Luis fernando verissimo Crônicas Selecionadas da coluna do Estadão



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― Pode ser uma parenta.

― Não tinha cara de parente.

― Mas as gêmeas têm mais de 70 anos!

― Olha, não sei não. Sempre achei que elas caminham meio duro.

― Hoje em dia não dá para duvidar de mais nada, dona Cleci. Boa noite.

― Vou falar disso na próxima reunião e espero seu apoio.

― Positivo.

Em casa, Romildo se lembrou que Tatiana não sabia qual dos dois apartamentos do 6º era o seu. Passou o resto da noite espiando pela porta, para impedir que ela batesse no outro apartamento. Só faltava aquela, ela bater na porta do seu Loremar, que não queria outra coisa se não uma chance para se vingar da história do cachorro.

Mas Tatiana não apareceu. Tinha ido embora. Ou algo a prendera no andar das gêmeas.

Histórias de verão (IV)


Os convites para o casamento eram em papel branco pergaminhado, tinta preta em relevo. Os nomes dos pais da noiva e da noiva, Serena, os nomes dos pais do noivo (pai falecido) e do noivo, Francisco. Data, horário e igreja. Junto, um cartãozinho convidando para a recepção num bufê, depois da cerimônia. Simples, sóbrio e elegante. E ninguém conhecia um nome sequer do convite.

Durante dias, o assunto no grupo foi esse. Quem eram? Da noiva e da família da noiva, ninguém tinha ouvido falar. Não havia qualquer Serena entre as suas relações. E que possível Francisco seria aquele?

Passaram em revista os Franciscos que conheciam em idade de casar. Lembraram de dois, mas nenhum tinha aquele sobrenome. Foi quando um deles teve o estalo:

― É o Chicote!

― Tá doido.

― Claro que é.

― Cê tá sonhando. O nome do Chicote não era esse.

― É esse. Tenho certeza.

― Não acredito. O Chicote!

As mulheres se interessaram. O Chicote era, obviamente, um nome do passado dos maridos. Por que aquela surpresa com o casamento dele? Mas os homens estavam em polvorosa com a sua descoberta. O Chicote!

― E pensei que ele tivesse morrido!

Um lembrou da última vez que tinha visto o Chicote. O Chicote tentara lhe vender cotas de um condomínio de férias do qual nem se lembrava o nome, era Campos de Dentro ou Campos de Fora, e depois perguntara "E bijuteria, interessa?" Parecia nas últimas, sem dois dentes da frente. Lembraram passagens na vida do Chicote, às gargalhadas. O Chicote no gol, tão pequeno que invariavelmente era chutado para dentro junto com a bola e depois chorava de raiva. O Chicote tendo que interromper um exame oral porque urinara nas calças. O Chicote encarregado de entreter a velha Ermelinda na sala enquanto os outros comiam as irmãs Ferreiro no quarto e depois flagrado bolinando a velha, que dormia. O fim quase trágico da experiência, quando o Chicote se convencera que podia hipnotizar um cachorro. Acabara mordido pelo cachorro, corrido pelo dono do cachorro e levando uma surra do pai, o falecido seu Júlio. O Chicote certo que tinham negado seu visto de emigrante para os Estados Unidos por causa da altura e depois contando como o episódio o radicalizara.

Depois que pararam de rir, todos decidiram que não dava para perder o casamento do Chicote. E um provocou novas gargalhadas quando disse:

― Imaginem a noiva do Chicote!


* * *
Igreja lotada. Gente finíssima. Até um senador. O grupo ficou junto. Através de discretas perguntas ao redor, descobriram que a família da noiva era de Goiás. Terras, gado. No altar, o Chicote sorria. Com todos os dentes. Quando a noiva entrou na igreja, os homens do grupo prenderam a respiração. Serena era uma aparição. Alta, um corpo deslumbrante, um rosto maravilhoso, uns olhos, um sorriso... O que mais impressionou os homens foi o sorriso. Não era um sorriso de felicidade. Era o sorriso da felicidade, o original. E ela estava indo em direção ao Chicote. No fim da cerimônia, Serena teve que se curvar para beijar o Chicote.

Apesar da insistência das mulheres, nenhum dos homens quis ir à recepção, depois.

― Vocês não vão cumprimentar o Chicote?

― Que cumprimentar o Chicote!

