Luis fernando verissimo Crônicas Selecionadas da coluna do Estadão



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Despediram-se rapidamente de Afonso. Combinaram conversar mais sobre o parentesco no dia seguinte. Que coisa, que coincidência, etc. Grande prazer, hein? Tchau, tchau, até amanhã, até amanhã. Afonso disse que ia ficar na praia. Gostava de caminhar na praia com chuva. Bem coisa de um neto do Pompeu Maluco, pensou Ramiro, quando Afonso se afastou.

― Você não notou que ele não gostou da conversa sobre o Pompeu Maluco?

Estavam na mesa do almoço, com os três filhos.

― Foi você que puxou o assunto.

― Melhor não falar mais nada sobre isso com ele.

― Melhor nem chegar mais perto dele. Cara esquisito!

― Quem? ― quis saber Rodrigo, o filho menor.

― Um parente que o papai encontrou na praia.

― Parente longe. Aliás, nem sei se Escuvero é parente mesmo. Se é, é longe.

― Como era mesmo a história do gato?

As crianças se entusiasmaram.

― Que história do gato?

― Nem me lembro mais. O Pompeu Maluco fazia alguma coisa com gatos. Histórias da família.

O filho menor era o mais interessado.

― Fazia o quê com gato?

Por um rápido momento, Ramiro teve uma visão hidráulica. Um diagrama animado. Um fluxograma genealógico em movimento, era isso. O sangue dos Escuvero passando por tubos comunicantes, não se misturando com o sangue dele mas sendo despejado diretamente na corrente do seu filho Rodrigo com o gene defeituoso do Pompeu Maluco, predispondo-o a fazer coisas com gatos.

― Fazia o quê com gato? ― insistiu o menino.

― Come, Rodrigo.

Na manhã seguinte, Ramiro e Cris caminhavam na praia quando avistaram o Afonso vindo na direção contrária.

― Hiih. . . ― disse Cris.

― "liih" por que? Ele é um tipo interessante.

― Não pára, Ramiro. Por favor, não pára.

Mas Ramiro já estava com os braços levantados, saudando o outro.

― Salve, primo!

Afonso, formal:

― Bom dia. Como vão?

― Olha. Falei com mamãe. É como eu pensei, a história do gato não tem nada a ver com o tio Pompeu. É do outro lado da família.

― Meu avô era cientista amador ― disse Afonso. ― Fazia experiências sobre o efeito da eletricidade no sistema nervoso. Talvez fosse isso.

― Não, não, Nada a ver.

Ramiro estava decidido a apaziguar o meio parente. Elaborou a mentira.

― O tal maluco era outro tio. Frederico. Frederico Maluco.

― Agora eu me lembro! ― exclamou Cris. ― Eletricidade. O Pompeu Maluco dava choque em gato!

― Não era o Pompeu, Cristina. A mamãe disse que era outro tio ― tentou consertar Ramiro.

Mas o mal estava feito. Afonso se afastou sem se despedir.

― Viu o que você fez? Você enlouqueceu?

― Você é que enlouqueceu. "Falei com mamãe... " Sua mãe está morta há três anos, Ramiro!

― Você não viu que eu estava tentando desfazer a nossa gafe?

Você gostaria que chamassem o seu avô de maluco?

― Graças a Deus na minha família não tem ninguém esquisito.

― Ah, é? E a sua prima que mastiga louça?

No dia seguinte, Ramiro e Cris caminhando na praia, e desta vez foi Ramiro quem disse:

― Iiih...

― Que foi?

― O parente. Vem vindo.

― E vem depressa. Parece que vai nos atac. . . Ramiro, onde você vai?

― Corre!

Ramiro já estava correndo, fugindo de Afonso. Cris saiu atrás.

― Que coisa ridícula, Ramiro. O que ele pode nos fazer?

― Sei lá. Mamãe sempre disse que os Escuvero são doidos.

― Meu Deus ― disse Cris. ― As crianças!


Histórias de verão 5: Bandeira Branca


Ele: tirolês. Ela: odalisca. Eram de culturas muito diferentes, não podia dar certo. Mas tinham só quatro anos e se entenderam. No mundo dos quatro anos todos se entendem, de um jeito ou de outro. Em vez de dançarem, pularem e entrarem no cordão, resistiram a todos os apelos desesperados das mães e ficaram sentados no chão, fazendo um montinho comum de confete, serpentina e poeira, até serem arrastados para casa, sob ameaças de jamais serem levados a outro baile de carnaval.

