Luis fernando verissimo Crônicas Selecionadas da coluna do Estadão



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― Escreva aí: desde que Homero pediu à Musa que iniciasse o relato da Odisséia por...

― Mas... Quem é você?

― Sua musa.

― Finalmente!

― Não se entusiasme demais. Você ainda terá que fazer o trabalho pesado. Nós não escrevemos nada. Ainda mais em computador.

― Mas você é tudo que eu estava esperando. Alguém que me dê idéias sem eu precisar espremer o cérebro, ou ficar esperando a inspiração jogando paciência, que leva a tudo menos à inspiração. Você está aqui. Ao meu lado. A inspiração em carne e osso! Vem cá!

― Epa. Olha o assédio sexual no local de trabalho. Musa não é secretária!

― Desculpe. Eu só queria abraçá-la, eu... Que musa é você?

Calíope? Clio? Thalia?

― Tá brincando? Essas são do primeiro time. Quem você acha que é, Homero? Eu sou a musa da crônica em jornal.

― Como é seu nome?

― Julinha.

― Por que será que as musas são mulheres, Julinha? Por que a arte, para os gregos, no fundo era coisa de mulher?

― E eu sei? Escreve aí: "Desde que Homero..."

― Ou vocês são, na verdade, uma projeção das nossas mães? Como as nossas mães nos alimentavam com seu leite, vocês alimentam o nosso cérebro com idéias. Como as nossas mães guiavam os nossos primeiros passos, vocês guiam a nossa mão no papel, ou no teclado. Todo artista é, no fundo, um exilado da mãe querendo voltar para o seu domínio. Será isso?

― Nós estamos aqui para trabalhar ou...?

― As escritoras mulheres, têm musos?

― Escuta. Me mandaram aqui para ajudar você. Eu já lhe dei a idéia. Escrever sobre as musas. Sua importância na antiguidade, sua história no Olimpo, onde cantavam acompanhadas pela lira de Apolo, sua rivalidade com as Sereias, etc. Só aí você já tem assunto para vários domingos. Mas essa especulação pseudopsicológica sobre o significado oculto das musas, nesta forma de diálogo, não foi idéia minha. Ou você pára ou...

― Ou os gregos apenas representaram, nas Musas, o fascínio de todas as mulheres sobre todos os homens, já que tudo que o homem faz é para impressionar ou escapar da mulher? Tudo ― guerras, cidades, máquinas, civilizações e, claro, arte ― ou é paquera ou é terror, ou é conquista ou é fuga. A mulher domina a mente do homem, o cérebro de todo homem é um templo em que as mulheres são estátuas e sombras, mães e prostitutas, servas e invasoras. As musas são as sacerdotisas desse templo, instaladas pelos deuses para pôr ordem no caos, ou canalizar o caos para a arte.

― Eu vou embora.

― Espere! Tive outra idéia que não é sua. Por que as musas são mulheres, se há mais artistas homens que mulheres? Se homens fazem arte seria natural que homens inspirassem a arte. Mas o homem, ao criar a arte, está imitando a mulher que cria a vida. Aí está a lógica dos deuses ao criarem as Musas. Eles estavam expressando a sua inveja do útero! Tudo se encaixa, tudo é simétrico e clássico, tudo se explica. Pois, se as mulheres criam a vida impregnadas pelo homem, é natural que os homens criem a arte impregnados pelas mulheres. As Musas não são inspiradoras, são reprodutoras. São garanhões etéreos espalhando sua semente penitente em nossos cérebros, para nos igualarem a elas na criação de vida.

― Tchau.

― Você já vai?!

― Foram os garanhões etéreos.

― Não vá ainda. Eu preciso de um fim para o meu raciocínio. Talvez as musas estejam, no fundo, zombando de nós. Talvez o ato de impregnação seja não uma penitência para nos dar o mesmo poder que têm as mulheres, mas uma reafirmação da sua superioridade. Pois por mais que nos inspirem, nos semeiem com idéias e nos fertilizem com frases, jamais daremos à luz vidas de verdade. Serão sempre ficções, vidas falsas, mundos postiços, épicos hipotéticos com heróis de mentira, ou crônicas indecisas com musas inventadas. O que você acha? Ei, onde está você? Eu preciso de um final. Você me deu um começo, agora me dê um fim. Musa! Julinha! Um final. Eu preciso de um final! Volta!