Estavam todos de mau humor. Naquela noite, todos brigaram com as mulheres. E todos, de um jeito ou de outro, pensaram em suas vidas perdidas, e no que a Serena e o Chicote deviam estar fazendo, e na falta de critérios do destino.

Cinismo
Shakespeare gostava de usar seus vilões para dizer o indizível, e eles eram quase sempre os únicos personagens lúcidos das suas peças, os únicos sem qualquer ilusão sobre a sua própria motivação e a dos outros. Edmundo, o bastardo, em Rei Lear, tem um célebre discurso sobre the excellent foppery of the world, a maravilhosa vaidade do mundo ao atribuir o mau comportamento humano à influência dos astros e à interferência do além. É um racionalismo irônico surpreendente no começo do século 17, quando o próprio Shakespeare não hesitava em recorrer a fantasmas e divinações para tocar suas tramas, e só explicável pela licença para ser cético dada pelo autor a vilões da sua preferência. Nunca fica bem claro o que leva Iago a ser um calhorda tão completo em Otelo, mas ele ostenta a própria vilania com gosto e até um certo distanciamento crítico. Nada é tão moderno em Shakespeare quanto os seus vilões. Quando Verdi fez uma ópera da peça deu a Iago uma ária, Creio num Deus Cruel, e um motivo mais grave e filosófico para sua perfídia, mas ele era mesmo apenas um mau-caráter equipado com autoconhecimento ― e, claro, ótimas falas. Descartada a nova interpretação, de que se tratava de um homossexual reprimido apaixonado pelo negão.

O maior bandido shakespeariano de todos é Ricardo III, cuja vilania autoconsciente parece ainda mais moderna porque envolve também uma fria reflexão sobre o poder e o que ele obriga.

Os bons atores correm atrás de papéis de vilão, e os melhores vilões são os que se conhecem e se explicam. Vilania mais autoconsciência costuma dar ótima literatura e boas interpretações. Al Pacino em O Advogado do Diabo é a prova mais recente que não há nada mais divertido do que um vilão bem articulado.

Personagens como Edmundo, Iago e Ricardo III não são realistas ― poucos bandidos têm uma noção tão clara da sua própria calhordice, ou a festejam tanto ―, mas são grandes papéis porque neles o mal se auto-examina em grandes discursos cínicos, e poucas coisas são, dramaticamente, tão fascinantes quanto o cinismo ostentado ― ainda mais bem escrito. O cinismo é a ironia com poder, ou a ironia no poder, e, como a ironia é a província do intelectual, um intelectual no poder tem o mesmo privilégio do tirano mais bem articulado de Shakespeare, que podia ser Ricardo III e ao mesmo tempo se observar sendo Ricardo III e dizendo que o que é não é e o que não existe, existe. E se maravilhando com ele mesmo.

Maquiavel acabou como um símbolo da maquinação obscura na política e só estava tentando inventar uma teoria do estado urbano, quando as cidades-estados recém-começavam a desafiar o poder feudal e não tinham nenhuma tradição sobre a qual construir. Ficou como o patrono da duplicidade e da manipulação do poder porque as pessoas acreditam que poder autoconsciente será sempre cínico, que qualquer pensamento sobre o poder será um pensamento sobre a mistificação. Assim qualquer intelectual que, como Maquiavel ou Éfe Agá, não apenas pense no poder como o exerça, em cena ou nos bastidores, acabará com uma reputação de cínico, mesmo que não a mereça. É como se para um intelectual no poder não houvesse escolha entre ser autoconsciente ao extremo, como o Ricardo III ou o diabo interpretado por Al Pacino, e, portanto um cínico, e não se entender direito.


Histórias de verão V


Vale história de vampiro? Pois o vampiro chegou em casa tarde da noite e deu com a mulher furiosa. Aquilo era hora? Onde ele tinha andado?

― Fui tomar chope com os amigos.

― Chope! Você estava era chupando o sangue de outra mulher.

― Meu amor, você sabe que eu só gosto do seu sangue.

― Pois sim. Há meses que você não morde meu pescoço. Você tem outra.

― Que injustiça. Eu...

― Olha aí. O que é essa mancha no seu colarinho?

― É batom, meu bem.

― Batom nada. É sangue. Você tem o sangue de outra no seu colarinho!

― Não seja boba. Vem cá, vem. Vou mostrar como você é a única da minha vida.