Encontraram-se de novo no baile infantil do clube do ano seguinte. Ele com o mesmo tirolês, agora apertado nos fundilhos, ela de egípcia. Tentaram recomeçar o montinho, mas desta vez as mães reagiram e os dois foram obrigados e dançar, pular e entrar no cordão, sob ameaça de levarem uns tapas. Passaram o tempo todo de mãos dadas.

Só no terceiro carnaval se falaram.

― Como é teu nome?

― Janice. E o teu?

― Píndaro.

― O que?!

― Píndaro.

― Que nome!

Ele de legionário romano, ela de índia americana.

Só no sétimo baile (pirata, chinesa) desvendaram o mistério de só se encontrarem no carnaval e nunca se encontrarem no clube, no resto do ano. Ela morava no interior, vinham visitar uma tia no carnaval, a tia é que era sócia.

― Ah.


Foi o ano em que ele preferiu ficar com a sua turma, tentando encher a boca das meninas de confete, e ela ficou na mesa, brigando com a mãe, se recusando a brincar, o queixo enterrado na gola alta do vestido de imperadora. Mas quase no fim do baile, na hora do "Bandeira Branca", ele veio, e a puxou pelo braço, e os dois foram para o meio do salão, abraçados. E quando se despediram ela o beijou na face, disse "Até o carnaval que vem" e saiu correndo.

No baile do ano em que fizeram 13 anos, pela primeira vez as fantasias dos dois combinaram. Toureiro e bailarina espanhola. Formavam um casal! Beijaram-se muito, quando as mães não estavam olhando. Até na boca. Na hora da despedida, ele pediu:

― Me dá alguma coisa.

― O que?

― Qualquer coisa.

― O leque!

O leque da bailarina. Ela diria para a mãe que o tinha perdido no salão.

No ano seguinte ela não apareceu no baile. Ele ficou o tempo toda à sua aprocura, um havaiano desconsolado. Não sabia nem como perguntar por ela. Não conhecia a tal tia. Passara um ano inteiro pensando nela, às vezes tirando o leque do seu esconderijo para cheirá-lo, antegozando o momento de encontrá-la outra vez no baile. E ela não apareceu. Marcelão, o mau elemento da sua turma, tinha levado gim para misturar com o guaraná. Ele bebeu demais. Teve que ser carregado para casa. Acordou na sua cama sem lençol, que estava sendo lavado. O que acontecera?

― Você vomitou a alma ― disse a mãe.

Era exatamente como se sentia. Como alguém que vomitara a alma e nunca a teria de volta. Nunca. Nem o leque tinha mais do cheiro dela.

Mas no ano seguinte ele foi ao baile dos adultos no clube ― e lá estava ela! Quinze anos. Uma moça. Peitos, tudo. Uma fantasia indefinida.

― Sei lá. Bávara tropical ― disse ela, rindo.

Estava diferente. Não era só o corpo. Menos tímida, o riso mais solto. Contou que faltara no ano anterior porque a avó morrera, logo no carnaval.

― E aquela bailarina espanhola?

― Nem me fala. E o toureiro?

― Aposentado.

A fantasia dele era de nada. Camisa florida, bermudas, finalmente um brasileiro. Ela estava com um grupo. Primos, amigos dos primos. Todos vagamente bávaros. Quando ela o apresentou ao grupo alguém disse "Píndaro?!" e todos caíram na risada. Ele viu que ela estava rindo também. Deu uma desculpa e afastou-se. Foi procurar o Marcelão. O Marcelão anunciara que levaria várias garrafas presas nas pernas, escondidas sob as calças da fantasia de sultão. O Marcelão tinha o que ele precisava para encher o buraco deixado pela alma. Quinze anos, pensou ele, e já estou perdendo todas as ilusões da vida, começando pelo carnaval. Não devo chegar aos 30, pelo menos não inteiro. Passou todo o baile encostado numa coluna adornada, bebendo o guaraná clandestino do Marcelão, vendo ela passar abraçada com uma sucessão de primos e amigos de primos, principalmente um halterofilista, certamente burro, talvez até criminoso, que reduzira sua fantasia a um par de calças curtas de couro. Pensou em dizer alguma coisa, mas só o que lhe ocorreu dizer foi "Pelo menos o meu tirolês era autêntico" e desistiu. Mas quando a banda começou a tocar "Bandeira Branca" e ele se dirigiu para a saída, tonto e amargurado, sentiu que alguém o pegava pela mão, virou-se e era ela. Era ela, meu Deus, puxando-o para o salão. Ela enlaçando-o com os dois braços para dançarem assim, ela dizendo "Não vale, você cresceu mais do que eu" e encostando a cabeça no seu ombro. Ela encostando a cabeça no seu ombro.

