Luis fernando verissimo Crônicas Selecionadas da coluna do Estadão



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― Circulando!

E vê tudo recomeçando à sua volta. Cada macaco sentando no seu galho e olhando o próprio rabo em vez do rabo do vizinho. A chuva chovendo, o sol brilhando, a fila indiana passando, as vacas indo para o brejo, os caçadores caçando com gatos, os rios correndo para o mar... O mundo sendo ordeiro e previsível, como tem que ser.

Não sei se eu concordo com essa onda de cassar congressistas como o Jader Barbalho. Enquanto eles estiverem no Congresso não estão nos assaltando na rua.

Sei que você não gosta do assunto isso de virar defunto ou, mais apropriadamente, presunto. Mas ninguém escapa da sina de ter muita proteína e morrer, assim, "al punto". A biologia, meu caro, não erra: estamos todos na cadeia alimentícia da terra.

Se você ainda não entendeu, é assim. O governo americano não pode garantir que os investidores americanos não vão perder dinheiro no Brasil e em outros países exóticos. Isso seria contra as leis do livre mercado, pois afinal capitalismo é risco, é jogo, e quem emprestou dinheiro ao Brasil mesmo conhecendo sua reputação deveria saber que estava fazendo uma aposta. Ao mesmo tempo, os investidores não podem perder seu dinheiro, pois isso os levaria a se desiludirem com o capitalismo e não quererem mais jogar. Assim o Tesouro americano manda chamar o FMI, que vem pela escada de serviço, e ordena que ele empreste o dinheiro para o Brasil pagar seus credores. Mas, dirá você, sempre ingênuo, isso quer dizer que o FMI está pagando os credores, só usando o Brasil assim como um entregador. O Brasil é o motoboy na história! Não é bem isso. Controle-se. É muito mais sofisticado. Um motoboy ganha pelo seu serviço, e só o que o Brasil ganha é mais dívidas, pois não recebe nem uma gorjeta pela entrega e ainda fica devendo ao FMI.

Mas, dirá você, já apoplético, não seria mais simples o Tesouro americano chamar o FMI e os credores e ficar assistindo, com um sorriso paternal, enquanto um desse o dinheiro diretamente para os outros, sem nos envolver e nos poupar pelo menos o vexame? Você, decididamente, não entende de economia de mercado. Isso seria subvencionismo. Seria quase, meu Deus, um Proer internacional, um escândalo. O dinheiro tem que passar pelo Brasil antes de ir para os credores para manter as aparências. O papel do Brasil, enfim, é ajudar a mostrar que em Washington se pratica um capitalismo sério. Que Washington não é, assim, um Brasil.

Dizem que no futuro as pessoas se conhecerão e se casarão pela Internet, mandarão suas células para um laboratório para fazer filhos que nunca verão e jamais precisarão estar juntos ― finalmente o casamento perfeito. E, se algo der errado, nem para o divórcio precisarão se encontrar. Basta usar o "Delete".

Meu teclado prevê tudo frases com asterisco e cifrão hifen, trema, exclamação!

Até, se a ousadia for grande, ponto e vírgula e ampersand.

Espero que nunca me falt nem o Ctrl nem o Alt e que nenhuma mão boba me leve a arroba.

Só não quis saber ainda ― talvez prevendo um choque ― que diabo é esse tal de "Num Lock".


Mais contos de verão

1. Da importância de ser fabião

Acordaram o Luiz Pedro às 3 da manhã.

― Vem pra cá, rapaz.

― Hein?

― Pula da cama e vem pra cá.

O Luiz Pedro zonzo. Ruídos de festa no telefone. Música. Uma voz de mulher gritando "Com o meu batom não!"

― Quem fala?

― Te manda pra cá!

― Olha eu...

― Sabe o que que o maluco do Pepe está fazendo? Pintando o ... Ó Pepe, fala aqui com o Fabião. Diz pra ele vir pra cá.

Outra voz no telefone:

― Fabião?

― Não eu...

― Quero te informar que acabei de pintar o meu pênis de, deixa ver, ocre provençal. É mole?

― É engano.

― Cê vem pra cá ou não vem? Haroldinho, o Fabião sabe o endereço? Hein? Fala aqui com ele.

― Fabião?

― Não. Meu nome é...

― Sabe o posto de gasolina na esquina da rua do Vavá? É o edifício ao lado.

