Luis fernando verissimo Crônicas Selecionadas da coluna do Estadão



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― Não ouvi o "bom, bom, bom" o dia inteiro.

Era verdade. O cantor não cantara. Devia ser ele a vítima. Podia estar num hospital, com a cabeça quebrada. Podia estar morto. Podia estar esquartejado e guardado num freezer! Decidiram ir falar com o porteiro.

Não, disse o porteiro. Ninguém saíra do edifício para um hospital.

Ele não dera falta de nenhum morador. Todos os que normalmente passavam pela portaria, tinham passado aquele dia. A não ser, pensando bem, o gordo do 203... Ele tinha visto a mulher do gordo, mas não o gordo.

Era o gordo! O homem-tuba. O "bom, bom, bom", coitado. Mas já estavam combinando chamar a polícia quando o gordo saiu do elevador, com o cabelo ainda molhado do banho. E o gordo parecia tão contente de vê-los quanto eles de ver o gordo. Nunca tinham se falado antes, mas se abraçaram efusivamente, quase pulando juntos de tão alegres. Inclusive o porteiro, que nem sabia o que estava comemorando.

Depois o gordo confessou que ouvira uma briga feia num banheiro, uma briga que só podia acabar em morte ou com alguém no hospital, e pensara que fosse eles.

E então eles se deram conta que, assim como ouviam o que os outros faziam no banheiro, os outros também ouviam suas vozes e seus ruídos mais privados. Passariam a se cuidar. E na manhã seguinte ouviram, aliviados, o casal brigando no banheiro. Ninguém estava no hospital, ou morto e esquartejado dentro de um freezer.

Continuavam vivos e ferozes. Não podia ser o mesmo casal que tomava banho junto. Ou podia? Vizinhos, nunca se sabe. Vizinhos são capazes de tudo.

A gente fica sabendo coisas dos vizinhos por vias indiretas. Quase sempre, entre vizinhos novos que não se conhecem, o primeiro contato é feito pelas crianças. De repente seu filho fez amizade com o filho do vizinho e o filho do vizinho está dentro da sua casa, brincando com o seu filho, comendo com o seu filho, e contando que o pai é alérgico a morango e a mãe foi miss. E muitas vezes se tem vislumbres do que é a vida do vizinho por um detalhe, por uma cena vista por uma porta entreaberta, por uma frase que escapa. Como na vez em que a garotada do condomínio fez alguma coisa que não devia e foram todos arrastados para casa, alguns pela orelha, pela respectivas mães, cada uma ameaçando com um castigo diferente.

― Você vai ficar sem televisão por um mês!

― Seu pai não vai levar você no jogo!

― Pode esquecer a bicicleta!

E todas ficaram muito impressionadas quando ouviram uma mãe anunciar:

― Uma semana sem "baba-au-rhum"!

Que vida não seria aquela? Pensando bem, a mulher era a única no condomínio, e provavelmente no mundo, que ainda usava turbante.


Histórias de vizinhos 3


E tem, claro, a vizinha da frente. A linda vizinha do edifício da frente. A maravilhosa vizinha que anda nua pelo apartamento da frente. A estonteante vizinha da qual se ouvem tantas histórias. O que é estranho, porque ninguém jamais teve uma vizinha da frente assim. Todas as histórias de vizinhas da frente são mentirosas. Inclusive esta.

Principalmente esta.

Eu acompanhei todo o processo. A desocupação do apartamento em frente. Os trabalhos de reforma e pintura. As visitas de compradores ou inquilinos em potencial. Faço pesquisa nuclear, contabilidade e escultura em arame em casa ― hoje em dia, para sobreviver, "you have to turn around", como diz o meu amigo Borba ― e trabalho perto da janela, de onde vejo todo o movimento da vizinhança. Lembro do dia em que o corretor a levou para conhecer o apartamento e o meu coração, modo de dizer, parou. Eu nunca tinha visto uma mulher tão bonita, e isso que ela ainda estava vestida. Ela espiou pela janela e sei que me viu. Desconfio. Tenho certeza. Acho que me viu. Talvez não tenha me visto. Mas foi depois de espiar pela janela que ela fechou negócio com o corretor. A pantomima não deixava dúvidas. Eram os gestos típicos de quem decidiu ficar com um apartamento porque gostou da vista, e gosto de pensar que foi o meu perfil de artista, do outro lado da rua, terminando uma águia de arame dourado, que a convenceu. Comentei com o meu amigo Borba que só faltava ela ocupar o apartamento com um marido ou coisa parecida. Mãe. Amiga halterofilista. Mas não. Ela era sozinha. Ela era perfeita.