E o vampiro morde o pescoço da mulher, que fica impassível.

― E então? ― diz o vampiro.

― Só arranhou. Nem saiu sangue.

― Acho que bebi demais...


* * *
Com a primeira o Gérson não teve sorte. Disse:

― Eu sei que você vai pensar que eu digo isto para todas, mas eu juro que é a primeira vez. Eu não conheço você de algum lugar?

― Conhece.

― De onde?

― Daqui mesmo. Um mês atrás. Você chegou e disse que sabia que eu ia pensar que você dizia isto para todas, mas jurou que era a primeira vez e perguntou se não me conhecia de algum lugar.

Antes de se afastar ela ainda disse:

― Até a próxima.

Com a outra foi diferente.

― Você me desculpe, mas tenho a nítida impressão de que já conheço você...

― Não estou me lembrando. Essa pessoa que você conhece... se chama Alice?

― Não.

― Tem 22 anos, não tem namorado e mora sozinha?



― Não.

― O telefone dela é 236-4477?

― Não.

― Então não sou eu.


* * *
Mulher na rua com cachorro preso por uma coleira.

― Vamos lá, Tupi. Faz o teu xixi que eu quero voltar para casa... Como é, Tupi? Ai, minha Santa Paciência, padroeira das empregadas. Eu tinha que trabalhar em apartamento com cachorro... Como é, Tupi, já fez? Não fez nada... Eu estou perdendo a minha novela, Tupi. A hora do xixi tem que ser logo esta? Passa o dia em casa sem fazer nada. Chega a hora da novela, é "Leva Tupi pra fazer o pipizinho dele..." Pipizinho. Faz, Tupi, qual é o problema? É inibição, é? Eu não olho. É fácil fazer xixi, Tupi. É só levantar a perninha. Mas não, como você é diferente. Tem que ficar meia hora pensando, antes. Faço ou não faço? Pipi or not pipi? Tupi, você não é um filósofo. Você é um cachorro! Faz, Tupi! Já fez? Não fez. É contra mim, eu sei. Quando a novela tiver acabado, aí você faz. Vamos lá, Tupi. Pelo amor de Deus. Pelo Brasil, Tupi. Pelo Fernando Henrique. Pela paz mundial e a irmandade entre as nações. Pela sua mãe! Fez? Não fez. Olha aqui, Tupi, está ficando tarde. Daqui a pouco podem até nos assaltar aqui na rua. Vão levar você. "Passe o cachorro." E aí, o que eu digo em casa? "Levaram o Tupi." "Ele já tinha feito o pipizinho dele?" Fez, de susto. Bem feito. Como é Tupi? A minha novela, Tupi... Tupi? Isso, agora. Coragem. Muito bem, Tupi! Fez na minha perna, não faz mal. Santa Paciência, padroeira das empregadas, dai-me forças. Vamos para casa, Tupi, que o Antônio Fagundes está nos esperando.


O pior crime


Os sem-terra cometeram vários crimes que justificam sua execução sumária. O primeiro foi o de existir. Este podia ser classificado como um crime menor, quase uma contravenção. Seria uma inconveniência tolerável, se não passasse disso. Mas quando, não contentes em existir, os sem-terra começaram a existir em grande número, a coisa tornou― se grave. Alguns não só existiam como se manifestavam. Outros foram ainda mais longe: transformaram-se em vítimas. Morreram, num claro desafio à ordem estabelecida. Em muitos casos, de tocaia, só para aparecer mais. Finalmente deixaram para trás qualquer escrúpulo e cometeram um crime imperdoável: se organizaram. São justificados os protestos contra mais essa afronta. Organizando-se, os sem-terra mudaram as regras do jogo, demonstrando ― além de tudo ― falta de esportividade. Eram regras antigas, combinadas e aceitas por todos. Organizando-se, os sem― terra espisotearam uma tradição brasileira de "fair play", que é o termo inglês para "não esquenta que depois a gente vê isso". Enquanto não estavam organizados era fácil enfrentá-los, controlá-los e derrotá-los ― ou pedir calma, que era quase a mesma coisa. Organizados, eles ganharam uma força inédita capaz até de ― nada detém a audácia desses marginais ― dar resultado.