Número, número... Rita. Vem cá. Você não é a Rita? Que número é aqui? Fala aqui com o Fabião. Olha, Fabião, você vai falar com a mulher mais gostosa da festa. Ela vai te dar o endereço. Um beijo, cara. Vem logo.

― Olha, você ligou o número errado, eu...

― Oi.

― Oi, Rita. Eu...



― Eu não sou Rita. Sou Malu. Você quer o número?

― Não, eu estou tentando...

― Posso dizer?

― ... dizer que ligaram para o número errado daí!

― Noventa e seis, apartamento 32. Terceiro andar.

― Eu não sou o Fabião.

― Quem é o Fabião?

― Não sei. Eu não sou. Meu nome é Luiz Pedro.

― Certo. Anotou o número? Vem logo, Luiz Pedro. Eu gostei da sua voz.

― Eu... Gostou?

― Hmmm. Estou te esperando.

― Posso falar com o ... o Haroldinho?

― Quem?

― O que te passou o telefone.

― Certo. Haroldinho! O Luiz Pedro quer falar contigo. Tchau, Luizinho. Não demora, viu?

Voz do Haroldinho:

― Que história é essa de Luiz Pedro, Fabião?

― Nada, não. Só me diz uma coisa. A rua do Vavá qual é, mesmo?

― Está brincando comigo, Fabião? Vem logo pra cá.

E Haroldinho desligou o telefone. Luiz Pedro ficou pensando na cama, com o telefone em cima do peito. Lamentando que sua vida era como era. Lamentando todas as oportunidades que tinham aparecido para mudar sua vida, e que ele tinha deixado escapar. Lamentando o fim do namoro com a Suelen, só porque ela citava trechos inteiros do Paulo Coelho de cor. Lamentando, acima de tudo, não conhecer o Vavá.


2. Patrícia poeta e o tempo hoje

Hoje ela está de cabelo preso. Acho que prefiro solto. 47 graus em Porto Alegre, veja você. Ela será baixa ou alta? Nunca se vê o corpo todo. Máxima de 55 no Rio. Máxima é ela. Ou será mínima? Se for baixinha, é uma grande baixinha. Vem uma frente fria da Argentina. Grande novidade, Patrícia. A frente fria pode trazer temporais. É mesmo, Pat? Será que ela gosta de "Pat"? Buenos Aires foi arrasada. Páti. Patinha. Montevidéu desapareceu do mapa. A carinha dela de preocupada. Fica assim não, Patrícia.

Metade do Uruguai está debaixo d'água, as previsões são que o mesmo aconteça em toda a região litorânea brasileira na faixa preta no mapa, eu não agüento quando ela mostra a faixa preta no mapa, se a câmera apenas recuasse um pouquinho, e é possível que o mar chegue até o Mato Grosso. É, Pat Poeta?

Neve no Ceará, furacão no centro-norte, e o que foi mesmo que ela disse sobre o Amazonas correr ao contrário e inundar o Peru? Quem se importa com o tempo hoje, quando é a Patrícia que apresenta? Mas ainda prefiro os cabelos soltos.


3. Argumentos

― Você sabia que nem Hitler, nem Mussolini, nem Franco fumavam?

― O quê?

Com o ruído do tráfego, era difícil ouvi-lo.

Nem Hitler, nem Mussolini, nem Franco fumavam.

― Sei.


― E você sabia que quando Roosevelt, Churchill e Stalin se encontravam, no fim da reunião eles mal podiam se enxergar, de tanta fumaça?

― Onde você quer chegar?

― Você sabia que o combate ao fumo fazia parte do programa de saúde nazista?

― Está bem. E daí?

― E que a piteira do Roosevelt, o cachimbo do Stalin e principalmente o charuto do Churchill simbolizavam a resistência ao nazismo?

― E daí?

― Daí que a proibição de fumar é fascista. Daí que foram os fumantes que ganharam a guerra!

― E daí?

― Daí que não parece, pois eu que fumo estou aqui fora, neste parapeito, porque você que não fuma não me deixou fumar aí dentro.

― E você vai continuar aí fora até terminar o cigarro.

― Pode vir um vento e me derrubar. São 14 andares!

― Assim você pelo menos morre mais rápido.

― Fascista!

― Não estou te ouvindo.


Mais contos de verão


As crianças foram explorar as dunas e voltaram com a notícia de uma descoberta maravilhosa. Restos de uma civilização antiga! Ali, a poucos metros da casa alugada na praia. Quase na superfície da areia: potes e pratos de barro, com inscrições indecifráveis.