Encontraram-se de novo 15 anos depois. Aliás, neste carnaval. Por acaso, num aeroporto. Ela desembarcando, a caminho do interior, para visitar a mãe. Ele embarcando para encontrar os filhos no Rio. Ela disse: "Quase não reconheci você sem fantasia." Ele custou a reconhecê-la. Ela estava gorda, nunca a reconheceria, muitos menos de bailarina espanhola. A última coisa que ele lhe dissera fora "Preciso te dizer uma coisa", e ela dissera "No carnaval que vem, no carnaval que vem" e no carnaval seguinte ela não aparecera, ela nunca mais aparecera. Explicou que o pai tinha sido transferido para outro Estado, sabe como é, Banco do Brasil, e como ela não tinha o endereço dele, como não sabia nem o sobrenome dele, e, mesmo, não teria onde tomar nota na fantasia de falsa bávara...

― O que você ia me dizer, no outro carnaval? ― perguntou ela.

― Esqueci ― mentiu ele.

Trocaram informações. Os dois casaram, mas ele já se separou. Os filhos dele moram no Rio, com a mãe. Ela, o marido e a filha moram em Curitiba, o marido também é do Banco do Brasil... E a todas essas ele pensando: digo ou não digo que aquele foi o momento mais feliz da minha vida, "Bandeira Branca", a cabeça dela no meu ombro, e que todo o resto da minha vida será apenas o resto da minha vida? E ela pensando: como é mesmo o nome dele? Péricles. Será Péricles? Ele: digo ou não digo que não cheguei mesmo inteiro aos 30, e que ainda tenho o leque? Ela: Petrarco. Pôncio. Ptolomeu...

Histórias de verão ― 6


Este ano ele decidiu fazer um retiro espiritual durante o carnaval. A mulher compreendeu. Ele precisava de uns dias de recolhimento, introspecção e auto-análise. "Um spa da alma", foi como descreveu o que queria. E, através de um parente religioso, conseguiu exatamente o que queria. Um cubículo de paredes nuas, salvo por um crucifixo, uma cama com colchão de palha, uma semana de comida frugal, água de moringa e reflexão. Faria um levantamento da sua vida até ali, para saber como vivê-la com sabedoria até o fim. Internou-se na segunda-feira para sair na sexta. Na quarta-feira teve a primeira visão. De uma das paredes nuas uma adolescente nua, que ele reconheceu imediatamente. Irene, a Vizinha Irene, seu primeiro beijo de língua. Naquela mesma noite apareceu a prima Ivani, que deixava ele tocá-la por fora da calcinha. Ivani entrou por uma rachadura do teto, sem calcinha. Na quinta-feira um grande calor dentro do cubículo anunciou a chegada de Inga, a empregada da colônia, a dos mamilos rosados, sua primeira vez até o fim. Em seguida, materializou-se num canto a sua primeira vez até o fim. Em seguida, materializou-se num canto a sua primeira namorada séria, Maria Alcina, a que enchia o umbigo de mel para ele esvaziar com a língua. E de dentro da moringa saiu a sinuosa Sulamita dos cabelos negros até a cintura, que ele pensava que já tivesse esquecido.

Naquela noite, se alguém olhasse pela portinhola, o veria dando voltas no cubículo, puxando um cordão imaginário de mulheres, que depois caberiam todas juntas no seu colchão de palha. Na sexta-feira, antes de sair, ele combinou com todas. Ano que vem, aqui mesmo, turma! Quando ele chegou em casa a mulher só estranhou as olheiras.

