Luis fernando verissimo Crônicas Selecionadas da coluna do Estadão



Baixar 2.79 Mb.
Página21/44
Encontro29.07.2016
Tamanho2.79 Mb.
1   ...   17   18   19   20   21   22   23   24   ...   44

― O que é que eu sei de tão terrível que não sabia antes? ― perguntou Eva, ainda mastigando a fruta proibida.

― Que você pode desobedecer. Que você pode escolher e pensar com sua própria cabeça e me desafiar. Que você não é mais criança.

E Eva cresceu diante dos olhos do pai e no momento seguinte já estava dizendo que queria morar sozinha e fazer bolsa de inglês em Nova York e saber como era o mundo lá fora. E o pai suspirou e disse que ela podia ir e levas o palerma do Adão junto e que os dois jamais voltassem e pedissem a sua ignorância de volta.

Quando contou esta história a outro pai, o pai abandonado ouviu do outro que sua história não era nada.

― Pior aconteceu comigo e com o meu Prometeu. Ele era um ótimo filho. E como me admirava e respeitava! Para ele era eu no céu e eu na terra também. Ele tinha tudo em casa e eu o protegia com o meu poder. Ele também era feliz e não sabia, ou era feliz porque não sabia. E não é que um dia descobri que ele tinha roubado o meu fogo para dar ao amigos? Logo o fogo, o símbolo do meu poder e da minha autoridade, distribuído entre outras crianças ingratas como meros cigarros roubados.

― Você o expulsou de casa, como eu?

― Não, amarrei numa pedra para os abutres comerem o seu fígado. Eu sou da escola antiga.

― Não foi um castigo um pouco...

― Tem que dar o exemplo. Senão, não demora, estarão todos os filho achando que sabem mais que nós e roubando o nosso poder.

― E depois se queixando.

― Exato.

Apesar da má experiência com os dois primeiros, o pai teve muitos outros filhos. Mas criou-os com energia e disciplina, sempre atento a qualquer sinal de rebeldia, a qualquer repetição da síndrome de Eva. Para o seu bem, para protegê-los, para lhes assegurar a felicidade.

A qualquer manifestação de dúvida, reagia.

― Pai, por que...

― Quieto.

― Mas pai...

― Não tem por que nem por quanto. Eu é que sei. Eu sou a resposta de tudo e isso é tudo que vocês precisam saber.

E os filhos e as filhas, em geral, obedeciam ao seu pai e honravam a sua sabedoria e não cobiçavam o poder e eram felizes ― ou pelo menos eram bem ajustados ― em sua casa. Mas apesar de toda a vigilância, sempre haveriam os decascadores de banana.

Sempre haveriam os dispostos a trocar a segurança da casa pelo descobrimento do mundo, mesmo que isso os matasse.

Teve Copérnico, que insistia que a Terra não era, afinal, o centro do universo, apesar do pai mandá-lo para o quarto sem sobremesa todas as vezes. Teve Tycho Brahe, que descobriu uma estrela nova no horizonte e desconfiou que estrelas não eram, como dizia o pai, constantes e eternas. Teve Galileu com seus malditos telescópios, enxergando mais do que qualquer pessoa normal precisava ver. E teve o Newton. Quando Newton mostrou ao pai a maçã que lhe caíra na cabeça e contou que, em dois segundos, deduzira tudo sobre a força da gravidade e suas implicações no movimento da Lua, e a possibilidade dele ― ele, um filho! ― conhecer e descrever as leis do universo, o pai teve dois pensamentos. Pensou: preciso cortar as árvores do quintal, pois as frutas estão influindo demais na história desta família. E pensou: preciso amarrar o Newton a uma pedra para os abutres comerem o seu fígado e os filhos aprenderem a não saber mais do que eu. Mas não fez nem uma coisa nem outra. Depois que o Newton também saiu de casa para fazer carreira na física, o pai desistiu. Continuou criando os filhos com energia e disciplina, mas sabendo que nunca os impediria de crescer e de saber e de abandoná-lo um dia. Todos os pais conhecem o sentimento deste pai. E depois ainda veio o Darwin! Filhos ingratos, filhos ingratos.

Não é consolo saber que tantos, hoje, querem voltar para a casa e as certezas do pai, pois do nada adiantou descobrir o mundo e descobrir que não se sabe muito mais do que ele. Abandonam a ignorância que os protegia por nada mais perene do que uma fruta.