― São hieroglifos ― disse o mais velho, que já tinha lido a respeito.

― Hieróglifos ― corrigiu o pai.

Naquela noite, não falaram em outra coisa. Ali devia ter existido uma taba de índios, antes da chegada do Cabral. Mas os índios não tinham uma escrita. Ou tinham? Devia ser um povo mais antigo, até, do que os índios. Mas que povo? De onde?

― Argentinos! ― gritou o mais moço, entusiasmado com a própria dedução, e depois foi se queixar para a mãe que estava rindo dele.

Chegaram à conclusão que os restos eram de uma civilização avançada que existira no Brasil antes dos índios, muito antes do Cabral. Na manhã seguinte, em vez de irem para o mar, foram para o seu sítio arqueológico, cavar mais.

Quanto mais fundo cavavam, mais coisas apareciam. Mais potes, pedaços de pratos, moringas. Um saleiro...

Voltaram para a casa correndo, o mais velho segurando o saleiro no alto e gritando:

― Pai! Pai!

Mal podia controlar a excitação com a descoberta:

― O plástico é muito mais antigo do que a gente pensa!

Ilusão Pintou um clima e ele, que não era de ir, foi.

― E aí?

Ela sorriu, disse "Tudo bem?", ele disse "Tudo bem" e pensou:

"Até aqui, tudo bem." Mas agora vinha a parte mais difícil. A segunda frase.

― Você vem sempre aqui?

― Não. Primeira vez.

― Legal, né?

― Súper.

E agora? O terreno estava preparado para... o quê? "Você tá a fim?" Muito cedo. "Sabe que você é linda?" Muito babaca. "Você não acha, assim, que a vida é uma ilusão?" Ela sairia correndo. Melhor dar mais alguns jabs. Era o que o professor Florenço, do boxe, recomendaria. Preparar com jabs de esquerda e, quando sentisse que era a hora certa, soltar a direita.

― O que você faz?

― Ginástica rítmica. Você?

Um impasse. Ela obviamente contara qual era o seu esporte, não a sua profissão. Ou havia ginástica rítmica profissional? Não havia. E ele, devia responder que era auxiliar de vendas ou que lutava boxe? Respondeu:

― Boxe.


Ela se horrorizou.

― Boxe?!

― Já tenho a cara feia, mesmo...

Ele ficou esperando que ela dissesse que sua cara não era feia. Ou que não era tão feia assim. Ou apenas "Não acho". Mas ela não disse nada. Ele:

― Quer um suco?

― Mas não é boxe?

― Hein?

Confusão. O que ela tinha entendido?

― Você não disse que lutava boxe?

― Disse. O quê...?

― E o que você disse depois?

― Perguntei se você queria um suco.

Ela tapou o rosto com as mãos, dizendo "Ai, meu Deus", depois destapou e disse:

― Desculpe. Eu entendi "kerusuko". Pensei que fosse uma dessas lutas japonesas...

― Ah, não. Não, eu... O que é isso?

Ela tinha tapado o rosto outra vez e parecia que estava chorando. Depois ele viu que ela estava rindo. Riu também. Em pouco tempo os dois estavam dando gargalhadas. Juntos! "Pô" pensou ele. "Está indo melhor do que eu esperava." Quando acabaram de rir ele decidiu soltar a direita.

No dia seguinte, perguntou para o professor Florenço quando era, mesmo, que se devia soltar a direita.

― Quando aparecer a chanche.

O professor Florenço dizia "chanche" em vez de "chance".

― Prepara com jabs de esquerda e quando aparecer a "chanche"... Vapt!

O negócio era reconhecer a "chanche", pensou. No dia anterior, julgara que a hora certa chegara. E perguntara:

― Você tá a fim?

― Às vezes ― explicou o professor Florenço ― o adversário dá a "chanche", mas é uma armadilha. Você vai e ele vem. Quem fica desprotegido e leva a direita é você.

"Agora ele me diz isso", pensou, massageando o queixo. E suspirou.

Pois sim Apesar de todos os cuidados, ela se queimou demais no primeiro dia. No dia seguinte, quando a viu de biquíni ele fez "Mmmm". E disse:

― Como você está apetitosa...

Ela olhou o próprio corpo, alisou os quadris e disse:

― Até que eu não sou das piores, né?

