Luis fernando verissimo Crônicas Selecionadas da coluna do Estadão



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― Isso não foi um pouco precipitado?

― Ele teve 300 metros para mudar de idéia. Não mudou. O diabo é que não encontramos a fórmula. Nem no seu bolso, nem na sua casa, nem no cofre do seu banco, que arrombamos esta manhã. Só sabemos o último país em que ele esteve, na sua busca pelo ingrediente final. E uma palavra, que ele deixou rabiscado em sua agenda de viagem.

― Qual é o país?

― O Brasil.

― E a palavra?

― Maracutaia.

― Você quer que eu...

― Vá ao Brasil. Fareje por lá. Descubra o que é maracutaia, e se ela é o que Flatov procurava. Pode ser uma flor. Uma fruta. Uma glândula. Seja o que for, traga-a com você!

O representante da Maison Delacroix no Brasil recebeu Pal Nifski no aeroporto do Rio. Tinha ordens para ajudar monsieur Snifski no que fosse necessário. Não, disse, respondendo a primeira pergunta d' "O Nariz", ainda no carro que os levaria ao hotel. Maracutaia não era uma flor. Nem uma fruta. Nem uma glândula brasileira. Era, assim, uma...

― Espere ― disse Pal Snifski, com o nariz em pé. ― Que cheiro é esse?

― Qual?

― Nunca senti nada parecido. É um cheiro que pervaga pelos outros. Parece estar por toda parte.

― É a maracutaia.

― Tudo cheira a maracutaia, no Brasil!

― Exatamente as palavras de monsieur Flatov.

― Teria sido o ingrediente que ele descobriu, para fazer o perfume irresistível?

― Só posso dizer que, no Brasil, ninguém resiste à maracutaia.

― Como será que Flatov destilou a essência de maracutaia?

― Não sei. Mas ele ficou muito tempo em Brasília.

― É onde deve haver a maior concentração. Providencie uma passagem para lá, s'il vous plait.

Dois meses mais tarde, Pal Snifski estava de volta em Paris. Delacroix o recebeu com festa no escritório da Maison.

― Eu sabia que podia confiar em você, Pal!

― Trouxe algumas ampolas com essência de maracutaia brasileira. O bastante para reproduzi-la quimicamente. Seu poder de sedução é realmente inigualável. Ninguém escapa.

― Finalmente, temos a fórmula completa para lançar o perfume dos perfumes!

― "Temos", Delacroix? Eu tenho. Já ouvi uma proposta muito interessante da Chanel. Estou curioso para ouvir a sua.

― Mas Pal. Isto é... É uma tramóia! C'est un tramoá!

― Eu sei ― suspirou Pal Snifski. ― Devo ter ficado muito tempo em Brasília...


João, Maria e José

Esta é uma daquelas histórias que as pessoas juram que aconteceram, não faz muito, com um amigo delas, e só não podem dar o nome. Mas há anos você ouve a mesma história, sempre com a garantia de que aconteceu mesmo, há pouco.

Com um amigo.

― Só não posso dar o nome.

Digamos que, nesta nova versão, o amigo se chame João e a mulher se chame Maria, para simplificar. O João começou a desconfiar das constantes conversas da Maria com o José, amigo do casal. Volta e meia o João pegava a Maria e o Zé cochichando, e quando se aproximava deles, eles paravam.

― O que vocês dois tanto conversam?

― Nada.

Ou a Maria estava falando ao telefone e, quando o João chegava, dizia "Não posso agora" e desligava.

― Quem era?

― Ninguém.

Não foi uma nem duas vezes. O ninguém ligava muito.

Um dia o João viu a Maria saíndo do edifício onde o Zé trabalhava. De noite, perguntou:

― Você andou pelo centro, hoje?

― Eu?! Há horas que não vou ao centro.

Dias depois a Maria anunciou que precisava viajar. Sua vó Nica. No interior.

Muito mal. Nas últimas. Precisava vê-la. Iria na sexta de manhã e voltaria no domingo.

― Logo na sexta, Maria?

― Por que? Que que tem na sexta?

― Nada.

João telefonou para a sogra e perguntou como ia a vó Nica.

― A mamãe? Deve estar bem. Foi com o clube de compras dela a Buenos Aires, pechinchar.