E no primeiro dia nos olhamos nos olhos. Nossos olhares se encontraram no meio da distância entre os dois prédios, cercados de buzinas e outras emanações sujas da rua, alheios a tudo. Como dois equilibristas apaixonados num arame invisível, nossos olhares se encontraram no meio do caminho. Como dois passarinhos se beijando no ar, nossos olhares se encontraram. Tenho quase certeza.

Ou ela podia estar olhando para outro andar. No segundo dia ela passou do banheiro para o quarto envolta numa toalha esvoaçante, no terceiro dia esqueceu a toalha, no quarto dia parou na frente da janela, nua, e o seu olhar me dizia "Hein? Hein?" Falando como artista: hein? E o meu olhar respondia, o coração parado e batendo forte ao mesmo tempo: maravilha. Maravilha! E no quinto dia começaram as mensagens.

Primeiro com as mãos. Os gestos dela de quem pergunta "E agora?" Tentei indicar, numa seqüência de gestos, o que eu pretendia fazer. Atravessar a rua correndo (dois dedos imitando a corrida, um dedo erguido na frente representando uma ereção estilizada), subir pelo elevador, bater na sua porta e possuí-la repetidamente durante toda a noite, por todos os meios, mas ela deve ter entendido mal porque em seguida fechou a janela com violência. Segundo o Borba o gesto dela na janela significara não "O que faremos agora que nos apaixonamos sem nunca nos falarmos, que nossos olhares se amaram no vácuo e você viu minha nudez, o que faremos agora, artista?" Mas sim "Está olhando o que, seu babaca?" O Borba disse que eu estava variando. Disse "You are variating, my friend."

O Borba estava errado. No dia seguinte ela passou nua pela sua janela de novo, me viu na minha janela olhando para a sua, e se aquilo não era amor no seu rosto, se aquilo não era fascinação pelo vizinho da águia dourada, eu não me chamo Seráfico. Ela parou e fez a mímica internacional do telefone. Como se sabe, a mímica telefônica acompanhou o desenvolvimento do aparelho, e você pode dizer a idade de uma pessoa pelo modo como ela imita falar no telefone dando manivela ao lado do ouvido (mais de 70 anos), girando um disco fantasma com a ponta de um dedo nostálgico (dos 40 aos 70) ou estendendo um charmoso mindinho e um irresistível polegar ao lado da deslumbrante cabeça como a vizinha da frente (nós, jovens fogosos e sem fio). Entendi. Ela queria meu número de telefone. Procurei freneticamente papel e pincel atômico, acabei usando uma das minhas folhas de cálculo nuclear para escrever o número e mostrar para a minha amada, que fez um sinal de "Espera" e desapareceu. Ela ia me ligar. Eu ia ouvir a sua voz nua.

Íamos combinar nosso futuro, nosso caso, camisinha musical ou não, talvez filhos, talvez Bali, ela ia me telefonar! E o telefone tocou. Corri para o telefone como um dia correríamos pela Piazza San Marco, espantando os pombos, e atendi.

Era o Borba. Contei o que estava acontecendo e disse que precisava desligar. Ela ia me telefonar a qualquer minuto. O Borba disse "Corta essa." Cut that thing. O Borba disse que vizinhas da frente como a que eu descrevia não existem. Vizinhas da frente são um mito. Na versão do Borba, a mímica telefônica dela queria dizer que ela ia telefonar para a polícia para denunciar minha invasão visual de privacidade. Ou pior. Que ia convocar seus dois irmãos, Troncoso e Troncudo, para arrancarem alguns dos meus órgãos.

O melhor que eu tenho a fazer, segundo o Borba, é dar no pé. "Beat the foot! Beat the foot!" O Borba não entende o amor ou a sensibilidade artística. O Borba não sabe o que houve entre nossos olhares no espaço aéreo ou o efeito do meu perfil. Estou esperando o telefonema dela. Tenho certeza que não me enganei. Posso ter me enganado. Não me enganei. Já se passou um dia e ela não telefonou. Ainda vai comprar um telefone, é isso. Está na hora do banho dela. Quando ela aparecer, também vou ficar nu na frente da janela e mostrar que sou sincero.