O Lopes foi até a praia levar uns papéis para o seu Vinícius assinar e acabou sendo escalado no gol, porque o goleiro do time adversário estava com infecção gástrica. Disse que precisava voltar para a cidade, para o trabalho, mas o seu Vinícius o dispensou do trabalho e ordenou que ele ficasse na praia e fosse para o gol. Houve protestos dos adversários. Iam jogar com um empregado do Vinícius, um assalariado, um dependente do Vinícius, que faria qualquer coisa para agradar o Vinícius ― no gol!?! Brincadeira. Vinícius disse que botava a mão no fogo pelo empregado. Era um homem corretíssimo. Se deixasse passar alguma bola não era por servilismo, era porque nunca na vida jogara no gol. E aconteceu o seguinte: o Lopes, jogando com um calção emprestado, não deixou passar uma bola. Fez defesas sensacionais. Tantas que, apesar de repetidas prorrogações, o jogo acabou zero a zero. Praia vazia, o sol indo embora, não havia outro jeito: decisão por pênaltis. O time do Vinícius se reuniu em volta dele, para pedir providências.

― Pô, Vinícius. Dá um jeito nesse cara.

― Tá pegando tudo.

― Calma, calma.

O time adversário estava reunido em torno do Lopes, entusiasmado com o sorridente Lopes. Era verdade que ele nunca jogara no gol antes?

― Nunca joguei futebol!

Aquilo era talento nato. Um fenômeno. E o Lopes radiante. Modesto mas radiante. O que é isso? Sorte, sorte.

Cinco penaltis para cada lado. Vinícius deu um jeito de se aproximar do herói da tarde, antes das cobranças. Disse:

― Deixa passar uns três.

― Mas seu Vinícius...

Mas Vinícius já tinha se afastado.

Primeiro chute. Lopes defende.

O time adversário marca.

Segundo chute do time do Vinícius. Outra defesa espetacular de Lopes.

O time do Lopes marca. Dois a zero.

Terceiro chute do time do patrão. Lopes se atira para um lado, a bola vai para o outro, mas Lopes defende com o pé.

Terceiro chute do time do Lopes. Para fora.

Vinícius prepara-se para chutar o quarto pênalti do seu time. Se marcar, seu time ainda tem chance de empatar. Se perder, seu time está liquidado. Vinícius aproxima-se de Lopes com a bola embaixo do braço.

― Se você defender este, está despedido.

Lopes não diz nada. Vinícius continua, falando baixo:

― E vai ser por justa causa. Não tem fundo de garantia, indenização, nada. É rua, sem um tostão.

Lopes quieto, olhando para o chão.

― Há quanto tempo você está na firma. Vinte anos? Pois vão ser vinte anos jogados fora. Vai fazer o que? Recomeçar a vida? Como goleiro?

Os adversários protestam. Olha aí seu juiz, coação. Coação! Bate logo esse pênalti!

― Pense bem ― diz Vinícius, antes de se afastar para colocar a bola no montinho do pênalti.

Vinícius toma distância. Lopes está encurvado, braços abertos, olho na bola. Não se sabe o que passa pela sua cabeça. Mais tarde, dirá para a mulher que pensou nas crianças, pensou nela, mas isso pode ser literatura depois do fato. É provável que seu cérebro esteja ocupado apenas por ele mesmo, e pela sua escolha. Dizem que todo homem tem um momento assim, em que se vê de frente pela única vez, embora possa estar olhando para nada mais definidor do que uma bola branca. Vinícius corre para a bola branca. Por um instante o olhar dos dois se encontra. Estão num crepúsculo do deserto, os dois seminus, e nada no mundo ainda foi inventado, salvo a bola. Vinícius chuta no canto. Um chute seco. Lopes voa. Com a ponta dos dedos, voa a bola para fora. Alguém dirá depois que nunca viu uma defesa como aquela, para fora. Alguém dirá depois que nunca viu uma defesa como aquela, em praia ou estádio. O time de Lopes carrega o seu goleiro acidental em triunfo.

Antes de voltar para a cidade, Lopes precisa pegar sua roupa na casa de Vinícius. Os dois se encontram no alpendre. Vinícius quer saber:

― Por que?

Lopes baixa os olhos. Dá de ombros. Não sabe o que dizer. Os dois não estão mais no deserto.

O primeiro disse que o sol se pondo banhava o rosto dela com uma luz violenta especialmente encomendada para realçar seus olhos claros, que o mundo era um cenário para a sua passagem, e que o firmamento, o firmamento era só efeitos de luz de um diretor que obviamente a amava, como ele. O segundo disse que as cores do pôr-do-sol eram ilusões óticas devidas ao efeito prismático da atmosfera quando a Terra estaca num certo ângulo em relação ao Sol, que tudo era ilusão, que a única certeza que se podia ter do Universo era da sua indiferença aos nossos pobres desígnios humanos e que mesmo assim ele a amava, e o terceiro, que disse que nada podia dizer sobre o pôr-do-sol, salvo que do terraço da sua cobertura poderiam vê-lo melhor, foi aquele a quem Teresa deu a mão. Pois são difíceis os tempos.