E agora se queixam.


Histórias de verão


1. A situação

A avó da Ana Paula foi quem mais gostou da notícia de que a neta que morava em Brasília estava noiva de um economista. E que, segundo lhe diziam, ele não era "pouca coisa" no governo.

― Finalmente, alguém para me explicar o que está acontecendo. Mas, quando Ana Paula levou o noivo para conhecer a família, a primeira coisa que a avó notou foi que ele usava brinco numa orelha só. Ficou quieta durante toda a visita do casal. E, quando eles foram embora e alguém estranhou o seu silêncio ― "A senhora não ia pedir para ele explicar a situação do Brasil, vovó?" ―, a velha respondeu secamente:

― Está explicada.


2. O homem certo

Ela estava estendida de bruços na areia, a parte de cima do biquíni desatada para não deixar marca, a parte debaixo quase sumida entre nádegas perfeitas, tão bonitas que ele parou. Como a gente pára com um susto, ou com uma revelação súbita. Era isso: uma epifania. Subitamente, ele se deparara com a injustiça intrínseca do mundo. Anos depois, lá pelos 35, teria outra revelação. Como acontece com todos nós se daria conta de que um dia morreria e não havia nada a fazer a respeito. Mas isso seria depois. Naquele momento estava diante de nádegas perfeitas e das impossibilidades da vida. Aquela mulher fora feita para ele, e aquela mulher nunca seria dele. Todo homem traz, no seu código genético, as seguintes instruções: quando reconhecer a mulher que foi feita para você, tome-a. Leve-a para a sua caverna e providencie a imediata transferência de DNA. Ele sentia ― na garganta, no peito, onde quer que fique o diabo do detector ― que aquela era ela. Ainda nem vira o seu rosto e sabia que era ela. Num mundo justo, a puxaria pelo pé e a arrastaria pela areia, e ela não resistiria. Mesmo sem se virar ela saberia que era ele, o certo, o feito para ela, o homem que seus hormônios esperavam, o ... Meu Deus, ela está se mexendo.

Ela virou a cabeça (linda, linda) para trás e disse:

― O Sol.

Ele:

― O quê?



― Você está tapando o meu Sol.

― Ah.


Depois ele abriu os braços, disse "Quem sou eu?" e foi embora. Mais tarde viu ela passar de mãos dadas com um homem retaco, coxas grossas, quase careca. Pensou em gritar "Não é esse!" mas não gritou. Ficou pensando em como o grande problema da vida é a falta de organização.
3. Verão

Rogério bufava.

― E ainda tem gente que gosta de verão...

Marina nem estava.

― Eu adoro.

― Olha aí, fico todo suado. A pele oleosa. Não adianta banho, não adianta nada. Fico com brotoeja, assadura, até cheiro mal.

― Rogério, meu querido. Vou te dizer uma coisa.

― O quê?

― O problema não é o verão. O problema é você.

― Ah, é? Aposto que o Alberico não suava.

Marina só pôde fazer cara de sentida e dizer "Puxa, como você é, Rogério". Sabia que nunca devia ter contado do Alberico e do que ele gostava de fazer no banheiro. "Dezessete anos e você não esquece." O sorriso na cara suada do Rogério era de puro gozo. Marina só estava esperando a Rosilene ficar maiorzinha para lhe dar o único conselho que uma mãe deve dar à filha: "Nunca conte nada do seu primeiro marido."
4. O quinto túnel

Três homens num compartimento de um trem que atravessa uma região montanhosa. Eles não se conhecem. Estão em silêncio desde que o trem saiu da estação. Um lê um jornal, outro olha pela janela, o outro parece dormir. Quando o trem entra num túnel e tudo fica escuro, ouve-se uma voz que diz:

― Estou aqui para matá-lo.

O trem sai do túnel. Os três continuam como antes. Um olhando pela janela, o outro lendo um jornal, o terceiro de olhos fechados. O trem entra em outro túnel. Ouve-se outra voz:

― Por quê?

Silêncio. Depois:

― Você sabe.

O trem sai do túnel. Os três não se mexeram. O trem entra em outro túnel.

― Quando?

― No quinto túnel.

― Este túnel qual é, o terceiro?