Homem e mulher na cama


Cena 1
Homem e mulher na cama.

― Quem é o seu ursão?

― É você.

― Quem é o seu ursanzão?

― É você.

― E quem é a minha ursinha?

― Sou eu.

― Quem é a minha ursinha pequenininha?

― Sou eu.

― Me chama de "meu ursão".

― Meu ursão. Meu ursanzão. Meu ursanzão peludão.

― Eu sou o seu ursanzão peludão, sou?

― É. Meu garanhão.

― Quê?


― Meu garanhanzão.

― Pô, Matilde.

― Que foi?

― "Meu garanhão"?!

― Que que tem?

― Você sabe o que é garanhão?

― Ora, Paulo. Quem não sabe o que é garanhão?

― Antes você não sabia.

― Eu sempre soube o que é garanhão. Não dizia, mas sabia.

― E por que está dizendo agora?

― Que mal há em dizer... Francamente, Paulo!

― Você conheceu algum garanhão?

― Não, Paulo. Não conheci nenhum garanhão pessoalmente. Meu conhecimento é puramente teórico. Aliás, não conheço nenhum urso, também. O único urso que eu conheço é você.

― Não é a mesma coisa. "Ursão" e "ursinha" é uma coisa nossa. Desde a nossa lua-de-mel, ou você já esqueceu? Não sei por que você teve que trazer esse "garanhão" pra nossa cama. Olha aí, espantou os ursos.

― Está bem, eu retiro o garanhão. Fora desta cama, garanhão. Xô, xô.

― Agora não adianta. O mal está feito. Pô, Matilde. Nunca pensei.

― Ei, ursão... Ursanzão... Ursanzão peludão... Eu não quero um garanhão. Eu quero você.

― E você acha que eu não sou um garanhão?

― Não. Você é ursão. Ursão é melhor que garanhão.

― Como é que você sabe? Se você não conhece nenhum garanhão, como é que pode comparar?

― Iiih... Sabe de uma coisa, Paulo? Boa noite.

― Não, agora eu quero saber!


Cena 2
Homem e mulher na cama.

― E então?

― Foi bom.

― Só "bom"?

― Foi muito bom.

― Numa escala, assim, entre um entardecer em Veneza e uma bala de coco perfeita...

― Uma combinação das duas coisas.

― Desenvolve.

― Foi ótimo. Perfeito.

― Se tivesse trilha sonora, seria Vivaldi ou Rolling Stones?

― Os dois.

― E a minha paradinha? O que você achou da minha paradinha?

― Adorei.

― Descreva, em suas próprias palavras o que você sentiu na hora da paradinha.

― Bem, eu...

― Espera, espera.

― O que é isso?

― Aqui no gravador. Dia 10 de 11, segunda-feira. Número 127 barra 97. Tipo standard, com paradinha. Diga o seu nome, sexo, idade, estado civil, depois descreva como foi maravilhoso.

― Paulo, como você ficou inseguro depois da Matilde...

― Eu, inseguro?!

― Pelo amor de Deus!

Internet
"Querida Arroba Misteriosa. Sim, aceito casar com você. Será que o nosso será o primeiro casamento a nascer neste chat site? Pode dar matéria em revista.

Engraçado como são as coisas. Meus bisavós namoraram por correspondência. Foi um casamento arranjado pela família, a parte que emigrou e a parte que ficou na Europa. Só se conheceram quando ela chegou no Brasil, de navio, e ele estava no cais, abanando as cartas dela em papel azul. Cheguei a ler uma destas cartas. Eram compridas, formais, o equivalente literário de um vestido abotoado até o pescoço. Um casto vestido azul. Não sei como eram as cartas do meu avô mas tenho certeza que ele tentou desabotoar, metaforicamente, alguns dos botões e até introduzir uma sugestão, um símile, uma alusão que fosse sob o vestido da bisa, sem sucesso. Corresponderam-se durante dois anos sem que aparecesse, nas cartas dela, uma nesga de carne, uma pista de que ela nem sequer soubesse o que era sexo, quanto mais fazê-lo.