Maria só levou uma pequena sacola na viagem. Claro, pensou João. Só o que iria precisar, no hotel em que se encontraria com o Zé para um fim de semana de amor. Escova de dentes, cremes, calcinhas... Calcinhas, não. Para que calcinhas? Eles passariam o tempo todo nus. No fim da tarde, João telefonou do seu escritório para o escritório do Zé. Não, o seu José não estava. Tinha saído cedo e avisado que não voltaria. Muito bem, pensou João.

Muito bem. Era assim que ela queria? Pois muito bem. Ele se vingaria.

Levaria uma mulher para casa. Sim, para a casa. Uma mulher, não. Duas.

Fariam um manager a troi, ou como quer que se chamasse aquilo ― na cama do casal!

Na boate, já bêbado, João perguntou para as duas mulheres, Vanessa e Gisele:

― Sabem que dia é hoje?

― Fala, filhote ― disse a Vanessa.

― O meu aniversário. E sabe que presente a minha mulher me deu?

― O quê? (Gisele) ― Cornos! E com o Zé. Com o Zé!

― Sempre tem um Zé ― filosofou a Vanessa.

João desconfiara que uma das duas mulheres era um travesti, mas ao chegarem na casa ele não se lembrava mais qual. Decretou que os três tirariam a roupa antes de entrar na casa. As mulheres toparam. Quando João conseguiu acertar o buraco da fechadura e abrir a porta, a Gisele tinha pulado nas suas costas e se pendurado no seu pescoço e a Vanessa tentava pegar o seu pênis, e era assim que eles estavam quando as luzes da casa se acenderam e todos que estavam lá para a festa de aniversário que a Maria e o José tinham passado semanas planejando gritaram "Surpresa!"

Da série Poesia numa Hora Destas?!

Para o alto os assuntos etéreos.

O destino do Universo, o Nada os mistérios.

Para baixo as questões do abismo:

noite eterna e psicologismo.

Bom mesmo é o disse-me-disse.

Literatura é aqui, na superfície.


João Paulo Martins

― Você não é o ...?

― Sou. E você é a Ana Beatriz.

― Eu não acredito!

― Tempão, né?

― Sabe que eu era apaixonada por você, na escola?

― O quê?!

― Era. Juro.

― E por que nunca disse nada?

― Tá louco? Era amor secreto. Só quem sabia era o meu diário. E a Leilinha, minha melhor amiga.

― Eu acho que lembro da Leilinha. Não era uma...

― Era. Completamente maluca. Ela vivia me mandando: "Fala com ele, fala."

― Devia ter falado. Eu achava você linda.

― Verdade? Você nem me olhava!

― Lembro até hoje do seu cabelo comprido, repartido no meio.

― Não é possível! E você nunca...

― Nem pensar. Não podia nem sonhar que você daria bola pra mim. A Ana Beatriz? Me dar bola? Mas nunca!

― Veja você... Se um de nós tivesse falado alguma coisa...

― Pois é. Podia até ter... Você casou, ou coisa assim?

― Coisa assim. E você?

― Não. Quer dizer, tive aí um relacionamento que não deu certo. Quer dizer, deu durante dez anos, mas...

― Sei.


― Escuta. Você tem alguma coisa pra fazer agora?

― Não, não. Eu...

― E se a gente fosse tomar um café? Recuperar o tempo perdido?

― Vamos, uai.

― A Ana Beatriz apaixonada por mim... Quando que eu ia pensar...

― Me lembro que uma vez a minha mãe viu o meu caderno coberto com a minha assinatura, quando eu fosse casada com você. "Ana Beatriz Martins. Ana Beatriz Martins. Ana Beatriz Martins..."

― Martins?

― O seu nome não é Martins?

― Não. É Trélis.

― Você não é o João Paulo Martins?

― Não. Sou o Augusto Trélis.

― Augusto Trélis?!

― É. Lembra?

― Não. Tem certeza que nós fomos colegas?

― Tenho.

― Que engraçado. Eu não... Olha: desculpe, viu?

― O que é isso? Acontece.

― Esse café. Será que a gente pode...

― Claro. Fica pra outra vez.

― Desculpe, hein? Não sei onde eu estava com...

― Tudo bem.

― Espera um pouquinho! Trélis... Não era você que me dava cola em matemática?

― Não. Era o Cegonha. Lembra? O Eduardo Sonatti. Parecia uma cegonha.

― O Cegonha! Claro!

― Morreu.

― Hein?


― O Cegonha. Morreu.

― Ah é?


― Vi no jornal.