― Você devia ter contado.

O trem sai do túnel. Os três homens estão na mesma posição. O homem que lê o jornal vira uma página. O trem entra em outro túnel.

Ouve-se um estampido.

Quando o trem sai do túnel, o homem que olhava pela janela está com uma pistola fumegante na mão, o jornal está com um buraco no meio e o homem que lia o jornal está morto. E o homem que dormia está de olhos arregalados.

― O que foi isso?

― Ele ia me matar. Eu o matei primeiro.

― Como você sabia que ele ia lhe matar?

― Ele disse, você não ouviu?

― Eu estava dormindo. Não ouvi nada. Acordei com o tiro.

― Ele ia me matar no próximo túnel, mas eu agi antes. Foi legítima defesa. Ele disse que ia me matar.

― Só se fosse com este charuto ― diz o homem que dormia, depois de examinar os bolsos do morto. ― É a única coisa remotamente letal que ele carregava.

― Ele podia me estrangular, sei lá. Mas eu o enganei e atirei um túnel antes. A vítima enganou o assassino.

― Ou pode ter sido o contrário. O assassino enganou a vítima.

― Como?

― Você disse que ia matá-lo no quinto túnel, mas matou no quarto, antes que ele tivesse tempo de reagir ou fugir.

O trem entra no quinto túnel e tudo fica escuro. Ouve-se uma voz.

― Como você sabia que o túnel anterior era o quarto e este é o quinto, se estava dormindo?

Silêncio. Depois ouve-se um estampido.

Histórias de verão


1. O chihuahua

Engraçado como começam as grandes paixões. A de Inez por Aldo começou quando ele chegou para ela numa festa e disse:

― Sabe que eu acabei ficando com o chihuahua?

Diante do olhar de absoluta incompreensão de Inez, Aldo bateu com a mão na testa e disse:

― Desculpe! Confundi você com outra.

Ela acabou perguntando que história era aquela do chihuahua, eles acabaram conversando a noite inteira e Inez acabou apaixonada por Aldo. Paixão de telefonar no meio da noite e pedir para ele dizer alguma coisa só porque estava com saudade da voz dele, e se ele protestasse, mal― humorado, que não tinha nada para dizer àquela hora, pedir:

― Então ronrona.

Paixão que acabou dois meses depois quando os dois foram a uma festa, se perderam um do outro e quando Inez encontrou Aldo ele estava dizendo para uma mulher:

― Sabe que eu acabei ficando com o chihuahua?
2. Sob o mesmo lençol

Aconteceu que Renato e Roberta abriram os olhos ao mesmo tempo. Era meio-dia. Algum ruído da rua deve ter acordado os dois, não sei. O fato é que os dois acordaram juntos. Suas caras a centímetros uma da outra. Frente a frente. Agora, 1º de janeiro.

Os dois estavam nus, na mesma cama, sob o mesmo lençol, e nenhum dos dois sabia como tinha chegado ali e quem era o outro. Ficaram se olhando por um bom minuto e meio, piscando. Quem falou primeiro foi a Roberta. Disse:

― Oi.


― Oi ― disse o Renato.

Silêncio. Depois Roberta olhou em volta e perguntou:

― Seu apartamento?

Renato também olhou em volta antes de dizer:

― Acho que não...

Roberta estendeu a mão.

― Roberta.

― Renato.

Tentaram fazer uma reconstituição da noite. Tinham ido a réveillons diferentes. Bairros diferentes, inclusive. A última coisa que Renato se lembrava era de ter gritado de uma janela, à meia-noite: "Um ano do cacete pra todo mundo!" A última coisa que Roberta se lembrava era de estar deitada no chão abraçada a uma garrafa de champanhe, resistindo a todas as tentativas de tirá-la dos seus braços.

Onde podiam ter se encontrado? Não freqüentavam os mesmos lugares. Seus respectivos grupos de amigos não batiam. Suas famílias certamente não se conheciam. Tinham mais ou menos a mesma idade, mas as afinidades terminavam aí. Chegaram ao que parecia ser uma referência comum, um tal de Rocha, mas depois descobriram que não era o mesmo Rocha. Clube, bairro, faculdade, trabalho, nada fechava. Era como se vivessem em civilizações diferentes. Mundos à parte.