Já os meus avós se conheceram numa quermesse de igreja. Se mandavam recados pelo alto-falante da quermesse. `Alô garota do vestido grená, seu admirador de boina azul lhe dedica a música...' Sabe? Durante quatro, cinco anos eles só se falaram na quermesse anual da igreja, e sempre pelo alto-falante. Quando finalmente se aproximaram, foram mais dois anos de namoro e um de noivado e só na noite de núpcias, imagino, ficaram íntimos, e mesmo assim acho que o vovô disse `Com licença' antes de crã.

Meu pai pediu minha mãe em namoro, depois pediu em noivado, depois pediu em casamento, quando finalmente pode comê-la foi como chegar no guichê certo depois de preencher todas as formalidades, reconhecer todas as firmas e esperar que chamassem a sua senha. Entende? Durante o namoro ele lhe mandava poemas. Minha mãe sempre dizia que os poemas é que a tinham conquistado, e que se fosse ser justa deveria ter casado com o Vinícius de Morais. E você lembra qual foi a primeira coisa que você me disse quando nos conhecemos neste site? `Eu não faço sexo no primeiro encontro, mas quem está contando?' Só muito depois perguntou meu nome verdadeiro ― meu nickname era `Brazilian Stallion', lembra? ― e deu outros detalhes da sua personalidade.

As pessoas dizem que houve uma revolução sexual. O que houve foi o fechamento de um ciclo, uma involução. No tempo das cavernas o macho abordava a fêmea, grunhia alguma coisa e a levava para a cama, ou para o mato. Com o tempo desenvolveu-se a corte, a etiqueta da conquista, todo o ritual de aproximação que chegou a exageros de regras e restrições e depois foi se abreviando aos poucos até voltarmos, hoje, ao grunhido básico, só que eletrônico. Fechou-se o ciclo.

A corte, claro, tinha sua justificativa. Dava à mulher a oportunidade de cumprir seu papel na evolução, selecionando para procriação aqueles machos que, durante a aproximação, mostravam ter aptidões que favoreceriam a espécie, como potência física ou econômica ou até um gosto por Vinícius de Morais. Isto quando podiam selecionar e a escolha não era feita por elas, pelos pais ou por casamenteiros. No futuro, quando todo namoro for pela Internet, todo sexo for virtual e as mulheres ― ou os homens, nunca se sabe ― só derem à luz a bytes, o único critério para seleção será ter um computador com modem e um bom provedor de linha.

Quem ou o que será que nos juntou neste site, Arrobinha? Terá sido apenas o acaso, ou nossas almas já se buscavam no ciberespaço mesmo antes da Internet? Não interessa. O que interessa é que vamos nos casar e ser felizes. Por sinal, você ainda não me disse o seu nome.



No futuro muitos casamentos começarão assim como o nosso, num chat sit da Internet. Não sei o que será da espécie. Tenho uma visão do futuro em que viveremos todos no ciberespaço, volatizados. Só nossos corpos ficarão na terra porque alguém tem que manejar o teclado e o mouse e pagar a conta da luz.

