Luis fernando verissimo Crônicas Selecionadas da coluna do Estadão



Baixar 2.79 Mb.
Página27/44
Encontro29.07.2016
Tamanho2.79 Mb.
1   ...   23   24   25   26   27   28   29   30   ...   44

― Não, você não entendeu? Não somos mais nós, somos apenas as nossas palavras. Não nos distinguirão delas. Se pularmos nos confundirão com símiles voadores, se abanarmos os braços nos confundirão com narrativas tentaculares ou outras criaturas do mar. Nos fundimos com a imensidão azul das línguas. Jamais sairemos vivos daqui.

Quer dizer que tudo isto, a ponta do iceberg, este naufrágio, esta conversa, era apenas uma encenação? Uma representação de como acabamos, com todo o nosso gênio? ― pergunta Joyce.

― É ― responde Homero.

― O mar de palavras, então, é a morte?

― Não. É a eternidade.

― Eu sabia ― diz Borges.

― A biblioteca do meu pai.

Maria no espelho


Maria espera a visita de um homem. Maria olha-se no espelho. Maria vira-se, para olhar suas pernas por trás. Maria pensa: "Ihhh, aquela mancha roxa continua ali. Será que ele vai ver? Só se olhar de perto. E ele não vai chegar perto. Com a minha sorte, ele não vai chegar nem perto. Oito e meia. Ele já deve estar chegando. Pode me dizer por que você está de vestido? Preto? Apertado? Vai ser um jantar íntimo, aqui mesmo. Ele vem de jeans e camiseta. Ele só usa jeans e camiseta. Deve dormir de jeans e camiseta. Você está linda. Gostosa. Tesão! Muita pintura. Eu pareço uma palhaça. Ele não vai me reconhecer. De pretinho e de batom, vai pensar que errou de apartamento. `Desculpe, eu estou procurado a Mariazinha, minha colega de trabalho, muito sem gracinha.' `Não, sou eu mesma, pode entrar.' `Você não pode ser a Mariazinha, a Mariazinha que eu conheço não tem pernas.' `Tem sim senhor, o senhor é que não tinha notado. E não só pernas. Bunda também.' `Não! Bunda também?! Não pode ser a Mariazinha que eu...'" Barulho do elevador. É ele! Não é ele. Este homem não vem? Eu disse oito e meia. Meus brócolis vão murchar. Eu vou murchar. O molho pros brócolis! Esqueci! Não esqueci. Já fiz. Ele não deve gostar de brócoli. Tem cara de quem não gosta de brócoli. Nem sabe o que é. Eu é que não sei nada sobre ele. Quatro meses trabalhando juntos e eu não sei nada sobre ele. Pode ser um tarado. Você não sabe o que o espera, rapaz. Experiências novas. Excitantes. Brócolis. Com molho! É ele? Não é ele. Se atrasou. Se perdeu. Desistiu. Também, que idéia. Jantarzinho íntimo. A primeira vez que a gente vai se ver fora do escritório e eu já convido pra vir na minha casa.

Deve estar pensando que eu não quero perder tempo. "Boa noite. Boa noite. Trouxe camisinha?" Eu devo estar louca. Jantarzinho íntimo. Velas na mesa. Ela é capaz de comer as velas. Vou mudar de roupa. Me vestir de Mariazinha de novo. Não vai dar tempo. Que livro eu botei na mesa de centro para ele ver que, além de bunda, eu tenho cultura? Já esqueci. Meu Deus, não pode ser Paulo Coelho.