Mas o pior crime dos sem-terra é o literalismo. Sua perigosa adesão ao pé da letra, sua subversiva pretensão que a prática siga a teoria. É um crime hediondo, pois coage as pessoas a serem fiéis à própria retórica o que no Brasil é antinatural. Como se sabe, todos no Brasil são a favor da reforma agrária. Fala-se em reforma agrária há gerações. Na saída da primeira missa o assunto já era a reforma agrária, e ninguém era contra. E vêm esses selvagens destrur todo um passado de boas intenções e melhores frases, querendo que nobre tese vire reles fato e princípio intelectual vire terra e adubo. E ainda pedindo pressa.

Jagunço neles.

Histórias de verão: o Tapir


Esta é uma história terrível. Tem a ver com um homem e o seu cachorro e o desconserto do mundo. Deve ter outros significados, mas o autor não quer nem saber quais são. Um homem e o seu cachorro.

A família morava numa casa e tinha um cachorro. Não sei de que raça. Não interessa. As crianças ― um rapaz de 17, uma menina de 12 ― gostavam de brincar com o cachorro, mas quem cuidava dele mesmo era o pai. (O pai das crianças, não do cachorro.) O cachorro obedecia ao pai. Respeitava a mãe, brincava com as crianças, mas sua lealdade era dedicada ao pai. Lealdade forte, total, canina mesmo. Quando o deixavam entrar na casa, o cachorro ia direto botar a cabeça no joelho do pai para receber o cafuné. Depois deitava aos seus pés. E um dia o pai entrou correndo em casa e fechou a porta atrás de si com rapidez, e com cara de espanto.

― O que foi, Celmar? ― perguntou a mulher.

― O Tapir.

― O quê?

― Avançou em mim.

― O quê?!

― Avançou. Quis me morder. Olha, chegou a rasgar a manga.

― Meu Deus. É raiva!

Mas quando a mulher foi olhar o Tapir, solto no quintal da frente, ele parecia normal. Aceitou o seu carinho, sacudiu o rabo, tudo como sempre. Mas foi só o Celmar botar a cara para fora da porta para o Tapir começar a rosnar e mostrar os dentes.

― Você fez alguma coisa pra ele, Celmar?

― Eu? Nada!

Quando as crianças chegaram foram recebidas pelo Tapir brincalhão de sempre. Mas, quando o pai saiu pela porta disposto a se impor ao Tapir pelo grito e acabar com aquela história, foi obrigado a voltar correndo para dentro da casa. O Tapir avançou nele de novo.

Qual era a explicação? Tapir não podia estar confundindo Celmar com outra pessoa, depois de tanto tempo. Nada mudara em Celmar. Loção de barba, roupas, nada. E, no entanto, Tapir tinha que ficar preso por uma coleira, nos fundos da casa, para Celmar poder transitar pelo quintal da frente sem susto. O quintal da frente da sua casa, da sua própria casa. Como o resto da família Tapir se comportava como antes. Segundo o veterinário, não havia nada de errado com ele. Mas era só avistar o Celmar, mesmo através de uma janela, e Tapir começava a rosnar e mostrar os dentes.

― Ouvi dizer que os cachorros têm um sexto sentido. Uma espécie de instinto para algumas coisas ― disse, um dia, o filho, na mesa do jantar.

― Que coisas?

― Não sei, pai. Mas alguma coisa diferente ele notou em você...

Naquela noite, pela primeira vez, Celmar viu que a filha olhava para ele de uma maneira estranha. Desconfiada.

Outra noite. Celmar e a mulher na cama.

― O que você anda aprontando, Celmar?

― Como, aprontando? Por quê?

― O Tapir não se comportaria assim por nada.

― Não há nada! Eu sou a mesma pessoa de sempre. O cachorro é que enlouqueceu!

― Sei não. Sei não.

Dias depois, a família e os vizinhos acompanharam uma cena insólita nos fundos da casa. Tarde da noite. Celmar cara a cara com o Tapir, gritando:

― O que é? Hein? Hein? O que é?

E o Tapir quase arrebentando a coleira, tentando avançar no Celmar e latindo furiosamente.

Quando o Celmar anunciou que tomara a decisão de se livrar do cachorro, mãe e filhos se entreolharam. Depois a mulher disse que não iam se livrar do cachorro não. E disse:

― Nós achamos que ele está tentando nos avisar de alguma coisa.

― Então eu saio de casa! ― explodiu Celmar.