Na nossa primeira conversa na Internet você pediu as especificações do meu aparelho e eu não sabia se você estava falando do meu computador ou do meu pênis. Mandei detalhes dos dois. Comecei na Internet procurando sexo, como todo mundo. Encontrei com facilidade. Só o que você precisa ter, além do software adequado, é curiosidade, tempo, paciência e um cartão de crédito internacional válido. Entrei em alguns sites incríveis. Eu pensei que conhecesse todas as variedades de sexo possíveis. Não conhecia nem a metade. De sexo com frutas e plantas eu já sabia. Uma vez conheci um sujeito que chegou a pensar em casar com uma bananeira, só para ter algum tipo de posse legal e evitar que outros a possuíssem. Era uma bananeira sedutora à beça. Ele acabou derrubando a bananeira, enlouquecido pelo ciúmes. Ela morreu e secou na sua cama, mas pelo menos era só dele. Sexo com animais, quem não sabe que existe? Eu nunca experimentei, só sei que há. Mas você sabia que existe sexo com móveis e utensílios domésticos? Descobri um site só para praticantes do sexo com estofados e artigos para casa e cozinha. Não aderi, mas passei a olhar os móveis da minha casa com outros olhos, pensando em como seria ter sexo com eles. Principalmente uma poltrona jeitozinha, com umas perninhas bem torneadas, que, mesmo sem saber bem por que, eu namorava desde garoto. No site havia instruções até para sexo com aspirador de pó. Dizem que é inigualável, apesar de perigoso. Mas não entrei nessa não. Meu negócio era gente. Meu negócio, vamos ser bem claros, era a minha solidão. Decidi criar coragem e entrar nesta sala de bate-papo da Internet para me comunicar com outros como eu. E com mulheres. Sou um cara tímido, meus contatos pessoais com mulheres sempre foram difíceis. A verdade é que minha vida sexual se resumia em chamadas para sex-fones em lugares que eu nunca identifiquei. Todas as mulheres tinham sotaque português e quando eu perguntava onde elas estavam respondiam `na cama, pois', ou `na banheira, ora' e nunca diziam o país. Uma me perguntava uma coisa que parecia `estereto?' Eu não entendia. Ela `estereto?' e eu `o que'? E ela `estereto, pois não?' e eu `o que'? Até que ela perdeu a paciência e gritou o nome da peça! Pensei que estivesse me xingando, só depois me dei conta que estava perguntando se ele estava ereto. Não era uma vida sexual satisfatória. Até que entrei na Internet e você apareceu, Arrobinha. Foi como se eu fosse um peixe, um peixe pequeno me debatendo na rede, pedindo para ser notado e ao mesmo tempo com medo de ser pescado, e você tivesse metido sua longa mão branca na água e me pegado. Pelo menos imagino que sua mão seja longa e branca. A primeira coisa que você me disse foi `Eu não faço sexo no primeiro encontro, mas quem está contando?' Eu disse que o meu nome verdadeiro não era `Brazilian Stallion' e dei o meu verdadeiro nome ― falso, claro ― e só naquele nosso primeiro papo ficamos mais de uma hora, lembra? Durante a qual você me disse que tinha uma coleção de ursos de pelúcia que dormiam com você e era loira e alta e me apaixonei. Me apaixonei por palavras na tela de um computador. Amor ao primeiro chat.

Naquela noite, tenho que confessar, eu tive um pensamento terrível. E se fosse tudo mentira? Se você não fosse o que dizia ser, nem loira, nem alta, nem louca para me conhecer e, meu Deus, nem mulher? Agora eu sei que você é sincera e você sabe o meu nome de verdade. Vamos nos casar. Mas antes, precisamos nos conhecer. Já fizemos amor virtual, agora precisamos ter o supremo contato sexual, a união extrema, a coisa mais íntima que dois seres podem fazer, que é nos olhar nos olhos. Enquanto não nos encontrarmos, Arrobinha, tudo permanecerá uma mentira em potencial. A começar pelos nossos orgasmos simultâneos. Diga a verdade. Você estava fingindo, não estava?"


Involução


Li que houve um recuo, se é que se pode usar o termo, do fio-dental e os novos biquínis agora tapam o que pensávamos estivesse liberado para os nossos olhos para sempre. Esse vaivém da moda é desconcertante e, no que toca ― ou nem toca, só olha ― às partes do corpo da mulher entregues ao escrutínio público, deveria haver uma regulamentação parecida com a que proíbe a revogação de benefícios sociais e a redução de salários. E devia estar na Constituição.

Se a moda tivesse qualquer tipo de coerência, depois da tanga, do decalco tapa-seio e do fio-dental só podia evoluir numa direção, e muitos de nós esperávamos encontrar nas praias, este ano, o nosso ideal, o nada. Em vez disso, encontraremos menos mulher à vista. Outra frustração, como se não bastassem as fotos de Marte.

Alguns dos nossos são veteranos do tempo do "maillot" com saiote e ainda lembram com emoção a primeira vez que viram um umbigo de mulher ao ar livre. Acompanharam todas as etapas da sumarização progressiva do traje de banho feminino como provas da marcha inexorável da humanidade para a libertação, e da existência de Deus. E de repente a moda tira, por assim dizer, as nádegas debaixo dos seus narizes e ainda diz: "Esqueçam o que viram, rapazes."

A moda faz muito isso. Lança a minissaia e nos deixa babando de antecipação pelo que virá no ano seguinte, e no ano seguinte decreta que a borda das saias não só baixará como chegará ao chão. E no outro ano lança as "hot pants". Lembra das "hot pants"? As mulheres iam a toda parte de shorts. Coquetel, velório, tudo. E então as pernas desapareceram como por encanto. E você precisava fingir que nunca as tinha visto.