Vou botar aquele dos santos barrocos de Minas Gerais, que eu ainda não abri. As velas na mesa saem. Está pensando que isto é um filme? Na vida real não tem vela na mesa. É ele? Não é ele. Ai meu Deus. Vamos nos organizar. Que impressão eu quero dar? Ele entra e descobre... o quê? Primeira coisa: eu não sou a Mariazinha que ele pensa. A Mariazinha que ele vê no escritório é um disfarce. Eu sou... Mariá. Acento no "a". Uma mulher complexa, vital, multifacetada. Grandes pernas, grande cabeça. No trabalho é uma eficiente, discreta, algo contida. Em casa é outra: feminina, interessane. Folheia livros sobre o barroco mineiro, uma das suas paixões. As outras são balé aquático e física quântica. Experimenta com molhos. Sua pasta de dentes é "Crest", comprada numa pequena farmácia do Village que ninguém conhece. A marca das suas calcinhas? Não usa calcinhas. O lugar mais esquisito onde já fez amor foi o confessionário de uma igreja. Barroca. Mineira. Com o padre, só para ter o que confessar. "O quê? Você, o primeiro homem a entrar neste apartamento que não veio consertar a válvula do banheiro? Ora, não me faça rir. Tenho homens para jantar todas as noites, e guardo seus ossos para chupar no almoço. Meu caro." Vou mudar de roupa. Camiseta e calça solta. Afinal, foi a Mariazinha que convidou ele para jantar, não a Mariá. É preciso um toque de desordem. O barroco mineiro jogado, assim, displicentemente, como se eu estivesse folheando na hora em que ele chegou. Jogado no chão, é melhor. Senão fica tudo muito certinho. Senão ele entra e pensa "Iiih, tudo muito certinho, ela deve ser neurótica por limpeza e provavelmente frígida". Está tudo muito no lugar. Acho que vou entortar um quadro. Que mais? A música! Esqueci a música. Ele entra e está tocando o quê? O coro das mulheres búlgaras. Não, coitado, vai se sentir intimidado. Eu de pernas de fora e búlgaras cantando. Búlgaras e brócolis, ele é capaz de sair correndo. Maria Bethânia cantando Roberto Carlos. Sei não, pode dar uma idéia errada. A Mariazinha escolheria Roberto. A Mariá escolhe... Phillip Glass. Não, tá doida. Os três tenores.

Também não. Keith Jarret? Não. Não tem música. Até a noite se definir. Porque tem noites que vão naturalmente para Frank Sinatra com violinos e noites que vão para Neguinho da Beija Flor. Noites que acabam em Wagner e noites que acabam em Fagner. Se bem que as minhas noites geralmente acabam em Jô Soares Onze e Meia... dependendo de como for a noite, mais tarde ponho alguma coisa para a gente dançar. "Sabe, Mariá? Você me surpreendeu..." "Ah, sim?" "Sim. Eu não sabia que você era uma mulher assim tão (pausa) multifacetada..." "E isso que você ainda não viu todas as minhas (pausa) facetas. E, se não chegar logo, não vai ver nenhuma." Se ele começar a ficar muito chato, eu ponho as búlgaras a todo volume e corro com ele. Vou deixar a pintura como está. O vestido também. A mancha roxa também. Afinal, quem é você, hein, Maria?

Mariazinha ou Mariá? Quem convidou ele para jantar foi a Mariazinha do escritório. Ele chega esperando encontrar a Mariazinha e encontra uma mulher. Uma estranha mulher de preto. Troco de roupa ou não troco de roupa? Ele deve estar chegando.

Decisão rápida: quem abre a porta? Mariazinha ou Mariá? Ai, meu Deus, Mariazinha ou Mariá? Eu posso estar decidindo meu futuro. Este pode ser o momento mais importante da minha vida. A campainha! É ele! E agora? Posso ser a Mariazinha hoje e deixar a Mariá para depois, quando ele vier outra vez. E se ele não vier outra vez? Pode se decepcionar com a Mariazinha e depois a Mariá não terá uma chance. Mas se eu for a Mariá de saída pode estragar tudo. Ele pode se assustar, eu posso ser Mariá demais pra ele. Eu posso começar Mariazinha e terminar Mariá. Não, vai deixar ele confuso.

Mariazinha ou Mariá, alguém tem que abrir essa porta!

Par ou ímpar? Que bobagem. Uni, duni, tê, quem vai abrir a porta é ― você! Mas quem é você? Vou tirar o vestido. Isso. Abro a porta nua, digo que ainda não acabei de me vestir e venho para o quarto decidir quem eu sou. Quantos passos serão daqui até a porta? Se eu der um passo de Mariazinha e um passo de Mariá até a porta, quem chegar na porta ganha. Se quem chegar na porta for a Mariá, ela já tira o vestido e elimina várias etapas. Antes mesmo do brócoli. Até que enfim, uma solução racional. Lá vou eu. Mariazinha, Mariá, Mariazinha, Mariá, Mariazinha...




Meu dedo, meu herói

Espero que, se ainda não escolheu seus candidatos, você pelo menos já tenha escolhido o dedo com que vai votar. Não fizeram nenhuma pesquisa de intenção a respeito ("Se as eleições fossem hoje, com que dedo você votaria?") mas acho que o resultado seria algo como indicador 70%, polegar 15%, mindinho 10%, não sabe, não respondeu ou mandou o pesquisador pastar, 5%. Por aí.