― Não, é que você está parecendo um tomatão.

― Olha aqui, Carlos Alberto...

Os piores momentos da vida deles tinham começado com a frase "Olha aqui, Carlos Alberto".

― Você é que devia olhar essa barriga indecente.

Ele ficou acariciando a barriga indecente e rindo.

― Um pouquinho de azeite e sal e eu como você agora.

― Pois sim.

Ele ponderou o "pois sim" dela. Todas as implicações do "pois sim" naquele tom. O que ele dizia e o que não dizia. Ficou alisando a barriga, rindo e imaginando se eles ainda teriam vida, se ainda teriam qualquer coisa, depois daquele "pois sim". Decidiu deixar passar, mas só porque o apartamento estava alugado até o carnaval.


Mãos
"Uma mão lava a outra" é uma frase usada sempre num contexto de conluio presumido, de ajuda mútua vantajosa para os dois lados, de privatização das teles, etc. Mas tem a conotação sombria de um entendimento secreto entre as nossas mãos, que teriam uma existência autônoma separada da nossa e independente da nossa vontade. Elas não dependeriam de nós nem para a sua higiene. Nos pertencem e ao mesmo tempo não nos pertencem. Fazem o seu serviço sem serem mandadas ― empurram os óculos para cima no nariz, coçam onde é preciso, acenam para conhecidos, pegam o que queremos ou fazem sinal para trazerem e, se somos atacados, erguem-se em nossa defesa automaticamente mas você nunca está inteiramente à vontade com elas. É ou não é? Há sempre a ameaça implícita de uma rebelião. Um dia elas nos agarrarão pelo pescoço e nos matarão ― e depois alegarão suicídio! Ou farão gestos provocadores para um batalhão da PM ou para a torcida adversária e depois não erguerão um dedo para nos salvar.

Sir Isaac Newton disse que a existência do dedão era prova suficiente da existência de Deus. A civilização começou com o dedão opositor. A evolução mais importante de toda a história da Humanidade, batendo longe a invenção da roda, do microchip e da azeitona sem caroço, foi o desenvolvimento da junta giratória que permite ao dedão ― o Pai de Todos ― se opor aos outros dedos. No momento em que pôde juntar as pontas do dedão e do indicador com delicada precisão, para segurar uma asa de borboleta ou esmagar um piolho, o pré-homem passou a integrar uma ordem superior de mamíferos. Aprendeu a andar sobre as patas de trás para deixar as mãos livres. Pode segurar o tacape com firmeza e tocá-lo na cabeça do próximo com técnica. Pode começar a fazer coisas em vez de apenas descobri-las. O que distingue o homem do primata não é, como você sempre pensou, a alma ou a capacidade de cantar a quatro vozes. É o dedão. Sem o dedão, o homem não teria uma história. E jamais teria desenvolvido, nada mais avançado do que o bolinho de barro.

Depois do dedão, o dedo mais importante é o indicador. É o dedo que se usa em algumas tarefas indispensáveis para a sobrevivência da espécie, como chamar o elevador ou o garçom e disparar foguetes. Mas também é o dedo da acusação e da delação. Sua utilidade é indiscutível mas seu caráter é duvidoso.

Pouco se sabe sobre o terceiro dedo. É, geralmente, o mais comprido de todos, mas não tem nenhuma função específica. Os outros dedos, se pudessem falar, provavelmente o tratariam com afetuosa condescendência, chamando-o de "Comprido", "Magrão", "Deitado", "Boa Vida", etc. Já o seu vizinho existe por uma razão. Se Deus criou o dedão para libertá-lo, criou o anular, o dedo do anel, para lembrar ao homem que sua liberdade é limitada. Pelas instituições, pela sua própria vaidade ― ou pelo casamento.

O "mindinho" se chama "auricular" porque foi criado para limpar a orelha. Só muito mais tarde descobriu-se sua função secundária, a de estender o alcance da mão no teclado. Ao contrário do terceiro dedo, no entanto, o mindinho transformou a sua inutilidade em virtude. Assumiu a sua frivolidade. É um símbolo de delicadeza, bons modos, hipocrisia ― ou simplesmente frescura ― quando se mantém levantado, não importa o que os outros dedos estejam fazendo.

Se em vez do dedão tivéssemos desenvolvido o mindinho opositor, a história do mundo teria sido outra. Provavelmente muito mais divertida.