― Esta é a minha esposa.

― Eu já conhecia. Aliás, adorava as suas pernas.

― Seu isso! Seu aquilo! Onde você viu as pernas da minha mulher?

― Você não se lembra? No ano passado. Na recepção ao arcebispo.

Mas o retrocesso do fio-dental não seria apenas a moda nos fazendo das suas. Seria o indício de um Novo Recato que se aproxima. Algo a ver com os ciclos históricos, com outra reviravolta nessa complicada relação do homem com a sua sexualidade e com o seu corpo. Ou, no caso, com o corpo da mulher. No ano que vem, voltariam os "maillots" com saiote, e a involução da moda de praia prosseguiria até que estivessem de volta aqueles trajes inteiriços que só deixavam expostos ao sol e aos olhos o peito do pé da mulher, e assim mesmo das que não usassem sapatinhos de borracha. O Novo Recato se deveria também ao fato de o sexo ter ficado muito perigoso e à conclusão de que é melhor a gente começar a pensar em outra coisa. Ouvi dizer que o noivado está de volta. O homem faz a corte à mulher e o sinal de que está disposto a casar vem quando a presenteia com um estojo, que ela abre com dedos trêmulos.

― Oh, querido.

― Gostou?

― Seu hemograma!

Em seguida, de dentro do discreto decote, ela também tira o seu.


Irresistível
O mordomo aproximou-se da cadeira onde Pal Snifski parecia dormitar, no jardim da sua mansão de Cap d'Antibes, e anunciou:

― Um senhor Delacroix para vê-lo.

― Sim. Eu já o havia cheirado.

Era espantoso que entre todos os aromas de um jardim na Côte, Pal Snifski tivesse identificado o do amigo e ex-patrão antes mesmo de ele desembarcar da Mercedes. Mas Pal Snifski não era chamado de "O Nariz" por nada. Recebeu Delacroix com uma palavra.

― Não.

― Mas Pal, eu ainda não falei.



― Sei o que você vai dizer. Vai me pedir para voltar. Meu substituto na Maison Delacroix é um incompetente. Desde que eu saí, nunca mais a Maison lançou um perfume de sucesso. Vocês querem meu nariz de volta, pois só ele pode guiar a sutil alquimia que resultou em obras-primas da Delacroix como "Ravage", "Sans Pitié" e "Mange Moi". Mas onde meu nariz vai eu vou atrás, meu caro, e eu não estou disposto a interromper esta minha aposentadoria entre flores, nem por um milhão de dólares.

― E por um milhão e um?

― Aceito. Conversaremos durante o almoço.

À mesa, Pal Snifski perguntou:

― Acertei? Meu substituto é um incompetente.

― Pelo contrário, competentíssimo. Não enganou a todos com grande eficiência. Fugiu com a nossa fórmula mais valiosa, a que perseguimos há anos.

― Você quer dizer...

― Sim, o sonho de todo perfumista. "Le Parfum Terminal". Aquela essência que atinge o objetivo de todos os perfumes do mundo desde o primeiro, feito na Mesopotâmia: a sedução irresistível. Aliás, nós o chamaríamos de "L'Irresistible".

― Mas vocês tinham acertado a fórmula?

― Quase. Combinamos todos os ingredientes certos, na proporção exata. Aliás, em grande parte graças ao seu trabalho. Tínhamos a receita de um perfume quase irresistível. Flatov descobriu o quase. Viajou por meio mundo e finalmente encontrou o que procurava. O cheiro da sedução irrecusável. O que qualquer perfumista trocaria pela sua mãe ou o equivalente em dinheiro.

― Flatov?

― Seu substituto. Ele decidiu que, em vez de completar nossa fórmula com o ingrediente que descobrira, ganharia mais colocando-a em leilão entre nossos concorrentes.

― Vocês querem que eu siga a pista de Flatov e o convença a desistir da traição à Maison Delacroix.

― Não. Ele já foi convencido.

― Como?

― Um acidente. Nossos representantes pediram educadamente para ele voltar atrás, ele relutou a eles o jogaram ao chão. Desgraçadamente, estavam na última plataforma da Torre Eiffel.




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