Escrevo, portanto, presumindo que você pressionará todas as teclas da maquininha, hoje, com o seu dedo indicador.

Olhe para ele. O seu indicador. Não parece grande coisa, não é? É um dedo útil, mas não exatamente um dedo indispensável. Você viveria muito bem sem ele. Sua principal tarefa ― indicar ― poderia ser facilmente assumida por outro, se ele viesse a faltar. É um dedo importante para formar o conjunto mas não é, assim, um grande dedo, um dedão opositor, por exemplo, sem o qual a vida civilizada seria impossível. Não é nem um dedo médio, como o seu vizinho. O indicador é apenas isso: o componente de um set, sem nada de especial que o caracterize. Salvo hoje. E, claro, daqui a 20 dias, se houver segundo turno.

Hoje é o dia dele, hoje ele é o rei da mão. Espero que você o tenha tratado com o devido respeito, durante a semana. Que não o tenha usado para nenhum fim menos nobre. Que o tenha protegido, mantido a sua temperatura constante com algum tipo de agasalho, cuidado da sua higiene e da sua aparência. Se o levou a uma manicure para prepará-lo profissionalmente para o seu grande dia, não fez mais do que ele merece. Afinal, hoje ele é a sua parte mais cidadã. Hoje, você é que é o acessório dele, apenas o meio que ele usará para chegar até a maquininha e fazer o seu trabalho. Se pudesse ir sozinho, ele nem precisaria de você.

Hoje, ele é que decide. Hoje ele é a coisa mais decisiva da nação. Quem diria, não é mesmo? O seu indicador, pelo qual, normalmente, ninguém daria nada. Uma pequena extensão de carne, osso e articulações com uma unha na ponta, nada mais singelo e despretensioso. Nem nome ele tem. A não ser que você seja dos que põem nomes carinhosos nas suas partes, e ele se chame Zé, Huguinho ou Rubenval Ostramonte de Troncoso Pinto. Tudo bem. Mas ele não tem posses. Não tem dinheiro. É somente um dedo, um pobre dedo. Não tem o controle de nada, não tem aptidão para nada, não consegue nem segurar um lápis sozinho. E no entanto, hoje ninguém tem tanto poder quanto ele. Hoje é tudo com ele. Hoje ele é que manda.

Mas é preciso ter cuidado. Há muita gente inconformada com tanto poder num dedo. Gente que acha que o Brasil é um negócio grande demais para ficar dependendo assim de indicadores que não são os econômicos, de indicadores de carne, osso e articulações em vez de números e previsões de lucro ou perda.

Gente que, inclusive, já votou, manipulando os seus indicadores para tentar influenciar o seu, com medo do que o seu vai fazer na maquininha. É gente muito forte, contra a qual o seu indicador nada poderia numa luta aberta, a não ser fazer cócegas na sua barriga poderosa e depois correr. Na hora de apertar as teclas da maquininha, no entanto, o seu indicador é soberano.

Nada pode detê-lo, ninguém pode vencê-lo. Mas cuidado: podem tentar.

Olhe para ele. Coisa, né? Dê um beijinho nele, vai. Flexione-o, teste os seus reflexos e a sua resolução e rigidez. Treine-o em votações simuladas, só evitando que ele se entusiasme muito e se lesione. Prepare-se para levá-lo até a maquininha com o mínimo de risco. Resista à tentação de carregá-lo no alto, em triunfo, como um ídolo, gritando "Olha ele aí, pessoal! É ele!" No caminho, evite apertos de mão muito fortes. Se precisar usá-lo numa função corriqueira e vulgar mas absolutamente inadiável, use o da outra mão. Hoje o seu indicador é a melhor parte de você. É o seu representante legal, a sua arma, o seu herói. Incentive-o com frases como "Vamos lá, campeão!" Se ele estiver nervoso, convença-o que você estará lá, atrás dele, cuidando para que ninguém interfira no seu trabalho. E que ele não estará sozinho, que outros dedos iguais a ele estarão fazendo a mesma coisa, e que eles serão legiões.

Existe um perigo, certo. É o de que seu indicador, enlouquecido pela notoriedade que ganhou desde que a maquininha passou a ser o único meio de votar, se rebele. Se ache tão importante que, na hora, resolva agir por conta própria. E você descubra que, embora seja Lula, seu indicador é Serra!

Ou outro qualquer, só para mostrar sua independência. Mas as possibilidades de que isso ocorra são mínimas. Seja qual for a sua escolha, confie no seu dedo. O Brasil inteiro está confiando.