Histórias de vizinhos


Vizinhos, vizinhos. Todo o mundo tem histórias de vizinhos. Vizinhos de cima, vizinhos de baixo, vizinhos de trás e da frente, vizinhos de porta ou de janela, vizinhos com filhos ou sem filhos, com cachorros ou sem cachorros. Bons vizinhos, maus vizinhos...

Você escolhe, até certo ponto, os amigos que quer ter e as pessoas com quem quer viver, mas não escolhe as pessoas mais importantes da sua vida. As pessoas que condicionam e determinam a sua existência e os seus humores: seus pais e os seus vizinhos. Ninguém escolhe a família em que vai nascer ― ou seja, a forma do seu nariz e da sua herança ― nem, salvo raras exceções, os vizinhos que vão rodeá-lo.

E um vizinho pode ser a sua salvação. Não só metafórica, fornecendo o gelo que acabou ou o açúcar que faltou, mas a sério, chamando a polícia na hora do assalto, arrastando você do incêndio e fazendo respiração boca a boca, completando a parceria do buraco, etc.

E um vizinho também pode ser a sua perdição. Pode reforçar ou acabar com a sua fé na humanidade, resgatar você da solidão e do desespero ou fazer você perder o sono, a razão e finalmente o controle e transformá-lo num assassino raivoso. Todo homem é ele e a sua vizinhança. E se é verdade que o maior mistério e desafio do homem é sempre o outro, então o vizinho é o outro na sua versão radical. É o outro do lado.

Bons vizinhos, maus vizinhos, vizinhos esquisitos... Carlos e Luiza um dia tomaram coragem e bateram na porta do seu vizinho esquisito, o dos três cachorros. Não era por nada não, mas será que ele podia baixar um pouco a música? Todos os dias, o dia inteiro, a mesma música, no mesmo volume. Não apenas música, mas ópera. E não apenas ópera, mas ópera de Wagner. Se desse para baixar um pouquinho...

O vizinho esquisito explicou que, se dependesse dele, baixava. Nem gostava muito de ópera, muito menos de Wagner. Mas quem ouvia não era ele, era o Kaiser, seu pastor alemão. O Kaiser exigia ópera, e naquele volume, o dia inteiro. E ai se não fosse Wagner.

Se eles quisessem tentar convencer o Kaiser... Carlos e Luiza desistiram, e recorreram às preces. Que deram certo, pois um dia o Kaiser foi atropelado na rua e morreu. Seguiram-se semanas de abençoado silêncio no apartamento ao lado, para alegria de Carlos e Luiza. Até que um dia, cedo de manhã, todos começaram a ouvir música chinesa vinda do apartamento do vizinho esquisito. Enlouquecedora música chinesa, a todo volume, sem parar. Um horror, concordou o vizinho esquisito, mas era uma exigência de Ping, seu pequinês.

Ping, aparentemente, só esperava a morte do Kaiser para impor seu gosto musical. Mas como se explicavam as semanas de abençoado silêncio, quiseram saber Carlos e Luiza. Ping decidira que alguns dias de luto e respeito se impunham, depois da morte do pastor alemão.

Carlos e Luiza estão pensando seriamente em raptar o pequinês e dissolvê-lo no liquidificador, mas estão com uma dúvida, e fazendo pesquisa. O terceiro cachorro é um dinamarquês. Quais são os compositores dinamarqueses? Alguém sabe alguma coisa da música dinamarquesa?

Os vizinhos de cima fazem barulho, mas os vizinhos de baixo são os piores. Os vizinhos de baixo reclamam do nosso barulho. Cansada de tanto ouvir desaforo da vizinha de baixo, Magali resolveu vender o apartamento. Durante anos cuidara para não fazer barulho, durante anos levara uma vida de monja, na ponta dos pés, aterrorizada pela vizinha de baixo. E mesmo com todo o seu cuidado, não parava de ouvir críticas da vizinha de baixo. Críticas injustas, insultos, ironias. "Que festão ontem, hein?" só porque um copo quebrara no chão da cozinha. "Esta manhã o que foi, uma manada de búfalos, é?" Magali não sabia responder. Gaguejava, pedia desculpas, e a vizinha de baixo aproveitava para aterrorizá-la ainda mais.