E saiu. Está morando sozinho. Quando não está no escritório, passa horas deitado, pensando, ou se examinando no espelho, tentando descobrir o que o Tapir viu nele de repente, e não aceitou. Tem saudade da casa e da família. Mas chegou à conclusão que sente falta, mesmo, é do Tapir. Enquanto isto, a mulher e os filhos estão convencidos de que foi melhor assim, e estão gratos ao Tapir pelo aviso. Às vezes a gente não sabe o tipo de gente que tem dentro de casa.

Histórias de verão 3

Os dois casais se conheceram há pouco e se deram tão bem que combinaram alugar uma casa na praia juntos, neste verão. Helena e Severo, Renata e Ariosto. Alugaram uma ótima casa, com um único defeito: paredes finas.

Na primeira noite, Renata e Ariosto acompanharam a atitude amorosa de Helena e Severo no quarto ao lado desde os primeiros sussurros, passando por gemidos cada vez mais intensos e culminando com os gritos de Helena: ― Severão! Severão! Você me mata, Severão!

Na noite seguinte, a mesma coisa. Ruídos indefinidos, risos abafados, Severo dizendo alguma coisa como "Bizuquinha" várias vezes, depois gemidos rítmicos num crescendo, até: ― Severão! Severão! Você me mata, Severão!

Ariosto se deu conta que, assim como eles podiam ouvir tudo do quarto ao lado, do quarto ao lado podiam ouvir tudo do quarto deles. E que até ali só tinham ouvido a conversa banal de um casal antes de dormir, sem qualquer interesse ou paixão. Tipo: ― Cê se lembrou de trazer o inalador?

― Vê no sacolão.

Naquela noite, antes que a atividade no quarto ao lado começasse, Ariosto propôs a Roberta: ― Vamos?

― Onde?

― Nós dois. Mostrar a esses dois aí do lado.

E Ariosto começou a mordiscar o ombro da mulher, tentando se lembrar de como a chamava antigamente. Seria "Ró"? Era "Ró".

― Vamos, Ró.

― "Ró"?!

― Vamos, vai. Fazer barulho.

― Não estou com vontade, Ariosto.

― Finge, pô.

― Faz tanto tempo...

― Use a sua imaginação.

E tanto Ariosto insistiu que Roberta cedeu, e usou sua imaginação, e em alguns minutos sons orgásticos atravessavam todas as paredes da casa, e do quarto ao lado Helena e Severo ouviram Roberta gritar: ― Ai, Pauloca! Ai, ai, ai, Pauloca!

Na manhã seguinte, na mesa do café, Ariosto explicou a ausência de Roberta. Continuava no quarto. Estava muito transtornada com a morte de um amigo do casal, o Pauloca. Helena e Severo talvez até tivessem ouvido as lamentações de Roberta, na noite anterior.

― E quando foi que morreu esse Pauloca? ― perguntou Severo.

― Entre hoje e amanhã ― disse Ariosto, e em seguida anunciou que estava voltando para a cidade porque precisava tratar de um assunto urgente.

Outros dois casais ― João e Maria, José e Maura Isoldete ― alugaram uma casa num condomínio na serra onde em um mês já tentaram todas as combinações além de mulher com marido e marido com mulher ― João com Maura Isoldete e José com Maria, até João com José e Maria com Maura Isoldete ― e no outro dia receberam com grande alegria a chegada de um primo do João, Gideão, um moço moreno, forte e bonito. Foi Maura Isoldete quem sugeriu, com os olhos brilhantes, que as possibilidades para o resto da estação se multiplicavam com a presença de Gideão na casa. Em vez de canastra dia e noite, poderiam jogar, por exemplo, pôquer, que com só quatro não tem graça.

Rezende e a família têm uma casa na praia e a casa ao lado é de uma família chamada Alvorão. A única coisa que os Rezendes sabem dos vizinhos é que se chamam Alvorão. Não sabem onde eles moram no resto do ano, o que fazem, nada. Há dez anos acompanham a vida dos Alvorãos apenas pelo que vêem e escutam durante o verão. Dez anos, não. Nove.

Teve um ano em que a casa dos Alvorãos ficou misteriosamente fechada durante toda a temporada. Os Rezendes perguntaram aos outros vizinhos ― os Pitas, os Matinhos, os Leivas ― e ninguém sabia nada sobre os Alvorãos.