Namorados


O melhor do namoro, claro, é o ridículo. Mas o Alcyr se passara. Chegara a um extremo de ridículo. Chegara a uma apoteose do ridículo. Ou como você chamaria ter que imitar um cachorro para não descobrirem que era ele no quintal, louco de ciúmes, embaixo da janela da namorada, numa fria noite de agosto? O Alcyr exagerara. Alcyr, que Suzana chamava de Ipsilone, porque aquela fora a primeira coisa que ele lhe dissera.

― Ipsilone.

― Hein?

― Alcyr. É com ipsilone.

― Ah.

Ela estava preenchendo um formulário para dar entrada no seu pedido, algo a ver com um crediário, não interessa, e precisava de todos os seus dados.



― Estado civil?

― Solteiríssimo.

Daí para a pergunta "Que horas tu larga?" e o convite para tomarem um chope foi um pulo, e do chope para o namoro firme foi outro. Suzana ouvia cantadas e convites o dia inteiro, não era dessas, mas simpatizara com o Alcyr. O Alcyr parecia não ser como os outros. E o ipsilone, sei lá. O ipsilone no nome dele lhe dava uma certa segurança.

― Desliga você.

― Não, desliga você.

― Você.


― Você.

― Então vamos desligar juntos.

― Tá. Conta até três.

― Um... Dois... Dois e meio...

Ridículo porque não era você. Ou era você, e só agora, visto desta distância, ficou ridículo. Porque na hora não era não. Na hora nem os apelidos secretos que vocês tinham um para o outro, lembra? Eram ridículos. Pisilone. Suzuca. Alcyzanzão. Surusuzuca. Gongonha (Gongonha!) Mamosa. Purupupuca...

Não havia coisa melhor do que passar tardes inteiras num sofá, olho no olho, dizendo:

― As dondozeira ama os dondozeiro?

― Ama.


― Mas os dondozeiro ama as dondozeira mais do que as dondozeira ama os dondozeiro.

― Na-na-não. As dondozeira ama os dondozeiro mais do que, etc.

E, entremeando o diálogo, longos beijos, profundos beijos, beijos mais do que de língua, beijos de amídalas, beijos catetéricos.

Tardes inteiras. Confesse: ridículo só porque nunca mais.

Depois do ridículo, o melhor do namoro são as brigas. Aconteceu com o Ipsilone e a Suzana. Brigaram e brigaram feio. Várias vezes.

Aí ela ligava para ele e não dizia nada, e ele:

― Eu sei que é você. Está me controlando, é? O que é, se arrependeu?

Ou ele ligava para ela e, assim que ela atendia, desligava.

Quem diz que nunca, como quem não quer nada, arquitetou um encontro casual com a ex ou o ex só para ver se ela ou ele está com alguém, ou para fingir que não vê, ou para ver e ignorar, ou para dar um abano amistoso querendo dizer que ela ou ele agora significa tão pouco que podem até ser amigos, está mentindo. Está mentindo.

E melhor do que as brigas são as reconciliações. Beijos ainda mais profundos, apelidos ainda mais lamentáveis, vistos de longe. A gente brigava mesmo era para se reconciliar depois, lembra? Oito entre dez namorados transam pela primeira vez fazendo as pazes. O IBGE tem as estatísticas.