Nenhuma identidade tribal explicava estarem ali, nus, na mesma cama. Nada. Nem seita, nem passatempo (ele coleção de selos, ela ginástica rítmica) nem preferências musicais (ele Caetano, MPB em geral, alguma coisa do jazz, ela rock) ou literárias (policiais, Paulo Coelho). A única coisa que tinham em comum era que nenhum dos dois estava acostumado a beber, e os dois eram meio tímidos. Não sabiam por que tinham bebido tanto naquele fim de ano. A proximidade do milênio, talvez fosse isso. Não, ele não tinha namorada. Ela tinha brigado com o seu namorado em junho.

Onde tinham se encontrado? Era inútil. Ficaram uma hora tentando se lembrar e tentando sincronizar suas biografias. Não conseguiram. Depois, pelo que eu soube, eles tiveram dois problemas. Um: ele sugeriu, meio sem jeito, que já que estavam ali, nus, na mesma cama... e ela reagiu, indignada, dizendo que afinal nem se conheciam. Dois: discutiram para saber quem se enrolaria no lençol para sair da cama sem que o outro visse a sua nudez, comprometendo-se a não olhar para trás e ver a nudez desprotegida do outro desconhecido. Ela ganhou.

Quando estavam saindo do apartamento, viram que tinha um homem dormindo no sofá, de boca aberta. Ela não queria, mas ele acordou o homem. Para saber, pelo menos, onde estavam. O homem levantou-se num sobressalto. Olhou para os dois, depois olhou na direção do quarto.

― Posso ir pra minha cama? ― disse, se afastando.

― Espere ― disse Renato. ― Quem é você?

O homem nem se virou para responder.

― Romão.

Depois parou, pensou um pouco e, ainda sem se virar, corrigiu.

― Romão, não. Ramão. Por aí.

E entrou no quarto, resmungando:

― Que ano-novo!

― Amigo seu? ― perguntou Renato para Roberta.

― Nunca vi ― disse Roberta.

Os dois saíram do apartamento, hesitaram ― se beijavam nas faces ou não? ― e depois foi cada um para o seu lado.


3. Volta ao mundo

Já Rodrigo convidou Marlene para dar a volta ao mundo com ele no seu iate, só os dois, mas desistiu do convite, prevendo dificuldades, depois que ela fechou um olho, pensou, pensou e perguntou:

― Em que direção?
4. Chuvas

Choveu, choveu e no sétimo dia deu o que Almerinda chamou de "a louca" no seu José, que saiu chutando criança. Tudo bem, o primeiro chute foi no próprio filho do seu José, mas o segundo foi no filho do coronel e o terceiro no filho da Almerinda, só porque os três estavam jogando bola no corredor do hotel. Almerinda avançou no seu José, gritando que ninguém chutava seu filho, e o seu José pediu desculpa e pediu compreensão para o seu descontrole. Tinha planejado aquele veraneio com cuidado, estava pagando caro pelo hotel, e depois de sete dias sem praia, sete dias presos dentro do hotel sem nada para fazer a não ser ver TV e jogar biriba e ouvindo a algazarra interminável das crianças, simplesmente se descontrolara. Lhe dera a louca. Insanidade temporária, para usar o nome científico.

O coronel, conciliador, inclusive para evitar qualquer sugestão de prepotência militar, e também porque o seu José era maior do que ele, propôs que esquecessem o episódio e estabelecessem algum tipo de "modus vivendi" ou "modus operandi" dentro do hotel, pelo menos enquanto durassem as chuvas, com horários determinados para cada atividade, talvez exercícios em conjunto... E que ninguém chutasse mais ninguém.

Mas as chuvas continuavam e no outro dia a Almerinda teve que pular nas costas do seu José, que corria pelo corredor do hotel atrás dos meninos, e assim como veio gente para ajudar a segurar o seu José, veio gente para ajudar a pegar os meninos, enquanto o coronel gritava: "Calma! Calma!" Com a Almerinda nas suas costas o seu José não conseguiu bater em nenhum menino, mas pegou a bola e comeu.


Histórias de verão (II)


É importante as pessoas combinarem como se comportarão em determinadas situações sociais, para evitar surpresas. Aconteceu de um casal ser convidado a passar um fim de semana numa casa de campo e chegar ao local sem a menor idéia do que o esperava. A casa era grande e bonita, o lugar era aprazível, mas o homem ― digamos que se chamasse João ― teve um pressentimento e deteve a mão da mulher, Maria, antes que ela tocasse a campainha.