Miss Simpatia

Aline foi Rainha do Sesquicentenário da Independência, Mônica e Elvira, Princesas e Maria José, Miss Simpatia. E aconteceu de se encontrarem numa festa, justamente a festa com que o clube festejou os 30 anos do memorável baile em que as quatro tinham sido eleitas. Aline, Rainha. Mônica e Elvira primeira e segunda princesas, respectivamente. E Maria José, a Zequinha, Miss Simpatia. No encontro, elas gritaram e pularam e se abraçaram exatamente como tinham feito naquela noite, ao ouvirem o resultado do concurso. Bem, não exatamente. Estavam 30 anos mais velhas. Mônica e Elvira tinham engordado bastante, como se engordar fosse uma sina das princesas. Aline não podia pular muito por causa do rosto e dos seios novos, sua última plástica fora semanas antes. Quem gritou e pulou com o mesmo entusiasmo foi a Zequinha. A Zequinha era assim. Esfuziante. Desde pequena. "Esfuziante" era um adjetivo criado para ela. A Zequinha continuava esfuziante.

As quatro não tinham mais se visto desde o baile memorável. Aline, que estava noiva na ocasião (e, cochichava-se, grávida), casara em seguida, com um militar, e se mudara para o Rio. Mônica, que só viera à cidade para o feriado de 7 de Setembro e o baile, voltara para a escola. Elvira ficara na cidade até o fim daquele ano mas freqüentava pouco o clube, quase não era vista, falava-se que tinha problemas em casa. No fim do ano desaparecera, junto com a família. Só a Zequinha nunca fora embora. Zequinha continuava na cidade.

Os organizadores do baile pediram para as quatro esperarem num camarim, antes de serem chamadas ao palco para relembrarem aquela noite, 30 anos antes. As quatro aproveitaram para trocar informações sobre suas vidas. Aline contou que estava no quarto marido. Gritos das outras. Mônica contou que trabalhava muito (psicóloga, consultora de empresas) nunca casara mas tinha um relacionamento com um homem bem mais moço. Mais gritos. Elvira contou que chegara a trabalhar como modelo, até tentara alguma coisa em televisão, mas agora só se dedicava a tratar do pai. As outras se lembravam, claro, dos problemas do seu pai. Ninguém se lembrava, mas todas fizeram ruídos de comiseração. Principalmente a simpática Zequinha. E quando as outras perguntaram como tinha sido a sua vida, Zequinha disse "A minha? Comparada com a de vocês, não foi nada!" Rindo, como se "nada" fosse tudo que ela queria. A Zequinha vivia para o marido, os filhos e os netos, não queria outra coisa. A Zequinha continuava contente da vida.

Foi quando a Aline ficou séria e perguntou:

― Você não ficou chateada com o que eu disse aquela noite, ficou?

― Que noite? ― perguntou Zequinha, ainda rindo.

― Do concurso.

― Eu não me lembro do que você disse!

― Jura?


― Juro. A única coisa que eu lembro daquela noite é o pulo que eu dei quando anunciaram o resultado. Eu, Miss Simpatia!

― Eu lembro do que você disse, Aline.

― Eu também.

Mônica e Elvira, primeira e segunda princesa, lembravam-se da maldade da Rainha. Trinta anos antes, Aline dissera que escolher alguém como Miss Simpatia num concurso de beleza era apenas uma maneira polida de lhe dizer que estava na festa errada. A faixa de Miss Simpatia não era consolo suficiente para Zequinha por não ser tão bonita quanto ela, Aline, e suas princesas.

― Juro que não me lembro! ― disse Zequinha.

Aline explodiu:

― Pare com isso, Zequinha! Quer parar com isso? Eu era uma beleza e me transformei nisto. Até o meu cabelo é falso. Que saber? Até o cabelo. Essas duas ficaram esses horrores. Quando eu olho a minha faixa de Rainha, choro, está entendendo? Choro. Nenhuma de nós é mais o que era. E você continua a ser simpática! Só você ainda merece a sua faixa. Pare de ser simpática, Zequinha!

Aline passou a soluçar. As duas princesas não lhe deram atenção. Zequinha tentou consolá-la. Abraçou-a. Disse "Pronto, pronto." O que poderia fazer? Continuava simpática.