― Que coisa. Bom. Então... Tchau.

― Ana Beatriz...

― Ahn?


― E se eu dissesse que meu nome é Martins?

― Mas não é.

― Que diferença faz? Eu não era o João Paulo Martins na escola, mas posso ser agora.

― Como?


― Se eu não tivesse dito nada, há pouco, você nem saberia que eu não era ele.

― Mas acabaria sabendo.

― Só se você quisesse. Eu poderia ser o João Paulo Martins até onde você quisesse. Até você pedir para ver a minha identidade, e você poderia nunca pedir para ver a minha identidade. Eu ser ou não ser o João Paulo Martins seria uma decisão exclusivamente sua.

― Mas...

― Escute. Esta pode ser a nossa oportunidade para reparar um erro do passado. Eu nunca ter declarado que amava você, e você nunca ter declarado que me amava.

― Mas eu não amava você. Amava o João Paulo Martins!

― Então me faça o João Paulo Martins!

― Isso é loucura. Eu...

― Está bem! Está bem. Eu estava brincando com você. Meu nome não é Augusto Trélis. Eu sou mesmo o João Paulo Martins. Era por mim que você estava apaixonada na escola. "Augusto Trélis" eu inventei na hora. "Trélis." Isso lá é nome?

― Então me mostre a sua ident...

― Arrá! Pense bem no que você vai pedir. Você pode estar cometendo o seu segundo erro, jogando fora a oportunidade de reparar o primeiro. Esqueça a identidade. Aceite a minha palavra. Eu sou o João Paulo Martins. Vamos tomar o café e ver no que dá.

― Não sei, não sei...

― Pense nisso: João Paulo Martins e Ana Beatriz foram feitos um para o outro. Ou o destino não os teria reunido assim, tantos anos depois, para lhes dar uma segunda chance.

― Não sei, não sei...

― O que vai ser? A minha identidade, ou o café?

― Ai, meu Deus. Não sei. Não sei!


Kit completo


A primeira coisa que José viu em Aline foi o lábio inferior. Aproximou-se dela e puxou conversa atraído pelo lábio inferior. Era um lábio inferior carnudo e sensual. Protuberante e provocante. José se apaixonou pelo lábio inferior da Aline. Tanto que, pouco tempo depois de vê-lo pela primeira vez, pediu o lábio inferior da Aline em casamento. Queria o lábio inferior da Aline só para ele. Durante a cerimônia de casamento, não despregou os olhos do lábio inferior da Aline. Pensando no prazer e na felicidade que seria ter aquele lábio inferior ao seu lado pelo resto da vida.

Mas todo lábio inferior é ele e sua circunstância.

Para cima, Aline tinha um nariz afilado, olhos claros e bonitos, sobrancelhas bem desenhadas, cabelos castanhos. Além, claro, de um lábio superior não tão cheio quanto o inferior. Para baixo, um queixo delicado, um pescoço não muito curto, omoplatas não muito salientes, seios pequenos, mas bem proporcionados, umbigo côncavo, o sexo coberto por pouco cabelo, mais escuro que o da cabeça, pernas bem torneadas, pés satisfatórios.

Dos pés à cabeça, Aline complementava a contento seu lábio inferior. E o lábio inferior não mentia, descobriu José. Aline era mesmo quente e sensual como seu lábio inferior prometia.

Mas o lábio inferior tinha um passado. Tinha uma infância, tinha amigos, tinha lembranças, preferências, implicâncias, manias, segredos e ressentimentos. José se impacientou quando Aline começou a contar um trauma da sua adolescência, algo envolvendo a mãe e... Fez "sshh" e encostou um dedo nos lábios de Aline, pedindo para ela deixar o assunto para depois da lua― de-mel. Fez a mesma coisa quando Aline começou a dizer alguma coisa sobre a política econômica do governo. José não pensara naquilo. O lábio inferior tinha uma história, e complexidades ― e opiniões!

E tinha mais. Tinha um irmão, Ariosto, demitido do serviço público por conduta inconveniente, que não demorou em pedir ajuda a José para custear uma ação que movia contra o Estado. Tinha uma mãe com a qual se relacionava mal e cujas visitas sempre deixavam Aline nervosa, com o lábio inferior tremendo. José chegou a proibir as visitas da sogra, para impedir aquele atentado ao seu patrimônio, mas a própria Aline pediu que ele reconsiderasse a decisão. Aline tinha um grande sentimento de culpa com relação à mãe, por alguma razão. Além de tudo, era um lábio inferior com culpa.