Mãos dadas


A separação de Carolina e José Mauro, o Zémau pegou todo mundo de surpresa. Logo aqueles dois, que depois de dez anos de casados ainda andavam na rua de mãos dadas. De mão dadas!

― Pra você ver ― foi o comentário do Péricles par a mulher, Verinha, que vivia tentando pegar a sua mão na rua. Eles não andavam de mãos dadas, o Péricles enfiava a mão no bolso quando a Verinha tentava pegá-la, ou apressava o passo para caminhar na frente, e o casamento deles estava firme. A Carolina e o Zémau andavam na rua como dois namorados (ele fingia que mordia a orelha dela e ainda fazia "iom" na frente de todo mundo) e estavam se separando.

― Viu só ― disse o Péricles.

― Sei não ― disse a Verinha.

― Sei não o quê?

― Sei não se o nosso casamento está firme.

― Que história é essa, Verinha?

― Sei não!

A separação de Carolina e Zémau deixou a Verinha traumatizada. Eles pareciam tão felizes. Não eram só as mãos dadas e o "iom" na orelha. E o jeito como o Zémau chamava a Carolina de "amorzinho". Uma vez até "amoreco", o que levara Verinha a reclamar para o Pércicles que ele nunca, nunca na vida, a chamara de "amoreco" (e o Péricles nem levantara os olhos do jornal). Não era só isso. Quando a Carolina não estava do seu lado, o Zémau se referia a ela como "essa minha mulherzinha..." Com carinho. Com admiração. Você sabe o que um homem pensa da mulher pelo modo como fala nela de longe. O Péricles apontava para ela com o queixo e dizia "Essa daí". Semanas depois da separação, Péricles encontrou o Zémau. Estava ótimo. Péricles não quis fazer perguntas, mas o próprio Zémau puxou o assunto. Pois é, acabou. Não, não tinha havido nada. Amante, briga, nada. Tinham, simplesmente, decidido "dar um tempo". A Carolina? Também estava ótima. Nem a dona Lavínia, mãe da Carolina, criara problemas com a separação. Aliás, o Zémau continuava indo na casa dos sogros todas as semanas, para jogar cartas. Só porque o casamento tinha acabado não era razão para acabar com a parceria. Estavam todos ótimos. Numa boa.

― Traumatizada ficou a Verinha... ― disse Péricles. Péricles hesitou. Olhou para trás. Olhou em volta. Não havia muita gente na calçada. Ninguém conhecido. A Verinha caminhava ao seu lado, olhando para o chão, com os braços cruzados na frente do peito. Péricles tentou pegar a mão dela. Ela se assustou.

― O que é isso?!

― Me dê a sua mão.

― Por quê?

― Porque eu quero segurar a sua mão, ora.

― Não.

Ele tentou pegar a mão dela a força. Ela apertou as duas mãos sob os braços. Rodopiou, para que ele não alcançasse sua mão. Ficaram os dois rodopiando na calçada.



― Me dê a sua mão, Verinha.

― Não dou!

― Amoreco...

― Amoreco não!

Finalmente, chegaram a um acordo. Caminhariam de mãos dadas, mas não sacudiriam os braços, como nos musicais. Se sacudissem os braços, era hipocrisia. Sinal que o casamento estava perto do fim. E se aparecesse alguém conhecido, desfariam as mãos dadas. E ai dele se fizesse qualquer coisa parecida com "iom" na sua orelha.

Péricles suspirou. Aquela sua mulherzinha...


Mar de palavras


Três náufragos cegos: Homero, Joyce e Borges, à deriva num mar de palavras. Seu navio bateu numa metáfora ― a ponta de um iceberg ― e foi ao fundo. Seu bote salva-vidas é levado por uma corrente literária para longe das rotas mais navegadas, eles só serão encontrados se críticos e exegetas da guarda-costeira, que patrulham o mar, os descobrirem na vastidão azul das línguas e os resgatarem de helicóptero. E mesmo assim se debaterão contra o salvamento. São cegos difíceis.

Joyce é o único que enxerga um pouco, mas perdeu seus óculos. Só enxerga vultos, silhuetas, esboços, primeiros tratamentos, meias palavras, reticências. Mesmo assim, diz que a mancha que vislumbra no horizonte é Dublin. Sim, é Dublin, ele a reconheceria em qualquer lugar. "Tudo é Dublin para você", comenta Borges, deixando sua mão correr fora do barco. Súbito, Borges pega alguma coisa. Uma frase. Ergue a mão que segura a frase gotejante e pergunta o que é. Um conceito? Uma estrofe? Em que língua?