A Mulher e os Pés


O Homem, como se sabe, é o produto de um lento processo evolutivo que começou com a primeira ameba a sair do mar primevo. Na sua forma atual, ele é o descendente direto de uma linha específica de primatas, tendo passado por várias fases até chegar ao que é hoje. Já da Mulher, sabe-se pouquíssimo sobre sua origem. É ridículo pensar que elas também descendem de macacos. A sua mãe pode ser, mas a minha não. Uma das teses mais aceitáveis sobre o papel da Mulher na evolução do Homem é a de que o primeiro encontro entre os dois se deu no período paleolítico, quando um homem sapiens mas não muito saiu para caçar e avistou, sentada numa pedra, penteando os cabelos, um ser que lhe provocou o seguinte pensamento, em linguagem de hoje: "Isso é que é mulher, e não aquilo que eu tenho na caverna!"

Ele aproximou-se e, com aquele seu jeitão, deu a entender que queria procriar com ela. É preciso lembrar que o nosso homo tinha testa estreita e mandíbula grande e usava gordura de mamute no cabelo. Era, aliás, do tronco geneológico que depois deu o zagueiro argentino. Ouviu, como resposta, algo como "Cê não se enxerga, não?" e "Evolua e apareça" ― e foi o que nós fizemos. Desde então, o objetivo da evolução do Homem foi proporcionar um par à altura para a Mulher. Para que, vendo o casal, ninguém dissesse que ela só saía com ele pelo dinheiro, ou para espantar os cachorros.

De onde veio a Mulher? Ninguém sabe. Inclino-me pela tese da origem extraterrena. O fato é que se não fosse por aquele encontro fortuito numa planície do mundo primitivo o Homem ainda seria o mesmo troglodita de então, interessado apenas em caçar e catar seus piolhos, e um fracasso social.

Devemos à Mulher a civilização e todos os seus benefícios, inclusive o desodorante. Mas a evolução ainda não acabou. Ainda temos muito que progredir para não fazer feio aos olhos delas, e, finalmente, merecê-las.

Os pés Dos nossos pés podemos dizer, como dizemos de certos amigos, que a vida nos separou. Viver é o nome que o homem dá à lenta separação das suas extremidades.

À medida que envelhecemos, mais remotos e inacessíveis se tornam nossos pés e chega um momento em que só podemos nos abanar, melancolicamente, de longe, pois qualquer reencontro é impossível. Salvo para as formalidades higiênicas, e assim mesmo com dificuldade.

Freqüentamos os mesmos lugares, continuamos ligados, inclusive sentimentalmente, mas é como se vivêssemos em mundos à parte, com culturas diferentes. Ainda são eles que nos trazem de pé mas nosso relacionamento hoje se restringe a esta mera exigência estrutural. Eles lá e nós aqui.

E houve um tempo em que éramos muito próximos. Quando um velho olha para uma criança num berço não inveja a sua inocência, pois a experiência é melhor, nem as suas regalias, que ele também tem. Inveja a sua capacidade de morder o dedão do próprio pé. Muitas vezes, só o que distingue o bebê do velho é isso, mas isso é tudo.

Longe dos pés, podemos pensar neles com alguma isenção, sem envolvimento emocional. E a verdade é que nunca os entendemos muito bem. Não comentávamos nada, na época, para não comprometer nosso convívio, mas nunca aceitamos, por exemplo, a existência dos dedos do pé, essas incômodas lembranças de nossa ascendência símia. Ainda mais com unhas. Como se a evolução da espécie só tivesse chegado até os tornozelos.

Não lhes negamos cuidado e agasalho mas sempre os olhamos, por assim dizer, de cima, com a mesma superioridade com que o Primeiro Mundo olha o Sul.

E nunca um homem está tão longe dos seus pés como num caixão. É quando o distanciamento termina, quando o processo acaba e o homem chega ao seu comprimento definitivo.

Eles lá e nós lá também.


Múltiplas escolhas


Múltipla Escolha

1) Você faz o vestibular. Você:

a) passa b) não passa.
2) Você passa no vestibular. Você:

a) comemora com colegas que também passaram, abraça todo mundo, grita, quando vê está pulando no mesmo lugar abraçado a uma menina que você nunca viu e que se chama Maria Cristina.

b) comemora com seus familiares, faz todo o seu curso sonhado de Engenharia, custa a arranjar emprego, finalmente se associa a um primo e abre uma lavanderia, casa, tem filhos, netos, uma vida razoável e morre de uma falha do coração artificial em 2044.
3) Você não passa no vestibular. Você:

a) pensa em se matar, pensa em se dedicar ao crime, finalmente decide fazer um curso técnico, torna-se líder sindical, depois entra na política, acaba sendo o segundo torneiro mecânico eleito presidente na História do Brasil.