E havia o pai de Aline, o seu Enésio. Depois de aposentado, ele descobrira uma nova religião, só de aposentados. Eram pessoas que viam vultos e mensagens na tela da televisão, quando as estações saíam do ar. Elas passavam a noite em claro, olhando aquele chuvisco na tela, e se reuniam regularmente para discutir o que tinham visto. O sonho do seu Enésio era visitar uma cidade na Califórnia, que era o centro da nova religião e de onde vinham os livros e os folhetos que ele comprava pelo correio com todo o dinheiro da aposentadoria, para desespero da mãe de Aline, que descarregava sua frustração em Aline, fazendo tremer seu lábio inferior.

Um dia, José e Aline estavam na cama, José mordiscando o lábio inferior de Aline, como fazia sempre antes do sexo, quando tocou o telefone e era o seu Enésio, aflito, dizendo que vira na tela da TV que o mundo ia acabar e eles precisavam fugir. Para onde, ele não sabia. Aline ficou nervosa com o telefonema do pai e entrou numa depressão de semanas. Durante as quais, sem acesso ao lábio inferior de Aline e às suas promessas, José meditou muito sobre a vida.

Concluiu que o problema do outro é que o outro é sempre um pacote. Não se pode ter do outro só o que nos apraz, e esquecer o kit completo. Vejam eu, disse o José, para nos explicar sua tristeza. Eu só queria um lábio inferior carnudo e acabei com um universo.

Vice-versa


Eu estava lendo um comentário sobre o livro de Salman Rushdie, O Último Suspiro do Mouro e tive uma hipofania, que é o nome adequado para uma revelação do óbvio, ou uma epifania de cavalo. Concluí que não há nada como um dia depois do outro. Podem me citar. O suspiro do título do livro é do sultão Boabdil, o último governante mouro da Espanha, e foi dado quando ele deixava Granada, em 1492, no fim de 800 anos de domínio árabe da península. A retirada de Boabdil e dos árabes representou a derrota de uma civilização culta, pluralista e tolerante para um movimento religioso politicamente motivado, intransigente e obscurantista, a Igreja da Contra-Reforma. A reconquista da Espanha, como a conquista do Novo Mundo, foi um triunfo do primeiro fundamentalismo internacionalmente organizado da História, e as mesmas coisas que apavoram o mundo, hoje, no integralismo islâmico serviram para correr com os islâmicos indefesos, e algo escandalizados com tanto primitivismo, da Espanha. As civilizações do Novo Mundo também não estavam preparadas para o cristianismo mobilizado e sua catequese pelo terror. O resultado é que somos todos, de uma maneira ou de outra, filhos do "jihad" cristão.

Os indivíduos, como as civilizações, também trocam de pólos e passam de escandalizados a primitivos, e vice-versa, numa existência. Nunca diga dessa água não beberei (anotem essa também) ou dessa barbaridade estou livre ― o próximo fanático a aparecer na sua frente, disposto a obliterar as idéias dos outros, pode ser você mesmo. A jornada que tantos desta geração fizeram, da extrema-esquerda para a extrema-direita, tem uma explicação fácil: a vocação deles era mesmo pelo extremo. Mais complicada é a migração da meia-esquerda para a meia-direita, que muitas vezes parece mais radical, justamente porque não tem a desculpa psicológica. São mudanças pela conveniência política, pelo fato de se estar no poder em vez de fora, pelo interesse ou a vaidade do momento. O fato é que muitas vezes o pluralista de ontem pode ser o fundamentalista de hoje, e nem as maiores convicções democráticas estão a salvo do vice-versa ao contrário.


Lança
Havia o lança-perfume de metal e o lança-perfume de vidro. O lança-perfume de metal era maior. Tinha, mesmo, um aspecto algo militar, podia ser uma granada alemã. Nada dava uma sensação de poder como um bom suprimento de lança-perfumes (lanças-perfume? Lanças-perfumes?) de aço quando começava o carnaval.

O lança-perfume de vidro era uma espécie de grande ampola. A vantagem do vidro era que você tinha o controle visual da quantidade de "perfume" no seu interior, sabia quando a munição estava acabando. A desvantagem era que o lança-perfume de vidro era menor e quebrava com facilidade, muitas vezes na sua mão. Com o risco de tornar realidade a advertência: "Não vá me passar o carnaval no pronto-socorro!"