Na última briga deles a Suzana conseguiu fazer chegar aos ouvidos do Alcyr que estava saindo com outro. Um colega do trabalho. E o Alcyr fez a coisa sensata, o que qualquer um de nós faria. Passou a espionar a Suzana escondido. Começou a faltar a sua aula de especialização em ciências contábeis às 6 para ficar atrás de uma carrocinha de pipoca, vendo se a Suzana saía do trabalho com o outro. Rondava a casa da Suzana. Uma noite, uma sexta-feira, pensou ver a Suzana entrar em casa com um homem ― e não viu o homem sair da casa. Quatro da manhã e o Alcyr abraçado a uma árvore, tremendo de frio, de olho fixo na porta. Todas as luzes da casa apagada e o Alcyr pensando, quase chorando: não pode ser, não pode ser. Como é que o seu Amorim e a dona Laurita deixam? Eu, eles botavam na rua às 11 e meia. O outro, deixam dormir com a Suzana na sua própria cama. Porque a Suzana só podia estar na cama com o outro. Àquela hora, não podiam estar mais no sofá, ela chamando ele de Dondonzeiro. Ou podia? Não podia. Podia, não podia, o Alcyr não se agüentou, pulou a cerca, se agachou sob a janela da Suzana, bateu com o joelho em alguma coisa, gritou, e quando o seu Amorim apareceu na porta dos fundos e perguntou "Quem é que está aí?" tentou imitar um cachorro. Não convenceu ninguém, claro, tanto que dez minutos depois estava sentado na mesa da cozinha, tiritando, as calças sujas de barro, tomando o café da dona Laurita com uma mão, e o outro braço em volta da cintura da Suzana. Sim, reconciliados, abraçados, emocionados. Pois Suzana se enternecera com o ciúme do seu Ipsilonizinho. Não havia outro nenhum, ela fora na farmácia com o pai, o homem que ele vira entrar na casa com ela era o seu Amorim, bobo! Mas o que realmente conquistara Suzana fora o ganido do Alcyr, tentando imitar um cachorro. Só um homem muito apaixonado faria um ridículo daqueles. Em dois meses estavam casados.

Até hoje a Suzana conta a história do Alcyr ganindo no quintal, por mais que ele peça para ela não contar. As crianças já cansaram de ouvir a história, os amigos ouvem um pouco sem jeito. E a Suzana e o Alcyr não se tratam mais por apelidos. Quando fala nele, ela diz "Esse daí”.Mas que foi bom, foi.


Natal


Natal é uma época difícil para cronistas. Eles não podem ignorar a data e ao mesmo tempo não há mais maneiras originais de tratar do assunto. Os cronistas principalmente os que estão no métier há tanto tempo que ainda usam a palavra métier ― já fizeram tudo que havia para fazer com o Natal. Já recontaram a história do nascimento de Jesus de todas as formas: versão moderna (Maria tem o bebê numa fila do SUS), versão coloquial ("Pô, cara, aí Herodes radicalizou e mandou apagá as pinta recém-nascida, baita mauca"), versão socialmente relevante (os três reis magos são detidos pela polícia a caminho da manjedoura, mas só o negro precisa explicar o que tem no saco) versão on-line (jotace@salvad.com.bel conta sua vida num chat sitc), etc.

Papai Noel, então, nem se fala. Eu mesmo já escrevi a história do casal moderno que flagra o Papai Noel deixando presentes sob a árvore de Natal, corre com o Papai Noel e não conta nada da sua visita para o filho porque querem criá-lo sem qualquer tipo de superstição ― várias vezes. Poucos cronistas estão inocentes de inventar cartas fictícias com pedidos para o Papai Noel: patéticas (paz para o mundo, bom senso para os governantes), políticas ("Só mais um mandato e eu juro que acerto, ass. Fernando") ou práticas ("Algo novo para escrever sobre o Natal, por amor de Deus!").

Já fomos sentimentais, já fomos amargos, já fomos sarcásticos e blasfemos, já fomos simples, já fomos pretensiosos ― não há mais nada a escrever sobre o Natal! Espera um pouquinho. Tive uma idéia. Uma reunião de noéis! Noel Rosa, Noel Coward e Papai Noel. Acho que sai alguma coisa. Noel Rosa, Noel Coward e Papai Noel estão reunidos... onde? Na mesa de um bar? Papai Noel não freqüenta bares para não dar mau exemplo. Pelo menos não com a roupa de trabalho. No Pólo Norte? Noel Coward, acostumado com o inverno de Londres, talvez agüentasse, mas Noel Rosa congelaria. Não interessa onde é o encontro. Uma das primeiras lições da crônica é: não especifica. Noel Rosa, Noel Coward e Papai Noel estão reunidos em algum lugar. Os três conversam.

Noel Rosa ― Ahm... Sim... Hmm...

Noel Rosa diz o quê?

Noel Rosa ― E então?

Noel Coward e Papai Noel se entreolham. Papai Noel cofia a barba. Ninguém sabe, exatamente, o que é "cofiar", mas é o que Papai Noel faz, enquanto Noel Coward olha em volta com evidente desgosto por estar em algum lugar. Preferia estar em outro. A todas essas eu penso em alguma coisa para eles dizerem.

Noel Roas (tentando de novo) ― E aí?

Papai Noel ― Aqui, na luta.