b) tenta de novo, e de novo, e de novo e acaba casando com uma viúva rica que é, inclusive, dona de uma universidade.
4) A Maria Cristina lhe dá seu telefone. Você:

a) não liga para ela, nunca mais a vê, e sai desta história incólume.

b) liga para ela, e vocês combinam se encontrar, apesar do seu pressentimento de que aquele sinalzinho que ela tem perto do canto da boca não pode dar em boa coisa.
5) Você e a Maria Cristina se encontram, na casa dela. Ela:

a) está sozinha em casa

b) está com o pai, a mãe, um irmão/armário, duas tias grandes e um pit bull e nada acontece.
6) Ela está sozinha em casa. Vocês:

a) se amam loucamente e juram que nunca mais vão se separar

b) se amam loucamente, depois conversam e descobrem que não concordam em muitas coisas ― ela, digam o que disserem, ainda simpatiza com o Fernando Henrique, e odeia peixe cru ― e vocês nunca mais se vêem.
7) Vocês se amam loucamente e juram que nunca mais vão se separar. Você:

a) a pede em casamento, e ela aceita

b) a pede em casamento, e ela diz que aquilo é uma loucura, que vocês são muito jovens, que precisam pensar, que as famílias nunca concordarão e que é melhor dar um tempo.
8) Você a pede em casamento e ela aceita. Você:

a) chega em casa com a notícia, a sua família não concorda, diz que aquilo é uma loucura, que vocês são muito jovens, que prsecisam pensar, que onde se viu, que não contem com o dinheiro deles, que você vai jogar a sua vida fora por um sinalzinho perto do canto da boca, que blablablá, e você sai dizendo que vai fugir com ela e pronto e bate a porta.

b) chega em casa com a notícia, que causa um escândalo, e você se convence que seria loucura mesmo, que o melhor é namorarem, os dois terminarem a faculdade, e no fim, se o amor ainda existir, pensarem no que fazer, e sua história também termina aqui.
9) Você a pede em casamento, ela diz que é melhor dar um tempo, você concorda, mas semanas depois ela diz que está grávida. Você:

a) casa com ela

b) foge para Curitiba.
10) Você a pede em casamento, ela aceita, seus pais não aceitam, os pais dela não aceitam, você foge com ela. Você:

a) é obrigado a desistir de estudar e acaba vendendo artesanato na calçada para sustentá-la, sentindo que jogou a sua vida fora e lamentando a comemoração do maldito vestibular.

b) e ela vão viver em Santa Catarina, amam-se loucamente, mas voltam duas semanas depois, a tempo de se inscrever em suas respectivas faculdades, e ficam bons amigos.

11) Ela diz que está grávida e vocês decidem se casar, com a bênção resignada das famílias. Você:

a) usa a ajuda que recebeu do seu pai para comprar uma van a prestação, acaba com uma frota de vans, fica rico, aparece na Caras, tem filhos e netos e morre de uma falha do coração artificial em 2044.

b) descobre, horrorizado, no altar, que o sinalzinho perto do canto da boca era pintado e agora está perto do olho, e pensa em como seria bom se a gente pudesse voltar atrás e corrigir todas as escolhas erradas que fez na vida, mas como saber se a escolha era errada ou não, já que a vida não tem gabarito?


12) O padre pergunta se você aceita a Maria Cristina como sua esposa. Você:

a) diz "sim"

b) foge para Curitiba.


Musas

Desde que Homero pediu à Musa que iniciasse o relato da Odisséia por onde ela quisesse os escritores esperam das deusas da arte não apenas inspiração como instruções específicas: como e por onde começar, que estilo usar, o tom, o tamanho, tudo. Mesmo quem procura o assunto e como tratá-lo em sofridos mergulhos dentro do próprio cérebro ou dedica-se a infindáveis rituais de preparação antes de escrever a primeira linha, confiando no poder da encantação para constranger o talento preguiçoso a aparecer, está, na verdade, atrás da musa. Não uma musa metafórica, apenas outros nomes para o mistério da criação. Uma musa mesmo. Uma mulher, com ou sem toga, que sente ao seu lado e lhe diga: escreva sobre isto, escreva deste jeito, comece assim ― e ainda lhe dê a primeira frase...




Compartilhe com seus amigos:
1   ...   23   24   25   26   27   28   29   30   ...   44


©principo.org 2019
enviar mensagem

    Página principal