― É Dublin ― diz Joyce.

― É Dublin, do meu Ulysses ― diz Joyce.

― Do meu Ulisses ― diz Homero.

― O meu Ulisses contém todos os ulisses da História. O seu Ulisses foi apenas o primeiro. E ele nunca esteve em Dublin.

― O meu Ulisses não esteve em lugar nenhum. Voltou de todos.

― Você está sendo mais obscuro do que nós, Homero ― reclama Borges.

― Você não pode ser obscuro. Você é o primeiro poeta do mundo. Se você já começa obscuro, o que sobrará para nós, que viremos depois? Seja claro. Seja linear. Seja básico. Seja grego, pombas.

― Todas as histórias são a história de uma volta ― diz Homero.

― Pelo mar de palavras só se volta ― concorda Joyce.

― Meu Ulisses voltava para Ítaca. Você voltava para onde, Joyce?

― Dublin. Sempre Dublin.

― Eu voltava para a biblioteca do meu pai ― diz Borges.

― Aliás, como o Ulisses do Homero, eu nunca estive em outros lugares. Sempre voltei deles. E voltei para a biblioteca do meu pai. Onde desconfio que estou neste momento.

― Você está no mar ― diz Joyce.

― Você está no mar.

― Como você sabe que isto é mar? ― pergunta Borges.

― Porque sinto o cheiro da minha mulher, Nora, que a Irlanda lhe seja leve. Nora Barnacle. Nora Craca. Meu pai disse que, com esse nome, ela nunca desgrudaria de mim. Tinha razão.

― Nora Craca ― sorri Homero, sem que os outros vejam. Uma Nora Craca não ficaria esperando, como Penélope. Uma Nora Craca iria junto.

― As mulheres se dividem em Penélopes e Noras Cracas ― diz Joyce.

― As Penélopes esperam. As Noras Cracas grudam.

― Quem me assegura que eu não estou na biblioteca do meu pai, com o fantasma de dois poetas? A biblioteca do meu pai também era úmida, e evocativa, e tinha cheiros.

― Para Dublin! ― diz Joyce, de pé na proa do barco, ou o que ele julga ser a proa, apontando para a vaga mancha no horizonte.

― Os ventos estão para Ítaca ― diz Homero.

― Ítaca não existe mais ― protesta Joyce.

― Diga isso aos ventos ― responde Homero.

― Mas não temos velas, não temos remos, não temos motor de popa, pelo que sabemos não temos nem popa, não temos nada. Salvo o nosso gênio, que não leva a lugar algum ― diz Borges.

― Estamos perdidos!

― Não estamos perdidos, Borges. Conhecemos este mar como ninguém. Já o cruzamos, em pensamento, mil vezes. Com Homero, que o inventou. Com Camões, com Conrad, com Sinbad, com o Capitão Nemo no Nautilus, com o Capitão Ahab no Pequod. Já ouvimos as suas sereias, já mergulhamos nos seus abismos e mijamos no fundo. Ninguém se aventurou neste mar como nós. Muitas dessas ondas fomos nós que fizemos. E é um mar feito de tudo que nós amamos. Letras, palavras, frases, parágrafos, capítulos, alusões, memórias, imagens e o cheiro de craca... Não estamos sozinhos. Não estamos perdidos. Sabemos onde estamos, e onde fica Dublin. O que mais um homem precisa saber?

― Como chegar lá ― diz Borges.

― Eu sei como chegar a Dublin. Eu voltei.

― Não voltou diz Homero.

― Como, não voltei?!

― Você nunca voltou a Dublin. Eu nunca voltei a Ítaca. Borges nunca voltou à biblioteca do seu pai. Podemos tê-las evocado, mas elas não estavam mais lá. Não é só Ítaca que não existe mais. Nenhum lugar do nosso passado existe mais. Evocá-los é uma maneira de acabar de destruí-los, de povoá-los com mortos. Acreditem, eu sei. Pelo mar de palavras não se volta a lugar algum.

― E se formos resgatados por teóricos de helicóptero? Continuamos lidos. Revisionistas loucos para nos re-examinarem é que não faltam. Cedo ou tarde nos tirarão daqui.




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