No ano seguinte vieram só a mulher e os filhos, um casal de gêmeos esquisitos. Pelo menos parecem gêmeos. E todas as noites, naquele verão, ouviu-se pela janela do quarto do casal a senhora Alvorão cantando Sabrá Dios com a língua cada vez mais enrolada. Um dia, grande sensação. Um dos gêmeos esquisitos, o rapaz, bateu na porta dos Rezendes com a cara assustada e perguntou se eles tinham alho em resma. E teve o ano em que o filho menor dos Pitas foi aprisionado pelos Alvorãos porque o pegaram espiando por uma janela. Saiu da casa de olhos arregalados, contando "Eles não têm televisão!", tão nervoso com a descoberta que ficou duas noites sem dormir. A senhora Alvorão já apareceu gorda, magra, gorda de novo, e no ano passado andou o tempo todo envolta numa espécie de lençol de seda amarelo, até na praia. O senhor Alvorão não vai à praia, nunca chega perto do mar. Passa o tempo todo cuidando do jardim da casa. Responde a todas as tentativas de puxar conversa dos vizinhos com um "Rá!" que ninguém ainda conseguiu decifrar. Tanto pode ser um esforço para ser simpático, uma manifestação de desdém ou um latido.

Este ano, finalmente, a senhora Rezende tomou coragem, disse que era impossível passar dez anos sem saber nada de um vizinho, afinal eles são gente como a gente, têm filhos como os nossos, só um pouco esquisitos, afinal somos todos membros da mesma família humana e sabe o que mais? É hoje que eu vou lá.

― Fazer o quê? ― perguntou o marido.

― Uma visita. Uma simples visita. A coisa mais antiga do mundo. O começo de toda vida social. (Nota do Autor: a senhora Rezende é professora). Um vizinho visitando o outro.

― Não vá se envolver ― disse o marido. ― Olhe lá.

Querendo dizer que, pelo que vislumbravam dele, o universo ao lado podia ser um sumidouro. Que não há nada mais perigoso do que a vida alheia. Que melhor era deixar acabar o verão e todos voltarem para os seus mistérios, como todos os anos. Mas a senhora Rezende foi. Bateu na porta dos Alvorãos. Ouviu um "Rá!"' do senhor Alvorão, que a deixou entrar. Não sei como termina esta história. A senhora Rezende está lá desde as seis e meia. Ainda não saiu. Todos os olhos da vizinhança estão nas janelas dos Alvorãos, tentando adivinhar o que se passa lá dentro.

Histórias de verão 4: o parente


Conversa vai, conversa vem e os dois descobriram um parentesco. Ramiro chamou a mulher:

― Cris, olha só!

A Cris veio, ajustando o maiô atrás. Tinha recém-saído da água. O Ramiro apresentou:

― Cristina, Afonso. Afonso, Cristina.

― Muito prazer.

― Prazer, desculpe a mão molhada.

― Olha só: nós somos parentes.

― Como assim?

― Ele é Escuvero por parte de mãe!

― Escuvero, Escuvero...

― Você não lembra? A mamãe vivia falando nos Escuvero. Na tia Jenoca, no tio Pompeu...

― Não lembro não.

― Ó Cris! Por amor de Deus.

― Sua mãe contava tanta história...

― O Pompeu. Da história do gato.

― O Pompeu Maluco?

― Esse!

― Pompeu era o pai da minha mãe ― disse Afonso, sério.

― Veja só. Neto do Pompeu Escuvero. Nós devemos ser primos em, o quê? Quarto ou quinto grau. Mamãe era sobrinha-neta da dona Licinha, que vinha a ser, deixa ver... O quê mesmo?

Cris estava mais interessada em outro detalhe.

― A história do gato é verdade?

Afonso continuava sério.

― Não sei qual é a história.

― Como é mesmo a história, amor?

Mas Ramiro tinha notado a seriedade de Afonso.

― Pensando bem, acho que a história do gato não foi com o tio Pompeu.

― Claro que foi. O Pompeu Maluco!

― Que eu saiba ― disse Afonso ― na minha família não tinha maluco.

Nuvens negras se aproximavam, as pessoas começavam a juntar suas coisas para fugir da praia, e Ramiro aproveitou para segurar o braço da mulher antes que ela dissesse outra palavra.

― Olha a chuva! Pega as crianças e vamos embora.




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