Noel Coward ― What?

Esquece. Não há mais nada a escrever sobre o Natal.

Salvo isto, se dão vênia:

que seu Natal em nada lembre o da Chechênia.

Que suas meias se encham de metais vis desde que não sejam guaranis.

Que sob a árvore enfeitada o grande embrulho com seu nome seja... Meu Deus, a Paola pelada!

Que em nenhum momento do rebu alguém faça piada com o tamanho do peru.

Que em alegre bimbalhada os sinos anunciem ao mundo que está saindo a rabanada.

E cantem os anjos, a capela que o Cristo vai nascer assim que acabar a novela.




Natasho

As crianças tanto insistiram que o pai acabou cedendo: compraria um cachorro. Como não conhecia nada de cachorros, procurou o sogro, que conhecia tudo. O sogro disse que sabia onde conseguir o cachorro ideal para as crianças: um "spaslov siberiano". Uma raça criada especificamente para os filhos da família imperial russa.

O "spaslov" era branco, peludo e pacífico. As crianças poderiam fazer o que quisessem com ele. Era um cachorro inteligente, facilmente treinável, que só dava algum trabalho porque tinha certos hábitos congênitos peculiares. Não só suas refeições tinham que ser em dois serviços ― primeiro uma entrada, depois o prato principal ― como, entre os dois serviços, ele precisava de um sorbet para limpar o paladar. Também precisava de uma máscara para dormir, pois era extremamente sensível à luz. E, em certos meses do ano, que correspondiam ao inverno europeu, era dado a períodos de depressão, que os especialistas chamavam de "nostalgia da neve". Fora isso, era um ótimo animal, dócil como poucos e excelente companheiro. Havia pelo menos um "spaslov" na infância de todos os czares da Rússia.

O pai hesitou, mas as crianças ficaram entusiasmadíssimas com a descrição do "spaslov" (um cachorro russo!) e exigiram a sua compra. Já tinham até um nome pronto ― Natasha ― que teve que ser mudado quando o "spaslov" chegou e descobriram que era macho. Todos se apaixonaram pelo Natasho. Inclusive o pai, que volta e meia se pega estudando o cachorro, e no outro dia notou que o cachorro também o estudava, com algo no olhar que ― se não fosse um absurdo ― ele descreveria como ironia. Ou superioridade aristocrática.

O que será que ele pensa de nós? pensa o pai. Nós o tratamos com a deferência devida à sua raridade, mas não podemos lhe dar o tratamento imperial que a sua linhagem exige. Passadas as primeiras semanas ninguém mais se preocupava em lhe servir os dois pratos com um sorbet no meio e o próprio Natasho, depois de esperar em vão pelo sorbet e a continuação da refeição enlatada, se resignara àquele desleixo plebeu. E ninguém mais lhe botava a máscara para dormir. Ele tinha que enterrar a cabeça numa coberta, na sua caixa de dormir no canto da cozinha, para que a vaga fosforescência do relógio do microondas não impedisse seu sono.

De certa forma, pensa o pai, todo cachorro de raça representa uma vocação abandonada, os desígnios de uma linhagem interrompidos pela domesticação. O mundo está cheio de cachorros, por assim dizer, na profissão errada, como engenheiros fazendo faxina ou filósofos dirigindo táxis. Ascendência e utilidade pregressa não contam para nada e você encontra caçadores exímios reduzidos a pacatas vidas de apartamento e a caçar baratas, patrulheiros dos Alpes penando nos trópicos e a prole de lobos, com a astúcia de séculos de estepe e floresta acumulada nas glândulas, acompanhando velhinhas em praças sonolentas, longe das matilhas e do seu chamado. E cachorros nobres, criados para as larguezas da corte, para aparecer em retrato, obrigados a agüentar o confinamento com uma classe média sem pedigree. Além de comida enlatada.

O pai não sabe se sonhou ou se aconteceu. Acordou no meio da noite e viu o Natasho sentado ao lado da cama, olhando para o seu rosto. Como era uma noite de Lua Cheia, o cachorro talvez não conseguira dormir nem com o cobertor tapando os olhos. Que agora estavam fixos nos olhos do homem, querendo dizer o quê? O pai não contou para ninguém, mas teve a impressão que o cachorro o olhava como se olha um enigma. Era um olhar de incompreensão. Podia ser cansaço. Fôra um dia cheio para Natasho, que correra com as crianças na calçada e servira de cavalo para o caçula. Podia ser melancolia, a tal "nostalgia da neve". Mas não, o pai tinha certeza que era perplexidade. O cachorro estava tentando decifrá-lo. Ou talvez o estivesse convidando para uma comunhão de resignações, talvez fosse solidariedade. Talvez fosse compreensão.