Finalmente, Magali resolveu fugir. Pôs o apartamento à venda.

E avisava aos possíveis compradores: a vizinha de baixo podia ser um problema. A vizinha de baixo era difícil...

Até que apareceu a Consuelo. Alta. Cabelos puxados para trás. O busto, um promontório. Não era uma mulher, era uma força-tarefa.

Declarou "Sou espanhola" como se fosse um habeas-corpus preventivo, que lhe permitia tudo, inclusive o coque e a insolência. Olhou o apartamento com ar superior, declarou que ficaria com ele e informou:

― Danço flamenco.

― Ótimo ― disse a Magali.

E não disse mais nada. Depois que entregou a chave do apartamento a Consuelo e seus três acompanhantes, com um sorriso secreto nos lábios, e se mudou, Magali nunca deixou de ler as páginas policiais do jornal, antegozando a notícia do primeiro incidente.

E tem a história do Rogério que salvou uma vizinha do suicídio ― sentiu cheiro de gás, arrombou a porta do apartamento dela, foi ali, ali ― e se envolveu de tal maneira na vida da moça que teve de largar tudo, o escritório, os planos de curso no exterior, a futebol de salão das terças com os amigos, a namorada, tudo, porque se sente responsável pela continuação da vida da moça, que se não fosse por ele estaria morta e sem mais problemas, porque a moça é complicada e não perde oportunidade de lembrá-lo da sua obrigação de ajudá-la e enfrentar uma vida que ela não queria mais, porque o outro é sempre um mistério e um desafio e um sumidouro, e porque ela não é exatamente bonita, mas tem um olhinho caído, o lábio inferior saliente e não consegue dormir sem o Rogério segurar a sua mão. Entende? diz o Rogério, mas ninguém entende. Comentam que Rogério é apenas um vizinho bom demais, que ninguém realmente salva ninguém, que é para isso que existem as paredes.


Histórias de vizinhos 2


Descobriram que, por alguma razão, por algum cano ou duto, podiam ouvir, do seu banheiro no terceiro andar, tudo o que se passava nos banheiros de cima e de baixo. Todos os ruídos, todas as vozes de todos os vizinhos do seu lado do prédio, do primeiro ao quinto.

Os ruídos se pareciam ― não há muita variedade nos sons que a humanidade produz no banheiro, que são, afinal, a única linguagem universal ―, mas as vozes eram difíceis de identificar. Qual seria aquele casal que sempre tomava banho junto, à noite, entre risadas?

Não podia ser o mesmo que brigava no banheiro todas as manhãs. E quem seria o barítono de uma sílaba só, que cantava seleções do cancioneiro popular fazendo "Bom, bom, bom, bom, bom, bom?"

Tentavam ligar as vozes aos vizinhos que encontravam na entrada do prédio e no elevador. Só podia ser daquele homem solitário e triste do 403 a voz que agradecia com sentimento ― "Obrigado, Senhor!" ― cada movimento bem-sucedido dos intestinos, aparentemente sua única felicidade na vida. E o gordo do 203, ou era o do "bom bom bom" ou era o que gritava, para alguém ou para ele mesmo no espelho, todas as manhãs: "É hoje, campeão! É hoje!"

Um dia a briga diária do casal ficou feia. Chegou a insultos pesados, a berros descontrolados, ao ruído de vidro quebrado ― e depois silêncio. Um devia ter matado o outro. Uma discussão daquela intensidade não acabava sem uma morte, ou pelo menos sem alguém no hospital.

Fizeram plantão no banheiro. À hora de sempre, ouviram o anônimo de cima ― ou seria de baixo? ― gritar "É hoje, campeão! É hoje!" Aquele continuava vivo e saudável. E confiante.

A pessoa que levava um rádio para o banheiro e, por volta do meio-dia, fazia tudo o que tinha de fazer ouvindo um programa de horóscopo e conselhos sentimentais cumpriu sua rotina de todos os dias. Estava bem.

Ouviram o agradecimento ao alto de sempre pela evacuação satisfatória. "Obrigado, Senhor!", depois o ruído da descarga.

E à noite ouviram os sons inconfundíveis de um homem e uma mulher debaixo do mesmo chuveiro. Não podia ser o mesmo casal da briga. Mesmo depois de uma reconciliação espetacular, não podia ser o mesmo casal.




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