― Espere. Você sabe que nós podemos estar entrando numa história...

― Como história?

― Não sabemos nada desta casa e de quem vai estar aí. E se entramos numa história infantil?

― Que história infantil?

― Sei lá. Não tem uma da donzela que chega numa casa de ursos e acaba dormindo na cama de um deles?

― Eu conheço a dos anõezinhos. Branca de Neve. A casa é de sete anões e Branca de Neve fica morando com eles, até que a bruxa bate na porta com uma maçã envenenada.

― Vamos combinar o seguinte. Você só dorme na cama comigo e, se aparecer um anão propondo qualquer tipo de arranjo doméstico mais prolongado, você dá uma desculpa qualquer. Diz que tem dentista na segunda. E em hipótese alguma chegue perto da porta, se baterem.

― Mas, se for a história da Branca de Neve, tem um final feliz. Ela fica com um príncipe.

― Não chegue perto de nenhum príncipe também.

― Está bem... Vamos entrar?

― Espere. Nós podemos estar entrando numa história do Chekhov.

― Chekhov?

― Russo. Século 19. Grupo de pessoas reunidas numa casa de campo durante um fim de semana de verão era com ele.

― Como vamos fazer para saber se é uma história do Chekhov ou não?

― Se todos tiverem nomes russos, falarem muito, parecerem não dizer nada, mas irem se revelando aos poucos, é do Chekhov.

― Há algum perigo?

― De maçãs envenenadas, não. Pelo contrário, comeremos muito bem. E, se surgir algum nobre, será certamente decadente e provavelmente impotente. O único risco é sairmos daqui conhecendo mais sobre a condição humana do que precisamos.

― Então, se estiver muito chato, eu faço um sinal, você diz que se lembrou que deixamos o gás ligado e damos o fora.

― Combinado.

― Vamos?

― Espere. E se estivermos entrando numa história da Agatha Christie? Ela também gostava de grupos heterogêneos em casas de campo, onde havia um crime e todos eram suspeitos.

― Pode ser um fim de semana excitante.

― Não se um de nós for a vítima.

― O que fazemos?

― Vamos entrar. Se todos tiverem nomes como Nigel ou Milicent, o mordomo parecer culpado demais e estiver faltando um dos ferros da lareira ― não damos desculpa nenhuma e saímos correndo.

― Certo. Vamos?

― Espere. Também pode ser uma história do marquês de Sade.

― Marquês de Sade?!

― Um grupo de devassos reunidos numa mansão com virgens adolescentes e prostitutas, para rituais de deboche e tortura.

― Como devemos nos comportar?

― Valem as mesmas instruções da história infantil. Nada de dormir na cama de outro e não aceite proposta de nenhum anão.

― E você fique longe das virgens adolescentes.

― Já começou a me controlar?


Histórias de verão III


Ela tinha uma pintinha logo acima do canto da boca. Conheceram-se na praia, conversaram bastante, no dia seguinte caminharam juntos pela praia, no terceiro dia marcaram um encontro, ele chegou tarde, pediu desculpa e ela disse que não fazia mal, a ausência dele tinha lhe feito companhia. E ele pensou "Pô...", com admiração.

Passaram a se encontrar todos os dias. Caminhadas na praia, sorvetes, e, uma noite, os dois olhando a Lua nascer espetacularmente cheia sobre o mar, ele disse que a gente sempre tem, sei lá, uma idéia da pessoa que vai amar por toda a vida, um ideal, não é mesmo? E ela sorriu e disse que, se ele fosse igualzinho aos sonhos dela, ela ia embora.

Detestava desmancha-prazeres. E ele pensou "Genial!", mesmo não entendendo muito bem, e naquela noite nem pôde dormir, pensando "Que cabeça. Que cabeça!"

Na noite seguinte, mesmo local, mesma Lua, ele declarou que nunca conhecera alguém como ela, e que estava apaixonado, e beijaram-se pela primeira vez. Depois ficaram se olhando, olho no olho, e ela disse, séria:

― Preciso te dizer uma coisa.

― O quê?


― As minhas frases...

― As suas frases?

― São da Martha Medeiros.

― Ah, é?


