pensar na importância do pensamento contingencial. Sua mulher o teria flagrado não só com a vizinha na cama, mas sem uma história pronta. O que ele teria dito, se fosse pego? "Não é o que você está pensando?" Ridículo. Claro que era o que ela estava pensando. Ele precisava ter uma história pronta. Uma história rica em detalhes, criativa, tão elaborada que desencorajasse qualquer tentativa de investigá-la e tão incomum que levasse à conclusão que ninguém a inventaria. Tão improvável que só poderia ser verdade.

E o Matinhos pôs-se a construir, meticulosamente, a explicação que daria no caso de ser flagrado com a dona Zeneida na cama. Algo sobre o marido de dona Zeneida, o Valdemar, e o seu envolvimento com uma rede de traficantes de droga. Bolivianos, era isso. Bandidos bolivianos. A Polícia Federal estava usando a casa do Matinhos para controlar o movimento na casa do Valdemar. Matinhos não tinha contado nada à mulher para não assustá-la. Sim, estava colaborando com a polícia. Tinham bolado um plano para tirar a dona Zeneida de dentro da casa, para poder revistá-la, aproveitando-se do fato de Valdemar normalmente cair num sono profundo depois de tomar a heroína do meio-dia. Matinhos concordara em seduzir a dona Zeneida em nome da lei, para ajudar a livrar o País do flagelo das drogas, ainda mais trazida por bolivianos. Se a mulher do Matinhos fizesse um escândalo, atrapalharia a diligência da polícia, que naquele momento estava revistando a casa de Valdemar e...

É uma história longa que o Matinhos decorou e tem até ensaiado na frente do espelho, para o caso de ser pego com a dona Zeneida na cama. Uma possibilidade que ficou remota, porque, depois do quase flagrante, a dona Zeneida, que teve uma crise de nervos, se recusa a sequer olhar para o Matinhos, quanto mais a responder seus repetidos "pssts" por cima da cerca. E o Matinhos está assim, com uma história pronta que só serve para o caso de flagrante com a dona Zeneida, já que na casa do outro lado mora um general reformado viúvo e com três cachorros, mas sem a dona Zeneida. O Matinhos está começando a pensar em outra história pronta, mas uma que sirva em qualquer contingência.


Histórias de pai


Todo pai conhece estas histórias, os filhos não acreditam que crescer é perigoso. Não adianta você avisar: "Continue criança, não pense, não saia daqui, não cresça. Eu penso por você, eu sei o que você precisa e o que você precisa saber. Eu conheço o mundo e sei que não é um lugar para você, não é um lugar para crianças. Não vá..." Não adianta, eles crescem e vão. Depois se queixam.

Tem a história daquele pai que concebeu dois filhos do barro, Adão e Eva. Naquele tempo não precisava mãe. O pai fez o que pode pelas crianças. Elas tinham tudo, nunca lhes faltou alimento ou agasalho. Se queriam um cachorro ou um macaco para brincar, o pai fazia. Se queriam uma pizza, o pai mandava buscar. Se queriam saber como era o mundo lá fora, o pai dizia que eles não precisavam saber. Eles não eram felizes não sabendo nada, ou só sabendo o que o pai sabia por eles? A felicidade era não saber. As crianças eram felizes porque não sabiam.

O Adão ainda era acomodado, mas a Evinha... Um dia o pai a pegou descascando uma banana. Nem ele sabia o que a banana tinha por dentro, mas a danada da menina descobriu e antes que ele pudesse dizer "Dessa fruta não co..." ela já tinha comido e gostado.

Foi então que ele decidiu impor sua autoridade paterna, pelo menos na área dos hortifrutigranjeiros e determinar que frutas do quintal podiam e não podiam ser comidas e escolheu uma fruta como a mais proibida de todas, pois se comesse dela a menina saberia.

Saberia o quê? O pai especificou. Só disse que o que saberia seria terrível e que depois não se queixasse.

E Eva comeu da fruta mais proibida, claro, e o pai foi tomado de grande tristeza. E disse a Eva que agora ela sabia o que não precisava saber e que nunca mais seria a mesma.




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