Metal para a guerra de trincheiras, vidro para a guerra química.

Porque era uma guerra. Os alvos secundários eram as costas nuas ― ou qualquer área desprotegida, dependendo da fantasia, havendo uma clara preferência por havaianas e odaliscas ― das meninas. Os alvos principais eram os olhos do inimigo. Sempre que estou a ponto de pensar que a humanidade ficou mais bárbara com o passar do tempo, lembro que lança-perfume nos olhos dos outros já foi um brinquedo de carnaval e me convenço de que melhoramos. Mas sou da geração que usou máscaras de plástico para proteger os olhos no carnaval. Sem falar no gás de mostarda e na bomba atômica.

Primeira regra para o uso do lança-perfume: jamais acionar o gatilho, ou como quer que se chamasse aquele disparador do jato, com a bisnaga na posição vertical. Escapava o ar, acabava a pressão e você ficava só com um tubo de éter na mão, incapaz de atacar ou de se defender. Só restava ir para casa.

Éter. Não se sabia bem que o "perfume" do lança-perfume era éter perfumado, jamais nos passou pela cabeça que aquilo servisse para outra coisa além de brincadeiras inocentes, como dar calafrio nas meninas e tentar cegar os outros. Perdia-se a inocência ― no tempo em que dava para identificar o dia, às vezes até a hora, em que a gente ficava adulto ― com a descoberta de que o lança-perfume servia para outra coisa. Que éter dava barato.

Ressaca de lança-perfume era diferente de ressaca de, por exemplo, Cuba libre. Você não acordava com náusea, azia terminal e a firme decisão de nunca mais beber, talvez até de entrar para uma ordem religiosa. Acordava com a boca seca e um zumbido na cabeça. Sua cabeça era uma espécie de usina vazia onde só o que sobrara da atividade industrial era o zumbido. Seu cérebro ficara em algum lugar. Você tentava se lembrar onde deixara o cérebro, mas lembrar o que, sem cérebro? Em lugar do cérebro havia o zumbido.

Entrava-se numa fase intermediária, em que o lança-perfume desempenhava dupla função. Como não bastava mais só fazer as meninas gritarem com o jato gelado na espinha, havia o pós-jato, a conversa, talvez até a intimidade de um cordão improvisado e um furtivo amasso antes de a noite acabar, você cheirava lança para criar coragem. O alvo prioritário do lança-perfume passava a ser você mesmo e sua inibição. Até uma certa idade, costas nuas passando era apenas uma vítima sem cara; depois de uma certa idade, costas nuas passando era um universo de possibilidades. E não se enfrentava um universo sem éter no lenço.

E na manhã seguinte, o zumbido.

Não sei quando foi que proibiram o lança-perfume. Parece que ainda existe um comércio clandestino, dos de aço e dos de vidro. Não sei; me retirei da guerra há muitos anos. Imagino que se quisesse voltar e me visse, de repente, num baile de carnaval de hoje com a idade que eu tinha quando fui ao último ― não me lembro do ano, mas tenho quase certeza que eram quatro dígitos ―, meu convite para cheirar lança-perfume causaria desdém e risadas. Os baratos, como as crises econômicas, têm seus ciclos misteriosos, mas duvido que eu conseguiria reintroduzir o lança-perfume entre os vícios modernos com sucesso. O mercado se sofisticou muito.

A gente também desmanchava Melhoral na Cuba libre. Foi o limite da minha devassidão. Está bem, crianças, parem de rir.




Logística
ABerenice tinha lhe dado um ultimato, contou o Fabinho na roda. Ou ela ou a turma.

A turma se entreolhou. Ultimato era fogo. O Solis tomou coragem e perguntou.

― E você escolheu o quê?

― Eu estou aqui, não estou?

Houve aplausos na mesa. Ó, Fabinho, seu! Aquilo é que era amigo. Um exemplo para outros que tinham fraquejado e escolhido a família. E uma lição para as mulheres. Ultimato não era coisa que se desse a um homem. Ultimato era o fim.

Pediram outra rodada de chope, para comemorar a vitória da amizade sobre a prepotência.