― Dos poemas.

― Hmmm.


Ele estava olhando para os próprios pés. Pensando: era bom demais para ser verdade, era bom demais. Ela perguntou:

― Faz diferença?

― Não, não. Que é isso?

Beijaram-se de novo. Ele pensando, resignado: "Que pintinha no canto da boca. Que pintinha no canto da boca!”.


****
Esta outra história é de dois namorados, ele chamado Haroldo e ela, por coincidência, Marta. Os dois brigaram feio e Marta escreveu uma carta para Haroldo rompendo definitivamente o namoro e ainda dizendo umas verdades que ele precisava ouvir. Ou, no caso, ler. Mas Marta se arrependeu do que tinha escrito e no dia seguinte fez plantão na calçada em frente ao edifício de Haroldo, esperando o carteiro.

Precisava interceptar a carta de qualquer jeito. Quando o carteiro apareceu, Marta fingiu que estava chegando no edifício e perguntou:

― Alguma coisa para o 702? Eu levo.

Mas não tinha nada para o 702. No dia seguinte tinha, mas não a carta de Marta. No terceiro dia o carteiro desconfiou, hesitou em entregar a correspondência a Marta, que foi obrigada a fazer uma encenação dramática. Não era do 702. Era a autora de uma carta para o 702. E queria a carta de volta. Precisava daquela carta. Era importantíssimo ter aquela carta. Não podia dizer por quê. Afinal, a carta era dela mesma, devia ter o direito de recuperá-la quando quisesse! O carteiro disse que o que ela estava querendo fazer era crime federal, mas mesmo assim olhou os envelopes do 702 para ver se entre eles estava a carta. Não estava. No dia seguinte ― quando Marta ficou sabendo que o carteiro se chamava Jessé e, apesar de tão jovem, já era viúvo, além de colorado ― também não. No outro dia também não, e o carteiro convidou Marta para quem sabe um chope. Na manhã depois do chope, a carta ainda não tinha chegado e Marta e Jessé combinaram ir ver Titanic juntos. No dia seguinte ― nem sinal da carta ― Jessé perguntou se Marta não queria conhecer sua casa. Era uma casa pobre, morava com a mãe, mas se ela não se importasse... Marta disse que ia pensar.

No dia seguinte chegou a carta. Jessé deu a carta a Marta. Ela ficou olhando o envelope por um longo minuto. Depois a devolveu ao carteiro e disse:

― Entrega.

E, diante do espanto de Jessé, explicou que só queria ver se tinha posto o endereço certo.
* * *
Com a mulher e os filhos na praia, Romildo telefonou para "Tatiana, gata liberada tipo mignon, bumbum arrebitado" e marcou um encontro. Ele a pegaria de carro, ela se esconderia quando entrassem na garagem do prédio e, se tudo desse certo, subiriam diretamente da garagem para o apartamento no 6º andar sem serem vistos. Se por acaso aparecesse algum vizinho, Tatiana devia fingir que não o conhecia. Certo? Certo.

Ele a pegou no local combinado, ela se abaixou na entrada da garagem e obedeceu quando Romildo, depois de examinar bem a garagem, decidiu que não havia perigo e fez sinal para ela entrar no elevador com ele, rápido. Mas o elevador parou no térreo e entrou a dona Cleci do 8º.

Romildo cumprimentou dona Cleci, que olhou Tatiana de cima a baixo, depois olhou para Romildo e, sem dizer nada, apertou o botão do 8º.

― Qual é o seu, mesmo? ― perguntou Romildo a Tatiana.

― Quarto, obrigado.

Tatiana desceu no quarto com seu bumbum arrebitado, a porta do elevador se fechou e Romildo e Cleci se entreolharam.

― O que é isso?! ― perguntou dona Cleci.

― Para a senhora ver.

― Quem é que mora no quarto?

― O dr. Galbino e as gêmeas.

― O dr. Galbino? Não acredito. Aliás, não pode ser. Ele está na praia.

O elevador parou no 6º e Romildo saiu, mas ficou segurando a porta.

― As gêmeas, a senhora acha? Será possível?

― As gêmeas? O que o senhor está me dizendo!




Compartilhe com seus amigos:
1   ...   17   18   19   20   21   22   23   24   ...   44


©principo.org 2019
enviar mensagem

    Página principal