Eu também não sou o que deveria ser, pensou o pai. Estou na profissão errada, possivelmente na família errada, certamente no lugar errado. Meus genes estão programados para outro continente, para outra vida. O que o olhar do Natascho dizia era que para um cachorro não tinha remédio, suas alternativas eram limitadas e, mesmo, a Rússia estava longe. Mas ele? Que era a sua desculpa? Mas o pai acha que pode ter sido um sonho.




Náufragos

Há muitas histórias de náufragos, inventadas e verdadeiras. A mais famosa das inventadas, a do Robinson Crusoe, parece que foi baseada numa verdadeira. De qualquer jeito, para uma história de náufrago só é preciso um naufrágio e uma ilha. Os náufragos podem ser um só, como o Robinson, dois, como o casal de A Lagoa Azul, ou muitos, como a família suíça de outra famosa história inventada. O maior fascínio das histórias de náufragos está na descrição do simples processo de sobreviver na privação, ou do poder da engenhosidade humana diante da Natureza indiferente ou hostil. Nos colocamos no lugar do náufrago e imaginamos como seria nos alimentarmos, nos protegermos e não enlouquecermos, sozinhos numa ilha deserta. Pois no fim todas as histórias de náufragos são sobre a solidão, sobre a falta do próximo e a distância dos outros. Há, inclusive, histórias de náufragos que dispensam a ilha. Mas as que eu vou contar são histórias de náufragos clássicas. De náufragos insulados. Começando com a história do náufrago que enriqueceu da noite para o dia.

Contam que um homem sobreviveu a um naufrágio e acabou numa ilha deserta, e lá viveu durante 40 anos, até morrer. Os primeiros 20 anos foram os piores.

Quando não estava ocupado procurando comida e tratando de se abrigar do sol, da chuva e do vento, quando não tinha mais o que fazer a não ser pensar e lembrar, pensava na vida que levara e lembrava tudo o que perdera. Pensava na sua dura vida de marinheiro, pensava na mulher fiel que o ajudava a enfrentar a dureza da vida e sempre o esperava no porto, pensava na sua casa modesta, pensava nos vizinhos e nos amigos, pensava nas coisas simples que nunca mais veria, e chorava, chorava muito. Antes de dormir, ao pôr-do-sol, o homem imaginava o que estaria fazendo, se ainda estivesse com a sua mulher fiel na sua casa modesta, ou com os vizinhos e amigos, na sua simplicidade.

E assim se passaram 20 anos de recordação e tristeza. E então, certa manhã, depois de uma noite de vendaval, o homem viu que o vento tinha derrubado uma árvore da ilha, e que no buraco deixado pelas raízes arrancadas havia um tesouro. Um grande baú cheio de moedas de outro e de jóias, certamente enterrado por algum pirata que nunca voltara para buscá-lo. Da noite para o dia, o náufrago tornara-se um milionário. Talvez um bilionário, ou um trilionário. Para que perder tempo calculando a fortuna? Havia o suficiente no baú para ele levar uma vida de rei. E a partir daquele momento, e pelos 20 anos seguintes, o homem imaginou tudo o que poderia fazer com a fortuna depois de abandonar a mulher, que não era mulher para um milionário, e os vizinhos e amigos, que só o importunariam com pedidos de dinheiro, e a sua casa modesta, e a sua dura vida de marinheiro. Mal podia esperar o pôr-do-sol, para imaginar a sua vida de rei ― ou quase rei, pois decidira que compraria dois título de nobreza, um para ele e um para a Gisele, sua nova esposa. E dormia sorrindo.

Também tem a história do navio que naufragou e só se salvaram o capitão e um maquinista, que nunca tinham se visto a bordo. O capitão vivia na ponte de comando e o maquinista nunca saía do porão. Ainda na praia da ilha deserta, o maquinista perguntou:

― Era o senhor que gritava pelo interfone, "Mais força, mais força, seus ratos preguiçosos!"