Mas aconteceu o seguinte: depois da separação, o Fabinho começou a aparecer menos na roda. A princípio houve compreensão. Livre da Berenice, ele estava aproveitando para namorar. Depois de tantos anos dando exclusividade à Berenice, precisava recuperar seu nome na praça. Claro. Mas quando reapareceu, num sábado de manhã, parecia preocupado. Avisou que só podia ficar pouco tempo. Ao contrário do Fabinho pré-ultimato, não tinha nenhuma piada nova para contar. E, pela primeira vez na história da mesa, ele foi o primeiro a sair. Precisava passar no supermercado.
* * *
Outro dia, no melhor da conversa, o Fabinho olhou o relógio e se levantou de repente, invocando a prostituta que os tinha gerado. Tinha esquecido! Marcara a visita de alguém para olhar os azulejos do banheiro, que estavam se soltando. Precisava ir para casa. Saiu correndo, deixando para trás uma turma perplexa. O que estava acontecendo com o Fabinho? O Mário Sérgio então disse a frase:

― Vitória da Berenice.

Sua tese era que, ausente, Berenice conseguira o que queria. Roubara o Fabinho da turma. Pelo simples fato de não estar em casa, transformara o Fabinho num monstro de domesticidade.

― Temos que reagir ― disse o Solis.

A Berenice não podia vencer, assim, numa espécie de WO ao contrário. Não era uma questão pessoal. Era uma questão de princípios.
* * *
Em vez de piadas novas, o Fabinho agora só trazia para a mesa ― quando aparecia ― suas angústias caseiras. Azulejos soltos, cortinas despencadas, a disponibilidade e o aspecto de hortifrutigranjeiros, as vantagens da feira sobre o súper vice-versa, as... Até que o Magro gritou "Chega!" e disse o que toda turma estava pensando. Que o Fabinho se transformara num chato. Que, se continuasse assim, era melhor que ficasse em casa, cuidando dos seus ralos e rachaduras, e deixasse com a turma apenas a lembrança do Fabinho como ele era. Do Fabinho dos grandes dias. Depois da surpresa e do ressentimento, o Fabinho acabou concordando. Sabia que tinha mudado. Mas o que podia fazer para ser de novo o velho Fabinho? Era impossível ir ao bar todos os dias, e ficar até tarde, e ser o companheiro divertido de antes, sabendo que tinha louça para lavar em casa. A boemia bem-sucedida exigia um mínimo de logística.

― Me falta retaguarda! ― protestou Fabinho, abrindo os braços. ― Me falta retaguarda!


Combinaram que Fabinho procuraria Berenice com uma proposta de reconciliação. Ela voltaria, e eles acertariam o que o Solis chamou de um "modess vivende". Dias certos para ele estar com a turma, talvez três vezes por semana. Com hora certa para voltar pra casa. O importante era que Berenice retomasse a gerência do lar e liberasse o Fabinho para ser de novo o Fabinho.

― Leva um organograma ― sugeriu o Mário Sérgio, que acreditava muito em métodos audiovisuais.

Funcionou. A Berenice topou. Eles estão juntos outra vez. O Fabinho aparece na mesa três vezes por semana e é o velho, o legendário Fabinho, mesmo com hora marcada para ir embora.

Mas persiste na turma, embora ninguém a comente, a vaga sensação de vitória da Berenice. Por pontos.




Lugar-comum

Cada macaco está no seu galho e todos, todos olham o próprio rabo e deixam o rabo do vizinho. A chuva chove no molhado, o sol brilha para todos... Chuva e sol? Casamento de espanhol! Passam índios ― ou serão hindus? ― em fila indiana. Vacas vão para o brejo. Caçadores, num mato sem cachorro, caçam com gatos, e todos os gatos são pardos no escuro. Rios correm para o mar. Paus nascem tortos, e assim permanecem. Semeadores de vento colhem tempestades enquanto, ao fundo, um grupo separa o joio do trigo e outro faz das tripas coração e um terceiro constrói castelos no ar e... Súbito, tudo pára no lugar-comum. Os índios, as vacas, os caçadores, até os rios. A paisagem fica estática, as frases ficam suspensas. Só os mercadores fingem que não ouvem o silêncio ameaçador, mas em seguida também param, e esperam. Algo vai acontecer. Algo ― ou alguém ― vai chegar. E então ele aparece. É Gerúndio! O imperativo Gerúndio. Ele caminha pelo lugar-comum, as mãos entrelaçadas atrás como um inspetor. Examina as frases paradas e chuta alguns verbos como se fossem pneus. Depois, dá a ordem:




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