― Não, não ― respondeu o capitão. ― Era o imediato.

Mesmo assim, os primeiros 20 anos foram tensos.

Três náufragos: um arquiteto, um engenheiro e um banqueiro. Depois de secarem a roupa, examinarem a ilha deserta e escolherem o lugar onde construirão uma cabana, decidem distribuir as tarefas.

― Eu planejo a cabana ― diz o arquiteto ― Eu faço os cálculos e escolho o material ― diz o engenheiro.

― Eu financio a obra ― diz o banqueiro.

O arquiteto e o engenheiro se entreolham ― Como, financia? ― pergunta o arquiteto.

― Com que dinheiro? ― pergunta o engenheiro.

― Bom... ― começa a dizer o banqueiro, olhando em volta. ― Estas conchas podem servir como dinheiro e...

Mas desiste diante do olhar dos outros dois. E põe-se a trabalhar erguendo a cabana, enquanto o arquiteto e o engenheiro, sentados na praia bebendo água-de-coco, dão palpites. E risadas vingativas.

Esta história tem outra versão em que, além do arquiteto, do engenheiro e do banqueiro, também dá na praia um filósofo. O diálogo é o mesmo até o banqueiro sugerir que as conchas podem servir como dinheiro. Diante da reprovação do arquiteto e do engenheiro, o filósofo intervém:

― Mas é perfeito. Vocês não vêem? Propondo usar conchas em vez de dinheiro, ele está dizendo que o dinheiro é, na verdade, uma mentira, ou apenas uma concha supervalorizada. Em termos absolutos, nada tem mais valor do que nada, o valor dado a qualquer coisa é apenas a reificação de um conceito abstrato determinado por uma hierarquização subjetiva arbitrária enquanto...

O filósofo pára quando se dá conta da maneira como os outros três estão olhando para ele. E põe-se a trabalhar, erguendo a cabana, enquanto o arquiteto, o engenheiro e o banqueiro, sentados na praia bebendo água-de-coco, dão palpites. E risadas superiores.


Náufragos 2

Tem a história do náufrago resgatado de uma ilha deserta que não consegue dizer quanto tempo passou na ilha. Perdeu a noção do tempo.

Pelo seu aspecto ao ser encontrado ― a barba quase no umbigo, as roupas reduzidas a fiapos, a pele curtida pelo sol e o sal ― foram muitos anos, mas quantos? Ele não se lembra do naufrágio. Não se lembra do nome do navio, do tipo do navio, do que fazia a bordo...

― De onde você é?

― De, de... Que língua eu estou falando?

― Inglês. Mas com sotaque.

― Sotaque de onde?

― É difícil dizer. Talvez você tenha adquirido o sotaque na ilha.

― Improvável. Eu só falava com os pássaros e com as árvores. Os pássaros, pelo menos, respondiam. Mas em nenhuma língua reconhecível.

― E mesmo assim você conservou o inglês.

― É estranho. Não me ocorre nenhuma outra língua além do inglês, embora eu sinta que não é a minha língua materna. Talvez seja por causa de Pamela...

― Pamela?

― Uma mulher que eu fiz, de areia.

― Você fez uma mulher de areia?

― Você não sabe o que é a solidão numa ilha deserta. Eu precisava de companhia humana. No princípio, só precisava de sexo. Fiz um buraco na areia. Mas, com o tempo, senti que precisava mais do que apenas um buraco.

Construí um corpo de mulher em torno do buraco. Um corpo rudimentar. Seios, grandes seios, quadris, uma cintura delgada, coxas longas. Sempre gostei de coxas longas. Mas logo senti que ainda faltava algo. E fiz uma cabeça para a minha mulher de areia. Um rosto, com feições, nariz, boca. Um rosto bonito, cuidadosamente esculpido, e que eu retocava constantemente, consertando os estragos feitos pelos caranguejos e o vento, e realçando a sua sensualidade.

O rosto de uma mulher satisfeita. O rosto de uma mulher que me amava, que mal podia esperar pelas nossas noites de paixão. Foi um erro.

― Por que um erro?

― Porque o corpo desmentia o rosto. O corpo era estático e sem vida. Não se mexia, não acompanhava o meu ardor, permanecia ausente e frio. O corpo negava o brilho faiscante das conchas azuis que eram os olhos de Pamela, quando me via.




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